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sexta-feira, 29 de abril de 2011

Padre João Baptista Vaz de Amorim

Por Leonel Salvado

Padre João Baptista Vaz de Amorim | Recursos: Foto: Revista Aquae Flaviae (14) 1995; moldura; http://www.ruadireita.com

A referência moral e intelectual
Sacerdote de origem humilde, recordado por quem o conheceu melhor do que ninguém como «personalidade invulgar» caracterizada pela sua bondade, pela rara vocação cristã, pelo seu inabalável amor à República e pela sua erudição no campo das letras e da investigação histórica e arqueológica, João Baptista Vaz de Amorim, celebrizado na literatura com o pseudónimo de João da Ribeira, nasceu em Vilarinho das Paranheiras, aldeia do concelho de Chaves no dia 6 de Agosto de 1880 onde também veio a falecer, aos 81 anos, no dia 19 de Janeiro de 1962. Este Homem que julgamos ser uma das principais referências morais e intelectuais do seu tempo em Trás-os-Montes e no concelho de Valpaços é mais uma das figuras eleitas para a nossa Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços.

O estudante
Falecendo seu pai quando João Vaz de Amorim contava apenas dois anos de idade, passou, juntamente com a mãe e a irmã, a viver na residência de seu tio materno, Padre José Caetano de Amorim, em Friões, pároco desta aldeia do concelho de Valpaços, segundo alguns autores[1] ou em S. Julião de Montenegro, segundo outros que dão o mesmo seu tio como sendo pároco desta localidade do concelho de Chaves.[2] Há, contudo, consenso perante o facto de ter sido junto deste sacerdote que Vaz de Amorim fez a instrução elementar ou primária, após o que, segundo Alípio Martins, realizou com sucesso o exame de admissão no liceu em Bragança e fez os primeiros estudos secundários em Valpaços sob orientação de um professor particular. Ainda segundo o mesmo autor, foi encorajado por uma senhora de S. Julião de Montenegro a prosseguir os seus estudos secundários no Colégio de S. Joaquim, em Chaves, antes de se propor no liceu-seminário de Guimarães ao 4.º e o 5.º Anos de Humanidades, em que foi aprovado. Prosseguiu aí, nos dois anos subsequentes, os estudos no ramo das Ciências obtendo também foi aprovação.[3]
Refere Barroso da Fonte que, entretanto, João Vaz de Amorim teria sido convidado pelo Padre Joaquim Marcelino da Fontoura para leccionar no referido Colégio de S. Joaquim, informação que à primeira vista pode parecer pouco condizente com a de Alípio Martins Afonso, o qual faz uma referência à extinção do mesmo colégio que obrigou Vaz de Amorim a regressar à casa da sua patrona, em S. Julião, e continuar aí os seus estudos sob a orientação do respectivo pároco que já havia sido seu professor no extinto colégio. Parece-nos todavia possível que ambos os autores estejam certos pois, dando crédito a um breve mas substancial historial do Colégio flaviense de S. Joaquim publicado no dia 1 de Setembro de 2006 por Fernando Ribeiro no seu blogue “Chaves, Olhares sobre a cidade” e intitulado de “Chaves – o largo do Anjo e o Padre”, confirma-se que, tendo sido fundado pelo mencionado Padre Joaquim Marcelino da Fontoura em 1893/94, a instituição foi de facto extinta no ano de 1896 por decisão do seu próprio fundador em consequência de uma série intrigas que visavam colocar em causa a sua honestidade e o seu desinteresse na gestão da mesma. O Padre Fontoura regressou à sua aldeia natal, Anelhe, concelho de Chaves e aí permaneceu em estado de profunda indignação. Por esta altura Vaz de Amorim contaria 16 anos de Idade e estaria, como referimos, em S. Julião prosseguindo com os seus estudos particulares, antes de ingressar no liceu-seminário de Guimarães. Mas em 1898, ao fim de três anos de insistentes pedidos por parte do Presidente da Câmara de Chaves com a promessa de atribuição de um subsídio de duzentos mil reis, o orgulhoso Padre Joaquim da Fontoura aceitou os pedidos e reabriu o colégio de S. Joaquim «indo instalar-se no Largo do Anjo, na então casa da família Arrochela, actualmente os Serviços Municipais de Águas da Câmara Municipal.»[4] Nesta data, Vaz de Amorim teria concluído o 4.º e 5.º anos dos cursos de Humanidades e de Ciências, sendo razoavelmente credível, e supomos que documentalmente fundamentada, a informação de Barroso da Fonte, voluntaria ou involuntariamente omitida por Alípio Martins Afonso, acerca do convite entretanto dirigido a Amorim para leccionar no renovado colégio pelo respectivo director, colégio que afinal viria a ser definitivamente encerrado em 1907.

O sacerdote
Por ocasião do referido convite, recebido do Padre Joaquim Marcelino da Fontoura, João Vaz de Amorim havia já tomado a decisão de entrar para o Seminário de Braga onde, em 1901, se ordenou sacerdote com a idade de 21 anos. Coube-lhe então, no início do seu múnus paroquiar uma aldeia do concelho de Valpaços, a aldeia de Padrela, segundo Alípio Afonso, ou a de Paradela, também designada por Paradela de Monforte, segundo Barroso da Fonte. Foi no decurso destas funções que recebeu a boa nova da implantação da República em Portugal pela qual revelou desde a sua juventude, em Chaves, uma ardorosa e incessante paixão. Ironicamente, pouco tempo depois decide emigrar para o Brasil onde se diz, impropriamente, que exerceu funções junto do bispo de S. Paulo. Dizemos impropriamente porque, na verdade, este que fora de facto o décimo terceiro bispo da diocese criada naquela cidade, era já então arcebispo e dele sabemos que se chamava D. Duarte Leopoldo da Silva, filho de pai português, e que a ele precisamente se deveu a elevação de S. Paulo a arquidioceses, em 1908, passando a ser, por conseguinte, o seu primeiro arcebispo até à sua morte, em 1938.[5] A decisão tomada pelo Padre João de Amorim tem sido alvo de controvérsia, havendo quem, como Barroso da Fonte, a interprete como consequência do desencanto do pároco perante os excessos de anticlericalismo cometidos pelos republicanos da 1ª República e que resultaram na prisão dos seus colegas. Mas há também quem, como o autor das “Palavras Prévias” publicadas na Revista Aquae Flaviae em edição dedicada ao Padre Amorim, aliás “João da Ribeira”, autor que supomos ser Júlio Montalvão Machado, julgue que a sua precipitada partida para o Brasil fora motivada «por razões pessoais e nunca porque se desse mal com o regime implantado[6] Não tardou o Padre Vaz de Amorim a regressar a Portugal, correspondendo ao pedido de sua mãe nesse sentido, havendo-lhe sido confiada a paróquia de Loivos, no concelho de Chaves, que paroquiou durante 23 anos. Atendido o seu desejo em ser transferido para a paróquia de Bouçoais, aqui se manteve por mais um longo período que tem sido considerado como o mais próspero da sua vida nas áreas da investigação histórica e arqueológica e da produção literária. Mais tarde, segundo Alípio Afonso, regressou à sua terra natal, Vilarinho das Paranheiras, que paroquiou até ao fim da sua vida.

Parecem-nos justas as palavras de homenagem de Alípio Martins Afonso ao Padre João de Amorim «sob duas vertentes: a do literato e de paladino da democracia».


O literato
Dedicado, como por várias vezes referimos, à investigação e à publicação de importantes apontamentos históricos, arqueológicos e até políticos, o Padre Amorim a quem, em virtude da sua paixão pela Arqueologia, a História e Heráldica, nas palavras prévias que lhe são dedicadas no Aquae Flaviae, é considerado como «figura tão rara e sábia como seu Mestre, assim ele chamava o Abade de Baçal»[7], legou-nos uma série de trabalhos repartidos em diversas publicações, tanto durante a sua estada no Brasil como, posteriormente em Portugal:
Ali movido pelo seu amor à Pátria, mas leal como sempre ao ideário republicado democrático, publicou a “Voz de Portugal” e a “Pátria”; em Portugal, na imprensa regional transmontana, e com o pseudónimo de “João da Ribeira” divulgou interessantes apontamentos, como no “Comércio de Chaves” - no qual foram sendo publicados, entre 1939 e 1947 os vários artigos que compõem a sua obra “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Montenegro” - no “Almanaque de Lembranças de Chaves”, no “Mensageiro de Bragança” e no “Vilarrialense”.[8] Segundo Barroso da Fonte publicou também o livro “Pelos Montados da Serra”, não chegando a ser publicado um outro livro que entretanto deixou preparado, intitulado “Coisas da Minha Terra”. Aquele livro, que julgamos ser o mesmo que numa outra fonte surge referido como “pelos Povoados da Serra: aspectos portugueses”com a indicação de que foi publicado em Chaves em 1935, foi o único que o Padre Vaz de Amorim pessoalmente publicou e as razões pelas quais isso sucedeu são reveladas por Alípio Afonso com base na explicação apresentada pela sobrinha do respectivo autor, D. Maria Amorim, de que a modesta vida do tio não comportava os elevados custos de impressão. Também verificámos, através de uma outra fonte, que em 1952, publicou, em Guimarães, um trabalho sobre Arqueologia intitulado”Na Citânia de Briteiros: uma pedra enigmática?”[9]

