segunda-feira, 25 de abril de 2011

37.º Aniversário da Revolução do 25 de Abril


Edição de 25 de Abril de 1974 em A República, in http://barbeariaideal.blogspot. com | cravos, in http://sindromedeestocolmo.com

Comemora-se hoje em Portugal o fim da ditadura do Estado Novo. É feriado nacional em memória ao movimento revolucionário que em 25 de Abril de 1974 concretizou esse golpe que, desde então e durante décadas, foi entendido como tendo aberto um novo e importante período da História de Portugal representado politica e socialmente o caminho para a instauração da democracia e a conquista da liberdade, razão por que a mesma data tem vindo a ser considerada por muitos portugueses como o “Dia da Liberdade” o qual, todavia não deve ser confundida com o “Dia Mundial da Liberdade” que se comemora a 23 de Janeiro. 
Hoje, face às dificuldades que o país atravessa, esta data parece servir mais como um motivo para reflectir da ingenuidade como foi encarado o futuro pós-revolucionário do que como uma data a comemorar, uma data que cada vez mais suscita a tomada de consciência do desencanto perante a esperança depositada pelos portugueses na "Revolução dos cravo"s, mesmo da parte de alguns portugueses que nela assumiram decisivo protagonismo. Enfim, uma data comemorativa de sabor agridoce mas, ainda assim, uma data de relevância histórica nacional que cumpre assinalar.   
Por ocasião do 37.º Aniversário deste evento histórico, transcrevemos, aqui no Clube de História de Valpaços, um breve resumo histórico deste mesmo evento que intitulámos de “25 de Abril há 36 anos”.
Para rever a publicação referida clique AQUI

sábado, 23 de abril de 2011

Hoje, Dia Mundial de São Jorge e do Escutismo


Neste mesmo dia 23 de Abril, em 2010, assinalámos aqui, no Clube de História de Valpaços, a tradição comemorativa universal deste santo, bem como a sua relação com a instituição do Escutismo, igualmente universal, comemorada na mesma data. Trata-se de um artigo, com o mesmo título em epígrafe, que resume o essencial sobre o significado desta data comemorativa.
Para rever o artigo a que nos referimos clique AQUI.
Para analisar alguns detalhes sobre a vida de S. Jorge e da lenda que lhe está associada clique AQUI.

130.º Aniversário do nascimento de Sacadura Cabral

Em 17 de Junho do ano de 2010 publicámos aqui, no Clube de História de Valpaços,  um texto em homenagem à “Primeira travessia aérea do Atlântico Sul”, que, como se sabe, foi uma das mais destacadas proezas deste grande pioneiro da aviação mundial, em parceria com Gago Coutinho. Nesta publicação tivemos a preocupação de divulgar também dois resumos biográficos relativos aos mesmos protagonistas pelo que remetemos os nossos leitores, nesta data comemorativa do nascimento de Sacadura Cabral, para essa nossa publicação.

Para consultar a referida publicação clique AQUI.
Para conhecer mais detalhes sobre a mesma figura comemorativa clique AQUI ou/e AQUI.

As “Alminhas” do concelho de Valpaços: freguesia de Santa Valha

Por Leonel Salvado
Tema: Citações de autores de blogues locais sobre “Alminhas” | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior);   http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
(clique sobre a imagem para aumentar)

É tempo de fazermos aqui, tal como temos vindo a fazer em relação aos Cruzeiros e às Fontes e Chafarizes, a divulgação desta outra área do nosso Património Arquitectónico Religioso do domínio da tradicional da espiritualidade popular (para que, embora já não seja o que era, nunca despareça!) que é o das “Alminhas” do concelho de Valpaços. Encontrámos a seguinte nota curiosa a respeito de tipo monumentos muito numerosos no distrito de Vila Real:



«"Alminhas" são painéis pintados pelo povo, com orações para a libertação das almas.   Existem dois grupos de "Alminhas": um é, em geral, para as almas do Purgatório, e a outra é principalmente para as vítimas de morte violenta ("Alminhas" que foram assassinados, etc). Encontramos pinturas de "Alminhas" [em] cruzes, nichos, oratórios, caixas de dinheiro da igreja, em bandeiras utilizadas em procissões, capelas, etc

In Alminhas de Vila Real, http://en.lifecooler.com/lifecooleren/alminhas-of-vila-real-handicraft-296743-1.html

Acrescenta A. Veloso Martins na sua muito credenciada Monografia de Valpaços a propósito das Alminhas:

« É o termo empregado pelo povo e divulgado já pelos eruditos. [...] 
A tradição das "alminhas" ou nichos vem do fundo dos séculos e deverá ser mantida como cousa fecunda e actuante em prol da espiritualidade pura do povo. [...] Em regra o painel das almas é pintado em tábuas de madeira, ou azulejos e representa pessoas - os pecadores - a debaterem-se entre labaredas.
Na composição da pintura como motivo central, aparece Cristo crucificado, a Santíssima Trindade, o Padre Eterno, a Virgem, esta nas invocações de Nossa Senhora do Carmo, do Rosário, do Alívio, das Dores, entrando ainda como figuras acessórias os Santos e os Anjos.
As almas são normalmente figuradas como bustos humanos de adultos - as inocentes crianças não vão para o purgatório - de ambos os sexos de todas as categorias e profissões, distinguindo-se pelo comprimento dos cabelos, as almas femininas, pelas barbas brancas, os anciãos, pelas coroas os reis, pelas mitras os bispos, e pelos próprios hábitos os padres, frades, e freiras, todos envolvidos por chamas alterosas, em atitudes de súplica, desespero, ou esperança, muitas vezes de mãos postas. É frequente também aparecer como figura central S. Miguel Arcanjo, estendendo a balança e segurando o gládio, símbolos de inexorável justiça. Quem passa, descobre-se, deixa a esmola e reza
A. Veloso Martins, Valpaços, monografia, 1990, p.365


É a divulgação desta admirável forma de arte popular que nos propomos levar a cabo através desta nova concepção visual que estreámos para as “fontes e chafarizes” e para a nossa “homenagem às Sete Maravilhas do Concelho de Valpaços” – o efeito visual dos objectos cerâmicos. Para as “Alminhas” criámos uma forma de covilhete de louça muito comum na faiança portuguesa para servir de suporte à iconografia – as fotos são, neste caso, as que foram publicadas pela Junta de Freguesia de Santa Valha.


