segunda-feira, 2 de maio de 2011

As “Alminhas” do concelho de Valpaços: Freguesia de Serapicos

Por Leonel Salvado
Tema: Citações sobre Serapicos | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Recursos: http://retratoserecantos.pt1346 (fundo brasão)
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Desta antiga freguesia de Santa Ana de Serapicos que hoje integra as aldeias anexas de Friande, Aveleda, Corveira e S. Cipriano (S. Cibrão), guarda-se memória de remota tradição de espiritualidade popular, já destacada por A. Veloso Martins, na sua Monografia de Valpaços:

«Uma das curiosidades de Serapicos era a procissão “Ad Petendam pluviam”, que daqui se fazia para o encontro da Avó (Padroeira Santana) com o Neto (Santo Cristo), no adro da capela de Campo de Égua.»
Veloso Martins, Valpaços, monografia, Lello&Irmão, Porto, 1990, p. 16

Não admira, pois, que ali se encontre um dos mais belos exemplares desta arte popular que são as “Alminhas” do concelho de Valpaços.

Tema: Monumento das “Alminhas” de Serapicos | Foto base: Vítor Loureiro in http://valpassosdoje.blogspot.com/| Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior) http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior)
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139.º Aniversário do nascimento de Sidónio Pais

Por Leonel Salvado

Sidónio Pais | http://pt.wikipedia.org


BIOGRAFIA

Formação militar e académica
Nasceu em Caminha a 1 de Maio de 1872, filho de um notário e secretário judicial e de uma senhora da mesma terra, concluiu os estudos secundários no Liceu de Viana do Castelo e mudou-se para Coimbra onde fez os cursos preparatórios de Matemática e Filosofia. Renunciou entretanto aos estudos universitários e decidiu começar por seguir a carreira militar, entrando para a Escola do Exército em 1888 onde frequentou o Curso da Arma de Artilharia e revelou ser um aluno brilhante. Só depois de concluído o curso da Escola do Exército é que se matriculou na Universidade de Coimbra, licenciando-se em Matemática em 1898. Entretanto tinha vindo adquirir uma exemplar progressão na carreira militar, tendo sido promovido a alferes logo em 1892, a tenente, em 1895, a capitão em 1906 e a major em 1916. Antes da sua promoção a major já era considerado um distinto matemático, sendo imediatamente nomeado professor da cadeira de Cálculo Diferencial e Integral da Universidade de Coimbra, chegando a ser Professor Catedrático e nomeado Vice-Reitor dessa instituição a 23 de Outubro de 1910 (ocupava então a reitoria Manuel de Arriaga). Em 1911 também foi professor e Director da Escola Industrial Brotero.

Primeira experiência política e diplomática
Com a implantação da República em 1910, tinha passado a intervir directa e activamente na vida política de cuja intervenção resultou ter sido provido no cargo de membro dos corpos gerentes da Companhia de Caminhos de Ferro e eleito Deputado, em 1911, à Assembleia Nacional Constituinte participando, portanto, na elaboração da Constituição Portuguesa de 1911. Afirmando-se já então como um dos membros mais destacados dessa Assembleia, foi nomeado Ministro do Fomento durante o Governo de João Chagas, cargo que exerceu entre 24 de Agosto e 13 de Novembro desse mesmo ano (1911). Com a queda do Governo de João Chagas, transitou, em 7 de Novembro para a pasta de Ministro das Finanças no governo de concentração de Augusto de Vasconcelos Correia, exercendo o cargo até 16 de Junho de 1912.
Quando já se faziam sentir as tensões internacionais que deram origem à 1.ª Guerra Mundial, Sidónio Pais foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal (embaixador) em Berlim, tomando posse desse cargo em 17 de Agosto de 1912 e desempenhando-o até 9 de Março de 1916, quando surge a declaração oficial de Guerra a Portugal por parte da Alemanha. Foi durante o exercício dessas funções e as pesadas responsabilidades a que elas obrigavam que se começaram a definir melhor as suas convicções políticas e ideológicas. Essas responsabilidades foram-se tornando cada vez mais pesadas à medida que se ia cristalizando durante esse período o seu posicionamento germanófilo. Que responsabilidades?

- Por um lado manter o difícil equilíbrio entre as pressões pró-belicistas e anglófilas do Governo português com a política imperialista alemã;
- Por outro lado, dirimir pela via diplomática os conflitos que se vinham arrastando entre Portugal e a Alemanha pela posse dos territórios fronteiriços (de limites imprecisos) das respectivas colónias no Norte de Moçambique e no sul de Angola, conflitos esses que se agravaram em 1914, dando origens aos primeiros confrontos militares entre os dois países;

Isto significa que Sidónio Pais teve de renunciar às suas pessoais posições político-ideológicas no âmbito das relações diplomáticas do governo que representava.