O paladino da democracia
A convicção político-ideológica democrática republicana, publicamente assumida, pelo Padre João Baptista Vaz de Amorim e a coragem com que se bateu em sua defesa contra a ditadura do Estado Novo, frequentemente evocada pelos seus biógrafos surge claramente corroborada num estudo científico mais abrangente na área da história política em Portugal que tivemos a oportunidade de consultar e que nos serviu de valioso instrumento para o assunto que publicámos aqui no Clube de História, em 31 de Março de 1910 sob o título “Valpacenses na luta contra o Estado Novo”. Da relação que fizemos nesse estudo, intitulado “Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973)” dos candidatos valpacenses, por naturalidade ou afinidade, constatámos com surpresa que João Baptista Vaz de Amorim foi um dos pioneiros dessa mole de transmontanos valpacenses que, destemidamente, tomou a dianteira no alinhamento pela oposição ao regime  ditatorial instituído. Sobre o que dele se dis neste estudo entendemos citar o seguinte excerto:

«Em 1949, foi candidato pela lista organizada em Vila Real e que não foi aceite, sob o pretexto oficial de que não fora possível obter a sua certidão de eleitor, facto que ele mais tarde desmentiria.»[10]

A esta sua longa odisseia na luta contra o Estado Novo, e aos dissabores que dela advieram, também se faz alusão na introdução à edição da Revista Aquae Flaviae em sua memória nos seguintes termos:

«Já com 78 anos, solidário à sua ideia política de sempre, presidiu em Chaves ao jantar de homenagem ao General Humberto Delgado.
Quiseram então um grupo de amigos festejar os seus 80 anos, colocando junto à velha casa de Vilarinho das Paranheiras onde havia nascido, uma lápide de homenagem, penhor de amizade e adoração dos seus conterrâneos e que testemunhasse aos futuros o valor e dignidade daquele homem. Não o consentiu o Governador Civil da época e nada mais foi possível que uma modesta visita de poucos, dos muitos que gostariam de demonstrar-lhe quanto sentiam e admiravam a sua magnífica lição.
Dois anos depois, em 1962, falecia o Padre João Vaz de Amorim.
Só em 1974, livres de quaisquer peias, foi possível, finalmente, colocar essa lápide adiada a realçar publicamente a esplêndida lição desse homem, exemplo de uma vida nobilíssima como sacerdote e erudito, nunca esquecida dos ideais da República.»[11]


As tardias e parcas homenagens
Fica do excerto que acabamos de expor uma ideia das dificuldades com que se depararam um grupo de amigos desta singular personagem quando se propuseram homenageá-lo, ainda em vida, pelos serviços prestados na propagação dos valores cristãos, da cultura e da democracia na própria aldeia onde ele havia nascido. A assinalar a sua grandeza humana existe apenas a referida lápide e uma rua como seu nome na sua terra natal e uma outra em Chaves! Que dizer das aldeias que longamente paroquiou? Resta-nos concluir, com grande mágoa, observando que passados que foram trinta e sete anos de liberdade e de democracia, bem ou mal conduzidos pouco importa para este caso, nada mais foi feito, sobretudo no concelho de Valpaços, no sentido de legar às presentes e futuras gerações um testemunho evocativo da grandeza do Padre João Baptista Vaz de Amorim, como devia, e ainda deve, ser feito acima de tudo como prova de gratidão pela simpatia que ele manifestou e inspirou por estas terras enquanto sacerdote e erudito bem como pela árdua e exemplar luta que travou, enquanto aqui viveu, contra o temível regime ditatorial do Estado Novo.  


Referências
[1] Barroso da Fonte (coordenado por), Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Editora Cidade Berço, Guimarães, Vol I,  1998 | disponível resumo digital:
 http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=553&id=2074&action=noticia
[2] Alípio Martins Afonso, Revista Aquae Flaviae, In Memoriam Pe João Vaz de Amorim,n.º 14, 1995, p. 9.
[3] Ibid., Ibid.
[4] http://chaves.blogs.sapo.pt/33661.html
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_Leopoldo_e_Silva
[6] Revista Aquae Flaviae, Id., p. 5
[7] Ibid.
[8] Alípio Martins Afonso, ibid.
[9] Mário Matos e Lemos,  Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973), Divisão de Edições da Assembleia da República e Texto Editores, Lda, 2009, p. 102 | disponível em formato PDF:  http://www.parlamento.pt/ArquivoDocumentacao/Documents/Candidatos_Oposicao.pdf
[10] Ibid., Ibid.
[11] Revista Aquae Flaviae, id.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um ilustre valpacense a resgatar para a História

Actualizado por Leonel Salvado em 30.09.2012

Miguel Francisco Fernandes Machado | Foto de José António Soares da Silva,
 in Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços| Arranjo digital de Leonel Salvado

Miguel Francisco Fernandes Machado não consta, estranhamente, no “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto durienses”, uma obra composta por três volumes e coordenada por Barroso da Fonte que se apresenta como um importante repositório biográfico das figuras que atingiram pródiga celebridade no contexto regional a que se reporta e se propõe ser também uma obra evocativa dos singulares valores dessas figuras.
Estranhamente, dissemos, já que “Miguel de Fiães”, como ficou popularmente conhecido por ser natural desta freguesia do concelho Valpaços, surge retratado por vários autores, designadamente pelo Padre João Vaz de Amorim numa das suas publicações na “Revista Aquae Flaviae” e, mais recentemente reafirmado pelo Dr. José António Soares da Silva em “Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços” como um Homem «dedicado a causas sociais, muito considerado pelos seus conterrâneos». Ninguém realçou mais, até hoje, as qualidades deste homem do que estes dois autores.


Nasceu em 5.11.1838 em Fiães, actual freguesia do concelho de Valpaços, no distrito de Vila Real. Foi filho de Luís António Fernandes e de Benedita de Almeida, ambos naturais da mesma freguesia de Fiães. Em 19.10.1859 casou na sua terra natal com Mariana da Conceição Videira, filha de Manuel José Videira, natural da vizinha freguesia de Lebução, e de Balbina Fernandes.
Foi popularmente conhecido como o “Miguel de Fiães” dentro e fora dos limites do concelho de Valpaços.
Criou-se, a dada altura, a seu respeito uma irónica frase epitética que, despida da evidente ironia que lhe está subjacente, pode servir para resumir, grosso modo, a vida de “Miguel de Fiães”: “era lavrador e não lavrava, contador e não contava, administrador e não administrava”. Na verdade, Miguel Francisco Fernandes Machado foi figura de grande prestígio no concelho de Valpaços devido à sua formação cultural, às suas aptidões para o exercício de importantes cargos públicos e administrativos, à excepcional argúcia que sempre revelou no ambiente político-partidário valpacense em que se impôs e ao sucesso que obteve nos seus empreendimentos agrícolas em Fiães.
Em 22.02.1883 foi nomeado, por Carta régia de D. Luís I, Contador e Distribuidor do Juízo de Direito da Comarca do Porto e, em 23.01.1885, por apostila do mesmo monarca àquela carta, obteve a transferência no exercício das mesmas funções para a Comarca de Valpaços. Mais tarde assumiu a liderança do Partido Regenerador de Valpaços que se encontrava vaga desde a morte de Filipe José Vieira. Usando da sua influência e simpatia, conseguiu obter uma larga base de apoio ao eleitorado do referido partido em todo o concelho, sobretudo entre o clero e as mais importantes famílias da aristocracia, dando-lhe renovado fôlego e fazendo renascer as esperanças das forças regeneradoras face à crise evidenciada nas suas fileiras durante cerca de uma década.
Em 1895, Miguel Machado exercia cumulativamente as funções de contador da comarca de Valpaços, administrador do concelho e chefe do Partido Regenerador quando uma inconcertada manobra eleitoralista cometida por uma das mais prestigiadas figuras do mesmo partido inflamou os ânimos dos seus correligionários valpacenses e deu origem à delicada questão conhecida por “Guet – Apens” de Valpaços. Este lamentável dissídio começou com o facto de António Teixeira de Sousa, então Governador Civil de Bragança, procurador à Junta Geral do distrito de Vila Real pelo concelho de Alijó, 1.º Secretário da Câmara dos Deputados e que naquele ano integrava a lista do mesmo Partido Regenerador do Distrito de Vila Real e vinha sendo eleito pelo círculo de Alijó, ter obtido do Governo de Hintze Ribeiro, em conformidade com a lei eleitoral aprovada no mesmo ano de 1895, o decreto que por determinação régia elevou Murça a comarca e integrou nela as freguesias de Curros, Jou e Vales, subtraindo-as do concelho e comarca de Valpaços. Gorados os instantes apelos dirigidos por Miguel Machado ao Ministro da Justiça no sentido de que não fosse dado provimento àquela decisão, chegando a deslocar-se debalde a Lisboa para renovar o pedido, e perante as vozes de indignação que se levantavam entre forças vivas de Valpaços das duas formações partidárias, o líder dos Regeneradores de Valpaços substitui o nome de Teixeira de Sousa pelo de António Lobato na lista distrital do seu Partido para as eleições. Este acto custou a Miguel Francisco Fernandes Machado a sua imediata demissão por determinação emanada do próprio gabinete do Ministro do Reino, João Franco. A questão gerada em torno do “Guet – Apens” de Valpaços alimentou longa polémica entre os dois protagonistas que a imprensa regional, e até nacional, deu cobertura. Miguel Machado é autor de um curioso opúsculo publicado em 1896, a expensas próprias, onde se propõe esclarecer o lamentável caso, opúsculo esse intitulado “O ataque do Sr. Teixeira de Sousa – A Minha Defesa” a que se dá especial relevo na já referida obra editada em 2010 pela Câmara Municipal de Valpaços da autoria do Dr. José António Soares da Silva.
Também se extrai desta mesma obra que em 12.10.1895 Miguel Machado contribuiu com 81 000 réis para a “Instituição de Socorro”, sociedade de beneficência laica criada e constituída por Joaquim de Castro Lopo e outras figuras gradas do Partido Progressista, o mais alto donativo então recebido pela mesma sociedade e, apesar das diferenças partidárias, em sessão especialmente realizada pela sociedade para tratar deste “donativo importante”, foi deliberado que se exarasse um voto de agradecimento a ele destinado e que o seu nome fosse inscrito no registo dos sócios da instituição.
Em 24.06.1897, ainda apesar das diferenças partidárias, na Assembleia Geral da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, instituição entretanto criada pelo Partido Progressista, o nome de Miguel Francisco Fernandes Machado foi proposto para fazer parte da Comissão Promotora das obras da respectiva capela, o qual aceitou na sessão realizada no dia seguinte por esta mesma comissão e mais subscreveu o mesmo donativo de 60 000 réis declarados por outros membros inscritos no topo da mesma lista, depois de já ter contribuído antecipadamente para esta instituição com a quantia de 20 000 réis.
Na sessão realizada no dia 1 de Maio de 1898 pela assembleia Confraria de Nossa Senhora da Saúde foi deliberado atribuir-se-lhe o título de Irmão Benemérito.
Em 1909 foi mais uma vez administrador do concelho de Valpaços, no mesmo ano em que surgem referências documentais a seu respeito, destacando-o como exportador de batata e castanha em Fiães – afinal, o mesmo “lavrador que não lavrava”!
Em 1915, já em plena República, volta a ser administrador do concelho de Valpaços.
Existem ainda vagas referências de que, em qualquer momento da sua vida, Miguel Francisco Fernandes Machado terá sido “um dos directores da Companhia de Gás de Lisboa” ou “Administrador da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás”.
Faleceu em 30.06.1916.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cândido Sotto Mayor, um ilustre transmontano

