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quarta-feira, 6 de junho de 2012

510.º e 298.º aniversários dos nascimentos de D. João III e D. José I



No presente dia de 6 de Junho, assinalam-se os nascimentos de D. João III, 15.º rei de Portugal, pertencente à 2ª dinastia e à Casa reinante de Avis - Beja, e de D. José I, 26.º rei de Portugal, pertencente à 4ª dinastia e à Casa reinante de Bragança.

Para rever as respectivas biografias clique na imagem.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - IV

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.

João Rodrigues Cabrilho talvez seja o menos conhecido dos portugueses, dentre os quatro grandes navegadores que aqui nos temos vindo a reportar, mas pelos seus mais notados feitos – foi o primeiro europeu a chegar à Alta Califórnia, ao serviço da coroa espanhola – ele deve ser considerado, na opinião de Damião Peres, “como um dos grandes descobridores quinhentistas da América e como tal a sua memória tem sido localmente recordada[1]. Antes disso havia participado na conquista, chefiada por Hernán Cortês, de Tenochtitlan a capital do império azteca  e na campanha liderada por Pedro Alvarado para a conquista dos actuais territórios de Honduras, Guatemala e San Salvador. A data exacta do nascimento de Cabrilho é desconhecida, mas parece que existem poucas dúvidas quanto à sua nacionalidade portuguesa, ainda que haja quem pretenda que ele terá nascido em Sevilha, na Andaluzia, como  é o caso de um dos seus biógrafos estrangeiros,  Harry Kelsey [2]. O já citado Damião Peres, bem como Luís de Albuquerque insisitiram sempre nesta ideia da naturalidade portuguesa e este último baseia-a na indicação expressa do cronista D. António Herrera [3] que é a mesma que se pode ler na Wikipédia, a partir do url que colocamos à disposição dos nossos leitores no final desta publicação em “Referências”.

Quanto à sua possível origem transmontana, a ideia de que tenha nascido no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, que a tradição mantém há muitos anos, tem sido confirmada por alguns autores como João Soares Tavares num trabalho biográfico dedicado ao navegador [4] de assinaláveis recursos documentais e argumentativos. Soares Tavares tem vindo a reafirmar a sua convicção perante esta tese, a propósito de cuja validade se tem pronunciado em reportagens concedidas à imprensa regional como a que veio a público no Diário Actual - do Alto Tâmega e Barroso [5]. A mesma tese foi subscrita por Barroso da Fonte [6] de que transcrevemos a respectiva síntese biográfica de João Rodrigues Cabrilho, conforme as conclusões proporcionadas por João Soares Tavares:

Nasceu no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, nos fins do séc. XV Emigrou para a vizinha Espanha, em busca de melhores condições de vida. Também na Galiza não terá encontrado aquilo de que precisava. E daí que se tenha virado para o mar. Era o tempo das descobertas. Em 1494 tinha sido assinado o Tratado de Tordesilhas. As relações entre D. João II e os reis católicos de Espanha eram favoráveis à aceitação de cidadãos de ambos os países em tarefas comuns. João Rodrigues optou pela aventura, pelo que fez parte da tripulação que partiu de Sevilha, ao serviço de Espanha. Sabe-se que já em 1511 se encontrava no Novo Mundo. Viveu em Cuba. Certamente participou na sua conquista como besteiro de um grupo militar de Pánfilo de Narváez, de acordo com João Soares Tavares, o mais autorizado biógrafo de Cabrilho, cuja vida lhe mereceu um filme. Aportou no México e entrou na sua conquista como capitão de uma companhia de besteiros do exército de Hernan Córtez. Em 1521, já como oficial, participa na expedição de Francisco de Orosco à Província de Oaxaca, colaborando na fundação da cidade do mesmo nome e que hoje é monumento nacional declarado pela UNESCO. A partir de 1522 é um dos principais comandantes do exército de Don Pedro de Alvarado. Com ele, parte à conquista de Tututepeque. Segue-se a expedição à Guatemala, onde entra em 1524. Percorre o território até à Costa do Pacífico (no actual El Salvador). No dia 25 de Julho desse ano colabora na fundação da cidade de Santiago de los Caballeros, primeira capital da Guatemala. Passa aí a viver como "cabalhero", com direitos reforçados, constrói aí casa, ganha prestígio e adquire estatuto de fidalgo. O governador de Guatemala concede-lhe "encomiendas" pelos altos serviços prestados. Manda construir um barco, com o nome de S. Miguel, também conhecido por João Rodrigues. Em 1532 vem à Península Ibérica, onde permanece um ano. Casa em Sevilha com Dona Beatriz Ortega, filha de um rico mercador. Regressa à Guatemala, com a mulher e aí nascem dois filhos. Em 1536 é nomeado magistrado das cidades de Acajutla e de Iztapa. Passa a governador delas e fixa residência em Iztapa. É aí que organiza uma armada para rumar às "Especiarias" (Malucas). Em 1540 parte como almirante dessa armada constituída por 12 a 14 barcos. Em 27 de Junho de 1542 parte para uma nova missão: descobrir a Califórnia. Aí morreu, em 3 de Janeiro de 1543, em consequência de uma tempestade, em que partiu uma perna. Foi sepultado na Ilha de Possession, mais tarde baptizada pelos seus companheiros com o seu nome. S. Diego celebra, anualmente, o descobridor Português que se chamou João Rodrigues, com o apelido de Cabrilha, por ser de Cabril (em galego "Cabrilhe"). Sempre de acordo com o Dr. João Soares Tavares e com base no artigo que sobre João Cabrilha publicou no Jornal da Costa do Sol, em 29.5.1997, o navegador Português foi o autor da primeira publicação editada no Novo Mundo. Escreve textualmente: "Posso afirmar sem receio de exagerar que a obra de Cabrilha marca o início do jornalismo no Novo Mundo. Experimentei uma sensação indescritível quando localizei esse documento escrito por Cabrilha, inicialmente no Arquivo Geral do Governo da Guatemala e, posteriormente, quando consegui fazer o seu estudo, a partir de um exemplar da edição facsimile que se encontra num arquivo em Espanha". Em 9.6.1998 o Dr. João S. Tavares apresentou na C.M. de Montalegre o livro: João Rodrigues Cabrilha, Um Homem do Barroso?


