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domingo, 8 de janeiro de 2012

Vilarandelo na rede viária do Império Romano

Por Leonel Salvado


A antiguidade da ocupação humana na área que envolve esta localidade de Vilarandelo, freguesia do concelho de Valpaços e vila desde 12 de Julho de 2011, é reconhecida em inúmeras obras de divulgação nacional e monográfica e a sua localização na referida importante Via Romana Braga-Astorga é também nelas posta em evidência.

A existência de um castro a pouca distância, a Nordeste de Vilarandelo, no Alto conhecido por Muradela (ou Muradelha) tem suscitado a convicção de que a sua antiguidade remonta à época pré-romana.

Mas é a respeito da época romana que surgem os primeiros e melhores indicadores da sua importância, tanto na toponímia como na arqueologia. Valpaços e uma larga parte das freguesias que o compõem encontravam-se no cruzamento ou passagem dessa via romana. Sob o asfalto de uma grande parte da estrada nacional que nos ligam a Chaves, Vila pouca de Aguiar e a Castro de Avelãs, de algumas estradas municipais ou perto delas, sob a vegetação, escondem-se os troços de calçadas que podemos apelidar de itinerários ou “variantes” da importante Via Romana que seguramente desde o início século III da era cristã ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica (Astorga), por Aquae Flaviae (Chaves).
Tem estado a ser feito um estudo minucioso por Pedro Soutinho no sentido de se obter uma reconstituição cartográfica o mais fiável possível deste e de outros itinerários das vias romanas em Portugal. Outros vestígios e achados, tais como pontes romanas ou medievo-romanas e marcos miliários1 associados a esses troços, têm sido de grande valor para a sua reconstituição, ao mesmo tempo que servem para assinalar a importância que os mesmos troços tiveram na complexa rede viária de então, bem como a importância, pelo proveito que delas retiravam, dos povoados hispano-romanos junto das quais elas passavam. E ainda que o topónimo Vilarandelo seja mais recente, nascido talvez nos alvores da nacionalidade, ou antes desta, de um aglomerado de pequenos “vilares” de que os actuais cinco bairros da vila podem remanescer, como sugere Veloso Martins,  avulta a existência de uma elevação natural de que a tradição popular conserva o nome de Cividade2, de onde deriva o nome cidade e que era frequentemente usado na época romana para designar núcleos urbanos de certa importância administrativa. O sítio do Alto da Cividade continua por muita gente a ser identificado como o mesmo sítio da Muradela e, portanto, do aludido castro de Virarandelo, apesar da objecção colocada por Adérito Medeiros Freitas na “Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços”, segundo o qual «os locais de Muradella e Cividade não correspondem ao mesmo sítio». Se a primeira interpretação for a mais acertada, será de concluir pela sugestão de que o vetusto castro de Vilarandelo terá sido administrativamente promovido na época romana à categoria de “civitatem”, no singular e sem genitivo, isto é, sem a indicação particular do povo que a compunha.

Quanto ao enquadramento de Vilarandelo no traçado viário da época romana estabelecido nesta região do concelho de Valpaços, não se torna francamente sustentável a opinião manifestada por A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços ao afirmar, a propósito de Vilarandelo, que «aqui passava uma notável via militar romana, que se dirigia de Aquae Flaviae para o Douro, e que em nossa opinião, nada tem que ver com a famosa estrada Bracara-Astorga.» Tal como tem sido observado por Pedro Soutinho no seu estudo e reconstituição cartográficas dos itinerários das principais vias romanas em Portugal, a verdade é que a “famosa estrada Bracara-Astorga”, a que se refere Veloso Martins, compreendia 4 itinerários distintos, designados por “itinerário(s) de Antonino”, 3 a saber: Por Ponte de Lima; “per loca marítima” (Litoral); pela Serra do Gerês (“Via nova”); por Aquae Flaviae (Chaves). E este último, designado por “itinerário XVII”, compunha-se, por sua vez, de variantes que dele derivavam ou confluíam e de outas vias transversais que com ele cruzavam. Ora, por Vilarandelo passava precisamente o itinerário principal da via XVII, que é designado por “itinerário de Chaves a Castro de Avelãs por Valpaços”, rumo a Astorga (ver MAPA). Mas porque também, segundo Pedro Soutinho, dele derivava, em Valpaços, rumo ao Sul, uma hipotética variante em direcção a Marialva, por Pocinho, Foz-Côa e Freixo de Numão, julgo radicar-se nesta situação o equívoco do autor da Monografia de Valpaços, tanto mais que que o itinerário Chaves - Vila Pouca de Aguiar - Rio Douro, também considerado por Soutinho, não passava junto a  Vilarandelo.

Variante do Itinerário XVII, Chaves – Valpaços – Castro de Avelãs,
 segundo Pedro Soutinho
clique sobre o mapa para aumentar

Podemos finalmente estabelecer assim, em conformidade com o mapa exposto e as pesquisas que estiveram na base da sua elaboração, um roteiro descritivo da referida via romana junto da qual se supõe que tenha florescido uma comunidade hispano-romana no espaço onde hoje se enconta a vila de Vilarandelo e dos principais vestígios que abonam em favor dessa realidade:


VILARANDELO NA VARIANTE DO ITINERÁRIO XVII - AQUAE FLAVIAE (CHAVES) A ASTURICA (ASTORGA), POR VALPAÇOS E CASTRO DE AVELÃS.

«Partindo da Madalena, Chaves, depois de atravessar o Tâmega, segue a direito pela EN103.
Na capela, continua em frente por terra; na bifurcação segue à direita para Quinta. de S. Germano; após o canal segue à esquerda e 50 metros depois, segue à direita onde passa a calçada que ascende ao Alto de S. Lourenço; segue para Eiras (miliário a Constancio I).

S. Lourenço (ver magnífico troço da Calçada de S. Lourenço subindo a encosta; miliário anepígrafo já desaparecido; o acesso à calçada faz-se no miradouro de S. Lourenço continuando depois pela Casa dos Ferradores, Largo do Cruzeiro, Rua da Travessa, até à EN213; ao chegar ao chafariz segue para Juncal). Ponte Romana de S. Lourenço sobre a ribeira de S. Julião (1 arco, a 500 m da povoação e segue para Arco e Lama).

S. Julião de Montenegro (na Igreja paroquial apareceram 4 miliários, miliário Macrino e miliário a Décio, este da milha VI, expostos dentro da igreja, um miliário anepígrafo no adro da igreja e ainda um fragmento na casa do Pe. Fernando Pereira em Vilar de Nantes; continua pelo Alto do Cavalinho, Falgueira, Poças, Alto da Giesta e Barracão)

, Ervões (apareceram 2 miliários nas obras de demolição da capela de Sta. Luzia; um miliário a Macrino que hoje está no terreiro da casa de Hermínio Quintino e outro nas fundações da mesma).

VILARANDELO (miliário a Macrino, apareceu na Capela do Espírito Santo dentro do cemitério e está hoje no jardim junto ao mercado com um outro miliário a Caracala que apareceu no pátio da casa de Francisco Coroado em Vilarandelo; um fragmento de miliário foi para o MRF [Museu Regional de Flaviense] em Chaves)»

Miliários a Macrino, à direita, e a Caracala, à esquerda, no Jardim do Toural, Vilarandelo
Foto da Junta de Freguesia de Vilarandelo

O miliário de Vilarandelo dedicado a Caracala foi datado por António Rodrigues Colmenero do ano 214 d. C. e dele existe uma interpretação (versão de Colmenero) publicada por Adérito Medeiros Freitas na Carta Arqueológica de Valpaços.
O miliário a Macrino foi datado de 217 d. C. pelo mesmo autor.
O fragmento de miliário que se encontra no MRF foi, segundo a mesma fonte, encontrado nas imediações de Vilarandelo e Colmenero admite duas datações possíveis, por tanto poder ter sido dedicado a Constatino I, como a seu filho Constantino o Grande, isto é entre 292 e 305 da potestade do primeiro ou a seguir a esta data.
Segue para Lagoas

«Lagoas (a calçada passa a Norte de Valpaços; miliários deslocados no Solar e Capela dos Morgados Pinto Leite, Casa do Arco).

