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quarta-feira, 2 de março de 2011

Efemérides - Manuel dos Reis Buiça

Foi no dia 01 de Fevereiro de 1908 que foi morto pela Guarda Real, em Lisboa, Manuel dos Reis Buiça. Tinha nascido em Bouçoães, Valpaços, no dia 30 de Dezembro de 1876. Foi segundo-sargento de cavalaria, destacando-se como bom atirador. Demitido do Exército, veio para Lisboa, onde se dedicou ao magistério no ensino secundário com assinalável êxito.
Era viúvo, cultivando poucas relações fora dos seus afazeres  profissionais. Militante de uma sociedade secreta anarquista ligada aos republicanos, nunca se soube quem planeou e contribuiu para o atentado no Terreiro do Paço, em Lisboa, que vitimou D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, e consumado por Manuel Buiça (que matou o príncipe) e Alfredo Costa, que de imediato foram abatidos.

Américo Brito
http://www.semanariotransmontano.com

Para informações mais detalhadas sobre Manuel Buíça e o Regicídio em postagens anteriores neste blogue clique nos ícones:

                  
O regicídio                         O regicida                          O mistério



quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

167.º Aniversário do nascimento de Álvaro do Carvalhal

Por Leonel Salvado


Retrato fidedigno de Álvaro do Carvalhal, réplica de outro existente na sala da casa de habitação de sua neta Dra. Mariberta Carvalhal | in http://guitarradecoimbra.blogspot.com

Nascido a 3 de Fevereiro de 1844 no seio de uma ilustre e culta família estabelecida no concelho de Valpaços, Álvaro Carvalhal de Sousa Silveira e Telles a quem, lamentavelmente, o destino reservou um curta passagem pela vida continua, apesar disso, a ser considerada como um caso ímpar na história da literatura portuguesa onde ainda se denota uma clara ausência do género fantástico que Carvalhal cultivou com extraordinária determinação até mesmo nos momentos mais agonizantes do mal de que padecia (um aneurisma) e quando já tinha por certa e breve e a sua morte que veio a acontecer, aos 24 anos, em Coimbra no dia 14 de Março de 1868, sem terminar o curso de Direito em que se havia matriculado quatro anos antes.

Da infância por terras transmontanas à maturidade cultural e à sua morte na cidade universitária

Vem sendo costume dividirem-se seus biógrafos quanto ao local exacto do seu nascimento, em Argeriz, asseveram uns, em Padrela (ou “S. Pedro de Padrela”), sustentam outros. Álvaro nasceu efectivamente na data acima indicada e na freguesia de S. Pedro de Padrela que já então se designava formal e administrativamente por freguesia de Padrela e Tazém em virtude da fusão, em 1834, daquela com esta, outrora paróquias vizinhas mas independentes no termo de Chaves. A verdade, porém, tal como nos surge atestada pelos seus descendentes e confirmada pela documentaçao paroquial, é que Álvaro do Carvalhal foi um dos filhos de António do Carvalhal Silveira Telles e de Teresa Teixeira Vaz Barroso Guerra, um conceituado casal que por mais de uma década após a morte do jovem escritor podia ser visitado no aconchego de sua casa de Argeriz. A casa dos Carvalhais em Argeriz foi-lhes legado pelo avô paterno de Àlvaro do Carvalhal, Alexandre Manuel Carvalhal e Sousa  Silveira Telles Noronha Bettencourt que aí nasceu. Convém observar que ambas as freguesias de Padrela-Tazém e Argeriz pertenceram ao concelho de Carrazedo de Montenegro mas, à data do nascimento do escritor, Argeriz já integrava desde 1837, por Carta de lei, o recém-criado concelho de Valpaços, ao passo que Padrela só passou a este concelho em 1853, pelo Decreto desta data que extinguia o de Carrazedo de Montenegro.
Segundo uma nota publicada por Maria do Nascimento Oliveira Carneiro,  em “O Fantásticos dos Contos de Álvaro do Carvalhal”, ele terá sido provavelmente desde a infância «muito favorecido e incentivado pelo próprio meio familiar que o cercou» salientando que «tanto seu pai, António do Carvalhal, autor de um “Romance” inédito, como sua prima e companheira de infância, Ifigénia do Carvalhal, amante da poesia romântica e futura colaboradora do Almanaque das Senhoras poderão ter marcado eficazmente o destino literário do jovem Carvalhal.» Convém já observar que aquele António do Carvalhal (aliás António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha), pai de Álvaro do Carvalhal, foi o mais novo dos irmãos do ilustre Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha já por nós biografado neste blogue e que esta Ifigénia do Carvalhal (ou Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel), prima de Álvaro do Carvalhal, foi a primeira de quatro filhos daquele Júlio do Carvalhal e quem mais tarde viria a casar com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, conhecido como o “morgado de Rio Torto”, oriundo de Vila Flor. Após a aprimorada instrução primária recebida no seio da família, o jovem Álvaro mudou-se para Braga em cujo liceu iniciou os seus estudos secundários, passando depois aos liceus de Viseu e Coimbra. Aqui matriculou-se na Faculdade de Direito em 11 de Outubro de 1864.
Foi em Coimbra que Álvaro do Carvalhal definiu o seu irreverente pendor literário, incompreendido pelos paladinos da literatura oitocentista mas reabilitado pela modernidade, nas seis admiráveis narrativas que produziu, em evidente sofrimento físico, onde, segundo o resumo sinóptico divulgado pela editora Almedina relativo aos seus contos se «sobressai o cuidadoso encadeamento da intriga e uma linguagem inconfundível» que «são uma das experiências mais notáveis do romantismo português» e nelas «o fantástico, expressão do lado obscuro e inquietante da mente, entrecruza-se de forma inesperada e surpreendente com o exótico, a ironia e o humor negro.» Uma das maiores e mais conhecidas referências da sua obra foi o livro “Os canibais”, em grande parte graças à sua adaptação ao cinema por Manoel de Oliveira. O reconhecimento póstumo da sua invulgar elevação cultural em Coimbra já mereceu da parte de alguns biógrafos seus conterrâneos, na actualidade, alguns elogios como é o caso de António Cândido Gavaia, o qual, numa edição do “Semanário Transmontano” de 15 de Maio de 2009, disse sobre ele que «a superior e invejável cultura deste jovem estudante que estudava em Coimbra, ia de um Shakespeare, perfeitamente conhecido, a um A. Dumas, a um Dante, a um Voltaire e a um Cervantes, citado com conhecimento, aos românticos espanhóis como Espronceda (1808-1842), até aos escribas de “faca e alguidar” e folhetinistas frenéticos, não só franceses como alemães», acrescentando que «Álvaro do carvalhal representava, indubitavelmente, a esperança de se tornar o “Alan Poe” dos enredos melodramáticos de terror de certo tipo de literatura portuguesa.»
Pelo que consegui apurar, a partir do post publicado por A. M. Nunes no Blogue “Guitarra de Coimbra”, dedicado a Álvaro do Carvalhal em Março de 2006, as suas obras conhecidas são: "O castigo da vingança", que é um drama em 3 actos, editado em Braga, quando ali era aluno do Liceu, e os "Contos", que são uma «edição póstuma, ainda no decurso de 1868, pelo seu grande amigo e biógrafo José Simões Dias». Segundo a mesma fonte, «esta obra inclui os contos frenético-fantásticos J. Moreno, O Punhal de Rosaura, Os Canibais [de que já falámos], A Febre do Jogo, A Vestal e Honra Antiga. Da 1ª edição de 1868 se tiraram pelo menos mais duas, sempre com os reeditores na mais firme convicção [errada como veremos] quanto à inexistência de herdeiros directos do escritor: "Seis contos frenéticos escritos por Álvaro do Carvalhal", Lisboa, Arcádia, 1978, com prefácio e notas de Manuel João Gomes; "Contos", Lisboa, Assírio & Alvim, ISBN 972-37-089-1, Agosto de 2004.»

Este promissor mestre da prosa oitocentista, que Alberto Ferreira distinguiu na sua obra Questão Coimbrã", Volumes I e II, Lisboa, Portugália, 1968 (I, pág. 416; II, págs. 233-246), como pioneiro no lançamento da polémica que haveria de catapultar a Questão Coimbrã, segundo a mesma fonte de A. M Nunes, veio a falecer de aneurisma, na data e cidade que já indicámos, pelas 21 horas no prédio n.º 46 da couraça de Lisboa. Foi sepultado no Cemitério da Conchada, em Coimbra.

A família

Como foi dito atrás, Álvaro do Carvalhal nasceu a 3 de Fevereiro de 1844 numa das casas da numerosa família dos carvalhais em Argeriz ou em Padrela. Foi o segundo filho de António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, fidalgo e cavaleiro da Casa Real, e de sua esposa, D. Thereza Barroso Guerra e irmão de Alexandre Carvalhal de Sousa Silveira Teles que também iniciou estudos de Direito em Coimbra, abandonando-os e mudando-se para Lisboa para se matricular em Agronomia, curso que também não chegou a concluir devido à morte do pai.


Álvaro do Carvalhal foi neto paterno de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, fidalgo e Cavaleiro da Casa Real e herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, e de sua mulher D. Rosália Vicencia de Meneses Faria e bisneto paterno de Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt. Aquele seu avô, Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, nasceu em 1783 em Argeriz e foi vereador na Câmara Municipal de Chaves durante três mandatos entre 1819 e 1929, e foi filho do terceiro casamento deste seu bisavô Francisco José do Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, também Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, casado com Isabel Osório. Ainda por via paterna, Álvaro do Carvalhal foi trineto de Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, fidalgo da Casa Real, e de sua mulher Clara Costa Pereira e tatraneto de Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencout, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, que casou em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora e morreu em Chaves onde foi Governador de S. Neutel. Álvaro de Carvalhal, como os restantes Carvalhais dos vários ramos transmontanos, descende de uma ilustre linhagem que remonta ao inínio do século XV, radicando em João de Betencourt, Cavaleiro e General francês que em 1417 conquistou as ilhas Canárias, chegando a exercer o seu domínio pessoal sobre elas durante dois anos, após o que passou às ilhas Terceira e Madeira onde acumulou bastantes doações do rei D. João I e casou com D. Maria de Carvalhal e Silveira e através do filho de ambos, Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira deu início esta linhagem portuguesa.


