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sábado, 10 de março de 2012

202.º Aniversário do nascimento de Júlio do Carvalhal

Por Leonel Salvado
actualização: Agosto 2012

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Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses, como consta nos documentos oficiais, ou Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, como surge nos documentos familiares, ou simplesmente Júlio do Carvalhal, como é hoje vulgarmente conhecido, foi um notável militar (oficial do exército) e político (Governador do Distrito de Bragança, Deputado às cortes pelo círculo de Valpaços e presidente da desta Autarquia).  

Biografia
Nasceu em 05.03.1810 no lugar de Alanhosa, freguesia de  S. Miguel de Nogueira, concelho de Chaves, e faleceu na sua casa de Vilar de Nantes, Chaves, no mesmo concelho de Chaves de 9.06.1872.
Fez-se notar como militar arrojado, e é recordado como um dos «bravos do Mindelo». Efectivamente, em Março de 1829, participou na defesa da ilha Terceira, onde se conservou até Julho de 1831. Em 8.07.1832, participou no desembarque das tropas liberais no Pampelido, Mindelo, e acompanhou o duque da Terceira pelas províncias do Norte até Evoramonte. Durante este tempo participou em dezoito combates e batalhas, em muitas delas com um contributo decisivo. Pela sua bravura na Batalha de Ponte Ferreira em 29.09.1832, por exemplo, foi agraciado com o título de “Cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Espada do Valor Lealdade e Mérito” além de outros louvores recebidos enquanto oficial do Exército. Por ofício de 12.09.1836, foi nomeado Chefe do Estado-Maior do Governo Militar da Província de Trás-os-Montes e exerceu também as funções de Governador do forte de São Neutel, em Chaves.

Dotado de uma personalidade e temperamento condicionados por firmes convicções liberais, Júlio do Carvalhal deu, por várias vezes, provas de incontida rebeldia, tendo-se colocado na mesma linha do inconformismo liberal de José Estêvão contra os sucessivos ministérios cartistas da ala moderada. Foram as suas próprias convicções que o moveram, a pedido daquele, arregimentar entre as massas populares da região de Valpaços as forças necessárias à planeada rebelião do setembrismo radical, que acabou por abortar em 1844 mas constituiu um prelúdio dos igualmente malogrados movimentos da «Maria da Fonte» e da «Patuleia». Passamos a transcrever um excerto historiográfico onde se alude ao destemido acto de Júlio do Carvalhal:

«Depois desta tentativa [a conspiração de Moncorvo] em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estevão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estevão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estevão, recebeu-se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estevão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstâncias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir às necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.»

fonte : http://www.arqnet.pt/dicionario/estevaojose.html

Mas nem por tal malogro se viu deslustrado o papel histórico protagonizado por Júlio do Carvalhal, que tem sido, acima de tudo, recordado como um Homem dedicado ao desenvolvimento do distrito de Bragança, à terra que o viu nascer e ao concelho de Valpaços, um Homem que se mostrou muito mais preocupado em servir a sua terra do que em satisfazer os caprichos políticos dos timoneiros do poder central instituído.
Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Bragança, entre 21.05. 1846 a 8.10.1846 e entre 23.06.1856 e 13.07.1857, tendo-lhe cabido em Junho e Julho do seu primeiro mandato combater as guerrilhas miguelistas que assolavam o distrito. Em 1860 foi eleito deputado pelo círculo de Valpaços e reeleito sucessivamente nas legislaturas de 1861-1864, 1865, 1865-1868, 1870 e 1870-1871 destacando-se no exercício desta função como um dos grandes defensores da construção da linha de Caminhos-de-ferro entre o Porto e a Régua, sendo-lhe reconhecido o mérito de ter sido o primeiro deputado a dedicar-se à questão do Caminho-de-Ferro do Douro. Também lhe é inteiramente devida a nossa homenagem por ter sido ele quem, enquanto Presidente da Câmara de Valpaços, conseguiu obter de D. Pedro V, após insistentes pedidos, a elevação da entretanto engrandecida sede municipal, Valpaços, à categoria de vila, estabelecida por Decreto de 27.3.1861.
Chegou a ser-lhe conferido, por Decreto de Agosto de 1864 o grau de Comendador da Ordem da Conceição.

Genealogia
Pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as Ilhas Canárias ao arquipélago da Madeira e ao Norte de Portugal, sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família que exerceu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, nas guerras liberais e noutros sucessos que se seguiram.
Júlio do Carvalhal foi legítimo herdeiro da administração da “Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios”, em Veiga de Lila, onde hoje se pode visitar o respectivo Solar e a capela que era daquela invocação e mais tarde passou à de Santo António.

Graças ao estudo publicado por Ana Luísa no seu blogue Árvore de geração da Família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência, por Fernando Eugénio do Carvalhal de Sousa Teles (ver link em rodapé), não subsistem dúvidas de que Júlio do Carvalhal pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as ilhas Canárias, ao arquipélago da Madeira, ao Norte de Portugal e sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família cujos pergaminhos atestam o seu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, e até, iremos referir a propósito da bravura revelada pelo próprio Júlio do Carvalhal, nas guerras liberais e noutras que se lhes seguiram.

Devido ao mesmo estudo, é possível remontar a ascendência de Júlio do Carvalhal a, pelo menos, dez gerações. Neste sentido está documentado que ela radica em João de Betencourt, um Ilustre Cavaleiro e General francês que em 1417 governou as ilhas Canárias e dois anos depois passou às ilhas Terceira e Madeira, obteve de D. João I inúmeras doações e se estabeleceu, casando com D. Maria de Carvalhal e Silveira. Desse enlace resultou o nascimento de Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira, nono avô de Júlio do Carvalhal, que foi feito Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade e Comendador da Ordem de Cristo e se casou na ilha da Madeira com D. Angélica da Câmara Durman. Este casal teve um filho a quem deu o nome de Manuel de Betencourt Carvalhal e Silveira de Durman. Este oitavo avô de Júlio do Carvalhal, Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade, foi Governador da Cidade de Angra do Heroísmo da mesma ilha e casou com D. Angélica de Noronha e Canto de quem teve dois filhos, tendo sido primogénito João do Carvalhal de Silveira de Noronha Betencourt (o sétimo avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Mestre de Campo do Terço da cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que casou com D. Isabel da Camara Albuquerque Borges, deles nascendo um filho, cerca de 1609, Estêvão da Silveira Carvalhal Borges Betencourt, Fidalgo Cavaleiro de Sua Majestade que foi Governador e Capitão General do arquipélago da Madeira, foi morto pelos espanhóis, no tempo dos Filipes, por recusar entregar-lhes as Ilhas, que ele defendeu por largo tempo, havendo até aí cunhado moeda. Foi o sexto avô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Margarida de Lemos, nascendo desse casamento dois filhos, o primeiro dos quais foi Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt (quinto avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real de quem se diz ter sido o principal responsável pela defesa e Restauração das ilhas depois da Aclamação de D. João IV, pelo que foi nomeado Comandante das mesmas,  a seguir Comandante de Mar e Guerra e logo depois Almirante da Armada e Ouvidor Geral de Moçambique. Do seu casamento com D. Maria da Camara houve dois filhos, o primeiro dos quais, João do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt Fidalgo e Cavaleiro foi tetravô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Maria de Noronha Corte Real nascendo deles três filhos, tendo sido um deles o trisavô de Júlio do Carvalhal, Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real que foi Governador de S. Neutel, em Chaves, depois de ter casado em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora. Foi, como se depreende de uma nota publicada no blogue a que fizemos inicialmente referência, por esta altura e através deste casamento que esta altura que esta ilustre família se estabeleceu na região de Trás-os-Montes e para a qual passou a Casa e Vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila e dela foi detentora ininterruptamente por sucessão varonil até à morte de Júlio do Carvalhal. O casal teve sete filhos, o terceiro dos quais, e primeiro varão, foi o bisavô de Júlio do Carvalhal, Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, Fidalgo da Casa Real que casou com D. Clara Costa Pereira e tiveram dois filhos sendo o primogénito e varão, avô de Júlio do Carvalhal, Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, nascido em Chaves a 14 de Dezembro de 1751 que do seu terceiro casamento, com D. Isabel Maria Bernarda Teixeira Osório de Queiroga, que era natural de Argeriz e filha do Dr. Inácio Gomes Osório de Queiroga (bacharel formado, em1731, em Cânones) e de D. Joana Maria Teixeira, resultou o nascimento de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, em Argeriz, Chaves, em 1783, herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, vereador da Camara Municipal de Chaves nos anos de 1819, 1824 e 1827.