O redentor da Pátria e o “Presidente-Rei”
Regressando então a Portugal, em 9 de Março 1916, veio encontrar o país em estado de grande agitação social. Passou a catalisar todo o movimento que em se vinha opondo à participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial e aos imediatos efeitos nefastos que o esforço de guerra produziu, movimento esse que se intensificou no ano seguinte em consequência dos desastrosos resultados do Corpo Expedicionário Português na frente europeia (a trágica batalha de La Lys - Abril de 1918 - estava longe de acontecer!).
Assumindo pública e frontalmente a liderança do movimento de contestação ao Governo do Partido Democrático Republicano, também designado por Governo da União Sagrada, liderado por Afonso Costa, passou a presidir a Junta Militar Revolucionária que no dia 5 de Dezembro de 1917 integrou um grande número de revoltosos civis armados e levou a cabo uma insurreição que terminou, após duros confrontos, na madrugada de 8 de Dezembro (1917) com a exoneração do governo de Afonso Costa e a transferência do poder para a Junta Revolucionária que como disse, era presidida pelo próprio Sidónio Pais.
Era o início do seu estado de graça e sua rápida ascensão ao poder. Bernardino Machado é destituído do cargo de Presidente da República e forçado ao exílio e, a 11 de Dezembro (1917) Sidónio Pais toma posse da Presidência do Ministério (acumulando as pastas da Guerra e dos Negócios Estrangeiros)
 A 27 de Dezembro (1917) assume as funções de Presidente da República até nova eleição. Em claro rompimento com a Constituição de 1911, que ajudara a redigir, seguiu-se a emissão de uma série de decretos que não tiveram que passar pela aprovação prévia do congresso e que suspendiam partes fundamentais da mesma Constituição de modo a conferir ao Presidente da República os poderes simultâneos de chefe de Estado e de líder do Governo, ficando este esvaziado de ministros e assegurado por secretários de Estado, uma posição de poder sem precedentes desde o início da monarquia constitucional.
A 23 de Fevereiro de 1918 é alterada a Lei da Separação entre as Igrejas e o Estado, numa clara tentativa de obter o restabelecimento de boas relações do Estado português com a Igreja Católica Romana e adquirir a conveniente popularidade junto dos católios.
A 11 de Março de 1918 é decretado o Sufrágio Directo e Universal para a eleição do presidente da República pela via plebiscitária (portanto mais uma vez sem a legitimação do Congresso). Foi por este sistema que a 28 de Abril de 1918, Sidónio Pais foi eleito Presidente da República, numa votação com resultados sem precedentes.
Esta nova arquitectura do poder designada então por REPÚBLICA NOVA, adquiriu o carácter incontestavelmente ditatorial e presidencialista com os referidos decretos de Fevereiro e Março que alteraram a Constituição de 1911 e dessas alterações resultou o documento que passou a ser designado de Constituição de 1918. Um prenúncio do Estado Novo.

O fim do estado de graça e o assassinato
Entre 9 e 29 de Abril (1918) o CEP é completamente chacinado em La Lys. Era o início do fim do seu estado de graça
Imediatamente após a Batalha de La Lys, o Governo sidonista não consegue os reforços nem o aprovisionamento das tropas que ainda restavam na Flandres.
Começa um novo movimento de contestação social, de greves e uma escalada de violência, a par de movimentos conspirativos, que obrigaram o Presidente a decretar o estado de sítio no dia 13 de Outubro de 1918. A situação só foi controlada através da dura repressão sobre os sublevados.
Após o Armistício, A 11 de Novembro de 1918, que representou formalmente o fim da I Grande Guerra, o Governo sidonista não foi capaz de trazer de volta as tropas que ainda restavam na Flandres.
A espiral de violência aumentou, cada vez mais apontada contra a própria pessoa do Presidente Sidónio Pais. A 5 de Dezembro de 1918 Sidónio foi alvo de uma primeira tentativa de assassinato (escapa ileso). A 14 de Dezembro de 1918 foi morto a tiro por José Júlio da Costa, um activista da Esquerda Republicana. 

domingo, 1 de maio de 2011

Dia da Mãe 2011

Imagem: Fundo (adaptado) http://missdevil.blogs.sapo.pt 
 texto: http://segredosdamimi.blogspot.com
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Neste ano de 2011 o Dia da Mãe em Portugal comemora-se hoje, dia 1 de Maio, contrariamente ao ano passado, coincidindo portanto com outra data comemorativa universal e nacional que é o Dia do Trabalhador. O «Dia das Mães» em Portugal era comemorado até há alguns anos, a 8 de Dezembro, mas passou a ser celebrado no 1.º Domingo de Maio em homenagem a Maria, mãe de Jesus. As mães recebem presentes, mensagens e flores, numa celebração que reúne toda a família.

Nesta data, que é também de homenagem religiosa à Virgem Mãe, o Clube de História deseja a todas as Mães e às suas famílias os melhores sentimentos de Amor, Carinho e Confiança no Futuro.

Algumas notas históricas sobre do Dia da Mãe
Existem indicações de que o Dia da Mãe já seria festejado na Antiguidade, na Grécia e em Roma. A celebração de Rhea, a “mãe dos deuses” e esposa de Cronos na Grécia Antiga é entendida como uma celebração à sagrada figura materna. Também os romanos tiveram a sua “mãe dos deuses”, Cybele, em honra da qual realizavam grandes festas com o mesmo significado que elas representavam para os gregos.
Só muito mais tarde, pelo início do século XVII é voltam a surgir referências associadas ao Dia da Mãe ou “Dia das Mães”. Tal sucedeu em Inglaterra onde o quarto Domingo da Quaresma passou a ser dedicado às mães das operárias inglesas que guardavam esse dia para ficar em casa com as mães, dia que passou a designar-se de Mothering Day. Dessa tradição nasceu o Mothering Cake, um bolo feito para oferecer às mães em ambiente festivo.
Em 1872 nos Estados Unidos da América, a escritora Júlia Wars Howe foi a primeira pessoa a sugerir a fixação de uma data dedicada às mães. Desde então esta tradição espalhou-se pelo mundo e actualmente o dia da mãe é celebrado em todos os continentes e em numerosos os países de culturas e religiões distintas, sendo as respectivas datas bastante variáveis, em alguns em dias fixos, noutros casos a um dos Domingo dos meses de Fevereiro, Maio, como acontece em Portugal, em Espanha, Lituânia e em alguns países de expressão oficial portuguesa como acontece em Angola, Moçambique e Cabo Verde no primeiro Domingo de Maio, e Outubro. No Brasil, por exemplo o Dia da Mãe é celebrado desde 1932 no segundo Domingo de Maio. Em Israel, facto curioso, a sua celebração foi substituída pela celebração do Dia da Família, em Fevereiro.

