domingo, 8 de maio de 2011

Fontes, chafarizes e marcos fontanários do concelho de Valpaços – Freguesia de Alvarelhos

Transcrição do texto e adaptação de fotos de Adérito Medeiros Freitas
Recriação gráfica pseudo-faiança de Leonel Salvado

Tema: Dados históricos sobre as fontes da freguesia de Alvarelhos | Objecto: prato
| Criação virtual e adaptação: Leonel Salvado
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A - Alvarelhos
I
Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Rio, Fonte de Mergulho ao Lugar do rio, Alvarelhos | Objecto: prato
Foto – base: Adérito M. Freitas | Criação virtual e adaptação: Leonel Salvado
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Localização: Alvarelhos
Lugar: Ao Rio
Altitude: 645 m   Longitude: 7º 20’ 17,5’’ W   Latitude: 41º 42’ 43,8’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio e duas micas, com intensa alteração química da biotite o que lhe confere uma cor amarelo-acastanhada

Características gerais: A planta interna, rectângula, mede 1,55 m de comprimento e 10,03 metros de largura. A sua profundidade é de, aproximadamente, 1,00 m. A nascente é local (água formigueira) e a água é límpida, abundante, fresca e considerada de boa qualidade. Devido ao levantamento do caminho que lhe passa em frente, foi instalado um tubo ligando a fonte ao Ribeiro que lhe passa próximo permitindo, assim, o escoamento da água e a sua contínua renovação. No Inverno, quando o nível do Ribeiro sobre, a água é impedida de sair e o seu nível no reservatório sobre também. A porta do reservatório mede 1,06 m de altura e 1,03 m de largura.
Devido, como referi, ao levantamento do pavimento da rua que lhe passa em frente, o acesso ao reservatório faz-se, actualmente, por meio de dois degraus, que fazem parte de uma área coberta e protegida por uma porta de grades de ferro que mede 1,65 metros de largura, 1,20 m de altura máxima (do lado esquerdo) e 90 cm de altura mínima (do lado direito). Esta área é coberta por duas lajes de granito. Destas, a laje frontal mede 2,50 m de comprimento, 62 cm de largura e 26 cm de espessura. O rebordo superior frontal desta laje de cobertura encontra-se elevado evitando, assim, que a água das chuvas escorra directamente para a fonte. Como referimos, esta cobertura descai da esquerda para a direita e esta disposição foi, sem sombra de dúvida, intencional. É que, por cima desta cobertura existe […] um espaço mais ou menos rectangular limitado por um muro posterior e dois muros laterais dos quais o da esquerda se dispõe a toda a largura e mede mais 62 cm de comprimento que o da direita. Estes três muros limitantes do referido espaço medem, respectivamente, 1,20 m de comprimento e 80 cm de altura (o posterior), 1,14 m de comprimento e 62 cm de altura (o do lado esquerdo) e 52 cm de comprimento e 1,00 m de altura (o do lado direito). […] Fica assim livre, do lado direito e em posição frontal, uma espécie de corredor em rampa com 62 cm de largura que, no parecer de algumas pessoas de Alvarelhos, teria como função permitir a entrada na propriedade situada a esse nível. Porque, a menos de 50 m da fonte, existe uma larga entrada directamente do caminho para a referida propriedade, não concordo com aquela explicação sobre a cobertura da Fonte do Rio. Na minha opinião, aquela estrutura realizou, no passado, uma função cultual, constituindo uma espécie de nicho de grandes dimensões relativas, destinado à divindade a que a fonte estava consagrada. Tal estrutura faria parte do projecto inicial da fonte e constituiria, de acordo com o pensamento da época, um elemento fundamental. Ainda na minha opinião o acesso a esta área de culto, para a celebração dos ritos usuais vigentes, far-se-ia do lado direito onde a altura ao solo é menor e admito mesmo a existência aí, outrora, de uma escada, móvel ou fixa!