Outro assunto curioso sobre de Álvaro do Carvalhal é o que tem vindo a ser colocado a respeito da sua descendência. Face à sua prematura morte, julgou-se durante muitos anos, fora do círculo mais restito da família do escritor, que Álvaro do Carvalhal não deixara descendência. Para isso contribuiu decerto, e segundo o já mencionado autor do “Guitarra de Coimbra”, o que se extrai do “Livro de Óbitos de S. Cristóvão” de Coimbra para o ano de 1869, onde o padre Manuel da Cruz Pereira Coutinho anotou – “não consta que tivesse filhos” (sic). Ao que parece, o próprio Álvaro do Carvalhal não chegou a saber que isso não era verdade! Soube-se depois que da sua relação amorosa com uma jovem natural de Braga que exerceu o magistério primário na sua cidade natal e em Esposende, Genoveva da Silva, durante os anos da  passagem de Álvaro pelo Liceu desta cidade, haveria de nascer uma criança do sexo masculino, a qual foi dada pela mãe a criar em Celeirós (Braga) a uma doceira de ofício, no meio da maior discrição, talvez para a proteger de uma eventual reacção de indignação da parte da ilustre família do pai, já que se tratava de um nascimento ilegítimo. Foi a criança, nascida quatro anos antes da morte do pai, baptizada com o nome de Álvaro da Silva Carvalhal. São apresentadas outras possíveis justificações para o silêncio de Genoveva relativamente à existência deste filho, designadamente os receios de que visse retirada a sua licença no Ensino, por ser mãe solteira, o simples estigma que há época pendia sobre esta condição ou até o temor de que a notícia pudesse agravar o estado de saúde de Álvaro, posto que a doença já lhe havia sido diagnosticada durante a sua frequência no Liceu de Braga. Quando a criança atingiu a idade de nove anos entendeu Genoveva enviá-la para o Brasil, confiando-a aos cuidados de um irmão solteiro, para que ela pudesse retomar a sua vida sem maiores embaraços, o que de facto se viria a verificar – casou em Esposende e constituiu nova família. Mas antes que a criança partisse, achou a mãe que era tempo de quebrar o silêncio, tanto perante o próprio filho como a família paterna. O excerto que passamos é uma narrativa interessante do processo subsequente relativo à descendência de Álvaro do Carvalhal.


Antes do embarque, Genoveva inteirou o filho da identidade do progenitor e da existência de familiares em Trás-os-Montes. Viajou com a criança até Algeriz e em chegando à porta de António Teles deu-se a conhecer e disse ao que ia. O idoso António Teles veio receber comovidamente o neto, abraçou-o e gritou para dentro: "Ó Teresa anda cá ver o filho do nosso Álvaro!". Teresa Guerra, mordida pela peçonha da vergonha de um neto "apanhadiço" resmungou e não se deu a ver. O pequeno Álvaro jamais esqueceria as falas secas e duras daquela avó que não se quis dar a conhecer.
Genoveva da Silva, professora de instrução primária, veio a casar em Esposende e ali trabalhou duradouramente. Não ocultou ao marido a existência do filho "ilegítimo". Nascido quatro anos antes da morte do pai (1864-1935), Álvaro da Silva Carvalhal emigrou para o Brasil. Ali se fez "brasileiro milionário", republicano amigo e simpatizante de Bernardino Machado, maçon, ateu e cultivado autodidacta. Regressado a Portugal com 43 anos, o endinheirado filho de Álvaro do Carvalhal estabeleceu-se em Esposende na casa da mãe e do padrasto.
Desembarcado em Lisboa, no seu périplo terrestre para norte percorreu alfarrabistas e livrarias de Lisboa, Coimbra e Porto, com o fito de encontrar um exemplar do livro do pai ("Contos", 1868). Finalmente, por intermédio de uma professora amiga e conviva do futuro sogro, logrou obter um exemplar da obra. Foi mais ou menos nesta altura que o "brasileiro" conheceu Eugénia Abreu, uma burgesinha esposendense, católica, conservadora, com menos 23 anos do que o futuro marido (1887-1958), filha do professor régio de Esposende. O casamento realizou-se no ano de 1907 na Igreja de São Lázaro, Braga. Na época a que nos reportamos eram corriqueiros os casamentos entre noiva provinciana católica e noivo positivista, ateu, maçónico e republicano. As esposas não interferiam na actividade política/ou partidária dos esposos e estes davam carta branca às esposas quanto a baptizados, comunhões e crismas dos filhos.
O casal Carvalhal domiciliou-se em Esposende, local onde foram sucessivamente gerados António Carvalhal (1909-1982), Álvaro Carvalhal (1911-1950), Luís Carvalhal (1913-1995), Joaquim Carvalhal (1915-1995) e Mariberta Carvalhal (1918...).
Na segunda metade da década de vinte, o casal Carvalhal acompanhou o filho António, primeiro no Liceu de Viana do Castelo (até ao 5º ano), depois no Liceu de Braga (até ao 7º ano). No Verão de 1931 toda a família Carvalhal se estabeleceu em Coimbra, com o filho António a iniciar os estudos de Direito. Habitaram sucessivamente em Montes Claros, Ladeira do Seminário, Rua António José de Almeida e Largo da Matemática (actual República dos Inkas). À excepção do aluno de Direito e guitarrista António Carvalhal, os restantes irmãos frequentaram o Liceu D. João III. Mariberta matriculou-se no Infanta D. Maria, tendo ingressado na Faculdade de Letras da UC no ano lectivo de 1937/1938. Integrou a primeira geração do jovem TEUC, foi colega e amiga do estudante escritor Vergílio Ferreira, tendo concluído o curso de "germânicas" em 1944.
O folgado estado financeiro da família Carvalhal, conseguido graças aos lucros obtidos numa fábrica de refinação de açúcar do Brasil, alterou-se em meados da década de trinta. O regime brasileiro congelou fortunas e rendimentos de antigos emigrantes portugueses. As poupanças de Álvaro da Silva Carvalhal não escaparam a este processo. A agravar a situação, Álvaro da Silva Carvalhal faleceu em Coimbra, a 30 de Maio de 1935, balbuciando apenas um insólito "Deus seja comigo".
Sendo a viúva Eugénia Abreu doméstica e inábil para os negócios, o filho mais velho, António Carvalhal, tentou assumir-se como "chefe de família". Abandonou Direito no 3º ano e ingressou em Histórico-Filosóficas, trabalhando ainda na Biblioteca Geral da UC. Os manos Luís, Joaquim e Mariberta matricularam-se em cursos da UC. O mano Álvaro tirou o diploma de ensino primário, após o que fundou e dirigiu em Esposende o Colégio Infante Sagres. Luís, terminado o curso de Histórico-Filosóficas, refugiou-se a partir de 1950 no Rio de Janeiro. Joaquim deixou o curso de Direito por concluir em Coimbra. Por 1950-1951 asilou-se no Brasil, ali tendo concluído Direito e exercido advocacia. António trabalhou como professor no Colégio Alexandre Herculano, Coimbra, mas a partir de 1944 percorreu estabelecimentos de ensino na Covilhã e no Porto, como professor de História e de Português. Mariberta, após passagem por Ilhavo e Porto, radicou-se com a família em Luanda no ano de 1958. Exceptuando António, personalidade muito conservadora e simpatizante do Estado Novo, os restantos manos Carvalhal eram assumidamente do "reviralho".


Álvaro do Carvalhal (neto), faleceu em 16 de Agosto de 1950 em Esposende, solteiro e sem filhos, vitimado por fulminante cancro de estômago.
Luís Carvalhal faleceu no Rio de Janeiro, em 18 de Novembro de 1995, casado, pai de uma filha e de um filho.
Joaquim Carvalhal faleceu no Rio de Janeiro em 5 de Novembro de 1995, solteiro e sem filhos, vítima de traumatismo craniano resultante de atropelamento de bicicleta na via pública.
Mariberta Carvalhal, viúva, é mãe de duas filhas.

In http://guitarradecoimbra.blogspot.com

Bibliografia e outros recursos

cvc.instituto-camoes.pt/.../78-o-fantastico-nos-contos-de-alvaro-do-carvalhal-.html -
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=5890
http://guitarradecoimbra.blogspot.com
http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O Professor Doutor Amândio Tavares

Por Leonel Salvado
Última actualização: 31 de Maio de 2011
O Professor Doutor Amândio Tavares, galeria da Reitoria da Universidade do Porto, in http://sigarra.up.pt/up/album_geral.fotografia?p_id=29 (adaptado)

É com sólidos fundamentos que A. Veloso Martins, na sua Monografia de Valpaços, destaca o Professor Doutor Amândio Tavares na galeria de notáveis de Valpaços, como “desde sempre, o mais ilustre Filho” da então vila, hoje cidade, e chega a asseverar que “a vida e obra de Amândio Tavares deveriam constituir tema e meditação para os estudantes valpacenses, nelas se devendo inspirar e delas receber a mensagem do seu exemplo”, exortação essa que nos cumpre reencaminhar para todos os valpacenses, estudantes ou não, e todos os portugueses, valpacenses ou não.

sábado, 16 de outubro de 2010

I Centenário do nascimento do Dr. Olímpio Seca

Monumento em homenagem ao Dr. Olímpio Seca, na Praça
com o mesmo nome, Valpaços
Guache de Leonel Salvado

É já no próximo dia 25 de Outubro que se celebram os 100 anos do nascimento desta singular figura histórica do concelho de Valpaços, uma data comemorativa que o Clube de História não quis deixar passar em claro, aproveitando para exortar os poderes instituídos e os vários meios de comunicação de modo a que, nesta data especial, o Dr. Olímpio dos Santos Seca mereça mais alguns actos ou mais algumas palavras de homenagem à altura do seu bom nome e da sua venerável obra.

O Dr. Olímpio Seca

No dia 25 de Outubro de 1910 nasceu em Vilarandelo, freguesia do concelho de Valpaços, distrito de Vila Real, no seio de uma família de moderados recursos, Olímpio dos Santos Seca. Aí fez a instrução Primária, ingressando depois no Colégio de Lamego, onde obteve a sua formação no Ensino Secundário, prosseguindo os seus estudos no Curso de Medicina da Universidade do Porto, sendo licenciado por essa Faculdade no ano de 1937.
Começou por se estabelecer e exercer a profissão médica na sua terra natal, construindo aí um consultório particular que escassos proventos financeiros lhe proporcionaram, devido aos parcos recursos económicos da população que a ele recorria em momentos de extrema aflição. Muitos dos pacientes, ao que parece, nem sequer possuíam condições para se deslocarem ao seu consultório, pelo que era o próprio médico, desde jovem, quem se propunha ir ao encontro deles nas localidades circunvizinhas, deslocando-se a pé, a cavalo e, quando se tornou possível, no seu próprio automóvel. Nesta penosaexperiência , mas assumida com abnegação como um dever pessoal, reflectiam-se já os traços essenciais da sua benigna personalidade , que manteve durante o resto da sua vida e ainda ecoa na Memória Colectiva da população do concelho de Valpaços.
Pelo que se extrai da sua biografia da autoria de Jorge Lage, publicada em “Press net Do Douro” e integrada no volume II da obra “Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses”, coordenada por Barroso da Fonte, o Dr. Olímpio Seca passou, em 1945 a exercer a mesma profissão na Casa do Povo de Vilarandelo, e em 1950 no Hospital da Misericórdia de Valpaços. Então, com singular dedicação e conhecida satisfação, tomou diligências no sentido de que aí funcionassem os necessários serviços de cirurgia, começando por convidar para assegurar essa responsabilidade um conceituado cirurgião portuense, Gomes de Almeida. Mais tarde conseguiu, com o mesmo fim, que o cirurgião, Mário Rafael e o anestesista Caiado Ferrão, ambos ao serviço do Hospital de Mirandela, se deslocassem com regularidade ao Hospital de Valpaços. De acordo com a mesma fonte, o Dr. Olímpio Seca foi também médico das Casas do Povo de Rio Torto, Vales e Zebras.
Ainda segundo Jorge Lage, “as suas ideias democráticas e o respeito que granjeou em Valpaços, tornam-no, em 1975, Presidente da Câmara Municipal de Valpaços, até às primeiras eleições autárquicas em 1976.
É do conhecimento geral que a sua vida se transformou numa Cruzada em luta pela defesa das populações das regiões mais carenciadas e que foi devido a essa luta que o nome do Dr. Olímpio Seca, falecido no dia 21 de Outubro de 1983, é ainda conhecido, e recordado com grande admiração, tanto por “ricos” como por pobres, como “O médico dos pobres”.