Algumas frases históricas sobre a Mãe

"Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”
Ditado judaico

"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."
Guy Maupassant

 

"O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão.”

Honoré de Balzac

 

"Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida."

Sófocles

 

"A mãe compreende até o que os filhos não dizem."

Textos judaicos


In http://www.aceav.pt

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Padre João Baptista Vaz de Amorim

Por Leonel Salvado

Padre João Baptista Vaz de Amorim | Recursos: Foto: Revista Aquae Flaviae (14) 1995; moldura; http://www.ruadireita.com

A referência moral e intelectual
Sacerdote de origem humilde, recordado por quem o conheceu melhor do que ninguém como «personalidade invulgar» caracterizada pela sua bondade, pela rara vocação cristã, pelo seu inabalável amor à República e pela sua erudição no campo das letras e da investigação histórica e arqueológica, João Baptista Vaz de Amorim, celebrizado na literatura com o pseudónimo de João da Ribeira, nasceu em Vilarinho das Paranheiras, aldeia do concelho de Chaves no dia 6 de Agosto de 1880 onde também veio a falecer, aos 81 anos, no dia 19 de Janeiro de 1962. Este Homem que julgamos ser uma das principais referências morais e intelectuais do seu tempo em Trás-os-Montes e no concelho de Valpaços é mais uma das figuras eleitas para a nossa Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços.

O estudante
Falecendo seu pai quando João Vaz de Amorim contava apenas dois anos de idade, passou, juntamente com a mãe e a irmã, a viver na residência de seu tio materno, Padre José Caetano de Amorim, em Friões, pároco desta aldeia do concelho de Valpaços, segundo alguns autores[1] ou em S. Julião de Montenegro, segundo outros que dão o mesmo seu tio como sendo pároco desta localidade do concelho de Chaves.[2] Há, contudo, consenso perante o facto de ter sido junto deste sacerdote que Vaz de Amorim fez a instrução elementar ou primária, após o que, segundo Alípio Martins, realizou com sucesso o exame de admissão no liceu em Bragança e fez os primeiros estudos secundários em Valpaços sob orientação de um professor particular. Ainda segundo o mesmo autor, foi encorajado por uma senhora de S. Julião de Montenegro a prosseguir os seus estudos secundários no Colégio de S. Joaquim, em Chaves, antes de se propor no liceu-seminário de Guimarães ao 4.º e o 5.º Anos de Humanidades, em que foi aprovado. Prosseguiu aí, nos dois anos subsequentes, os estudos no ramo das Ciências obtendo também foi aprovação.[3]
Refere Barroso da Fonte que, entretanto, João Vaz de Amorim teria sido convidado pelo Padre Joaquim Marcelino da Fontoura para leccionar no referido Colégio de S. Joaquim, informação que à primeira vista pode parecer pouco condizente com a de Alípio Martins Afonso, o qual faz uma referência à extinção do mesmo colégio que obrigou Vaz de Amorim a regressar à casa da sua patrona, em S. Julião, e continuar aí os seus estudos sob a orientação do respectivo pároco que já havia sido seu professor no extinto colégio. Parece-nos todavia possível que ambos os autores estejam certos pois, dando crédito a um breve mas substancial historial do Colégio flaviense de S. Joaquim publicado no dia 1 de Setembro de 2006 por Fernando Ribeiro no seu blogue “Chaves, Olhares sobre a cidade” e intitulado de “Chaves – o largo do Anjo e o Padre”, confirma-se que, tendo sido fundado pelo mencionado Padre Joaquim Marcelino da Fontoura em 1893/94, a instituição foi de facto extinta no ano de 1896 por decisão do seu próprio fundador em consequência de uma série intrigas que visavam colocar em causa a sua honestidade e o seu desinteresse na gestão da mesma. O Padre Fontoura regressou à sua aldeia natal, Anelhe, concelho de Chaves e aí permaneceu em estado de profunda indignação. Por esta altura Vaz de Amorim contaria 16 anos de Idade e estaria, como referimos, em S. Julião prosseguindo com os seus estudos particulares, antes de ingressar no liceu-seminário de Guimarães. Mas em 1898, ao fim de três anos de insistentes pedidos por parte do Presidente da Câmara de Chaves com a promessa de atribuição de um subsídio de duzentos mil reis, o orgulhoso Padre Joaquim da Fontoura aceitou os pedidos e reabriu o colégio de S. Joaquim «indo instalar-se no Largo do Anjo, na então casa da família Arrochela, actualmente os Serviços Municipais de Águas da Câmara Municipal.»[4] Nesta data, Vaz de Amorim teria concluído o 4.º e 5.º anos dos cursos de Humanidades e de Ciências, sendo razoavelmente credível, e supomos que documentalmente fundamentada, a informação de Barroso da Fonte, voluntaria ou involuntariamente omitida por Alípio Martins Afonso, acerca do convite entretanto dirigido a Amorim para leccionar no renovado colégio pelo respectivo director, colégio que afinal viria a ser definitivamente encerrado em 1907.

