terça-feira, 5 de outubro de 2010

O 5 de Outubro de 1910


ilustração alusiva à implantação da República, C.M. Estremoz
Perfazem hoje 100 anos sobre a Revolução que pôs termo à Monarquia em Portugal e abriu caminho para a Proclamação da República. O Ministério da Educação constituiu uma Comissão para a comemoração da República e lançou um repto a todas as Escolas e Agrupamentos de Escolas do País para que aderissem a esta iniciativa. As Escolas e o Agrupamento Vertical das Escolas do concelho de Valpaços reagiram afirmativamente a esse apelo, através de actividades várias tivemos ocasião de assinalar neste blogue e cujo último evento decorreu no passado dia 1 de Outubro, também por nós noticiado. Hoje, na cidade de Valpaços, encontra-se a decorrer, desde as 10 horas mais uma cerimónia comemorativa do mesmo evento por iniciativa da Câmara Municipal que conta com a participação da Banda Municipal, integra uma sessão solene a realizar no auditório do pavilhão multi-usos com intervenções do Presidente do Município, Engenheiro Francisco Baptista Tavares e do Dr. António Montalvão Machado, Deputado da Assembleia da República, cerimónia esta que será encerrada pelas 15 horas com um concerto da Banda Municipal. O Programa foi publicado ontem no Notícias de Valpaços. (Nota póstuma: também já pode ver fotos da abertura da cerimónia em Valpassos d'Oje, e um interessante resumo, igualmente com fotos alusivas, das comemorações, em Lebução de Valpaços.)
Limitar-nos-emos hoje a divulgar os acontecimentos ocorridos na data comemorativa em referência, posto que as implicações dela emanadas na subsequente evolução política, social e económica portuguesa foram já devidamente tratadas e divulgadas por iniciativa das escolas do concelho e noticiadas neste e noutros meios de comunicação e divulgação exclusivistas ou generalistas. Uma equipa do Grupo de História do Agrupamento de Escolas de Valpaços, editou um panfleto ilustrado, em conformidade com o Plano de Actividades submetido a aprovação do Conselho Pedagógico, que se encontra em fase de divulgação nos respectivos estabelecimentos escolares desde o passado dia 1 de Outubro com este objectivo exclusivo – revelar os antecedentes, os acontecimentos históricos mais relevantes ocorridos na data em epígrafe, bem como o desfecho desses mesmos acontecimentos e suas implicações no contexto do tema da República em Portugal. É o teor desse panfleto que iremos publicar neste espaço.

A data de 5 de Outubro de 1910 representa o fim da Monarquia e a Implantação da República em Portugal.

OS ANTECEDENTES

Os últimos anos da Monarquia, em Portugal, foram vividos sob um clima de grande agitação e descontentamento por parte da população devido a uma série de factores de que destacamos: A subjugação do país aos interesses coloniais britânicos, os gastos da família real, o poder da igreja, a instabilidade política e social, o sistema de alternância de dois partidos no poder (os progressistas e os regeneradores), a ditadura de João Franco, a aparente incapacidade de acompanhar a evolução dos tempos e se adaptar à modernidade. A República afigurou-se, à opinião pública, como a melhor alternativa para restaurar o prestígio perdido e colocar Portugal no caminho da modernidade. O Partido Republicado, criado em 1876, soube aproveitar esta situação, através de uma campanha política e doutrinária, paralelamente à cooperação de sociedades secretas da Maçonaria Portuguesa.
A 31 de Janeiro de 1891 deu-se a primeira tentativa de instauração do Regime Republicano, com a revolta ocorrida na cidade do Porto. Da varanda da Câmara Municipal do Porto fez-se a proclamação da República. Mas o cortejo festivo que se seguiu foi barrado por um forte destacamento da Guarda Municipal e a multidão civil entrou em debandada, e com ela alguns soldados. A primeira tentativa revolucionária republicana falhara, mas este acontecimento veio fortalecer ainda mais a determinação dos revoltosos.
A manifestação republicana de 31 de Janeiro, segundo a revista Ilustração
Com a ditadura de João Franco, que o rei D. Carlos favoreceu, colocando-o, em 1906, na presidência de um novo ministério, de modo a restaurar a ordem pública e controlar os adversários do regime, o descontentamento dos portugueses intensificou-se ao ponto de, dois anos mais tarde, ocorrer o Regicídio: A 1 de Fevereiro de 1908, quando regressavam a Lisboa vindos de Vila Viçosa, no Alentejo, onde haviam passado a temporada de caça, o rei D. Carlos e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em plena Praça do Comércio.

O Regicídio, 1 de Fevereiro de 1908, in  http://novaaguia.blogspot.com

Com apenas 18 anos sobre ao trono D. Manuel II, que viria a ser o último rei de Portugal. Inicialmente aclamado com a simpatia generalizada dos portugueses, procurou D. Manuel II nomear um governo de consenso. Mas os partidos monárquicos foram-se fragmentando e a situação política degradou-se, ao mesmo tempo que o Partido Republicado se tornava cada vez mais coeso e organizado. A revolução decisiva não tardou a eclodir, sob a égide de fervorosos membros deste partido que foram considerados os mentores da Revolução. Entre eles destacaram-se Magalhães Lima, Miguel Bombarda, Cândido dos Reis, Afonso Costa, José Relvas, João Chagas, António J. de Almeida, Eusébio Leão e Inocêncio Camacho (na imagem: De cima da baixo / esquerda para a direita).

Os mentores da Revolução


A REVOLUÇÃO

No Verão de 1910 a Revolução adivinhava-se. A 3 de Outubro começou a organizar-se a Revolução. Após o assassinato de Miguel Bombarda, ainda se pensou em adiá-la, mas por determinação do Almirante Cândido dos Reis, os planos mantiveram-se, e iniciaram-se as movimentações.

Os primeiros movimentos militares

Os principais chefes militares que comandaram as operações das forças militares em confronto foram o capitão Sá Cardoso e o Comissário Naval Machado Santos, pelos Republicanos, e o Capitão Paiva Couceiro pelas forças da ordem monárquica.

Sá Cardoso           Machado Santos           Paiva Couceiro
4 de Outubro de 1910

De madrugada soaram tiros e instalaóu-se o pânico entre os revolucionários. O Quartel de Marinheiros de Alcântara, que estava previsto revoltar-se, encontrava-se cercado pela Infantaria 1, Cavalaria 4 e Caçadores 2, fiéis à Monarquia. Na rua posicionavam-se 3 000 monárquicos com as baterias a cavalo. O capitão Sá Cardoso, com um pelotão de Infantaria 16 partiu ao ataque do Palácio das Necessidades
O Comissário naval, Machado Santos, com praças do corpo de Infantaria 16 de Campo de Ourique, atacou o quartel de Artilharia 1. Com outra força de Infantaria 16 investiu sobre a esquadra de Polícia no Largo do Rato e armou os  civis que aí se voluntariaram.
Às 5 horas comandou as forças revoltosas que desceram a Avenida em direcção ao Rossio. Foram bombardeados, retrocederam para a Rotunda e fecharamm as entradas para as Avenidas Fontes e duque de Loulé.
Pelas 9 horas, Machado Santos dispunha apenas de 8 peças de artilharia e oomandou 9 sargentos e uma escassa guarnição de 200 homens, mas um grupo de civis armados acorreram à Rotunda para os auxiliar e resistiriam aí até à rendição das tropas fiéis à Monarquia.


Endurecimento e desfecho do conflito

4 e 5 de Outubro de 1910.

Às 12 horas e 30 minutos, as forças leais à Monarquia comandadas pelo Capitão Paiva Couceiro fustigavamm duramente a Rotunda com as baterias de Queluz. Às 14 horas os cruzadores S. Rafael e Adamastor bombardeavam o Palácio nas Necessidades.

Os heróis da Rotunda

As tropas terrestres fiéis à causa republicana tinham-se instalado na Rotunda, onde sofriam um forte bombardeamento das forças monárquicas.
A situação era desesperante, chegando ao ponto de o capitão Sá Cardoso colocar a hipótese de depor as armas. Machado Santos, por seu turno, não se conformou com esta alternativa, chegando a afirmar que preferia a morte à rendição.
Às 6 horas do dia 5 de Outubro as forças revoltosas abriam fogo contra as forças do Rossio, enquanto de Queluz respondiam as baterias de Couceiro, que deu ordens para que começassem a desembarcar os marinheiros dos navios de guerra estacionados no Tejo. O confronto endureceu, até que, por fim, o General-chefe das forças monárquicas, Paiva Couceiro, vendo a sua causa perdida, assinou, às 9 horas, a acta da rendição.
Leitura da proclamação da República
na sessão inaugural das Câmaras Constituintes
Com a Familia Real de partida para o exílio, era, finalmente proclamada a República e em seguida foi  organizado um governo provisório presidido pelo respeitável republicano moderado Dr. Bernardino Machado.
O Governo Provisório, tal como foi anunciado e 5 de Outubro
Mas o governo provisório viria a sofrer algumas mudanças imediatas, com a saída de Basílio Teles do Ministério das finanças, no que foi substituído por José Relvas e também pelo abandono de António Luís Gomes do Ministério do fomento, substituído por Brito Camacho.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Hoje é dia de S. Francisco de Assis


http://pt.wikipedia.org/wiki/Francisco_de_Assis
Fundador de uma das mais duráveis instituições regulares do sector monástico orientado para a prática da evangelização e missionação, S. Francisco de Assis é um dos santos católicos que maior simpatia tem recolhido na sociedade ocidental, seja pela singular lição de vida que dele se retira, seja pelos valores de humanidade que praticou e apregoou entre os seus “pobres irmãos de Cristo”.

Para aceder a uma detalhada biografia e outros assuntos relacionados com S. Francisco de Assis clique AQUI.

domingo, 3 de outubro de 2010

Afinal quantas Repúblicas existiram em Portugal, 2 ou 3?