Cândido Sotto Mayor | retrato-base: Ilustração Portuguesa, 1906
 | http://olhai-lisboa.blogspot.com/ | criação e adaptação digital: Leonel Salvado

As origens
Foi Cândido Narciso da Cunha Sotto Mayor um dos transmontanos muito bem sucedidos no mundo dos negócios dos finais do século XIX e inícios da centúria seguinte. Um homem cuja nobreza de sentimentos e apego moral às suas raízes, valeram-lhe ser hoje recordado na sua província, concelho e terra natais com grande e legítima deferência e admiração. Como se extrai de várias publicações dedicadas à sua biografia, designadamente do I volume do “Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses”, obra colectiva coordenada por Barroso da Fonte, Cândido de Sotto Maior nasceu em Lebução no dia 26 de Outubro de 1852. [1] Convém lembrar que, por esta altura, Lebução devia ser uma localidade de destacado dinamismo político-administrativo e sócio-económico, o que se pode depreender do facto de ter sido para aí transferida a sede do concelho de Monforte do Rio Livre, vila pobre e despovoada, logo após a reforma administrativa de Passos Manuel, em 1836, mantendo embora a designação original do concelho, até ser integrada no concelho de Valpaços pelo Decreto de 31 de Dezembro de 1853 que extinguia este concelho e comarca, bem como os de Carrazedo de Montenegro.

Casa onde nasceu Cândido Sotto Mayor, Lebução | Foto de Graça Gomes
 | lebucaodevalpacos.blogspot.com

Através de outras fontes, foi-nos possível apurar que Cândido Sotto Mayor era filho de Cândido Augusto Moranda e de sua esposa Cândida Sotto Mayor, nascida ao redor de 1820. [2] Alguns genealogistas dão-no com filho de pai incógnito. Em todo o caso era, seguramente, do lado materno, um elemento da família Sotto Mayor de que existem evidências de poder tratar-se de uma família dotada de grande espírito empreendedor nessa época de prosperidade de Lebução. Pode abonar em favor desta interpretação o facto de Cândido ter sido, como se sabe, sobrinho de Joaquim Felisberto da Cunha Sotto Mayor, filho de José Lino da Cunha Sotto Mayor, natural da vila de Chaves, e de Ana Lúcia Garcêz Palha, natural de Lisboa (portanto, avós maternos de Cândido) e nascido também na freguesia de S. Nicolau de Lebução, a 11 de Março de 1845, que fez fortuna no Brasil na actividade comercial e se radicou depois na Figueira da Foz, deixando aí fama de homem de grandes obras materiais e de elevadas virtudes morais e humanas dados aos vários actos de benemerência a que se dedicou na vila e arredores. Dele ficou o célebre Palácio Sotto Mayor naquela cidade. [3] Contudo, ao contrário do sobrinho, e apesar de se lhe reconhecerem virtudes morais e um percurso de vida muito semelhante ao deste, não encontrámos provas de que Joaquim Sotto Mayor tenha sentido o mesmo apego pessoal à sua terra natal até ao fim dos seus dias.

De Chaves ao Brasil
Cândido Sotto Mayor começou a trabalhar aos 13 anos como empregado de balcão em Chaves na Casa Comercial de Luís Paulino Teixeira. Aos dezoito anos partiu para o Brasil, ingressando, no Rio de Janeiro, como funcionário da Casa comercial Sotto Mayor & Companhia, cotada como uma das mais importantes do Rio De Janeiro no comércio por atacado e fundada pelos tios, um dos quais já atrás referimos, Lino e Joaquim Sotto Mayor. Mais tarde foi admitido sócio, acompanhando por certo a expansão da empresa, ainda no Brasil, e talvez, aí, tenha seguido o exemplo de seu tio Joaquim de quem se diz que manteve interesses noutras firmas do Rio de Janeiro e de S. Paulo, tais como a Costa, Pacheco & Companhia e  e a Araújo Costa &Companhia, e que foi accionista de algumas indústrias de Fiação e de várias casas bancárias. [4] Foi nesta área do comércio bancário que Cândido Sotto Mayor prosperou.

O Banco Pinto & Sotto Maior
Pelo que se pode ler nas várias biografias ele terá regressado a Portugal e em Lisboa fundado uma casa bancária com a designação de Casa Bancária Sotto Mayor cujo sucesso terá proporcionado a abertura de filiais em algumas cidades do país, nomeadamente em Chaves, uma das suas maiores construções no Largo do Arrabalde, tal como é referido por Barroso da Fonte, na obra já indicada (p. 587) e reafirmado, por Graça Gomes no seu blogue “Lebução de Valpaços” [5], casa comercial bancária essa que estaria na origem do futuro “Banco Pinto &Sotto Mayor. O facto parece corroborar-se pelo que é referido na História do Banco Pinto & Sotto Mayor nos seguintes termos:


Os primórdios do Banco Pinto & Sotto Mayor  (BPSM), que chegou a ser considerada uma das maiores instituições financeiras portuguesas, remontam à constituição prévia da Casa Bancária que dava pelo mesmo nome. Esta entidade, cujo funcionamento decorreu entre 1914 e 1926, assumiu-se na verdade como uma oportunidade de verificar as necessidades do mercado e a sua receptividade perante novas empresas do sector.
A estratégia supra-descrita, adoptada pelos fundadores da Casa Bancária Pinto &Sotto Mayor, António Vieira Pinto e Cândido Sotto Mayor, conduziu ao sucesso da empresa e ao reforço da sua posição no panorama nacional. [6]

A expansão desta empresa com a abertura de filiais nas principais cidades do país surge atestada no trabalho realizado por José Amado Mendes "A Empresa Bancária em Portugal no século XX: Evolução e Estratégias", onde o autor alude a uma filial do Banco Pinto & Sotto Mayor instalada em Coimbra em 1919, portanto ainda dentro do período da sua fase experimental, considerada na fonte anterior. [7]

Contudo, ainda a respeito da relação estabelecida pelo banqueiro de naturalidade lebuçanense com a primeira Casa comercial Bancária que ostentou o seu nome na capital portuguesa, será preciso ponderar da credibilidade de algumas declarações que encontrámos no Fórum do Geneall.Net, datadas de 7 de Julho de 2006 em que António Pedro de Sottomayor, em resposta a João de Morais Barreira, a respeito da “família Sotto Mayor de Chaves” e sem prejuízo de tudo o que dissemos e se diz sobre a origem de Cândido Sotto Maior e da sua vida no Brasil, refere que foi aqui que ele se tornou banqueiro e criou o primeiro Banco Sotto Mayor, acrescentando que quando regressara a Portugal no início do século XX o seu filho, Cândido Sotto Mayor Júnior já se havia associado, com o seu apoio, a António Vieira Pinto e fundado o Banco Pinto & Sotto Mayor. Estamos, afinal, perante dois homónimos, pai e filho, a um dos quais coube a responsabilidade material de criar a Casa bancária que mais tarde chegou a ser considerada uma das maiores instituições financeiras portuguesas.

O banqueiro edificador e benemérito
Regressando a Portugal, cremos que na primeira década do século XX, fixou-se em Lisboa para poder gerir melhor os seus interesses bancários e outros negócios, escolhendo para residir o lugar das Avenidas Novas, onde já existia um solar oitocentista da família Mayor. Assim, no ano de 1900, mandou que fosse demolido o solar para construir no seu lugar um imponente palácio ao estilo arquitectónico mais ambicioso da época. Durante os dois anos que se seguiram foi a demolição efectuada e iniciadas as obras de muralha de suporte sobre o Largo do Andaluz. Em 1902 iniciou-se a construção do palácio Sotto Mayor, uma obra grandiosa que foi realizada em quatro anos e que envolveu uma média de duzentos operários.