Possacos (4 miliários; miliário a Magnêncio que apareceu junto à Igreja e hoje está numa casa particular em Carlão, Alijó; miliário a Flávio Dalmácio que apareceu nos alicerces de uma casa no Largo das Duas Fontes e hoje está no MNA [Museu Nacional de Arqueologia]; e mais 2 miliários referidos no CIL II [Corpus Inscriptionum latinarium II] entretanto já desaparecidos: miliário a Macrino? da Qta. do P. António de Sousa, CIL II  4790, miliário a Carino? da Qta. de Francisco da Costa Homem, CIL II 4792; a via desvia da EN206 à direita, pouco depois da povoação, e desce à ponte por 2 km).

Ponte Romana do Arquinho ou de Possacos sobre o rio Calvo (daqui provém o miliário a Maximino e Máximo, CIL II 4788, deslocado depois para a ponte de Vale de Telhas, acabando junto à capela de N. S. de Fátima em Vale de Telhas onde está hoje; indica reparações da via na frase “vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt curante”; referência a mais 2 miliários nas imediações, entretanto desaparecidos; depois da ponte, a via sobe até à EN206 e depois por caminho de terra até ao parque de campismo na margem do Rio Rabaçal).

Ponte Romano-Medieval de Vale de Telhas, sobre o rio Rabaçal (é uma construção medieval, mas que utiliza materiais romanos, como alguns silhares com marcas de fórfex, provenientes da anterior ponte romana que seria mais a jusante no lugar da Barca, onde havia um conjunto de pelo menos 5 miliários que foram deslocados ou estão desaparecidos: o miliário a Galério que está hoje no Museu de Vila Real, o miliário a Maximino Daia que está hoje na casa da família Verdelho em Vale de Gouvinhas, os 2 miliários que estão em Vale de Telhas descritos abaixo e um miliário a Numeriano entretanto desaparecido)

Pinetum, mansio4 a XX milhas de Chaves junto à travessia do Rio Rabaçal. A mansio poderia ser na área do parque de campismo atendendo aos vestígios aí existentes e o povoado de Pinetum poderia ser no Castro do Cabeço da Mochicara em Vale de Telhas. Os vários miliários que apareceram nas margens do rio e que iam sendo agrupados junto à ponte medieval reforçam que a milha 20 era vencida neste local.

Vale de Telhas (miliário a Constantino II junto à fonte romana proveniente da ponte e o miliário a Maximino e Máximo no adro da capela de N. S. de Fátima proveniente de Possacos; a via não passa na aldeia, mas na EN206)»

In Vias Romanas em Portugal, itinerários | http://viasromanas.planetaclix.pt/index.html


O itinerário prosseguia, já fora dos limites do concelho de Valpaços, por Bouça, Ferradosa, Lamalonga, até Castro de Avelãs e, daqui, em direcção a Bragança, penetrando em território espanhol através do Rio das Maçãs, entre Porto Calçado e Vale de Perdizes, até Astorga.

Notas:
1 Miliário (do latim “miliarium”, a parte de “milia passum”, mil passos), marcos colocados ao longo das vias do Império Romano em intervalos de cerca de 1480 metros (equivalentes a cada milha), com informações sobre os responsáveis pela construção e manutenção da via, muitas vezes dedicadas aos imperadores da época em que foram erigidos e tendo na base ou no final da inscrição a indicação da milha vencida na respectiva via.
2 Cividade (do latim “civitatem”, acusativo singular de “civitas”) muito usado na época romana geralmente associado a um determinativo para designar um aglomerado populacional de maior dimensão e importância do que outros como “castrum”, ”vici”, “castella” e “populi”.
3 O Itinerário de Antonino ou Itinerário Antonino (em latim: "Antonini Itinerarium") é um registo das estações e distâncias ao longo de várias das estradas do Império Romano, contendo direcções sobre como deslocar-se entre povoações, presumivelmente publicado pela primeira vez no início do século III, mas cujo autor está ainda por determinar. Dos 372 caminhos descritos, 34 pertenciam à Península Ibérica.
4 Mansio (do latim), local de estada curta, aquartelamento.

Bibliografia e outros recursos:
FREITAS, Adérito Medeiros, Concelho de Valpaços, CARTA ARQUEOLÓGICA, Julho de 2001, CMV, pp. 400-407.
MARTINS, A. Veloso, Valpaços, Monografia, Lello & Irmão, Porto, 2.ª ed., Dez. 1990, pp. 268-263.
PEDRO SOUTINHO, “Vias Romanas em Portugal, Itinerários de Antonino” e “Blogue das Vias Romanas em Portugal” |  http://viasromanas.planetaclix.pt | http://viasromanas.blog.pt |.
Outros recursos on line.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Valpaços, há 100 anos

Por Leonel Salvado

Um pormenor da “Valpaços desaparecida”!
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domingo, 6 de março de 2011

Imaginário histórico ilustrado do concelho de Valpaços II – Os Suevos

Ilustração e montagem de Leonel Salvado | fotos escolhidas de Jorge Fernandes e João Azevedo

Não se trata desta vez de um imaginário histórico foto-ilustrado limitado ao concelho de Valpaços, mas alargado a toda a região de Trás-os-Montes e à antiga Galécia romana. O século V foi uma época obscura em que o colapso do Império Romano do Ocidente permitiu a entrada dos povos bárbaros, como os Suevos, e que assolaram estas regiões pela guerra, o saque e as pilhagens, perante o desespero dos povos já atormentados pela fome e pelas epidemias, como nos relata o cronista Idácio que foi bispo de Chaves entre os anos de 427 e 460. Nesta edição, uma só ilustração temática enquadrada em duas fotos, escolhidas com base nos mesmos critérios do “Imaginário I” publicado a 27 de Fevereiro último.

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A chegada dos Suevos 
Foto escolhida: Jorge Fernandes, in http://saocousasdavida.blogspot.com

As depredações dos Suevos nos povoados rurais
Foto escolhida: João Azevedo, in http://www.pbase.com

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Imaginário histórico ilustrado do concelho de Valpaços I - célticos e romanos

A ocupação céltica, séc. III – II a. C. | Foto: Eugénio Borges, in http://retratosdevalpacos.blogspot.com | ilustração de Leonel Salvado
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A ocupação romana, séc. I a. C. | Foto: Ícones de Portugal - http://mjfs.wordpress.com | ilustração de Leonel Salvado
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Esta apresentação não obedeceu a qualquer fundamento histórico que justificasse a relação geográfica entre as ilustrações e as fotos a que se encontram ligadas. Trata-se de alegorias sobre dois dos povos que ao longo da História ocuparam o território peninsular e, especificamente, o território do concelho de Valpaços, neste caso com toda a verosimilhança. O nosso objectivo, com esta criação iconográfica é mesmo apenas o de proporcionar aos valpacenses uma forma menos maçadora e enfadonha a livre interpretação de realidade que está subjacente às imagens, sugerindo qual terá sido o aspecto e o papel desses povos na evolução histórica nacional e regional. Neste caso, os povos dos castros, os mesmos que eram tradicionalmente considerados rudes e primitivos mas que foram, afinal, exímios metalurgistas, capazes de fabricar utensílios de trabalho e instrumentos militares sólidos e eficazes, bem como refinadas obras de ourivesaria – veja-se o célebre “tesouro de Lebução”, por exemplo! E outros que se lhes seguiram, como os romanos, apostados na difícil tarefa de pacificar as belicosas comunidades castrejas do Norte de Portugal, acabando  por trazer a paz e a prosperidade a esta região, até à chegada dos suevos e visigodos. A escolha das fotos foi aleatória e para essa escolha só tivemos em conta a sua excelente qualidade e as características mais adequadas para obtermos melhor enquadramento das ilustrações alegóricas.


terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

homens grandes: Martim Velho Barreto

Por Jorge Fernandes | 31 de Janeiro de 2011

Martim Velho Barreto

eis um nome praticamente desconhecido da totalidade dos habitantes do nosso concelho.
no entanto, o nome dum homem grande na história deste concelho de Valpaços; um nome que devia ficar escrito, gravado com letras de ouro.
Martim Velho Barreto, natural de Monção - como atesta a inscrição da lápide da sua sepultura na capela-mor da igreja de Santa Valha - foi, durante o século XVII pároco de Santa Valha, de Fornos do Pinhal e provavelmente da Bouça.
há vários documentos em que o seu nome figura:

estas duas pinturas encontram-se no arco cruzeiro da igreja de Fornos do Pinhal. pode ali ler-se que o arco e o tecto da capela-mor da igreja foram mandados fazer (à sua custa?) por Martim Velho Barreto, na era de 1682.