Trata-se de uma das questões mais comuns que se colocam acerca da História da República em Portugal e, para muitos portugueses, uma das que também se afiguram como das mais triviais. Não será a própria resposta entendida como a mais acertada, realmente uma verdade de La Palisse?
Vejamos a forma como, muito recentemente, a questão foi colocada e “esclarecida” numa palestra por um conceituado historiador e a forma como esse esclarecimento foi considerado por um dos portugueses presentes no auditório:

Ontem tive o enorme prazer de ter assistido a uma conferência intitulada de «Da monarquia à Republica» em que o principal orador foi o professor Amadeu Carvalho Homem - catedrático de história da Universidade de Coimbra.
Nessa sua intervenção o professor descreveu e relatou os eventos que desde o século XVIII até ao inicio do século XX levaram e culminaram na primeira república em Portugal. Ao longo das suas várias intervenções, para além dos preciosos conhecimentos que partilhava, o professor deixou-nos a seguinte ideia: "Portugal teve apenas duas repúblicas e não três". Fundamentou esta sua tese argumentando que o Estado Novo não deveria ser considerado como uma verdadeira república, pois de república só tinha o nome porque os ideais republicanos nunca foram verdadeiramente praticados pelo regime salazarista. Disse mais ou menos o seguinte: “o Estado Novo de república só tinha os selos e a moedas, só ai é que a república se via e aparecia”.

“História da Vida Privada” em Portugal, uma obra já publicada e nascida de um projecto inédito sob a direcção de José Mattoso.

O círculo de Leitores editou a obra em epígrafe, constituída por 4 volumes, fruto de um projecto de equipa, que se considera ser inédito em Portugal, ainda que baseado no modelo francês da História da Vida Privada de Philippe Ariés e Georges Duby. Sendo uma obra colectiva dirigida por José Mattoso, que é acima de tudo um historiador medievalista, o primeiro volume desta, dedicado à Idade Média obra traz uma nova luz à tradicional concepção deste período da História em Portugal e nele o Director do projecto propõe-se romper com velhos mitos e preconceitos que foram sendo alimentados durante séculos de historiografia. É uma obra que recomendamos aos nossos leitores e sobre ela faremos uma transcrição, em mais uma Notícias “com História”, da entrevista concedida por José Mattoso ao JN a respeito dos condicionalismos que rodearam o projecto e algumas lições a retirar, segundo as declarações do próprio historiador, do primeiro volume editado pelo Círculo de Leitores.

Imagem: http://www.circuloleitores.pt

sábado, 2 de outubro de 2010

Novidades sobre Stonehenge, uma constante insuperável


Stonehenge, Kieran Doherty/Reuters

Efectivamente, não cessam de surgir novas curiosidades sobre a importância e o possível significado do conjunto megalítico situado na planície de Salisbury perto a Amesbury, no condado de Wiltshire, Sul da Inglaterra que se atribui à Idade do Bronze, é Património Mundial da Unesco e foi um dos candidatos às novas sete maravilhas do Mundo. A razão da sua existência tem permanecido até hoje um mistério – centro religioso, para uns, local de consulta astrológica para outros, ou ambas as coisas, a única certeza que dele subsiste, na expressão do autor da Notícia “com História” que desta vez vamos transcrever, é «a incerteza da razão que sempre atraiu inúmeras pessoas a este local».
Desta vez trata-se de um esqueleto descoberto a menos de 5 Quilómetros do monumento.

540.º Aniversário do nascimento de D. Isabel de Aragão e Castela, Rainha de Portugal

D. Isabel de Aragão e Castela foi a 16.ª Rainha de Portugal e a 6ª da Dinastia de Avis. Nasceu em Dueñas, a 2 de Outubro de 1470, filha de Fernando II de Aragão e de Isabel I de Castela. Casou em 1490, em Valência de Alcântara, com o Príncipe D. Afonso de Portugal, filho e herdeiro da Coroa de D. João II. Enviuvando de D. Afonso em 1491 (que faleceu com apenas 16 anos), D. Isabel voltou a casar, a 6 de Outubro de 1597, com o Rei D. Manuel I, primo direito do sogro, a quem havia sucedido no trono de Portugal a 25 de Outubro de 1495, goradas todas as tentativas deste em legitimar o seu filho bastardo, Jorge de Lencastre, que era o candidato da preferência do “Príncipe Perfeito” para a sua sucessão. Mas, após um reinado de pouco mais de oito meses, a Rainha veio a morrer em Saragoça a 28 de Agosto de 1498, ao dar à luz o Príncipe D. Miguel da Paz, que foi jurado herdeiro das coroas de Portugal, Castela, Leão, Aragão e Sicília, conforme o velho sonho de D. João II de centralizar na Coroa Portuguesa a união dos Estados Ibéricos. Porém, logo a 19 de Julho de 1500, com 21 meses de Idade, o jurado herdeiro, D. Miguel da Paz, falecia em Granada esfumando-se desta forma aquele velho sonho.

Das circunstâncias que rodearam a morte desta Rainha de Portugal, de efémero reinado e de curta e conturbada vida, ficou-nos um relato dramático e comovente que passamos a transcrever:

Em 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, a Rainha pariu com muito trabalho um filho, que chamaram D. Miguel, herdeiro dos reinos de Portugal, Castela, Leão, Sicília e Aragão, que morreria em Granada em 19 de julho de 1500 (aos 21 meses). Ao tempo em que pariu, presentes o Rei seu pai D. Fernando, a sua mãe Rainha D. Isabel, e o rei D. Manuel seu marido, e a teve em seus braços D. Francisco de Almeida […]. Morreu «à força de sangue que lhe soltara sem lho poderem estancar».

In http://pt.wikipedia.org , Categoria: Rainhas de Portugal
Imagem: Id

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Comemorações do Centenário da República nas ruas de Valpaços



Desfilaram hoje pelas ruas de Valpaços, a partir das 10 horas e trinta minutos, grande parte dos alunos e professores que integram o Agrupamento de Escolas do Concelho, envergando trajes representativos de várias classes sociais e instituições (a Maçonaria) dos primórdios da República e empunhando curiosos cartazes com símbolos e frases alusivas à mesma, uma actividade que esteve inserida no âmbito das Comemorações dos 100 Anos da Implantação da República em Portugal, iniciadas a 3 de Maio do ano lectivo anterior com a realização da Festa da Árvore. O ponto alto da concentração e da cerimónia comemorativa teve lugar na Praça da República.

Para observar interessantes fotos sobre o evento, consulte o Valpassos d’Oje

Hitler tinha antepassados judeus e negros

Investigadores que realizaram exames de ADN de parentes do ex-líder nazista Adolf Hitler descobriram que o ditador alemão tinha antepassados de pelo menos dois «grupos» que desprezava: judeus e africanos.
Os testes foram liderados pelo jornalista belga Jean-Paul Mulders e o historiador Marc Vermeeren e os resultados foram publicados na revista belga Knack.
De acordo com a revista, o jornalista Jean-Paul Mulders pegou num guardanapo utilizado por um sobrinho-neto de Hitler que vive em Long Island, nos Estados Unidos, e mandou o material para testes.
A análise da amostra levou Mulders até a Áustria, onde descobriu que um agricultor identificado como Norbert H. era primo do ditador. O jornalista, em colaboração com o historiador Marc Vermeeren, encontrou ainda outros 39 parentes distantes de Hitler no país. Norbert H. concordou em fornecer material genético para os exames.
O jornal britânico The Daily Telegraph diz que foram recolhidas amostras de saliva de 39 parentes de Hitler. A investigação descobriu o cromossoma Haplopgroup E1b1b (Y-DNA), que raramente é encontrada na Europa Ocidental, mas é mais comummente encontrada nos berberes de Marrocos, na Argélia, Líbia e a Tunísia, bem como entre Ashkenazi e judeus sefarditas.
Muitas vítimas do holocausto, como Anne Frank, eram Ashkenazi.
A preocupação de Hitler com os antepassados causou especulação durante muitos anos
A revista Knack afirma que a Rússia possui artefactos de Hitler, que têm o seu ADN, e que os investigadores poderiam acabar com a especulação se fossem autorizados a testar esses objectos.
TVi24
In "Viseu Cidade Viriato", http://atlasdeportugal.blogspot.com/2010/08
Imagem: http://www.nndb.com/people

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Um Auto à República


Ainda se encontra à venda nas livrarias, este interessante trabalho de Cidália Fernandes com as excelentes ilustrações a que nos tem habituado o artista Jorge Miguel. Recomendamos este livro a todos os jovens e menos jovens, alunos e professores, cuja sinopse transcrevemos a seguir.

Chegámos um pouco tarde com esta sugestão, uma vez que o ciclo de actividades comemorativas do Centenário da República se encontra na sua recta final. Mas fica a alusão de um trabalho para ser apreciado com mais vagar e que sirva de consolação, para os professores e alunos de algumas escolas e Agrupamentos de escolas, que por determinação das respectivas comissões para as comemorações, se viram absorvidos em actividades de outra dimensão (palestras, desfiles...).

