domingo, 17 de abril de 2011

Os Cruzeiros do concelho de Valpaços – Freguesia de Santa Valha

Padre João Parente (trancrição)
I
A
Cruzeiro do Senhor da Boa Morte, Santa Valha em 2004
 | Foto base: Padre João Parente, 2004 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Número: 12.16. 231

Local: Santa Valha num outeiro, à saída da aldeia em direcção ao sul
Título: Senhor da Boa Morte
Material: Granito, ferro e telhado de madeira
Altura: 3,50 m, base e cruz
Descrição: Dentro de alpendre de três paredes, uma fundeira e duas laterais, resguardado por grades de ferro, aconchega-se o simples cruzeiro constituído por base cubóide e cruz simples, com o crucifixo policromado e a legenda, no fuste: “S. B / MORTE”.
Data: Século XIX [plataforma e escadaria de construção recente]

Fonte: Padre João Parente, Os cruzeiros da Diocese de Vila Real, Produção Media Line, Impresse 4, sd, p. 287.

B
 Cruzeiro do Senhor da Boa Morte na actualidade, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha | http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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II
A
Cruzeiro da capela do Senhor da Boa Morte, Corgoço, Santa Valha
 | Foto base: Padre João Parente, 2004 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Número: 12.18.232

Local: Corgoço, Freguesia de Santa Valha
Título: Cruzeiro
Material: Granito e ferro
Altura: 3,50 m, base e cruz
Descrição: Dentro de pequena capela de granito, com portas de ferro, sobre uma base de cimento, resguarda-se a cruz de granito pintado de azul que sustenta o crucifixo de madeira policromada.
Data: Século XIX – XX

Fonte: Id. p.288.
 B
A capela do Senhor da Boa Morte, Corgoço, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Outros Cruzeiros da Freguesia de Santa Valha

Cruzeiro ao caminho de Vale Bem Feito
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Cruzeiro chamado de Cruz de Santa Olaia, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Cruzeiro conhecido por Cruz de PardelinhaPardelinha, Santa Valha
 | Foto base: Junta de Freguesia de Santa Valha http://www.santavalha.com
 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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sábado, 16 de abril de 2011

Cavalos europeus tiveram origem na Ásia e Península Ibérica

por Elsa Cláudia Alves, da agência Lusa 03 Abril 2011

 Cavalos europeus | http://www.dn.pt

Os cavalos hoje existentes na Europa tiveram origem na Ásia, mas também na Península Ibérica, que deu um contributo para a sua domesticação, processo que acompanhou o desenvolvimento dos homens, disse hoje uma investigadora.

A Península Ibérica serviu de refúgio a cavalos selvagens há cerca de seis mil anos e as populações foram "preponderantes" para a domesticação destes animais na região e no resto da Europa, concluiu um estudo de uma equipa internacional que inclui Cristina Luís (dos Museus da Politécnica da Universidade de Lisboa) e Maria do Mar Oom (do Centro de Biologia Ambiental da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa). O trabalho, publicado esta semana na revista PloS One, indica que as raças de cavalos existentes na Europa "não só tiveram grande influência dos cavalos asiáticos, como também tiveram influência dos cavalos selvagens existentes na Península Ibérica, um dado novo e bastante interessante", avançou hoje à agência Lusa a investigadora Cristina Luís. "O cavalo sempre esteve associado ao homem e a sua domesticação também. Ao estudar a domesticação do cavalo podemos obter pistas de como se processaram as movimentações dos humanos ao longo dos tempos, numa análise antropológica e das civilizações", explicou.

A domesticação dos cavalos constituiu um passo importante na história da humanidade, tendo proporcionado vantagens na possibilidade de viagens de longa distância, na agricultura, no comércio e na guerra. A equipa de investigadores analisou as relações genéticas de 24 raças de cavalos europeus e asiáticos para tentar esclarecer os fenómenos de domesticação na Europa. As informações obtidas sobre a influência que determinadas raças, de determinadas regiões, tiveram umas nas outras podem dar um contributo para trabalhos de conservação e melhoramento de raças actuais. Cristina Luís apontou que a investigação desenvolvida "tem uma vertente de conservação, mas também de estudo da evolução do cavalo e da história das civilizações humanas, muito interligadas com os cavalos".

Há seis mil anos, quando eram selvagens, "os cavalos não gostavam muito de regiões de floresta densa e terão tido um refúgio na Península Ibérica e, eventualmente, terão então sido utilizados para a formação de outras raças" e seleccionados de formas diferentes, resumiu a investigadora. Actualmente, já não existem cavalos selvagens na Europa, há alguns casos de cavalos que andam ao ar livre, como os garranos, no norte de Portugal, mas "têm donos". Cristina Luís referiu um projecto em que se pretende estudar a relação entre cavalos da Península Ibérica e do Norte de África. Desconhece-se "qual a direcção das migrações de cavalos", já que os mouros estiveram em Portugal e "não se sabe se terão sido os cavalos dos mouros que foram trazidos para a Península Ibérica ou ao contrário", explicou. Os investigadores vão "tentar provar se realmente houve uma domesticação independente na Península Ibérica", salientou a especialista.

In DN | http://www.dn.pt/inicio/ciencia/interior.aspx?content_id=1821950

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Placa de argila muda tudo aquilo que se sabia sobre as origens da alfabetização

CiênciaHoje, 2011-04-06

Michael Cosmopoulos (à esquerda) no local das escavações

Uma tábua de cerâmica com mais de três mil anos, com o texto legível mais antigo da Europa, foi encontrada numa antiga lixeira, em Peloponeso, na Grécia, segundo anunciou Michael Cosmopoulos, arqueólogo da Universidade do Estado do Missouri-St. Louis (EUA). Trata-se de uma placa de argila, que se julga corresponder a um registo financeiro. Será publicado um artigo sobre a pedra na edição deste mês da«Proceedings of the Athens Archaeological Society».

O artefacto foi encontrado durante escavações – sob a supervisão da Escola de Arqueologia de Atenas, começaram em 2006 e já revelaram ruínas de uma enorme estrutura com grandes muralhas de entre 1550-1440 a.C. –, numa colina de Iklaina, uma pequena aldeia do departamento de Messene, 300 quilómetros a sudoeste de Atenas.