Júlio do Carvalhal, aliás Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, foi o terceiro dos 5 filhos daquele Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt e de D. Rosália Vicência de Meneses Frias e o herdeiro do vínculo de N.ª dos Remédios, em Veiga de Lila, por morte de seu irmão Alexandre durante as lutas liberais no cerco do Porto ou no Algarve (as fontes divergem). Casou duas vezes: primeiro com D. Maria da Piedade Ferreira Sarmento de Lacerda e, após a morte desta, com a cunhada D. Maria das Dores Sarmento Pimentel de Lacerda. Deste segundo casamento não houve filhos. Do primeiro houve quatro filhos, sendo o mais novo, César do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Betencourt, o único varão que não deixou descendência. D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel, senhora de aprimorada cultura, escritora e poetisa foi, como primogénita de Júlio de Carvalhal, herdeira de Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila. Casou com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, o conhecido “morgado de Rio Torto, mas os dois filhos resultantes do casamento morreram em tenra idade pelo que a continuidade, por linha varonil, deste ramo da numerosa família dos Carvalhais detentora de casas e haveres nas povoações de Nantes, Argeriz e Veiga de Lila, teve de ser assegurada pela descendência de outros membros, desde logo por António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, irmão mais novo de Júlio do Carvalhal. Júlio do Carvalhal faleceu na sua casa de Vilar de Nantes (Chaves) no dia 8 de Junho de 1876.
Terminamos esta resenha genealógica centrada em Júlio do Carvalhal com uma citação do autor da pesquisa que para ela nos serviu de base (autor que julgamos ser um dos descendentes desta família) a respeito de D. Efigénia do Carvalhal e do destino do património deste ramo da família em Veiga de Lila. 

«D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel como filha primogénita de Júlio do Carvalhal, foi herdeira de casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila.
Viúva e sem filhos, D. Efigénia do Carvalhal, acautelou, atempadamente e no seu pleno juízo, assegurar a continuidade na família do referido vínculo. Assim, fez escritura de doação, com reserva de usufruto, em favor da sua sobrinha Umbelinha do Carvalhal, casada com seu primo Eugénio Evangelista do Carvalhal, de todos os seus bens.
Faleceu com 94 anos, tinha eu 12 anos, ainda tenho presente a sua lucidez e recordo, com saudade, o carinho com que nos recebia no seu solar. Da mesma maneira e com fidalguia, suas ilustres visitas eram sentadas na mesa de refeições, ouvindo-a e conversando, quase sempre em matéria de carácter cultural.
Hoje, infelizmente, quer o solar, quer os prédios rústicos, encontram-se parcelados, por vezes, em mão de estranhos à família.»

In http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/


Bibliografia e outros recursos

ALVES, Francisco Manuel, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931; Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928);
Árvore da geração da família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência |in http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Porto, 1978.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - IV

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.

João Rodrigues Cabrilho talvez seja o menos conhecido dos portugueses, dentre os quatro grandes navegadores que aqui nos temos vindo a reportar, mas pelos seus mais notados feitos – foi o primeiro europeu a chegar à Alta Califórnia, ao serviço da coroa espanhola – ele deve ser considerado, na opinião de Damião Peres, “como um dos grandes descobridores quinhentistas da América e como tal a sua memória tem sido localmente recordada[1]. Antes disso havia participado na conquista, chefiada por Hernán Cortês, de Tenochtitlan a capital do império azteca  e na campanha liderada por Pedro Alvarado para a conquista dos actuais territórios de Honduras, Guatemala e San Salvador. A data exacta do nascimento de Cabrilho é desconhecida, mas parece que existem poucas dúvidas quanto à sua nacionalidade portuguesa, ainda que haja quem pretenda que ele terá nascido em Sevilha, na Andaluzia, como  é o caso de um dos seus biógrafos estrangeiros,  Harry Kelsey [2]. O já citado Damião Peres, bem como Luís de Albuquerque insisitiram sempre nesta ideia da naturalidade portuguesa e este último baseia-a na indicação expressa do cronista D. António Herrera [3] que é a mesma que se pode ler na Wikipédia, a partir do url que colocamos à disposição dos nossos leitores no final desta publicação em “Referências”.

Quanto à sua possível origem transmontana, a ideia de que tenha nascido no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, que a tradição mantém há muitos anos, tem sido confirmada por alguns autores como João Soares Tavares num trabalho biográfico dedicado ao navegador [4] de assinaláveis recursos documentais e argumentativos. Soares Tavares tem vindo a reafirmar a sua convicção perante esta tese, a propósito de cuja validade se tem pronunciado em reportagens concedidas à imprensa regional como a que veio a público no Diário Actual - do Alto Tâmega e Barroso [5]. A mesma tese foi subscrita por Barroso da Fonte [6] de que transcrevemos a respectiva síntese biográfica de João Rodrigues Cabrilho, conforme as conclusões proporcionadas por João Soares Tavares:

Nasceu no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, nos fins do séc. XV Emigrou para a vizinha Espanha, em busca de melhores condições de vida. Também na Galiza não terá encontrado aquilo de que precisava. E daí que se tenha virado para o mar. Era o tempo das descobertas. Em 1494 tinha sido assinado o Tratado de Tordesilhas. As relações entre D. João II e os reis católicos de Espanha eram favoráveis à aceitação de cidadãos de ambos os países em tarefas comuns. João Rodrigues optou pela aventura, pelo que fez parte da tripulação que partiu de Sevilha, ao serviço de Espanha. Sabe-se que já em 1511 se encontrava no Novo Mundo. Viveu em Cuba. Certamente participou na sua conquista como besteiro de um grupo militar de Pánfilo de Narváez, de acordo com João Soares Tavares, o mais autorizado biógrafo de Cabrilho, cuja vida lhe mereceu um filme. Aportou no México e entrou na sua conquista como capitão de uma companhia de besteiros do exército de Hernan Córtez. Em 1521, já como oficial, participa na expedição de Francisco de Orosco à Província de Oaxaca, colaborando na fundação da cidade do mesmo nome e que hoje é monumento nacional declarado pela UNESCO. A partir de 1522 é um dos principais comandantes do exército de Don Pedro de Alvarado. Com ele, parte à conquista de Tututepeque. Segue-se a expedição à Guatemala, onde entra em 1524. Percorre o território até à Costa do Pacífico (no actual El Salvador). No dia 25 de Julho desse ano colabora na fundação da cidade de Santiago de los Caballeros, primeira capital da Guatemala. Passa aí a viver como "cabalhero", com direitos reforçados, constrói aí casa, ganha prestígio e adquire estatuto de fidalgo. O governador de Guatemala concede-lhe "encomiendas" pelos altos serviços prestados. Manda construir um barco, com o nome de S. Miguel, também conhecido por João Rodrigues. Em 1532 vem à Península Ibérica, onde permanece um ano. Casa em Sevilha com Dona Beatriz Ortega, filha de um rico mercador. Regressa à Guatemala, com a mulher e aí nascem dois filhos. Em 1536 é nomeado magistrado das cidades de Acajutla e de Iztapa. Passa a governador delas e fixa residência em Iztapa. É aí que organiza uma armada para rumar às "Especiarias" (Malucas). Em 1540 parte como almirante dessa armada constituída por 12 a 14 barcos. Em 27 de Junho de 1542 parte para uma nova missão: descobrir a Califórnia. Aí morreu, em 3 de Janeiro de 1543, em consequência de uma tempestade, em que partiu uma perna. Foi sepultado na Ilha de Possession, mais tarde baptizada pelos seus companheiros com o seu nome. S. Diego celebra, anualmente, o descobridor Português que se chamou João Rodrigues, com o apelido de Cabrilha, por ser de Cabril (em galego "Cabrilhe"). Sempre de acordo com o Dr. João Soares Tavares e com base no artigo que sobre João Cabrilha publicou no Jornal da Costa do Sol, em 29.5.1997, o navegador Português foi o autor da primeira publicação editada no Novo Mundo. Escreve textualmente: "Posso afirmar sem receio de exagerar que a obra de Cabrilha marca o início do jornalismo no Novo Mundo. Experimentei uma sensação indescritível quando localizei esse documento escrito por Cabrilha, inicialmente no Arquivo Geral do Governo da Guatemala e, posteriormente, quando consegui fazer o seu estudo, a partir de um exemplar da edição facsimile que se encontra num arquivo em Espanha". Em 9.6.1998 o Dr. João S. Tavares apresentou na C.M. de Montalegre o livro: João Rodrigues Cabrilha, Um Homem do Barroso?


Monumento a Cabrilho, Point Loma, San Diego, California |
 conteúdo livre Wikimédia Commons | autor: Francisco Santos | Permissão: Own work


Referências:

[1] VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, 1966 vol. 4, p.396.


[3] DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, dir. Joel Serrão, vol. I, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, p. 418.

[4] TAVARES, João Soares, “João Rodrigues Cabrilho: Um Homem do Barroso?”, edição da C.M de Montalegre, 1998.


[6] DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRASMONTANOS E ALTO DURIENSES, Coordenado Barroso da Fonte, Vol I, Editora Cidade Berço | Disponível na www:

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Padre Manuel Torrão Mesquita

Por Leonel Salvado

“Homem de Deus em favor dos Homens”, como lhe chamou o reverendo Padre Jorge Fernandes numa mensagem de sentida homenagem publicada no seu blogue por ocasião do 28.º aniversário da sua morte, o Padre Manuel Torrão Mesquita, nascido em Vilarandelo em 29 de Março de 1911, é mais um digno membro da nossa “Galeria de Notáveis”. Embora já existisse uma rua com o seu nome, no dia em que se celebrou o Corpo de Deus, em 23 de Junho de 2011, foi realizada uma cerimónia em homenagem a este “Padre dos pobres” ou “Pároco dos oprimidos e necessitados”, mais dois epítetos que lhe são apostos, cerimónia essa que contou com a presença dos mais altos representantes de várias instituições laicas e eclesiásticas, designadamente o Governador Civil de Vila Real, Alexandre Chaves, o Presidente da Câmara Municipal de Valpaços, Sr. Eng.º Francisco Tavares, o vice-presidente, Amílcar Almeida, o actual pároco de Valpaços, Padre Manuel Alves e Fernando Ribeiro, da Fraternidade Nuno Álvares, bem como o irmão mais novo do homenageado, Augusto Mesquita. A assinalar este grandioso gesto de homenagem a uma das mais saudadas e queridas figuras do concelho de Valpaços foi finalmente inaugurado um jardim e descerrado o monumento em sua memória, constituído pelo respectivo busto e um letreiro invocativo dos seus memoráveis atributos.


Padre Manuel Torrão Mesquita | Foto Base: obtida em O Arauto de Vilarandelo
 (adaptado) | moldura:  http://www.ruadireita.com

Fazendo jus ao título sob o qual esta efeméride foi precedida por uma louvável reportagem, também ela invocativa da memória do Padre Manuel Torrão Mesquita, da autoria de António José Garcia Ferreira e Normando Alves, publicada no Arauto de Vilarandelo, “Recordar é Viver”, só quem, na realidade, as pessoas que com ele «conviveram muito de perto, em circunstâncias diferentes» poderão recordar e proporcionar um melhor conhecimento da sua personalidade e do seu carácter. O nosso contributo relativamente à divulgação da biografia do Padre Manuel Torrão Mesquita limitar-se-á à transcrição da maior parte deste documento a que reconheço bastante credibilidade.

RECORDAR É VIVER
Homenagem ao Manuel Torrão Mesquita
Por: António José Garcia Ferreira | Normando Alves

Ilustre conterrâneo, nascido a 29 de Março de 1911 e como muitos outros, filho de gente simples, que desenvolvia, como tantos outros casais, uma actividade ligada à agricultura. Deste casal em concreto, António dos Santos Torrão Mesquita e Josefa de Almeida Mesquita, nasceram sete filhos, situação de família alargada, muito normal nos tempos de então. Esforçaram-se estes pais por aos filhos um futuro, que não passasse por uma agricultura que era pouco mais que de subsistência. Assim o Manuel, feita a 4.ª classe, pelas mãos da ilustre professora D. Amélia Castelo, rumou ao seminário conciliar de Braga. Aluno aplicado, terminou o seu curso de sacerdote e celebrou “missa nova” na igreja matriz da nossa freguesia a 12 de Julho de 1936.
A sua actividade sacerdotal desenvolveu-se pelas paróquias de Valpaços, Chaves de Vilarandelo, onde chegou em Outubro de 1962, tendo abandonado a actividade em 1978. Morreu a 21 de Outubro de 1982 e encontra-se sepultado no cemitério da nossa Vila.
Dada a sua dinâmica, em todas as paróquias desenvolveu obras de elevado mérito, nomeadamente, na área social, de apoio aos mais desfavorecidos e aos mais jovens.
Neste pormenor a ele se deve a criação do grupo de escuteiros de Valpaços. Em Chaves pôs em funcionamento uma cantina para “matar a fome” aos mais pobres. Em Vilarandelo, foi elemento importante na prossecução dos objectivos subjacentes à reactivação da Casa do Povo, que havia acontecido em 1960, ao lado da direcção presidida por José Ribeirinha Machado, ainda no tempo da “sopa dos pobres”. Foi o obreiro da construção da residência paroquial pois, com uma visão de futuro dizia, “sem residência paroquial a nossa terra sujeita-se a ficar sem padre” e tal teria, garantidamente acontecido. Para a concretização desta obra, teve o ápio do povo, residente e ausente, e neste âmbito deslocou-se a terras africanas para angariação de fundos. Também o grupo de jovens estudantes da época, anos sessenta (geração de garra), levaram acena um espectáculo de teatro no salão da Casa do Povo cuja receita se destinou a apoiar a construção da residência paroquial.
O Padre Manuel tinha com os jovens uma relação fantástica e o seu sacerdócio era especial, muito cativante, nada fundamentalista, muito compreensivo.
Para um melhor conhecimento da personalidade e carácter do Padre Manuel publicamos três testemunhos de pessoas que com ele conviveram muito de perto, em circunstâncias diferentes; Falamos do Dr. Coronel Américo Garcia, do Dr. Francisco Taveira e do Padre Delmino […] .