“Um Auto à República” é um texto dramático que pode perfeitamente ser representado por alunos do 2º ou 3º ciclos. E eles são mesmo as personagens desta peça. Eles e a professora Augusta, que decide comemorar o centenário de implantação da República através de uma representação teatral. Viverão, assim, os acontecimentos de um passado ainda bem vivo, bem como o entusiasmo das personagens que impulsionaram a mudança.
Cidália Fernandes criou assim uma turma de jovens traquinas mas empenhados, que conviverão de perto com aqueles personagens que participaram directamente na história da sua pátria e da Humanidade, como o rei D. Manuel II, Guerra Junqueiro, António Nobre ou José Relvas.
O sucesso está garantido e a peça termina com os célebres vivas à República e o Hino Nacional “A Portuguesa”. As ilustrações desta obra da Plátano Editora ficaram a cargo de Jorge Miguel.
Cidália Fernandes
Um Auto à República
Plátano Editora

in Livros e Leituras, a sua Revista Online

Para encomendar o livro, através da Net ,clique AQUI.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Hoje é dia de São Miguel Arcanjo

Por Leonel Salvado

Tal como S. Gabriel e S. Rafael, que se comemoram liturgicamente nesta mesma data de 29 de Setembro, S. Miguel Arcanjo é um dos Santos Anjos que a Igreja católica tem em grande veneração. É mesmo considerado um dos primeiros, se não o primeiro e mais eminente dos espíritos celestiais guerreiros, arauto de Deus, e Príncipe dos Exércitos Celestiais que combateram os anjos rebeldes comandados por Lucifer. Segundo a tradição judaica, S. Miguel foi o protector do povo eleito. Da sinagoga dos israelitas a Missão de S. Miguel passou à mesquita (pois é também venerado no Islamismo) e à Igreja de Cristo, obtendo no Catolicismo, desde as suas origens, considerável devoção.

No concelho de Valpaços, S. Miguel Arcanjo é orago da freguesia de Fiães, paróquia muito antiga, supostamente de origem anterior ao século XV sob a designação de S. Miguel de Fiães (parrochia Sancti Michaelis de Feanes) que englobaria partes das actuais freguesias de Lebução e de Tinhela. É também o Padroeiro da paróquia de Curros, no mesmo concelho.
Imagem: http:// http://santosesanjos.blogspot.com
Para conhecer mais pormenores sobre a vida de S. Miguel Arcanjo, clique AQUI.

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Bicentenário da Batalha do Buçaco


Comemora-se hoje o 200.º Aniversário da Batalha do Buçaco que resultou numa clara vitória anglo-lusa sobre o exército invasor napoleónico comandado por Massena, vitória esta que é considerada como a que mais elevou a moral dos aliados, face à desmoralização das tropas francesas, e, portanto, talvez a mais decisiva batalha da guerra peninsular em favor dos primeiros.

A Batalha do Buçaco (ou Bussaco, de acordo com a grafia antiga), foi uma batalha travada durante a Terceira Invasão Francesa, no decorrer da Guerra Peninsular, na Serra do Buçaco, a 27 de Setembro de 1810. De um lado, em atitude defensiva, encontravam-se as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, primeiro Duque de Wellington. Do outro lado, em atitude ofensiva, as forças francesas lideradas pelo Marechal André Massena. No fim da batalha, a vitória mostrava-se nitidamente do lado anglo-luso.

In http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_Bu%C3%A7aco

Para mais informações sobre a batalha do Buçaco, segundo a mesma fonte, clique AQUI.

domingo, 26 de setembro de 2010

215.º Aniversário do Nascimento do Marquês de Sá da Bandeira

Nem de propósito! Há apenas dois dias foi publicado neste blogue um trabalho ilustrado sobre “O combate de Valpaços”, evento que lançou a Vila  nos pergaminhos da História Nacional, onde este bravo General das guerras liberais, então com o título de visconde de Sá da Bandeira, se afigurou, apesar da derrota, como um dos protagonistas. Comemoram-se hoje, precisamente, os 215 anos do seu nascimento.


Imagem: http://www.arqnet.pt/dicionario

Para conhecer a sua biografia completa clique AQUI.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

O Combate de Valpaços

Por Leonel Salvado
Actualizado a 10 de Maio de 2011
Ficou também conhecido como Acção Valpaços, tratando-se de um dos sucessos da história militar de relevância nacional que ocorreu junto a esta localidade, na altura ainda aldeia, embora sede municipal, depois vila e hoje cidade. O grosso dos confrontos sucedeu nos sectores ocidental e setentrional da periferia oitocentista da povoação, ainda que alguns movimentos militares tivessem, esporadicamente, inflectido um pouco mais para Sul e para Nascente.

OS ANTECEDENTES
Foi uma das batalhas que fizeram parte das lutas liberais entre cartistas (apoiantes da Coroa e da Carta Constitucional) e setembristas (liberais radicais apoiantes da restauração da Constituição de 1822). Este período de guerra civil, a que se passou a designar de Patuleia vinha na sequência do movimento revolucionário que ficou conhecido por Maria da Fonte; afirmou-se na Primavera de 1846, contra o ministério cartista de Costa Cabral e foi despoletado pelo golpe de Estado de 6 de Outubro do mesmo ano, levado a cabo pelo duque de Saldanha (antigo setembrista que abraçou os ideais cartistas), com o apoio da rainha D. Maria II, a qual entendeu assegurar assim a manutenção do trono e da Carta, em aparente risco dada a progressiva intensidade de movimentos anti-cabralistas por todo o país. Os mais acirrados sinais de indignação e contestação perante aquele golpe palaciano, fizeram-se sentir na cidade do Porto, que era então o maior baluarte das hostes setembristas, e, logo aí, o presidente da Câmara, José Passos, mandou encarcerar no Castelo da Foz, o enviado especial da soberana, Duque da Terceira, e nomeou uma Junta Provisória do Supremo Governo do Reino, tal como o haviam feito, 26 anos antes, os primeiros revolucionários liberais do vintismo. No Norte do país, os mais famosos chefes militares setembristas estiveram com a Junta, designadamente os condes das Antas e do Bonfim e o Visconde de Sá da Bandeira. O Governador das Armas de Trás-os-Montes,  Barão do Casal, manteve-se fiel à Rainha e a Saldanha e para dar as melhores provas da sua lealdade apressou-se em reunir toda a tropa que lhe foi possível arregimentar, e com ela partiu de Chaves, a 23 de Outubro de 1846, disposto a atacar a Junta do Porto e ganhar nesta cidade novos partidários. Contudo, em Valongo deu de caras com as forças do Visconde de Sá da Bandeira, General da Junta do Porto, retrocedendo e optando por fazer a travessia do Douro para se juntar às forças do marquês de Saldanha, que actuava na Beira. Com essa intenção passou a Régua, no dia 4 de Novembro, e preparou-se para transpor o rio, pelo Pinhão, mas o Barão de Castro Daire, avisado da sua marcha, impediu-lhe a passagem, fazendo encostar na margem esquerda todas as embarcações que aí se encontravam. Resignado perante o malogro de mais um dos seus intentos, retirou-se para Chaves, pelo caminho de Sabrosa, onde deu entrada quatro dias depois. Entretanto, Sá da Bandeira, que resolvera ir no encalço do Governador das Armas de Trás-os-Montes e dar-lhe batalha onde pudesse nos seus próprios domínios, passou a noite de 10 de Novembro em Carrazedo de Montenegro e dois dias depois assentava arraiais na Veiga de Chaves, estabelecendo em Faiões o seu quartel-general. Mas a 15 de Novembro, por razões que nunca foram devidamente esclarecidas, especulando-se que devido a alguma desconfiança do General quanto à lealdade dos seus regimentos de Infantaria 3 e 15, Sá da Bandeira desistiu da tomada de Chaves e ordenou aos seus homens que iniciassem a retirada em direcção a Mirandela. Pernoitaram as duas brigadas em Ervões e Vilarandelo, e a 16 de Novembro foi retomada a marcha, com uma curta paragem em Valpaços, prosseguindo a mesma na direcção de Rio Torto. Para sua surpresa, porém, chega-lhe a informação de que o Barão do Casal vinha em sua perseguição e se encontrava nas proximidades de Valpaços.

A “ACÇÃO VALPAÇOS”
Confirmada a aproximação a Valpaços do exército cartista, Sá da Bandeira fez retroceder as suas divisões aos limites da povoação e preparou-se para o confronto com as forças favoráveis à rainha e à Carta Constitucional.

As forças em confronto e as primeiras posições de combate
Como sublinha o Padre Vaz de Amorim, em artigo redigido em 1944 e publicado na Revista Aquae Flaviae, O Barão do Casal, que contou com a cooperação militar do Visconde de Vinhais, chefiava, desde o dia 23 de Outubro de 1846, uma brigada composta pelos Regimentos de Cavalaria 6 e 7, pelo batalhão de Caçadores 3 e pelo Regimento de Infantaria 13.

PRIMEIRAS POSIÇÕES DE COMBATE - 16 DE NOVEMBRO DE 1846
clique no mapa para aumentar
Foi a maioria destas forças disposta em posições topograficamente vantajosas no alto de Mempaz, por cima do Barreiro, e as restantes em locais contíguos à área ocupada pelas forças inimigas, que assinalaremos adiante.
Segundo o mesmo autor, que se baseou nas informações do general Ribeiro de Carvalho e que constam na sua obra Chaves Antiga, o Visconde de Sá da Bandeira havia partido do Porto com uma divisão composta por duas brigadas: Uma brigada constituída por Infantaria 3, Guarda Municipal do Porto, 1º batalhão dos Artistas da cidade do Porto e um contingente do 2º batalhão da mesma unidade; uma outra brigada formada por Infantaria 15, um contingente de Artilharia 3 e pelos batalhões de Vista Alegre e de Baião.
Tratou o General da Junta do Porto de posicionar uma parte da sua divisão, constituída pela Guarda Municipal do Porto, o batalhão dos Artistas da mesma cidade e o batalhão de Vista Alegre fora da Vila, a Sul e no caminho de Ervões, desde o cimo da Cortinha Grande até à Veiga; para assegurar a esquerda da linha defensiva foram os regimentos de Infantaria 3 e 15 e o batalhão de Baião colocados em vários dos pontos mais altos da Cortinha Grande, Vale-das-Amoreiras e Fontainhas.