Monumento a Cabrilho, Point Loma, San Diego, California |
 conteúdo livre Wikimédia Commons | autor: Francisco Santos | Permissão: Own work


Referências:

[1] VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, 1966 vol. 4, p.396.


[3] DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, dir. Joel Serrão, vol. I, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, p. 418.

[4] TAVARES, João Soares, “João Rodrigues Cabrilho: Um Homem do Barroso?”, edição da C.M de Montalegre, 1998.


[6] DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRASMONTANOS E ALTO DURIENSES, Coordenado Barroso da Fonte, Vol I, Editora Cidade Berço | Disponível na www:

sexta-feira, 10 de junho de 2011

431.º Aniversário da Morte de Luís Vaz de Camões

Por Leonel Salvado
Retrato de Luís de Camões, por Fernão Gomes, c. 1577cópia de
 Luís de Resende | imagem em domínio público | victorcouto
 | fonte:  Wikimeda Commons | Wikipédia. org

Na data que mais uma vez hoje se celebra, também em homenagem a Luís de Camões, figura que personifica o que de mais precioso se acha na língua e literatura portuguesas, e é considerada como uma das mais importantes referências históricas no imenso legado da poesia ocidental, sugerimos aos nossos visitantes a leitura de um excelente artigo que entendemos conter tudo ou quase tudo o que até hoje foi possível saber sobre o imortal poeta. Trata-se de um artigo publicado na Wikipédia, a enciclopédia livre, cuja comunidade lusófona avaliou e identificou como um dos 367 artigos de excelente qualidade até hoje destacados.

Pode consultar o artigo

terça-feira, 7 de junho de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - III

Por Leonel Salvado


A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.

Pela grandeza e mediatização universal do seu maior feito, este navegador português, nascido ao redor de 1480, talvez o mais conhecido internacionalmente dentre os demais navegadores das demais nacionalidades, depois de Colombo, não me parece que careça de grandes apresentações.

Limitar-me-ei, pois, a destacar que foi ele quem, já com apurada experiência na arte de marear e guerrear - adquirida nos mares da Índia ao serviço dos esforçados vice-reis D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque - bem como no estudo da mais avançada cartografia do seu tempo, tendo-se visto agastado com o abandono a que se vira votado pela corte portuguesa que o acolhera desde menino, entendeu mudar-se para o reino vizinho onde logrou obter de Carlos V tudo o que necessitou para levar a cabo o seu arrojado plano daquela que é conhecida como a primeira viagem de circum-navegação do globo. Coube-lhe assim, ao comando de cinco navios com uma tripulação de 234 homens, entre os quais 40 portugueses, ser o primeiro europeu a chegar à “Terra do Fogo” no extremo sul do continente americano, a atravessar o estreito que hoje tem o seu nome e a navegar no Oceano Pacífico, assim por ele próprio designado, até encontrar a morte num confronto com alguns nativos da ilha de Cebu, nas Filipinas a 27 de Abril de 1521. A viagem prosseguiu no mês seguinte sob o comando de João Lopes de Carvalho, sucedido dois meses mais tarde por Juan Sebastián Elcano que depois de contornar o Cabo da Boa Esperança e fazer uma breve e arriscada escala em Cabo Verde aportou finalmente a S. Lúcar de Barrameda, Cádis, de onde tinha partido dois anos antes, com o que restava da expedição – uma nau apenas, a Victória, e uma tripulação constituída por 16 homens. Morreu o grande capitão mas ficou a inabalável prova da esfericidade da Terra.

Mas, tal como sucede a propósito da maioria de outras grandes figuras quatrocentistas e quinhentistas de cujo papel de relevo na gloriosa epopeia ultramarina portuguesa se fazem eco os manuais escolares e as mais consagradas obras de divulgação, não é possível chegar-se a uma indicação inequívoca sobre o local de nascimento de Fernão de Magalhães. A falta de registos precisos e a natureza de determinados documentos que têm servido de indicadores nesse sentido vêm alimentado uma acesa polémica entre os historiadores. No estado actual deste velho debate persistem ainda quatro teses alternativas, todas elas aparentemente acertadas com base em alegadas provas documentais, quanto ao seu local de nascimento, com maior relevância para o Norte de Portugal:

·            - a vila de Sabrosa, no distrito de Vila Real (antiga Província de Trás-os-Montes e Alto Douro)

·         - a vila de Figueiró dos Vinhos, sede de município do distrito de Leiria, região Centro (antiga Província da Beira Litoral) 

·           - a freguesia da Sé, no Município do Porto.