O “Médico dos pobres”
São inúmeras as referências que fazem jus a este epíteto atribuído ao Dr. Olímpio Seca, tanto as que nos ficaram dos discursos proferidos em cerimónias públicas realizadas em sua homenagem, como as que têm vindo a ser publicadas em vários meios de informação e comunicação impressa ou digital, sob a forma de “memórias locais”, como ainda as que ressaltam da espontânea oralidade popular, na qual, a propósito de tal cognome, há sempre uma comovente e admirável história para contar.

As Homenagens
Em 1985, o povo de Vilarandelo prestou homenagem ao Dr. Olímpio Seca, erigindo-lhe um busto no Largo da Feira. Entretanto, em Novembro de 1995 no Jornal Arauto de Vilarandelo publicou-se esta alegórica descrição do saudoso conterrâneo: “Um médico que foi sacerdote, sacerdote que também foi médico; nasceu pobre e não morreu rico".
A 11 de Novembro de 1996, a Câmara Municipal de Valpaços, com louvável deferência e empenho pessoal do seu Presidente, o Sr. Eng.º Francisco Tavares, seguiu o exemplo dos vilarandelenses, erguendo idêntico monumento num dos mais aprezíveis locais da  então vila, que foi para esse fim previamente sujeito a alguns arranjos de belo efeito arquitectónico e baptizado de “Praça Dr. Olímpio Seca”. No decurso deste acto solene, o Presidente da Junta de Freguesia de Valpaços, Gaspar Manuel Leitão Borges, legou aos valpacenses, num comovente discurso, um esboço biográfico do Dr. Olímpio Seca, realçando as suas principais virtudes e recordando as condições em que elas se revelaram. Desse discurso, transcrevo o seguinte excerto, que foi publicado na obra atrás mencionada, coordenada por Barroso da Fonte:

[…] As populações, principalmente as do interior, tinham carências vitais, de subsistência, de saúde, de acesso ao ensino e de liberdade. É neste contexto que Olímpio Seca desenvolve uma notável acção quer como médico, quer como cidadão interveniente e de compromisso na defesa dos valores de solidariedade, de liberdade e de humanismo actuante. Foi amigo do seu amigo, amigo dos seus doentes e, muito especialmente, amigo dos pobres, numa entrega generosa, fazendo jus à valorização do homem como pessoa em todos os locais e circunstâncias. Foi um humanista no dia-a-dia. Amou os pobres, dedicou-lhes a vida, o saber, as forças e até o dinheiro.

Mais recentemente, a 23 de Março de 2009, o Notícias de Valpaços proporcionava a informação de que o nome do Dr. Olímpio Seca havia sido exemplarmente invocado num jantar-convívio promovido dois dias antes pelo Rotary Club de Valpaços em homenagem ao seu filho, Dr. Manuel Jorge Castro dos Santos Seca, onde, num discurso proferido pelo Presidente desta virtuosa instituição, Taveira Pereira, se louvava o homenageado pela forma como se dedica à sua profissão e aos seus doentes, enquadrando-se no “lema rotário” que é o “Dar de Si antes de pensar em Si”. Ora, não foi esse também, no exercício da mesma "Missão", o lema assumido por seu pai? Foi neste sentido que, nessa mesma cerimónia, o Presidente da Junta de Freguesia de Vilarandelo, José Garcia Ferreira, se pronunciou a respeito do Dr. Manuel Seca, usando (e muito bem!) da metáfora “filho de peixe sabe nadar” para o distinguir como “um exemplar aprendiz dos valores superiores dados pelo pai", distinção essa que me parece bem merecida, por tudo aquilo que ouço contar acerca do bem que este estimado médico tem feito a muitos dos seus conterrâneos.

O testemunho de alguns memorialistas locais
Acham-se amiúde entre alguns “sites” locais, em breves exaltações de personalidades da terra ou em memórias avulsas que tive o prazer de ler, sentidos lamentos pela partida do Dr. Olímpio Seca e vincadas recordações das suas boas acções.
Asssim, por exemplo, em “Valpaços no Sapo”, sob o título “ilustres vilarandelenses”, pode ler-se: “Dr Olímpio Seca - o «médico dos pobres» que nunca tinha horas e mantinha sempre abertas as portas de sua casa, fosse para quem fosse e em que dia fosse!
No site oficial da Junta de Freguesia de Santa Valha, a memorialista Maria Raquel Barros Alves (Professora Aposentada) recordava assim, em Maio de 2009, entre os médicos já falecidos que antigamente se deslocavam a essa aldeia, bem como a outras do concelho, para a vacinação das crianças em idade escolar, o Dr. Olímpio Seca: “O Dr. Olímpio Seca, (já falecido) médico do povo, como lhe chamavam, pensamos também ter vacinado os alunos, deslocando-se às escolas do concelho. De grosso modo, todos eles nos deixaram muitas recordações”.
No mesmo site, Carlos Sá, reportando-se aos velhos tempos em que Santa Valha tinha “tudo menos electricidade” e se vivia “às escuras com as candeias a petróleo”, lembrava com exacerbada nostalgia: “Tínhamos um Padre, um Sacristão, uma Padaria, dois Professores, duas Escolas, três Alfaiates, dois Barbeiros, dois Ferreiros, um sóqueiro, duas moagens de azeitona, uma moagem de farinha, etc. Tínhamos o muito QUERIDO Dr. Olímpio Seca, sempre atencioso a consultar, e se a doença fosse urgente, de imediato havia sempre lugar no seu carro; a estrada de Vilarandelo a Pardelinha deveria levar o SEU nome. Tínhamos o "porco" de Santo António (nossa mascote) A TODOS estes e outros merecem que se fale, que se recorde, bons tempos.
Ainda na mesma fonte um memorialista de Pardelinha (aldeia anexa à freguesia de Santa Valha) que não me foi possível identificar, terminou assim as suas memórias: “Não podemos deixar de referir uma pessoa ilustre da terra (já falecida), que praticou o bem material e pessoal a esta aldeia, sobretudo ao seu povo, como médico, trazendo algum conforto naquela altura, o Dr. Olímpio Seca..., médico dos pobres como era conhecido. Não obstante residir em Vilarandelo, tinha uma das melhores casas agrícolas de Pardelinha.”
Muitas outras memórias e histórias sobre o “humanismo actuante” do Dr. Olímpio Seca poderiam aqui ser transcritas com igual legitimidade!

A família*
Olímpio dos Santos Seca nasceu, como já foi dito, em Vilarandelo, uma freguesia do concelho de Valpaços do distrito de Vila Real, no dia 25 de Outubro de 1910. Foi um dos dois filhos do segundo casamento de António Manuel dos Santos Seca com Maria Nogueira de Melo. Seu pai é ainda hoje recordado na vila como um respeitado homem de negócios que fazia regulares viagens à cidade do Porto. Olímpio dos Santos Seca teve uma irmã chamada Maria Alcina dos Santos Seca que casou com José Fama Balixa e deles houve dois filhos: Victor José dos Santos Seca Balixa e Ildeberto dos Santos Seca Balixa. Do primeiro casamento de seu pai com Teresa Fernandes, houve quatro filhos: Ildeberto Astério dos Santos Seca, Aurora dos Santos Seca, António Manuel dos Santos Seca Jr., nascido em 1889, e Américo dos Santos Seca, nascido em 1891.
Olímpio dos Santos Seca foi neto paterno de José Manuel dos Santos Seca, nascido em 1825 e de Maria Teixeira, e bisneto de João Baptista Gonçalves da Seca, nascido a 23 de Agosto de 1799 na freguesia de Babe, concelho e distrito de Bragança, e de Maria Martins, natural de Grijó de Parada, do mesmo concelho e distrito. As gerações anteriores a este bisavô paterno de Olímpio dos Santos Seca foram todas naturais do distrito de Bragança, repartindo-se entre Babe (mais representativamente) e Caravelas, até ao seu antepassado mais remoto aqui estudado, Domingos Gonçalves da Seca, que nasceu em Babe em 1640 e foi o sexto-avô do Dr. Olímpio Seca. Segundo os responsáveis pela investigação que serviu de base ao relatório abaixo mencionado, até à data do seu nascimento (1640) aquele “Domingos Gonçalves da Secca” «é o primeiro “secca” que aparece em todas as pesquisas efectuadas e com uma descendência muito bem definida». Como os mesmos investigadores sublinham, existem há muito, suspeitas (leia-se probabilidade) de os “secca” serem originários de Itália, mas isso só poderá confirmar-se através da continuação das pesquisas para os anos e décadas anteriores, remontando duas ou três gerações.
Uma nota curiosa a propósito do bisavô do Dr. Olímpio Seca, João Baptista Gonçalves da Seca, é a que o dá como tendo-se estabelecido na terra natal de sua esposa Maria Martins, Grijó de Parada, e se diz que ele aí “trabalhava no ferro”. Sendo esta, a possível designação do mister de ferreiro, poderá servir de indicador de uma eventual antiga tradição profissional dos “Secca”? De momento, a resposta para esta questão talvez só esteja ao alcance da própria família.
O Dr. Olímpio dos Santos Seca casou em 1945 com Maria Fernanda da Mota e Castro e do enlace nasceram três filhos: Maria Helena dos Santos Seca que casou com José Manuel Borda Rodrigues e deles houve dois filhos - Nuno Miguel Borda Rodrigues e Helena Isabel Seca Borda Rodrigues; Rui Manuel Castro dos Santos Seca que casou duas vezes, primeiro com Natália (…?), depois com Filomena (…?), havendo do segundo casamento dois filhos – Ricardo Castro Seca e João Pedro Castro Seca; Manuel Jorge Castro dos Santos Seca (a que já me referi na primeira parte desta publicação) que casou com Guiomar Pinto Coelho Lopo, havendo deles dois filhos – Luís Miguel Lopo dos Santos Seca e Luís Filipe Lopo dos Santos Seca.