O Palácio Sotto Mayor em Lisboa | foto actual de Dias dos Reis e notícia da 
construção na Ilustração Portuguesa, 1906 | 
http://olhai-lisboa.blogspot.com/2010/08/o-palacio-sotto-maior.html

Construído a partir do esboço inicial do Arquitecto Ezequiel Bandeira com a colaboração do Arquitecto Carlos Alberto Correia Monção e do projecto assinado pelo Capitão de Engenharia do Exército, António Rodrigues Nogueira, o palácio Sotto Mayor de Lisboa é uma obra de “estilo compósito”, de inspiração francesa que compreende duas fachadas de entrada, com a janela composta de cariátides do escultor Jorge Neto, uma fachada de lazer com torre adossada e uma outra, posterior, de serviço. No remate do seu interior quadrangular organizado à volta de um hall central domina uma grandiosa clarabóia. O conjunto arquitectónico compreendia ainda uma série de anexos com cocheiras, casa de criados, lavadouro e um belo jardim “biscoito” constituído por um lago e uma estufa de vidro e gaiolas. Este impressionante monumento da arquitectura civil do início do século XX foi, em 1988, classificado pelo IPPAR como imóvel de interesse público e, apesar dos projectos propostos para a sua renovação desde esse data e aprovados pelo mesmo IPPAR e pela Autarquia em 1993, o Palácio Sotto Mayor pode hoje ser observado em toda a sua singularidade arquitectónica original, pois em consequência desses projectos, apenas sofreu um ligeiro restyling. [8]

Mas tanto a prosperidade pessoal como a sumptuosidade e o requintado conforto que esta bela residência decerto proporcionaria, não parece que tenham deslumbrado Cândido Sotto Mayor, cuja personalidade pública, sumariamente definida na obra já citada de Barroso da Fonte (p. 587) o aponta como um Homem que “sempre fugiu à publicidade e elogios”, ao ponto de se acomodar, na sua meia-idade, ao “status” adquirido após uma vida de indizíveis trabalhos e sacrifícios. À sua faceta de homem de elevadas qualidades morais e humanas e ao natural espírito de benemérito revelados na capital, juntou-se o apego e orgulho pelas suas origens. Coube-lhe a honra e a dignidade de ter ordenado a construção da "Vila Cândida", um bairro para operários pobres em Lisboa, atribuindo-lhe o nome de sua filha Cândida ou, segundo outros autores (que sustentam não ter havido dele filha alguma) do seu próprio nome e de seu filho Cândido, mas também se sabe que, sempre que podia, se deslocava a Chaves, cidade que tinha em grande estima e de cujas termas consta que chegou a ser proprietário. A esta cidade, além do imponente edifício por ele mandado erguer para funcionar como agência da instituição bancária com o seu nome, a que atrás nos aludimos, fez algumas doações com vista ao seu melhoramento urbanístico, tais como os coretos que nela mandou instalar e a doação de um amplo espaço junto à actual Avenida D. João I destinado à construção do Jardim Público, que em 1915 passou a chamar-se Jardim Cândido Sotto Mayor, onde hoje se contempla um busto que aí foi instalado em sua homenagem pela Autarquia.

Postal com trecho do Jardim Público de Chaves, c. 1901, e busto em homenagem a 
Cândido Sotto Mayor | http://flaviense.blogspot.com/ | http://frproart.blogs.sapo.pt/

Outras curiosas informações, estas relativas às provas de afecto que Cândido Sotto Mayor e sua família mostraram pela comunidade onde se encontram as suas raízes, são as que descobrimos no já referido blogue de Graça Gomes de que passamos a transcrever um pequeno excerto:

Consta-se que a escritura de doação do Jardim Público teria uma nota que isentava os naturais de Lebução de qualquer pagamento para entrar nesse espaço.
Em Lebução, a família Sotto Mayor, está ligada à construção da antiga escola primária, com a doação de uma renda perpétua para ajudar alunos pobres, e a um altar (erigido em honra de Nossa Senhora de Fátima) na Igreja Paroquial.

In http://lebucaodevalpacos.blogspot.com

A antiga Escola Primária de Lebução mandada edificar pela família Sotto Mayor, 
já demolida | Foto de Graça Gomes | http://lebucaodevalpacos.blogspot.com


Cândido Sotto Mayor faleceu em 28 de Outubro de 1935.

 Referências

[1] Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães.
[2] Geneall Net | http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=2047659
[3] António Cruz, Palácio Sotto Mayor, Figueira da Foz | http://www.antoniocruz.net/
[4] Id. excerto (capítulo inicial) do livro "Palácio Sotto Maior" da autoria de José Pires Lopes de Azevedo editado em Setembro de 1999 e com distribuição gratuita pela Sociedade Figueira Praia, Sa.
[5] Graça Gomes | http://lebucaodevalpacos.blogspot.com
[6] História do Banco Pinto & Sotto Mayor | http://bancario.pt/
[7] José Amado Mendes, A EMPRESA BANCÁRIA EM PORTUGAL NO SÉC. XX: EVOLUÇÃO E ESTRATÉGIAS, revista Gestão e Desenvolvimento, 11 (2002), pp.39-56, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra |http://www4.crb.ucp.pt/
[8] Mayor Sotto [Lisboa] | http://www.geocaching.com/ 

segunda-feira, 28 de março de 2011

150.º Aniversário da elevação de Valpaços à categoria de Vila

A foto foi gentilmente cedida pelo Dr. José António Soares da Silva

Foram precisos mais de 24 anos depois do feliz Decreto de Passos Manuel que elevou Valpaços à categoria de sede de concelho, a 6 de Novembro de 1836, data que é celebrada anualmente como feriado municipal, para que a aldeia fosse contemplada com a elevação à categoria de Vila! Durante esse tempo Valpaços foi engrandecendo com o próprio engrandecimento do seu modesto termo municipal inicial e à custa sobretudo da integração das freguesias, que para ele foram passando, dos extintos concelhos de Monforte do Rio Livre e de Carrazedo de Montenegro, como tivemos oportunidade de recordar na nossa publicação de 6 de Novembro de 2010 dedicado ao feriado municipal.  

Como se sabe, esta situação não foi inédita pois verificou-se um pouco por todo o país, em consequência da gigantesco movimento reformista que varreu para sempre as seculares estruturas administrativas típicas da monarquia conservadora, movimento esse inspirado no espírito legislador reformista de Mouzinho da Silveira (um Cartista reformador), materializado pelos subsequentes políticos Setembristas, em especial por Manuel da Silva Passos e prosseguido durante a Regeneração e do Partido Reformista até à implantação da República.  O que equivale a dizer que a elevação de Valpaços a Vila seria em grande parte uma questão de tempo. No entanto, tal só foi possível graças à enérgica insistência de uma ilustre figura política e militar valpacense, Júlio do Carvalhal, que enquanto Deputado pelo círculo de Valpaços entre 1860 e 1862, obteve a anuência  do acto que foi referendado pelo Marquês de Loulé a 27 de Março de 1861 e confirmado por Decreto Real ( carta de mercê), assinado por D. Pedro V  a 4 de Abril do mesmo ano. Vila durante quase 138 anos, Valpaços viria, finalmente a ser elevada a categoria de cidade em 13 de Maio de 1999.

A data de ontem, 27 de Março foi, portanto, uma data comemorativa de reconhecida importância para a localidade. Pelo seu envolvimento no significado histórico que essa data representa, Júlio do Carvalhal é uma personagem histórica do concelho, de quem já publicámos uma breve biografia neste blogue, que merece também algumas notas em sua homenagem.


Passamos a transcrever o referido documento, tal como foi publicado por A. Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços.


Carta de mercê da Vila
D. Pedro V, por Graça de Deus, rei de Portugal e dos Algarves, etç.
Faço saber aos que esta minha carta virem que, atendendo a que a povoação de Valpaços no distrito de Vila Real, além de ser a cabeça de concelho e comarca daquela designação, possui os requisitos necessários para poder gozar convenientemente da consideração de vila, assim pela sua população e riqueza como pelo grande merecimento que ali tem tido ultimamente várias obras de utilidade pública sob a inteligente direcção e eficaz impulso da respectiva municipalidade, tem outrossim em contemplação os testemunhos que o povo daquele lugar tem constantemente dado de nobre homenagem e devoção ao trono e as instituições constitucionais da monarquia: hei por bem anuindo à representação da Câmara Municipal e demais autoridades judiciais e administrativas do concelho de Valpaços, em vista da informação do Governador Civil de Vila Real e resposta fiscal do Ajudante do Procurador Geral da Coroa junto do Ministério do Reino, fazer mercê à povoação de Valpaços e de a elevar à categoria de vila com denominação de Vila de Valpaços, e me praz que nesta qualidade goze de todas as perrogativas, liberdades e franquezas que direitamente lhe pertenceram. Pelo que mando a todos os tribunais, autoridades, oficiais e mais pessoas a quem esta minha carta for mostrada que, indo assinada por mim, referendada pelo Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Reino e selado com o selo pendente das armas reais, hajam a sobredita povoação por vila e assim a nomeiem sem dúvida ou embargo algum. Pagou de direitos de mercê e adicionais a quantia de setenta e sete mil réis, como consta de um recibo de talão número setecentos sessenta e nove, passado em três de Abril corrente na Direcção Geral de Tesouraria do Ministério da Fazenda, e de um conhecimento em forma, número mil oitocentos e cinco, passado na mesma data, na Administração Geral da Casa da Moeda e Papel Selado; e esta carta é passada em dois exemplares um dos quais, depois de registado nos livros da Câmara Municipal de Valpaços, e no Governo Civil do distrito de Vila Real, servirá para título daquela corporação, e outro será depositado no real arquivo da Torre do Tombo. Dada no Paço das Necessidades em quatro de Abril de mil oitocentos sessenta e um, (1861). El-Rei P.
Carta pela qual Vossa Majestade há por bem fazer mercê à povoação de Valpaços de a elevar à categoria de Vila com a denominação de Vila de Valpaços pela forma retrodeclarada.
Para Vossa Majestade ver.
João Correia de Oliveira Caufers, a fez.