Adérito M. Freitas, Concelho de Valpaços, FONTES DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA…, C.M.V., Vol. I, 2005, pp. 65-66.

II
Fonte de Mergulho

Tema: Fonte da Ribósia ao lugar da Ribósia. Alvarelhos | Objecto: prato | Criação digital e adaptação: Leonel Salvado
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Localização: Alvarelhos
Lugar: Ribósia
Altitude: 633 m   Longitude: 7º 20’ 10,2’’ W   Latitude: 41º 42’ 49,3’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio e duas micas, com intensa alteração química de biotite.

Características gerais: Fonte toda construída com lajes paralelepipédicas de granito das quais, as que formam as paredes laterais, medem 28 cm de espessura.
A planta interna, rectangular, mede 1,60 m de comprimento e 1,00 m de largura. A sua profundidade é de, aproximadamente, 1, 10 m. Digo aproximadamente pelo facto desta fonte se encontrar, actualmente, muito suja, com grande quantidade de terra e pedras no seu interior. A nascente é local (água formigueira) mas não é, presentemente, utilizada para consumo doméstico, mas apenas para outros fins e para rega.
Aporta, rectangular, mede 1,22 m de altura e 1, 00 de largura. A cobertura, plana e horizontal, é formada por duas lajes de granito com 20 cm de espessura, colocadas transversalmente. Sobre a laje de cobertura frontal encontram-se duas outras lajes de granito, lado a lado, colocadas de topo numa posição recuada mas paralela à padieira da porta e cuja função é, na minha opinião, a de evitar a entrada, para a fonte, da água das chuvas, uma vês que a cobertura se encontra, actualmente, ao nível da rua, inclinada, que lhe passa ao lado.
Frontalmente à porta e à distância de 1,12 m, encontra-se uma laje paralelepipédica constituindo uma espécie de degrau. Lateralmente, do lado direito da porta, encontra-se um bloco de granito com 1,32 m de comprimento, 30 cm de altura e 38 cm de largura cuja função seria a de servir de pouso para os cântaros e repouso para as pessoas.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 67-68.

B – Lama de Ouriço
I

Fonte de Mergulho

 Tema: Fonte Velha, à Rua Central, Lama de Ouriço, Alvarelhos | Objecto: prato | Criação digital e adaptação: Leonel Salvado
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Localização: Lama de Ouriço
Lugar: Rua Central
Altitude: 696 m   Longitude: 7º 20’ 20,3’’ W   Latitude: 41º 42’ 06,7’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio a grosseiro, com moscovite e biotite e cor amarelo-acastanhada devido a intensa alteração química deste último material.

Características gerais: A planta interna, rectangular, mede 1,75 m de comprimento e 80 cm de largura. A profundidade do reservatório é igual a 85 cm.
A porta, presentemente protegida por uma estrutura de ferro pintada, de duas folhas, mede 80 cm de altura e 1,01 m de largura.
A cobertura é formada por um conjunto de lajes de granito toscamente aparelhadas. A frontal mede 1,60 m de comprimento, 45 cm de largura e 14 cm de espessura. De um e outro lado e por cima da fonte, existe um muro de suporte de um terreno de cultura, formado por blocos de granito mais ou menos irregulares, sem qualquer tipo de aparelho e de reduzidas dimensões. As que se encontram imediatamente por cima da laje de cobertura frontal, dispõem-se em arco de grande raio de curvatura. Em 2002, estas pedras limitantes da fonte encontravam-se simplesmente justapostas, sem qualquer reboco. Em Setembro de 2003 e como a fotografia documenta, todos os espaços entre elas se encontravam, já, colmatadas com cimento.
Na rua que lhe passa em frente (Rua Central), do lado direito da porta e encostada ao muro de suporte de terras referido informaram-me ter existido, outrora, uma pia bebedouro de granito que mediria, aproximadamente, 1,50 m de comprimento e 60 cm de largura. Não consegui obter qualquer informação quanto ao seu paradeiro actual.