O sacerdote
Por ocasião do referido convite, recebido do Padre Joaquim Marcelino da Fontoura, João Vaz de Amorim havia já tomado a decisão de entrar para o Seminário de Braga onde, em 1901, se ordenou sacerdote com a idade de 21 anos. Coube-lhe então, no início do seu múnus paroquiar uma aldeia do concelho de Valpaços, a aldeia de Padrela, segundo Alípio Afonso, ou a de Paradela, também designada por Paradela de Monforte, segundo Barroso da Fonte. Foi no decurso destas funções que recebeu a boa nova da implantação da República em Portugal pela qual revelou desde a sua juventude, em Chaves, uma ardorosa e incessante paixão. Ironicamente, pouco tempo depois decide emigrar para o Brasil onde se diz, impropriamente, que exerceu funções junto do bispo de S. Paulo. Dizemos impropriamente porque, na verdade, este que fora de facto o décimo terceiro bispo da diocese criada naquela cidade, era já então arcebispo e dele sabemos que se chamava D. Duarte Leopoldo da Silva, filho de pai português, e que a ele precisamente se deveu a elevação de S. Paulo a arquidioceses, em 1908, passando a ser, por conseguinte, o seu primeiro arcebispo até à sua morte, em 1938.[5] A decisão tomada pelo Padre João de Amorim tem sido alvo de controvérsia, havendo quem, como Barroso da Fonte, a interprete como consequência do desencanto do pároco perante os excessos de anticlericalismo cometidos pelos republicanos da 1ª República e que resultaram na prisão dos seus colegas. Mas há também quem, como o autor das “Palavras Prévias” publicadas na Revista Aquae Flaviae em edição dedicada ao Padre Amorim, aliás “João da Ribeira”, autor que supomos ser Júlio Montalvão Machado, julgue que a sua precipitada partida para o Brasil fora motivada «por razões pessoais e nunca porque se desse mal com o regime implantado[6] Não tardou o Padre Vaz de Amorim a regressar a Portugal, correspondendo ao pedido de sua mãe nesse sentido, havendo-lhe sido confiada a paróquia de Loivos, no concelho de Chaves, que paroquiou durante 23 anos. Atendido o seu desejo em ser transferido para a paróquia de Bouçoais, aqui se manteve por mais um longo período que tem sido considerado como o mais próspero da sua vida nas áreas da investigação histórica e arqueológica e da produção literária. Mais tarde, segundo Alípio Afonso, regressou à sua terra natal, Vilarinho das Paranheiras, que paroquiou até ao fim da sua vida.

Parecem-nos justas as palavras de homenagem de Alípio Martins Afonso ao Padre João de Amorim «sob duas vertentes: a do literato e de paladino da democracia».


O literato
Dedicado, como por várias vezes referimos, à investigação e à publicação de importantes apontamentos históricos, arqueológicos e até políticos, o Padre Amorim a quem, em virtude da sua paixão pela Arqueologia, a História e Heráldica, nas palavras prévias que lhe são dedicadas no Aquae Flaviae, é considerado como «figura tão rara e sábia como seu Mestre, assim ele chamava o Abade de Baçal»[7], legou-nos uma série de trabalhos repartidos em diversas publicações, tanto durante a sua estada no Brasil como, posteriormente em Portugal:
Ali movido pelo seu amor à Pátria, mas leal como sempre ao ideário republicado democrático, publicou a “Voz de Portugal” e a “Pátria”; em Portugal, na imprensa regional transmontana, e com o pseudónimo de “João da Ribeira” divulgou interessantes apontamentos, como no “Comércio de Chaves” - no qual foram sendo publicados, entre 1939 e 1947 os vários artigos que compõem a sua obra “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Montenegro” - no “Almanaque de Lembranças de Chaves”, no “Mensageiro de Bragança” e no “Vilarrialense”.[8] Segundo Barroso da Fonte publicou também o livro “Pelos Montados da Serra”, não chegando a ser publicado um outro livro que entretanto deixou preparado, intitulado “Coisas da Minha Terra”. Aquele livro, que julgamos ser o mesmo que numa outra fonte surge referido como “pelos Povoados da Serra: aspectos portugueses”com a indicação de que foi publicado em Chaves em 1935, foi o único que o Padre Vaz de Amorim pessoalmente publicou e as razões pelas quais isso sucedeu são reveladas por Alípio Afonso com base na explicação apresentada pela sobrinha do respectivo autor, D. Maria Amorim, de que a modesta vida do tio não comportava os elevados custos de impressão. Também verificámos, através de uma outra fonte, que em 1952, publicou, em Guimarães, um trabalho sobre Arqueologia intitulado”Na Citânia de Briteiros: uma pedra enigmática?”[9]

O paladino da democracia
A convicção político-ideológica democrática republicana, publicamente assumida, pelo Padre João Baptista Vaz de Amorim e a coragem com que se bateu em sua defesa contra a ditadura do Estado Novo, frequentemente evocada pelos seus biógrafos surge claramente corroborada num estudo científico mais abrangente na área da história política em Portugal que tivemos a oportunidade de consultar e que nos serviu de valioso instrumento para o assunto que publicámos aqui no Clube de História, em 31 de Março de 1910 sob o título “Valpacenses na luta contra o Estado Novo”. Da relação que fizemos nesse estudo, intitulado “Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973)” dos candidatos valpacenses, por naturalidade ou afinidade, constatámos com surpresa que João Baptista Vaz de Amorim foi um dos pioneiros dessa mole de transmontanos valpacenses que, destemidamente, tomou a dianteira no alinhamento pela oposição ao regime  ditatorial instituído. Sobre o que dele se dis neste estudo entendemos citar o seguinte excerto:

«Em 1949, foi candidato pela lista organizada em Vila Real e que não foi aceite, sob o pretexto oficial de que não fora possível obter a sua certidão de eleitor, facto que ele mais tarde desmentiria.»[10]

A esta sua longa odisseia na luta contra o Estado Novo, e aos dissabores que dela advieram, também se faz alusão na introdução à edição da Revista Aquae Flaviae em sua memória nos seguintes termos:

«Já com 78 anos, solidário à sua ideia política de sempre, presidiu em Chaves ao jantar de homenagem ao General Humberto Delgado.
Quiseram então um grupo de amigos festejar os seus 80 anos, colocando junto à velha casa de Vilarinho das Paranheiras onde havia nascido, uma lápide de homenagem, penhor de amizade e adoração dos seus conterrâneos e que testemunhasse aos futuros o valor e dignidade daquele homem. Não o consentiu o Governador Civil da época e nada mais foi possível que uma modesta visita de poucos, dos muitos que gostariam de demonstrar-lhe quanto sentiam e admiravam a sua magnífica lição.
Dois anos depois, em 1962, falecia o Padre João Vaz de Amorim.
Só em 1974, livres de quaisquer peias, foi possível, finalmente, colocar essa lápide adiada a realçar publicamente a esplêndida lição desse homem, exemplo de uma vida nobilíssima como sacerdote e erudito, nunca esquecida dos ideais da República.»[11]


As tardias e parcas homenagens
Fica do excerto que acabamos de expor uma ideia das dificuldades com que se depararam um grupo de amigos desta singular personagem quando se propuseram homenageá-lo, ainda em vida, pelos serviços prestados na propagação dos valores cristãos, da cultura e da democracia na própria aldeia onde ele havia nascido. A assinalar a sua grandeza humana existe apenas a referida lápide e uma rua como seu nome na sua terra natal e uma outra em Chaves! Que dizer das aldeias que longamente paroquiou? Resta-nos concluir, com grande mágoa, observando que passados que foram trinta e sete anos de liberdade e de democracia, bem ou mal conduzidos pouco importa para este caso, nada mais foi feito, sobretudo no concelho de Valpaços, no sentido de legar às presentes e futuras gerações um testemunho evocativo da grandeza do Padre João Baptista Vaz de Amorim, como devia, e ainda deve, ser feito acima de tudo como prova de gratidão pela simpatia que ele manifestou e inspirou por estas terras enquanto sacerdote e erudito bem como pela árdua e exemplar luta que travou, enquanto aqui viveu, contra o temível regime ditatorial do Estado Novo.  


Referências
[1] Barroso da Fonte (coordenado por), Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Editora Cidade Berço, Guimarães, Vol I,  1998 | disponível resumo digital:
 http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=553&id=2074&action=noticia
[2] Alípio Martins Afonso, Revista Aquae Flaviae, In Memoriam Pe João Vaz de Amorim,n.º 14, 1995, p. 9.
[3] Ibid., Ibid.
[4] http://chaves.blogs.sapo.pt/33661.html
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_Leopoldo_e_Silva
[6] Revista Aquae Flaviae, Id., p. 5
[7] Ibid.
[8] Alípio Martins Afonso, ibid.
[9] Mário Matos e Lemos,  Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973), Divisão de Edições da Assembleia da República e Texto Editores, Lda, 2009, p. 102 | disponível em formato PDF:  http://www.parlamento.pt/ArquivoDocumentacao/Documents/Candidatos_Oposicao.pdf
[10] Ibid., Ibid.
[11] Revista Aquae Flaviae, id.