A primeira fase dos combates
Iniciou-se o confronto por volta das 3 horas e trinta minutos da tarde de 16 de Novembro (uma Segunda Feira) de 1846 quando o Visconde de Vinhais avançou sobre a esquerda da linha defensiva de Sá da Bandeira, ao comando de uma parte da Cavalaria, algumas forças do batalhão de Caçadores 3 e da Infantaria 13, soltando vivas à Rainha e à Carta e acercando-se dos Regimentos de Infantaria 3 e 15. A soldadesca da Infantaria 3 depressa se rendeu à causa cartista e as praças do Regimento de Infantaria 15 seguiram-lhes o exemplo, rebelando-se contra as ordens do seu comandante, o coronel Feio, que havia dado ordens para que formassem em quadrado de modo a resistirem à Cavalaria inimiga. Foi o coronel imediatamente preso, juntamente com outros oficiais que também insistiram em manter a sua lealdade a Sá da Bandeira e à causa dos patuleias.

DESENVOLVIMENTO DO CONFRONTO - 16 DE NOVEMBRO DE 1846
clique no mapa para aumentar
Apanhados no meio de tal confusão os populares do batalhão de Baião precipitaram-se sobre o reduto onde se dera à traição, crendo que a cavalaria tinha sido dominada pelos seus, mas foram logo recebidos a tiro pelos próprios regimentos traidores e seus novos aliados, debandando e, em grande desordem, perseguidos pela Cavalaria ao longo dos trilhos, matas e pinhais de Rio-de-Lobos, Guitarro e Carrapata que se estendiam em direcção a Rio Torto, sendo por ali massacrados e alguns dos seus cadáveres barbaramente mutilados.
Desta traição surgem ecos na imprensa regional coeva, tal como se dava conta "António Rodrigues Sampaio,  jornalista e político no Portugal Oitocentista", segundo o livro publicado com este título por um grupo de autores sob coordenação de Jorge Pedro Sousa, que do referido jornalista fazem a seguinte citação, um pouco vaga mas suficientemente elucidativa:

«O estandarte popular tremula em todo o país. A opressão tem por seu apenas os palmos de terra que pisa. (…) A resistência foi simultânea no Porto, Coimbra e Algarve. (…) Em Viana do Alentejo derramou-se em batalha campal o primeiro sangue. (…) O Alentejo ficou livre (…). Em Trás-os-Montes, a causa popular foi menos feliz. O povo decidiu-se logo por ela (…), mas traído pelo barão do Casal levantaram mãos (…) contra os seus próprios pais e irmãos – Vagabundos e fugitivos, percorreram esses soldados algumas terras do Minho, que assolaram com as suas violências (…) – fugiram das vista do Porto e foram encurralar-se em Chaves (…). O que não pôde fazer o valor, fê-lo o ouro (…) e na acção de Valpaços, por uma vergonhosa traição, (…) entregaram-se.» [1]

Rompida a esquerda defensiva organizada peloVisconde de Sá da Bandeira, esteve este mesmo General da Junta do Porto em risco de ser capturado pela infantaria inimiga, não fora a pronta intervenção do seu ordenança, mais tarde celebrizado com o nome de Zé do Telhado, que arrojadamente o resgatou das mãos de alguns infantes, acto que iremos descrever mais para a frente neste artigo. Sob vigilante guarda do seu fiel ordenança, Sá da Bandeira foi conduzido em segurança para os Penascais, na estrada de Rio Torto.

O confronto final e o seu desfecho
Observando do sítio dos Penascais que o fogo continuava e que a linha de defesa parecia recompor-se, Sá da Bandeira voltou a ela, percorrendo-a e encarando de novo o inimigo no local do Barreiro. Enquanto anoitecia, o combate tornava-se mais aceso, disputando-se o terreno palmo a palmo, sem ganhos significativas de parte a parte. Uma porção do que restava das forças de Sá da Bandeira tentou ainda heroicamente subir as vinhas da Veiga e confrontar o inimigo naquele mesmo sítio do Barreiro. Nesta fase mais viva, mas ainda de incerteza quanto aos resultados da peleja, o fogo estendia-se em arco de círculo desde o Vale-das-Amoreiras até à Freixeda.

BATALHA FINAL - AO ESCURCER DE 16 DE NOVEMBRO DE 1846
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Cederam, por fim, já noite adentro os patuleias, e, segundo a descrição coeva da batalha registada numa folha de papel almaço por Constantino de Castro, salvaguardado pelo filho, Joaquim de Castro Lopo e, enfim publicada pelo neto, Constantino de Castro Lopo, em “O concelho de Valpaços, por Valbel” (L. Marques, 1954, pp. 87- 90), Sá a Bandeira, na companhia de todo o seu contigente, «recolheu a Valpaços e pela meia noite marchou estrada de Murça», acrescentando (em nota) que lhe serviu de guia «um popular de Valpaços de nome Luís Teixeira Ferlim, por alcunha o 'Sete fêmeas'». Segundo Castro Lopo, foram apenas em número de dezassete as vítimas mortais resultantes do combate e em número de quatro os feridos.

Considerações finais sobre a batalha
A retirada «por Murça até ao Pinhão onde as tropas liberais de Sá da Bandeira tomaram barcos e regressaram ao Porto pelo rio Douro» (“João da Ribeira, Revista Aquae Flaviae) selava  a derrota dos patuleias na “Acção Valpaços”, sendo assim que é considerada na História de Portugal.
Da sua retirada para o Porto, regista ainda o jornalista António Rodrigues Sampaio os sucessos cometidos por Sá da Bandeira no  inesperado confronto a que ainda foi sujeito contra  as forças de MacDonell, chefe liberal dos miguelistas que entretanto fora aliciado pelos cabralistas:

«McDonell [chefe dos rebeldes miguelistas] foi chamado entre nós pelos cabralistas (…) e ousou atacar as forças do visconde de Sá na sua marcha para o Porto. O resultado desta ousadia foi deixar no campo (…) 17 mortos, muitos prisioneiros, e escapar ele mesmo por uma precipitada fuga para ir contar ao seu cúmplice Casal a notícia da sua derrota.» [2]
  
Encarada, todavia sob o ponto de vista dos seus resultados práticos e até à luz da ética militar, existem óbvias objecções quanto à legítima vitória dos partidários da rainha e da glória que seria de lhes caber na Acção Valpaços.
Uma dessas objecções surge-nos na expressão do general Ribeiro de Carvalho, cuja obra já foi por nós mencionada, e encontrámos citada pelo mesmo Padre Amorim da seguinte forma:

«As tropas da patuleia foram enfraquecidas por uma traição e as do governo não souberam aproveitar a sua superioridade numérica, abandonando o campo do inimigo, sem que sobre ele tivessem alcançado qualquer resultado decisivo». [3] 

Outra objecção retira-se da memória das populações das imediações de Valpaços, sobretudo da de Vilarandelo, acerca dos roubos e estragos aí praticados durante e após os confrontos militares, memória essa registada no papel por Joaquim de Castro Lopo e pelo mesmo realçada numa pequena anotação que é a seguinte:

«Foram tão grandes os roubos e estragos causados pelas tropas do Casal em Vilarandelo que ainda hoje (1942) estão vivos na lembrança do povo.» [4]

Ainda a propósito dos excessos cometido em Vilarandelo pelas tropas do Casal se faz eco A. Veloso Martins, nos seguintes termos:

«Terminada a violenta refrega, as tropas do Casal, na euforia da vitória, subiram a Vilarandelo a pilhar e a saquear a indefesa população» [5]

Tais excessos, também praticados em outros lugares, como em Ervões, contrastaram, segundo o insigne autor valpacense, com a brandura e probidade com que geralmente se portou a gente de Sá da Bandeira. Apesar do indecoroso, aliás irónico, comportamento da soldadesca confiada ao General das Armas de Trás-os-Montes contra a própria gente da sua circunscrição, deixou o mesmo Joaquim de Castro Lopo algumas notas de justa homenagem, mais tarde sucintamente relembradas por Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços, sobre a dignificante postura da população desta povoação que, segundo este último autor, tratou de dar piedosa sepultura aos mortos no seu cemitério e o melhor tratamento aos feridos, sem olhar a partidos. Observe-se que, segundo Castro Lopo, 4 dos 17 mortos sepultados no cemitério de Valpaços pertenciam às forças do Casal, sendo um de Cavalaria, um de Caçadores e dois do Regimento de Infantaria 13. Acerca do tratamento dado aos quatro feridos, ele foi prestado, segundo a mesma fonte, com a «caridade digna de todo o elogio, sendo assiduamente assistidos pelos hábeis facultativos, o médico Zeferino José Pinto e o cirurgião Garcês

A Acção de José do Telhado

Desenho e guache de Leonel Salvado
Não obstante o desaire dos patuleias na Acção Valpaços, destacou-se nela o feito heróico de uma das figuras das fileiras da Junta do Porto, José Teixeira, a quem se deve o salvamento da vida do respectivo general, o Visconde de Sá da Bandeira, na ocasião da traição dos regimentos 3 e 15. Imortalizado mais tarde pela tradição com o nome de José do Telhado por actos menos honrosos, adquiriu em todo o país a fama de fora-da-lei e de temido salteador, cujas façanhas mereceram a atenção de destacados escritores e autores de Banda Desenhada que o retratam nas suas obras. A sua invulgar bravura em batalha já havia sido notada pelo duque de Saldanha na Revolta dos Marechais, em 1837, enquanto lanceiro da Rainha, tendo sido por recomendação do mesmo Saldanha que passou a ordenança nas hostes de Sá da Bandeira. Diz-se que, sendo já sargento, em 1847, por ocasião da Convenção do Gramido (que pôs termo às guerras da Patuleia), arrancou as divisas e se fez salteador. Existem várias versões, nem todas condizentes, a respeito dos pormenores acerca da sua arrojada acção em Valpaços, das quais prefiro transcrever a que retirou Joaquim de Castro Lopo das Memórias do Cárcere, contada pelo próprio Zé do Telhado a Camilo de Castelo Branco, com quem conviveu nos calabouços da Relação do Porto e quem a registou na sua obra, entre de outras façanhas que o bravo proscrito lhe foi relatando.