No centro da aldeia de Lama de Ouriço, no Largo da Fonte, existiu outrora outra Fonte de Mergulho, toda construída com lajes paralelepipédicas de granito, que formavam as suas paredes laterais e posterior, bem como a cobertura. Na opinião das pessoas com quem conversei, era a mais bonita das três fontes então existentes nesta localidade. A cobertura seria constituída por duas lajes colocadas transversalmente, originando um tecto plano e horizontal.
A nascente não era local, pois que a água, proveniente certamente de uma mina, atingia o reservatório da fonte através de uma caleira de granito. Em 1964 a fonte foi parcialmente destruída encontrando-se, a porção inferior da sua estrutura e a caleira referida, hoje soterradas.
De acordo com as informações recolhidas, esta fonte teria as seguintes coordenadas:
Altitude: 703 m   Longitude: 7º 20’ 22,6’’ W   Latitude: 41º 42’ 06,4’’ N

 Adérito M. Freitas, Id, pp. 69-70.

II
Fonte de Mergulho

 Tema: Fonte do Ribeiro, ao Ribeiro, Lama de Ouriço, Alvarelhos | Objecto: prato | Criação digital e adaptação: Leonel Salvado
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Localização: Lama de Ouriço
Lugar: Ao Ribeiro
Altitude: 693 m   Longitude: 7º 20’ 23,1’’ W   Latitude: 41º 42’ 10,2’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio e cor clara, com moscovite e biotite.

Características gerais: A planta interna, rectangular, mede 1,60 m de comprimento e 95 cm de largura. A profundidade do reservatório é igual a 1, 04 m.
A porta, rectangular, mede 1,02 m de altura e 95 cm de largura.
A cobertura, muito robusta, é formada por duas grandes lajes de granito, colocadas transversalmente. A laje anterior mede 1,40 m de comprimento, 80 cm de largura e 20 cm de espessura. A esta laje corresponde uma porção do tecto mais elevada, característica que favorece o acesso à fonte. A laje posterior mede, também, 1,40 m de comprimento e 65 cm de largura. Devido à sua maior espessura que a da laje anterior, a porção do tecto que lhe corresponde está rebaixada 20 cm.
Em frente da fonte existe um recinto rectangular, limitado por blocos paralelepipédicos de granito e blocos de cimento, que mede 1,20 m de comprimento e 95 cm de largura. À semelhança do que se passa com outras fontes, julgo que estes muros laterais se destinavam a pouso para cântaros e bancos para repouso das pessoas. Primitivamente nestes muros só existia granito. Os blocos de cimento constituem elementos de poluição estrutural deste património e, por isso, proponho que os mesmos sejam removidos!...

Adérito M. Freitas, Id, pp. 71-72.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

As “Alminhas” do concelho de Valpaços: freguesia de Alvarelhos

Por Leonel Salvado
Tema: Citações sobre Alvarelhos | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Recursos: http://retratoserecantos.pt/freguesia.php?id=1394 (fundo brasão) |  Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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«O topónimo de Alvarelhos deve, possivelmente derivar de “Alvar” ( espécie de carvalho alvarinho – Quercus pedunculata) a que foi aposto o sufixo elho (lat. iculueculu), bastante vulgar na Idade Média para designar conjunto, agrupamento. É certo que Cândido de Figueiredo, regista o termo de alvarelho, mas com o sinónimo de alavarelhão. Ora, alvarelhão é uma casta de uva tinta muito vulgar no Minho e espalhada no Douro e Beira, nanja na nossa província de Trás-os-Montes.
Parece-nos mais verosímil que Alvarelhos fosse buscar o seu nome à profusão e quantidade de carvalhos alvarinhos, que, ao tempo, existiam na região.»
A.    Veloso Martins, Valpaços, monografia, Porto, 1990, pp. 163-164

I

Tema: Monumento das “Alminhas” em Alvarelhos | Foto base: Leonel Salvado| Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); 
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II