terça-feira, 26 de abril de 2011

363.º Aniversário do nascimento de D. Pedro II, rei de Portugal

Por Leonel Salvado

Retrato de D. Pedro II, rei de Portugalhttp://pt.wikipedia.org

D. Pedro, nascido a 26 de Abril de 1648, foi o terceiro varão dos sete filhos do rei D. João IV e da rainha Dona Luísa de Gusmão. Posto que o seu irmão primogénito, D. Teodósio, vocacionado para o exercício do poder faleceu aos 19 anos, vítima de uma tuberculose pulmonar, havia ascendido ao trono o segundo varão na ordem de filiação, D. Afonso – Afonso VI de Portugal. O reinado de D. Afonso VI decorreu formalmente entre 1656 e 1683. Efectivamente, só exerceu a prática governativa durante pouco mais de 5 anos por ter sido antecedida, devida à sua menoridade, pela regência de sua mãe até de 28 de Junho de 1662 e interrompida, por insanidade mental e inépcia para a governação e consumação do seu casamento, pela regência de D. Pedro, a 24 de Novembro de 1667.
Após a morte de D. Afonso VI, em 1683, D. Pedro II passou a ser o 24.º monarca de Portugal, o 3º da dinastia de Bragança, e o seu reinado perdurou cerca de 23 anos, até à data da sua morte, aos 58 anos de idade, ocorrida a 9 de Dezembro de 1706 na Quinta de Alcântara ou Palácio de Palhavã, devido a uma apoplexia.
É descrito em documentos coevos como um rei de elevadas qualidades físicas e mentais, exaltando-se-lhe ainda como uma das suas maiores qualidades, dita ironicamente como “um dos seus maiores defeitos”, a sua disposição para ouvir os outros e ver-se esclarecido junto dos seus conselheiros quanto aos mais ínfimos pormenores acerca dos assuntos em discussão.
Empenhado em reconstruir o País, abalado pelas guerras da Restauração, mostrou ser um rei à altura dessa responsabilidade, usando da maior prudência e sensatez que lhe era peculiar. Assim foi pela sua dedicação ao estabelecimento ou reatamento de relações diplomáticas com as cortes europeias que constituíam as principais peças do xadrez político e económico do seu tempo, sobretudo com a Inglaterra mas também com a Espanha que ele restabelecera ainda enquanto Regente em 1668 e em memória de cujo acto se lhe atribuiu o cognome de “O Pacífico”.
Nem por isso deixou de se preocupar com as defesas do Reino que procurou melhorar reforçando as guarnições nas fronteiras, determinando a realização das obras e provimentos que fossem necessários nos castelos das mesmas fronteiras e nos fortes marítimos, bem como no desenvolvimento de frotas para a protecção dos navios da carreira da Índia e do Brasil.
Não descurou também a economia do Reino e as medidas que deviam ser tomadas no sentido de assegurar o controlo do império colonial. Foi nesse sentido que em 1671, por exemplo, concedeu liberdade de comércio aos comerciantes ingleses estabelecidos em Portugal e introduziu no reino as primeiras manufacturas têxteis. Foi também nesse sentido que empreendeu no Brasil um conjunto de reformas na sua organização eclesiástica, bem como no seu ordenamento administrativo e procurou restringir os privilégios dos Jesuítas, cujo poder nos sertões do Norte vinha em crescendo sem que disso tirasse o reino os devidos benefícios. Com a descoberta de ouro no Brasil D. Pedro II intensificou o seu controlo sobre a colónia.
Do seu primeiro casamento com a cunhada, Maria Francisca Isabel de Sabóia, concretizado a 2 de Abril de 1668, confirmada por bula papal a 24 de Março desse ano a anulação do anterior casamento desta princesa de Nemours com D. Afonso VI, teve D. Pedro II uma única filha, a belíssima, Isabel Luísa Josefa de Bragança, “Princesa da Beira”, de saúde frágil e de triste fado, já que viria a falecer aos 21 anos com o epíteto de “a sempre noiva”.  A rainha faleceu a 27 de Dezembro de 1863, três meses depois do seu primeiro marido, vitimada por uma hidropisia. Do segundo casamento com Maria Sofia, condessa palatina de Neuburgo, falecida em Lisboa a 4 de Agosto de 1699, teve D. Pedro II mais seis filhos, o segundo dos quais D. João, futuro D. João V.
D. Pedro II jaz no Panteão dos Braganças, no Mosteiro de S. Vicente de Fora em Lisboa.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

37.º Aniversário da Revolução do 25 de Abril


Edição de 25 de Abril de 1974 em A República, in http://barbeariaideal.blogspot. com | cravos, in http://sindromedeestocolmo.com

Comemora-se hoje em Portugal o fim da ditadura do Estado Novo. É feriado nacional em memória ao movimento revolucionário que em 25 de Abril de 1974 concretizou esse golpe que, desde então e durante décadas, foi entendido como tendo aberto um novo e importante período da História de Portugal representado politica e socialmente o caminho para a instauração da democracia e a conquista da liberdade, razão por que a mesma data tem vindo a ser considerada por muitos portugueses como o “Dia da Liberdade” o qual, todavia não deve ser confundida com o “Dia Mundial da Liberdade” que se comemora a 23 de Janeiro. 
Hoje, face às dificuldades que o país atravessa, esta data parece servir mais como um motivo para reflectir da ingenuidade como foi encarado o futuro pós-revolucionário do que como uma data a comemorar, uma data que cada vez mais suscita a tomada de consciência do desencanto perante a esperança depositada pelos portugueses na "Revolução dos cravo"s, mesmo da parte de alguns portugueses que nela assumiram decisivo protagonismo. Enfim, uma data comemorativa de sabor agridoce mas, ainda assim, uma data de relevância histórica nacional que cumpre assinalar.   
Por ocasião do 37.º Aniversário deste evento histórico, transcrevemos, aqui no Clube de História de Valpaços, um breve resumo histórico deste mesmo evento que intitulámos de “25 de Abril há 36 anos”.
Para rever a publicação referida clique AQUI

sábado, 23 de abril de 2011

Hoje, Dia Mundial de São Jorge e do Escutismo


Neste mesmo dia 23 de Abril, em 2010, assinalámos aqui, no Clube de História de Valpaços, a tradição comemorativa universal deste santo, bem como a sua relação com a instituição do Escutismo, igualmente universal, comemorada na mesma data. Trata-se de um artigo, com o mesmo título em epígrafe, que resume o essencial sobre o significado desta data comemorativa.
Para rever o artigo a que nos referimos clique AQUI.
Para analisar alguns detalhes sobre a vida de S. Jorge e da lenda que lhe está associada clique AQUI.

130.º Aniversário do nascimento de Sacadura Cabral

Em 17 de Junho do ano de 2010 publicámos aqui, no Clube de História de Valpaços,  um texto em homenagem à “Primeira travessia aérea do Atlântico Sul”, que, como se sabe, foi uma das mais destacadas proezas deste grande pioneiro da aviação mundial, em parceria com Gago Coutinho. Nesta publicação tivemos a preocupação de divulgar também dois resumos biográficos relativos aos mesmos protagonistas pelo que remetemos os nossos leitores, nesta data comemorativa do nascimento de Sacadura Cabral, para essa nossa publicação.

Para consultar a referida publicação clique AQUI.
Para conhecer mais detalhes sobre a mesma figura comemorativa clique AQUI ou/e AQUI.