estoutras são imagens de Santa Valha. dois belos e preciosos documentos para a história desta freguesia e do concelho.

a primeira está incrustada no muro da residência paroquial (a que os nativos chamam significativamente Abadia), e, depois duma inscrição do Evangelho (em latim) e que se trata da recomendação de Jesus aos discípulos no decorrer da Última Ceia "tende sempre os pobres convosco!", afirma-se que foi o Padre Martim Velho Barreto que mandou construir aquela casa para pobres peregrinos em 1692.
a segunda é uma imagem da capela de S. Miguel, também chamada de S. Caetano, em que se diz que ela foi reedificada sendo Abade Martim Velho Barreto no ano de 1697.


já ouvi igualmente dizer que foi Martim Velho Barreto quem mandou construir a igreja da Bouça. por aqui se pode concluir e imaginar a grandeza deste homem e da sua obra (não apenas material, decerto) por estas terras.
a nossa homenagem, com o sentimento e a certeza de que há uma história por descobrir e escrever.
in http://saocousasdavida.blogspot.com

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Combate de Valpaços

Por Leonel Salvado
Actualizado a 10 de Maio de 2011
Ficou também conhecido como Acção Valpaços, tratando-se de um dos sucessos da história militar de relevância nacional que ocorreu junto a esta localidade, na altura ainda aldeia, embora sede municipal, depois vila e hoje cidade. O grosso dos confrontos sucedeu nos sectores ocidental e setentrional da periferia oitocentista da povoação, ainda que alguns movimentos militares tivessem, esporadicamente, inflectido um pouco mais para Sul e para Nascente.

OS ANTECEDENTES
Foi uma das batalhas que fizeram parte das lutas liberais entre cartistas (apoiantes da Coroa e da Carta Constitucional) e setembristas (liberais radicais apoiantes da restauração da Constituição de 1822). Este período de guerra civil, a que se passou a designar de Patuleia vinha na sequência do movimento revolucionário que ficou conhecido por Maria da Fonte; afirmou-se na Primavera de 1846, contra o ministério cartista de Costa Cabral e foi despoletado pelo golpe de Estado de 6 de Outubro do mesmo ano, levado a cabo pelo duque de Saldanha (antigo setembrista que abraçou os ideais cartistas), com o apoio da rainha D. Maria II, a qual entendeu assegurar assim a manutenção do trono e da Carta, em aparente risco dada a progressiva intensidade de movimentos anti-cabralistas por todo o país. Os mais acirrados sinais de indignação e contestação perante aquele golpe palaciano, fizeram-se sentir na cidade do Porto, que era então o maior baluarte das hostes setembristas, e, logo aí, o presidente da Câmara, José Passos, mandou encarcerar no Castelo da Foz, o enviado especial da soberana, Duque da Terceira, e nomeou uma Junta Provisória do Supremo Governo do Reino, tal como o haviam feito, 26 anos antes, os primeiros revolucionários liberais do vintismo. No Norte do país, os mais famosos chefes militares setembristas estiveram com a Junta, designadamente os condes das Antas e do Bonfim e o Visconde de Sá da Bandeira. O Governador das Armas de Trás-os-Montes,  Barão do Casal, manteve-se fiel à Rainha e a Saldanha e para dar as melhores provas da sua lealdade apressou-se em reunir toda a tropa que lhe foi possível arregimentar, e com ela partiu de Chaves, a 23 de Outubro de 1846, disposto a atacar a Junta do Porto e ganhar nesta cidade novos partidários. Contudo, em Valongo deu de caras com as forças do Visconde de Sá da Bandeira, General da Junta do Porto, retrocedendo e optando por fazer a travessia do Douro para se juntar às forças do marquês de Saldanha, que actuava na Beira. Com essa intenção passou a Régua, no dia 4 de Novembro, e preparou-se para transpor o rio, pelo Pinhão, mas o Barão de Castro Daire, avisado da sua marcha, impediu-lhe a passagem, fazendo encostar na margem esquerda todas as embarcações que aí se encontravam. Resignado perante o malogro de mais um dos seus intentos, retirou-se para Chaves, pelo caminho de Sabrosa, onde deu entrada quatro dias depois. Entretanto, Sá da Bandeira, que resolvera ir no encalço do Governador das Armas de Trás-os-Montes e dar-lhe batalha onde pudesse nos seus próprios domínios, passou a noite de 10 de Novembro em Carrazedo de Montenegro e dois dias depois assentava arraiais na Veiga de Chaves, estabelecendo em Faiões o seu quartel-general. Mas a 15 de Novembro, por razões que nunca foram devidamente esclarecidas, especulando-se que devido a alguma desconfiança do General quanto à lealdade dos seus regimentos de Infantaria 3 e 15, Sá da Bandeira desistiu da tomada de Chaves e ordenou aos seus homens que iniciassem a retirada em direcção a Mirandela. Pernoitaram as duas brigadas em Ervões e Vilarandelo, e a 16 de Novembro foi retomada a marcha, com uma curta paragem em Valpaços, prosseguindo a mesma na direcção de Rio Torto. Para sua surpresa, porém, chega-lhe a informação de que o Barão do Casal vinha em sua perseguição e se encontrava nas proximidades de Valpaços.

A “ACÇÃO VALPAÇOS”
Confirmada a aproximação a Valpaços do exército cartista, Sá da Bandeira fez retroceder as suas divisões aos limites da povoação e preparou-se para o confronto com as forças favoráveis à rainha e à Carta Constitucional.

As forças em confronto e as primeiras posições de combate
Como sublinha o Padre Vaz de Amorim, em artigo redigido em 1944 e publicado na Revista Aquae Flaviae, O Barão do Casal, que contou com a cooperação militar do Visconde de Vinhais, chefiava, desde o dia 23 de Outubro de 1846, uma brigada composta pelos Regimentos de Cavalaria 6 e 7, pelo batalhão de Caçadores 3 e pelo Regimento de Infantaria 13.

PRIMEIRAS POSIÇÕES DE COMBATE - 16 DE NOVEMBRO DE 1846
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Foi a maioria destas forças disposta em posições topograficamente vantajosas no alto de Mempaz, por cima do Barreiro, e as restantes em locais contíguos à área ocupada pelas forças inimigas, que assinalaremos adiante.
Segundo o mesmo autor, que se baseou nas informações do general Ribeiro de Carvalho e que constam na sua obra Chaves Antiga, o Visconde de Sá da Bandeira havia partido do Porto com uma divisão composta por duas brigadas: Uma brigada constituída por Infantaria 3, Guarda Municipal do Porto, 1º batalhão dos Artistas da cidade do Porto e um contingente do 2º batalhão da mesma unidade; uma outra brigada formada por Infantaria 15, um contingente de Artilharia 3 e pelos batalhões de Vista Alegre e de Baião.
Tratou o General da Junta do Porto de posicionar uma parte da sua divisão, constituída pela Guarda Municipal do Porto, o batalhão dos Artistas da mesma cidade e o batalhão de Vista Alegre fora da Vila, a Sul e no caminho de Ervões, desde o cimo da Cortinha Grande até à Veiga; para assegurar a esquerda da linha defensiva foram os regimentos de Infantaria 3 e 15 e o batalhão de Baião colocados em vários dos pontos mais altos da Cortinha Grande, Vale-das-Amoreiras e Fontainhas.

A primeira fase dos combates
Iniciou-se o confronto por volta das 3 horas e trinta minutos da tarde de 16 de Novembro (uma Segunda Feira) de 1846 quando o Visconde de Vinhais avançou sobre a esquerda da linha defensiva de Sá da Bandeira, ao comando de uma parte da Cavalaria, algumas forças do batalhão de Caçadores 3 e da Infantaria 13, soltando vivas à Rainha e à Carta e acercando-se dos Regimentos de Infantaria 3 e 15. A soldadesca da Infantaria 3 depressa se rendeu à causa cartista e as praças do Regimento de Infantaria 15 seguiram-lhes o exemplo, rebelando-se contra as ordens do seu comandante, o coronel Feio, que havia dado ordens para que formassem em quadrado de modo a resistirem à Cavalaria inimiga. Foi o coronel imediatamente preso, juntamente com outros oficiais que também insistiram em manter a sua lealdade a Sá da Bandeira e à causa dos patuleias.