Tema: Monumento das “Alminhas” em Lama de Ouriço, Alvarelhos | Foto base: Leonel Salvado| Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); 
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Os Cruzeiros do concelho de Valpaços – Freguesia de S. Pedro de Veiga de Lila

Padre João Parente (transcrição)
Cruz do Senhor dos Aflitos em Deimãos, S. Pedro de Veiga do Lila, em 2004 
| Foto base: Padre João Parente, 2004 | Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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Número: 12.18. 233
Local: Deimãos, freguesia de S. Pedro de Veiga de Lila, junto de um velho caminho
Título: Senhor dos Aflitos
Material: Cimento e madeira
Altura: 2,15 m, a cruz
Descrição: Dentro de capelinha branca e simples*, aconchega-se uma cruz de madeira pintada de azul com o crucifixo e uma rosa, em policromia, e a legenda: “N.S. /DOS /AFLITOS”. Ao lado, cada qual em sua peanha, S. Paio, à direita, e a Senhora da Assunção, à esquerda.
Data: “1941”, como se lê no fundo do fuste.

*Em 2004

Fonte: Padre João Parente, Os cruzeiros da Diocese de Vila Real, Produção Media Line, Impresse 4, sd., [2004] p. 289.


Capelinha – nicho que alberga a cruz do Senhor dos Aflitos, em 2011 | Foto base: http://retratoserecantos.pt| Pseudo-azulejos (adaptação Leonel Salvado)
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quinta-feira, 5 de maio de 2011

801.º Aniversário do nascimento de D. Afonso III, rei de Portugal

Retrato de D. Afonso III | imagem de domínio público | Wikimédia Commons

O segundo dos seis filhos de D. Afonso II e D. Urraca de Castela, D. Afonso III nasceu em Coimbra em 5 de Maio de 1210 e faleceu na mesma cidade em 16 de Fevereiro de 1279. Sucedendo a seu irmão Sancho II, falecido no exílio em Toledo, em 1248, veio a ser o quinto rei de Portugal, reinando entre aquele ano e a data da sua morte, após de ter vindo a exercer as funções de Regente desde 24 de Julho de 1245. Foi-lhe aposto o cognome de “O Bolonhês” devido ao seu primeiro casamento com D. Matilde II, condessa de Bolonha que foi rainha consorte de Portugal desde 1248 até ser repudiada pelo rei, seu marido, em 1253. Desse primeiro casamento houve dois filhos varões que não consta que tivessem qualquer relevo na história nacional. Casou depois com D. Beatriz, filha de Afonso X de Castela com quem teve oito filhos, o terceiro dos quais (segundo varão) a chegar à vida adulta foi Dinis (futuro rei D. Dinis), mas que teve posteriormente que ser legitimado em 1263, sob confirmação papal de Alexandre IV, em razão de ter nascido em situação irregular porque durante o processo que ainda corria em consequência da queixa movida contra o rei português pela repudiada D. Matilde.

As circunstâncias que ditaram o afastamento do seu irmão do governo do Reino remontam a 1245 -1246 e devem-se aos conflitos entre D. Sancho II e a Igreja em reacção aos quais o Papa Inocêncio IV, acusando-o de incapacidade governativa, entendeu ordenar a sua substituição por Afonso, o conde de Bolonha, após o que este logo entrou em Portugal em armas forçando o irmão a abdicar e a seguir para o exílio e passou a usar do título de Visitador, Curador e Defensor do Reino até que houvesse notícia confirmada da morte do rei exilado para se fazer coroar rei, o que sucedeu em 1248.

Foi durante o seu reinado que realizou a conquista definitiva do Algarve sobre cuja soberania portuguesa só foi contestada por Castela e só terminaria com o Tratado de Badajoz em 1267. 