“Isto é um caso raro onde arqueologia vai ao encontro de textos antigos e mitos gregos”,segundo referiu ao «Past Horizons Archaeology News». Esta tabela de argila muda tudo aquilo que se sabia sobre as origens da alfabetização e a burocracia, durante a Idade do Bronze, na Europa do sul. O fragmento mede cinco centímetros por oito.

A inscrição corresponde a uma forma de escrita – Linear B – usada antes da existência da Grécia Antiga pelos Micénicos, um povo da Idade do Bronze que dominou grande parte do território grego 1.600 anos antes e Cristo, na época da Guerra de Tróia descrita na Ilíada de Homero.

Placa tem inscrição em Linear B

A placa tem, de um lado, uma lista de nomes e números; no outro, uma verba relativa à confecção, segundo revelou o Cosmopoulos, que também é director doIklaina Archaeological Project, acrescentando que esta descoberta sugere que "a burocracia e a literacia foram desenvolvidas mais cedo do que se pensava".

Segundo o especialista, o sítio em que a placa de argila foi encontrada terá sido uma antiga lixeira do Peloponeso que foi atingida pelo fogo. Felizmente, a inscrição não se perdeu, uma vez que a argila terá cozido com as altas temperaturas do incêndio. O local foi destruído provavelmente no ano 1400 a.C., antes de ser invadido pelo reino de Pilos, cujo rei, Nestor, é mencionado na Ilíada.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=48345&op=all

Descoberto primeiro esqueleto de homossexual pré-histórico

CiênciaHoje, 2011-04-07
 Corpo estava disposto como sepultura feminina

Descobriram o corpo de um homem – que remonta a 2900 ou 2500 anos a.C. –, na República Checa, cuja posição estava normalmente reservada às mulheres na cultura da cerâmica e, por isso, os investigadores acreditam tratar-se do primeiro homossexual ou transexual conhecido e que viveu durante a Idade do Cobre.

O esqueleto, encontrado num subúrbio de Praga, tinha a cabeça apontada para Este e estava rodeado de utensílios domésticos, um ritual que até aqui apenas era descoberta em sepulturas femininas.

Segundo a história da antropologia, "as pessoas deste período levavam este género de ritual funerário muito a sério e isso leva a crer que a posição em que foi encontrado seja dificilmente um erro”, referiu Kamila Remisova Venisova, coordenadora da equipa de arqueólogos que fez a descoberta, ao diário britânico «The Telegraph».

Neste tipo de cultura, os homens eram normalmente enterrados sobre o seu lado direito, com a cabeça virada para o Oeste, com ferramentas, armas, comida e bebidas e as mulheres, normalmente sobre o lado esquerdo, viradas para o Este e rodeada de jóias e objectos de uso doméstico.

Outra das hipóteses é a de que o indivíduo poderia ter sido um xamã ou alguém do ‘terceiro sexo’ (homo ou transexual). "Como o conjunto de objectos encontrados em redor do esqueleto não corroboravam a hipótese de que fosse um xamã, é mais provável que a segunda explicação seja a correcta”, sustentou ainda.

As escavações foram hoje abertas ao público e as visitas têm sido intensas. Os restos são de um membro da cultura da cerâmica cordada, que viveu no norte da Europa na Idade da Pedra, entre 2.500 AC e 2.900 AC.

http://www.cienciahoje.pt/index.php?oid=48388&op=all

Fogueira com elas

Bruxas, feiticeiras e outras endemoninhadas

Milhares de supostas bruxas (e bruxos) foram torturadas e condenadas a morrer na fogueira pela Igreja e por tribunais civis, apoiados no medo e na superstição. Aconteceu numa Europa Central assolada pelas guerras religiosas e fustigada pela fome e pela doença. De pé no pátio do castelo, um acusado de bruxaria aguarda o veredicto. O toque dos sinos é lúgubre. “São verdadeiras as acusações?”, pergunta o alcaide ao réu. Com um quase inaudível “sim”, o homem admite aquilo que o obrigaram a confessar. Sabe que, se desmentir, voltará ao cárcere e será submetido a novas torturas. O cura profere um sermão sobre a bondade divina e a férrea determinação que os fiéis devem manter contra as artes de­mo­nía­cas. Depois, o escrivão lê a sentença e o preso é entregue ao carrasco. Todo o povo está presente, incluindo crianças. Após a execução, as personalidades importantes dirigem-se ao salão do castelo para o banquete, pago com os bens da vítima. Era assim, na forca ou nas chamas purificadoras da fogueira, que a cidade helvética de Neuchâtel acabava com os seus bruxos e bruxas. A Suiça possui a duvidosa honra de ser o país com mais vítimas acusadas de bruxaria em relação à respectiva população: uma por cada 250 habitantes. Um total de 4000 pes­soas foram condenadas e assassinadas porque legisladores, juízes, políticos, curas e intelectuais consideravam que tinham estabelecido um pacto com o diabo. Comparativamente, Portugal, com uma demografia semelhante, apenas executou quatro cidadãos durante os três séculos que durou a caça às bruxas. Em termos absolutos, é a Alemanha que leva a palma, com 25 mil condenações à morte, seguida da comunidade da Polónia-Lituânia (dez mil). No período que vai de 1450 a 1750, “a degradação esmagou a honradez, as paixões mais baixas foram camufladas com a cobertura da religião e o intelecto do homem desculpou selvajarias; a bruxaria destruiu os princípios da honra e da justiça”, opina o historiador britânico Rossell Hope Robbins. Tem razão: em Inglaterra, um juiz do Supremo Tribunal fechou os olhos ao perjúrio evidente cometido por uma testemunha de acusação; na Alemanha, um magistrado, rejeitado por uma mulher a quem fizera propostas desonestas, acusou a irmã de ser bruxa, torturando-a e queimando-a na fogueira nesse mesmo dia; em Boston, uma pobre imigrante que só falava gaélico irlandês e rezava em latim morreu na forca por não saber dizer o Pai Nosso em inglês.