Testemunho de Américo Garcia
Algumas de tantas memórias. A primeira lembrança do meu padrinho situa-se pelos meus cinco, seis anos, quando ele passava a alta velocidade na sua potente e enorme mota pela nossa aldeia e despertava em mim um enorme sentimento de orgulho! E dizia para os meus amiguitos: “lá vai o meu padrinho!”. Era assim naquela época, o P. Mesquita deslocava-se entre as suas paróquias (Valpaços, Poçacos e Valverde) e também para outras freguesias se solicitado a colaborar em qualquer acto de culto.
Não muito tempo depois, tive poucas dúvidas sobre as características da dita mota: potente, testemunhas credenciadas afirmam que não, enorme, relativamente ao meu tamanho, alta velocidade, talvez para a época… e ruidosa, com certeza, mas isso era sinónimo e cansaço, rugido da máquina que estava a fazer um grande esforço para se manter no activo!
O meu testemunho e as recordações deste homem maravilhoso acompanham, de certa forma, grande parte da minha vida, pelo que terei de pedir desculpa aos meus leitores pelo meu envolvimento em alguns episódios; mas pareceu-me a maneira mais sincera de descrever o que sinto.
Em 1948, após fazer a 4.ª classe, que na altura era o grau de ensino a que a esmagadora maioria dos portugueses podia aspirar, os meus pais foram incentivados a permitirem que continuasse os estudos. A rede escolar na época era limitada e muito dispendiosa, pelo que Seminário era a alternativa possível.
Até que, em Janeiro de 1951, com treze anos acabados de fazer e, perante a desconfiança de expulsão do Seminário (não sei se infundada), decidi que não lhes daria essa satisfação: iludi a vigilância dos prefeitos (padres que asseguravam a disciplina) e fugi!
Em Valpaços, o meu padrinho aguardava-me com preocupação: “No Seminário estão muito aflitos, pois não sabem do teu paradeiro! Telefonaram-me para voltares; tratou-se dum mal-entendido!” Mas eu tinha saboreado a sensação da liberdade, quando saltei as grades do Seminário e não ia larga-la mais da mão: Nem que arriscasse tudo! “Mas eu não volto para o Seminário!” Em momentos cruciais da nossa vida, a presença duma pessoa tolerante e compreensiva, como era o meu padrinho, com capacidade para lidar com a ansiedade e expectativas dos jovens, pode definir-nos o futuro. E foi o que aconteceu comigo.
O P. Mesquita tinha um dom especial para compreender a juventude; a obra que desenvolveu para ocupar os seus tempos livres, fortalecer os laços de solidariedade, responsabilidade e força de carácter foi extraordinária e perdurou. Ainda hoje é recordado com emoção por todos os que tiveram o privilégio de o ter como mentor e exemplo!
A transferência para Chaves não alterou a vida e atitude do P. Mesquita, perante os que o rodeavam; passou a dispor de menos tempo para si, pois as exigências duma comunidade bastante maior a isso obrigavam. No entanto, não prescindia de hábitos que eram mal vistos pelas autoridades mais conservadoras da diocese; ia, depois do almoço, tomar o café num lugar público, e tinha sempre tempo para conversar com os seus amigos, enquanto desfrutava destes períodos de descontracção.
Quando eu vinha de férias, já adolescente, passava sempre um ou dois dias com ele em Chaves, pois a sua companhia era um prazer e a abordagem dos temas mais difíceis tornava-se simples: se quisermos simplificar, digamos, que a confissão, pelo menos para mim, consistia em manter uma conversa com o meu padrinho, nas ruas da cidade, dando-nos a sensação de que dispunha para nós de todo o tempo do mundo. Deus não era apresentado como ameaçador, mas compreensivo e ciente das nossas fragilidades. “Não há mérito para quem, naturalmente, não peca e está isento de tentações.” Esta abordagem, para um jovem que tinha iniciado a sua educação religiosa no Seminário, com confissão semanal obrigatória era uma janela de esperança e optimismo!
O P. Mesquita viajava muito. Com o dinheiro que tinha, isto é, pouco; aproveitava todas as oportunidades que a limitação imposta pelas suas obrigações paroquiais lhe impunha; tanto podia ter acesso a uma viagem com alguma comodidade, como se sujeitava a condições bastante precárias, como campismo (só me ocorre o campismo selvagem) e peregrinações em autocarros sem hotéis marcados… Mas das suas viagens tinha que retirar sempre algum enriquecimento. E falava delas com entusiasmo contagiante. Creio que incutiu aos que com ele conviveram o permanente desejo de conhecer novos horizontes!
Intrigas e conflito de interesses no seio da diocese, conduziram a disputas de poder, susceptíveis de arrastar mesmo aqueles para quem o poder nada significava, como era o caso do P. Mesquita.
Talvez a transferência para a sua aldeia natal, tivesse uma intenção de castigo. Mas, para uma pessoa que estava bem com a sua consciência, com uma vincada noção da missão que lhe era destinada, não havia lugar para sentimentos de desilusão ou revolta; a sua conduta estava acima de conflitos menores.
Na sua aldeia natal encontrou paz e amizade; teve mais tempo para a família, para os muitos amigos e conterrâneos. Não desistiu de viajar, mas agora as idas ao estrangeiro raramente acontecia; aproveitou todo o tempo para comungar com aqueles que sempre estiveram próximos de si.
Lisboa era o destino frequente do P. Mesquita. No entanto, nesta fase da sua vida, as visitas à capital, onde residiam três dos seus seis irmãos tornaram-se mais regulares e, penso eu, mais carregadas de significado. Havia que elaborar um rigoroso calendário da sua estadia, pois ninguém prescindia da sua presença. A visita a casa de cada um dos irmãos transformava-se numa verdadeira romaria! Todos queriam estar presentes; iam todos a casa de todos. Estes encontros com a família em Lisboa, proporcionavam momentos alegres e divertidos, uma autêntica comunhão de sentimentos que todos recordavam a pensar na sua repetição no mais breve prazo.
Nos intervalos deste apertado calendários, pedia para ir aos lugares mais típicos e castiços de Lisboa: lugares onde se encontravam realmente as pessoas. Sentia-se à vontade a conversar com os frequentadores habituais duma taberna; ouvia as suas ideias, trocava com eles opiniões, ria-se com as suas piadas, apercebia-se das suas alegrias ou tristezas.
Em Vilarandelo, agora como pároco, mantinha longas conversas com uma alma gémea, também conterrâneo, o Dr. Olímpio Seca. Como era possível que duas pessoas com crenças tão diferentes mantivessem conversas intermináveis sobre os mais variados termos? Os vilarandelenses conhecem muito bem as semelhanças entre estes dois homens: ambos médicos (um do corpo, outro da alma) desprendidos dos bens materiais, preocupados com o seu semelhante.
Decorria o ano de 1975 e, como a geração um pouco mais velha se recorda, a política nacional corria sem rumo à vista. O então chamado PREC (Processo Revolucionário em Curso), conduziu a mais uma conversa infindável entre os dois; o tema era controverso e não se vislumbrava qualquer conclusão (muito menos optimista). O P. Mesquita, a dada altura e já sem esperança de remédio para o país, rematou: “Oh, doutor, nós éramos capazes de ser felizes se adquiríssemos um rebanho de ovelhas e passássemos a viver na serra com o produto do nosso pastoreio!” Ao que o Dr. Olímpio respondeu: “Talvez não fosse má ideia, padre. Vamos pensar nisso!”