in Valpaços, Monografia, A. Veloso Martins, C.M. Valpaços, 1990, 2.ª ed. pp. 102-103

sábado, 5 de março de 2011

Idácio, bispo de Chaves, e os Suevos


A invasão de Chaves pelos Suevos, 26 de Julho de 460
Ilustração e montagem de Leonel Salvado | foto de base http://rosinhamia.blogspot.com

Idácio foi bispo de Aquae Flaviae (Chaves) entre 427 e cerca de 460, sendo o único bispo que se conhece da diocese atribuída a esta cidade, o que permite supor que a diocese flaviense não lhe terá sobrevivido, já que após este prelado não se encontram mais referências ao bispado flaviense, na área correspondente grosso modo à actual diocese de Vila Real, falando-se contudo num bispado posterior, o de Bética (Boticas?).
Idácio nasceu ao redor do ano de 395 em Xinzo de Límia uma povoação da moderna província de Ourense situada junto do rio Lima, cujo nome se pronuncia agora em castelhano Ginço de Limia . Xinzo de Límia era a civitas romana de Forum Limicorum sendo essa a razão por que também é conhecido por Idácio de Límica. Nasceu numa família culta e romanizada e viveu, portanto, numa época, como se sabe, bastante conturbada pela instabilidade do império romano, pela fome, pelas epidemias e pelo temor inspirado pelas sucessivas hordas de povos bárbaros, como os Suevos, um povo de origem germânica aparentado aos anglos e saxões que desde o século II vinham rondando as fronteiras império decadente e no início do século V irromperam por todo o nordeste peninsular, espalhando a morte e a destruição entre populações hispano-romanas até se estabelecerem na província da Galécia e fundarem aqui um reino com a capital em Bracara Augusta (Braga). Desde então a expansão do reino suevo foi entendido como uma urgente necessidade e levada a cabo através de incursões de destruição, pilhagens e morticínio.
A Crónica de Idácio (também conhecido por Cronicão) é a mais importante fonte historiográfica para se conhecer este período obscuro da história do Ocidente peninsular no século V (entre 369 e 469) e é através dela que conhecemos a acção dos suevos e, em parte também dos visigodos, neste território. É uma obra em que o autor adquire uma aceitável credibilidade por ter aproveitado fontes escritas, testemunhas idóneas, e sobretudo os seus próprios conhecimentos. Outra particularidade curiosa de Idácio é que foi o primeiro cronista a indicar os dias da semana pela nomenclatura cristã. Nos seus escritos Idácio mostra-se um católico atormentado por uma visão apocalíptica que o colapso do império e o terror dos bárbaros confirmavam as respectivas profecias. Assumiu assim a função de descrever o “fim dos tempos”, mas sem deixar de procurar a paz e combater as heresias ariana e prisciliana.

Em 410, o bispo Idácio descrevia assim, na crónica, a sua visão apocalíptica dos tempos dos primeiros suevos que entram na Hispânia:

“Os Bárbaros, que penetraram nas Espanhas, pilham e massacram sem piedade. Por sua vez, a peste não causa menos devastações. Enquanto as Espanhas estão entregues aos excessos dos Bárbaros, e o mal da peste não faz menos estragos, as riquezas e os víveres armazenados nas cidades são extorquidos pelo despótico colector de impostos e exauridos pelos soldados. E eis que a temível fome ataca: os humanos devoram a carne humana, sob a pressão da fome, e as próprias mães se alimentam do corpo dos filhos, por elas mortos e cozinhados. Os animais ferozes, habituados aos cadáveres das vítimas da espada, da fome ou da peste, matam também os homens mais fortes e, cheios dessa carne, desencadeiam por todo o lado o aniquilamento do género humano.”
As primeiras fricções entre os suevos pagãos e as comunidades hispano-romanas autóctones não diminuíram, o que levou o Idácio, em 431, a deslocar-se à Gália, à frente de uma embaixada hispano-romana para requerer do vencedor dos Hunos, o General Flávio Aécio, o mais poderoso chefe militar do já moribundo Império Romano do Ocidente, uma intervenção militar contra a Galécia sueva. Não obstante ter regressado à Galécia no ano seguinte na companhia do conde Censório com instruções para que este negociasse a paz, o atrevimento do prelado originou a pronta retaliação dos suevos e o recrudescimento das suas acostumadas investidas sobre as indefesas populações hispano-romanas por toda a parte da Galécia, incluindo as desta região transmontana.

Não obstante ainda o rei suevo Requiário ter adoptado em 449 o catolicismo, a crueldade deste povo bárbaro não diminuiu. A propósito das depredações de Requiário para além dos limites da Galécia, conta Idácio:

Mas depois da sua vinda o rei dos suevos, Rechiário com numerosa tropa dos seus invade as regiões da província Tarraconense, fazendo ali grande motim e levando-se abundantes cativos a Galaecia.”

É ainda pelo bispo de Chaves, que sabemos que a sua cidade, Aquae Flaviael foi invadida em 26 de Julho de 460 pelos suevos de Frumário, depois de assolarem toda a região, sendo ele próprio aprisionado na respectiva catedral, afastado da cidade e restituído à liberdade em Novembro seguinte para regressar a Chaves onde viveu até ao fim dos seus dias. Por essa altura travava-se no reino suevo uma acesa disputa pelo trono entre aquele Frumário (459 - 463) e Remismundo (459 – 469) e é de crer, tendo em conta a prisão de Idácio, que o prelado flaviense desempenhou um papel importante nessa disputa, a qual, afinal, terminou com a vitória de Remismundo e com a reunificação do Reino, em 463. Mas com a agravante de a Galécia sueva ter voltado ao Arianismo por influência dos aliados visigodos de Remismundo, mantendo-se por várias décadas o habitual clima de tensão e desespero vividos pela população rural. Só no ano de 550, no reinado de Carriarico (550 – 559), os suevos se reconverteriam ao catolicismo.
Desconhece-se a data exacta da morte de Idácio, mas sabe-se que ela terá ocorrido depois de 468, havendo quem indique a data de 470. Apesar da sua interpretação apocalíptica dos factos que narrou na crónica, ironicamente, Idácio dedicou a sua vida à pacificação da Galécia sueva e ao combate às heresias, tanto na sua diocese como em todo o território peninsular, sobretudo os priscilianistas, a quem ele designava de maniqueus, não se escusando de encetar contactos com outros importantes bispos da Hispânia, tais como Toríbio de Astorga e Antonino de Mérida e a solicitar ao papa São Leão Magno - Leão I (440 – 461) toda a ajuda e conselho possíveis para lidar com as heresias que se alastravam por toda a Península, no que foi atendido: O Pontífice logo encarregou o bispo de Astorga a promover um concílio nacional na Península Ibérica contra o priscilianismo ou, se tal não se afigurasse possível, uma reunião dos prelados da Província da Galécia com a cooperação do bispo Idácio.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Efemérides - Manuel dos Reis Buiça

Foi no dia 01 de Fevereiro de 1908 que foi morto pela Guarda Real, em Lisboa, Manuel dos Reis Buiça. Tinha nascido em Bouçoães, Valpaços, no dia 30 de Dezembro de 1876. Foi segundo-sargento de cavalaria, destacando-se como bom atirador. Demitido do Exército, veio para Lisboa, onde se dedicou ao magistério no ensino secundário com assinalável êxito.
Era viúvo, cultivando poucas relações fora dos seus afazeres  profissionais. Militante de uma sociedade secreta anarquista ligada aos republicanos, nunca se soube quem planeou e contribuiu para o atentado no Terreiro do Paço, em Lisboa, que vitimou D. Carlos e o príncipe herdeiro, D. Luís Filipe, e consumado por Manuel Buiça (que matou o príncipe) e Alfredo Costa, que de imediato foram abatidos.

Américo Brito
http://www.semanariotransmontano.com

Para informações mais detalhadas sobre Manuel Buíça e o Regicídio em postagens anteriores neste blogue clique nos ícones:

                  
O regicídio                         O regicida                          O mistério



quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

210.º Aniversário do nascimento de Passos Manuel

Manuel da Silva Passos | http://marcasdasciencias.fc.ul.pt/
A Passos Manuel, aliás Manuel da Silva Passos, singular figura da vida política portuguesa que começou por se revelar na ala esquerda do movimento vintista para depois se vir a destacar como o líder incontestado do Setembrismo, se ficou a dever a criação do concelho de Valpaços. A profunda reforma administrativa por ele empreendida 1835 fez com que logo nesse ano fossem criados 854 municípios, número que foi reduzido no ano seguinte reduzido para 383. A criação do concelho de Valpaços enquadra-se neste grupo, por decreto emanado do seu ministério a 6 de Novembro de 1836, sendo por isso que em 1935 se instituiu o dia 6 de Novembro como feriado Municipal. Em 1898 havia cerca de 300 municípios e na actualidade apenas mais oito. O código administrativo laboriosamente concebido por Passos Manuel, com a colaboração de seu irmão José da Silva Passos, e publicado a 31 de Dezembro de 1836, estabeleceu os princípios que regularam até hoje o exercício do poder pelas instituições locais, poder esse repartido entre a Autoridade central, as Câmaras e as Juntas de Freguesia. Apesar das críticas que ainda se apontam à permeabilidade deste modemo administrativo face à arbitrariedade  com que foi usado e abusado, à medida das conveniências dos regimes políticos que se sucederam nos últimos 174 anos, os valpacenses podem orgulhar-se de ter na sua cidade uma bela rua com o nome de Passos Manuel, entre muitos naturais da vila, depois cidade, ou do concelho que também contribuíram para lhe dar vida, alguns dos quais já fizemos referência. Cumpre subscrever as palavras de exortação com que A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços termina o seu panegírico a Passos Manuel:

Um “… Homem a quem Valpaços tanto deve e que nunca deverá esquecer.”