De curandeiros a demónios As supostas bruxas (80 por cento das vítimas eram do sexo feminino) não eram como aquelas velhas corcundas e desdentadas que preparam poções nos contos infantis. Aos olhos de leigos e clérigos, estas damas diabólicas pertenciam a uma poderosa organização que trabalhava sem descanso para subverter a religião e pôr fim ao reino de Deus. A brutal mudança de percepção surgiu no Renascimento. Anteriormente, os bruxos faziam parte da rede social e “a feitiçaria correspondia ao desejo de dominar a Natureza em quatro aspectos principais: a saúde, o sexo, o conhecimento do futuro e a ambição económica”, afirma Joseph Pérez, historiador da Universidade de Bordéus (França). Habituais no meio rural, os feiticeiros desempenhavam o papel de curandeiros, dada a escassez de médicos, e viviam da venda de poções naturais e amuletos da sorte. Sem preparação intelectual, os seus conhecimentos sobre as plantas decorriam da tradição e da experiência; eram autênticos depositários da cultura popular. Porém, tudo isso mudou no século XV. A Europa fora arrasada pela peste negra e, em 1494, surgiu uma nova epidemia que iria atingir um milhão de cidadãos: a sífilis. Entretanto, reis e governantes mergulhavam os seus países num ciclo constante de conflitos. À Guerra dos Cem Anos (1337–1453), entre a França e a Inglaterra, seguiram-se sangrentos confrontos entre católicos e protestantes e a Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Europa Central entre 1616 e 1648. A tudo isso é preciso somar períodos de seca e de fome, óbitos por falta de higiene, etc... Um cenário desolador para uma população dominada pelo receio de penúrias e desastres aparentemente sem explicação. Nesse contexto, a Reforma religiosa serviu de trampolim para eliminar os vestígios de paganismo que subsistiam no meio rural e serviam de alimento à feitiçaria. Em vez de reciclar as velhas crenças, como fez o cristianismo primitivo, tanto católicos como protestantes decidiram atacá-las e declará-las uma herança de Satanás. Lutero defendeu que se queimasse os seus praticantes, e os luteranos estenderam por toda a Alemanha a caça à bruxas, enquanto o calvinismo impôs na Escócia, em 1563, a primeira lei antibruxaria.

Sinistras criaturas Por se tratar de um conceito ideológico difícil de demonstrar, a bruxaria foi declarada crimen excepta, delito excepcional não abrangido pelas garantias processuais. Constituía uma traição a Deus e devia ser, como tal, severamente punida: “Nenhum castigo que impunhamos às bruxas, mesmo que seja assá-las e cozê-las em lume brando, será excessivo”, escrevia Jean Bodin, jurista francês do século XVI. Este indivíduo demonstrou o seu fanatismo no livro Demonomania dos Bruxos (1580), no qual deixou escritas pérolas como “há que obrigar as crianças a testemunhar contra os pais”, “a suspeita é suficiente fundamento para a tortura” ou “nunca se deve absolver uma pessoa depois de ter sido acusada”. No seu entender, a melhor maneira de infundir temor a Deus era com “ferros ao rubro para arrancar a carne putrefacta”. Como se tivessem lido Bodin, as filhas do latifundiário inglês Robert Throckmorton destruíram para sempre a vida da família constituí­da por John e Alice Samuel e pela sua filha Agnes, seus vizinhos na povoação de Warboys. Esses monstrinhos, liderados por Jane, de dez anos, fingiam ataques de epilepsia quando Alice surgia e conseguiram convencer os juízes, com o apoio de um médico de Cambridge, de que esta lhes lançara uma maldição. As meninas acusaram igualmente a família Samuel de ser responsável pela morte de Lady Cromwell, casada com o homem mais rico de Inglaterra e conhecida dos Throckmorton. John, Alice e Agnes foram declarados culpados de assassínio por feitiçaria. O chamado “caso das bruxas de Warboys” contribuiu para impulsionar a lei de 1604 que estabelecia a pena de morte para a bruxaria. Em França, o fenómeno esteve mais associado ao sexo. O episódio das freiras de Luoviers, na Alta Normandia, deveu-se aos excessos do capelão de um mosteiro de irmãs franciscanas da ordem terceira. Quando a jovem Madeleine Bavent ingressou, em 1623, descobriu que o pai espiritual do convento era adepto de uma heresia que defendia que se devia adorar Deus sem roupa, como Adão e Eva. “As monjas despiam-se e dançavam na sua frente. Ele obrigava-nos a dar abraços voluptuosos; testemunhei a circuncisão num falo enorme que algumas monjas agarraram em seguida para satisfazer os seus caprichos”, escreveu Madeleine. Ela negava-se a participar em tais práticas, mas o cura Mathurin Picard violou-a e deixou-a grávida. As orgias prosseguiram até 1642, quando a morte de Picard desencadeou a histeria. Receosas de que tudo fosse descoberto, 14 das 52 freiras do convento começaram a fingir possessão demoníaca e acusaram Madeleine de as ter enfeitiçado. Esta foi torturada e condenada à prisão perpétua numa masmorra insalubre, onde recebia apenas pão e água de três em três dias. Em 1647, não conseguiu resistir mais e morreu na prisão. O desfecho teria sido outro se os juízes franceses tivessem visto o que aconteceu no Convento das Beneditinas de São Plácido, em Madrid, em 1628. Entre os seus muros, o diabo ter-se-ia apoderado de 25 freiras. Todavia, o inquisidor Diego Serrano comprovou que não estavam possessas, mas eram doentes mentais: não necessitavam de exorcismos, mas de cuidados médicos. Francisco Garcia Calderón, confessor do mosteiro, foi preso por manter relações sexuais com as religiosas. “Não devemos, senhor, estar com rodeios neste assunto: não houve, nem há, outros demónios que não sejam os frades”, escreveu Serrano, com lucidez, ao inquisidor-geral. A bruxomania instalou-se durante dois séculos na mente de clérigos, juízes, governantes e filósofos, os quais sufocaram na forca e na fogueira o espírito crítico de que costumavam fazer gala. A ciência incipiente que chegava pela mão de Galileu e Newton foi substituída por uma assombrosa credulidade. Como podiam pessoas instruídas acreditar em semelhantes disparates? O magistrado papal Paulo Grillandi chegou a explicar por que motivo uma bruxa, alegadamente capaz de mudar de forma e de passar pelo buraco de uma fechadura, não podia escapar da prisão: “Já que o demónio se apoderou dela, Satanás deseja que seja executada, pois assim não poderá arrepender-se e livrar-se do demónio.”