·       - a vila de Ponte da Barca, distrito de Viana do Castelo, sub-região do Minho – Lima (antiga Província do Minho)   


A tese da vila de Sabrosa face às de Figueiró, Porto (freguesia da Sé) e Ponte da Barca

Pelo que se pode deduzir das palavras do conceituado historiador Damião Peres (1889 – 1976), autor, dentre outras obras muito conhecidas, da “História dos Descobrimentos Portugueses” e colaborador da “Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira da cultura”, em especial do que refere sobre Magalhães nesta última obra colectiva, as teses da sua naturalidade transmontana,com expressa indicação da vila de  Sabrosa, em Trás-os-Montes, bem como da de Figueiró dos Vinhos, na Beira Litoral, amplamente difundidas no século XIX em artigos da “Nouvelle Biographie Universelle” - uma publicação geral coordenada por Johann Hoefer e publicada em 1854 - viram-se confrontadas por uma nova tese, a da naturalidade portuense, logo em 1864 por Barros Araña,  por Pereira e Sampaio, em 1907 e, com maior vigor argumentativo, por Toríbio Medina, em 1920. Em 1921 D. José Manuel de Noronha e António Baião (este em favor da tese de Figueiró que, até ver, afigura-se-me como a menos crdível) procuraram impugnar a tese de Sabrosa «demonstrando a apocrifocidade do documento em que se baseava». A tese de Sabrosa voltaria, ainda segundo Damião Peres, a ser refutada pelo visconde da Lagoa, em 1933 e 1938, com base em frases proferidas pelo próprio Fernão de Magalhães que, em seu entender, autorizam a defender a naturalidade portuense, e por Queiróz Veloso ainda pela mesma época [1].

Porém, fazendo fé no que foi publicado na Wikipédia, a enciclopédia livre, em vez de um documento que tem servido de base à tese de Sabrosa existem dois, efectivamente apócrifos (cópias de dois testamentos, um firmado pelo próprio navegador em 1504 identificando bens inequivocamente situados em Sabrosa e um outro de um seu descendente exilado no Brasil em 1580), mas devidamente autenticados por um terceiro documento - um auto oficial de 1798 no qual seis escrivães confirmam a relação genealógica de Magalhães com esta vila – voltaremos a este assunto. Convém que se diga, de acordo com a mesma fonte, que os defensores da tese da origem portuense de Fernão de Magalhães, mais concretamente da sua naturalidade na freguesia da Sé, na cidade do Porto, fundamentam-se num documento de matrícula de um tal Aires de Magalhães na sé de Braga datada de 1509, onde se menciona que seus pais, Rui de Magalhães e Inês Vaz Moutinho, eram moradores na Sé do Porto. Ora, este mesmo Aires de Magalhães é dado por alguns genealogistas como tendo sido um dos irmãos do navegador, tal como Duarte de Sousa, Diogo de Sousa, Isabel Magalhães e Genebra Magalhães, todos eles filhos do dito Rui de Magalhães - que foi fidalgo da casa real, conde de Faro, senhor de Aveiro, alcaide-mor de Estremoz, mais tarde alcaide-mor de Aveiro e que terá exercido, ainda na cidade do Porto, os cargos de juiz ordinário, procurador da Câmara e vereador [2]. Mas estes dados genealógicos relativos ao alcaide-mor de Aveiro, sua(s) esposa(s) e seus filhos permanece envolto em mistério. Felgueiras Gayo, por exemplo, no “Nobiliário das Famílias em Portugal” obra que serve, entre outras, de base à Geneall.net, um importante recurso on line (mas de acesso condicionado) confirma, de facto, a paternidade de Fernão em Rodrigo (ou Rui) de Magalhães que foi alcaide-mor de Aveiro, mas não nomeia a esposa deste, e mãe daquele, como Inês Vaz Moutinho, tomando-a antes pelo nome de Alda de Mesquita. Além disso, apenas indica uma irmã de Fernão de Magalhães, de nome Leonor ou Genebra de Magalhães [3]. Teriam os restantes filhos, Duarte, Diogo e Isabel, nascido de um segundo casamento de Rui de Magalhães com Inês Moutinho? Ou seria este um outro casal sem qualquer relação com Fernão de Magalhães? Em qualquer dos casos, parece-me que tal mistério não basta para invalidar a tese da naturalidade portuense do circum - navegador.

Quanto às frases do próprio Fernão de Magalhães invocadas pelo visconde de Lagoa para servirem de prova da mesma tese que atribui o Porto como local de nascimento daquele, elas nunca foram levadas em grande conta pelos mais conhecidos historiadores, quer pelos que pretendem reabilitar a tese transmontana de Sabrosa, quer ainda pelos que se têm proposto a apontar novas alternativas.

Haja em vista, por exemplo, a posição de Luís de Albuquerque, conceituado Professor Universitário historiador dos descobrimentos portugueses (1917 – 1992) que a um ano da sua morte ainda se referia, peremptoriamente, a Fernão de Magalhães como «Transmontano, segundo as melhores informações de que se dispõe» [4], posição esta que já deixara bem claro na sua colaboração no Dicionário de História de Portugal, dirigida por Joel Serrão, apontando-o como tendo «nascido em Trás-os-Montes em ano à volta de 1480» e definindo-o como «fidalgo de segundo plano», oferecendo-se-lhe «como meio de ascensão social, o caminho das armas no Oriente ou em África, em que se lançou com cerca de 25 anos de idade, ao alistar-se na armada de D. Francisco de Almeida, que largou para a Índia em 1505.» [5].

Veja-se ainda o caso do, não menos conceituado, historiador Joaquim Veríssimo Serrão, que sem deixar de aconselhar a leitura das obras do Visconde da Lagoa (tese do Porto), Queirós Veloso e António Baião (tese de Figueiró) a que atrás nos reportámos, conclui com a maior simplicidade que «Magalhães nascera à volta de 1480, crê-se com razões de acerto que em Ponte da Barca.» [6].
O historiador Amândio Barros, investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e especialista em história marítima dos séculos XV e XVI saiu em defesa desta mesma tese no livro que apresentou  no dia 23 de Maio de 2009 em Ponte da Barca, "A naturalidade de Fernão de Magalhães Revisitada", apresentação essa que foi alvo de uma reportagem pela Lusa publicada no jornal o Expresso [7] de que passarei a transcrever um trecho que resume os mais destacados comentários argumentativos do autor:



«Amândio Barros, […] apresenta no livro "A naturalidade de Fernão de Magalhães revisitada" documentos inéditos que, na sua opinião, indicam que o navegador era oriundo de Ponte da Barca.
Curiosamente, o historiador começou o seu trabalho de investigação deste tema a convite da Câmara de Sabrosa, em Trás-os-Montes, mas rapidamente viu que não podia seguir esse caminho.
A "solução transmontana" pareceu ter poucas pernas para andar a Amândio Barros, que na sua obra classifica a hipótese de "muito débil".
Na "posse de todos os dados disponíveis, e após estudo aturado de todos os elementos conhecidos (...) reafirma-se, por completo, a impossibilidade dessa origem transmontana", tudo porque a tese se baseia em "fontes muito pouco fiáveis", nomeadamente um "alegado testamento ditado por Magalhães em 1504" e um outro, "de 1580, que teria sido mandado lavrar por um sobrinho-neto do navegador chamado Francisco da Silva Teles", defende em declarações à agência Lusa.
"São estes os documentos que sustentaram a tese da naturalidade transmontana, mas que há muito que a investigação histórica os classificou como falsos", conclui o historiador, no livro que apresenta sábado.
Arrumada a hipótese de Sabrosa, havia que averiguar a do Porto, que se baseia, como Amândio Barros explica, "nos termos do contrato celebrado entre Magalhães e Carlos V" para a expedição.
Segundo o investigador, nesse contrato, Fernão de Magalhães intitulava-se 'vizinho' do Porto. "Ora, palavras como vizinho, cidadão, morador, exprimem uma condição num dado momento e em diversas circunstâncias e não traduzem obrigatoriamente o conceito de naturalidade".
Por outro lado, acrescenta o historiador, a tese da naturalidade portuense não procede porque "no tempo em que Magalhães nasceu - (...) 1480 - a cidade [do Porto] vivia um período tenso (...) e posicionava-se frontalmente contra a permanência dos nobres dentro dos seus muros; portanto, não é crível que tal ambiente fosse favorável ao nascimento de um fidalgo no interior do seu perímetro amuralhado".
"Na altura do contrato com Carlos V, o navegador estaria a preparar a expedição a partir do Porto, de onde aliás levou elementos para a tripulação, nomeadamente o piloto Estêvão Gomes. Terá assim assumido que era vizinho da cidade", referiu o historiador à Lusa.
Amândio Barros desmontou outro argumento utilizado para tentar provar que o navegador era do Porto, o da doação de bens, em testamento, ao Mosteiro de S. Domingos do Porto, que existia ali perto do actual Mercado Ferreira Borges.
"Na realidade, a doação é não a esse mosteiro, mas ao de D. Domingo das Donas do Porto, o actual convento Corpus Christi, em Gaia, onde eram freiras umas primas de Fernão de Magalhães", referiu.
Excluídas estas hipóteses, Amândio Barros explorou a de Ponta da Barca, sustentando nos vínculos genealógicos do navegador a sua convicção de que nasceu naquele concelho.
As famílias Sousas, Meneses e Magalhães terão tido, segundo o autor, uma "forte implantação (...) no Entre Douro e Minho e, em concreto, nas terras minhotas da Ribeira do Lima". Mais: existe "um lugar (hoje freguesia) chamado Paço Vedro de Magalhães, isto é, 'Paço Velho de Magalhães' que reforça essa convicção".
Há vários documentos, como heranças e provisões régias, relativos à tia de Fernão de Magalhães, D. Isabel de Meneses, e ao próprio navegador que demonstram a ligação deste a Ponte da Barca.
Mas, para o historiador, "o documento mais esclarecedor, "aquele que depois de devidamente analisado e contextualizado deixa muito poucas, ou nenhumas dúvidas acerca da naturalidade barquense de Magalhães é o requerimento de 1567, apresentado por Lourenço de Magalhães ao Conselho das Índias, pelo qual reclamava a herança do navegador".
O processo, garante, "apresentava um rol de inquirições de testemunhas que decorreu no mês de Abril de 1567, em Ponte da Barca, Ponte de Lima e Braga. Trata-se de testemunhos decisivos para determinar a naturalidade de Magalhães".
A este propósito, o historiador acrescenta que "as inquirições demonstravam ainda que o glorioso iniciador da primeira viagem de circum-navegação pertencia à estirpe dos Magalhães, senhores da Terra da Nóbrega, fidalgos de cota de armas e solar. O mais velho dos depoentes, João Garcia Belo, de Ponte da Barca, conhecera-o perfeitamente, assim como ao pai"».
MSP.
Lusa/Fim

Com efeito, os habitantes de Ponte da Barca reclamam a naturalidade de Fernão de Magalhães para a sua vila minhota, ligando-o à «nobre família do Paço Vedro (freguesia de Magalhães).» [8].

Mas a mesma convicção acontece também em Sabrosa onde, em memória do Grande Navegador, o Município tem promovido interessantes contactos culturais com regiões e países relacionados com as viagens e companheiros de Magalhães [9].

Tem-se verificado nos últimos anos a uma vigorosa reabilitação da tese transmontana de Sabrosa o que  vem agudizando a secular controvérsia gerada em torno da terra de origem de Fernão de Magalhães.
Salvaguardada a “tese transmontana”  de forma vaga por conhecidos autores (vimos o caso de Luís de Albuquerque), tem cabido finalmente à imprensa nacional e regional um papel fundamental na sua discussão científica, outrora reservada a um ciclo muito restrito de enciclopedistas e académicos, e no reavivar da larga possibilidade de Fernão de Magalhães ter sido oriundo de Trás-os-Montes e, particularmente, da vila de Sabrosa. Na linha da frente deste movimento cabe-me realçar o Dicionário dos Mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses, uma obra dirigida por Barroso da Fonte, e o elucidativo artigo do escritor Alexandre Parafita publicado em Setembro de 2009 num suplemento do Jornal de Notícias[10], do qual passo a transcrever o seguinte excerto:

«Desde tempos imemoriais, a naturalidade de Magalhães foi dada, como inequívoca, na vila de Sabrosa. Contribuiu para isso a existência de dois testamentos, um de 1504 (quando o navegador partiu para os oceanos) e outro de 1580 (de um seu sobrinho-neto exilado no Brasil), reforçados por um auto oficial de 1798 em que seis escrivães e quatro testemunhas confirmavam a genealogia do navegador ligada a esta vila. Nestes documentos são identificados bens efectivamente localizados em Sabrosa, tais como uma casa (a Casa da Pereira), a quinta da Souta (ainda hoje existente em frente ao Vale da Porca) e o legado de missas anuais no altar do Senhor Jesus da Igreja de São Salvador do qual ainda existem vestígios na actual Igreja Matriz da vila. A existência, na referida casa, do brasão da família Magalhães com as armas picadas e arrasadas, traduzindo um castigo que, no tempo de D. Manuel I, era corrente aplicar sobre quem praticasse actos considerados de traição à Pátria, assim tendo sido entendida a missão de Magalhães ao serviço da coroa de Espanha, corroboravam a mesma tese. Entretanto, há muitas décadas atrás, a veracidade destes documentos começou a ser posta em causa. Desde logo por o primeiro testamento referir a expressão “sua majestade” em relação a D. Manuel I, quando se sabe que, ao tempo, não havia esse tratamento, mas sim “sua alteza”. Ainda que no documento notarial de 1798 esteja dito que foi “fielmente copiado menos algumas palavras que por estarem mal escritas em letra gótica e o papel carcomido do tempo não foi possível poder ler”, não tem faltado quem procure todos os pretextos para desvalorizar o teor dos testamentos, como não falta também quem tal tenha rebatido, a exemplo do Abade de Baçal, que o fez minuciosamente. Estas dúvidas permitiram que outras hipóteses de naturalidade fossem sendo entretanto equacionadas. Por exemplo, do Porto se diz existir uma declaração que alude à expressão “Vecino de la cidade del puerto” e que isso indicaria ser dali natural. Contudo, sabe-se também que, num testamento feito mais tarde em Espanha, se declara do mesmo jeito: “vesino q soy desta muy noble e muy leal çibdad de Sevylha”. O que vale então esta palavra “vecino” em tais documentos? Nada de mais relevante. Apenas que Magalhães pode ter vivido nessas cidades. (…). Importa ter presente que as questões divergentes da naturalidade de Magalhães foram sendo geradas muito depois da sua morte, quando se percebeu que haveria uma notável fortuna a reivindicar da coroa de Espanha, por ser devida ao Navegador uma parte dos territórios descobertos mundo além. Foi então que vários supostos parentes foram surgindo em diversas localidades do País (incluindo Ponte da Barca), uns e outros logo impugnados e desacreditados nas suas pretensões pelo poder castelhano, que dessa forma assegurava a intocabilidade do seu património. (…)».


Estátua de Fernão de Magalhães, em Sabrosa 

  Fonte: O serrano, Comunidade Sol | http://comunidade.sol.pt

Referências

[1] PERES, Damião, Magalhães (Fernão de) in Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Editorial Verbo, Lx, 1971, Vol. 12, pp. 1015-1016.
[2] Link
[3] Link
[4] ALBUQUERQUE, Luís de, Magalhães (Fernão de) in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Publicações Alfa, 1991, Vol 1, p. 415.
[5] Id. Ibid., in Dicionário de História de Portugal, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, Vol. IV, p. 136.
[6] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Vol. III, 2ª ed. revista, Lx, 1980, p. 28.
[7] Link
[8] Link
[9] Link
[10] Alexandre Parafita “Fernão Magalhães: símbolo inequívoco da tradição de Sabrosa”, in Jornal de Notícias, Suplemento “Terra de Fernão de Magalhães”, edição de 5 de Setembro de 2009.

domingo, 29 de maio de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - II

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano. 



Bartolomeu Dias (no  511.º Aniversário da sua morte)

Foi este navegador português, nascido nos meados do século XV, que se tornou célebre por ter dobrado, em 1488, o depois denominado de “Cabo da Boa Esperança”, que logo baptizou de “Cabo das Tormentas”, e por ser o primeiro europeu a navegar para além dele. Ironicamente viria a encontrar a morte junto deste mesmo tenebroso promontório, a 29 de Maio de 1500 na segunda viagem em que participou, integrando esquadra de Pedro Álvares Cabral e quando esta, rumando em direcção ao oriente, após a descoberta do Brasil, foi colhida por uma violenta tempestade que provocou o naufrágio de quatro naus, dentre as quais a que ele capitaneava. Se a respeito dos seus feitos na grandiosa epopeia ultramarina portuguesa e das circunstâncias do seu trágico fim, poucas dúvidas se oferecem aos historiadores, estes continuam a dispor de escassos dados biográficos para que se possa fazer uma referência segura da sua origem familiar e geográfica. Talvez seja, dentre as quatro figuras que aqui elegemos, a de que menos fundamentos historiográficos e genealógicos se encontram para sustentar a sua origem transmontana atribuída pela tradição. Como observou Damião Peres na sua conhecida obra História dos Descobrimentos e na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, não obstante haver fundamentos documentais para se afirmar que o nome completo do navegador seria Bartolomeu Dias de Novais, este último apelido não surge nos documentos coevos […] «motivo que tem dificultado a sua identificação visto terem existido na mesma época vários indivíduos com o mesmo nome»[…]. [1] Esta é a posição que mais recentemente foi reiterada por um dos maiores especialistas da História da Expansão marítima portuguesa, Luís de Albuquerque, no Dicionário de História de Portugal, sem mais observações. [2]
Efectivamente, embora se saiba que ele foi escudeiro da Casa Real e administrador do “Armazém da Guiné”, entre 1494 e 1497 e que se suspeite que descendesse de outro célebre navegador, Dinis Dias (navegador henriquino que, em 1442 terá participado nas explorações do golfo de Arguim, em 1444 descoberto Cabo Verde e, no ano seguinte, sob o comando de Lançarote, explorado a costa ocidental africana entre o Cabo Branco e o Senegal) e também se saiba que foi irmão de Diogo Dias, que o acompanhou nas suas arriscadas jornadas, existem notícias de um Bartolomeu Dias, dado como mercador em Lisboa e Itália, entre 1475 e 1478. [2] E mais outros haveria certamente! 
Serão estas razões suficientemente plausíveis para que Bartolomeu Dias não figure no Dicionário dos mais ilustres transmontanos e alto-durienses, obra dirigida por Barroso da Fonte, a par de Diogo Cão e Fernão de Magalhães, também eles excelsas figuras da História da Expansão Ultramarina portuguesa, mas cujas origens transmontanas não se afiguram menos discutíveis?    
Em minha opinião, estamos perante um daqueles casos em que a falta de respostas científicas nos obriga, com a necessária e absoluta salvaguarda da imparcialidade historiográfica, a respeitar a tradição. Mas esta, a propósito da naturalidade de Bartolomeu Dias surge ainda repartida entre duas ou três alternativas: Mirandela, sede de concelho do distrito de Bragança, ou Alcochete, ou ainda do Montijo, ambos centros municipais do distrito de Setúbal de onde se diz que residiram os seus descendentes de apelido Novais, em todo o caso meras especulações. Então porque não, de novo, Mirandela?