*Os dados e nomes publicados neste espaço estão SUJEITOS A RECTIFICACÇÕES E ACRESCENTAMENTOS. Baseiam-se no Relatório Genealógico para “Domingos Gonçalves da Secca”, publicado por representantes da família Seca com base em pesquisas efectuadas através "The Complete Genealogy Reporter", “© 2006-2009 Nigel Bufton Software” sob licença de “ My Heritage Family Tree Builder “, do qual descendem os vários ramos da família “Secca” e particularmente o Dr. Olímpio dos Santos Seca. No referido relatório predomina a forma “Secca”, pelo que entendi actualizar a grafia. O relatório completo encontra-se publicado na Internet em formato pdf sob o seguinte url:

www.secca.info/.../domingosgoncalvessecca/Relatorio%20Domingos%20%20Goncalves%20da%20Secca.pdf
Pode-se também aceder ao site dos “Secca”, especialmente criado para a família, em todo o mundo, através do seguinte url:
http://www.secca.info/

domingo, 12 de setembro de 2010

José de Castro Lopo



O ilustre transmontano

José de Castro Lopo é, a avaliar pelo que dele se tem dito e escrito, uma das mais veneradas figuras históricas de Valpaços, acima de tudo pelos ensinamentos que se podem retirar do seu carácter e sua vida exemplares: Devido à singular inteligência e saber clínico que sempre quis utilizar em favor dos seus doentes, fossem quais fossem as contrariedades que se lhe afigurassem no exercício dessa missão; mas também, devido ao amor que sempre dedicou à família, aos amigos e à sua terra. Tal é o que ressalta do parecer de vários autores, de entre eles o do seu próprio irmão, Joaquim de Castro Lopo, que certamente o conheceu melhor do que ninguém e lhe presta sentida homenagem na sua obra O Concelho de Valpaços, homenagem essa que condiz, aliás com as de outros autores, nomeadamente João da Ribeira (Padre J. Vaz de Amorim), A. Veloso Martins, os autores do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, e se corrobora ainda pelo unânime testemunho de que dele se faz eco na tradição oral desta cidade. Veloso Martins, por exemplo realça, para além das mais conhecidas qualidades do Dr. José de Castro Lopo, a de «cavaqueador emérito», que «gostava de pôr uma pitada de sal do seu espírito nas reuniões a que assistia», e, polidamente, envolver-se em brincadeiras divertidas, como sucedeu num certo sarau em que uma dama que não sabia nada de música mas por delicada insistência dele, Dr. Castro Lobo, ela sentou-se ao piano e, aos primeiros sons do toque das teclas, confessou, «com a face banhada de gozo,» ter descoberto o seu talento. O Padre Vaz de Amorim realça ainda as suas facetas de literato, poeta e jornalista, reportando-se certamente às suas competências enquanto redactor principal do jornal O Povo de Valpaços, pois a maioria dos seus restantes escritos que mais se destacaram são da área médico-cirúrgica, em revistas da especialidade.


O distinto estudante

Não nasceu, José de Castro Lopo, em berço de ouro, mas no seio de uma numerosa família de modestos recursos. Realizados com sucesso os seus exames de admissão aos liceus no Porto, fez aí e em Coimbra o Curso Liceal, com resultados animadores. Frequentou depois a Escola Politécnica do Porto e, de seguida, a Escola Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa sendo aqui laureado como brilhante estudante de Medicina e Cirurgia. Aqui terminou o seu curso, aprovado com louvor e partiu para Paris, onde durante seis meses se dedicou, sob orientação de importantes especialistas, à prática da especialidade em clínica hospitalar, com aproveitamento.


O médico e o benfeitor

Regressado de Paris, exerceu em Chaves como médico municipal e foi também médico da Empresa de Águas de Vidago, prestando aqui, segundo diz Vaz de Amorim (revista Aquae Flaviae, nº 14, 1995) «assinalados serviços como médico hidrologista». Não resistiu o Dr. José de Castro Lopo ao “chamamento” da sua terra natal e ao amor que sempre o uniu à sua família, pois não tardou a regressar a Valpaços, onde dedicou o resto da sua curta vida que foram mais 29 anos ao serviço médico, como médico municipal e subdelegado de saúde. Creio que a sua própria consciência profissional também terá contribuído para este regresso à terra que o viu nascer, pois é sabido que nas décadas de 80 e 90, Valpaços debatia-se amiúde com a necessidade de reforços de assistência médica (os receios de surtos de cólera-morbus, em 1884, e de peste bubónica, em 1899) e de adequadas instalações hospitalares, sendo de recordar que a construção do tão desejado Hospital Municipal só se iniciou em 1882 e foram necessárias novas obras em 1899. Joaquim de Castro Lopo, seu irmão mais novo (já tivemos o prazer de deixar algumas notas neste blogue a seu respeito) resumiu assim o desempenho profissional e outros serviços públicos de José de Castro Lopo em Valpaços:

Durante 29 anos exerceu com a maior inteligência, dedicação e desinteresse a medicina e a cirurgia, cujo exercício para ele foi um sacerdócio, nunca se poupando a fadigas, a calores, a frios, a intempéries, tratando sempre dos seus doentes com desvelados cuidados. Depois de uma vida cheia de trabalhos, morreu pobre.
Em Valpaços fundou com outros a extinta Sociedade de Instrução e Recreio e elevou as festividades de Nossa-Senhora-da-Saúde a ponto de causar admiração de todos aqueles que as presenciaram durante a sua entusiástica gerência.

É desta mole de médicos de abnegação profissional, que sei ter sido prolífica em Valpaços (o Dr. Olímpio Seca será aqui também recordado numa próxima publicação) que os valpacenses se devem orgulhar.


O apaixonado pela República

Quanto ao envolvimento politico de José de Castro Lopo nos partidos dos finais da monarquia, sabemos, por José António Soares da Silva e pela sua obra O Partido Progressista de Valpaços, que o dedicado facultativo e delegado de saúde da Vila alinhou naquele partido, integrando a respectiva comissão executiva, criada em 1897, e mais notoriamente a seguir à demissão de Francisco José de Medeiros da presidência da mesma, o que sucedeu nos finais 1901, começando por ser um dos signatários da carta enviada ao líder distrital do partido, Conde de Vila Real, dando-lhe conta da crise nele se vivia em Valpaços e terminando por se ver provido, em Julho de 1906 no cargo de Vice-Presidente da comissão Executiva do reorganizado centro de Valpaços presidida pelo próprio conde de Vila Real. É ainda de realçar, a partir das informações coligidas pelo mesmo autor de O Partido Progressista de Valpaços, que durante esse tenebroso período de existência do centro do Partido local, o bom médico não hesitou em franquear as portas da sua residência para as reuniões da Assembleia Geral dos seus alegados correligionários. Serão estas acções de José de Castro Lopo reveladoras de um convicto afecto pela  ideologia progressista? Não creio! Não creio, pela simples razão porque também assim não cria um outro ilustre valpacense - monárquico e progressista - que o deve ter conhecido melhor do que ninguém: Trata-se do seu próprio irmão, Joaquim de Castro Lopo, que é quem pouco tempo depois observou que José de Castro Lopo foi sempre um apaixonado da República «tendo apenas por considerações de família acompanhado por algum tempo os progressistas» acrescentando que as suas tendências democráticas transparecem dos seus escritos no semanário local O Povo de Valpaços. Conta-nos ainda que num jantar em Paris, chegou a proferir um brinde em honra a Rafael Bordalo Pinheiro «que com louvor se referiu na imprensa.»


Os últimos dias de José de Castro Lopo

Foram de grande sofrimento físico e de prostração moral os últimos dias vividos por este grandioso médico de Valpaços que, ironicamente, dedicou a sua vida, de corpo e alma, ao combate do sofrimento alheio. Acometido de doença mortal, quis, com admirável intrepidez, manter-se em Valpaços no exercício do cargo de subdelegado de saúde, mas o agravamento do seu estado de saúde, obrigou-o a mudar-se para Lisboa, fazendo-se internar no Hospital de S. José na esperança de aí, onde guardava boas recordações da sua alegre mocidade, conseguir algum alívio. Mas não lhe valeu o esforço, pois aí, no dia 5 de Outubro de 1910, redigiu uma carta de despedida à família, exprimindo a sua mais profunda dor perante a consciência de que era chegado o momento de se afastar das suas amadas filhas, mas não deixando transparcer, nessa sua última mensagem de dor, o mínimo sentimento de consolo perante o triunfo da sua amada República. Veio a falecer dois dias depois nesse Hospital, longe do consolo das filhas e dos netos que dele guardaram uma saudade indescritível.


O legado literário

Segundo opinião do seu irmão, Joaquim de Castro Lopo, que acerca da sua inteligência chegou a afirmar que «o destino funesto jamais deixou brilhar em todo o seu esplendor», José de Castro Lopo deixou poucos escritos. São contudo de enunciar as seguintes obras literárias:

1. Publicações locais:

• Publicação de artigos avulsos no semanário “O Povo de Valpaços”, na maior parte dos 33 números editados desde a sua criação, em 17 de Março de 1910, jornal de que era proprietário o seu genro, António Carolino Monteiro Guimarães, mas do qual era ele, Joaquim de Castro Lopo, o redactor principal. O semanário local foi suspenso a 13 de Novembro de 1910, isto é, cerca de um mês após a sua morte. Foi também articulista  em "A Voz de Chaves", onde publicou, segundo José António Soares da Silva, «composições líricas de valor» de que este autor destaca "Vita in Morte", na edição nº 22 daquele jornal com a data de 11 de Dezembro de 1898 (O Partido Progressista de Valpaços, pp.31-34). 


2. Publicações de natureza cientíca na área mèdico-cirúrgica:

2.1. Considerações sobre a “sarcina ventriculi, Lisboa, 1881. Teses de Formatura.
2.2. Publicações na Revista Portuguesa e Cirurgia Práticas:
Feridas penetrantes no abdómen, Vol I;
A Pneumonia no impaludismo, vol II;
Pústula maligna, Vol V;
Ferimentos do cérebro, Vol VI;
Acefalia incompleta, Vol VIII.


A família

José de Castro Lopo nasceu em Valpaços no dia 13 de Novembro de 1856 e faleceu, como vimos, no Hospital de São José, a 12 de Outubro de 1910. Parece ter sido o 6.º dos dez filhos de Constantino de Castro, natural de Argemil, e de Maria Joana Fernandes, natural de Valongo, ambas aldeias do concelho de Valpaços.

Era, portanto irmão, por ordem de filiação de: João Constantino, abastado homem de negócios que faleceu solteiro em Lisboa; Ana Maria de Castro que casou com seu primo, João Eduardo de Castro, filho de José Joaquim de Castro, com descendência; Luís de Castro que casou com Maria da Conceição Medeiros, com descendência; António de Castro, casado com Maria da Conceição Magalhães Pinto, filha do Padre Luciano de Magalhães Pinto, irmão do Morgado de Valpaços, Ayres de Magalhães Pinto, e da criada, Júlia, com descendência; Constantino que faleceu no Brasil com 24 anos, sem descendência conhecida; Joaquim de Castro Lopo ( nascido a seguir a José de Castro Lopo) casado com Emília Teixeira, com descendência; Maria da Graça de Castro Sarmento, casada com Gaspar Ferreira Sarmento, com desecendência; Maria Teresa que faleceu com 15 anos; Júlio que faleceu com 6 anos.