Um recurso financeiro Joseph Pérez aponta o dedo ao velho fascínio humano pelo demoníaco, mas também não nos devemos esquecer de que a bruxaria era um óptimo negócio. Como os tribunais do início do século XVII tinham de ser auto-suficientes, os condenados por feitiçaria (ou os seus familiares) pagavam do seu bolso cada acto de punição e cada banquete dos juízes, mesmo aqueles que eram declarados inocentes, como aconteceu, em 1676, com a alemã Chatrina Blanckenstein, a qual foi brutalmente torturada com empolgadeiras (que esmagavam os dedos das mãos e dos pés), no potro, com cunhas e com cordas de esfolar. Apesar disso, a mulher não confessou e o processo foi suspenso, mas não sem antes ter de pagar as custas do seu calvário. Não é de estranhar que, na Alemanha, onde os bens eram confiscados de forma sistemática, se tenham instaurado processos contra mulheres abastadas. Quando Fernando II (1578–1637) proibiu as confiscações por considerá-las um negócio sujo, o número de execuções diminuiu. Mesmo assim, houve casos notórios, como o do burgomestre de Bamberg, Johannes Junius, vítima da caça às bruxas promovida pelo eleitor da Saxónia, João Jorge II, o qual ordenou que se queimassem vivas cerca de 600 pessoas. Em 1628, antes de morrer na fogueira, Junius escreveu à filha para lhe contar como sofrera o suplício da polé, e como o carrasco lhe rogava para confessar algo, mesmo que fosse inventado, pois não parariam até admitir que era bruxo. É verdade que algumas mentes lúcidas ficaram horrorizadas com estas perversões. “Escutai-me, juízes famintos de dinheiro e fiscais sedentos de sangue: as aparições do diabo são mentira”, escreveu, no século XVII, o teólogo luterano Johann Meyfarth. Tinha presenciado centenas de processos por bruxaria e vira o modo como os verdugos se deleitavam com o suplício das vítimas. Meyfarth foi buscar as suas ideias a um compatriota, o jesuíta alemão Friedrich Spee von Langenfeld, que publicara, em 1631, de forma anónima, Cautio criminalis, onde confessava o seguinte: “Se não somos todos bruxos, é porque ainda não fomos sujeitos aos tormentos; o próprio Papa, submetido à tortura, confessaria que também ele era bruxo.”

Procura-se hereges frescos Durante a Idade Média, a feitiçaria era considerada a arte dos malefícios e encantamentos, sendo apenas punida com a morte se produzia efeitos nefastos, mas, depois, começou a ser entendida como uma traição a Deus. “Quem inventou e propagou a bruxaria foi a Inquisição”, afirma o historiador Rossell Hope Robbins; o Santo Ofício, na sua opinião, necessitava de uma nova heresia, depois de eliminados os albigenses e outros dissidentes do Sul de França. “A bruxaria foi criada para preencher esse vazio”, acrescenta. Serviu também para aumentar o número de hereges e as receitas. Todavia, a Inquisição em breve perdeu o controlo processual sobre a bruxaria herética, excepto em Espanha e em Itália, onde constituía uma poderosa organização centralizada que, surpreendentemente, agiu mais em defesa das bruxas do que como parte da acusação. O instrumento que legitimou o início da caça às bruxas foi a bula Summis desiderantes affectibus (1484), de Inocêncio VIII. Esse papa, que passou os últimos meses da sua vida a ser amamentado com o leite de uma mulher e que os médicos tentavam rejuvenescer com transfusões de sangue que levaram três jovens para o túmulo, foi responsável por abolir o Canon episcopi, de 906. O documento exprimia a posição oficial da Igreja, segundo a qual a bruxaria era uma superstição; era heresia acreditar nela. Graças a Inocêncio VIII, passou a ser herege quem não acreditasse nessas coisas. A bula reforçou os poderes de dois inquisidores alemães, os dominicanos Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, que estavam dispostos a acabar com a seita dos valdenses no vale do Reno. Tinham finalmente ensejo de punir severamente esse movimento herético, que acusaram de feitiçaria; em 1486, publicaram a obra que seria uma referência obrigatória durante 200 anos: o Malleus Maleficarum (“martelo das bruxas”, no feminino, pois era considerada um assunto de mulheres). “O antifeminismo medieval tem as raízes assentes numa antiga tradição cristã”, afirma Joseph Pérez. Na obra Formicarius (1475), o teólogo alemão Johan­nes Nider insistia no papel preponderante da mulher na bruxaria. A ideia de que as mulheres eram seres expostos às tentações e, por conseguinte, perigosas já tinha sido manifestada por Santo Agostinho e subsistia no século XVIII, como demonstra, por exemplo, o Diccionario de Autoridades (o primeiro publicado pela Real Academia de Espanha), que descreve deste modo os praticantes de bruxaria: “São mais vulgares as mulheres, pela sua superficialidade e fragilidade, pela luxúria e pelo espírito vingativo que nelas costuma reinar.” A morte da razão provocada pelos julgamentos sumários por bruxaria encontra a sua vertente mais dolorosa nesta confissão de um torturado à mulher que denunciou: “Nunca te vi num conciliábulo de bruxos, mas tinha de acusar alguém para acabar com os tormentos. Lembrei-me do teu nome porque, quando me levavam para a prisão, encontrámo-nos e disseste que nunca terias acreditado numa coisa assim contra mim. Peço-te perdão, mas, se voltassem a torturar-me, voltaria a acusar-te.” Talvez se pudesse pensar que a barbárie foi apenas produto da ignorância que reinava naqueles tempos obscuros, mas não é assim. Efectivamente, a caça às bruxas permaneceu activa, sob outras formas, até tempos recentes. O ser humano nunca esteve a salvo, em nenhum momento da história, de voltar as costas à razão. Se não permanecermos alerta, qualquer um de nós poderá, em qualquer altura, acabar por acreditar na maior loucura. Nunca é demais recordar as sábias palavras de um arcebispo do século IX: “Este miserável mundo jaz, hoje, sob a tirania da estupidez. Os cristãos acreditam em coisas tão absurdas que seria impossível fazê-las crer aos infiéis.” Caça fina Apesar da fama da Inquisição espanhola, a verdade é que a caça às bruxas foi relativamente benigna. Segundo Joseph Pérez, o país teve menos processos por bruxaria do que na Europa, e a maioria das sentenças foram leves: desterro, açoites, prisão, quase nunca execuções. O auto de fé mais famoso foi o de Logroño, em 1610, contra as bruxas de Zugarramurdi, no qual foram processadas 40 habitantes daquela aldeia navarra; 12 foram condenadas à morte na fogueira. Os testemunhos basearam-se em superstições e invejas e os inquisidores deixaram-se levar pela histeria social e pelo caso da vizinha comarca francesa de Labourd, onde o jurista Pierre de Lancre tinha condenado 80 pessoas. Em geral, segundo Pérez, “a Inquisição espanhola tentou encontrar explicações racionais para o comportamento das bruxas, enquanto no resto da Europa a credulidade dos juízes enviou milhares de mulheres para a morte”. Para aquele hispanista, esse comportamento diferente deveu-se ao facto de Espanha ter escapado às guerras religiosas que assolaram o continente. Por outro lado, a Inquisição estava demasiado ocupada a perseguir os mouriscos, os marranos e os luteranos, pelo que foi mais branda com a bruxaria, que não era considerada uma heresia em sentido estrito. Os processos de Salem Em 1692, o diabo fez escala numa povoa­ção do Massachusetts chamada Salem. Tratava-se de uma comunidade puritana que se regia por uma rígida e fanática religiosidade, com cada habitante a vigiar o comportamento alheio. Era nesse contexto que um grupo de raparigas se reunia para escutar as histórias fantásticas narradas por Tituba, uma escrava do reverendo Samuel Parris. As mais novas do grupo, Elizabeth, de nove anos e filha do clérigo, e Abigail Williams, de onze, começaram a sofrer convulsões e a desafiar e desobedecer a pais e familiares. Os seus ataques histéricos inspiraram as outras jovens. Estavam a ser, supostamente, perseguidas por espectros, e transformaram em bodes expiatórios as pessoas que mais antipatia despertavam na comunidade. Depois, estenderam as acusações aos restantes cidadãos: ninguém estava a salvo. Os juízes do processo acreditavam que tudo se devia à acção do demónio e usaram as jovens como autênticos “detectores de bruxaria”: qualquer pessoa que indicassem era acusada, mesmo na ausência de quaisquer provas. Foram detidos 31 indivíduos (dos quais 25 eram mulheres), condenados à morte para evitar “a ira de Deus”. A escrava Tituba foi encarcerada por tempo indeterminado, sem julgamento. Catorze anos depois, uma das jovens, Ann Putnam, confessou que tudo não passara de uma farsa, orquestrada, como não podia deixar de ser, pelo demónio. SUPER 154 - Fevereiro 2011