De resto, a acção governativa de D. Afonso III tem merecido na História de Portugal os melhores elogios, sendo este rei considerado um notável administrador, fundador e restaurador de povoações, mesmo as que eram tidas como as mais arruinadas, e concessor de numerosos forais. Enquanto administrador atribui-se-lhe o mérito de ter, pela primeira vez na história da monarquia portuguesa, definido um novo rumo na administração do País, valorizando as classes médias aburguesadas – favorecendo certos “inconvenientes” judeus - , ouvindo as queixas dos pequenos proprietários contra os abusos das classes privilegiadas, controlando e reforçando em certas regiões o poder dos alcaides. Foi ele quem ordenou a reunião das Cortes de Leiria, em 1254, as primeiras em que participaram os representantes dos concelhos e, no ano seguinte, quem transferiu a capital do reino de Coimbra para Lisboa. Foi também ele quem ordenou as primeiras Inquirições Gerais do Reino, iniciadas em 1258, numa intenção clara de refrear os abusos praticados pela minoria privilegiada e nesse mesmo sentido promulgou leis repressivas para os que fossem considerados usurpadores. Mas em virtude desta precursora acção governativa que legitima o epíteto pouco conhecido que já lhe foi aposto de “o Pai do Estado Português” e que, em nossa opinião devia antes ser o de “o Pai do Estado Moderno Português”, sofreu D. Afonso III, em 1268, os maiores dissabores, à época assaz embaraçosos, em se ver excomungado pelo arcebispo de Braga, pelos bispos de Coimbra e do Porto e pelo próprio papa Clemente IV – tal a afronta com que teve que conviver movida pelo clero português que se sentia, face à legislação do rei, espoliada nos seus direitos e privilégios tradicionais. Apesar da intercedência em favor da absolvição do monarca face às alegações dos bispos apresentada pelos representantes das Cortes de Santarém de 1274, o novo papa, Gregório X manteve a excomunhão e em 1277 lançou o interdito sobre o reino. O conflito só terminou em 1279 quando o rei português, no leito da morte, renovou o seu juramento à Igreja e deixou a promessa que restituiria tudo o que lhe havia tirado, testemunhando tal decisão o abade de Alcobaça que foi quem lhe levantou a excomunhão e lhe deu sepultura no Mosteiro. Por isso, D. Afonso III Jaz no Mosteiro de Santa Maria em Alcobaça.

terça-feira, 3 de maio de 2011

542.º Aniversário do nascimento de Nicolau Maquiavel

Retrato póstumo de Nicolau Maquiavel, óleo sobre tela, 
Santi di Tito, séc. XVI, Pallazzo Vecchio

Nicolau Maquiavel, aliás Noccolò di Bernardo dei Machiavelli, nasceu em Florença no dia 3 de Maio de 1469 e faleceu na mesma cidade em 21 de Junho de 1527. Figura de elevada formação intelectual nos domínios da Literatura, Música, História e Política, foi sobretudo nesta área que se tornou numa das grandes referências do Renascimento. É considerado o fundador do pensamento e da ciência política actual e a má interpretação da sua obra e do seu pensamento político contribuiu durante séculos para o nascimento de um novo adjectivo em várias línguas ocidentais relacionado com o seu nome, na forma maquiavélico com o sentido de esperteza ou astúcia, mas também com uma conotação depreciativa, enunciando-se para este adjectivo sinónimos associados à crueldade ou à imoralidade. Viveu durante um largo período da sua vida na esplendorosa atmosfera política da República de Florença e durante o governo de Lourenço de Médici entrou para vida política, exercendo durante 14 anos o cargo de Secretário da Segunda Chancelaria e enriquecendo a seus conhecimentos sobre a prática política corrente. Quando foi afastado do cargo embrenhou-se no estudo das mais consagradas obras e conceitos políticos de autores da Antiguidade Clássica utilizando esses conceitos de uma maneira nova. Toda a sua experiência adquirida na chancelaria florentina e o seu pensamento político moldado a partir dos Antigos foram condições essenciais para a preparação daquela que é provavelmente a obra mais conhecida de Maquiavel, “O Príncipe”, escrita em 1513, e publicada postumamente, 19 anos depois.
Para analisar mais detalhadamente a vida e obra de Nicolau Maquiavel recomendamos a consulta do excelente artigo publicado na Wikipédia. Clique sobre a imagem que se segue.
  