«Quem nesta ocasião [da entrega dos dois regimentos, 3 e 15] valeu a Sá da Bandeira foi o mais tarde célebre salteador José do Telhado. Este acompanhava Sá da Bandeira como ordenança. Na passagem dos dois regimentos de infantaria, um soldado de infantaria lançou a mão às rédeas do cavalo do general, outro fez-lhas largar. José do Telhado que tudo presenciou, tomando as rédeas do cavalo do general e metendo o seu a galope, obrigou os cavalos a saltarem um valado. No mesmo momento algumas balas passaram por cima da cabeça de Sá da Bandeira, lançadas pelas espingardas de soldados de um dos regimentos traidores. Três soldados de cavalaria carregaram sobre Sá da Bandeira. José do Telhado fez-lhes rosto. Desarmou um, feriu outro mortalmente e ao terceiro que ia fugindo, varou-o pelas costas. Cumprida esta façanha, José do Telhado recebeu das mãos do general a condecoração da Torre e Espada.» [5]

Referências

[1]SOUSA, Jorge Pedro et alii, António Rodrigues Sampaio, jornalista (e) político no Portugal Oitocentista, Labcom 2011, p. 112.
[2] Id. Ibid., p. 116
[3] AMORIM, Padre João Vaz de, Revista Aquae Flaviae, n.º 14, 1995, p. 196
[4] LOPO, Joaquim de Castro, O Concelho de Valpaços, por Valbel, Lourenço Marques, 1954
[5] MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Lello & Irmão, 2.ª edição, Porto 1990, p.75
[6]LOPO, Joaquim de Castro, id. Ibid. 

 Nota Final: A reconstituição cartográfica aqui elaborada, em três partes, é de limitado rigor, e portanto, sujeita a modificações. Em todo o caso, cumpre dirigir uma palavra de agradecimento ao Sr. Manuel Terra pela diligente colaboração prestada na exacta localização de alguns topónimos mencionados nos documentos antigos que consultei relativos ao combate de Valpaços. Uma nota de agradecimento ainda a João António Vaz, natural de Valpaços, a quem ficámos a dever a  referência bibliográfica que nos foi proveitosa e se encontra assinalada em [1]  e [2].

sábado, 18 de setembro de 2010

576.º Aniversário do nascimento de D. Leonor de Portugal, imperatriz do Sacro-Império Romano-Germânico

Nasceu a infanta D. Leonor em Torres Vedras a 18 de Setembro de 1434, filha do rei D. Duarte e D. Leonor de Aragão. Foi a 6.ª dos nove filhos do segundo casal casal real da dinastia de Avis e a 3ª do sexo feminino. Tinha apenas quatro anos quando o pai faleceu, pelo que a sua educação foi confiada, juntamente com as irmãs D. Catarina e D. Joana, primeiro à regente, sua mãe, e, depois do refúgio desta em Castela, a seu tio D. Pedro, duque de Coimbra , que assumiu a regência e nessas circunstâncias passou a ser mais conhecido como “D. Pedro, o Regente”. Este entregou-a aos cuidados de D, Guiomar de Castro, nobre dama de reconhecidas virtudes morais e intelectuais que foi filha do Senhor de Cadaval e esposa D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, aio do infante D. Afonso. Tinha apenas onze anos quando foram delineados os projectos do casamento da infanta, fora da esfera das tradicionais alianças de Portugal. Goradas as possibilidades do seu casamento com a Casa de Aragão e com o Delfim de França, Luís de Valois, tiveram sucesso os esforços diplomáticos que, entretanto foram dispendidos no sentido do seu consórcio com o imperador do Sacro Império Romano-Germânico, Frederico III, celebrando-se os esponsais em 1451 e, uma vez reunido em Itália com o marido foram ambos coroados na basílica de S. Pedro, em Roma, pelo Papa Nicolau V, a 16 de Março de 1452. Deste enlace das dinastias de Avis e de Habsburgo descende toda a prestigiada linhagem da Casa de Áustria que deu origem aos ramos espanhol, de Carlos V, e austríaco, através do imperador Fernando I.

Para mais informações sobre Leonor de Portugal, clique AQUI

Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:4G7FM_PL0062-20.jpg

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

125.º Aniversário do nascimento de Aquilino Ribeiro

Foi, e ainda é,  incontestavelmente, como escritor, uma das grandes referências da Literatura Portuguesa, mas foi também, enquanto Homem, uma das personagens mais controversas da História nacional. Esta questão será abordada numa futura publicação.

Aquilino Gomes Ribeiro nasceu a 13 de Setembro de 1885, em Carregal de Tabosa, no concelho de Sernancelhe, Beira Alta, e faleceu em Lisboa a 27 de Maio de 1963.
Orientado pela família para a carreira eclesiástica, estudou em Lamego e Viseu, antes de ingressar no seminário de Beja, onde esteve de 1902 a 1904. Por ausência de vocação, abandonou os estudos teológicos e dois anos depois já está em Lisboa, onde se dedica ao jornalismo e se envolve em actividades políticas de natureza revolucionária, tendentes a derrubar a monarquia. Na sequência de uma explosão acidental no seu quarto, na qual morreram dois carbonários, foi preso. No entanto, conseguiu evadir-se e exilou-se em Paris, só regressando a Portugal no início da grande guerra, em 1914.
Entre 1910 e 1914 frequentou em Paris a Sorbonne. De regresso a Portugal leccionou durante algum tempo no Liceu Camões e trabalhou na Biblioteca Nacional entre 1919 e 1927. Nessa fase ajudou a fundar a revista Seara Nova, tendo integrado a sua primeira direcção. Entretanto envolveu-se em actividades conspiratórias contra o regime autoritário surgido do golpe militar de 1926. Detido na sequência de um levantamento abortado, conseguiu evadir-se, tendo-se exilado novamente em França, donde só regressou em 1932, após uma amnistia.
A publicação do romance Quando os lobos uivam deu origem, em 1959, a um processo judicial de natureza censória contra o autor.
Ao longo da sua vida exerceu uma intensa actividade literária, abrangendo, além da ficção, biografias, crónicas, ensaios históricos e literários, textos polémicos, a par com a tradução de textos marcantes da literatura mundial.
A primeira fase da sua obra romanesca, que se prolonga até 1932, traz a marca da sua origem rural. Encontramos aí, como temas dominantes, a resistência dos espoliados à repressão moral dos seus instintos vitais; a exaltação do amor carnal e a integração do homem no conjunto das forças naturais.
O seu estilo caracteriza-se por uma exuberância vocabular que só tem paralelo em Camilo. e os seus textos estão recheados de arcaísmos, regionalismos e termos da gíria popular. Algumas das suas obras exploram temas lendários e hagiográficos. Tudo isso contribui para a criação de um ambiente pesado, com o seu quê de barroco, à revelia da literatura urbana do século XX.

In http://anajorge.tripod.com/aquilino.htm
Imagem: http://maludablog.umnomundo.eu/?p=139
Para uma biografia mais detalhada sobre Aquilino Ribeiro consulte Instituto Camões ©, 2003-2006, AQUI.

domingo, 12 de setembro de 2010

713.º Aniversário do Tratado de Alcanices

Perfazem hoje 713 anos sobre a assinatura do tratado de Alcanices celebrado entre o rei de Leão e Castela, Fernando IV (1295-1312), e o rei de Portugal, D. Dinis (1279-1325), na povoação leonesa de Alcañices, perto da fronteira portuguesa, tratado esse fixou os limites fronteiriços entre ambos os reinos, que são na verdade os mais antigos e mais estáveis da Europa. Em 1997 a Sociedade Científica da Universidade Católica Portuguesa organizou o Congresso Histórico Luso-Espanhol, que debateu o tema “O Tratado de Alcanices e a importância histórica das terras de Riba Côa, do qual no ano seguinte publicou um livro consagrado ao tema, livro esse que serve de imagem de cabeçalho deste artigo e que sugerimos aos nossos leitores a leitura

José de Castro Lopo



O ilustre transmontano

José de Castro Lopo é, a avaliar pelo que dele se tem dito e escrito, uma das mais veneradas figuras históricas de Valpaços, acima de tudo pelos ensinamentos que se podem retirar do seu carácter e sua vida exemplares: Devido à singular inteligência e saber clínico que sempre quis utilizar em favor dos seus doentes, fossem quais fossem as contrariedades que se lhe afigurassem no exercício dessa missão; mas também, devido ao amor que sempre dedicou à família, aos amigos e à sua terra. Tal é o que ressalta do parecer de vários autores, de entre eles o do seu próprio irmão, Joaquim de Castro Lopo, que certamente o conheceu melhor do que ninguém e lhe presta sentida homenagem na sua obra O Concelho de Valpaços, homenagem essa que condiz, aliás com as de outros autores, nomeadamente João da Ribeira (Padre J. Vaz de Amorim), A. Veloso Martins, os autores do Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, e se corrobora ainda pelo unânime testemunho de que dele se faz eco na tradição oral desta cidade. Veloso Martins, por exemplo realça, para além das mais conhecidas qualidades do Dr. José de Castro Lopo, a de «cavaqueador emérito», que «gostava de pôr uma pitada de sal do seu espírito nas reuniões a que assistia», e, polidamente, envolver-se em brincadeiras divertidas, como sucedeu num certo sarau em que uma dama que não sabia nada de música mas por delicada insistência dele, Dr. Castro Lobo, ela sentou-se ao piano e, aos primeiros sons do toque das teclas, confessou, «com a face banhada de gozo,» ter descoberto o seu talento. O Padre Vaz de Amorim realça ainda as suas facetas de literato, poeta e jornalista, reportando-se certamente às suas competências enquanto redactor principal do jornal O Povo de Valpaços, pois a maioria dos seus restantes escritos que mais se destacaram são da área médico-cirúrgica, em revistas da especialidade.