I

Tema: Um dos monumentos de “Alminhas” de Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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II

Tema: “Alminhas” do Sr. Dos Aflitos, Pardelinha, Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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III

Tema: “Alminhas” de Corgoço, Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um ilustre valpacense a resgatar para a História

Actualizado por Leonel Salvado em 30.09.2012

Miguel Francisco Fernandes Machado | Foto de José António Soares da Silva,
 in Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços| Arranjo digital de Leonel Salvado

Miguel Francisco Fernandes Machado não consta, estranhamente, no “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto durienses”, uma obra composta por três volumes e coordenada por Barroso da Fonte que se apresenta como um importante repositório biográfico das figuras que atingiram pródiga celebridade no contexto regional a que se reporta e se propõe ser também uma obra evocativa dos singulares valores dessas figuras.
Estranhamente, dissemos, já que “Miguel de Fiães”, como ficou popularmente conhecido por ser natural desta freguesia do concelho Valpaços, surge retratado por vários autores, designadamente pelo Padre João Vaz de Amorim numa das suas publicações na “Revista Aquae Flaviae” e, mais recentemente reafirmado pelo Dr. José António Soares da Silva em “Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços” como um Homem «dedicado a causas sociais, muito considerado pelos seus conterrâneos». Ninguém realçou mais, até hoje, as qualidades deste homem do que estes dois autores.


Nasceu em 5.11.1838 em Fiães, actual freguesia do concelho de Valpaços, no distrito de Vila Real. Foi filho de Luís António Fernandes e de Benedita de Almeida, ambos naturais da mesma freguesia de Fiães. Em 19.10.1859 casou na sua terra natal com Mariana da Conceição Videira, filha de Manuel José Videira, natural da vizinha freguesia de Lebução, e de Balbina Fernandes.
Foi popularmente conhecido como o “Miguel de Fiães” dentro e fora dos limites do concelho de Valpaços.
Criou-se, a dada altura, a seu respeito uma irónica frase epitética que, despida da evidente ironia que lhe está subjacente, pode servir para resumir, grosso modo, a vida de “Miguel de Fiães”: “era lavrador e não lavrava, contador e não contava, administrador e não administrava”. Na verdade, Miguel Francisco Fernandes Machado foi figura de grande prestígio no concelho de Valpaços devido à sua formação cultural, às suas aptidões para o exercício de importantes cargos públicos e administrativos, à excepcional argúcia que sempre revelou no ambiente político-partidário valpacense em que se impôs e ao sucesso que obteve nos seus empreendimentos agrícolas em Fiães.
Em 22.02.1883 foi nomeado, por Carta régia de D. Luís I, Contador e Distribuidor do Juízo de Direito da Comarca do Porto e, em 23.01.1885, por apostila do mesmo monarca àquela carta, obteve a transferência no exercício das mesmas funções para a Comarca de Valpaços. Mais tarde assumiu a liderança do Partido Regenerador de Valpaços que se encontrava vaga desde a morte de Filipe José Vieira. Usando da sua influência e simpatia, conseguiu obter uma larga base de apoio ao eleitorado do referido partido em todo o concelho, sobretudo entre o clero e as mais importantes famílias da aristocracia, dando-lhe renovado fôlego e fazendo renascer as esperanças das forças regeneradoras face à crise evidenciada nas suas fileiras durante cerca de uma década.
Em 1895, Miguel Machado exercia cumulativamente as funções de contador da comarca de Valpaços, administrador do concelho e chefe do Partido Regenerador quando uma inconcertada manobra eleitoralista cometida por uma das mais prestigiadas figuras do mesmo partido inflamou os ânimos dos seus correligionários valpacenses e deu origem à delicada questão conhecida por “Guet – Apens” de Valpaços. Este lamentável dissídio começou com o facto de António Teixeira de Sousa, então Governador Civil de Bragança, procurador à Junta Geral do distrito de Vila Real pelo concelho de Alijó, 1.º Secretário da Câmara dos Deputados e que naquele ano integrava a lista do mesmo Partido Regenerador do Distrito de Vila Real e vinha sendo eleito pelo círculo de Alijó, ter obtido do Governo de Hintze Ribeiro, em conformidade com a lei eleitoral aprovada no mesmo ano de 1895, o decreto que por determinação régia elevou Murça a comarca e integrou nela as freguesias de Curros, Jou e Vales, subtraindo-as do concelho e comarca de Valpaços. Gorados os instantes apelos dirigidos por Miguel Machado ao Ministro da Justiça no sentido de que não fosse dado provimento àquela decisão, chegando a deslocar-se debalde a Lisboa para renovar o pedido, e perante as vozes de indignação que se levantavam entre forças vivas de Valpaços das duas formações partidárias, o líder dos Regeneradores de Valpaços substitui o nome de Teixeira de Sousa pelo de António Lobato na lista distrital do seu Partido para as eleições. Este acto custou a Miguel Francisco Fernandes Machado a sua imediata demissão por determinação emanada do próprio gabinete do Ministro do Reino, João Franco. A questão gerada em torno do “Guet – Apens” de Valpaços alimentou longa polémica entre os dois protagonistas que a imprensa regional, e até nacional, deu cobertura. Miguel Machado é autor de um curioso opúsculo publicado em 1896, a expensas próprias, onde se propõe esclarecer o lamentável caso, opúsculo esse intitulado “O ataque do Sr. Teixeira de Sousa – A Minha Defesa” a que se dá especial relevo na já referida obra editada em 2010 pela Câmara Municipal de Valpaços da autoria do Dr. José António Soares da Silva.
Também se extrai desta mesma obra que em 12.10.1895 Miguel Machado contribuiu com 81 000 réis para a “Instituição de Socorro”, sociedade de beneficência laica criada e constituída por Joaquim de Castro Lopo e outras figuras gradas do Partido Progressista, o mais alto donativo então recebido pela mesma sociedade e, apesar das diferenças partidárias, em sessão especialmente realizada pela sociedade para tratar deste “donativo importante”, foi deliberado que se exarasse um voto de agradecimento a ele destinado e que o seu nome fosse inscrito no registo dos sócios da instituição.
Em 24.06.1897, ainda apesar das diferenças partidárias, na Assembleia Geral da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, instituição entretanto criada pelo Partido Progressista, o nome de Miguel Francisco Fernandes Machado foi proposto para fazer parte da Comissão Promotora das obras da respectiva capela, o qual aceitou na sessão realizada no dia seguinte por esta mesma comissão e mais subscreveu o mesmo donativo de 60 000 réis declarados por outros membros inscritos no topo da mesma lista, depois de já ter contribuído antecipadamente para esta instituição com a quantia de 20 000 réis.
Na sessão realizada no dia 1 de Maio de 1898 pela assembleia Confraria de Nossa Senhora da Saúde foi deliberado atribuir-se-lhe o título de Irmão Benemérito.
Em 1909 foi mais uma vez administrador do concelho de Valpaços, no mesmo ano em que surgem referências documentais a seu respeito, destacando-o como exportador de batata e castanha em Fiães – afinal, o mesmo “lavrador que não lavrava”!
Em 1915, já em plena República, volta a ser administrador do concelho de Valpaços.
Existem ainda vagas referências de que, em qualquer momento da sua vida, Miguel Francisco Fernandes Machado terá sido “um dos directores da Companhia de Gás de Lisboa” ou “Administrador da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás”.
Faleceu em 30.06.1916.