As “Alminhas” do concelho de Valpaços: freguesia de Santa Valha

Por Leonel Salvado
Tema: Citações de autores de blogues locais sobre “Alminhas” | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior);   http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
(clique sobre a imagem para aumentar)

É tempo de fazermos aqui, tal como temos vindo a fazer em relação aos Cruzeiros e às Fontes e Chafarizes, a divulgação desta outra área do nosso Património Arquitectónico Religioso do domínio da tradicional da espiritualidade popular (para que, embora já não seja o que era, nunca despareça!) que é o das “Alminhas” do concelho de Valpaços. Encontrámos a seguinte nota curiosa a respeito de tipo monumentos muito numerosos no distrito de Vila Real:



«"Alminhas" são painéis pintados pelo povo, com orações para a libertação das almas.   Existem dois grupos de "Alminhas": um é, em geral, para as almas do Purgatório, e a outra é principalmente para as vítimas de morte violenta ("Alminhas" que foram assassinados, etc). Encontramos pinturas de "Alminhas" [em] cruzes, nichos, oratórios, caixas de dinheiro da igreja, em bandeiras utilizadas em procissões, capelas, etc

In Alminhas de Vila Real, http://en.lifecooler.com/lifecooleren/alminhas-of-vila-real-handicraft-296743-1.html

Acrescenta A. Veloso Martins na sua muito credenciada Monografia de Valpaços a propósito das Alminhas:

« É o termo empregado pelo povo e divulgado já pelos eruditos. [...] 
A tradição das "alminhas" ou nichos vem do fundo dos séculos e deverá ser mantida como cousa fecunda e actuante em prol da espiritualidade pura do povo. [...] Em regra o painel das almas é pintado em tábuas de madeira, ou azulejos e representa pessoas - os pecadores - a debaterem-se entre labaredas.
Na composição da pintura como motivo central, aparece Cristo crucificado, a Santíssima Trindade, o Padre Eterno, a Virgem, esta nas invocações de Nossa Senhora do Carmo, do Rosário, do Alívio, das Dores, entrando ainda como figuras acessórias os Santos e os Anjos.
As almas são normalmente figuradas como bustos humanos de adultos - as inocentes crianças não vão para o purgatório - de ambos os sexos de todas as categorias e profissões, distinguindo-se pelo comprimento dos cabelos, as almas femininas, pelas barbas brancas, os anciãos, pelas coroas os reis, pelas mitras os bispos, e pelos próprios hábitos os padres, frades, e freiras, todos envolvidos por chamas alterosas, em atitudes de súplica, desespero, ou esperança, muitas vezes de mãos postas. É frequente também aparecer como figura central S. Miguel Arcanjo, estendendo a balança e segurando o gládio, símbolos de inexorável justiça. Quem passa, descobre-se, deixa a esmola e reza
A. Veloso Martins, Valpaços, monografia, 1990, p.365


É a divulgação desta admirável forma de arte popular que nos propomos levar a cabo através desta nova concepção visual que estreámos para as “fontes e chafarizes” e para a nossa “homenagem às Sete Maravilhas do Concelho de Valpaços” – o efeito visual dos objectos cerâmicos. Para as “Alminhas” criámos uma forma de covilhete de louça muito comum na faiança portuguesa para servir de suporte à iconografia – as fotos são, neste caso, as que foram publicadas pela Junta de Freguesia de Santa Valha.


I

Tema: Um dos monumentos de “Alminhas” de Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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II

Tema: “Alminhas” do Sr. Dos Aflitos, Pardelinha, Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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III

Tema: “Alminhas” de Corgoço, Santa Valha | Foto base: http://www.santavalha.com | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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quarta-feira, 20 de abril de 2011

Um ilustre valpacense a resgatar para a História

Actualizado por Leonel Salvado em 30.09.2012

Miguel Francisco Fernandes Machado | Foto de José António Soares da Silva,
 in Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços| Arranjo digital de Leonel Salvado

Miguel Francisco Fernandes Machado não consta, estranhamente, no “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto durienses”, uma obra composta por três volumes e coordenada por Barroso da Fonte que se apresenta como um importante repositório biográfico das figuras que atingiram pródiga celebridade no contexto regional a que se reporta e se propõe ser também uma obra evocativa dos singulares valores dessas figuras.
Estranhamente, dissemos, já que “Miguel de Fiães”, como ficou popularmente conhecido por ser natural desta freguesia do concelho Valpaços, surge retratado por vários autores, designadamente pelo Padre João Vaz de Amorim numa das suas publicações na “Revista Aquae Flaviae” e, mais recentemente reafirmado pelo Dr. José António Soares da Silva em “Traição de Valpaços ou Traição a Valpaços” como um Homem «dedicado a causas sociais, muito considerado pelos seus conterrâneos». Ninguém realçou mais, até hoje, as qualidades deste homem do que estes dois autores.