Estátua de Bartolomeu Dias na cidade do Cabo 
 conteúdo livre Wikimédia Commons | autor: Dewet  



Referências

[1] VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, vol. 6, 1966, p.1291.
[2] DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, dir. Joel Serrãp, vol. II, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, pp. 294-295.
[3] LINK

sábado, 28 de maio de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - I

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.


Diogo Cão

Ficou o navegador português do século XV com este nome para a História como um dos pioneiros na descoberta e exploração da costa sudoeste africana que, a mando de D. João II, realizou duas viagens nessa área entre 1482 e 1484 e entre 1485 e 1486, tendo na primeira chegado à foz do rio Zaire avançado pelo interior do mesmo rio e alcançado as cataratas de Ielala, deixando aí uma inscrição da sua passagem na célebre pedra com esse nome e estabelecendo as primeiras relações com o Reino do Congo. Numa segunda viagem, consciente de que a foz do rio Zaire não era, como inicialmente julgara o limite meridional do continente africano prosseguiu mais para sul, chegando ao Cabo da Cruz ou Cabo do Padrão na actual Namíbia, sem lograr achar a desejada passagem para o Índico. Foi Diogo Cão quem introduziu a utilização de padrões em pedra, em vez de madeira, para assinalar as descobertas portuguesas. Apesar de não ter alcançado o Cabo que depois seria baptizado de “Cabo da Boa Esperança” e de ter sido por esse motivo caído em desgraça perante o rei, é considerado como um dos grandes heróis da epopeia dos Descobrimentos.

Mas quando e onde terá nascido este Diogo Cão?

Relativamente à primeira questão, os primeiros registos da sua existência datam do início da década de 1480 e reportam-se à primeira viagem por ele empreendida e a que atrás nos referimos, ordenadas por D. João II com o objectivo de se certificar da passagem do extremo sul do continente africano.

Quanto à segunda questão, também muito pouco se sabe a respeito da sua origem geográfica e familiar, pelo que a maior parte dos historiadores actuais se decide pela absoluta imparcialidade a seu respeito, referindo-se-lhe apenas como um navegador português do século XV. Porém, outros historiadores consagrados, embora de geração mais recuada, como é o caso de Damião Peres consentiram em tomá-lo «provavelmente como um membro de uma família radicada em Vila Real».[1] E actualmente esta possibilidade ainda parece longe de ser descartada em publicações nacionais e regionais, impressas e outras digitais on line na Internet, na própria “Wikipédia, a enciclopédia livre”, na Infopédia e num número significativo de páginas e blogues, onde a expressão «nascido provavelmente na região de Vila Real» surge amiúde. No Primeiro Volume do “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses”, por exemplo afirma-se com aparente convicção que Diogo Cão «era descendente de uma família de Vila Real» que «seu pai e avô foram militares de carreira ao serviço da Pátria» e que «o avô distinguiu-se na guerra da independência e o pai no reinado de D. Afonso V.»[2] Mas esta relação de Diogo Cão, o navegador, com a família Cão de Vila Real, sustentada pela tradição, nunca mereceu a necessária concordância dos genealogistas. O insigne nobiliarista Felgueiras Gayo, autor de uma vastíssima obra que ainda hoje constitui uma base fundamental para os investigadores desta área, o “Nobiliário das Famílias de Portugal”, obra reeditada em 17 volumes entre 1938 e 1941 e pela última vez em 1989, refere-se ao navegador como tendo nascido por volta de 1450 e originário da família Cão, não de Vila de Real mas de Évora, tomando-o por filho de Álvaro Fernandes ou Gançalves Cão e neto de Gonçalo Cão, nascido ao redor de 1370.[3] Este mesmo Gonçalo Cão é também invocado como efectivamente avô do navegador Diogo Cão pelos que defendem ser este oriundo de Vila Real. Parece assim que coexistiram várias famílias Cão no reino, sem relação de parentesco entre elas. No site “Vida Vedra, magazine on line Pontevedra (categoria: cultura.es)”, encontrámos justamente uma interpretação neste sentido, ainda que noutro contexto, que passamos a trancrever[4]


«Isabel Coelho era tia paterna de Constança. Casara com Diogo Martins Cão e no ano de 1472 viviam em São Mamede de Vila Verde, na terra de Felgueiras. A documentação que chegou até aos nossos dias, é rica em informação pontual e dispersa, referenciando pessoas de sobrenome “Cão”. Porém, salvaguardando o caso de duas linhagens, uma em Évora e Vila Viçosa, e outra em Vila Real, não permite estabelecer linhas de parentesco entre os deste apelido.