Da Vinci

Da Vinci... Leonardo como primeiro nome! Nasceu há precisamente 559 anos e tornou-se no ex-libris em forma de Homem do Renascimento e "padroeiro" da mais ingénua curiosidade que se pode ambicionar. Ingénua curiosidade, o que faz mover os Tempos e a Humanidade. O mesmo Leonardo que uma vez disse: "Eu ofendi Deus e a Humanidade porque o meu trabalho não atingiu a qualidade que deveria atingir"! Exercícios de excesso de modéstia, digo eu! Celebremos, então!

quinta-feira, 14 de abril de 2011

A Páscoa e a tradição do folar


Estamos a menos de um dia do início da XIII Feira do Folar de Valpaços, mais uma realização deste evento festivo da época pascal e na expectativa de mais uma imensa e agradada afluência do público, como se tem verificado. Em homenagem à popularidade que estes três dias de festa têm merecido, o que é uma prova incontestável do respeito e do apreço pela tradição e pelo património popular da região valpacense, não nos pareceu despropositado deixar aqui algumas palavras ao significado tradicional do folar e da sua relação com a Páscoa. Afortunadamente achámos uma mensagem muito curiosa a esse respeito publicada a 20 de Abril de 2009 por um transmontano que viveu essa mesma tradição do folar e se exprime a respeito dela de uma forma clara e inteligível para todos os leitores. Trata-se de Virgílio Nogueiro Gomes, e essa mensagem foi publicada no seu blogue com o mesmo nome, um blogue dedicado, a propósito, à gastronomia.      

FOLARES e a Páscoa
20 Abril 2009

Os nossos apetites deveriam estar em sintonia com os períodos cíclicos da Natureza, que indubitavelmente marcaram outras tradições, ligados a festejos religiosos. Mesmo não aderentes a qualquer tipo de fé, ou doutrinas religiosas, vemo-nos entusiasmados com as festas. E que vivam as festas à mesa.

Quem não resiste a um folar?

Segundo os mais velhos, antigamente, apenas se comia folar na Páscoa. Na Páscoa também temos a presença dos ovos, as amêndoas e o cordeiro. Mais recentemente aparece a figura do coelho associada aos ovos de Páscoa. A Páscoa coincidia ou era próxima da chegada da Primavera pelo que foi fácil manter ou prolongar as festas que lhe estavam associadas. O ovo significa o início de vida, o renascer ou a ressurreição. Referido desde a antiguidade. Grandes referências ao ovo vamos encontrar já nos egípcios, gregos e romanos. O ovo, receptáculo de vida, significava também o início da refeição, e encontramos ilustrações nos túmulos dos etruscos figuras com um ovo na não significando o início da viagem para o outro mundo. A expressão “de ovo usque ad mala” (do ovo à maçã) quer dizer que se começa a refeição com ovo e se termina com fruta. Apesar de os ovos serem de origem animal, muitas religiões os aceitam como elemento válido durante os períodos de jejum. Assim os ovos nos aparecem hoje omnipresentes nas confecções culinárias pascais, ou como elemento figurativo sobre os folares e depois a versão mais recente de “Ovinhos de Páscoa” com diferentes recheios e produtos de confeitaria.

Antigamente já tínhamos as amêndoas nas diferentes variações regionais, e a expressão “amêndoas” significava também os presentes que se trocavam nessa época.

Durante os dias finais da Semana Santa a azáfama enchia todos os fornos padeiros para, à vez, cozer os folares de cada casa, ou da família. Hoje em dia tornou-se mais prático adquirir os folares na pastelaria mais próxima, ou na pastelaria que faz o folar mais ao nosso gosto.

Segundo Maria de Lourdes Modesto e Afonso Praça o “folar seria uma espécie de contraponto do pão ázimo que tem o peso teologal do sacrifício e da penitência”.