Para aceder a uma monografia mais detalhada sobre Passos Manuel, clique AQUI.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Colmeal das Donas, uma aldeia fantasma no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo

Actualizado em 8 e Fevereiro de 2012

O Colmeal, uma "aldeia fantasma", foto de João Paulo Sousa in http://www.panorâmio.com

As aldeias abandonadas são uma realidade que vem suscitando, nos últimos anos, diversas reacções de pesar dos portugueses, sobretudo à escala regional, umas vezes movidos pelo natural apego ao seu património material e cultural, outras por incontidos sentimentos de nostalgia, outras vezes até por um inconsolável sentimento de injustiça. Na maioria dos casos, como sucedeu com a aldeia do Cachão, no concelho de Valpaços, essa realidade parece ter sido fruto da interioridade e dos surtos de emigração que se intensificaram no país a partir dos anos setenta. Noutros casos, porém, como os que sucederam nos tempos em que a ruralidade era encarada como umas das virtudes da Nação, encorajada pelo regime e acatada com maior ou menor resignação pelos povos, as causas revestiram contornos de efectiva injustiça e de consequências dramáticas que deixaram marcas nas populações durante várias gerações. Um desses casos, talvez o mais paradigmático, foi o caso da “tragédia do Colmeal”, uma aldeia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, cujos moradores foram obrigados a abandoná-la por forças da GNR, no ano de 1957, em consequência de uma acção judicial que ainda hoje, passados 53 anos, gera desabafos de clara indignação em algumas vítimas e descendentes e confundem os juristas que procuram, à luz do sistema jurídico da época, indagar da legitimidade dessa acção. Esta questão, que desde há duas décadas tem preocupado o poder municipal, tem sido levada aos meios de comunicação e hoje mesmo foi tema de destaque no programa televisivo “Tardes da Júlia”, apresentado por Júlia Pinheiro no canal TVI. Enfim, face à documentação disponível, este lamentável acontecimento afigura-se-nos como uma tragédia que pode ser (re)apresentada em três actos.

A TRAGÉDIA DO COLMEAL EM TRÊS ACTOS
Colmeal, outrora designada de Colmeal das Donas é uma aldeia abandonada da freguesia que ainda lhe deve o nome, situada no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. De origens remotas (surge pela primeira vez mencionada em documentos papais e leoneses do século XII) tem uma história curiosa que atingiu o dramatismo a partir da década de 40 do século passado, começando por fazer correr rios de tinta na imprensa regional e nacional nos anos que se seguiram à revolução dos cravos e tendo vindo, nestes últimos anos, a ser cada vez mais mediatizada e a constituir motivo de fascínio por parte das novas gerações que a têm feito passar nos meios de comunicação social nas mais variadas formas, que vão desde as interessantes versões romanceadas de Felícia Cabrita até às reportagens de Sandra Invêncio e de Gabriela Marujo, as souberam explorar, literária e jornalisticamente, as memórias e lamentações dos seus antigos habitantes e expõem toda a verdade nua e crua da história desta «aldeia fantasma».

Acto Primeiro – Lendas e Narrativas

António Bordalo, 72 anos esgalhados na terra, tenta esquivar-se a uma velha maleita que se lhe encostou à alma. As pernas escanzeladas descobrem a força e a agilidade do antigo pastor e cortam o silvedo como lanças.
A espreitar do vale, o campanário da igreja paroquial do Colmeal dá sainete à serra. António estaca, no olhar o desconcerto, na boca mil maldições. Deus noutro tempo não sabia o que fazia. A porta do templo saiu dos gonzos, o telhado ruiu e o sino, que tinha escapado às invasões francesas, voou com alguma dança macabra. O velho procurava em volta vestígios do cemitério que as silvas escondem, entra na igreja, tropeça. As pedras de granito das sepulturas foram levantadas, crânios estilhaçados e ossos cortam-lhe os passos. Abre a porta da sacristia que dá para o cemitério, arbustos encorpados como gente, onde os bichos daninhos se acoitam, impedem a passagem, e ele quebra cego na dor: «Bandidos, ladrões, que aqui tenho meus avós, minha mãe, meu sangue».
António atravessa a aldeia fantasma à procura de velhas lembranças. O telhado da sua antiga casa tombou e à porta uma mata densa impede-lhe a entrada. No solar de Pedro Álvares Cabral, os frescos nas paredes despedaçadas, e a pedra de armas ainda resistem ao logro do tempo. As vacas são agora as senhoras da casa fidalga, nos antigos salões rompem com os velhos moldes feudais aliviando aliviando a tripa e protegem-se do sol implacável de Julho.
Sentado na escadaria, o velho solta a memória, alegrias e tristezas, lendas e medos de gente da serra, habitantes de uma aldeia com passado que teve o nome assente nos cronicões. Ali tinham nascido e morrido seus antepassados, avós lusos e iberos. O pai era lavrador e tinha de seu uma junta de bois e muitas colmeias. Viviam apenas da lavoura e quando não havia agricultura iam à jeira para terras de famílias abastadas. A água não faltava nas hortas e pomares, e as frutas e as hortaliças do Colmeal eram muito cobiçadas. Mas quando se aproximava Maio, antes das colheitas, não sobrava trigo para trocar por sardinha ou rabos de bacalhau, e os mais pobres não tinham outro passadio que não fosse pão com azedas que cresciam nas paredes.
Ia o século a dar os primeiros acordes e António, mal completara 7 anos, começou a galgar a serra com o rebanho do feitor. José Feliciano era bom homem, e ainda ia longe o tempo dos desacertos. Calçou-o, foram os primeiros sapatos que conheceu, com tamancos de pau ferrados. Dava-lhe a merenda e ao fim do ano oferecia-lhe um animal. António não pedia mais à sorte, que isso era quase pecado, e aos poucos conseguia uma cabrada. O rapaz andava com o rebanho à folha pela serra, sem quebranto. Um pau de choupo servia de arma contra os lobos e para vergar o fole a quem não viesse por bem. Pelava-se para abater o lobo ou a raposa e mostrava-se depois de povo em povo, a fazer gala da presa e a arrecadar ovos e farinha pelo serviço prestado aos galinheiros. Mas quando se aproximava Junho arrepelava-se se tinha que passar pela Cova da Moura, uma sepultura do tempo da moirama, encerrada numa fraga. Mantinham velhos pastores, que passavam dias e noites a cismar naqueles serros que arranhavam o céu, que a moura saía do seu encanto pela festa de S. João, e à noitinha estendia a sua roupa à orvalhada para não ganhar traça. As mulheres, a quem a natureza tinha concedido a fraqueza, quando vinham da ceifa não olhavam para trás para não caírem no feitiço. António com coisas dessa natureza nunca mofou, e era certo que depois da meia-noite baixava as trancas para se defender do andaço dos lobisomens que batiam às aldrabas a ver se pegava, e deitavam coices às portas.
Ao domingo abandonavam os sachos e as gadanhas, era dia de folgança. De manhã Padre Seixas, mais conhecido por Cieiro, mercê da comparação que o povo fazia entre ele e o vento nordeste, violento e frio, celebrava; ainda a missa era cantada. A igreja estava apinhada de povo, muito afeiçoado às coisas de Deus. O santo predilecto era o Pai eterno, que tinha uma bola na mão, representação do mundo. E eles andavam sempre muito alinhados com as leis divinas para não desfeitarem o santo, porque sabiam que se o globo caísse se afundava o mundo.
Mal a noite se punha, os rapazes faziam a ronda pelo povo, tocando concertina. As moças casadoiras juntavam-se à volta da fogueira e o baile corria até de madrugada. Não havia bicho-careta dos arredores que faltasse à festa, vinham de machimbo ou a butes no engodo das raparigas que tinham fama de muito galantes. Felisbela já andava embeiçada por um rapaz, um ás da harmónica, e nunca faltava à dança. Só tinha três fardas para pôr no corpo, mas chegava para agradar. O pai tinha-a debaixo de olho com medo que o vento a emprenhasse e punha-se debaixo do lampião para não perder qualquer atrevimento do noivo. Era leve como as penas e alegrava a roda com a sua graça. O lenço caía e mostrava o cabelo entrançado, grosso e brilhante, a querer desprender-se do carrapito. Os moços de fora levavam rebuçados que ela não comia temendo alguma miscelânea que a metesse doida. Era amiga da pândega mas sem dar muito paleio para não cair nas bocas do mundo e casar com honra e crédito. As romãzeiras engalanavam a aldeia, e os mais velhos abancavam em pedras e compunham a festa com relatos de coisas antigas e os enigmas das origens. Colmeal pertencera ao reino de Leão mas com as rapsódias da história passou para a coroa portuguesa. As demandas com os espanhóis despovoaram os lugares da serra e D. Afonso V deu-lhe carta de Couto em 1540, era senhor desse povo João Gouveia. Com a morte do fidalgo andou aquela terra de senhor para senhor até acabar nas mãos de Pedro Álvares Cabral. Felisbela que não conhecia letra nem livro, sabia que a sua aldeia existia desde o início do mundo e, como toda a gente, em tudo punha milagres. Por isso pelava-se para ouvir Amadeu, o poeta da terra, que em tempos ia a Belmonte, por soutos e moitas, altos e baixos, entregar aos cabrais um braço de cebolas e umas tantas galinhas pelo foro do povo.