terça-feira, 19 de abril de 2011

505.º Aniversário do Massacre dos judeus de Lisboa

Por Leonel Salvado

Uma das duas únicas gravuras sobreviventes ao terramoto de 1755 e ao incêndio da Torre do Tombo: “Da Contenda Cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus Crucificado| http://pt.wikipedia.org

Trata-se de um dos mais dramáticos e delicados acontecimentos da História de Portugal, também designado por “Matança da Páscoa de 1506”, de que não se faz eco a memória colectiva do povo português, não se encontra a justa referência nos manuais escolares de História existentes, em qualquer dos níveis de escolaridade, e continua a ser, desde há cinco séculos, um “pedaço de História” que merece a atenção de um círculo muito restrito de historiadores. A Historiografia situa o início do vergonhoso massacre no dia 19 de Abril de 1505. Só a 23 de Abril de 2008 foi erguido em Lisboa, no Largo de S. Domingos, próximo do Convento desta ordem, onde teve início o triste evento, um monumento em homenagem aos judeus mortos em 1506 nesta cidade.

Monumento em homenagem aos judeus vítimas do massacre de 1506, Lisboa | foto: SergioPT | http://pt.wikipedia.org
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A cinco séculos de distância, este monumento que se transformou em ponto de encontro de estrangeiros encontra-se, ironicamente, perto de um outro monumento em homenagem ao catolicismo e de um mural onde a frase “Lisboa, cidade da tolerância” pode ser lida em 34 línguas.


Os antecedentes

A 23 de Março de 2011 publicámos aqui no Clube de História de Valpaços um artigo que entendemos ser de interesse e relevância local e regional dedicado à “Expulsão dos judeus de Castela e o reforço das comunidades criptojudaicas em Trás-os-Montes”. Ora, uma grande parte dos cerca de 90 000 judeus entrados em Portugal em consequência da sua expulsão pelos reis católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, através do “decreto de Alhambra” de 31 de Março de 1492, permaneceram no reino, sob as condições impostas pelo monarca português, D. João II, nos termos a que nos referimos no artigo atrás mencionado, estabelecendo-se um prazo de oito meses para que os que não respeitassem essas condições abandonassem o reino. Desde então, e posto que em alguns lugares a população aceitou mal a clemência régia e constatando-se ainda que muitos judeus não possuíam condições financeiras para embarcar, o que os levava a simular a conversão para serem poupados a afrontas e punições, o monarca recorreu à conversão forçada de modo a pôr termo à onda de agitação social que já se sentia agravar-se contra eles. Começavam então as bárbaras provações por que passaram as famílias judaicas a quem se apartavam, à força, os filhos menores para serem baptizados e conduzidos à ilha de S. Tomé, onde se fariam bons cristãos e povoadores, longe da influência da doutrina mosaica e da língua e cultura hebraicas. Este procedimento “considerado bárbaro à luz do nosso tempo” levou o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, na esteira de outros historiadores, a tecer a seguintes comentários:

“A odisseia dos judeus que constitui uma página negra da história ibérica dos fins do século XV, serviu de tema a Samuel Usque para a dolorosa evocação do sofrimento dos seus irmãos de raça. O ressentimento secular dos cristãos está longe de justificar o clima de intolerância que então dominou o País e que foi apenas e que foi apenas o prólogo de violências ainda mais cruéis que no tempo de D. Manuel viriam a atingir a raça proscrita.”

J. V. Serrão, História de Portugal, Verbo, 3ª ed. revista, 1980, vol II, p. 262

De facto, foi já no reinado de D. Manuel que a situação se complicou para as comunidades judias por força não da sua vontade pessoal (no início do seu reinado D. Manuel adoptara uma política de grande tolerância em relação aos judeus, chegando a conceder a liberdade aos que haviam recaído para a condição de escravos por vontade de D. João II) mas do compromisso a que se vira obrigado devido ao seu casamento com D. Isabel de Aragão em 1497 nos termos de cujo contrato os judeus eram considerados “hereges”, e, sobretudo após o seu casamento, no ano seguinte, com D. Maria de Aragão, posto que foi em cumprimento de uma das cláusulas deste segundo matrimónio que “o Venturoso” requereu a instalação da Inquisição em Portugal, a qual só viria a ser autorizada por decisão papal em 1531, anulada um ano depois e restabelecida, a pedido de D. João III, em 1536.  