Nasceu em 5.11.1838 em Fiães, actual freguesia do concelho de Valpaços, no distrito de Vila Real. Foi filho de Luís António Fernandes e de Benedita de Almeida, ambos naturais da mesma freguesia de Fiães. Em 19.10.1859 casou na sua terra natal com Mariana da Conceição Videira, filha de Manuel José Videira, natural da vizinha freguesia de Lebução, e de Balbina Fernandes.
Foi popularmente conhecido como o “Miguel de Fiães” dentro e fora dos limites do concelho de Valpaços.
Criou-se, a dada altura, a seu respeito uma irónica frase epitética que, despida da evidente ironia que lhe está subjacente, pode servir para resumir, grosso modo, a vida de “Miguel de Fiães”: “era lavrador e não lavrava, contador e não contava, administrador e não administrava”. Na verdade, Miguel Francisco Fernandes Machado foi figura de grande prestígio no concelho de Valpaços devido à sua formação cultural, às suas aptidões para o exercício de importantes cargos públicos e administrativos, à excepcional argúcia que sempre revelou no ambiente político-partidário valpacense em que se impôs e ao sucesso que obteve nos seus empreendimentos agrícolas em Fiães.
Em 22.02.1883 foi nomeado, por Carta régia de D. Luís I, Contador e Distribuidor do Juízo de Direito da Comarca do Porto e, em 23.01.1885, por apostila do mesmo monarca àquela carta, obteve a transferência no exercício das mesmas funções para a Comarca de Valpaços. Mais tarde assumiu a liderança do Partido Regenerador de Valpaços que se encontrava vaga desde a morte de Filipe José Vieira. Usando da sua influência e simpatia, conseguiu obter uma larga base de apoio ao eleitorado do referido partido em todo o concelho, sobretudo entre o clero e as mais importantes famílias da aristocracia, dando-lhe renovado fôlego e fazendo renascer as esperanças das forças regeneradoras face à crise evidenciada nas suas fileiras durante cerca de uma década.
Em 1895, Miguel Machado exercia cumulativamente as funções de contador da comarca de Valpaços, administrador do concelho e chefe do Partido Regenerador quando uma inconcertada manobra eleitoralista cometida por uma das mais prestigiadas figuras do mesmo partido inflamou os ânimos dos seus correligionários valpacenses e deu origem à delicada questão conhecida por “Guet – Apens” de Valpaços. Este lamentável dissídio começou com o facto de António Teixeira de Sousa, então Governador Civil de Bragança, procurador à Junta Geral do distrito de Vila Real pelo concelho de Alijó, 1.º Secretário da Câmara dos Deputados e que naquele ano integrava a lista do mesmo Partido Regenerador do Distrito de Vila Real e vinha sendo eleito pelo círculo de Alijó, ter obtido do Governo de Hintze Ribeiro, em conformidade com a lei eleitoral aprovada no mesmo ano de 1895, o decreto que por determinação régia elevou Murça a comarca e integrou nela as freguesias de Curros, Jou e Vales, subtraindo-as do concelho e comarca de Valpaços. Gorados os instantes apelos dirigidos por Miguel Machado ao Ministro da Justiça no sentido de que não fosse dado provimento àquela decisão, chegando a deslocar-se debalde a Lisboa para renovar o pedido, e perante as vozes de indignação que se levantavam entre forças vivas de Valpaços das duas formações partidárias, o líder dos Regeneradores de Valpaços substitui o nome de Teixeira de Sousa pelo de António Lobato na lista distrital do seu Partido para as eleições. Este acto custou a Miguel Francisco Fernandes Machado a sua imediata demissão por determinação emanada do próprio gabinete do Ministro do Reino, João Franco. A questão gerada em torno do “Guet – Apens” de Valpaços alimentou longa polémica entre os dois protagonistas que a imprensa regional, e até nacional, deu cobertura. Miguel Machado é autor de um curioso opúsculo publicado em 1896, a expensas próprias, onde se propõe esclarecer o lamentável caso, opúsculo esse intitulado “O ataque do Sr. Teixeira de Sousa – A Minha Defesa” a que se dá especial relevo na já referida obra editada em 2010 pela Câmara Municipal de Valpaços da autoria do Dr. José António Soares da Silva.
Também se extrai desta mesma obra que em 12.10.1895 Miguel Machado contribuiu com 81 000 réis para a “Instituição de Socorro”, sociedade de beneficência laica criada e constituída por Joaquim de Castro Lopo e outras figuras gradas do Partido Progressista, o mais alto donativo então recebido pela mesma sociedade e, apesar das diferenças partidárias, em sessão especialmente realizada pela sociedade para tratar deste “donativo importante”, foi deliberado que se exarasse um voto de agradecimento a ele destinado e que o seu nome fosse inscrito no registo dos sócios da instituição.
Em 24.06.1897, ainda apesar das diferenças partidárias, na Assembleia Geral da Confraria de Nossa Senhora da Saúde, instituição entretanto criada pelo Partido Progressista, o nome de Miguel Francisco Fernandes Machado foi proposto para fazer parte da Comissão Promotora das obras da respectiva capela, o qual aceitou na sessão realizada no dia seguinte por esta mesma comissão e mais subscreveu o mesmo donativo de 60 000 réis declarados por outros membros inscritos no topo da mesma lista, depois de já ter contribuído antecipadamente para esta instituição com a quantia de 20 000 réis.
Na sessão realizada no dia 1 de Maio de 1898 pela assembleia Confraria de Nossa Senhora da Saúde foi deliberado atribuir-se-lhe o título de Irmão Benemérito.
Em 1909 foi mais uma vez administrador do concelho de Valpaços, no mesmo ano em que surgem referências documentais a seu respeito, destacando-o como exportador de batata e castanha em Fiães – afinal, o mesmo “lavrador que não lavrava”!
Em 1915, já em plena República, volta a ser administrador do concelho de Valpaços.
Existem ainda vagas referências de que, em qualquer momento da sua vida, Miguel Francisco Fernandes Machado terá sido “um dos directores da Companhia de Gás de Lisboa” ou “Administrador da Companhia Lisbonense de Iluminação a Gás”.
Faleceu em 30.06.1916.