Recomendamos ainda a consulta da investigação e observações críticas de Micael Sousa no post "Maquiavel - o irónico e sarcástico" publicado a 8 de Abril no blogue "A busca pela Sabedoria".

Uma raridade arquitectónica no contexto das “Alminhas” – “Peto” das Almas de Varges, S. João da Corveira

O “Pêto das Almas”, em Varges, S. João da Corveira | foto-base: A. Veloso Martins, Monografia Valpaços, 1990, p. 235 | Adaptação: Leonel Salvado

Em Varges, pequena povoação anexa à freguesia de S. João da Corveira, no concelho de Valpaços, existe um monumento de grande interesse, cuja monumentalidade e refinamento construtivo, face à função que lhe foi destinada, autoriza-nos a considerá-la como mais uma das raridades arquitectónicas do concelho de Valpaços.

É o monumento conhecido por “Pêto das Almas”. Pêto (Peto) é um regionalismo usado para designar os nichos destinados a abrigar as tábuas pintadas das “alminhas”em monumentos devocionais desta natureza.

Segundo os dados divulgados no “Inventário do Património Arquitectónico” de “Valpaços no Sapo” é um monumento de enquadramento rural, adossado ao muro de uma propriedade no interior da povoação ao qual se pode aceder pelo desvio para Varges na EN 206 entre os Kms 157 e 178, indo-se em direcção ao local adequadamente chamado de Largo das Alminhas. É tipologicamente uma obra de arquitectura religiosa constituída por “Alminhas” de nicho com painel de azulejos inserido numa estrutura delimitada por pilastras e entablamento superior encimado por cruz entre pirâmides de remate esférico.

É descrito, de acordo com a mesma fonte, como uma “estrutura de recorte rectangular definida por pilastras laterais e entablamento superior coroado ao centro por cruz latina de secção octogonal com hastes de remate em botão, assente sobre pedestal de dupla voluta. De ambos os lados, pináculos de corpo em tronco de pirâmide, com remate em forma de pinha lisa, prolongando a verticalidade das pilastras. Nicho definido por pilastras com capitel de volutas e arco de asa de cesto emoldurado. Sob a mesa emoldurada, painel com rosetão central. Nicho protegido por grade, tendo no interior caixa de esmolas com tampa de ferro. Abóbada preenchida por motivo em concha, painel de azulejo azul e branco, tendo ao centro Cristo na cruz sobre a representação antropomórfica das almas em penitência.”
Supõe-se que tenha sido construído no século XVIII.

Fonte: http://valpacos.no.sapo.pt/patrimonio/alminhasvarges.html

segunda-feira, 2 de maio de 2011

As “Alminhas” do concelho de Valpaços: Freguesia de Serapicos

Por Leonel Salvado
Tema: Citações sobre Serapicos | Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Recursos: http://retratoserecantos.pt1346 (fundo brasão)
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Desta antiga freguesia de Santa Ana de Serapicos que hoje integra as aldeias anexas de Friande, Aveleda, Corveira e S. Cipriano (S. Cibrão), guarda-se memória de remota tradição de espiritualidade popular, já destacada por A. Veloso Martins, na sua Monografia de Valpaços:

«Uma das curiosidades de Serapicos era a procissão “Ad Petendam pluviam”, que daqui se fazia para o encontro da Avó (Padroeira Santana) com o Neto (Santo Cristo), no adro da capela de Campo de Égua.»
Veloso Martins, Valpaços, monografia, Lello&Irmão, Porto, 1990, p. 16

Não admira, pois, que ali se encontre um dos mais belos exemplares desta arte popular que são as “Alminhas” do concelho de Valpaços.