DESENVOLVIMENTO DO CONFRONTO - 16 DE NOVEMBRO DE 1846
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Apanhados no meio de tal confusão os populares do batalhão de Baião precipitaram-se sobre o reduto onde se dera à traição, crendo que a cavalaria tinha sido dominada pelos seus, mas foram logo recebidos a tiro pelos próprios regimentos traidores e seus novos aliados, debandando e, em grande desordem, perseguidos pela Cavalaria ao longo dos trilhos, matas e pinhais de Rio-de-Lobos, Guitarro e Carrapata que se estendiam em direcção a Rio Torto, sendo por ali massacrados e alguns dos seus cadáveres barbaramente mutilados.
Desta traição surgem ecos na imprensa regional coeva, tal como se dava conta "António Rodrigues Sampaio,  jornalista e político no Portugal Oitocentista", segundo o livro publicado com este título por um grupo de autores sob coordenação de Jorge Pedro Sousa, que do referido jornalista fazem a seguinte citação, um pouco vaga mas suficientemente elucidativa:

«O estandarte popular tremula em todo o país. A opressão tem por seu apenas os palmos de terra que pisa. (…) A resistência foi simultânea no Porto, Coimbra e Algarve. (…) Em Viana do Alentejo derramou-se em batalha campal o primeiro sangue. (…) O Alentejo ficou livre (…). Em Trás-os-Montes, a causa popular foi menos feliz. O povo decidiu-se logo por ela (…), mas traído pelo barão do Casal levantaram mãos (…) contra os seus próprios pais e irmãos – Vagabundos e fugitivos, percorreram esses soldados algumas terras do Minho, que assolaram com as suas violências (…) – fugiram das vista do Porto e foram encurralar-se em Chaves (…). O que não pôde fazer o valor, fê-lo o ouro (…) e na acção de Valpaços, por uma vergonhosa traição, (…) entregaram-se.» [1]

Rompida a esquerda defensiva organizada peloVisconde de Sá da Bandeira, esteve este mesmo General da Junta do Porto em risco de ser capturado pela infantaria inimiga, não fora a pronta intervenção do seu ordenança, mais tarde celebrizado com o nome de Zé do Telhado, que arrojadamente o resgatou das mãos de alguns infantes, acto que iremos descrever mais para a frente neste artigo. Sob vigilante guarda do seu fiel ordenança, Sá da Bandeira foi conduzido em segurança para os Penascais, na estrada de Rio Torto.

O confronto final e o seu desfecho
Observando do sítio dos Penascais que o fogo continuava e que a linha de defesa parecia recompor-se, Sá da Bandeira voltou a ela, percorrendo-a e encarando de novo o inimigo no local do Barreiro. Enquanto anoitecia, o combate tornava-se mais aceso, disputando-se o terreno palmo a palmo, sem ganhos significativas de parte a parte. Uma porção do que restava das forças de Sá da Bandeira tentou ainda heroicamente subir as vinhas da Veiga e confrontar o inimigo naquele mesmo sítio do Barreiro. Nesta fase mais viva, mas ainda de incerteza quanto aos resultados da peleja, o fogo estendia-se em arco de círculo desde o Vale-das-Amoreiras até à Freixeda.

BATALHA FINAL - AO ESCURCER DE 16 DE NOVEMBRO DE 1846
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Cederam, por fim, já noite adentro os patuleias, e, segundo a descrição coeva da batalha registada numa folha de papel almaço por Constantino de Castro, salvaguardado pelo filho, Joaquim de Castro Lopo e, enfim publicada pelo neto, Constantino de Castro Lopo, em “O concelho de Valpaços, por Valbel” (L. Marques, 1954, pp. 87- 90), Sá a Bandeira, na companhia de todo o seu contigente, «recolheu a Valpaços e pela meia noite marchou estrada de Murça», acrescentando (em nota) que lhe serviu de guia «um popular de Valpaços de nome Luís Teixeira Ferlim, por alcunha o 'Sete fêmeas'». Segundo Castro Lopo, foram apenas em número de dezassete as vítimas mortais resultantes do combate e em número de quatro os feridos.

Considerações finais sobre a batalha
A retirada «por Murça até ao Pinhão onde as tropas liberais de Sá da Bandeira tomaram barcos e regressaram ao Porto pelo rio Douro» (“João da Ribeira, Revista Aquae Flaviae) selava  a derrota dos patuleias na “Acção Valpaços”, sendo assim que é considerada na História de Portugal.
Da sua retirada para o Porto, regista ainda o jornalista António Rodrigues Sampaio os sucessos cometidos por Sá da Bandeira no  inesperado confronto a que ainda foi sujeito contra  as forças de MacDonell, chefe liberal dos miguelistas que entretanto fora aliciado pelos cabralistas:

«McDonell [chefe dos rebeldes miguelistas] foi chamado entre nós pelos cabralistas (…) e ousou atacar as forças do visconde de Sá na sua marcha para o Porto. O resultado desta ousadia foi deixar no campo (…) 17 mortos, muitos prisioneiros, e escapar ele mesmo por uma precipitada fuga para ir contar ao seu cúmplice Casal a notícia da sua derrota.» [2]
  
Encarada, todavia sob o ponto de vista dos seus resultados práticos e até à luz da ética militar, existem óbvias objecções quanto à legítima vitória dos partidários da rainha e da glória que seria de lhes caber na Acção Valpaços.
Uma dessas objecções surge-nos na expressão do general Ribeiro de Carvalho, cuja obra já foi por nós mencionada, e encontrámos citada pelo mesmo Padre Amorim da seguinte forma:

«As tropas da patuleia foram enfraquecidas por uma traição e as do governo não souberam aproveitar a sua superioridade numérica, abandonando o campo do inimigo, sem que sobre ele tivessem alcançado qualquer resultado decisivo». [3] 

Outra objecção retira-se da memória das populações das imediações de Valpaços, sobretudo da de Vilarandelo, acerca dos roubos e estragos aí praticados durante e após os confrontos militares, memória essa registada no papel por Joaquim de Castro Lopo e pelo mesmo realçada numa pequena anotação que é a seguinte:

«Foram tão grandes os roubos e estragos causados pelas tropas do Casal em Vilarandelo que ainda hoje (1942) estão vivos na lembrança do povo.» [4]

Ainda a propósito dos excessos cometido em Vilarandelo pelas tropas do Casal se faz eco A. Veloso Martins, nos seguintes termos:

«Terminada a violenta refrega, as tropas do Casal, na euforia da vitória, subiram a Vilarandelo a pilhar e a saquear a indefesa população» [5]

Tais excessos, também praticados em outros lugares, como em Ervões, contrastaram, segundo o insigne autor valpacense, com a brandura e probidade com que geralmente se portou a gente de Sá da Bandeira. Apesar do indecoroso, aliás irónico, comportamento da soldadesca confiada ao General das Armas de Trás-os-Montes contra a própria gente da sua circunscrição, deixou o mesmo Joaquim de Castro Lopo algumas notas de justa homenagem, mais tarde sucintamente relembradas por Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços, sobre a dignificante postura da população desta povoação que, segundo este último autor, tratou de dar piedosa sepultura aos mortos no seu cemitério e o melhor tratamento aos feridos, sem olhar a partidos. Observe-se que, segundo Castro Lopo, 4 dos 17 mortos sepultados no cemitério de Valpaços pertenciam às forças do Casal, sendo um de Cavalaria, um de Caçadores e dois do Regimento de Infantaria 13. Acerca do tratamento dado aos quatro feridos, ele foi prestado, segundo a mesma fonte, com a «caridade digna de todo o elogio, sendo assiduamente assistidos pelos hábeis facultativos, o médico Zeferino José Pinto e o cirurgião Garcês

A Acção de José do Telhado

Desenho e guache de Leonel Salvado
Não obstante o desaire dos patuleias na Acção Valpaços, destacou-se nela o feito heróico de uma das figuras das fileiras da Junta do Porto, José Teixeira, a quem se deve o salvamento da vida do respectivo general, o Visconde de Sá da Bandeira, na ocasião da traição dos regimentos 3 e 15. Imortalizado mais tarde pela tradição com o nome de José do Telhado por actos menos honrosos, adquiriu em todo o país a fama de fora-da-lei e de temido salteador, cujas façanhas mereceram a atenção de destacados escritores e autores de Banda Desenhada que o retratam nas suas obras. A sua invulgar bravura em batalha já havia sido notada pelo duque de Saldanha na Revolta dos Marechais, em 1837, enquanto lanceiro da Rainha, tendo sido por recomendação do mesmo Saldanha que passou a ordenança nas hostes de Sá da Bandeira. Diz-se que, sendo já sargento, em 1847, por ocasião da Convenção do Gramido (que pôs termo às guerras da Patuleia), arrancou as divisas e se fez salteador. Existem várias versões, nem todas condizentes, a respeito dos pormenores acerca da sua arrojada acção em Valpaços, das quais prefiro transcrever a que retirou Joaquim de Castro Lopo das Memórias do Cárcere, contada pelo próprio Zé do Telhado a Camilo de Castelo Branco, com quem conviveu nos calabouços da Relação do Porto e quem a registou na sua obra, entre de outras façanhas que o bravo proscrito lhe foi relatando.