Em Lisboa temos a sorte de poder adquirir bom folar, durante todo o ano, em casas da especialidade, e algumas delas propriedades de ilustres transmontanos. Eu confirmo a qualidade sendo um consumidor discreto e fazendo sucesso presenteando outras casas, de outras tradições, mas onde folar sabe bem a todos, até pela surpresa.

Mas como nos chega esta tradição do folar?
Para muitos,  folar,  era o presente que os padrinhos e madrinhas davam aos seus afilhados na Páscoa. Para quebrar o período de grande jejum. Era também folar a recolha que os Párocos faziam nas casas dos seus paroquianos durante a visita pascal que acontecia Domingo de Páscoa e se prolongava por Segunda-feira.

Mas em termos culinários, nestas coisas de comer em Trás-os-Montes, o folar, é genericamente uma massa de trigo sempre levedada com fermento padeiro, com mais ou menos ovos e com recheio de carnes. Não confundir com bolas de carne que se fazem durante todo o ano, e sobre as quais escreverei mais adiante.

Noutras regiões do País encontramos ainda folares doces, em particular no Algarve e Alentejo, e muitas vezes com ovos inteiros, na cobertura, que cozem em simultâneo. Se registarmos as localidades onde se mantém a tradição do folar temos que assumir que a maioria associa o folar a um pão doce com ovos.
Mas voltemos aos nossos folares, quer dizer aos meus, pela tradição que vivi, por ser transmontano.
Muito embora reconheçamos que a sua tradição está ajustada à época pascal, temos antecedentes, dos folares, na tradição transmontana e beirã, de bolas recheadas quer com carnes, quer com sardinhas. Estas eram dos poucos peixes de mar que chegavam àquelas terras de Trás-os-Montes e Beiras Interiores. Ora, essas bolas eram confeccionadas por razões de conservação dos alimentos. Carne ou peixe confeccionado e embrulhado numa massa com gorduras, e cozida, conservavam-se por vários dias. Não esqueçamos que a conservação por frio, frigoríficos ou congeladores, é uma técnica recente. Na zona de Penafiel ainda hoje se fazem bolas, ou pães, recheadas de peixe ou carne. E estas bolas têm apenas massa de pão mas sem ovos. Destas tradições, a mais viva e permanente, ainda são os pãezinhos com chouriço.

Pelas terras nordestinas e beirãs, encontramos referência a bola de bacalhau e sardinhas. Temos ainda o pão de azeitonas e o pão de chicha gorda que ainda hoje me faz lamber os beiços.
Não podemos esquecer as bolas de azeite ou bolas sovadas.

Depois temos as bolas de carne (várias qualidades), bola de presunto gordo de Lamego, bola de frango, coelho e vitela de Favaios, bola de anho, linguiça, chouriço e presunto de Sabrosa, bola de vitela Barrosã, presunto, chouriço e salpicão do Barroso, … e tantas outras sendo que em cada terra terá a sua particularidade.

Nos folares se em Mirandela é recheado com frango, salpicão e presunto, em Valpaços ainda se acrescenta chouriço, … e mais ainda pois “cada terra com seu uso”.

Não podemos esquecer a dedicação das mulheres, Mães, Tias e Avós, que dedicavam uma atenção especial à criançada com a execução dos folaricos. Estes eram pequenos folares apenas recheados com chouriço ou presunto, que alegremente comíamos no fim da fornada. A confecção dos folares pascais era uma actividade essencialmente feminina. Como foram todos os doces até finais do século XIX.

Aceitemos então que o folar de carnes, refeição completa, está presente em toda a região de Trás-os-Montes e Beiras Interiores. São então os nossos folares, uns pães ricos recheados com carnes, que celebram um longo período de jejum. Eram então o elogio da fartura. Sem esquecer que são um pão, o elemento básico, e estruturante, da nossa alimentação. Talvez por isso, em nenhum forno era esquecida a bênção directa:

“S. Vicente te acrescente
S. Mamede te levede
S. João te faça Pão”

Ainda me lembro que dia de Páscoa o nosso almoço era Caldo Verde e depois um grande Folar recheado de todas as carnes. Adultos bebiam vinho, mulheres e criançada, chá ou sumos. Depois uma grande fartura de doces, sendo o Pão-de-ló obrigatório, ao lado de doces mais populares coma as Súplicas e Económicos.

Quanto ao resto do País temos uma grande variedade de folares doces, cuja massa tem sempre ovo mas cuja apresentação varia de região para região. Até pelas formas como são apresentados: animais como borregos, lagartos ou pombos em Elvas, duplo coração em Castelo de Vide, em forma de galinha em Oliveira de Azeméis, …
A tradição de doces nesta época não é exclusiva de Portugal. Um pouco por toda a Europa se celebra a Páscoa com festins alimentares. Por exemplo na Alemanha fazem um bolo em forma de cordeiro, e uma “coroa” de Páscoa feita de uma massa de bolo com amêndoas e chocolate e depois enfeitada com ovos coloridos. Na Espanha as famosas Tortas de Páscoa e na Itália os Aros de Páscoa.

Enfim para cada paladar sua sugestão. Mas aprendamos a manter as nossas tradições e fazer delas uma das nossas preocupações. Não temos ainda necessidade das soluções “interrogantes ou questionantes”. Comam os nossos folares doces ou salgados. Ou vão experimentando à mesa a rota dos nossos folares, fazendo “turismo cá dentro”.

BOM APETITE

© Virgílio Nogueiro Gomes
 In http://www.virgiliogomes.com/cronicas/157-folares-e-a-pascoa

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Cândido Sotto Mayor, um ilustre transmontano

Cândido Sotto Mayor | retrato-base: Ilustração Portuguesa, 1906
 | http://olhai-lisboa.blogspot.com/ | criação e adaptação digital: Leonel Salvado

As origens
Foi Cândido Narciso da Cunha Sotto Mayor um dos transmontanos muito bem sucedidos no mundo dos negócios dos finais do século XIX e inícios da centúria seguinte. Um homem cuja nobreza de sentimentos e apego moral às suas raízes, valeram-lhe ser hoje recordado na sua província, concelho e terra natais com grande e legítima deferência e admiração. Como se extrai de várias publicações dedicadas à sua biografia, designadamente do I volume do “Dicionário dos mais ilustres Transmontanos e Alto Durienses”, obra colectiva coordenada por Barroso da Fonte, Cândido de Sotto Maior nasceu em Lebução no dia 26 de Outubro de 1852. [1] Convém lembrar que, por esta altura, Lebução devia ser uma localidade de destacado dinamismo político-administrativo e sócio-económico, o que se pode depreender do facto de ter sido para aí transferida a sede do concelho de Monforte do Rio Livre, vila pobre e despovoada, logo após a reforma administrativa de Passos Manuel, em 1836, mantendo embora a designação original do concelho, até ser integrada no concelho de Valpaços pelo Decreto de 31 de Dezembro de 1853 que extinguia este concelho e comarca, bem como os de Carrazedo de Montenegro.