Ainda que com grande hesitação, dado o parecer dos seus conselheiros de que a saída dos judeus empobreceria o corpo social da Nação (J. V. Serrão, ob. Cit., Id), logo no ano de 1497, D. Manuel estabeleceu o prazo de Janeiro a Outubro para que os não convertidos abandonassem o Reino, mas ordenou também que fosse dada continuidade à prática iniciada pelo seu antecessor para que àqueles fossem tirados os seus filhos com idade inferior a catorze anos, espalhados pelo País e levados ao baptismo. Ordenou ainda a condução forçada de muitos outras famílias para Lisboa, onde foram forçados ao baptismo, o que deu origem ao conceito de “cristão-novo” e ao estigmatismo que logo se lhe associou. Tal foi a ardilosa solução encontrada pelo monarca, tantas vezes sublinhada pelos historiadores, para que, sem aparente despeito pelo compromissos diplomáticos e matrimoniais assumidos com o reino vizinho, pudesse evitar a saída dos Judeus do Reino e assim manter a sua prosperidade que, como se sabe, era em grande parte assegurada pelas imensas fortunas e dinamismo económico e comercial de que eram detentores os “cristãos-novos”, sobretudo em Lisboa, então um dos principais centros cosmopolitas da época. Foi também nesse sentido que a 30 de Maio de 1498 foi aprovada a medida régia que estabelecia um prazo de vinte anos para que os judeus conversos não fossem molestados pelos cristãos. Porém, estas medidas não sortiram o efeito desejado devido à inabalável desconfiança da população perante os “cristãos-novos”, acusados de continuar secretamente a praticar o seu culto ancestral tanto em família como em comunidade, o que na maioria dos casos correspondia à verdade. Parafraseando o já citado historiador Joaquim Veríssimo Serrão (Ob. Cit. Vo lIII, p. 17), não se confirmou, como a coroa pensava, “que o tempo seria condição bastante para o apaziguamento social que se impunha.”


O Massacre e suas consequências

Existem indicadores de que por todo o País surgiam pequenos conflitos entre as comunidades de cristãos e conversos ou pseudoconversos. Mas foi em Lisboa, na Pascoela de 1506, que a situação se tornou mais grave, transformando-se num movimento insurreccional contra os judeus que durante três dias ceifou a vida a cerca de 2000 pessoas, segundo o cômputo indicado por Alexandre Herculano em Da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal e subscrito por Veríssimo Serrão (Ob. Cit., Vol. 3, p.18). Uma tragédia originada pela explosão da recalcada animosidade da população lisboeta, despoletada por um pequeno incidente e alimentada pela adesão aos amotinados de alguns nautas estrangeiros de passagem pela cidade e pela incitação à violência por dois frades dominicanos. Uma das descrições mais próximas do tempo em que sucedeu este arrepiante acontecimento, para além da de Garcia de Resende, é a que nos legou Damião de Góis na “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”. Conta-nos este cronista quinhentista:

«No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, …tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. …tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.»

In http://pt.wikipedia.org

Sabemos pelo mesmo Damião de Góis das medidas de justiça régia sobre os implicados no motim e das consequências que daí resultaram nas relações sociais entre as duas comunidades, através das seguintes palavras de Veríssimo Serrão:

Logo que soube do «alevantamento», D. Manuel, que se encontrava em Avis a caminho de Beja, mandou a Lisboa o Prior do Crato e o barão de Alvito com amplos poderes para punir os culpados. Os chefes do motim, em número de 50, receberam o castigo da forca, sofrendo os dois religiosos a pena do garrote. Por carta régia de 22 de Maio retirou-se à capital uma parte dos seus antigos privilégios, destituíram-se funcionários, levantou-se devassa a outros e suspenderam-se as eleições na Casa dos Vinte e Quatro, numa forma de exemplar condenação do bárbaro crime de que Lisboa fora teatro. A culpa do malefício recaía também sobre os «outros moradores & da dita cidade e termo della» que não se tinham oposto aos «muitos insultos & danos» que ensanguentaram a capital.”

Joaquim V. Serrão, Ob cit., Vol. III. pp. 18-19

Tais medidas foram de molde a abrir um ambiente de maior tolerância em relação aos judeus, concedendo-se-lhes a possibilidade de abandonar o Reino por sua livre vontade com todos os seus haveres e proporcionando aos que ilegalmente se ausentaram a oportunidade de regresso sem qualquer castigo. Sobrevindo a bonança obteve-se a reconciliação, visto que a maior parte deles decidiu permanecer em Portugal e foi reposta a paz religiosa até ao final do reinado de D. Manuel. Com a subida ao trono de D. João III repetiu-se a cisão entre cristãos e conversos e agravou-se o ressentimento secular dos cristãos a que Joaquim Veríssimo Serrão aludiu no primeiro excerto que dele transcrevemos neste post. A amargurada odisseia dos judeus  em Portugal ainda estava bastante longe do seu termo.

domingo, 17 de abril de 2011

Os Cruzeiros do concelho de Valpaços – Freguesia de Santa Valha

Padre João Parente (trancrição)
I
A
Cruzeiro do Senhor da Boa Morte, Santa Valha em 2004
 | Foto base: Padre João Parente, 2004 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)

Número: 12.16. 231

Local: Santa Valha num outeiro, à saída da aldeia em direcção ao sul
Título: Senhor da Boa Morte
Material: Granito, ferro e telhado de madeira
Altura: 3,50 m, base e cruz
Descrição: Dentro de alpendre de três paredes, uma fundeira e duas laterais, resguardado por grades de ferro, aconchega-se o simples cruzeiro constituído por base cubóide e cruz simples, com o crucifixo policromado e a legenda, no fuste: “S. B / MORTE”.
Data: Século XIX [plataforma e escadaria de construção recente]

Fonte: Padre João Parente, Os cruzeiros da Diocese de Vila Real, Produção Media Line, Impresse 4, sd, p. 287.

B
 Cruzeiro do Senhor da Boa Morte na actualidade, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha | http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)

II
A
Cruzeiro da capela do Senhor da Boa Morte, Corgoço, Santa Valha
 | Foto base: Padre João Parente, 2004 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)

Número: 12.18.232

Local: Corgoço, Freguesia de Santa Valha
Título: Cruzeiro
Material: Granito e ferro
Altura: 3,50 m, base e cruz
Descrição: Dentro de pequena capela de granito, com portas de ferro, sobre uma base de cimento, resguarda-se a cruz de granito pintado de azul que sustenta o crucifixo de madeira policromada.
Data: Século XIX – XX

Fonte: Id. p.288.
 B
A capela do Senhor da Boa Morte, Corgoço, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)



Outros Cruzeiros da Freguesia de Santa Valha

Cruzeiro ao caminho de Vale Bem Feito
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)



Cruzeiro chamado de Cruz de Santa Olaia, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)




Cruzeiro conhecido por Cruz de PardelinhaPardelinha, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
(clique sobre a imagem para aumentá-la)

sábado, 16 de abril de 2011

Cavalos europeus tiveram origem na Ásia e Península Ibérica

por Elsa Cláudia Alves, da agência Lusa 03 Abril 2011

 Cavalos europeus | http://www.dn.pt

Os cavalos hoje existentes na Europa tiveram origem na Ásia, mas também na Península Ibérica, que deu um contributo para a sua domesticação, processo que acompanhou o desenvolvimento dos homens, disse hoje uma investigadora.