Testemunho do Padre Delmino  
PADRE MESQUITA.
É sempre com muita saudade que eu recordo este meu grande amigo e admirador. Depois de ter estado em Valpaços, foi colocado como pároco de Chaves. Chamou-me para colaborador da paróquia visto que eu tinha acabado o meu curso teológico no Seminário de Vila Real com 22 anos e só podíamos ordenar-nos sacerdotes aos 24 anos.
Trabalhei na Catequese, na música litúrgica, num grupo da JOC e noutras actividades da Paróquia até ser ordenado sacerdote o que aconteceu passado um ano.
Trabalhei na preparação da Missão que decorreu durante 3 anos e foi levada a cabo pelos sacerdotes capuchinhos sob a orientação do grande Mata Mourisca que depois foi bispo de Uíge em Angola.
Com o P. Mesquita aprendi a ser padre. Nunca me esquecerei da Cantina Paroquial onde iam comer mais de 300 crianças das escolas primárias onde nós íamos assistir muitas vezes, sendo as refeições servidas pelas Senhoras da cidade que voluntariamente prestavam o seu trabalho.
Nunca poderei esquecer a sua dedicação à Paróquia visto que todos os dias estava no seu Cartório Paroquial onde recebia as várias pessoas que o procuravam.
À noite, juntamente com os seus 2 coadjutores ia tomar o seu café que ele pagava sempre e onde se encontrava com pessoas da cidade.
Era impressionante o seu desprendimento e a sua atitude pronta quando se apercebia de alguém necessitado. Lembro-me muito bem do seu dinamismo quando, durante uma cheia, foi preciso arranjar dormida e alimentação para muita gente. Quando promoveu a construção de três casas no Bairro Operário para dar a três famílias pobres.
Sempre que havia qualquer festa familiar, ou no canto dos Reis, lá estávamos os Coadjutores, eu e o Padre Alberto Aguieiras, sempre associados aos seus irmãos e sobrinhos comungando o mesmo ideal e vivendo a mesma alegria.
Foi vítima de uma injustiça quando o Sr. Bispo de Vila Real, movido por falsos conselheiros o retirou para Vilarandelo, sua terra natal.
Como, passado um ano, eu fui colocado em Tinhela, colaborei muito com ele em Viarandelo ao serviço de várias actividades paroquiais e na ajuda da construção da residência. Ensaiámos uma opereta que foi representada em vários lugares para angariar fundos para a construção da residência.
Assisti-lhe nos últimos momentos da sua vida juntamente com os velhos amigos, o P. José Ribeirinha e o Dr. Taveira. Ainda me recordo bem da fé e saudade da sua irmã, a tia Marquinhas, quando nesse momento nos pôs a rezar por ele.
Por tudo o que fez de bem ao serviço da Igreja e ao serviço dos outros, pelo bom exemplo que me deixou pelo bom exemplo de entrega aos Paroquianos, aqui deixo expresso o meu agradecimento. Que o Senhor a quem serviu o tenha lá no reino da sua glória.


Testemunho de Francisco A. Taveira Ferreira, Médico – Cirurgião
Quis a vida e o destino que conhecesse o Padre Manuel Torrão Mesquita ainda muito menino na igreja paroquial de Vilarandelo.
Recordar o Homem e o Padre é percorrer a minha própria existência desde o berço até à Universidade.
Quando menino da Escola Primária de Vilarandelo, frequentando os bancos da sala de aula, vi um venerando senhor de batina, o padre que nos ensinava Religião e Moral e muitas regras de cidadania.
Nesse tempo eu não sabia que além da Religião, da Moral e dos bons costumes ele nos ensinava, pelo exemplo e pela palavra, regras de convívio social, regras de cidadania, valores de convivência Humana.
Organizou conjuntamente com a minha madrinha Dr.ª Alcininha, e certamente outras pessoas, um retiro no Pousadouro, [durante] dois dias. Quanta alegria e quanta vivência nesses dias !!
Fui seu acólito, ajudante da Missa, aprendendo a conviver em grupo.
Fui por ele convidado a integrar o Seminário onde só estive 18 meses pois essa não era, claramente, a minha vocação.
Desde a quarta classe insistiu com os meus pais para que fosse estudar e orientou-me para a Telescola, onde outro amigo em sintonia com as suas ideias me orientou pela vida. Foi o Padre Torrão Mesquita que pediu ao Francisco Catumba para permitir que o filho fosse estudar em vez de trabalhar na terra como era norma.
Não possuindo bens de fortuna e vivendo humildemente com fatos comprados em segunda mão, deixando por vezes a própria roupa para os pobres (eram outros tempos!!), deu-me sempre lições de trabalho, organização e perspectiva de futuro.
Na Telescola, que frequentei sem pagar propinas e sem pagar Livros, também aí estavam o dedo do Padre e do Professor Ribeirinha.
No que seria hoje o sétimo ano, indicou-me o Seminário como forma de continuar a estudar.
Abandonado o seminário fui para o Colégio Privado de Valpaços, pertença da amara Municipal – mais uma cunha do Padre ao então Presidente, Dr. Sequeira da Mota.
Foi-me atribuída Bolsa de mérito e lá continuou o padre a empurrar.
Quando terminei o nono ano foi comigo para que tivesse emprego em Valpaços.
Sonhava eu muito alto e queria ser Médico.
O Padre sorriu, mas sempre me disse que se vai onde se quer ir com esforço, trabalho e dedicação.
Já na Universidade, ele com o peso da idade e eu preocupado com o início de vida, faltei aos festejos dos seus anos.
-“Então não tiveste tempo para me visitar?”
-Sabe, Padre, estou muito ocupado. A vida é muito exigente e agora está bastante mal.
- “Olha rapaz, não te deixes agarrar pela vida. Mal está ela desde que fui para a Escola.”
Estávamos em 1982 e iniciara a Escola uns sessenta anos antes. Que diria hoje ?
- Diria exactamente o mesmo.
Quem era o padre Torrão Mesquita?
Um homem nascido em Vilarandelo, pároco de Chaves, de Valpaços e da sua Terra Vilarandelo, professor, amigo e conselheiro, atento e disponível.
Para mim foi um mestre de viver e levar a vida.
Na fase em que já estava doente, pude acompanhá-lo ao Médico no Porto e mantinha a mesma serenidade com que me dizia pelos meus dez anos:
- “Não te deixes levar. A vida é muito exigente mas sempre premeia quem é justo, diz a verdade tem conduta correcta.”
Dos princípios de vida que defendia e pelos quais pautava a sua existência, deixou rastos nos que com ele privaram e tiveram oportunidade de conviver.
Recordar é rever, é viver de novo.
Para ele uma imensa gratidão, pelo que me ensinou, pelo que aprendi sem mo ter ensinado, pela imagem positiva que deixou e acima de tudo pelo espaço na mente e na alma que construiu.
Pessoalmente desejo-lhe eterno descanso eterno no seio de Quem serviu toda a sua vida.
Perante este Homem e a sua Figura, independentemente da posição do corpo, a Alma fica de joelhos.
Que Deus o tenha a seu lado para felicidade de ambos.