O distinto estudante

Não nasceu, José de Castro Lopo, em berço de ouro, mas no seio de uma numerosa família de modestos recursos. Realizados com sucesso os seus exames de admissão aos liceus no Porto, fez aí e em Coimbra o Curso Liceal, com resultados animadores. Frequentou depois a Escola Politécnica do Porto e, de seguida, a Escola Politécnica e a Escola Médico-Cirúrgica de Lisboa sendo aqui laureado como brilhante estudante de Medicina e Cirurgia. Aqui terminou o seu curso, aprovado com louvor e partiu para Paris, onde durante seis meses se dedicou, sob orientação de importantes especialistas, à prática da especialidade em clínica hospitalar, com aproveitamento.


O médico e o benfeitor

Regressado de Paris, exerceu em Chaves como médico municipal e foi também médico da Empresa de Águas de Vidago, prestando aqui, segundo diz Vaz de Amorim (revista Aquae Flaviae, nº 14, 1995) «assinalados serviços como médico hidrologista». Não resistiu o Dr. José de Castro Lopo ao “chamamento” da sua terra natal e ao amor que sempre o uniu à sua família, pois não tardou a regressar a Valpaços, onde dedicou o resto da sua curta vida que foram mais 29 anos ao serviço médico, como médico municipal e subdelegado de saúde. Creio que a sua própria consciência profissional também terá contribuído para este regresso à terra que o viu nascer, pois é sabido que nas décadas de 80 e 90, Valpaços debatia-se amiúde com a necessidade de reforços de assistência médica (os receios de surtos de cólera-morbus, em 1884, e de peste bubónica, em 1899) e de adequadas instalações hospitalares, sendo de recordar que a construção do tão desejado Hospital Municipal só se iniciou em 1882 e foram necessárias novas obras em 1899. Joaquim de Castro Lopo, seu irmão mais novo (já tivemos o prazer de deixar algumas notas neste blogue a seu respeito) resumiu assim o desempenho profissional e outros serviços públicos de José de Castro Lopo em Valpaços:

Durante 29 anos exerceu com a maior inteligência, dedicação e desinteresse a medicina e a cirurgia, cujo exercício para ele foi um sacerdócio, nunca se poupando a fadigas, a calores, a frios, a intempéries, tratando sempre dos seus doentes com desvelados cuidados. Depois de uma vida cheia de trabalhos, morreu pobre.
Em Valpaços fundou com outros a extinta Sociedade de Instrução e Recreio e elevou as festividades de Nossa-Senhora-da-Saúde a ponto de causar admiração de todos aqueles que as presenciaram durante a sua entusiástica gerência.

É desta mole de médicos de abnegação profissional, que sei ter sido prolífica em Valpaços (o Dr. Olímpio Seca será aqui também recordado numa próxima publicação) que os valpacenses se devem orgulhar.


O apaixonado pela República

Quanto ao envolvimento politico de José de Castro Lopo nos partidos dos finais da monarquia, sabemos, por José António Soares da Silva e pela sua obra O Partido Progressista de Valpaços, que o dedicado facultativo e delegado de saúde da Vila alinhou naquele partido, integrando a respectiva comissão executiva, criada em 1897, e mais notoriamente a seguir à demissão de Francisco José de Medeiros da presidência da mesma, o que sucedeu nos finais 1901, começando por ser um dos signatários da carta enviada ao líder distrital do partido, Conde de Vila Real, dando-lhe conta da crise nele se vivia em Valpaços e terminando por se ver provido, em Julho de 1906 no cargo de Vice-Presidente da comissão Executiva do reorganizado centro de Valpaços presidida pelo próprio conde de Vila Real. É ainda de realçar, a partir das informações coligidas pelo mesmo autor de O Partido Progressista de Valpaços, que durante esse tenebroso período de existência do centro do Partido local, o bom médico não hesitou em franquear as portas da sua residência para as reuniões da Assembleia Geral dos seus alegados correligionários. Serão estas acções de José de Castro Lopo reveladoras de um convicto afecto pela  ideologia progressista? Não creio! Não creio, pela simples razão porque também assim não cria um outro ilustre valpacense - monárquico e progressista - que o deve ter conhecido melhor do que ninguém: Trata-se do seu próprio irmão, Joaquim de Castro Lopo, que é quem pouco tempo depois observou que José de Castro Lopo foi sempre um apaixonado da República «tendo apenas por considerações de família acompanhado por algum tempo os progressistas» acrescentando que as suas tendências democráticas transparecem dos seus escritos no semanário local O Povo de Valpaços. Conta-nos ainda que num jantar em Paris, chegou a proferir um brinde em honra a Rafael Bordalo Pinheiro «que com louvor se referiu na imprensa.»


Os últimos dias de José de Castro Lopo

Foram de grande sofrimento físico e de prostração moral os últimos dias vividos por este grandioso médico de Valpaços que, ironicamente, dedicou a sua vida, de corpo e alma, ao combate do sofrimento alheio. Acometido de doença mortal, quis, com admirável intrepidez, manter-se em Valpaços no exercício do cargo de subdelegado de saúde, mas o agravamento do seu estado de saúde, obrigou-o a mudar-se para Lisboa, fazendo-se internar no Hospital de S. José na esperança de aí, onde guardava boas recordações da sua alegre mocidade, conseguir algum alívio. Mas não lhe valeu o esforço, pois aí, no dia 5 de Outubro de 1910, redigiu uma carta de despedida à família, exprimindo a sua mais profunda dor perante a consciência de que era chegado o momento de se afastar das suas amadas filhas, mas não deixando transparcer, nessa sua última mensagem de dor, o mínimo sentimento de consolo perante o triunfo da sua amada República. Veio a falecer dois dias depois nesse Hospital, longe do consolo das filhas e dos netos que dele guardaram uma saudade indescritível.


O legado literário

Segundo opinião do seu irmão, Joaquim de Castro Lopo, que acerca da sua inteligência chegou a afirmar que «o destino funesto jamais deixou brilhar em todo o seu esplendor», José de Castro Lopo deixou poucos escritos. São contudo de enunciar as seguintes obras literárias:

1. Publicações locais:

• Publicação de artigos avulsos no semanário “O Povo de Valpaços”, na maior parte dos 33 números editados desde a sua criação, em 17 de Março de 1910, jornal de que era proprietário o seu genro, António Carolino Monteiro Guimarães, mas do qual era ele, Joaquim de Castro Lopo, o redactor principal. O semanário local foi suspenso a 13 de Novembro de 1910, isto é, cerca de um mês após a sua morte. Foi também articulista  em "A Voz de Chaves", onde publicou, segundo José António Soares da Silva, «composições líricas de valor» de que este autor destaca "Vita in Morte", na edição nº 22 daquele jornal com a data de 11 de Dezembro de 1898 (O Partido Progressista de Valpaços, pp.31-34). 


2. Publicações de natureza cientíca na área mèdico-cirúrgica:

2.1. Considerações sobre a “sarcina ventriculi, Lisboa, 1881. Teses de Formatura.
2.2. Publicações na Revista Portuguesa e Cirurgia Práticas:
Feridas penetrantes no abdómen, Vol I;
A Pneumonia no impaludismo, vol II;
Pústula maligna, Vol V;
Ferimentos do cérebro, Vol VI;
Acefalia incompleta, Vol VIII.


A família

José de Castro Lopo nasceu em Valpaços no dia 13 de Novembro de 1856 e faleceu, como vimos, no Hospital de São José, a 12 de Outubro de 1910. Parece ter sido o 6.º dos dez filhos de Constantino de Castro, natural de Argemil, e de Maria Joana Fernandes, natural de Valongo, ambas aldeias do concelho de Valpaços.

Era, portanto irmão, por ordem de filiação de: João Constantino, abastado homem de negócios que faleceu solteiro em Lisboa; Ana Maria de Castro que casou com seu primo, João Eduardo de Castro, filho de José Joaquim de Castro, com descendência; Luís de Castro que casou com Maria da Conceição Medeiros, com descendência; António de Castro, casado com Maria da Conceição Magalhães Pinto, filha do Padre Luciano de Magalhães Pinto, irmão do Morgado de Valpaços, Ayres de Magalhães Pinto, e da criada, Júlia, com descendência; Constantino que faleceu no Brasil com 24 anos, sem descendência conhecida; Joaquim de Castro Lopo ( nascido a seguir a José de Castro Lopo) casado com Emília Teixeira, com descendência; Maria da Graça de Castro Sarmento, casada com Gaspar Ferreira Sarmento, com desecendência; Maria Teresa que faleceu com 15 anos; Júlio que faleceu com 6 anos.

José de Castro Lopo era, pelo lado paterno, neto de José do Espírito-Santo de Castro e Maria Luísa da Costa, naturais de Ponte da Barca, que se estabeleceram como comerciantes em Valpaços com seus filhos, bisneto de Bento de Castro e Luísa da Costa, naturais de S. Tomé de Estourães, no concelho de Fafe, e trineto de João Luís da Costa e Maria Luísa Fernandes, naturais de Ponte-da-Barca. Pelo lado materno era neto de António José Fernandes, que foi alferes do exército no reinado de D. João VI, por carta real de 14 de Junho de 1825, e Francisca Teresa.

José de Castro Lopo viveu maritalmente com Filomena Sobral, uma senhora alegadamente nascida no seio de uma ilustre família com origens em Valença do Minho e com solar em Chaves,  de quem teve  duas filhas: Adelaide Augusta Sobral de Castro Lopo, casada com António Carolino Monteiro Guimarães, com descendência; Maria da Graça Sobral de Castro Lopo, casada com António José Pimentel, farmacêutico, também com descendência. 