«Quem nesta ocasião [da entrega dos dois regimentos, 3 e 15] valeu a Sá da Bandeira foi o mais tarde célebre salteador José do Telhado. Este acompanhava Sá da Bandeira como ordenança. Na passagem dos dois regimentos de infantaria, um soldado de infantaria lançou a mão às rédeas do cavalo do general, outro fez-lhas largar. José do Telhado que tudo presenciou, tomando as rédeas do cavalo do general e metendo o seu a galope, obrigou os cavalos a saltarem um valado. No mesmo momento algumas balas passaram por cima da cabeça de Sá da Bandeira, lançadas pelas espingardas de soldados de um dos regimentos traidores. Três soldados de cavalaria carregaram sobre Sá da Bandeira. José do Telhado fez-lhes rosto. Desarmou um, feriu outro mortalmente e ao terceiro que ia fugindo, varou-o pelas costas. Cumprida esta façanha, José do Telhado recebeu das mãos do general a condecoração da Torre e Espada.» [5]

Referências

[1]SOUSA, Jorge Pedro et alii, António Rodrigues Sampaio, jornalista (e) político no Portugal Oitocentista, Labcom 2011, p. 112.
[2] Id. Ibid., p. 116
[3] AMORIM, Padre João Vaz de, Revista Aquae Flaviae, n.º 14, 1995, p. 196
[4] LOPO, Joaquim de Castro, O Concelho de Valpaços, por Valbel, Lourenço Marques, 1954
[5] MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Lello & Irmão, 2.ª edição, Porto 1990, p.75
[6]LOPO, Joaquim de Castro, id. Ibid. 

 Nota Final: A reconstituição cartográfica aqui elaborada, em três partes, é de limitado rigor, e portanto, sujeita a modificações. Em todo o caso, cumpre dirigir uma palavra de agradecimento ao Sr. Manuel Terra pela diligente colaboração prestada na exacta localização de alguns topónimos mencionados nos documentos antigos que consultei relativos ao combate de Valpaços. Uma nota de agradecimento ainda a João António Vaz, natural de Valpaços, a quem ficámos a dever a  referência bibliográfica que nos foi proveitosa e se encontra assinalada em [1]  e [2].

sábado, 11 de setembro de 2010

Valpaços, no tempo da Mala Posta



A Casa da posta em Valpaços

Retiram-se da tradição oral das pessoas mais antigas de Valpaços, vagas referências à «taberna», nome porque era antigamente conhecida a estalagem ou casa da mala posta, situada no antigo caminho entre Valpaços e Mirandela, onde fazia escala a diligência, que assegurava o transporte do correio, e de raros passageiros, nesta região. Estas memórias, que têm admiravelmente resistido à voragem dos tempos, parecem-me fiáveis e podem ser corroboradas por estudos científicos que já foram publicados sobre a rede de estradas portuguesas antes da motorização e, em particular, sobre o serviço da Mala Posta em Portugal, como adiante se poderá constatar.


Enquadramento histórico

Convém recordar que até à segunda metade do século XVIII, quando se procurou estabelecer em Portugal os serviços de transporte de correio da Mala Posta, as escassas vias e as más condições das que existiam obrigavam a que as pessoas continuassem a deslocar-se se a pé ou com o recurso a animais, como vinham fazendo durante a Idade Média, destacando-se neste desgastante labor a secular figura do almocreve ou do recoveiro. As calçadas romanas, originalmente criadas para a deslocação dos exércitos imperiais, mas em grande parte arruinadas por falta de manutenção e confinadas a espaços muito reduzidos, continuavam, ainda assim, a servir como a única alternativa ao movimento da população e à manutenção da vida económica de muitas regiões do interior. Nessa época o transporte de correio fazia-se a pé, de sacola às costas, no dorso de lentos muares, ou, mais raramente a cavalo. Assim funcionava no reino o serviço do Correio Mor, um ofício postal criado por Carta Régia de D. Manuel I de 6 de Novembro de 1520 que confiava a gestão desse serviço a Luís Homem. Este serviço, então caro e ineficiente, de que apenas os mais abastados tiraram algum proveito, esteve sujeito a nomeação régia, até que Filipe II o vendeu a Luís Gomes da Mata Coronel, pela quantia de 70.000 cruzados, dando início à primeira dinastia postal do mundo e cuja família manteve o seu monopólio durante quase dois séculos, sem grandes benefícios para a maioria da população. [1] Este estado de coisas parece ter começado a melhorar a partir de 1780, no reinado de D. Maria I, a qual determinou que fosse realizado um conjunto de obras públicas (construção de estradas e melhoria de outras, construção de pontes…), mas apenas em três áreas do país: Lisboa, Coimbra e região do Douro. [2] Mais tarde, por decreto de 1797 a Coroa estatizou a lucrativa actividade postal do correio mor explorada pela família Mata, que passou a ser explorada directamente pela Corte. Entretanto, já em 1788, José Diogo de Mascarenhas Neto havia publicado o Método para Construir as Estradas em Portugal. Este José Mascarenhas Neto, também autor das Instruções para o estabelecimento das Diligências entre Lisboa e Coimbra e, uma vez nomeado para o cargo de Superintendente Geral dos Correios e Postas do Reino, continuou a dar especial importância à estrada Lisboa – Coimbra, «na qual se viria a introduzir o serviço da mala-posta que, além do correio, fazia também o transporte de passageiros.» [4] Mas com o tempo o serviço da mala-posta foi-se alargando para outras regiões.

Efectivamente, segundo Elsa Pacheco, no início do século XIX, de acordo com o plano desenvolvido por Mascarenhas Neto, «os eixos centrados em Lisboa [tinham] por destino, além da Aldeia Galega (na saída para Espanha), Valença, Faro e Chaves (passando por Viseu), e do Porto [irradiavam] vias para Caminha, Chaves e Bragança» Segundo a mesma autora, «a ligação entre o Porto e Caminha [fazia-se] por Vila do Conde, Barcelos e Ponte de Lima; entre o Porto e Chaves, por Guimarães e Barroso e, entre o Porto e Bragança, por Penafiel, Amarante, Vila Real e Mirandela». [5]

Ora, o que se diz sobre a célebre «taberna» parece-me poder inserir-se geográfica e cronologicamente neste quadro das vias servidas pela mala-posta no trajecto Porto - Bragança, sendo no entanto de observar, como o faz Elsa Pacheco, que «o território a norte do Douro, talvez pela distância que o [separava] da capital do reino e pelas dificuldades de atravessamento do rio Douro, [apresentava] um serviço da responsabilidade dos Correios Assistentes ou Comarcas”. Pretendo com isto dizer, na senda desta observação, que talvez a comarca de Valpaços, instituída como se sabe a 31 de Dezembro de 1853, se visse, a partir desta data na obrigação de assegurar esse serviço dentro da área da sua jurisdição. Não obstante a real evidência de que em muitas regiões os caminhos-de-ferro tiveram como consequência o declínio da mala-posta, tal consequência não me parece ter sido tão evidente na comarca de Valpaços, apesar dos esforços dispendidos, e bem sucedidos aliás, pelo nosso já biografado Júlio do Carvalhal, enquanto deputado às Cortes pelo círculo da mesma sede concelhia, pela construção de uma linha ferroviária entre o Porto e a Régua. Atendendo à posição periférica desta região relativamente à expansão da rede ferroviária que foi promovida por Fontes Pereira de Melo, é de crer que os serviços da mala-posta ainda tenha prevalecido por aqui por várias décadas até à era da motorização rodoviária, com as dificuldades e os sacrifícios que a sua manutenção impunha. Será, portanto de confirmar a tradição a respeito da mala-posta de Valpaços, cuja referência unanimemente enraizada na vaga memória das mais antigas gerações valpacenses é a célebre Taberna. Se as pobres estradas da comarca de Valpaços foram, antes da motorização subsidiárias da rede de navegação fluvial, também o passaram a ser relativamente à rede ferroviária no contexto da mesma ligação Porto-Bragança. A prova de que a "Diligência de Valpaços" ainda se encontrava em serviço em 1913 - ainda que não sirva para corroborar os atributos tradicionalmente atribuídos à Taberna - surge numa aguarela de Alberto de Souza publicada na edição desse ano da Ilustração Portuguesa e reproduzida por José António Soares da Silva numa das suas recentes publicações. [6]

A “taberna” da mala-posta

Situa-se a cerca de 1,5 Km a sudeste do limite da rua do Tramagal e início da N203, por um caminho que daqui se dirige para nascente. As coordenadas geográficas do local, obtidas no Google Earth, são as seguintes: 41º 34´.17” de Latitude N / 7º 17`.84” de Longitude W. Como se documenta na foto inicial, o que resta do primitivo edifício encontra-se na bifurcação de duas vias que se estendem nos sentidos poente e Sul. Junto do local existe um cruzeiro. A primeira impressão que se fica acerca do edifício pode parecer desanimadora!