Sublinhem-se contudo, três insinuantes coincidências: Fernão Pereira, senhor da Terra da Feira era, naqueles tempos, alcaide-mor de Vila Viçosa; um homem chamado Diogo Cão celebrizou-se enquanto “descobridor do Congo”, navegando as costas de África em busca da passagem para oriente, a mando do Rei D. João II; esse homem teve um filho chamado Pedro Cão que rondaria os 18 anos quando a 1 de Agosto de 1476 um Pedro Cão, “escudeiro do Conde de Caminha”, recebia uma Carta de Perdão do Rei D. Afonso V, existente no arquivo das chancelarias régias, na Torre do Tombo em Lisboa. Estas fontes de informação permitem identificar, sem risco de maior erro, a forte possibilidade do Diogo Cão navegador, ser parente próximo do Diogo Martins Cão, e que o escudeiro Pedro Cão fosse seu irmão, ou mesmo aquele seu filho.»

Posto que se tenha em conta a relação parental aqui estabelecida entre Diogo Cão, “o descobridor do Congo” com Diogo Martins Cão, residente em S. Mamede de Vila Verde, “na terras Felgueiras” que, como se sabe é uma sub-região do Tâmega, e que o filho do mesmo Diogo Cão, Pedro Cão (este nome é mesmo indicado por Felgueiras Gayo como o do primogénito do navegador) seria “escudeiro do conde de Caminha”, tais “insinuantes coincidências” no que respeita a estes indivíduos com indicações geográficas mais próximas de Vila Real do que de Évora e Vila Viçosa poderão ser mais do que simples coincidências. Existe, portanto, uma séria probabilidade de Diogo Cão ter sido efectivamente oriundo de Vila Real.


Outras dúvidas se têm colocado a respeito da data e local do seu falecimento. Baseando-se numa expressão da carta de Henricus Martellus de 1489, referindo-se à Serra Parda, na zona do Cabo da Cruz que foi o limite do território descoberto por Diogo Cão («diegus canus... hic moritur») Joaquim Veríssimo Serrão considerou a hipótese de o navegador ter falecido por esse altura e nessa zona, mas logo descartou esta possibilidade por haver dúvidas «se a expressão não se deve antes aplicar ao termo montanhoso do local.» Aproveitando o testemunho de Rui de Pina, o mesmo historiador encontra razões para acreditar que o navegador voltou ao reino após a sua derradeira missão e por não ver concretizado o seu primordial objectivo, que era o de atingir a ponta sul de África e, enfim, a passagem para o Oriente, foi posto à margem por D. João II e votado ao esquecimento, o que explica o facto de o cronista não mais evocar o seu nome. Acrescenta ainda Veríssimo Serrão que «não se provando que o seu túmulo esteja na sé de Vila Real, de onde a tradição diz que era oriundo, permanece assim o mistério do olvido que cobriu o seu nome após a segunda viagem.» [5]  




Estátua de Diogo Cão em Vila Real |
 | Fonte: http://www.flickr.com/photos/samuel_santos/4970110241/


Referências:

[1]VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, vol. 4, 1966, p. 874.

[2] DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRASMONTANOS E ALTO DURIENSES, Coordenado Barroso da Fonte, Vol I, Editora Cidade Berço | Disponível em http://www.dodouropress.pt

[3] GAYO, Felgueiras, Nobiliário das Famílias de Portugal, vol. III, 2.ª ed., Braga, 1989, p. 174

[4] LINK


[5] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Verbo. vol. II, 3.ª ed. revista, 1980, p. 181

sábado, 21 de maio de 2011

484.º Aniversário do nascimento de Filipe I, rei de Portugal

Retrato de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal)por Alonso Sánchez 
Coello (1527-1590), Museu del Prado, Madrid | http://pt.wikipedia.org

Designado como Filipe de Habsburgo e Avis, Filipe II de Espanha (I de Portugal) nasceu em Valladolid em 21 de Maio de 1527 e faleceu em El Escorial no dia 13 de Setembro de 1598. Foi o 18º rei de Portugal (se não tivermos em conta D. António, o prior do Crato, que reinou de facto, embora por aclamação apenas dos seus partidários, durante um breve período de tempo, entre 9 e 17 de Julho de 1580, e reconhecido ainda como rei nos Açores até 1583), sucedendo formalmente, isto é segundo as listas mais conhecidas dos reis de Portugal, ao cardeal-rei D. Henrique I em cujas listas se interpõe entre 31 de Janeiro de 1580 e 17 de Junho de 1580 um governo exercido por um conselho de governadores do reino de Portugal, o mesmo que, nesta última data, reconheceu por maioria em Castro Marim a legitimidade de Filipe ao trono português. Embora a partir desta mesma data passasse a governar parcialmente o país, só a partir de 17 de Abril de 1581, após sua legitimação nas Cortes de Tomar, é que se tornou de jure rei de Portugal, legitimação essa apenas ensombrada pela resistência açoriana até ao referido ano de 1583. É, portanto, sob reserva destas nuances, que Filipe I surge considerado como o 18.º rei de Portugal, sendo também por vezes mencionado como um continuador da dinastia de Avis na qualidade de filho da primogénita de D. Manuel I, Isabel de Portugal, pelo seu casamento com Carlos V. Contudo, a dinastia é mais frequente e simplesmente designada de filipina por ter sido por ele inaugurada, sucedida por seu filho, Filipe II, e terminada com seu neto, Filipe III de Portugal com a Restauração da independência, em 1640.
Com Filipe I consumou-se a união ibérica, favorecida pela crise dinástica portuguesa irremediavelmente ditada pela morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir e pelas fragilidades evidenciadas na defesa dos direitos à sucessão da coroa de Portugal dos três restantes candidatos: Emanuel Felisberto, duque de Sabóia, filho da infanta D. Beatriz, casada com Carlos III anterior titular do ducado, também aquela filha de D. Manuel; D. António, Prior do Crato, a que nos referimos, filho do infante D. Luís e, por isso, neto paterno de D. Manuel; D. Catarina, duquesa de Bragança, filha legítima do infante D. Duarte que por sua vez era igualmente filho de D. Manuel; o duque de Parma, Alexandre Farnésio, neto materno do mesmo infante D. Duarte.
Herdeiro do Sacro Império Romano Germânico e rei de Espanha e de Portugal, coube-lhe governar um vastíssimo território nos quatro continentes, reflectindo-se gravemente em Portugal a progressiva decadência do império dos Habsburgos durante os cerca de 60 anos que se seguiram à sua coroação neste país.