Amadeu mexia em verso no passado e trapaceava as crónicas.
Junto à fogueira com a garrafa de vinho à perna, o poeta contava à sua maneira o que já ouvira dizer a seus antepassados sobre a origem da aldeia. Era uma vez um pastor deste lugar que entrou em desassossego com um sonho que o perseguia. Alguém lhe dizia que fosse a Belém procurar o seu bem, e de tanto malucar com este mistério, um dia foi. Ao chegar à beira de uma fonte, encontrou um pastor negro que lhe deu a chave da mensagem. E ele partiu às pressas, para junto do seu gado que andava no pasto, e debaixo de umas lajes encontrou uma cabra e um chibo de ouro. Por ser homem de honra não se alapardou com o tesouro e foi ao palácio entregá-lo ao rei. O monarca, satisfeito com a oferenda, disse ao pastor que lhe satisfazia um desejo. E o homem pediu-lhe umas terras para amanhar, e pastos para as suas cabras, e assim nasceu o Colmeal.
Felisbela quando mirava o solar dos Cabrais não duvidava da lenda na pedra de armas gravada, uma cabra e um chibo.
Por Felícia Cabrita, Colmeal, Ecos da Marofa, edição de 10-05-2007
Imagens: http://www.cm-fcr.pt

Acto Segundo – A verdade nua e crua

Eram mais ou menos dez horas da manhã, quando os habitantes do Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, foram surpreendidos por uma força da GNR que os expulsou de suas casas e lhes confiscou os seus pertences. Estava-se a 8 Julho de 1957. Quarenta anos volvidos no meio de todo o abandono a que ficou votado, e do elevado estado de degradação dos edifícios, o Colmeal serve de campo de pastagem dos animais daquele que se diz dono da aldeia. Mas há quem não esqueça esta injustiça.
«Andaram naquilo até à noite», lembra Albino Carvalho. Na altura, tinha pouco mais de trinta anos e a «vida arranjada». A tarefa era executada por «dois homens que traziam as coisas de casa para a rua», e, «como a gente era muita», foi necessário um dia inteiro. De certa forma, os habitantes do Colmeal sabiam que «algo de mal» lhes iria acontecer. Mas nunca pensaram numa sentença tão dura.
A história deste povo é de origem antiquíssima. O documento mais antigo que se conhece data do ano de 1183, quando D. Fernando II (Rei de Leão) se encontrava em Ciudad Rodrigo e doou o Colmeal, conjuntamente com outras povoações, à Ordem de São Julião do Pereiro. Uma doação confirmada pelo Papa Lúcio II em Abril do mesmo ano. Esta ordem teve a sua sede no lugar do Pereiro, onde ainda hoje se podem ver os vestígios perto de Cinco Vilas que faz fronteira com o Colmeal. Após o Tratado de Alcanices, os bens desta Ordem passam para a Ordem de Alcântara, em 1297, e as terras de Riba Côa são integradas na Coroa Portuguesa. As disputas com os espanhóis despovoaram os lugares da serra, e D. Afonso V deu-lhe carta de Couto - terra que não pagava impostos por pertencer a um nobre, com o nome de Colmeal das Donas em 1540. Era senhorio deste povo João Gouveia.
Com a morte deste fidalgo o Colmeal das Donas passa a pertencer a Vasco Fernandes de Gouveia (1476), e, com a morte deste, a Fernão Álvares Cabral e D. Isabel de Gouveia. Pais de Pedro Álvares Cabral.
Mudanças sucessivas levaram a que a burguesia endinheirada, saída da República, se fosse apoderando dos domínios da nobreza. Os Condes de Belmonte não escaparam e venderam o foro do Colmeal das Donas. Os novos proprietários mantinham direitos que remontavam ao tempo das sesmarias, ao mesmo tempo que lavravam à pressa escrituras e delimitavam terrenos. As gentes do Colmeal por sua vez, habituadas à servidão, continuavam a pagar foro. Desta feita, aos feitores dos novos senhorios. «Aquilo não se fazia»
O triste fado da aldeia foi ditado no início da década de 40 com a chegada de um novo rendeiro, que subia as rendas a seu bel-prazer. Valores que atingiram níveis quase impossíveis de suportar. Durante anos os habitantes "mataram-se" a trabalhar para pagar as rendas. Albino Carvalho recorda esses tempos sem saudade, mas lá vai dizendo que, embora as terras «fossem más», «uns lavravam, outros tinham cabras, outros tinham vacas», e a agricultura lá ia dando para viver e pagar aos rendeiros.
Revoltados com a situação, os habitantes do Colmeal recusaram-se a pagar e, como resultado, tiveram de travar uma longa batalha jurídica que de nada lhes valeu. O processo começou com a acção de despejo para o caseiro da casa dos Cabrais, acusado de deixar de pagar renda ao senhorio, mas anos depois os aldeões passaram à categoria de subarrendatários do mesmo e tratados de igual modo. Por altura das colheitas dois oficiais da justiça chegaram com a sentença final. Uma acção de despejo. Estava-se no dia 8 de Julho de 1957.
A GNR apresentou-se fortemente armada para o acto de despejo. Enquanto os aldeões tentavam a sua sorte nos montes sobranceiros à aldeia, as mulheres e as crianças refugiavam-se na igreja. Nada impediu as autoridades de rebentarem com as portas das casas e levarem os poucos haveres desta gente simples.
«Andavam em demanda há muito tempo», na opinião de Albino Carvalho. Designadamente, de Rosa Quirino Cunha e Silva que queria ser dona de todo o Colmeal. Tanto que o seu advogado, Manuel Vilhena, conseguiu "ajeitar" as leis e transformou a aldeia - anterior à nacionalidade portuguesa -, numa quinta.
A única coisa que Albino e a sua família conseguiram salvar foi «algumas roupas». Como não podia regressar ao Colmeal, a terra que o viu nascer, Albino teve de recomeçar do zero noutro lado. A escolha recaiu sobre Bizarril, a terra natal da sua esposa, e uma das anexas que serviu de refúgio às gentes da aldeia despojada. «Arrendámos esta casita», conta Albino, onde ainda hoje vivem os dois, o sustento era garantido pela agricultura. A profissão que sempre conheceram. «Tempos difíceis». As dificuldades arranjaram-lhe uma doença a que ele chama «velhice», e que não o deixa deslocar-se com a mesma energia de antes. Tem apenas 72 anos, mas anda encostado a um pau como se a vida o tivesse deixado. Com lágrimas nos olhos, lembra o filho que deixou lá enterrado. «Disseram-me que o cemitério está num estado lastimável, que arrancaram as pedras», conta. Assim como lamenta que o actual proprietário «tenha vendido todos os santos da igreja, segundo me disseram, a um senhor de Trancoso».
Maria Matilde não nasceu naquela aldeia, mas foi lá crismada, e lembra-se bem da festa de S.Miguel. «Era uma grande festa. Toda a gente das aldeias vizinhas se deslocava ao Colmeal». Maria Matilde não fugiu à regra «e quase todos os anos ia à festa». Esta mulher natural de Bizarril não está de acordo com o que aconteceu aos habitantes da aldeia vizinha. «Aquilo não se fazia», afirma em tom revoltado. «Ainda me lembro que se via um guarda com uma metralhadora, além no cimo do monte». E reforça, «aquilo não se fazia»... «O Colmeal não é a quinta dada aos Quirinos».
Jerónimo Leitão proclama-se legítimo dono do Colmeal. «O Dr.Vilhena e o Dr.Crespo vieram ter comigo, e perguntaram-me se queria comprar aquela aldeia abandonada», recorda. Respondeu afirmativamente mas com uma condição: a compra ser feita pelos três. Assim foi. Os donos do Colmeal passavam a ser Manuel Vilhena, Miguel Crespo e Jerónimo Leitão. Entretanto, Vilhena vendeu a sua parte a este último, que passou a ser dono de cerca de mil hectares. Depois do 25 de Abril vendeu «400 hectares à Portucel», e arrendou, «por 25 anos, as partes mais altas da serra [Marofa] à Soporcel».
«Fizemos tudo para a recuperar», garante Jerónimo Leitão, «mas já naquela altura estava degradada». O espaço foi então aproveitado para uma exploração agrícola, a ser aumentada futuramente. «Vou proceder à recuperação de lameiros para as vacas», adianta. Quanto à venda do recheio da igreja, argumenta que «comprei, por isso é meu. Tenho toda a legitimidade de fazer o que achar melhor».
Quem não se conforma é Aires Cruz, descendente e criado na aldeia do Colmeal, e um dos expulsos, que afirma que «está provado que o Colmeal é uma aldeia e não uma quinta». «A aldeia tem uma Igreja Matriz [em 1320/21, no arrolamento que D. Dinis mandou elaborar estava mencionada a Igreja do Colmeal], uma casa da Junta da Paróquia, um Paçal com adro, um cemitério e ruas públicas», isto, garante, «provado e documentado». «Uma quinta não pode ter Paçal, Junta da Paróquia, nem cemitério público, onde os enterramentos datam de meados do século XVII». Resumindo, «existe uma aldeia, que é a aldeia do Colmeal, e cujas confrontações estão bem definidas, porque são de todos conhecidas». No entanto, prossegue, «existe uma quinta, não se sabe onde, mas que não pode ser a quinta que a justiça deu de facto aos Quirinos». Essa é a grande questão para Aires Cruz: «O Colmeal não é a quinta que foi dada aos Quirinos».
Este interesse desmesurado, em sua opinião, tinha a ver com a abundância de água. Um autêntico «manancial que dava aos camponeses uma situação de estabilidade». Tanto que levou os interessados a fazer os registos pela calada. Opção acertada já que os habitantes «não tinham argumentos nem quem os defendesse». Estavam por conta própria na medida em que nem o então presidente da câmara, Porfírio Augusto Junqueiro, os defendeu quando foram chamados a tribunal. Nunca saberemos o que esteve por detrás da atitude do presidente, mas, nas palavras da viúva, Mercedes Junqueiro, poderá ter a ver com questões legais. «Seria possível ao presidente da câmara opôr-se a uma lei emitida pelo Tribunal?», pergunta. O facto é que existiam registos de propriedades, e garantias orais de pertença de terrenos. E a decisão tombou a favor daqueles que tinham os registos. Mas Mercedes Junqueiro garante que a decisão não foi tomada «friamente». Foi uma decisão «demorada e dolorosa». E finaliza, «eu e o meu marido tivemos muita mágoa pelo povo do Colmeal».