José de Castro Lopo era, pelo lado paterno, neto de José do Espírito-Santo de Castro e Maria Luísa da Costa, naturais de Ponte da Barca, que se estabeleceram como comerciantes em Valpaços com seus filhos, bisneto de Bento de Castro e Luísa da Costa, naturais de S. Tomé de Estourães, no concelho de Fafe, e trineto de João Luís da Costa e Maria Luísa Fernandes, naturais de Ponte-da-Barca. Pelo lado materno era neto de António José Fernandes, que foi alferes do exército no reinado de D. João VI, por carta real de 14 de Junho de 1825, e Francisca Teresa.

José de Castro Lopo viveu maritalmente com Filomena Sobral, uma senhora alegadamente nascida no seio de uma ilustre família com origens em Valença do Minho e com solar em Chaves,  de quem teve  duas filhas: Adelaide Augusta Sobral de Castro Lopo, casada com António Carolino Monteiro Guimarães, com descendência; Maria da Graça Sobral de Castro Lopo, casada com António José Pimentel, farmacêutico, também com descendência. 

Bibliografia e outras fontes

LOPO, Joaquim de Castro, O Concelho de Valpaços, por Valbel, 1954, Lourenço Marques
AMORIM Padre João Vaz de , Revista Aquae Flaviae, n.º14, 1995
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Lello&Irmão, Porto, 2.ª edição, 1990
Manuscrito inédito: A Família Castro e Valpaços, por Maria Madalena de Castro Medeiros, 1956.
Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães, I Vol.*
*In http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=564&id=3029&actionnoticia
SILVA, José António Soares da, O Partido Progressista de Valpaços, 1886-1910, Ed. CMV, s/d

Nota: Devido a novas informações de que se reconhece necessária credibilidade, esta publicação foi alterada pelo que difere da sua primeira versão publicada na data em epígrafe.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Joaquim de Castro Lopo

última actualização: 21 de Fevereiro de 2012

O ilustre valpacense

Joaquim de Castro Lobo tem sido relembrado como um dos homens mais cultos do seu tempo em Valpaços e, quiçá, em toda província de Trás-os-Montes. Considerado pelo Padre João Vaz de Amorim (Revista Aquae Flaviae, nº 14, 1995, p.193) que o conheceu pessoalmente, quando já passava dos oitenta anos de idade, como «escritor de merecimento e filólogo erudito» subscreveu, o mesmo Padre Amorim, as palavras de José Leite de Vasconcelos (na época, o mais conceituado mestre nacional em linguística e filologia e hoje considerado como um dos precursores da moderna arqueologia e um dos pioneiros da etnografia científica em Portugal) que a propósito de Joaquim de Castro Lobo disse “que fora dos homens mais cultos que ele conhecera durante as suas excursões por Trás-os-Montes”.


O intelectual e publicista

Nascido em Valpaços, a 2 de Novembro de 1860, Joaquim de Castro Lopo deve ter concluído o curso liceal em qualquer data anterior a 1880, pois a 25 de Setembro desse ano, obteve do pároco de Santa Maria de Valpaços a sua certidão de nascimento, com o propósito de se matricular em Direito na Universidade de Coimbra, certidão essa que se guarda nos Arquivos da mesma Universidade com o n.º 165, L.º LXIII, 2ª série. O verbete de matrícula correspondente data de 2 de Outubro de 1883, e no referido Livro de Registo LXIII consta expressamente a referência de ano lectivo de 1883-84 e de 1.º Ano de Direito. Joaquim de Castro Lopo contava então perto de 23 anos e é de supor que tenha frequentado apenas o 1º Ano do curso em que se matriculou, posto que não existem mais verbetes de matrícula em seu nome. Por razões que de momento desconhecemos, Joaquim Castro Lopo renunciou definitivamente à sua pretensão de obter o curso visado, e qualquer razão a aventar, até ver, será meramente especulativa – Impossibilidades financeiras familiares devido à conhecida existência do grande número de irmãos? O irresistível apelo de outros interesses que mais se coadunavam com a sua real vocação e que mais tarde iriam revelar os seus mais conhecidos talentos (imprensa literária, investigação arqueológica, etnográfica, enfim a paixão pelos valores patrimoniais de natureza histórica e cultural)?
A verdade é que durante o resto da sua longa e brilhante vida intelectual e pública, ele foi acima de tudo um autodidacta. Exerceu a profissão de Tesoureiro de Finanças na sua terra natal, ao mesmo tempo que se entregou a um intenso labor redactorial na imprensa local, regional e nacional. Em 1888 fundou o Semanário Avisos, de que apenas se publicaram 12 números, em virtude da incúria dos responsáveis pela sua impressão numa tipografia de Chaves que lançavam o periódico com a pior qualidade material e de composição e revisão, chegando ao ponto de substituir artigos agendados por anúncios de outros jornais. No ano seguinte, começou a participar na Revista Lusitana, recém-criada por José Leite de Vasconcelos, publicando o resultado das suas apaixonadas pesquisas sobre a linguagem popular de Valpaços (aproveitando o ensejo para aí também fazer uma apreciação filológica acerca do topónimo da Vila) e de curiosos romances populares transmontanos, recolhidos da tradição popular em Valpaços. Participou ainda na revista O Archeólogo Português, fundada em 1895 também por Leite de Vasconcelos, e acompanhou este insigne investigador durante as suas deslocações a Trás-os-Montes em trabalhos de campo. Colaborou ainda na página literária de O Primeiro de Janeiro e esporadicamente no Comércio do Porto. Homem extremamente zeloso do património histórico e cultural da terra que o viu nascer, e que conhecia melhor do que ninguém, julgo ter sido ele (já o tinha dito no artigo “A desaparecida bolideira de Valpaços” publicado na categoria “re(en)cantos da memória” deste blogue) quem de forma célere divulgou n’O Comércio do Porto o primeiro atentado cometido, em 1919, contra a integridade da “pedra que bole”, numa mensagem breve, mas eivada de profunda indignação, mensagem essa assinada por “CL”, que depois foi publicada na revista O Archeólogo Português. Da sua extensa produção histórico-literária contam-se ainda, pelo que se extrai do  I volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, as publicações de Viajem ao Jaú, em 1912, Subsídios para a História de Valpaços e Hospital Municipal, bem como a muito apreciada monografia O Concelho de Valpaços, onde também se mencionam aquelas. Convém que se diga que esta última é uma publicação póstuma de materiais de grande interesse historiográfico que o seu autor, Valbel, foi acumulando e sendo descobertos por sua filha, Berta, esta as entregou ao irmão, Constantino de Castro Lopo, que se encontrou perante a honrosa responsabilidade de lhe lavrar um sereno e comovente prólogo e de o fazer publicar, o que veio a suceder no ano de 1954, pela Tipografia Minerva, em Lourenço Marques (hoje Maputo) onde residia. Na mesma obra coordenada por Barroso da Fonte realça-se a sua prodigiosa memória e a sua capacidade para decorar sonetos de autores mundiais.


O político e orador

Uma outra faceta de Joaquim de Castro Lopo é a do monárquico convicto que soube aliar a sua invulgar inteligência, o seu saber e os seus dotes oratórios a uma notável actividade política no seio do Partido Progressista em Valpaços. Graças às pesquisas de José António Soares da Silva sobre O Partido Progressista de Valpaços entre 1886 e 1910, cujos resultados foram publicados na sua interessante obra assim intitulada, não subsistem dúvidas acerca do notável protagonismo exercido por Joaquim de Castro Lopo desde 1886, nos sucessos que o autor considera fazerem parte da «notícia mais recuada do Partido Progressista de Valpaços». Logo no banquete que se seguiu à sessão da Assembleia Geral de 1 de Abril do Centro Progressista do Concelho, onde se deliberou apoiar-se a candidatura  do Dr. Francisco José de Medeiros para as eleições de Deputados em Março do ano seguinte, coube Joaquim de Castro Lopo brindar os seus correligionários com um discurso de invulgar eloquência eivado de optimismo e de exaltação patriótica, exaltação patriótica essa fundada nos actos de bravura dos heróis portugueses do passado, que Soares de Silva interpreta mais como um reflexo da elevação de espírito do orador do que como um artifício calculista de retórica, com o fim de salvaguardar «a recente aliança estratégica de João Franco com os progressistas». Da actividade partidária em curso a partir de 18 de Abril de 1897, Joaquim de Castro Lopo é proposto para 1.º Secretário da Comissão Executiva do Partido em Valpaços por mais de meia centena de militantes signatários. Mais tarde, em 1901, com a demissão do Dr. Francisco José de Medeiros da presidência da Comissão Executiva, Joaquim de Castro Lopo terá intervindo na crise que então se abriu no Partido, participando na decisão dos vários membros do órgão que, por unanimidade, resolveram dissolvê-lo, lavrando a respectiva acta, e sendo um dos signatário da Carta que a 12 de Dezembro desse mesmo ano os progressistas valpacenses enviaram ao líder distrital do Partido, o Conde de Vila Real, solicitanto o seu parecer para uma nova reconstituição dos órgãos do Centro progressista de Valpaços. Perante a ausência de resposta  do Conde de Vila Real até Janeiro de 1906, e a interposição do Conselheiro Sebastião Telles, Presidente do Centro Progressista de Lisboa, que em Junho de 1905 havia enviado um ofício ao Partido Progressista de Valpaços, coube a Joaquim de Castro Lopo lavrar uma extensa carta em resposta ao líder da capital, onde insistia na urgência que se devia atender na reconstituição do partido. Em Janeiro de 1906, o conde de Vila Real informava os progressistas de Valpaços da sua disposição em presidir a futura Comissão Executiva e, finalmente,  a 1 de Julho de 1906 foi celebrada a Assembleia Geral, presidida pelo Pe João Lopes Teixeira Delgado, na casa do Dr. José de Castro Lopo, onde se reorganizou o Partido e se propôs de novo Joaquim de Castro Lopo para 1º Secretário da respectiva Comissão Executiva. Nessa Assembleia mais uma vez Joaquim de Castro Lopo proferiu um sentido discurso abrilhantado pela sua natural eloquência e espírito encorajador, não obstante a conjuntura de incerteza política vigente que culminaria com a implantação da República e com uma mensagem de resignação e impotência dirigida a todos os progessistas pelo seu líder nacional, José Luciano de Castro. Foi neste ambiente de paulatino desânimo que se foi esgotando o fôlego dos progressistas, até à sua dissolução em Outubro de 1910. Joaquim de Castro Lopo ainda sobreviveu a três décadas de regimes sob o signo da República, mas durante todo esse tempo manteve-se incondicionalmente fiel às suas convicções monárquicas, da mesma forma como fiel se manteve aos seus elevados valores morais, ao amor pela  sua terra e à defesa do patrimonónio histórico e cultural da mesma.