In Arauto de Vilarandelo, edição Junho de 2011 

sábado, 11 de junho de 2011

homens grandes: Padre Mesquita


Por Jorge Fernandes, 21 de Outubro de 2010


se fosse vivo, teria hoje 99 anos.
mas morreu há 28,
a 20 d'Outubro de 1982.  Padre Manuel Torrão Mesquita, natural de Vilarandelo, pároco, em tempos passados, de Valpaços, Poçacos, Chaves, Vilarandelo, Fornos do Pinhal, Barreiros... dele se pode dizer com toda a justiça e categoria: "Homem de Deus em favor dos Homens"por tudo o que foi, a 
nossa homenagem.


Nota editorial: Tivemos conhecimento através do blogue “Vilarandelo – Cousas de antanho e de agora, que já está on line a edição de Junho do Arauto de Vilarandelo onde podemos ver um interessante artigo em homenagem ao Padre Manuel Torrão Mesquita, nas páginas 8 a 10. Ver AQUI.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Recordando Júlio do Carvalhal, no 139.º aniversário da sua morte

Por Leonel Salvado
Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços  | Arranjo gráfico: Leonel Salvado

Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses ou da Silveira Betencourt de Noronha, nascido em 1810 em Veiga de Lila, Valpaços e falecido em Vilar de Nantes, Chaves,em 1872, foi um digno representante da aristocracia do Norte de Portugal cuja linhagem remonta uma dezena de gerações e passou, com distinção por alguns dos momentos decisivos da História portuguesa. Homem de firmes convicções liberais, foi um dos “bravos do Mindelo” e, a par da sua vocação militar, destacou-se em importantes cargos administrativos durante a monarquia constitucional, chegando a ser Governador Civil de Bragança

Clique na imagem para rever o que publicámos em sua homenagem

terça-feira, 7 de junho de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - III

Por Leonel Salvado


A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.

Pela grandeza e mediatização universal do seu maior feito, este navegador português, nascido ao redor de 1480, talvez o mais conhecido internacionalmente dentre os demais navegadores das demais nacionalidades, depois de Colombo, não me parece que careça de grandes apresentações.

Limitar-me-ei, pois, a destacar que foi ele quem, já com apurada experiência na arte de marear e guerrear - adquirida nos mares da Índia ao serviço dos esforçados vice-reis D. Francisco de Almeida e Afonso de Albuquerque - bem como no estudo da mais avançada cartografia do seu tempo, tendo-se visto agastado com o abandono a que se vira votado pela corte portuguesa que o acolhera desde menino, entendeu mudar-se para o reino vizinho onde logrou obter de Carlos V tudo o que necessitou para levar a cabo o seu arrojado plano daquela que é conhecida como a primeira viagem de circum-navegação do globo. Coube-lhe assim, ao comando de cinco navios com uma tripulação de 234 homens, entre os quais 40 portugueses, ser o primeiro europeu a chegar à “Terra do Fogo” no extremo sul do continente americano, a atravessar o estreito que hoje tem o seu nome e a navegar no Oceano Pacífico, assim por ele próprio designado, até encontrar a morte num confronto com alguns nativos da ilha de Cebu, nas Filipinas a 27 de Abril de 1521. A viagem prosseguiu no mês seguinte sob o comando de João Lopes de Carvalho, sucedido dois meses mais tarde por Juan Sebastián Elcano que depois de contornar o Cabo da Boa Esperança e fazer uma breve e arriscada escala em Cabo Verde aportou finalmente a S. Lúcar de Barrameda, Cádis, de onde tinha partido dois anos antes, com o que restava da expedição – uma nau apenas, a Victória, e uma tripulação constituída por 16 homens. Morreu o grande capitão mas ficou a inabalável prova da esfericidade da Terra.

Mas, tal como sucede a propósito da maioria de outras grandes figuras quatrocentistas e quinhentistas de cujo papel de relevo na gloriosa epopeia ultramarina portuguesa se fazem eco os manuais escolares e as mais consagradas obras de divulgação, não é possível chegar-se a uma indicação inequívoca sobre o local de nascimento de Fernão de Magalhães. A falta de registos precisos e a natureza de determinados documentos que têm servido de indicadores nesse sentido vêm alimentado uma acesa polémica entre os historiadores. No estado actual deste velho debate persistem ainda quatro teses alternativas, todas elas aparentemente acertadas com base em alegadas provas documentais, quanto ao seu local de nascimento, com maior relevância para o Norte de Portugal:

·            - a vila de Sabrosa, no distrito de Vila Real (antiga Província de Trás-os-Montes e Alto Douro)

·         - a vila de Figueiró dos Vinhos, sede de município do distrito de Leiria, região Centro (antiga Província da Beira Litoral) 

·           - a freguesia da Sé, no Município do Porto.

·       - a vila de Ponte da Barca, distrito de Viana do Castelo, sub-região do Minho – Lima (antiga Província do Minho)   


A tese da vila de Sabrosa face às de Figueiró, Porto (freguesia da Sé) e Ponte da Barca

Pelo que se pode deduzir das palavras do conceituado historiador Damião Peres (1889 – 1976), autor, dentre outras obras muito conhecidas, da “História dos Descobrimentos Portugueses” e colaborador da “Verbo, Enciclopédia Luso-Brasileira da cultura”, em especial do que refere sobre Magalhães nesta última obra colectiva, as teses da sua naturalidade transmontana,com expressa indicação da vila de  Sabrosa, em Trás-os-Montes, bem como da de Figueiró dos Vinhos, na Beira Litoral, amplamente difundidas no século XIX em artigos da “Nouvelle Biographie Universelle” - uma publicação geral coordenada por Johann Hoefer e publicada em 1854 - viram-se confrontadas por uma nova tese, a da naturalidade portuense, logo em 1864 por Barros Araña,  por Pereira e Sampaio, em 1907 e, com maior vigor argumentativo, por Toríbio Medina, em 1920. Em 1921 D. José Manuel de Noronha e António Baião (este em favor da tese de Figueiró que, até ver, afigura-se-me como a menos crdível) procuraram impugnar a tese de Sabrosa «demonstrando a apocrifocidade do documento em que se baseava». A tese de Sabrosa voltaria, ainda segundo Damião Peres, a ser refutada pelo visconde da Lagoa, em 1933 e 1938, com base em frases proferidas pelo próprio Fernão de Magalhães que, em seu entender, autorizam a defender a naturalidade portuense, e por Queiróz Veloso ainda pela mesma época [1].