À espera de respostas concretas

Após o 25 de Abril o processo foi reaberto, as pessoas foram ouvidas no Tribunal de Figueira, por um desembargador vindo de Coimbra, e ficou decidido que poderiam regressar às suas casas e terras, ficando a parte do Pradinho para a actual quinta. Uma decisão publicada em edital nas várias aldeias do concelho. Aires Cruz ainda se lembra desse edital estar afixado em Freixeda do Torrão e no Bizarril, e de ter recebido posteriormente «um exemplar em Angola», que deixou na casa que teve de abandonar devido à Guerra Civil.
O Governador Civil da Guarda na altura era Manuel Cardoso Vilhena. A 4 de Janeiro de 1989, Fernando Carrilho Martins, então autarca de Figueira, publicava um edital onde tornava público que, «nos termos do Decreto-Lei nº 205/88, de 16 de Junho último, e por força do disposto no artigo 2º da mesma disposição legal, a partir deste data, adaptação ou alteração dos bens imóveis classificados ou em vias de classificação e das respectivas zonas espaciais de protecção têm de ser assinadas por arquitectos». Da lista de bens imóveis que se encontravam classificados, constava a Povoação do Colmeal como imóvel com valor concelhio.
Em 1993, Aires Cruz apresentou o caso ao Procurador-Geral da República e demais autoridades, onde não pôde deixar de se mostrar indignado com todo este processo e acusa as autoridades judiciais de «não saberem, ou não quererem ver que estavam a praticar uma injustiça, em vez de aplicar a justiça». Até à data, e apesar de ter feito várias diligências, ainda não recebeu respostas concretas, e aguarda que seja feita «justiça a uma aldeia antiquíssima».
Fonte: Gabriela Marujo, Os despojos do dia, Terras da Beira, edição de 9-10-1997
Imagem: http://www.novaaguia.blogspot.com

Acto Terceiro – As perspectivas de regresso

Da casa onde Jacinta Carvalho nasceu e viveu até aos 21 anos já só resta parte das paredes exteriores. A aldeia fantasma do Colmeal é toda ela ruína, da igreja que já perdeu o telhado àquele que terá sido um imponente solar, no extremo oposto. «Esta não é a minha terra», reage emocionada a idosa, que, no último sábado, visitou pela primeira vez a aldeia desde os acontecimentos daquela manhã de Julho de 1957 - em que os habitantes foram despejados por uma ordem judicial, num caso único nos anais da justiça portuguesa.
Jacinta Carvalho vive a uns 13 quilómetros do Colmeal, em Castelo Rodrigo, e conseguiu estar 52 anos sem voltar à sua terra natal. Por opção. A sua família, tal como as restantes 12 que aqui moravam em regime de foro, perdeu tudo. Confessa que lhe custa recordar o quanto o pai chorou naquele dia, em que a família se mudou para Castelo Rodrigo, para a casa onde morava já uma irmã, que entretanto ali tinha casado. Foi aqui que recomeçou a sua vida, que também casou e teve três filhos. Começa por responder com um «não sei porquê» quando questionada acerca dos motivos que a levaram a aceitar o convite de O INTERIOR para voltar à aldeia. E emociona-se novamente. Diz que não foi pela recente decisão da Assembleia Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo de criar um grupo de trabalho para averiguar do potencial turístico do Colmeal – baseado na sua história, nas potencialidades ambientais e ainda no facto de por aqui ter morado a mãe de Pedro Álvares Cabral – e nem tão pouco pela possibilidade de vir a recuperar a casa da família. «Para que a quero agora?», questiona.
Jacinta Carvalho não tem planos para a casa. «Não vim cá antes porque tinha medo de me sentir mal», confessa. Veio agora porque, a cada vez que respondia com um “não” aos sucessivos convites de familiares e outros ex-moradores, crescia a curiosidade em saber como estaria a sua pequena aldeia: «Olhe, já não aguentava mais», desabafa.
Jacinta Carvalho recorda-se bem do dia do despejo. Conta que foi a mãe que na véspera, numa ida a Figueira Castelo Rodrigo, soube que na manhã seguinte iriam ser despejados. Tudo porque o feitor subarrendatário não pagava a renda há quatro anos àquela que era, de acordo com uma escritura de 1912, a nova e legítima proprietária dos terrenos dos herdeiros dos condes de Belmonte. A mãe da então jovem Jacinta Carvalho apressou-se a regressar à terra para avisar os aldeões. Na altura, Jacinta Carvalho era já a única de seis irmãos a residir ali com os pais. «Tínhamos uma boa seara nesse ano e então passámos a noite toda a tentar levar para Castelo Rodrigo o máximo que conseguíamos», recorda. Com o amanhecer veio o inevitável: 25 praças e três oficiais da GNR irromperam pela aldeia, entraram nas casas, retiraram os pertences dos moradores e colocaram-nos nas proximidades da Quinta Serra, a mais de um quilómetro. «Os nossos bens estavam misturados com os dos outros», conta. A família pegou nos seus pertences e rumou para Castelo Rodrigo. Outras permaneceram por ali até encontrarem um tecto.
«Um erro judicial, matricial e histórico»
Foi o caso de Aires Cruz, outro ex-habitante, que há 17 anos tenta perceber o que diz ter sido «um erro judicial, matricial e histórico». Tinha na altura 9 anos. «Foi muito complicado», lembra. A mãe era uma viúva com cinco filhos para sustentar. A família acabou por fixar-se em Freixeda do Torrão. Agora, Aires Cruz mostra-se algo céptico em relação às recém-anunciadas intenções da autarquia, mas diz que são «boas notícias» e que «já é tempo de ser feita justiça». O antigo residente do Colmeal tem mesmo uma monografia para publicar no próximo ano, onde diz provar que se tratou «de uma apropriação de terras indevida». O Colmeal é sede de freguesia e está provado documentalmente que é paróquia, desde 1940, refere Aires Cruz. «O documento nunca foi apresentado em tribunal, que considerou erradamente o Colmeal como quinta», sustenta. O resultado das suas investigações já o levou mesmo a escrever ao Presidente da República, Procurador-Geral da República e presidente do Supremo Tribunal de Justiça, entre outros. Aires Cruz diz esperar agora que a autarquia não se fique pelas intenções.
Fonte: Sandra Invêncio, De regresso ao Colmeal, 52 anos depois, Interior, edição de 21-05-2009
Imagem: Id.


Update... quase tudo na mesma!

“Da igreja restam as colunas, o arco e pedaços de parede. Os proprietários cederam-na à paróquia no ano passado, entregando algumas imagens que se julgavam desaparecidas.
Quando chegou à presidência da câmara, há seis anos, António Edmundo contactou os proprietários das terras. Falou «com o pai e com o filho, e nada». Já vai na «terceira geração» e espera agora que o neto resolva a situação. 
«Ainda há quatro ou cinco famílias vivas» de antigos habitantes e cada uma devia ter a oportunidade de recuperar a sua casa ou de a transformar para acolher os turistas que ali se deslocassem, e a casa dos Cabral seria o local colectivo, para reuniões, bar, restaurante – foi este o desafio que o autarca lançou ao actual proprietário, mas a ideia «praticamente não avançou», lamenta. 
«Há muita confusão à volta do processo», que chegou a ser estudado por uma comissão na assembleia municipal – mas «que não fez nada praticamente». A autarquia gostava de ver o passado posto de lado «antes que se perca aquilo tudo».
«Turismo de aldeia» era o que António Edmundo gostava de ver nascer no local e até já apresentou um plano de viabilidade ao actual dono – que devia, na sua opinião, recorrer a fundos comunitários. A autarquia assumiria a recuperação da capela, a chegada de água e energia à aldeia, os arruamentos. 
António Edmundo até já aproveitou os fundos comunitários para caminhos rurais e fez uma estrada em paralelo até Colmeal, num projecto que custou 89 mil euros (comparticipado em 66 mil pela União Europeia). A estrada termina onde as ruínas começam.
In http://www.cafeportugal.net, sábado, 9 de Julho de 2011