O filantropo

Da mesma maneira como se rendeu aos valores culturais do concelho, parece ter-se rendido também perante certas preocupações e responsabilidades de natureza essencialmente filantrópica. Não tanto por, como se sabe, ter sido por sua proposta que o feriado da vila passou de 24 de Junho para a data comemorativa da sua elevação a sede de concelho, 6 de Novembro, mas por ter sido ele quem fundou a 25 de Julho de 1914 Associação Beneficente Municipal de Valpaços e lhe elaborou os estatutos e, num acto de grande humanismo,  ter sido ele a assumir a responsabilidade de canalizar as verbas atribuídas àquela instituição, através de subsídios e donativos, para a construção de um Hospital Municipal. Recorde-se que a Associação Beneficente Municipal foi criada com o objectivo de substituir, na mesma missão de  tomar a seu cargo o Hospital Municipal, a Arquiconfraria do Santíssimo e Imaculado Coração de Maria (fundada em 1875) e a Confraria de Nossa Senhora da Saúde (fundada em 1879) que foram extintas pela Lei da Separação Igreja e do Estado, de 20 de Abril de 1911.  Tal foi o seu empenho nesta causa que nos finais dos anos 30 ainda o Hospital Municipal beneficiava de donativos particulares. Uma nota curiosa: Desde 1877 que foram vários os benfeitores do Hospital, mas um dos maiores de entre eles, já na época da Associação Benificiente Municipal, foi o próprio irmão de Joaquim Castro Lopo, João Constantino de Castro, domiciliado em Lisboa quem, em 1933, para a conclusão do Hospital ofereceu uma esmola de Esc 10 000$00 e, do seu testamento datado de 13 de Julho de 1940 legou Esc. 1000$000 ao mesmo Hospital. Tal era o altruísmo que unia os irmãos Castro! Do envolvimento de Joaquim de Castro Lopo na questão que esteve na origem da fundação da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, a alegada descoberta de uma pegada atribuída a Nossa Senhora, que já foi classificada como uma «invenção dos Castros», devo dizer que me parece que, no mais profundo do seu íntimo, o único aproveitamento que Joaquim de Castro Lopo procurou retirar desta questão foi o da expectativa das pessoas que se reuniram nos paços municipais para decidirem da criação da Confraria em «conseguirem a construção de um Hospital ou a conclusão do que há muito estava começado», e que era, afinal, o que se vinha afigurando como medida urgente em Valpaços, desde 1881.
Visto como um Homem de grande responsabilidade e abnegação, foi Joaquim de Castro Lopo provido no cargo de Administrador da Empresa das Águas de Vidago e Pedras Salgadas, cargo geralmente confiado a reconhecidas figuras de relevo na vida política.
Joaquim de Castro Lopo faleceu na sua residência em Valpaços no dia 17 de Maio de 1952, com a provecta idade de 91 anos. Fez-lhe o município a merecida homenagem dando o seu nome a uma das suas ruas.


A família

Joaquim de Castro Lopo nasceu, como dissemos, em Valpaços, a 2 de Novembro de 1860, sendo baptizado 5 dias depois na igreja paroquial de Santa Maria de Valpaços, como consta da sua certidão de idade, a que também fizemos referência. Foi seu padrinho, João Constantino de Castro, solteiro, caixeiro, morador no Porto, que fez procuração a José Joaquim de Castro, proprietário, morador em Valpaços e tio do baptizado, para assistir ao baptismo, e sua madrinha Ana Maria de Castro, solteira e irmã do baptizado. Foi o sétimo, na ordem de filiação, de uma dezena de filhos de Constantino de Castro, natural de Argemil, e de Maria Joana Fernandes, natural de Valongo, ambas aldeias do concelho de Valpaços, casados em 1847. Era, pelo lado paterno, neto de José do Espírito-Santo de Castro e Maria Luísa da Costa, naturais de Ponte da Barca, que se estabeleceram como comerciantes em Valpaços com seus filhos, bisneto de Bento de Castro e Luísa da Costa, naturais de S. Tomé de Estourães, no concelho de Fafe, e trineto de João Luís da Costa e Maria Luísa Fernandes, naturais de Ponte-da-Barca. Pelo lado materno era neto de António José Fernandes, que foi alferes do exército no reinado de D. João VI, por carta real de 14 de Junho de 1825, e Francisca Teresa.
Joaquim de Castro Lopo casou com Emília Teixeira e dela houve os seguintes filhos:

AMADEU DE CASTRO LOPO. Nasceu a 12-III-1888 em Valpaços e faleceu a 10-V-1888 em Valpaços.

ADELINA DE CASTRO LOPO. Nasceu a 16-III-1890 em Valpaços. Casou com António Augusto Martins, sem descendência. Faleceu a 2-XIX-1973.

BERTA DE CASTRO LOPO. Nasceu a 24-IV-1891 em Valpaços. Faleceu solteira a 7-IV-1986 em Valpaços.

JOSÉ JOAQUIM DE CASTRO LOPO. Nasceu a 9-VI-1893 em Valpaços. Faleceu no Brasil em data incerta, sem descendência.

AMADEU DE CASTRO LOPO. Nasceu a 12-V-1895 em Valpaços. Casou com Benedita Domingues do Nascimento, filha de um fazendeiro brasileiro. Faleceu a 16-XII-1978 no estado de S. Paulo, Brasil. Não se conhece descendência.


CONSTANTINO DE CASTRO LOPO. Nasceu em Valpaços a 7 de Maio de 1897. Casou em África (Moçambique) com Ada Daphne Bruton, e deixou três filhos: Constantino, Madalena e Ricardo. Faleceu em Valpaços a 8 de Julho de 1995. É referenciado na obra coordenada por barroso da fonte DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRANSMONTANOS E ALTO DURIENSES nos seguintes termos:

«[…]Também usou o pseudónimo de Bento de Castro. […] Em 1910, por altura da Implantação da República, Emigrou aos 14 anos para o Brasil, onde permaneceu durante a adolescência. Regressou a Portugal, onde decidiu partir para Moçambique em meados dos anos 20. Aí ganhou raízes. Ingressou no Banco Nacional Ultramarino, onde chegou a gerente da filial de Porto Amélia.
Após o seu casamento em 1933, fundou a Companhia Sagal (Algosão e Sisal) em Porto Amélia em meados dos anos 30 com o cunhado Dr. Luís Eduardo Soromenho. Em 1942 foi transferido para Lourenço Marques, associando-se como sócio gerente da Firma J. A. Carvalho, proprietária da Minerva Central, Casa Bayly, Gráfica Trasmontana, e varias outras livrarias e tipografias localizadas nas principais cidades de Moçambique. Castro Lopo e os seus sócios nestas e outras firmas `as quais se associara, criaram centenas de postos de trabalho em Moçambique. EM 1973 veio à Metrópole, na capacidade de vereador, em representação da Câmara de Lourenço Marques para participar no Congresso de Municípios. Desempenhou durante 30 anos vários cargos na direcção da Câmara do Comércio e Indústria de Moçambique, desde vogal, tesoureiro, secretario, Vice-presidente, Presidente e Presidente da Assembleia Geral.
Devido aos seus vastos investimentos em negócios e imobiliária em Moçambique, e `a idade avançada dos 77 anos, Constantino de Castro Lopo e a esposa permaneceram no país durante dez anos após a independência que se deu em 1975.
Foi colaborador regular da imprensa em Portugal, Moçambique e editou alguns livros em prosa e verso: Poemas Bárbaros, José Ben Jacob, Sem Rumo, Tema Mártir, Câmara de Comércio de Lourenço Marques, Alcorão (tradução do Inglês), Kitab Us Salat, Folhas de Outono. Os seus trabalhos continuam a ser publicados em antologias e outras publicações pelo filho, Ricardo Bruton de Castro Lopo, herdeiro dos direitos de autor.»

Informações adicionais disponibilizadas por Ricardo Bruton de Castro Lopo:
Em 1984 Constantino emigrou para o Brasil com a esposa onde residiu durante seis anos na companhia do filho mais velho, Constantino (Jnr).
Em 1991 o casal regressou a África onde residiu em johanneJburg - África do Sul na companhia do filho mais novo, Ricardo. Em 1994, o casal acompanhou este filho mais novo quando este emigrou com a sua família para Toronto, Canadá.
Em 1995 Constantino (Snr.), com 98 anos de idade, regressou `a sua vila/cidade natal Valpaços, Trás-os-Montes, Portugal na companhia da esposa, onde residiu na Santa Casa da Misericórdia durante mês e meio antes de falecer.
Foi sepultado no cemitério de Valpaços na campa que comprara em 1940 e onde estão sepultados os seus pais - Joaquim e Emília de Castro Lopo.
Constantino de Castro Lopo e Ada Dapne Bruton de Castro Lopo (que veio a falecer em albufeira 18 meses após a morte do marido) teriam hoje os três filhos acima mencionados, oito netos, cinco bisnetas, e um trineto. Estes estão dispersos por Portugal, Brasil, Itália, Inglaterra, e Canadá.