A Península Ibérica serviu de refúgio a cavalos selvagens há cerca de seis mil anos e as populações foram "preponderantes" para a domesticação destes animais na região e no resto da Europa, concluiu um estudo de uma equipa internacional que inclui Cristina Luís (dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa) e Maria do Mar Oom (do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa). O trabalho, publicado esta semana na revista PloS One, indica que as raças de cavalos existentes na Europa "não só tiveram grande influência dos cavalos asiáticos, como também tiveram influência dos cavalos selvagens existentes na Península Ibérica, um dado novo e bastante interessante", avançou hoje à agência Lusa a investigadora Cristina Luís. "O cavalo sempre esteve associado ao homem e a sua domesticação também. Ao estudar a domesticação do cavalo podemos obter pistas de como se processaram as movimentações dos humanos ao longo dos tempos, numa análise antropológica e das civilizações", explicou.

A domesticação dos cavalos constituiu um passo importante na história da humanidade, tendo proporcionado vantagens na possibilidade de viagens de longa distância, na agricultura, no comércio e na guerra. A equipa de investigadores analisou as relações genéticas de 24 raças de cavalos europeus e asiáticos para tentar esclarecer os fenómenos de domesticação na Europa. As informações obtidas sobre a influência que determinadas raças, de determinadas regiões, tiveram umas nas outras podem dar um contributo para trabalhos de conservação e melhoramento de raças actuais. Cristina Luís apontou que a investigação desenvolvida "tem uma vertente de conservação, mas também de estudo da evolução do cavalo e da história das civilizações humanas, muito interligadas com os cavalos".

Há seis mil anos, quando eram selvagens, "os cavalos não gostavam muito de regiões de floresta densa e terão tido um refúgio na Península Ibérica e, eventualmente, terão então sido utilizados para a formação de outras raças" e seleccionados de formas diferentes, resumiu a investigadora. Actualmente, já não existem cavalos selvagens na Europa, há alguns casos de cavalos que andam ao ar livre, como os garranos, no norte de Portugal, mas "têm donos". Cristina Luís referiu um projecto em que se pretende estudar a relação entre cavalos da Península Ibérica e do Norte de África. Desconhece-se "qual a direcção das migrações de cavalos", já que os mouros estiveram em Portugal e "não se sabe se terão sido os cavalos dos mouros que foram trazidos para a Península Ibérica ou ao contrário", explicou. Os investigadores vão "tentar provar se realmente houve uma domesticação independente na Península Ibérica", salientou a especialista.

In DN | http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1821950

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Placa de argila muda tudo aquilo que se sabia sobre as origens da alfabetização

CiênciaHoje, 2011-04-06

Michael Cosmopoulos (à esquerda) no local das escavações

Uma tábua de cerâmica com mais de três mil anos, com o texto legível mais antigo da Europa, foi encontrada numa antiga lixeira, em Peloponeso, na Grécia, segundo anunciou Michael Cosmopoulos, arqueólogo da Universidade do Estado do Missouri-St. Louis (EUA). Trata-se de uma placa de argila, que se julga corresponder a um registo financeiro. Será publicado um artigo sobre a pedra na edição deste mês da«Proceedings of the Athens Archaeological Society».

O artefacto foi encontrado durante escavações – sob a supervisão da Escola de Arqueologia de Atenas, começaram em 2006 e já revelaram ruínas de uma enorme estrutura com grandes muralhas de entre 1550-1440 a.C. –, numa colina de Iklaina, uma pequena aldeia do departamento de Messene, 300 quilómetros a sudoeste de Atenas.

“Isto é um caso raro onde arqueologia vai ao encontro de textos antigos e mitos gregos”,segundo referiu ao «Past Horizons Archaeology News». Esta tabela de argila muda tudo aquilo que se sabia sobre as origens da alfabetização e a burocracia, durante a Idade do Bronze, na Europa do sul. O fragmento mede cinco centímetros por oito.

A inscrição corresponde a uma forma de escrita – Linear B – usada antes da existência da Grécia Antiga pelos Micénicos, um povo da Idade do Bronze que dominou grande parte do território grego 1.600 anos antes e Cristo, na época da Guerra de Tróia descrita na Ilíada de Homero.

Placa tem inscrição em Linear B

A placa tem, de um lado, uma lista de nomes e números; no outro, uma verba relativa à confecção, segundo revelou o Cosmopoulos, que também é director doIklaina Archaeological Project, acrescentando que esta descoberta sugere que "a burocracia e a literacia foram desenvolvidas mais cedo do que se pensava".

Segundo o especialista, o sítio em que a placa de argila foi encontrada terá sido uma antiga lixeira do Peloponeso que foi atingida pelo fogo. Felizmente, a inscrição não se perdeu, uma vez que a argila terá cozido com as altas temperaturas do incêndio. O local foi destruído provavelmente no ano 1400 a.C., antes de ser invadido pelo reino de Pilos, cujo rei, Nestor, é mencionado na Ilíada.

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Descoberto primeiro esqueleto de homossexual pré-histórico

CiênciaHoje, 2011-04-07
 Corpo estava disposto como sepultura feminina

Descobriram o corpo de um homem – que remonta a 2900 ou 2500 anos a.C. –, na República Checa, cuja posição estava normalmente reservada às mulheres na cultura da cerâmica e, por isso, os investigadores acreditam tratar-se do primeiro homossexual ou transexual conhecido e que viveu durante a Idade do Cobre.

O esqueleto, encontrado num subúrbio de Praga, tinha a cabeça apontada para Este e estava rodeado de utensílios domésticos, um ritual que até aqui apenas era descoberta em sepulturas femininas.

Segundo a história da antropologia, "as pessoas deste período levavam este género de ritual funerário muito a sério e isso leva a crer que a posição em que foi encontrado seja dificilmente um erro”, referiu Kamila Remisova Venisova, coordenadora da equipa de arqueólogos que fez a descoberta, ao diário britânico «The Telegraph».