Tema: Monumento das “Alminhas” de Serapicos | Foto base: Vítor Loureiro in http://valpassosdoje.blogspot.com/| Objecto: Covilhete | Criação digital: Leonel Salvado | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior) http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior)
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139.º Aniversário do nascimento de Sidónio Pais

Por Leonel Salvado

Sidónio Pais | http://pt.wikipedia.org


BIOGRAFIA

Formação militar e académica
Nasceu em Caminha a 1 de Maio de 1872, filho de um notário e secretário judicial e de uma senhora da mesma terra, concluiu os estudos secundários no Liceu de Viana do Castelo e mudou-se para Coimbra onde fez os cursos preparatórios de Matemática e Filosofia. Renunciou entretanto aos estudos universitários e decidiu começar por seguir a carreira militar, entrando para a Escola do Exército em 1888 onde frequentou o Curso da Arma de Artilharia e revelou ser um aluno brilhante. Só depois de concluído o curso da Escola do Exército é que se matriculou na Universidade de Coimbra, licenciando-se em Matemática em 1898. Entretanto tinha vindo adquirir uma exemplar progressão na carreira militar, tendo sido promovido a alferes logo em 1892, a tenente, em 1895, a capitão em 1906 e a major em 1916. Antes da sua promoção a major já era considerado um distinto matemático, sendo imediatamente nomeado professor da cadeira de Cálculo Diferencial e Integral da Universidade de Coimbra, chegando a ser Professor Catedrático e nomeado Vice-Reitor dessa instituição a 23 de Outubro de 1910 (ocupava então a reitoria Manuel de Arriaga). Em 1911 também foi professor e Director da Escola Industrial Brotero.

Primeira experiência política e diplomática
Com a implantação da República em 1910, tinha passado a intervir directa e activamente na vida política de cuja intervenção resultou ter sido provido no cargo de membro dos corpos gerentes da Companhia de Caminhos de Ferro e eleito Deputado, em 1911, à Assembleia Nacional Constituinte participando, portanto, na elaboração da Constituição Portuguesa de 1911. Afirmando-se já então como um dos membros mais destacados dessa Assembleia, foi nomeado Ministro do Fomento durante o Governo de João Chagas, cargo que exerceu entre 24 de Agosto e 13 de Novembro desse mesmo ano (1911). Com a queda do Governo de João Chagas, transitou, em 7 de Novembro para a pasta de Ministro das Finanças no governo de concentração de Augusto de Vasconcelos Correia, exercendo o cargo até 16 de Junho de 1912.
Quando já se faziam sentir as tensões internacionais que deram origem à 1.ª Guerra Mundial, Sidónio Pais foi nomeado ministro plenipotenciário de Portugal (embaixador) em Berlim, tomando posse desse cargo em 17 de Agosto de 1912 e desempenhando-o até 9 de Março de 1916, quando surge a declaração oficial de Guerra a Portugal por parte da Alemanha. Foi durante o exercício dessas funções e as pesadas responsabilidades a que elas obrigavam que se começaram a definir melhor as suas convicções políticas e ideológicas. Essas responsabilidades foram-se tornando cada vez mais pesadas à medida que se ia cristalizando durante esse período o seu posicionamento germanófilo. Que responsabilidades?

- Por um lado manter o difícil equilíbrio entre as pressões pró-belicistas e anglófilas do Governo português com a política imperialista alemã;
- Por outro lado, dirimir pela via diplomática os conflitos que se vinham arrastando entre Portugal e a Alemanha pela posse dos territórios fronteiriços (de limites imprecisos) das respectivas colónias no Norte de Moçambique e no sul de Angola, conflitos esses que se agravaram em 1914, dando origens aos primeiros confrontos militares entre os dois países;

Isto significa que Sidónio Pais teve de renunciar às suas pessoais posições político-ideológicas no âmbito das relações diplomáticas do governo que representava.