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O imóvel encontra-se bastante descaracterizado, face ao que seria de esperar de uma Casa de Posta, havendo nele sinais de grandes remodelações recentes coexistentes com outros claros sinais de abandono e ruína. Contudo, existem alguns pormenores na estrutura actual da Taberna que nos permitem ainda obter uma vaga ideia do seu aspecto original. Um desses pormenores sugere nitidamente que o edifício se alongava uns bons pares de metros no sentido de nascente, pois uma boa parte da parcela arruinada diminui nessa direcção. Trata-se da parede Norte que creio ter sido a fachada do edifício, onde se denota nitidamente uma porta que foi preenchida com pedra miúda e à esquerda da qual existem duas janelas, uma delas estruturalmente preservada e outra incompleta. É improvável, atendendo ao alongamento primitivo da construção a que fiz referência, que o telhado de duas águas que o actual proprietário construiu sobre uma parte do que restou do edifício tivesse, originalmente, essa estrutura e orientação. Em todo o caso, a antiga Taberna seria bastante diferente dos edifícios construídos de acordo com as normas definidas por José Mascarenhas Neto para as estalagens e Casas de Posta segundo as quais as construções deviam apresentar uma planta em forma de “U”, compreendendo três compartimentos distintos (refeitório, dormitório e cavalariças) e um pátio central, como as que foram construídas em várias regiões do país. Parece-me de supor que a Taberna se trataria de uma estalagem modesta, diferente das existiam em zonas mais movimentadas e, portanto, talvez respeitando os requisitos menos exigentes do correio local ou da comarca, como já admiti, e não as rigorosas directrizes que foram impostas pela Superintendência Geral dos Correios e Postas do Reino. O estilo singelo desta Casa da Posta, não desvaloriza, porém, a importância que a memória colectiva dos valpacenses lhe atribui para um passado que é sempre difícil, sem provas documentais, definir os respectivos limites cronológicos. Na 2ª metade do século XIX,o local devia ter, grosso modo, até prova em contrário, o aspecto que sugiro na minha reconstituição desta edição do “Re(en)cantos da Memória”.

A Taberna, Casa da Mala Posta na 2ª metade do século XIX (reconstituição)
desenho e guache de Leonel Salvado


A Diligência da Valpaços – aguarela de Alberto de Souza,  Ilustração Portuguesa, 1913  
in José António Soares da Silva, O Partido Progressista de Valpaços, 2006


Referências

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Correio-mor
[2] http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/143.pdf
[3] http://www.fpc.pt/FPCWeb/museu/displayconteudo.do2?numero=18849
[4] http://ler.letras.up.pt, Id
[5] Id, ibid
[6] SILVA, António Soares da, O Partido Progressista de Valpaços (1860-1910), C. M. de Valpaços, 2006, p.37

Agradecimento: Como vem sendo costume, cumpre-me agradecer ao Sr. Manuel Medeiros por ter sido graças a ele, e na sua companhia, que me foi possível ir ao encontro de mais um fragmento da “Valpaços desaparecida”. O meu Bem-haja também ao Sr. José Lourenço de Andrade pelo contagiante entusiasmo que manifestou relativamente a este (e a outros!) temas do inesquecível património histórico de Valpaços a que os poderes instituídos não têm dado a devida importância.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Marco Fontanário do largo da “rua Direita” ou “das Lajes”



Há cerca de sete décadas atrás, o largo da rua Direita, era um dos locais que proporcionava uma encantadora vista de natureza bucólica da vila de Valpaços. Com esse local, certamente bem vivo na memória de muitos valpacenses, está relacionada a curiosa história do marco fontanário que actualmente se encontra no bairro de S. Pedro desta cidade, e é um dos monumentos que tem sido, estranhamente, ignorado pelos inventariadores do património edificado de Valpaços. Enjeitado, talvez, por quem o viu partir do seu local original para outro bairro da cidade em expansão, o “bairro das lajes”, e mal amado, provavelmente, por quem o adoptou na sua nova morada, a verdade é que raramente figura como uma referência do património arquitectónico da cidade. Este monumento tem, como dissemos, uma história curiosa.


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Como numerosos valpacenses se devem recordar, trata-se de um monumento de construção relativamente recente que, pelos meados da década de 30 do século passado, se ergueu no “largo da Rua direita” (actual Rua Marechal Carmona), largo esse que já não existe.
Quando a “Fonte Grande”, também conhecida por “Fonte Velha” foi demolida (ver neste blogue o artigo “Fonte Grande” em “Re(en)cantos da Memória”), pela mesma época em que se demoliu também a Capela de S. Sebastião, abriu-se no local um largo onde, em 1935, se edificou o referido marco fontanário e se instalou também uma bomba hidráulica (volante) para reaproveitamento do precioso recurso hídrico ainda existente. Arejada esta parte extrema da cidade com a eliminação da incomodativa calheia que ao longo dos tempos a vinha conspurcando, foi-se estabelecendo nela um agradável ambiente para se estar e admirar o amplo panorama que se estendia para nascente, numa altura em que ainda predominavam aí as hortas e os lameiros, em lugar da paisagem urbana que resultou do desenfreado surto de construções iniciado desde cerca de quatro décadas depois. É essa paisagem, certamente ainda arreigada na memória de muita gente, que procurei recriar aqui, baseando-me apenas em informações orais de pessoas que aqui nasceram e foram criadas.


O marco fontanário do largo da rua Direita nos meados do século passado
Desenho e guache de Leonel Salvado

Uma das raras referências monográficas que se reportam ao monumento e ao local onde ele primitivamente esteve, foi-nos legada por Joaquim de Castro Lopo, na sua obra “O concelho de Valpaços”, e é uma descrição coeva, com algumas observações críticas quanto às inscrições que nela se liam, mais do que hoje. Dizia assim Joaquim de Castro Lopo, num dos seus manuscritos, seguramente produzidos em qualquer ano da segunda metade da década de 30 do século passado:
«Há agora um marco fontanário construído recentemente no largo da rua Direita, próximo da fonte Velha
O insigne epigrafista autodidacta valpacense, já por nós biografado (ver Joaquim de Castro Lopo na categoria Biografias [local/regional]), sugeriu, a propósito das inscrições que no seu tempo se podiam podem ler no monumento, a existência de um eventual anacronismo cometido pelo lapicida que as gravou e que são as seguintes:

1935
C M V
CONSTRUÍDO DURANTE
A
DITADURA NACIONAL

Observou Joaquim de Castro Lopo, e muito bem, que a data em epígrafe não condiz com a restante inscrição, o que pode ter sido devido a simples desacautelamento do lapicida ou à sua ignorância sobre a data exacta em que o monumento foi construído. Admitindo, como é mais fácil admitir-se, que a referida data esteja correcta, resta-nos supor que houve uma incauta falta de rigor de enquadramento cronológico do período histórico a que se refere nas 3ª, 4ª e última linhas, posto que, como exemplarmente notou Castro Lopo, a Ditadura Nacional em referência foi a ditadura militar, «iniciada a 28 de Maio de 1926 [e que], acabou quando foi promulgada a constituição, isto é a 22 de Fevereiro de 1933». Cumpre-nos hoje acautelar pela reiteração desta interpretação do termo, para que não se confunda com a que, instintivamente, nos habituámos a associar ao Estado Novo, isto é à “ditadura Salazarista”, período durante o qual foram estas três incovenientes linhas apagadas, não existindo hoje sinal delas no letreiro do munumento.