Neste tipo de cultura, os homens eram normalmente enterrados sobre o seu lado direito, com a cabeça virada para o Oeste, com ferramentas, armas, comida e bebidas e as mulheres, normalmente sobre o lado esquerdo, viradas para o Este e rodeada de jóias e objectos de uso doméstico.

Outra das hipóteses é a de que o indivíduo poderia ter sido um xamã ou alguém do ‘terceiro sexo’ (homo ou transexual). "Como o conjunto de objectos encontrados em redor do esqueleto não corroboravam a hipótese de que fosse um xamã, é mais provável que a segunda explicação seja a correcta”, sustentou ainda.

As escavações foram hoje abertas ao público e as visitas têm sido intensas. Os restos são de um membro da cultura da cerâmica cordada, que viveu no norte da Europa na Idade da Pedra, entre 2.500 AC e 2.900 AC.

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Fogueira com elas

Bruxas, feiticeiras e outras endemoninhadas

Milhares de supostas bruxas (e bruxos) foram torturadas e condenadas a morrer na fogueira pela Igreja e por tribunais civis, apoiados no medo e na superstição. Aconteceu numa Europa Central assolada pelas guerras religiosas e fustigada pela fome e pela doença. De pé no pátio do castelo, um acusado de bruxaria aguarda o veredicto. O toque dos sinos é lúgubre. “São verdadeiras as acusações?”, pergunta o alcaide ao réu. Com um quase inaudível “sim”, o homem admite aquilo que o obrigaram a confessar. Sabe que, se desmentir, voltará ao cárcere e será submetido a novas torturas. O cura profere um sermão sobre a bondade divina e a férrea determinação que os fiéis devem manter contra as artes de­mo­nía­cas. Depois, o escrivão lê a sentença e o preso é entregue ao carrasco. Todo o povo está presente, incluindo crianças. Após a execução, as personalidades importantes dirigem-se ao salão do castelo para o banquete, pago com os bens da vítima. Era assim, na forca ou nas chamas purificadoras da fogueira, que a cidade helvética de Neuchâtel acabava com os seus bruxos e bruxas. A Suiça possui a duvidosa honra de ser o país com mais vítimas acusadas de bruxaria em relação à respectiva população: uma por cada 250 habitantes. Um total de 4000 pes­soas foram condenadas e assassinadas porque legisladores, juízes, políticos, curas e intelectuais consideravam que tinham estabelecido um pacto com o diabo. Comparativamente, Portugal, com uma demografia semelhante, apenas executou quatro cidadãos durante os três séculos que durou a caça às bruxas. Em termos absolutos, é a Alemanha que leva a palma, com 25 mil condenações à morte, seguida da comunidade da Polónia-Lituânia (dez mil). No período que vai de 1450 a 1750, “a degradação esmagou a honradez, as paixões mais baixas foram camufladas com a cobertura da religião e o intelecto do homem desculpou selvajarias; a bruxaria destruiu os princípios da honra e da justiça”, opina o historiador britânico Rossell Hope Robbins. Tem razão: em Inglaterra, um juiz do Supremo Tribunal fechou os olhos ao perjúrio evidente cometido por uma testemunha de acusação; na Alemanha, um magistrado, rejeitado por uma mulher a quem fizera propostas desonestas, acusou a irmã de ser bruxa, torturando-a e queimando-a na fogueira nesse mesmo dia; em Boston, uma pobre imigrante que só falava gaélico irlandês e rezava em latim morreu na forca por não saber dizer o Pai Nosso em inglês.

De curandeiros a demónios As supostas bruxas (80 por cento das vítimas eram do sexo feminino) não eram como aquelas velhas corcundas e desdentadas que preparam poções nos contos infantis. Aos olhos de leigos e clérigos, estas damas diabólicas pertenciam a uma poderosa organização que trabalhava sem descanso para subverter a religião e pôr fim ao reino de Deus. A brutal mudança de percepção surgiu no Renascimento. Anteriormente, os bruxos faziam parte da rede social e “a feitiçaria correspondia ao desejo de dominar a Natureza em quatro aspectos principais: a saúde, o sexo, o conhecimento do futuro e a ambição económica”, afirma Joseph Pérez, historiador da Universidade de Bordéus (França). Habituais no meio rural, os feiticeiros desempenhavam o papel de curandeiros, dada a escassez de médicos, e viviam da venda de poções naturais e amuletos da sorte. Sem preparação intelectual, os seus conhecimentos sobre as plantas decorriam da tradição e da experiência; eram autênticos depositários da cultura popular. Porém, tudo isso mudou no século XV. A Europa fora arrasada pela peste negra e, em 1494, surgiu uma nova epidemia que iria atingir um milhão de cidadãos: a sífilis. Entretanto, reis e governantes mergulhavam os seus países num ciclo constante de conflitos. À Guerra dos Cem Anos (1337–1453), entre a França e a Inglaterra, seguiram-se sangrentos confrontos entre católicos e protestantes e a Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Europa Central entre 1616 e 1648. A tudo isso é preciso somar períodos de seca e de fome, óbitos por falta de higiene, etc... Um cenário desolador para uma população dominada pelo receio de penúrias e desastres aparentemente sem explicação. Nesse contexto, a Reforma religiosa serviu de trampolim para eliminar os vestígios de paganismo que subsistiam no meio rural e serviam de alimento à feitiçaria. Em vez de reciclar as velhas crenças, como fez o cristianismo primitivo, tanto católicos como protestantes decidiram atacá-las e declará-las uma herança de Satanás. Lutero defendeu que se queimasse os seus praticantes, e os luteranos estenderam por toda a Alemanha a caça à bruxas, enquanto o calvinismo impôs na Escócia, em 1563, a primeira lei antibruxaria.