Bibliografia e outras fontes

LOPO, Joaquim de Castro, O Concelho de Valpaços, por Valbel, 1954, Lourenço Marques
AMORIM Padre João Vaz de , Revista Aquae Flaviae, n.º14, 1995
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Lello&Irmão, Porto, 2.ª edição, 1990
Manuscrito inédito: A Família Castro e Valpaços, por Maria Madalena de Castro Medeiros, 1956.
Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, Editora Cidade Berço, Guimarães, I Vol.*
*In http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=564&id=3029&actionnoticia
SILVA, José António Soares da, O Partido Progressista de Valpaços, 1886-1910, Ed. CMV, s/d

Nota: Devido a novas informações de que se reconhece necessária credibilidade, esta publicação foi alterada pelo que difere da sua primeira versão publicada na data em epígrafe.

sábado, 11 de setembro de 2010

Valpaços, no tempo da Mala Posta



A Casa da posta em Valpaços

Retiram-se da tradição oral das pessoas mais antigas de Valpaços, vagas referências à «taberna», nome porque era antigamente conhecida a estalagem ou casa da mala posta, situada no antigo caminho entre Valpaços e Mirandela, onde fazia escala a diligência, que assegurava o transporte do correio, e de raros passageiros, nesta região. Estas memórias, que têm admiravelmente resistido à voragem dos tempos, parecem-me fiáveis e podem ser corroboradas por estudos científicos que já foram publicados sobre a rede de estradas portuguesas antes da motorização e, em particular, sobre o serviço da Mala Posta em Portugal, como adiante se poderá constatar.


Enquadramento histórico

Convém recordar que até à segunda metade do século XVIII, quando se procurou estabelecer em Portugal os serviços de transporte de correio da Mala Posta, as escassas vias e as más condições das que existiam obrigavam a que as pessoas continuassem a deslocar-se se a pé ou com o recurso a animais, como vinham fazendo durante a Idade Média, destacando-se neste desgastante labor a secular figura do almocreve ou do recoveiro. As calçadas romanas, originalmente criadas para a deslocação dos exércitos imperiais, mas em grande parte arruinadas por falta de manutenção e confinadas a espaços muito reduzidos, continuavam, ainda assim, a servir como a única alternativa ao movimento da população e à manutenção da vida económica de muitas regiões do interior. Nessa época o transporte de correio fazia-se a pé, de sacola às costas, no dorso de lentos muares, ou, mais raramente a cavalo. Assim funcionava no reino o serviço do Correio Mor, um ofício postal criado por Carta Régia de D. Manuel I de 6 de Novembro de 1520 que confiava a gestão desse serviço a Luís Homem. Este serviço, então caro e ineficiente, de que apenas os mais abastados tiraram algum proveito, esteve sujeito a nomeação régia, até que Filipe II o vendeu a Luís Gomes da Mata Coronel, pela quantia de 70.000 cruzados, dando início à primeira dinastia postal do mundo e cuja família manteve o seu monopólio durante quase dois séculos, sem grandes benefícios para a maioria da população. [1] Este estado de coisas parece ter começado a melhorar a partir de 1780, no reinado de D. Maria I, a qual determinou que fosse realizado um conjunto de obras públicas (construção de estradas e melhoria de outras, construção de pontes…), mas apenas em três áreas do país: Lisboa, Coimbra e região do Douro. [2] Mais tarde, por decreto de 1797 a Coroa estatizou a lucrativa actividade postal do correio mor explorada pela família Mata, que passou a ser explorada directamente pela Corte. Entretanto, já em 1788, José Diogo de Mascarenhas Neto havia publicado o Método para Construir as Estradas em Portugal. Este José Mascarenhas Neto, também autor das Instruções para o estabelecimento das Diligências entre Lisboa e Coimbra e, uma vez nomeado para o cargo de Superintendente Geral dos Correios e Postas do Reino, continuou a dar especial importância à estrada Lisboa – Coimbra, «na qual se viria a introduzir o serviço da mala-posta que, além do correio, fazia também o transporte de passageiros.» [4] Mas com o tempo o serviço da mala-posta foi-se alargando para outras regiões.

Efectivamente, segundo Elsa Pacheco, no início do século XIX, de acordo com o plano desenvolvido por Mascarenhas Neto, «os eixos centrados em Lisboa [tinham] por destino, além da Aldeia Galega (na saída para Espanha), Valença, Faro e Chaves (passando por Viseu), e do Porto [irradiavam] vias para Caminha, Chaves e Bragança» Segundo a mesma autora, «a ligação entre o Porto e Caminha [fazia-se] por Vila do Conde, Barcelos e Ponte de Lima; entre o Porto e Chaves, por Guimarães e Barroso e, entre o Porto e Bragança, por Penafiel, Amarante, Vila Real e Mirandela». [5]

Ora, o que se diz sobre a célebre «taberna» parece-me poder inserir-se geográfica e cronologicamente neste quadro das vias servidas pela mala-posta no trajecto Porto - Bragança, sendo no entanto de observar, como o faz Elsa Pacheco, que «o território a norte do Douro, talvez pela distância que o [separava] da capital do reino e pelas dificuldades de atravessamento do rio Douro, [apresentava] um serviço da responsabilidade dos Correios Assistentes ou Comarcas”. Pretendo com isto dizer, na senda desta observação, que talvez a comarca de Valpaços, instituída como se sabe a 31 de Dezembro de 1853, se visse, a partir desta data na obrigação de assegurar esse serviço dentro da área da sua jurisdição. Não obstante a real evidência de que em muitas regiões os caminhos-de-ferro tiveram como consequência o declínio da mala-posta, tal consequência não me parece ter sido tão evidente na comarca de Valpaços, apesar dos esforços dispendidos, e bem sucedidos aliás, pelo nosso já biografado Júlio do Carvalhal, enquanto deputado às Cortes pelo círculo da mesma sede concelhia, pela construção de uma linha ferroviária entre o Porto e a Régua. Atendendo à posição periférica desta região relativamente à expansão da rede ferroviária que foi promovida por Fontes Pereira de Melo, é de crer que os serviços da mala-posta ainda tenha prevalecido por aqui por várias décadas até à era da motorização rodoviária, com as dificuldades e os sacrifícios que a sua manutenção impunha. Será, portanto de confirmar a tradição a respeito da mala-posta de Valpaços, cuja referência unanimemente enraizada na vaga memória das mais antigas gerações valpacenses é a célebre Taberna. Se as pobres estradas da comarca de Valpaços foram, antes da motorização subsidiárias da rede de navegação fluvial, também o passaram a ser relativamente à rede ferroviária no contexto da mesma ligação Porto-Bragança. A prova de que a "Diligência de Valpaços" ainda se encontrava em serviço em 1913 - ainda que não sirva para corroborar os atributos tradicionalmente atribuídos à Taberna - surge numa aguarela de Alberto de Souza publicada na edição desse ano da Ilustração Portuguesa e reproduzida por José António Soares da Silva numa das suas recentes publicações. [6]

A “taberna” da mala-posta

Situa-se a cerca de 1,5 Km a sudeste do limite da rua do Tramagal e início da N203, por um caminho que daqui se dirige para nascente. As coordenadas geográficas do local, obtidas no Google Earth, são as seguintes: 41º 34´.17” de Latitude N / 7º 17`.84” de Longitude W. Como se documenta na foto inicial, o que resta do primitivo edifício encontra-se na bifurcação de duas vias que se estendem nos sentidos poente e Sul. Junto do local existe um cruzeiro. A primeira impressão que se fica acerca do edifício pode parecer desanimadora!

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O imóvel encontra-se bastante descaracterizado, face ao que seria de esperar de uma Casa de Posta, havendo nele sinais de grandes remodelações recentes coexistentes com outros claros sinais de abandono e ruína. Contudo, existem alguns pormenores na estrutura actual da Taberna que nos permitem ainda obter uma vaga ideia do seu aspecto original. Um desses pormenores sugere nitidamente que o edifício se alongava uns bons pares de metros no sentido de nascente, pois uma boa parte da parcela arruinada diminui nessa direcção. Trata-se da parede Norte que creio ter sido a fachada do edifício, onde se denota nitidamente uma porta que foi preenchida com pedra miúda e à esquerda da qual existem duas janelas, uma delas estruturalmente preservada e outra incompleta. É improvável, atendendo ao alongamento primitivo da construção a que fiz referência, que o telhado de duas águas que o actual proprietário construiu sobre uma parte do que restou do edifício tivesse, originalmente, essa estrutura e orientação. Em todo o caso, a antiga Taberna seria bastante diferente dos edifícios construídos de acordo com as normas definidas por José Mascarenhas Neto para as estalagens e Casas de Posta segundo as quais as construções deviam apresentar uma planta em forma de “U”, compreendendo três compartimentos distintos (refeitório, dormitório e cavalariças) e um pátio central, como as que foram construídas em várias regiões do país. Parece-me de supor que a Taberna se trataria de uma estalagem modesta, diferente das existiam em zonas mais movimentadas e, portanto, talvez respeitando os requisitos menos exigentes do correio local ou da comarca, como já admiti, e não as rigorosas directrizes que foram impostas pela Superintendência Geral dos Correios e Postas do Reino. O estilo singelo desta Casa da Posta, não desvaloriza, porém, a importância que a memória colectiva dos valpacenses lhe atribui para um passado que é sempre difícil, sem provas documentais, definir os respectivos limites cronológicos. Na 2ª metade do século XIX,o local devia ter, grosso modo, até prova em contrário, o aspecto que sugiro na minha reconstituição desta edição do “Re(en)cantos da Memória”.