Em todo o caso, parece que não restam dúvidas que o largo da rua Direita foi a primeira morada do monumento a que aqui nos reportamos, desde a data da sua construção. Porém, é do conhecimento de muita gente que apenas duas décadas depois, ele foi desmantelado e reedificado no local onde se encontra hoje, isto é, em pleno coração do “bairro das Lajes”, agora designado por Bairro de S. Pedro. Esta trasladação, ocorrida durante o mandato do Eng.º Luís Castro Saraiva, parece ter sido contemporânea da construção da nova cadeia municipal que teve lugar próximo desse local e foi, muito provavelmente motivada, pelo intenção de corresponder à invulgar fixação de moradores nessa parte da cidade, onde se vinha registando um significativo fomento de construções urbanísticas, favorecido aliás pelas próprias autoridades municipais, factores estes que bastaram para transformar bairro das Lages no mais populoso da vila nessa época, em que, em abono da verdade sustentada por testemunhos orais, se pode dizer que foi um “formigueiro de trabalhadores e operários” ocupados nos vários sectores de actividade.

Nota: Pela primeira vez nesta categoria temática “Re(en)cantos da memória [local/regional] a reconstituição que me propus elaborar (“O fontanário do largo da rua Direta nos meados do século Passado”), baseou-se exclusivamente em testemunhos orais, pelo que, como todas as reconstituições concebidas unicamente a partir deste tipo de fontes, não visa transmitir uma imagem absolutamente rigorosa do objecto de reconstituição, cabendo ao leitor interpretá-la com o mesmo sentido de relatividade com que ela foi criada.

Agradecimento: Agradeço ao Sr. José Lourenço Montanha de Andrade pelas informações que prestou e com base nas quais elaborei a reconstituição ilustrada aqui publicada

sábado, 28 de agosto de 2010

A Rua Passos Manuel


Uma das mais belas e airosas vistas do tecido urbano de Valpaços é o panorama que se nos oferece quando caminhamos no sentido Sul - Norte pela rua Passos Manuel. O alinhamento desta rua com resto da Rua D.ª Maria do Carmo Carmona que nos conduz ao secular jardim público é um exemplo dos bons resultados da modernidade urbanística de Valpaços que se sabe ter sido conquistada à custa de muitos sacrifícios, coragem e determinação de todos aqueles que a levaram por diante.
Mas a rua Paços Manuel tem uma história curiosa!
É mais um “re(en)canto da memória” da nossa “Valpaços desaparecida”!
Como muitos valpacenses certamente se recordarão, há pouco mais de meio século a Rua Passos Manuel tinha um aspecto bastante diferente do actual. Para as gerações mais novas, isto poderá ser uma novidade.

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Até aos meados do século passado, a Rua Passos Manuel encontrava-se isolada pelo alto casario do lado Norte da rua do Olival que lhe era perpendicular. Para se aceder à actual rua D.ª Maria do Carmo, tornava-se necessário prosseguir, à direita, pela do Olival e caminhar uma dezena de metros. Tal isolamento, porém, não impediu a que até à década de 20 do século passado funcionasse num dos imponentes edifícios da margem ocidental da rua de Passos Manuel, cujo conjunto arquitectónico, com a sua original cobertura exótica, ainda se encontra relativamente bem preservado, o então popular Hotel Barreira. Do lado oposto já existia o, também perservado, edifício comercial de João José dos Reis e, na continuação deste, no sentido N - S, o edifício que serviu de Central eléctrica da Vila. A habitação que se observa ao centro da ilustração ("em retrospectiva"), situada no lado Norte da confluência das duas ruas, era de Manuel Gonçalves que exercia a profissão de sapateiro, e que, mais tarde, foi carcereiro na cadeia que durante muitos anos funcionou no solar da Fonte.

Rua Passos Manuel nos meados do século XX  (sentido S-N)
Desenho e guache de Leonel Salvado

Quis o destino que os valpacenses mais bairristas e com vontade de progresso pudessem contar com um Homem com o mesmo entusiasmo e com capacidade empreendedora, o Engenheiro Luís de Castro Saraiva, que entrou para a presidência da Câmara Municipal de Valpaços em 1952, e aí se manteve em mandatos consecutivos até 1964. Foi com ele que os primeiros e mais arrojados planos de remodelação urbanística da vila ganharam forma e foram concretizados, deixando Castro Saraiva uma grandiosa obra que os seus conterrâneos entenderam homenagear, dando o seu nome a uma avenida da Vila. Dessa obra de Castro Saraiva, fez parte o projecto de que resultou a demolição de uma larga área de antigas habitações no extremo oriental da rua do Olival, de forma a desbloquear a rua Passos Manuel e fazê-la confluir com a rua D.ª Maria do Carmo Carmona, e, ao mesmo tempo, alargar o espaço de circulação na direcção da Rua D. Pedro V, do Jardim Público e dos Paços do Concelho.

Nota: O trabalho de reconstituição aqui apresentado, como habitualmente, sob a forma de ilustração, foi baseado numa fotografia gentilmente cedida pelo Sr. Manuel Medeiros e a elaboração do presente artigo surgiu sob sugestão do mesmo, nosso diligente colaborador a quem publicamente agradecemos mais este amigável gesto.

domingo, 22 de agosto de 2010

A desaparecida “bolideira de Valpaços”


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Lembrada como Outeiro que bole, Pedra bolideira, ou simplesmente bolideira, como outrora era conhecida, trata-se de mais um monumento desaparecido de Valpaços que no dealbar do século passado servia como um dos cartões de visita da Vila, como se pode ver pelo número 12 da colecção de postais da época, editada pala Casa Sesinando Chaves (fundada em 1894) e que obtive a partir do Blogue da Rua Nove, para servir de base para a reconstituição que aqui apresento. Situava-se na margem esquerda da Estrada Nacional 206, a poucos metros metros de distância do Cemitério Municipal em direcção a Carrazedo de Montenegro, numa propriedade da família Tavares, no Bairro do Monte Pequeno. Quantos valpacenses se lembrarão certamente deste curioso megálito da sua meninice, que, apesar de já se encontrar mutilado, servia ainda como um dos locais favoritos para as suas brincadeiras, à saída da escola!
A "pedra que bole" de Valpaços, no início do século XX
desenho e guache de Leonel Salvado

Tal como já havíamos dito no artigo A bolideira de Valpaços, publicado na categoria Curiosidades [local/regional] deste blogue, o monumento media 7 metros de comprimento, 4,50 de largura e 3,15 de altura. A estima e preocupação pela preservação e integridade deste admirável monumento megalítico remonta expressamente aos finais do século XIX por parte de homens da terra como foi o caso do ilustre autodidacta na investigação arqueológica e cultural, Joaquim de Castro Lopo e por parte ainda de outros figuras de renome nacional, como foi o caso do etnógrafo J. Leite de Vasconcelos que a estudou, reproduziu em desenho e a publicou na sua obra Religiões da Lusitânia. Não serviram, porém a dedicação de um e de outro para evitar que o pior viesse a acontecer: Em 1919 a Pedra que bole foi fendida a meio com uma carga de dinamite. A notícia foi de imediato publicada, com grande pesar, no Comércio do Porto, ao que creio, a avaliar pelas iniciais do respectivo autor, por Joaquim de Castro Lopo, nos seguintes termos:

«Pedra que bole

Valpaços, 1. – Hoje foi destruída por pedreiros a “Pedra que bole”, desta villa. Era uma pedra balouçante de 7 metros de comprimento, 4,6 de largura e 3,15 de altura. Curiosidade única desta Vila, era visitada por quantos aqui passavam. A “Padra que bole” estava vulgarizada em bilhetes postais e dela vem um desenho nas “Religiões da Lusitania”, vol I, p. 400, do Dr. J. Leite de Vasconcelos. Não houve nada que justificasse tam bárbaro vandalismo! – (C. L.).
(Do "Comércio do Porto", 1919)»
Transcrição da revista O Arqueólogo Português.