Sinistras criaturas Por se tratar de um conceito ideológico difícil de demonstrar, a bruxaria foi declarada crimen excepta, delito excepcional não abrangido pelas garantias processuais. Constituía uma traição a Deus e devia ser, como tal, severamente punida: “Nenhum castigo que impunhamos às bruxas, mesmo que seja assá-las e cozê-las em lume brando, será excessivo”, escrevia Jean Bodin, jurista francês do século XVI. Este indivíduo demonstrou o seu fanatismo no livro Demonomania dos Bruxos (1580), no qual deixou escritas pérolas como “há que obrigar as crianças a testemunhar contra os pais”, “a suspeita é suficiente fundamento para a tortura” ou “nunca se deve absolver uma pessoa depois de ter sido acusada”. No seu entender, a melhor maneira de infundir temor a Deus era com “ferros ao rubro para arrancar a carne putrefacta”. Como se tivessem lido Bodin, as filhas do latifundiário inglês Robert Throckmorton destruíram para sempre a vida da família constituí­da por John e Alice Samuel e pela sua filha Agnes, seus vizinhos na povoação de Warboys. Esses monstrinhos, liderados por Jane, de dez anos, fingiam ataques de epilepsia quando Alice surgia e conseguiram convencer os juízes, com o apoio de um médico de Cambridge, de que esta lhes lançara uma maldição. As meninas acusaram igualmente a família Samuel de ser responsável pela morte de Lady Cromwell, casada com o homem mais rico de Inglaterra e conhecida dos Throckmorton. John, Alice e Agnes foram declarados culpados de assassínio por feitiçaria. O chamado “caso das bruxas de Warboys” contribuiu para impulsionar a lei de 1604 que estabelecia a pena de morte para a bruxaria. Em França, o fenómeno esteve mais associado ao sexo. O episódio das freiras de Luoviers, na Alta Normandia, deveu-se aos excessos do capelão de um mosteiro de irmãs franciscanas da ordem terceira. Quando a jovem Madeleine Bavent ingressou, em 1623, descobriu que o pai espiritual do convento era adepto de uma heresia que defendia que se devia adorar Deus sem roupa, como Adão e Eva. “As monjas despiam-se e dançavam na sua frente. Ele obrigava-nos a dar abraços voluptuosos; testemunhei a circuncisão num falo enorme que algumas monjas agarraram em seguida para satisfazer os seus caprichos”, escreveu Madeleine. Ela negava-se a participar em tais práticas, mas o cura Mathurin Picard violou-a e deixou-a grávida. As orgias prosseguiram até 1642, quando a morte de Picard desencadeou a histeria. Receosas de que tudo fosse descoberto, 14 das 52 freiras do convento começaram a fingir possessão demoníaca e acusaram Madeleine de as ter enfeitiçado. Esta foi torturada e condenada à prisão perpétua numa masmorra insalubre, onde recebia apenas pão e água de três em três dias. Em 1647, não conseguiu resistir mais e morreu na prisão. O desfecho teria sido outro se os juízes franceses tivessem visto o que aconteceu no Convento das Beneditinas de São Plácido, em Madrid, em 1628. Entre os seus muros, o diabo ter-se-ia apoderado de 25 freiras. Todavia, o inquisidor Diego Serrano comprovou que não estavam possessas, mas eram doentes mentais: não necessitavam de exorcismos, mas de cuidados médicos. Francisco Garcia Calderón, confessor do mosteiro, foi preso por manter relações sexuais com as religiosas. “Não devemos, senhor, estar com rodeios neste assunto: não houve, nem há, outros demónios que não sejam os frades”, escreveu Serrano, com lucidez, ao inquisidor-geral. A bruxomania instalou-se durante dois séculos na mente de clérigos, juízes, governantes e filósofos, os quais sufocaram na forca e na fogueira o espírito crítico de que costumavam fazer gala. A ciência incipiente que chegava pela mão de Galileu e Newton foi substituída por uma assombrosa credulidade. Como podiam pessoas instruídas acreditar em semelhantes disparates? O magistrado papal Paulo Grillandi chegou a explicar por que motivo uma bruxa, alegadamente capaz de mudar de forma e de passar pelo buraco de uma fechadura, não podia escapar da prisão: “Já que o demónio se apoderou dela, Satanás deseja que seja executada, pois assim não poderá arrepender-se e livrar-se do demónio.”

Um recurso financeiro Joseph Pérez aponta o dedo ao velho fascínio humano pelo demoníaco, mas também não nos devemos esquecer de que a bruxaria era um óptimo negócio. Como os tribunais do início do século XVII tinham de ser auto-suficientes, os condenados por feitiçaria (ou os seus familiares) pagavam do seu bolso cada acto de punição e cada banquete dos juízes, mesmo aqueles que eram declarados inocentes, como aconteceu, em 1676, com a alemã Chatrina Blanckenstein, a qual foi brutalmente torturada com empolgadeiras (que esmagavam os dedos das mãos e dos pés), no potro, com cunhas e com cordas de esfolar. Apesar disso, a mulher não confessou e o processo foi suspenso, mas não sem antes ter de pagar as custas do seu calvário. Não é de estranhar que, na Alemanha, onde os bens eram confiscados de forma sistemática, se tenham instaurado processos contra mulheres abastadas. Quando Fernando II (1578–1637) proibiu as confiscações por considerá-las um negócio sujo, o número de execuções diminuiu. Mesmo assim, houve casos notórios, como o do burgomestre de Bamberg, Johannes Junius, vítima da caça às bruxas promovida pelo eleitor da Saxónia, João Jorge II, o qual ordenou que se queimassem vivas cerca de 600 pessoas. Em 1628, antes de morrer na fogueira, Junius escreveu à filha para lhe contar como sofrera o suplício da polé, e como o carrasco lhe rogava para confessar algo, mesmo que fosse inventado, pois não parariam até admitir que era bruxo. É verdade que algumas mentes lúcidas ficaram horrorizadas com estas perversões. “Escutai-me, juízes famintos de dinheiro e fiscais sedentos de sangue: as aparições do diabo são mentira”, escreveu, no século XVII, o teólogo luterano Johann Meyfarth. Tinha presenciado centenas de processos por bruxaria e vira o modo como os verdugos se deleitavam com o suplício das vítimas. Meyfarth foi buscar as suas ideias a um compatriota, o jesuíta alemão Friedrich Spee von Langenfeld, que publicara, em 1631, de forma anónima, Cautio criminalis, onde confessava o seguinte: “Se não somos todos bruxos, é porque ainda não fomos sujeitos aos tormentos; o próprio Papa, submetido à tortura, confessaria que também ele era bruxo.”