A Taberna, Casa da Mala Posta na 2ª metade do século XIX (reconstituição)
desenho e guache de Leonel Salvado


A Diligência da Valpaços – aguarela de Alberto de Souza,  Ilustração Portuguesa, 1913  
in José António Soares da Silva, O Partido Progressista de Valpaços, 2006


Referências

[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/Correio-mor
[2] http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/143.pdf
[3] http://www.fpc.pt/FPCWeb/museu/displayconteudo.do2?numero=18849
[4] http://ler.letras.up.pt, Id
[5] Id, ibid
[6] SILVA, António Soares da, O Partido Progressista de Valpaços (1860-1910), C. M. de Valpaços, 2006, p.37

Agradecimento: Como vem sendo costume, cumpre-me agradecer ao Sr. Manuel Medeiros por ter sido graças a ele, e na sua companhia, que me foi possível ir ao encontro de mais um fragmento da “Valpaços desaparecida”. O meu Bem-haja também ao Sr. José Lourenço de Andrade pelo contagiante entusiasmo que manifestou relativamente a este (e a outros!) temas do inesquecível património histórico de Valpaços a que os poderes instituídos não têm dado a devida importância.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

33.º Aniversário do fim da guilhotina



É verdade! Após mais de 175 anos ao serviço da controversa solução final da justiça francesa, só há 33 anos a Guilhotina encomendou a alma ao «criador». Em Marselha, no dia 10 de Setembro de 1977, Hamida Djandoubi, acusado de ter torturado e assassinado uma mulher, foi o último guilhotinado. Antes dele, haviam tido a mesma sorte, Claude Biffet e Roger Bontemps, acusados de sequestro e homicídio, executados em Novembro de 1972, e Christian Ranucci, por infanticídio, executado a 28 de Julho de 1976. Desde 1946 que ninguém tinha colocado a cabeça sob a lâmina oblíqua deste bárbaro engenho. Pensa-se que foram essas três execuções, em especial a de Ranucci, por prevalecerem certas dúvidas sobre a sua culpa, que mais contribuíram para a abolição da pena de morte em França, em 1981, pela Assembleia Nacional, sob proposta de François Miterrand e Robert Badinter.

Para saber mais detalhes sobre a Guilhotina, na Wikipédia, clique AQUI.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O Marco Fontanário do largo da “rua Direita” ou “das Lajes”



Há cerca de sete décadas atrás, o largo da rua Direita, era um dos locais que proporcionava uma encantadora vista de natureza bucólica da vila de Valpaços. Com esse local, certamente bem vivo na memória de muitos valpacenses, está relacionada a curiosa história do marco fontanário que actualmente se encontra no bairro de S. Pedro desta cidade, e é um dos monumentos que tem sido, estranhamente, ignorado pelos inventariadores do património edificado de Valpaços. Enjeitado, talvez, por quem o viu partir do seu local original para outro bairro da cidade em expansão, o “bairro das lajes”, e mal amado, provavelmente, por quem o adoptou na sua nova morada, a verdade é que raramente figura como uma referência do património arquitectónico da cidade. Este monumento tem, como dissemos, uma história curiosa.


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Como numerosos valpacenses se devem recordar, trata-se de um monumento de construção relativamente recente que, pelos meados da década de 30 do século passado, se ergueu no “largo da Rua direita” (actual Rua Marechal Carmona), largo esse que já não existe.
Quando a “Fonte Grande”, também conhecida por “Fonte Velha” foi demolida (ver neste blogue o artigo “Fonte Grande” em “Re(en)cantos da Memória”), pela mesma época em que se demoliu também a Capela de S. Sebastião, abriu-se no local um largo onde, em 1935, se edificou o referido marco fontanário e se instalou também uma bomba hidráulica (volante) para reaproveitamento do precioso recurso hídrico ainda existente. Arejada esta parte extrema da cidade com a eliminação da incomodativa calheia que ao longo dos tempos a vinha conspurcando, foi-se estabelecendo nela um agradável ambiente para se estar e admirar o amplo panorama que se estendia para nascente, numa altura em que ainda predominavam aí as hortas e os lameiros, em lugar da paisagem urbana que resultou do desenfreado surto de construções iniciado desde cerca de quatro décadas depois. É essa paisagem, certamente ainda arreigada na memória de muita gente, que procurei recriar aqui, baseando-me apenas em informações orais de pessoas que aqui nasceram e foram criadas.


O marco fontanário do largo da rua Direita nos meados do século passado
Desenho e guache de Leonel Salvado

Uma das raras referências monográficas que se reportam ao monumento e ao local onde ele primitivamente esteve, foi-nos legada por Joaquim de Castro Lopo, na sua obra “O concelho de Valpaços”, e é uma descrição coeva, com algumas observações críticas quanto às inscrições que nela se liam, mais do que hoje. Dizia assim Joaquim de Castro Lopo, num dos seus manuscritos, seguramente produzidos em qualquer ano da segunda metade da década de 30 do século passado:
«Há agora um marco fontanário construído recentemente no largo da rua Direita, próximo da fonte Velha
O insigne epigrafista autodidacta valpacense, já por nós biografado (ver Joaquim de Castro Lopo na categoria Biografias [local/regional]), sugeriu, a propósito das inscrições que no seu tempo se podiam podem ler no monumento, a existência de um eventual anacronismo cometido pelo lapicida que as gravou e que são as seguintes:

1935
C M V
CONSTRUÍDO DURANTE
A
DITADURA NACIONAL

Observou Joaquim de Castro Lopo, e muito bem, que a data em epígrafe não condiz com a restante inscrição, o que pode ter sido devido a simples desacautelamento do lapicida ou à sua ignorância sobre a data exacta em que o monumento foi construído. Admitindo, como é mais fácil admitir-se, que a referida data esteja correcta, resta-nos supor que houve uma incauta falta de rigor de enquadramento cronológico do período histórico a que se refere nas 3ª, 4ª e última linhas, posto que, como exemplarmente notou Castro Lopo, a Ditadura Nacional em referência foi a ditadura militar, «iniciada a 28 de Maio de 1926 [e que], acabou quando foi promulgada a constituição, isto é a 22 de Fevereiro de 1933». Cumpre-nos hoje acautelar pela reiteração desta interpretação do termo, para que não se confunda com a que, instintivamente, nos habituámos a associar ao Estado Novo, isto é à “ditadura Salazarista”, período durante o qual foram estas três incovenientes linhas apagadas, não existindo hoje sinal delas no letreiro do munumento.

Em todo o caso, parece que não restam dúvidas que o largo da rua Direita foi a primeira morada do monumento a que aqui nos reportamos, desde a data da sua construção. Porém, é do conhecimento de muita gente que apenas duas décadas depois, ele foi desmantelado e reedificado no local onde se encontra hoje, isto é, em pleno coração do “bairro das Lajes”, agora designado por Bairro de S. Pedro. Esta trasladação, ocorrida durante o mandato do Eng.º Luís Castro Saraiva, parece ter sido contemporânea da construção da nova cadeia municipal que teve lugar próximo desse local e foi, muito provavelmente motivada, pelo intenção de corresponder à invulgar fixação de moradores nessa parte da cidade, onde se vinha registando um significativo fomento de construções urbanísticas, favorecido aliás pelas próprias autoridades municipais, factores estes que bastaram para transformar bairro das Lages no mais populoso da vila nessa época, em que, em abono da verdade sustentada por testemunhos orais, se pode dizer que foi um “formigueiro de trabalhadores e operários” ocupados nos vários sectores de actividade.

Nota: Pela primeira vez nesta categoria temática “Re(en)cantos da memória [local/regional] a reconstituição que me propus elaborar (“O fontanário do largo da rua Direta nos meados do século Passado”), baseou-se exclusivamente em testemunhos orais, pelo que, como todas as reconstituições concebidas unicamente a partir deste tipo de fontes, não visa transmitir uma imagem absolutamente rigorosa do objecto de reconstituição, cabendo ao leitor interpretá-la com o mesmo sentido de relatividade com que ela foi criada.

Agradecimento: Agradeço ao Sr. José Lourenço Montanha de Andrade pelas informações que prestou e com base nas quais elaborei a reconstituição ilustrada aqui publicada

O regresso da nau "Victória" da 1ª viagem de circum-navegação marítima

Comemora-se hoje o 488.º Aniversário do termo da viagem de circum-navegação, iniciada a 20 de Setembro de 1519, sob o comando de Fernão de Magalhães, com a partida de Sanlúcar de Barrameda de uma frota de cinco navios com 234 ou 256 homens de tripulação, de entre os quais 40 portugueses. Tendo já atravessado o estreito, em Novembro de 1520, e penetrado nas águas do Mar do Sul, foi Fernão de Magalhães surpreendido pela morte, assassinado em Abril do ano seguinte, numa emboscada que lhe foi feita por um grupo de nativos da ilha de Mactam, nas Filipinas, sendo sucedido no comando da expedição por João Lopes de Carvalho que no início de Março de 1522 largou da ilha de Cebú, iniciando o regresso. Dois meses mais tarde, este foi sucedido por Sebastián Elcano, que comandando a nau Victória, dobrou o Cabo da Boa Esperança e, depois de uma breve escala em Cabo Verde, chegou finalmente ao porto de S. Lúcar de Barrameda. Da expedição regressada a Sevilha a 6 de Setembro de 1522, restavam uma única nau, a Victória, e 16 homens de tripulação.
Para uma síntese biográfica de Magalhães e uma descrição da 1ª viagem de circum-navegação clique AQUI.

Há 69 anos

Foi a 6 de Setembro de 1941, que a Alemanha nazi tornou obrigatório o uso da estrela amarela de David para todos os cidadãos judeus, de modo a serem facilmente reconhecidos pelos alemães. Esta medida integrou-se no movimento anti-semita que já tinha levado à determinação que obrigava a que os judeus fossem retidos em “ghettos” e depois reconduzidos a campos de concentração, generalizando-se uma prática que teve início em 1939 destinada apenas à prisão dos inimigos do regime nazi. Durante o regime nazi foram mortos, segundo estimativas recentes, de entre 5,1 e 6 milhões de judeus, isto é cerca de 60% da população judaica na Europa pela mesma época. Tal era a eficácia da máquina de extermínio nazi e do modelo de identificação pela estrela amarela de David!

Imagem: http://pt.wikipedia.org/wiki/Estrela_amarela