JÚLIO DE CASTRO LOPO. Nasceu em Valpaços a 18-IV-1899. Segundo informações que nos fez chegar uma das suas sete netas, casou em Angola com Olga Ferreira de Lacerda com quem teve seis filhos: Júlio Carlos, casado com Maria Antonieta, Emília Olga, João Constantino, Joaquim Manuel Rui Abel e Ana Maria. Faleceu em Valpaços a 4-III-1971. Este filho de Joaquim de Castro Lopo figura no DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRANSMONTANOS E ALTO DURIENSES, como uma das personalidades distintas do seu tempo, pelo que entendemos transcrever o que a seu respeito se refere, nesta obra:

«Passou mais de meio século em Angola, onde deixou bem marcada a sua passagem por ali. A sua ocupação principal passou a como funcionário público. Mas ele foi, essencialmente, um intelectual. Deixou uma infinidade de obras, para além das muitas dezenas de artigos de carácter científico que deixou nos jornais e revistas, tanto do Ultramar como da Metrópole. Citamos os principais livros: Estudos de historiografia Angolense; O Vocábulo "Loanda" Subsídios Históricos (1942); Para a História da Imprensa de Angola (1962); Recordações da Capital de Angola de Outros Tempos (1963); Para a História do Cacau de Angola (1964) Jornalismo de Angola Subsídios para a sua História (1964); Ensaios bio bibliográficos: Um intelectual Monsenhor Doutor Manuel Alves da Cunha Notas Biográficas e Bibliográficas (1948); Uma Rica Dona de Luanda (1959); Uma Bragança no Cemitério de Luanda; Um doutor de Coimbra em Luanda (1959); Dois Brasileiros na Capital de Angola (1962); Conferências: Em Louvor de Guerra Junqueira: e de sua obra (1950); Para a História do Jornalismo de Angola (1952 reportagens arquivadas em opúsculos), Alguns aspectos dos Musseques de Luanda (1948); A propósito do Centenário da Associação Comercial de Luanda (1965 inédito); Do Amor e do Dinheiro (conf. proferida em 19.10.1951 em Luanda, no Palácio do Comércio, a convite da Sociedade Cultural de Angola). Merece também referência a obra editada pela Agência Geral do Ultramar, com um prefácio elogioso, do Dr. Amândio César. Essa obra, chamou se: Paiva Couceiro, uma grande figura de Angola (1968). Amândio César esclarece que este livro resultou da junção de 37 artigos que Júlio de Castro Lopo assinou em Notícia, a partir de 20 de Fevereiro de 1965, sobre Paiva Couceiro. Igualmente informa que I.C. L. colaborou em A Província de Angola, Faíscas, O Sport de Luanda, Mocidade, A Pátria, Comércio de Angola, A Situação, última Hora que mais tarde se transformou no Diário de Luanda e Notícias. Colaborou ainda nas revistas: Notícia, Angola Ilustrada e Actividade Económica de Angola. Juntamente com Virglio Cidrais fundou a revista KI KI RI KI, sendo ele o director literário e editor e aquele seu associado o director artístico. O insuspeito ensaísta Amândio César escreveu, nesse prefácio: "Não estamos diante de uma personalidade que se lançou à aventura através dos trilhos intelectuais por onde executou a sua vasta e importantíssima obra. Não. Júlio de Castro Lopo é, antes de mais nada, o investigador sério, isento, imperturbável, para quem só os factos e os documentos contam"


ALFREDO DE CASTRO LOPO. Nasceu a 27-XI-1900 em Valpaços. Faleceu a 13-XII-1983 em Valpaços. Casou com Armanda dos Remédios Teixeira Lage.

JOÃO CONSTANTINO DE CASTRO LOPO. Nasceu a 18-IV-1903 em Valpaços. Faleceu a 16-XI-1916 em Valpaços.

AUGUSTO DE CASTRO LOPO. Nasceu a 26-XI-1905 em Valpaços. Casou em segundas núpcias com Júlia Wilson e teve um filho com o mesmo nome. Faleceu a 28-II-1972 na Rodésia.

ALBERTO DE CASTRO LOPO. Nasceu a 2-XII-1908 em Valpaços. Casou no Brasil com Sabina Nunes, filha de um contratante de carnes. Faleceu em Julho de 1969 no Rio de Janeiro, Brasil.

Bibliografia e outras fontes

LOPO, Joaquim de Castro, O Concelho de Valpaços, por Valbel, 1954, Lourenço Marques

AMORIM Padre João Vaz de , Revista Aquae Flaviae, n.º14, 1995
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Lello&Irmão, Porto, 2.ª edição, 1990
Manuscrito inédito: A Família Castro e Valpaços, por Maria Madalena de Castro Medeiros, 1956.
DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRANSMONTANOS E ALTO DURIENSES, coordenado por Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães, I Vol.*
*In http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=564&id=3029&actionnoticia
SILVA, José António Soares da, O Partido Progressista de Valpaços, 1886-1910, Ed. CMV, s/d

Agradecimento: Ao Sr. Manuel Medeiros pelas informações prestadas e pela autorização de consulta e aproveitamento do documento inédito da autoria de Maria Madalena de Castro Medeiros, A Família Castro de Valpaços. Agradeço também ao Sr. Eugénio Borges, descendente da figura biografada,  pelas infomações adicionais que proporcionaram a rectificação de alguns dados genealógicos.

Nota: Devido a novas informações de que se reconhece necessária credibilidade, esta publicação foi sendo actualizada com base em novas informações, pelo que difere da sua primeira versão publicada na data em epígrafe.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Franklin Teixeira


Fervoroso republicano valpacense dos finais da Monarquia e dos primórdios da República, é recordado por seus conterrâneos e descendentes com grande respeito e admiração. Tomou parte, em 1891, no Porto, na malfadada revolta de 31 de Janeiro, que é considerada como o primeiro movimento revolucionário com vista à implantação da República em Portugal. Sabe-se que dos confrontos que se sucederam entre a multidão e a Guarda Municipal, que teve de contar com o auxílio do corpo de Artilharia da Serra do Pilar, de uma força de Cavalaria e do Regimento de Infantaria 18, resultaram 12 revoltosos mortos e 40 feridos. Franklin Teixeira foi um dos que conseguiu escapar com vida à refrega, tendo ainda ensejo de receber das mãos de alguns  dos seus correligionários forçados à rendição, uma das bandeiras com as cores da República, que as forças da ordem fizeram arrear, guardando-a como pôde e exibindo-a orgulhosamente em Valpaços.

Da sua inabalável e incontida dedicação à causa republicana, conta-se uma  outra arrojada façanha que ainda hoje pode causar alguma perplexidade a quem a ouça pela primeira vez: Diz-se que quando o rei D. Carlos, na sua viagem por estas terras, proveniente de Chaves em direcção a Mirandela, se apeou da sua carruagem, naquele lugar de Valpaços em frente do qual se situava o estabelecimento do rico comerciente local,  Eduardo Nunes ( edifício que já não existe, por ter sido mais tarde reduzido a escombros em consequência de um grande incêndio) deu de caras com uma inesperada recepção, onde se contavam alguns republicanos da terra, de entre eles Franklin Teixeira que não se terá coibido a dar, em altos brados, vivas à República, perante a surpresa geral e estupefacção do rei e sua comitiva.

Este acto, cometido por Franklin Teixeira, jamais foi entendido como uma atitude arruaceira, mas antes como uma prova incontestável das suas convicções políticas. Aliás, nem deve ser definido como traço marcante da sua personalidade, cuja nobreza de carácter e espírito tolerante lhe são reconhecidos, ainda hoje, tanto na tradição oral, como em obras monográficas que também lhe fazem referência.

Republicano convicto, mas também prudente apologista da defesa dos bons costumes e da ordem pública, foi ele escolhido pelo Governo Provisório, que se seguiu à triunfante Revolução Republicana de 5 de Outubro de 1910, para conduzir a administração do concelho, missão que, segundo o Padre Vaz de Amorim, cuja credibilidade me parece ser de levar em conta, sobretudo porque as suas palavras foram escritas a menos de quarenta anos de distância dos factos a que se reportam, Franklin Teixeira parece ter cumprido com o necessário sentido de responsabilidade. Do texto daquele autor, a respeito deste valpacense, transcrevemos o seguinte excerto:

Após a revolução de 5 de Outubro, as novas instituições, são aqui [em Valpaços] recebidas com a mesma calma e indiferença que se notara por todo o país. Foi o primeiro administrador do concelho com a República, Franklin Teixeira, membro de uma família ilustre, espírito altamente tolerante e alma aberta aos mais nobres sentimentos. Como autoridade durante o Governo Provisório do novo regime político, soube cumprir o seu dever, impondo-se pela sua grandeza de carácter e austeridade de costumes. E para julgarmos do seu espírito de tolerância, bastará dizer-se que, durante a vigência do seu mandato, em Valpaços e concelho, não houve uma prisão nem se fizeram perseguições por causa da política.

Padre Vaz de Amorim (João da Ribeira), Revista Aquae Flaviae, n.º 14 ed. 1995, p. 199

Existe uma rua com o seu nome, em homenagem dos seus conterrâneos aos serviços públicos prestados.

Nota: Cumpre-me fazer aqui uma observação que é a de que alguns factos recolhidos da tradição oral que expus neste artigo, foram devidamente confirmados, e geograficamente enquadrados, pelo Sr. Manuel Medeiros, a quem de novo, em meu nome e dos restantes membros do presente blogue, agradeço a sua colaboração.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

António Maximino Carneiro



Nasceu em 3.02.1872 na freguesia e concelho de Alijó, distrito de Vila Real, filho de Francisco José Carneiro, natural da freguesia de Carção, concelho de Vimioso no distrito de Bragança, e de Maria do Rosário, de Alijó, casados e residentes nesta vila.

Radicou-se em Valpaços pelos meados da década de 90 com a profissão de “escrevente”onde em 1899 casou com Olímpia Dias da Costa, aqui nascida e filha de um casal oriundo de Montalegre, João Dias da Costa Júnior, Tabelião do Juízo da Comarca de Valpaços,e Guilhermina Augusta de Magalhães Dias. No ano de 1900 trabalhou no Cartório Notarial do 4.º Ofício de Valpaços ao lado do sogro.

Após a implantação da República, em 5 de Outubro de 1910, dedicou-se à vida político-partidária assumindo a liderança do Partido Democrático local. Pela mesma época foi contratado para exercer as funções de “Tesoureiro da Fazenda Pública no concelho de Valpaços”, actividade que ainda exercia em 1937, passando no ano seguinte à categoria de “Tesoureiro da Fazenda Pública Efectivo de Valpaços”. Foi no exercício destas funções que Maximino Carneiro, “o Tesoureiro das Finanças” como era popularmente conhecido, granjeou enorme respeito e simpatia em todos os recantos do concelho, apesar da aversão que o povo costumava sentir em relação aos titulares deste cargo. O Padre João Vaz de Amorim descreveu-o, já em 1944, como um homem «inteligente e trabalhador e possuindo sobretudo a rara qualidade de atrair» (revista Aquae Flaviae Nº 14, Dexembro de 1995). Como bem observou o mesmo Padre Vaz de Amorim, a popularidade, veneração e estima que António Maximino Carneiro adquiriu em todo o concelho sucedeu apesar da impopularidade que o seu cargo de "Tesoureiro de Finanças", aliás da Fazenda Pública, costumava suscitar entre a população segundo provas históricas que a comprovam. Convém recordar, mais uma vez, que os anos subsequentes à Patuleia e ao célebre confronto militar ocorrido em Valpaços que é designado como “Acção Valpaços” até à queda da Monarquia, foram anos de grande agitação popular por toda a antiga Província de Trás-os-Montes e particularmente no distrito de Vila Real e na vila de Valpaços. Basta recordar os motins populares de Valpaços de 1892, um dos mais graves dessa época (contra as obrigações fiscais e arrolamentos prediais), e de 1909 movimentado contra a Recebedoria e a Repartição de Finanças. Nestes tumultos populares, de carácter espontâneo, os insurgentes mostraram-se determinados em descarregar o seu ódio na destruição da documentação que se guardava nas sedes das comarcas fiscais e em atentar contra a vida dos respectivos funcionários, em especial os escrivães da Fazenda, que tiveram que ser escoltados pelo exército para prevenir males maiores (haja em vista no presente blogue o artigo “O motim de Valpaços de 1862”).