Porém, fazendo fé no que foi publicado na Wikipédia, a enciclopédia livre, em vez de um documento que tem servido de base à tese de Sabrosa existem dois, efectivamente apócrifos (cópias de dois testamentos, um firmado pelo próprio navegador em 1504 identificando bens inequivocamente situados em Sabrosa e um outro de um seu descendente exilado no Brasil em 1580), mas devidamente autenticados por um terceiro documento - um auto oficial de 1798 no qual seis escrivães confirmam a relação genealógica de Magalhães com esta vila – voltaremos a este assunto. Convém que se diga, de acordo com a mesma fonte, que os defensores da tese da origem portuense de Fernão de Magalhães, mais concretamente da sua naturalidade na freguesia da Sé, na cidade do Porto, fundamentam-se num documento de matrícula de um tal Aires de Magalhães na sé de Braga datada de 1509, onde se menciona que seus pais, Rui de Magalhães e Inês Vaz Moutinho, eram moradores na Sé do Porto. Ora, este mesmo Aires de Magalhães é dado por alguns genealogistas como tendo sido um dos irmãos do navegador, tal como Duarte de Sousa, Diogo de Sousa, Isabel Magalhães e Genebra Magalhães, todos eles filhos do dito Rui de Magalhães - que foi fidalgo da casa real, conde de Faro, senhor de Aveiro, alcaide-mor de Estremoz, mais tarde alcaide-mor de Aveiro e que terá exercido, ainda na cidade do Porto, os cargos de juiz ordinário, procurador da Câmara e vereador [2]. Mas estes dados genealógicos relativos ao alcaide-mor de Aveiro, sua(s) esposa(s) e seus filhos permanece envolto em mistério. Felgueiras Gayo, por exemplo, no “Nobiliário das Famílias em Portugal” obra que serve, entre outras, de base à Geneall.net, um importante recurso on line (mas de acesso condicionado) confirma, de facto, a paternidade de Fernão em Rodrigo (ou Rui) de Magalhães que foi alcaide-mor de Aveiro, mas não nomeia a esposa deste, e mãe daquele, como Inês Vaz Moutinho, tomando-a antes pelo nome de Alda de Mesquita. Além disso, apenas indica uma irmã de Fernão de Magalhães, de nome Leonor ou Genebra de Magalhães [3]. Teriam os restantes filhos, Duarte, Diogo e Isabel, nascido de um segundo casamento de Rui de Magalhães com Inês Moutinho? Ou seria este um outro casal sem qualquer relação com Fernão de Magalhães? Em qualquer dos casos, parece-me que tal mistério não basta para invalidar a tese da naturalidade portuense do circum - navegador.

Quanto às frases do próprio Fernão de Magalhães invocadas pelo visconde de Lagoa para servirem de prova da mesma tese que atribui o Porto como local de nascimento daquele, elas nunca foram levadas em grande conta pelos mais conhecidos historiadores, quer pelos que pretendem reabilitar a tese transmontana de Sabrosa, quer ainda pelos que se têm proposto a apontar novas alternativas.

Haja em vista, por exemplo, a posição de Luís de Albuquerque, conceituado Professor Universitário historiador dos descobrimentos portugueses (1917 – 1992) que a um ano da sua morte ainda se referia, peremptoriamente, a Fernão de Magalhães como «Transmontano, segundo as melhores informações de que se dispõe» [4], posição esta que já deixara bem claro na sua colaboração no Dicionário de História de Portugal, dirigida por Joel Serrão, apontando-o como tendo «nascido em Trás-os-Montes em ano à volta de 1480» e definindo-o como «fidalgo de segundo plano», oferecendo-se-lhe «como meio de ascensão social, o caminho das armas no Oriente ou em África, em que se lançou com cerca de 25 anos de idade, ao alistar-se na armada de D. Francisco de Almeida, que largou para a Índia em 1505.» [5].

Veja-se ainda o caso do, não menos conceituado, historiador Joaquim Veríssimo Serrão, que sem deixar de aconselhar a leitura das obras do Visconde da Lagoa (tese do Porto), Queirós Veloso e António Baião (tese de Figueiró) a que atrás nos reportámos, conclui com a maior simplicidade que «Magalhães nascera à volta de 1480, crê-se com razões de acerto que em Ponte da Barca.» [6].
O historiador Amândio Barros, investigador da Faculdade de Letras da Universidade do Porto e especialista em história marítima dos séculos XV e XVI saiu em defesa desta mesma tese no livro que apresentou  no dia 23 de Maio de 2009 em Ponte da Barca, "A naturalidade de Fernão de Magalhães Revisitada", apresentação essa que foi alvo de uma reportagem pela Lusa publicada no jornal o Expresso [7] de que passarei a transcrever um trecho que resume os mais destacados comentários argumentativos do autor:



«Amândio Barros, […] apresenta no livro "A naturalidade de Fernão de Magalhães revisitada" documentos inéditos que, na sua opinião, indicam que o navegador era oriundo de Ponte da Barca.
Curiosamente, o historiador começou o seu trabalho de investigação deste tema a convite da Câmara de Sabrosa, em Trás-os-Montes, mas rapidamente viu que não podia seguir esse caminho.
A "solução transmontana" pareceu ter poucas pernas para andar a Amândio Barros, que na sua obra classifica a hipótese de "muito débil".
Na "posse de todos os dados disponíveis, e após estudo aturado de todos os elementos conhecidos (...) reafirma-se, por completo, a impossibilidade dessa origem transmontana", tudo porque a tese se baseia em "fontes muito pouco fiáveis", nomeadamente um "alegado testamento ditado por Magalhães em 1504" e um outro, "de 1580, que teria sido mandado lavrar por um sobrinho-neto do navegador chamado Francisco da Silva Teles", defende em declarações à agência Lusa.
"São estes os documentos que sustentaram a tese da naturalidade transmontana, mas que há muito que a investigação histórica os classificou como falsos", conclui o historiador, no livro que apresenta sábado.
Arrumada a hipótese de Sabrosa, havia que averiguar a do Porto, que se baseia, como Amândio Barros explica, "nos termos do contrato celebrado entre Magalhães e Carlos V" para a expedição.
Segundo o investigador, nesse contrato, Fernão de Magalhães intitulava-se 'vizinho' do Porto. "Ora, palavras como vizinho, cidadão, morador, exprimem uma condição num dado momento e em diversas circunstâncias e não traduzem obrigatoriamente o conceito de naturalidade".
Por outro lado, acrescenta o historiador, a tese da naturalidade portuense não procede porque "no tempo em que Magalhães nasceu - (...) 1480 - a cidade [do Porto] vivia um período tenso (...) e posicionava-se frontalmente contra a permanência dos nobres dentro dos seus muros; portanto, não é crível que tal ambiente fosse favorável ao nascimento de um fidalgo no interior do seu perímetro amuralhado".
"Na altura do contrato com Carlos V, o navegador estaria a preparar a expedição a partir do Porto, de onde aliás levou elementos para a tripulação, nomeadamente o piloto Estêvão Gomes. Terá assim assumido que era vizinho da cidade", referiu o historiador à Lusa.
Amândio Barros desmontou outro argumento utilizado para tentar provar que o navegador era do Porto, o da doação de bens, em testamento, ao Mosteiro de S. Domingos do Porto, que existia ali perto do actual Mercado Ferreira Borges.
"Na realidade, a doação é não a esse mosteiro, mas ao de D. Domingo das Donas do Porto, o actual convento Corpus Christi, em Gaia, onde eram freiras umas primas de Fernão de Magalhães", referiu.
Excluídas estas hipóteses, Amândio Barros explorou a de Ponta da Barca, sustentando nos vínculos genealógicos do navegador a sua convicção de que nasceu naquele concelho.
As famílias Sousas, Meneses e Magalhães terão tido, segundo o autor, uma "forte implantação (...) no Entre Douro e Minho e, em concreto, nas terras minhotas da Ribeira do Lima". Mais: existe "um lugar (hoje freguesia) chamado Paço Vedro de Magalhães, isto é, 'Paço Velho de Magalhães' que reforça essa convicção".
Há vários documentos, como heranças e provisões régias, relativos à tia de Fernão de Magalhães, D. Isabel de Meneses, e ao próprio navegador que demonstram a ligação deste a Ponte da Barca.
Mas, para o historiador, "o documento mais esclarecedor, "aquele que depois de devidamente analisado e contextualizado deixa muito poucas, ou nenhumas dúvidas acerca da naturalidade barquense de Magalhães é o requerimento de 1567, apresentado por Lourenço de Magalhães ao Conselho das Índias, pelo qual reclamava a herança do navegador".
O processo, garante, "apresentava um rol de inquirições de testemunhas que decorreu no mês de Abril de 1567, em Ponte da Barca, Ponte de Lima e Braga. Trata-se de testemunhos decisivos para determinar a naturalidade de Magalhães".
A este propósito, o historiador acrescenta que "as inquirições demonstravam ainda que o glorioso iniciador da primeira viagem de circum-navegação pertencia à estirpe dos Magalhães, senhores da Terra da Nóbrega, fidalgos de cota de armas e solar. O mais velho dos depoentes, João Garcia Belo, de Ponte da Barca, conhecera-o perfeitamente, assim como ao pai"».
MSP.
Lusa/Fim