Procura-se hereges frescos Durante a Idade Média, a feitiçaria era considerada a arte dos malefícios e encantamentos, sendo apenas punida com a morte se produzia efeitos nefastos, mas, depois, começou a ser entendida como uma traição a Deus. “Quem inventou e propagou a bruxaria foi a Inquisição”, afirma o historiador Rossell Hope Robbins; o Santo Ofício, na sua opinião, necessitava de uma nova heresia, depois de eliminados os albigenses e outros dissidentes do Sul de França. “A bruxaria foi criada para preencher esse vazio”, acrescenta. Serviu também para aumentar o número de hereges e as receitas. Todavia, a Inquisição em breve perdeu o controlo processual sobre a bruxaria herética, excepto em Espanha e em Itália, onde constituía uma poderosa organização centralizada que, surpreendentemente, agiu mais em defesa das bruxas do que como parte da acusação. O instrumento que legitimou o início da caça às bruxas foi a bula Summis desiderantes affectibus (1484), de Inocêncio VIII. Esse papa, que passou os últimos meses da sua vida a ser amamentado com o leite de uma mulher e que os médicos tentavam rejuvenescer com transfusões de sangue que levaram três jovens para o túmulo, foi responsável por abolir o Canon episcopi, de 906. O documento exprimia a posição oficial da Igreja, segundo a qual a bruxaria era uma superstição; era heresia acreditar nela. Graças a Inocêncio VIII, passou a ser herege quem não acreditasse nessas coisas. A bula reforçou os poderes de dois inquisidores alemães, os dominicanos Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, que estavam dispostos a acabar com a seita dos valdenses no vale do Reno. Tinham finalmente ensejo de punir severamente esse movimento herético, que acusaram de feitiçaria; em 1486, publicaram a obra que seria uma referência obrigatória durante 200 anos: o Malleus Maleficarum (“martelo das bruxas”, no feminino, pois era considerada um assunto de mulheres). “O antifeminismo medieval tem as raízes assentes numa antiga tradição cristã”, afirma Joseph Pérez. Na obra Formicarius (1475), o teólogo alemão Johan­nes Nider insistia no papel preponderante da mulher na bruxaria. A ideia de que as mulheres eram seres expostos às tentações e, por conseguinte, perigosas já tinha sido manifestada por Santo Agostinho e subsistia no século XVIII, como demonstra, por exemplo, o Diccionario de Autoridades (o primeiro publicado pela Real Academia de Espanha), que descreve deste modo os praticantes de bruxaria: “São mais vulgares as mulheres, pela sua superficialidade e fragilidade, pela luxúria e pelo espírito vingativo que nelas costuma reinar.” A morte da razão provocada pelos julgamentos sumários por bruxaria encontra a sua vertente mais dolorosa nesta confissão de um torturado à mulher que denunciou: “Nunca te vi num conciliábulo de bruxos, mas tinha de acusar alguém para acabar com os tormentos. Lembrei-me do teu nome porque, quando me levavam para a prisão, encontrámo-nos e disseste que nunca terias acreditado numa coisa assim contra mim. Peço-te perdão, mas, se voltassem a torturar-me, voltaria a acusar-te.” Talvez se pudesse pensar que a barbárie foi apenas produto da ignorância que reinava naqueles tempos obscuros, mas não é assim. Efectivamente, a caça às bruxas permaneceu activa, sob outras formas, até tempos recentes. O ser humano nunca esteve a salvo, em nenhum momento da história, de voltar as costas à razão. Se não permanecermos alerta, qualquer um de nós poderá, em qualquer altura, acabar por acreditar na maior loucura. Nunca é demais recordar as sábias palavras de um arcebispo do século IX: “Este miserável mundo jaz, hoje, sob a tirania da estupidez. Os cristãos acreditam em coisas tão absurdas que seria impossível fazê-las crer aos infiéis.” Caça fina Apesar da fama da Inquisição espanhola, a verdade é que a caça às bruxas foi relativamente benigna. Segundo Joseph Pérez, o país teve menos processos por bruxaria do que na Europa, e a maioria das sentenças foram leves: desterro, açoites, prisão, quase nunca execuções. O auto de fé mais famoso foi o de Logroño, em 1610, contra as bruxas de Zugarramurdi, no qual foram processadas 40 habitantes daquela aldeia navarra; 12 foram condenadas à morte na fogueira. Os testemunhos basearam-se em superstições e invejas e os inquisidores deixaram-se levar pela histeria social e pelo caso da vizinha comarca francesa de Labourd, onde o jurista Pierre de Lancre tinha condenado 80 pessoas. Em geral, segundo Pérez, “a Inquisição espanhola tentou encontrar explicações racionais para o comportamento das bruxas, enquanto no resto da Europa a credulidade dos juízes enviou milhares de mulheres para a morte”. Para aquele hispanista, esse comportamento diferente deveu-se ao facto de Espanha ter escapado às guerras religiosas que assolaram o continente. Por outro lado, a Inquisição estava demasiado ocupada a perseguir os mouriscos, os marranos e os luteranos, pelo que foi mais branda com a bruxaria, que não era considerada uma heresia em sentido estrito. Os processos de Salem Em 1692, o diabo fez escala numa povoa­ção do Massachusetts chamada Salem. Tratava-se de uma comunidade puritana que se regia por uma rígida e fanática religiosidade, com cada habitante a vigiar o comportamento alheio. Era nesse contexto que um grupo de raparigas se reunia para escutar as histórias fantásticas narradas por Tituba, uma escrava do reverendo Samuel Parris. As mais novas do grupo, Elizabeth, de nove anos e filha do clérigo, e Abigail Williams, de onze, começaram a sofrer convulsões e a desafiar e desobedecer a pais e familiares. Os seus ataques histéricos inspiraram as outras jovens. Estavam a ser, supostamente, perseguidas por espectros, e transformaram em bodes expiatórios as pessoas que mais antipatia despertavam na comunidade. Depois, estenderam as acusações aos restantes cidadãos: ninguém estava a salvo. Os juízes do processo acreditavam que tudo se devia à acção do demónio e usaram as jovens como autênticos “detectores de bruxaria”: qualquer pessoa que indicassem era acusada, mesmo na ausência de quaisquer provas. Foram detidos 31 indivíduos (dos quais 25 eram mulheres), condenados à morte para evitar “a ira de Deus”. A escrava Tituba foi encarcerada por tempo indeterminado, sem julgamento. Catorze anos depois, uma das jovens, Ann Putnam, confessou que tudo não passara de uma farsa, orquestrada, como não podia deixar de ser, pelo demónio. SUPER 154 - Fevereiro 2011