Casa onde nasceu Cândido Sotto Mayor, Lebução | Foto de Graça Gomes
 | lebucaodevalpacos.blogspot.com

Através de outras fontes, foi-nos possível apurar que Cândido Sotto Mayor era filho de Cândido Augusto Moranda e de sua esposa Cândida Sotto Mayor, nascida ao redor de 1820. [2] Alguns genealogistas dão-no com filho de pai incógnito. Em todo o caso era, seguramente, do lado materno, um elemento da família Sotto Mayor de que existem evidências de poder tratar-se de uma família dotada de grande espírito empreendedor nessa época de prosperidade de Lebução. Pode abonar em favor desta interpretação o facto de Cândido ter sido, como se sabe, sobrinho de Joaquim Felisberto da Cunha Sotto Mayor, filho de José Lino da Cunha Sotto Mayor, natural da vila de Chaves, e de Ana Lúcia Garcêz Palha, natural de Lisboa (portanto, avós maternos de Cândido) e nascido também na freguesia de S. Nicolau de Lebução, a 11 de Março de 1845, que fez fortuna no Brasil na actividade comercial e se radicou depois na Figueira da Foz, deixando aí fama de homem de grandes obras materiais e de elevadas virtudes morais e humanas dados aos vários actos de benemerência a que se dedicou na vila e arredores. Dele ficou o célebre Palácio Sotto Mayor naquela cidade. [3] Contudo, ao contrário do sobrinho, e apesar de se lhe reconhecerem virtudes morais e um percurso de vida muito semelhante ao deste, não encontrámos provas de que Joaquim Sotto Mayor tenha sentido o mesmo apego pessoal à sua terra natal até ao fim dos seus dias.

De Chaves ao Brasil
Cândido Sotto Mayor começou a trabalhar aos 13 anos como empregado de balcão em Chaves na Casa Comercial de Luís Paulino Teixeira. Aos dezoito anos partiu para o Brasil, ingressando, no Rio de Janeiro, como funcionário da Casa comercial Sotto Mayor & Companhia, cotada como uma das mais importantes do Rio De Janeiro no comércio por atacado e fundada pelos tios, um dos quais já atrás referimos, Lino e Joaquim Sotto Mayor. Mais tarde foi admitido sócio, acompanhando por certo a expansão da empresa, ainda no Brasil, e talvez, aí, tenha seguido o exemplo de seu tio Joaquim de quem se diz que manteve interesses noutras firmas do Rio de Janeiro e de S. Paulo, tais como a Costa, Pacheco & Companhia e  e a Araújo Costa &Companhia, e que foi accionista de algumas indústrias de Fiação e de várias casas bancárias. [4] Foi nesta área do comércio bancário que Cândido Sotto Mayor prosperou.

O Banco Pinto & Sotto Maior
Pelo que se pode ler nas várias biografias ele terá regressado a Portugal e em Lisboa fundado uma casa bancária com a designação de Casa Bancária Sotto Mayor cujo sucesso terá proporcionado a abertura de filiais em algumas cidades do país, nomeadamente em Chaves, uma das suas maiores construções no Largo do Arrabalde, tal como é referido por Barroso da Fonte, na obra já indicada (p. 587) e reafirmado, por Graça Gomes no seu blogue “Lebução de Valpaços” [5], casa comercial bancária essa que estaria na origem do futuro “Banco Pinto &Sotto Mayor. O facto parece corroborar-se pelo que é referido na História do Banco Pinto & Sotto Mayor nos seguintes termos:


Os primórdios do Banco Pinto & Sotto Mayor  (BPSM), que chegou a ser considerada uma das maiores instituições financeiras portuguesas, remontam à constituição prévia da Casa Bancária que dava pelo mesmo nome. Esta entidade, cujo funcionamento decorreu entre 1914 e 1926, assumiu-se na verdade como uma oportunidade de verificar as necessidades do mercado e a sua receptividade perante novas empresas do sector.
A estratégia supra-descrita, adoptada pelos fundadores da Casa Bancária Pinto &Sotto Mayor, António Vieira Pinto e Cândido Sotto Mayor, conduziu ao sucesso da empresa e ao reforço da sua posição no panorama nacional. [6]

A expansão desta empresa com a abertura de filiais nas principais cidades do país surge atestada no trabalho realizado por José Amado Mendes "A Empresa Bancária em Portugal no século XX: Evolução e Estratégias", onde o autor alude a uma filial do Banco Pinto & Sotto Mayor instalada em Coimbra em 1919, portanto ainda dentro do período da sua fase experimental, considerada na fonte anterior. [7]

Contudo, ainda a respeito da relação estabelecida pelo banqueiro de naturalidade lebuçanense com a primeira Casa comercial Bancária que ostentou o seu nome na capital portuguesa, será preciso ponderar da credibilidade de algumas declarações que encontrámos no Fórum do Geneall.Net, datadas de 7 de Julho de 2006 em que António Pedro de Sottomayor, em resposta a João de Morais Barreira, a respeito da “família Sotto Mayor de Chaves” e sem prejuízo de tudo o que dissemos e se diz sobre a origem de Cândido Sotto Maior e da sua vida no Brasil, refere que foi aqui que ele se tornou banqueiro e criou o primeiro Banco Sotto Mayor, acrescentando que quando regressara a Portugal no início do século XX o seu filho, Cândido Sotto Mayor Júnior já se havia associado, com o seu apoio, a António Vieira Pinto e fundado o Banco Pinto & Sotto Mayor. Estamos, afinal, perante dois homónimos, pai e filho, a um dos quais coube a responsabilidade material de criar a Casa bancária que mais tarde chegou a ser considerada uma das maiores instituições financeiras portuguesas.