Com efeito, os habitantes de Ponte da Barca reclamam a naturalidade de Fernão de Magalhães para a sua vila minhota, ligando-o à «nobre família do Paço Vedro (freguesia de Magalhães).» [8].

Mas a mesma convicção acontece também em Sabrosa onde, em memória do Grande Navegador, o Município tem promovido interessantes contactos culturais com regiões e países relacionados com as viagens e companheiros de Magalhães [9].

Tem-se verificado nos últimos anos a uma vigorosa reabilitação da tese transmontana de Sabrosa o que  vem agudizando a secular controvérsia gerada em torno da terra de origem de Fernão de Magalhães.
Salvaguardada a “tese transmontana”  de forma vaga por conhecidos autores (vimos o caso de Luís de Albuquerque), tem cabido finalmente à imprensa nacional e regional um papel fundamental na sua discussão científica, outrora reservada a um ciclo muito restrito de enciclopedistas e académicos, e no reavivar da larga possibilidade de Fernão de Magalhães ter sido oriundo de Trás-os-Montes e, particularmente, da vila de Sabrosa. Na linha da frente deste movimento cabe-me realçar o Dicionário dos Mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses, uma obra dirigida por Barroso da Fonte, e o elucidativo artigo do escritor Alexandre Parafita publicado em Setembro de 2009 num suplemento do Jornal de Notícias[10], do qual passo a transcrever o seguinte excerto:

«Desde tempos imemoriais, a naturalidade de Magalhães foi dada, como inequívoca, na vila de Sabrosa. Contribuiu para isso a existência de dois testamentos, um de 1504 (quando o navegador partiu para os oceanos) e outro de 1580 (de um seu sobrinho-neto exilado no Brasil), reforçados por um auto oficial de 1798 em que seis escrivães e quatro testemunhas confirmavam a genealogia do navegador ligada a esta vila. Nestes documentos são identificados bens efectivamente localizados em Sabrosa, tais como uma casa (a Casa da Pereira), a quinta da Souta (ainda hoje existente em frente ao Vale da Porca) e o legado de missas anuais no altar do Senhor Jesus da Igreja de São Salvador do qual ainda existem vestígios na actual Igreja Matriz da vila. A existência, na referida casa, do brasão da família Magalhães com as armas picadas e arrasadas, traduzindo um castigo que, no tempo de D. Manuel I, era corrente aplicar sobre quem praticasse actos considerados de traição à Pátria, assim tendo sido entendida a missão de Magalhães ao serviço da coroa de Espanha, corroboravam a mesma tese. Entretanto, há muitas décadas atrás, a veracidade destes documentos começou a ser posta em causa. Desde logo por o primeiro testamento referir a expressão “sua majestade” em relação a D. Manuel I, quando se sabe que, ao tempo, não havia esse tratamento, mas sim “sua alteza”. Ainda que no documento notarial de 1798 esteja dito que foi “fielmente copiado menos algumas palavras que por estarem mal escritas em letra gótica e o papel carcomido do tempo não foi possível poder ler”, não tem faltado quem procure todos os pretextos para desvalorizar o teor dos testamentos, como não falta também quem tal tenha rebatido, a exemplo do Abade de Baçal, que o fez minuciosamente. Estas dúvidas permitiram que outras hipóteses de naturalidade fossem sendo entretanto equacionadas. Por exemplo, do Porto se diz existir uma declaração que alude à expressão “Vecino de la cidade del puerto” e que isso indicaria ser dali natural. Contudo, sabe-se também que, num testamento feito mais tarde em Espanha, se declara do mesmo jeito: “vesino q soy desta muy noble e muy leal çibdad de Sevylha”. O que vale então esta palavra “vecino” em tais documentos? Nada de mais relevante. Apenas que Magalhães pode ter vivido nessas cidades. (…). Importa ter presente que as questões divergentes da naturalidade de Magalhães foram sendo geradas muito depois da sua morte, quando se percebeu que haveria uma notável fortuna a reivindicar da coroa de Espanha, por ser devida ao Navegador uma parte dos territórios descobertos mundo além. Foi então que vários supostos parentes foram surgindo em diversas localidades do País (incluindo Ponte da Barca), uns e outros logo impugnados e desacreditados nas suas pretensões pelo poder castelhano, que dessa forma assegurava a intocabilidade do seu património. (…)».


Estátua de Fernão de Magalhães, em Sabrosa 

  Fonte: O serrano, Comunidade Sol | http://comunidade.sol.pt

Referências

[1] PERES, Damião, Magalhães (Fernão de) in Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Editorial Verbo, Lx, 1971, Vol. 12, pp. 1015-1016.
[2] Link
[3] Link
[4] ALBUQUERQUE, Luís de, Magalhães (Fernão de) in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Publicações Alfa, 1991, Vol 1, p. 415.
[5] Id. Ibid., in Dicionário de História de Portugal, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, Vol. IV, p. 136.
[6] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Vol. III, 2ª ed. revista, Lx, 1980, p. 28.
[7] Link
[8] Link
[9] Link
[10] Alexandre Parafita “Fernão Magalhães: símbolo inequívoco da tradição de Sabrosa”, in Jornal de Notícias, Suplemento “Terra de Fernão de Magalhães”, edição de 5 de Setembro de 2009.