Para aceder a mais pormenores sobre o reinado de Filipe I de Portugal clique AQUI.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

801.º Aniversário do nascimento de D. Afonso III, rei de Portugal

Retrato de D. Afonso III | imagem de domínio público | Wikimédia Commons

O segundo dos seis filhos de D. Afonso II e D. Urraca de Castela, D. Afonso III nasceu em Coimbra em 5 de Maio de 1210 e faleceu na mesma cidade em 16 de Fevereiro de 1279. Sucedendo a seu irmão Sancho II, falecido no exílio em Toledo, em 1248, veio a ser o quinto rei de Portugal, reinando entre aquele ano e a data da sua morte, após de ter vindo a exercer as funções de Regente desde 24 de Julho de 1245. Foi-lhe aposto o cognome de “O Bolonhês” devido ao seu primeiro casamento com D. Matilde II, condessa de Bolonha que foi rainha consorte de Portugal desde 1248 até ser repudiada pelo rei, seu marido, em 1253. Desse primeiro casamento houve dois filhos varões que não consta que tivessem qualquer relevo na história nacional. Casou depois com D. Beatriz, filha de Afonso X de Castela com quem teve oito filhos, o terceiro dos quais (segundo varão) a chegar à vida adulta foi Dinis (futuro rei D. Dinis), mas que teve posteriormente que ser legitimado em 1263, sob confirmação papal de Alexandre IV, em razão de ter nascido em situação irregular porque durante o processo que ainda corria em consequência da queixa movida contra o rei português pela repudiada D. Matilde.

As circunstâncias que ditaram o afastamento do seu irmão do governo do Reino remontam a 1245 -1246 e devem-se aos conflitos entre D. Sancho II e a Igreja em reacção aos quais o Papa Inocêncio IV, acusando-o de incapacidade governativa, entendeu ordenar a sua substituição por Afonso, o conde de Bolonha, após o que este logo entrou em Portugal em armas forçando o irmão a abdicar e a seguir para o exílio e passou a usar do título de Visitador, Curador e Defensor do Reino até que houvesse notícia confirmada da morte do rei exilado para se fazer coroar rei, o que sucedeu em 1248.

Foi durante o seu reinado que realizou a conquista definitiva do Algarve sobre cuja soberania portuguesa só foi contestada por Castela e só terminaria com o Tratado de Badajoz em 1267. 

De resto, a acção governativa de D. Afonso III tem merecido na História de Portugal os melhores elogios, sendo este rei considerado um notável administrador, fundador e restaurador de povoações, mesmo as que eram tidas como as mais arruinadas, e concessor de numerosos forais. Enquanto administrador atribui-se-lhe o mérito de ter, pela primeira vez na história da monarquia portuguesa, definido um novo rumo na administração do País, valorizando as classes médias aburguesadas – favorecendo certos “inconvenientes” judeus - , ouvindo as queixas dos pequenos proprietários contra os abusos das classes privilegiadas, controlando e reforçando em certas regiões o poder dos alcaides. Foi ele quem ordenou a reunião das Cortes de Leiria, em 1254, as primeiras em que participaram os representantes dos concelhos e, no ano seguinte, quem transferiu a capital do reino de Coimbra para Lisboa. Foi também ele quem ordenou as primeiras Inquirições Gerais do Reino, iniciadas em 1258, numa intenção clara de refrear os abusos praticados pela minoria privilegiada e nesse mesmo sentido promulgou leis repressivas para os que fossem considerados usurpadores. Mas em virtude desta precursora acção governativa que legitima o epíteto pouco conhecido que já lhe foi aposto de “o Pai do Estado Português” e que, em nossa opinião devia antes ser o de “o Pai do Estado Moderno Português”, sofreu D. Afonso III, em 1268, os maiores dissabores, à época assaz embaraçosos, em se ver excomungado pelo arcebispo de Braga, pelos bispos de Coimbra e do Porto e pelo próprio papa Clemente IV – tal a afronta com que teve que conviver movida pelo clero português que se sentia, face à legislação do rei, espoliada nos seus direitos e privilégios tradicionais. Apesar da intercedência em favor da absolvição do monarca face às alegações dos bispos apresentada pelos representantes das Cortes de Santarém de 1274, o novo papa, Gregório X manteve a excomunhão e em 1277 lançou o interdito sobre o reino. O conflito só terminou em 1279 quando o rei português, no leito da morte, renovou o seu juramento à Igreja e deixou a promessa que restituiria tudo o que lhe havia tirado, testemunhando tal decisão o abade de Alcobaça que foi quem lhe levantou a excomunhão e lhe deu sepultura no Mosteiro. Por isso, D. Afonso III Jaz no Mosteiro de Santa Maria em Alcobaça.