O banqueiro edificador e benemérito
Regressando a Portugal, cremos que na primeira década do século XX, fixou-se em Lisboa para poder gerir melhor os seus interesses bancários e outros negócios, escolhendo para residir o lugar das Avenidas Novas, onde já existia um solar oitocentista da família Mayor. Assim, no ano de 1900, mandou que fosse demolido o solar para construir no seu lugar um imponente palácio ao estilo arquitectónico mais ambicioso da época. Durante os dois anos que se seguiram foi a demolição efectuada e iniciadas as obras de muralha de suporte sobre o Largo do Andaluz. Em 1902 iniciou-se a construção do palácio Sotto Mayor, uma obra grandiosa que foi realizada em quatro anos e que envolveu uma média de duzentos operários.

O Palácio Sotto Mayor em Lisboa | foto actual de Dias dos Reis e notícia da 
construção na Ilustração Portuguesa, 1906 | 
http://olhai-lisboa.blogspot.com/2010/08/o-palacio-sotto-maior.html

Construído a partir do esboço inicial do Arquitecto Ezequiel Bandeira com a colaboração do Arquitecto Carlos Alberto Correia Monção e do projecto assinado pelo Capitão de Engenharia do Exército, António Rodrigues Nogueira, o palácio Sotto Mayor de Lisboa é uma obra de “estilo compósito”, de inspiração francesa que compreende duas fachadas de entrada, com a janela composta de cariátides do escultor Jorge Neto, uma fachada de lazer com torre adossada e uma outra, posterior, de serviço. No remate do seu interior quadrangular organizado à volta de um hall central domina uma grandiosa clarabóia. O conjunto arquitectónico compreendia ainda uma série de anexos com cocheiras, casa de criados, lavadouro e um belo jardim “biscoito” constituído por um lago e uma estufa de vidro e gaiolas. Este impressionante monumento da arquitectura civil do início do século XX foi, em 1988, classificado pelo IPPAR como imóvel de interesse público e, apesar dos projectos propostos para a sua renovação desde esse data e aprovados pelo mesmo IPPAR e pela Autarquia em 1993, o Palácio Sotto Mayor pode hoje ser observado em toda a sua singularidade arquitectónica original, pois em consequência desses projectos, apenas sofreu um ligeiro restyling. [8]

Mas tanto a prosperidade pessoal como a sumptuosidade e o requintado conforto que esta bela residência decerto proporcionaria, não parece que tenham deslumbrado Cândido Sotto Mayor, cuja personalidade pública, sumariamente definida na obra já citada de Barroso da Fonte (p. 587) o aponta como um Homem que “sempre fugiu à publicidade e elogios”, ao ponto de se acomodar, na sua meia-idade, ao “status” adquirido após uma vida de indizíveis trabalhos e sacrifícios. À sua faceta de homem de elevadas qualidades morais e humanas e ao natural espírito de benemérito revelados na capital, juntou-se o apego e orgulho pelas suas origens. Coube-lhe a honra e a dignidade de ter ordenado a construção da "Vila Cândida", um bairro para operários pobres em Lisboa, atribuindo-lhe o nome de sua filha Cândida ou, segundo outros autores (que sustentam não ter havido dele filha alguma) do seu próprio nome e de seu filho Cândido, mas também se sabe que, sempre que podia, se deslocava a Chaves, cidade que tinha em grande estima e de cujas termas consta que chegou a ser proprietário. A esta cidade, além do imponente edifício por ele mandado erguer para funcionar como agência da instituição bancária com o seu nome, a que atrás nos aludimos, fez algumas doações com vista ao seu melhoramento urbanístico, tais como os coretos que nela mandou instalar e a doação de um amplo espaço junto à actual Avenida D. João I destinado à construção do Jardim Público, que em 1915 passou a chamar-se Jardim Cândido Sotto Mayor, onde hoje se contempla um busto que aí foi instalado em sua homenagem pela Autarquia.

Postal com trecho do Jardim Público de Chaves, c. 1901, e busto em homenagem a 
Cândido Sotto Mayor | http://flaviense.blogspot.com/ | http://frproart.blogs.sapo.pt/

Outras curiosas informações, estas relativas às provas de afecto que Cândido Sotto Mayor e sua família mostraram pela comunidade onde se encontram as suas raízes, são as que descobrimos no já referido blogue de Graça Gomes de que passamos a transcrever um pequeno excerto:

Consta-se que a escritura de doação do Jardim Público teria uma nota que isentava os naturais de Lebução de qualquer pagamento para entrar nesse espaço.
Em Lebução, a família Sotto Mayor, está ligada à construção da antiga escola primária, com a doação de uma renda perpétua para ajudar alunos pobres, e a um altar (erigido em honra de Nossa Senhora de Fátima) na Igreja Paroquial.

In http://lebucaodevalpacos.blogspot.com

A antiga Escola Primária de Lebução mandada edificar pela família Sotto Mayor, 
já demolida | Foto de Graça Gomes | http://lebucaodevalpacos.blogspot.com


Cândido Sotto Mayor faleceu em 28 de Outubro de 1935.

 Referências

[1] Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, coordenado por Barroso da Fonte, Cidade Berço, Apartado 108 4801-910 Guimarães.
[2] Geneall Net | http://www.geneall.net/P/per_page.php?id=2047659
[3] António Cruz, Palácio Sotto Mayor, Figueira da Foz | http://www.antoniocruz.net/
[4] Id. excerto (capítulo inicial) do livro "Palácio Sotto Maior" da autoria de José Pires Lopes de Azevedo editado em Setembro de 1999 e com distribuição gratuita pela Sociedade Figueira Praia, Sa.
[5] Graça Gomes | http://lebucaodevalpacos.blogspot.com
[6] História do Banco Pinto & Sotto Mayor | http://bancario.pt/
[7] José Amado Mendes, A EMPRESA BANCÁRIA EM PORTUGAL NO SÉC. XX: EVOLUÇÃO E ESTRATÉGIAS, revista Gestão e Desenvolvimento, 11 (2002), pp.39-56, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra |http://www4.crb.ucp.pt/
[8] Mayor Sotto [Lisboa] | http://www.geocaching.com/