Apesar de fendido, o megálito continuou a ser visitado e uma parte dele ainda oscilava, com emprego de ligeiro esforço, continuando a admirar os visitantes e, fazendo a maravilha da pequenada. Quando em 1944 o Padre João Vaz de Amorim dela falou, num artigo publicado na revista “Aquae Flaviae”, encontrava-se a “bolideira de Valpaços” ainda neste estado, não se escusando o autor de lamentar o facto de se encontrar mutilada, e deixar um apelo no sentido da sua preservação futura. Vejamos um excerto desse artigo:


«É um monumento megalítico e acerca do seu destino e significado são várias as opiniões entre os arqueólogos.[…] Mas seja qual for a sua interpretação científica, a verdade é que tais características da arquitectura pré-histórica merecem estudo, e são dignas de respeito e veneração das pessoas cultas. Apesar de já se encontrar algo mutilado, conviria preservar este valioso monumento de maiores atentados e fazer por que fosse elevado à categoria de monumento nacional.»
in Revista Aquae Flaviae, n.º 14, 1995, p.211

Debalde foi, porém, mais este apelo às pessoas cultas de Valpaços, pois, para surpresa ainda maior de entre alguns valpacenses desta categoria, em data posterior àquela publicação do Padre Amorim, que não consegui apurar com exactidão, o que restava do monumento foi irremediavelmente destruído. Sobre mais este lamentável acto escreveu José Lourenço Montanha de Andrade:

«Outeiro que bole:

[…]Começou por ser mutilada, mas apesar disso, ainda oscilava com emprego de ligeiro esforço, tendo mais tarde sido completamente destruída por acção de alguém da J.A.E., com que intenção, não sabemos.[…]
Foi pena que este monumento da Pré-História não tivesse sido preservado.
in Valpaço-Lo-Velho, caderno cultural 6, C. M. Valpaços, 2001, p. 21

Agradecimento: Um especial agradecimento ao Sr. José Lourenço Montanha de Andrade pelas informações que gentilmente me proporcionou em relação à localização do monumento aqui retratado.

Reconstituição: Desenho e guache de Leonel Salvado

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

A Fonte Grande



É um outro monumento desaparecido de Valpaços. Situava-se junto à confluência das ruas do Olival, de Passos Manuel e da Rua Direita (hoje rua D.ª Maria do Carmo Carmona), a poucos metros para Sul do local onde se localizava a também desaparecida capela de São Sebastião. Foi parcialmente demolida por volta de 1924-25, segundo indicação, certamente fundamentadada de Adérito Freitas na sua obra Fontes de Abastecimento de Água, concelho de Valpaços (ed. da C.M., 2005, p. 209), soterrando-se o que dela restou formando-se um amplo espaço arejado que passou a ser conhecido como o Largo da Fonte Grande e instalando no local uma bomba hidráulica manual de grande volante. (ver, no presente blogue, a publicação as possíveis razões da demolição de  A desaparecida Capela de S. Sebastião. )

Fonte Grande de Valpaços, pouco antes de ser demolida
desenho e guache de Leonel Salvado

A sua reconstituição aqui apresentada, que foi possível graças à existência de uma antiga foto publicada na Monografia de Valpaços de A. Veloso Martins, pode dar aos nossos leitores uma ideia mais clara do seu aspecto e do contexto topográfico em que se inseria. Aquela mesma foto foi também recentemente publicada por Adérito Medeiros Freitas na obra que atrás mencionámos, juntamente com uma outra cedida ao autor pela Sr.ª Dr.ª Maria Eugénia Mota Pimentel (Id., p.210) mas se a primeira destas se encontra ligeiramente distorcida, a segunda não representa o monumento na sua totalidade o que nos impede de fazer o seu enquadramento topográfico com o mínimo rigor possível. Era uma fonte de mergulho de grandes proporções, planta quadrangular, aberta na frontaria por um arco de volta perfeita e rematada por uma cúpula cónica. Não encontrei nenhuma referência cronológica sobre a sua construção, mas pelos elementos arquitectónicos que a compunham, não seria certamente de construção anterior ao século XVI.

Agradecimento: Mais uma vez o meu sincero agradecimento ao Sr. Manuel Madeiros pelas úteis indicações que me forneceu acerca do local onde este belo monumento se situava.

Reconstituição: Desenho e guache de Leonel Salvado

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A desaparecida capela de S. Sebastião


Existem diversas referências da “Valpaços há muito desaparecida” que só ecoam na memória viva de alguns valpacenses. Uma delas é a da capela de São Sebastião, que foi mandada construir pelos antepassados dos morgados da Teixugueira, obra que tem sido datada dos finais do século XVI ou princípios do século XVII e que se localizava na confluência das ruas de Passos Manuel e do Olival com a Rua Direita.

Nos meados do século XVIII a capela de S. Sebastião, que então se erguia no limite Norte da Vila, ainda possuía uma certa importância para os devotos fregueses de Valpaços, pois o vigário de Santa Maria de Valpaços, Francisco Pereira de Aial, nas suas Memórias Paroquiais datadas e assinadas a 8 de Março de 1758, realçava assim o carácter milagroso do Santo:

[…] Tem em Valpaços a ermida de São Sebastião que está na borda do lugar para o norte. É milagrosa a dita imagem, porque, havendo males contagiosos ou na gente ou nos gados, recorrem a ela os moradores, e logo cessam; e, haverá dez anos, houve um mal de que ninguém escapava; fez-se uma festa ao Santo e com ela uma procissão em que se cercou a freguesia, e não deu o dito mal a mais ninguém.[…]
in Monografia de Valpaços, A. Veloso Martins, 2ª ed., 1990, p.97

A capela de S. Sebastião, já certamente sem a importância espiritual de outrora, foi demolida, segundo indicação assaz vaga de A. Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços, no princípio do século passado, o que me pareceu pouco credível, face ao tinha sido dito pelo Padre João Vaz de Amorim na revista Aquae Flaviae (edição de 1995 pág.188) em artigo datado de 20 de Novembro de 1943, onde, a respeito da capela, refere, de modo igualmente vago, que «ainda há poucos anos foi demolida.» Mais recentemente, Adérito Medeiros Freitas é mais preciso relativamente a esta questão: Numa nota que este autor  faz a uma antiga fotografia da Fonte Grande, cedida por José António Soares da Silva e publicada na sua obra  "Fontes de Abastecimento de Águas, concelho de Valpaços" (ed. Câmara Municipal, 2005, vol. II, p.209), refere expressamente que a capela de S. Sebastião "foi mandada demolir pela Câmara Municipal, no ano de 1914.

A capela de S. Sebastião pouco antes de ser demolida
desenho e guache de Leonel Salvado

Não foram ainda devidamente esclarecidas as razões da sua demolição, mas é de supor que para corresponder ao dinamismo a que a novas autoridades republicanas se apostaram  trazer à vilade Valpaços, sede municipal, decorridos cerca de oito décadas desde a criação do concelho - 1836 – e ultrapassadas as explosões anárquicas que se abateram sobre a terra nos finais da monarquia (haja em vista, na categoria “tópicos historiográficos [local / regional]” do presente blogue, o artigo O motim de Valpaços de 1862), ela teria sido ditada sob a sigla do progresso. Assim, face à urgência em corresponderem às mais prementes necessidades básicas da população, na obrigação de proceder a obras de reconstrução e reordenamento urbano, onde quer que se justificassem, por mais drásticas que pudessem eventualmente parecer aos munícipes mais conservadores. Ao que parece, o local atrás referido, que se situava próximo da casa comercial de João dos Reis, e na qual «passava a calheia [leia-se quelha] da Fonte [a Fonte Grande] para o Tambolhão», era uma zona crítica que convinha desafogar. É esta aliás a explicação que é proposta por A. Veloso Martins, na Monografia de Valpaços (2.ª Ed., 1990, p.122) relativamente à demolição da capela.

A capela de S. Sebastião foi completamente demolida, tal como, mais tarde a Fonte Grande também o foi parcialmente, sendo o que dela restou imediatamente soterrado, a poucas dezenas de metros na direcção da Rua Direita. Cerca de três décadas depois, durante o mandato do Eng.º Luís de Castro Saraiva, enquanto presidente da Câmara, deu-se continuidade ao alargmanto da via, também à custa de algumas demolições no casario do lado oposto, na direcção dos Paços do concelho.

Aqui deixo mais um fragmento de “Valpaços desaparecida” resgatada dos ”re(en)cantos da memória”, reconstituída com base numa antiga fotografia publicada por A. Veloso Martins e, mais uma vez, de acordo com a diligente e preciosa orientação do Sr. Manuel Medeiros, a quem publicamente agradeço, em nome do Clube de História e dos aficionados pelas coisas do passado valpacense.

Reconstituição: Desenho e guache de Leonel Salvado