Fazendo fé em Vaz de Amorim, que se pronunciou, a poucas décadas de distância, sobre os sucessos que em Valpaços cabem neste contexto da História Regional, e, tendo em conta a sua autoridade decorrente do mérito de ter sido um dos primeiros e mais  perseverantes opositores à ditadura salazarista (veja-se o artigo publicado neste blogue sob o título Valpacenses na luta conta o Estado Novo), não me parece descabido aceitar a seguinte interpretação que é a que se acha implícita no seu discurso: para a acalmia que se registou nos primeiros tempos da República contribuíram, muito certamente, as qualidades morais e o espírito de tolerância de homens experimentados no melhor trato com a população como António Maximino Carneiro e Franklim Teixeira (de quem contamos também tratar aqui, numa próxima oportunidade). É evidente que novas agitações de ordem política ainda dariam lugar, em 1918, na sequência do assassinato de Sidónio Pais, a um circunstancial episódio de ocorrência subversiva em Valpaços, que foi o assalto cometido contra o administrador do concelho, o padre António Borges, mas este é um assunto que nos propomos tratar em outro lugar deste blogue.


Em 25 de Julho de 1914, Maximino Carneiro colaborou com Joaquim de Castro Lopo na criação da bem-sucedida “Associação Beneficente Municipal”, vindo a ser Presidente da Câmara por vários anos a seguir àquela data. Convém referir que esta instituição esteve na origem da “Associação Beneficente Municipal da Misericórdia de Valpaços”, provisoriamente aprovada em 1945 e  transformada, no ano seguinte, com novos estatutos, na “Misericórdia de Valpaços”da qual deriva a actual Santa Casa de Misericórdia de Valpaços. A iniciativa inicial, partilhada por Maximino Carneiro e apoiada pela Câmara Municipal, foi motivada pela necessidade de impedir que as obras do Hospital, em curso sob a égide da “Confraria de Nossa Senhora da Saúde” - formalmente extinta, em 1911, por força da Lei da Separação do Estado e da Igreja - fossem interrompidas e os valores a elas destinados alienados em favor do Estado.

Foi um Homem que sem possuir superiores habilitações académicas foi capaz de se posicionar muito acima das suas responsabilidades e prestar valiosos serviços ao concelho de Valpaços ao lado das demais figuras ilustres do seu tempo.
António Maximino Carneiro faleceu em Valpaços no dia 5 de Dezembro de 1951, com descendência directa.

O seu nome foi consagrado pela Câmara Municipal de Valpaços na toponímia urbana.

sábado, 14 de agosto de 2010

Francisco José de Medeiros

Por Leonel Salvado



Esta importante figura da História Portuguesa, de relevância Local, Regional e Nacional, que nasceu no dia 30 de Abril de 1845 em Valpaços, ainda aldeia (embora já cabeça de concelho desde 1836), e que se fez notar como um dos mais conceituados juristas e políticos do seu tempo, é uma referência bem conhecida dos seus conterrâneos que lhe renderam uma justa homenagem na toponímia da vila (hoje cidade), ao baptizar uma das suas ruas com o seu nome (a Rua Dr. Francisco José de Medeiros). Além disso, o seu nome e a sua obra têm sido merecidamente imortalizados em variadas publicações, quer de natureza monográfica, quer essencialmente biográfica, pelo que muito pouco do que aqui dele me proponho referir será certamente inédito, salvo, talvez, o complemento ilustrativo que entendi apresentar aos leitores do Clube de História e que, em grande parte, só foi possível graças à cortesia e natural disposição filantrópica do Sr. Manuel Medeiros, que não hesitou em autorizar a publicação da foto de família que encabeça este artigo dedicado à memória do seu ilustre antepassado.


Notas biográficas
Subscrevendo as palavras do Padre João Vaz de Amorim na revista Aquae Flaviae, que já foram transcritas por José Lourenço Montanha de Andrade em Valpaço-Lo-Velho, caderno cultural 6, editado pela Câmara Municipal em Agosto de 2001, Francisco José Medeiros «ocupou lugar primacial como homem de categoria social, que pelas suas altas qualidades de carácter, soube honrar esta boa terra [Valpaços] que o viu nascer.»

Segundo as notas biográficas de A. Veloso Martins, na Monografia de Valpaços, e as que se acham no I Volume do Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, Francisco José de Medeiros frequentou o curso de Direito na Universidade de Coimbra, com assinalável distinção e aprovação, fazendo-se já notar pela sua dedicação literária, publicando uma sebenta estudantil em matéria de Direito e um artigo intitulado Alimentos que foi publicado na revista Legislação e Jurisprudência, recebendo os melhores elogios da parte do seu director, o Professor Chaves e Castro. Decidido a seguir a carreira da magistratura, ingressa no Ministério Público e em 1871 foi nomeado Delegadodo Procurador Régio e colocado na ilha Graciosa  obtendo desde então uma rápida progressão na magistratura. De regresso ao continente, em 1876 desempenhou estas mesmas funções nas comarcas de Fafe, Mirandela e Chaves. Em 1886, foi promovido a juiz de Direito de 1.ª Instância de 2.ª classe e, em 1889 ainda exercia essa função na comarca de Cantanhede. Foi depois promovido a juiz de Direito de 1.ª classe exercendo nas comarcas de Arouca, Cinfães, e em várias varas do Porto (1895) e de Lisboa. Em 1901 ascendeu à segunda instância nomeado juiz da Relação dos Açores. Em 1904 foi transferido para o Tribunal da Relação do Porto e ainda nesse ano para o de Lisboa, vindo a ser nomeado vice-presidente desta instituição a 13 de Setembro de 1910 e a Presidente, por Decreto de 25 de Outubro do mesmo ano. 

Entretanto, havia-se afeiçoado à vida política, chegando a ser, em Valpaços,  uma das figuras de proa do Partido Progressista, eleito por várias vezes deputado às Cortes Constituintes pelo círculo desta sua terra natal, a primeira delas em 1879 e em várias outras legislaturas, até 1904, desde que prestou juramento a 14 de Janeiro de 1880. Foi depois, em 1887 nomeado Secretário da Câmara dos Deputados e, por carta-régia de 4 de Abril de 1906, é elevado ao pariato, isto é a membro da Câmara dos Pares, também designada por Câmara Alta, categoria geralmente atribuída às mais gradas figuras da aristocracia. Foi nessa qualidade que, em 1907, Francisco José de Medeiros revelou as mais claras provas do seu espírito liberal e democrático ao insurgir-se abertamente contra a ditadura de João Franco.

Em 1909 integrava o Ministério de Venceslau de Lima, sobraçando a pasta da Justiça. Foi enquanto Ministro da Justiça que procurou materializar um conjunto de arrojados projectos, na mesma linha ideológica liberal e democrática a que sempre se manteve fiel, projectos esses apontados a uma verdadeira reforma do processo penal e da organização judiciária. Assim, apresentou uma série de propostas de lei nas mais diversas matérias, tais como a de responsabilidade ministerial, processo penal, organização judiciária, júri criminal, liberdade de imprensa e casas de correcção para menores. Foi também enquanto Ministro da Justiça que a sua firmeza de carácter lhe acarretou alguns dissabores. Deu-se o caso que o Bispo de Beja, D. Sebastião de Vasconcelos, desavindo com o Vice-Reitor do respectivo Seminário e seu irmão os demitiu do cargo e do exercício do magistério. Apelando ao Governo, os professores foram ouvidos pelo ministro Medeiros que se mostrou favorável às razões das suas queixas e logo insistiu junto do Bispo para que os reintegrasse. Perante a intransigência de D. Sebastião de Vasconcelos em proceder de acordo com as suas instruções, o Ministro da Justiça expediu ao Conselho de Ministros uma portaria com vista à reintegração dos padres queixosos. Como a tal Portaria se opusessem o Presidente do Conselho, Venceslau de Lima, e a própria rainha, D. Amélia, Francisco José de Medeiros, sempre fiel aos seus princípios, entendeu pedir a demissão, abandonando o Ministério nos finais de Outubro de 1909 e sendo substituído na pasta da Justiça pelo Conselheiro Artur Pinto de Miranda Montenegro. A questão, então conhecido por «Questão do Bispo de Beja» e, sobretudo o ousado ataque frontal de Medeiros às mais altas dignidades episcopais que, impunemente se insinuavam no direito de se imiscuírem nas prerrogativas do poder civil, serviram de motivos para que o juiz Medeiros fosse constantemente criticado, na sua pessoa e na qualidade dos seus serviços no Ministério de que se demitira, por parte da imprensa católica e do julgamento a que esta deu lugar relativamente à mesma pessoa por parte de alguns historiadores. Este movimento difamatório tinha porém os dias contados, como contados estavam os dias da monarquia e esbarrou sempre contra uma mole de portugueses que comungavam dos mesmos princípios democráticos do ex-ministro valpacense. Efectivamente, com o advento da República Francisco José de Medeiros viria reabilitadas as suas qualidades morais e políticas em nome das quais os membros do Governo Provisório da República entenderam propor a nomeação do «ex-ministro da Monarquia para o sempre cobiçado cargo de Presidente do Supremo Tribunal de Justiça» (A. Veloso Martins, ob cit), o que se concretizou no ano de 1912 em que Medeiros começou por juiz conselheiro do mesmo e logo depois para suceder a Augusto Carlos Cardoso Pinto Osório na direcção deste órgão máximo do poder judicial, passando a figurar como o seu décimo quarto presidente, desde a sua criação, em 1833, então presidida por José da Silva Carvalho (S.T.J. http://www.stj.pt/?idm=67).


Breves notas genealógicas
É ponto assente que Francisco José de Medeiros nasceu em Valpaços, no dia 30 de Abril de 1845 e faleceu em Sabrosa, a 6 de Maio de 1912. Era filho de Manuel Joaquim de Medeiros e Angélica Teresa Sonim e neto paterno de Francisco Medeiros e de sua mulher, Madalena Nogueira, moradores em Valpaços nos finais do século XVIII, dos quais descende, por linha varonil legítima, a actual família Medeiros desta cidade. Era neto materno de Luís António Sonim e Maria Filipa. Casou primeiro com Elisa de Barros da Silva Leal, casamento de que não houve filhos e, em segundas núpcias, com D.ª Cândida Raquel de Barros Beça Botelho Castelo-Branco - irmã de D. Maria das Dores, casada com o Dr. José Coelho Mourão Teixiera de Carvalho e ambas filhas de Álvaro Xavier de Barros Botelho Ribeiro de Moraes Sarmento. Deste segundo casamento existiu uma única filha, Maria de Barros de Medeiros, que se casou com seu primo João de Barros Botelho Coelho Mourão, havendo deles descendência.

Fontes:
http://www.geneall.net/P/forum_msg.php?id=178117
Supremo Tribunal de Justiça - S.T.J. http://www.stj.pt/
Tribunal da Relação de Lisboa - http://www.trl.mj.pt
O concelho de Valpaços, por Valbel (Joaquim de Castro Lobo), 1954, Lourenço Marques, pp. 79-80