O redentor da Pátria e o “Presidente-Rei”
Regressando então a Portugal, em 9 de Março 1916, veio encontrar o país em estado de grande agitação social. Passou a catalisar todo o movimento que em se vinha opondo à participação de Portugal na 1ª Guerra Mundial e aos imediatos efeitos nefastos que o esforço de guerra produziu, movimento esse que se intensificou no ano seguinte em consequência dos desastrosos resultados do Corpo Expedicionário Português na frente europeia (a trágica batalha de La Lys - Abril de 1918 - estava longe de acontecer!).
Assumindo pública e frontalmente a liderança do movimento de contestação ao Governo do Partido Democrático Republicano, também designado por Governo da União Sagrada, liderado por Afonso Costa, passou a presidir a Junta Militar Revolucionária que no dia 5 de Dezembro de 1917 integrou um grande número de revoltosos civis armados e levou a cabo uma insurreição que terminou, após duros confrontos, na madrugada de 8 de Dezembro (1917) com a exoneração do governo de Afonso Costa e a transferência do poder para a Junta Revolucionária que como disse, era presidida pelo próprio Sidónio Pais.
Era o início do seu estado de graça e sua rápida ascensão ao poder. Bernardino Machado é destituído do cargo de Presidente da República e forçado ao exílio e, a 11 de Dezembro (1917) Sidónio Pais toma posse da Presidência do Ministério (acumulando as pastas da Guerra e dos Negócios Estrangeiros)
 A 27 de Dezembro (1917) assume as funções de Presidente da República até nova eleição. Em claro rompimento com a Constituição de 1911, que ajudara a redigir, seguiu-se a emissão de uma série de decretos que não tiveram que passar pela aprovação prévia do congresso e que suspendiam partes fundamentais da mesma Constituição de modo a conferir ao Presidente da República os poderes simultâneos de chefe de Estado e de líder do Governo, ficando este esvaziado de ministros e assegurado por secretários de Estado, uma posição de poder sem precedentes desde o início da monarquia constitucional.
A 23 de Fevereiro de 1918 é alterada a Lei da Separação entre as Igrejas e o Estado, numa clara tentativa de obter o restabelecimento de boas relações do Estado português com a Igreja Católica Romana e adquirir a conveniente popularidade junto dos católios.
A 11 de Março de 1918 é decretado o Sufrágio Directo e Universal para a eleição do presidente da República pela via plebiscitária (portanto mais uma vez sem a legitimação do Congresso). Foi por este sistema que a 28 de Abril de 1918, Sidónio Pais foi eleito Presidente da República, numa votação com resultados sem precedentes.
Esta nova arquitectura do poder designada então por REPÚBLICA NOVA, adquiriu o carácter incontestavelmente ditatorial e presidencialista com os referidos decretos de Fevereiro e Março que alteraram a Constituição de 1911 e dessas alterações resultou o documento que passou a ser designado de Constituição de 1918. Um prenúncio do Estado Novo.

O fim do estado de graça e o assassinato
Entre 9 e 29 de Abril (1918) o CEP é completamente chacinado em La Lys. Era o início do fim do seu estado de graça
Imediatamente após a Batalha de La Lys, o Governo sidonista não consegue os reforços nem o aprovisionamento das tropas que ainda restavam na Flandres.
Começa um novo movimento de contestação social, de greves e uma escalada de violência, a par de movimentos conspirativos, que obrigaram o Presidente a decretar o estado de sítio no dia 13 de Outubro de 1918. A situação só foi controlada através da dura repressão sobre os sublevados.
Após o Armistício, A 11 de Novembro de 1918, que representou formalmente o fim da I Grande Guerra, o Governo sidonista não foi capaz de trazer de volta as tropas que ainda restavam na Flandres.
A espiral de violência aumentou, cada vez mais apontada contra a própria pessoa do Presidente Sidónio Pais. A 5 de Dezembro de 1918 Sidónio foi alvo de uma primeira tentativa de assassinato (escapa ileso). A 14 de Dezembro de 1918 foi morto a tiro por José Júlio da Costa, um activista da Esquerda Republicana. 

domingo, 1 de maio de 2011

Dia da Mãe 2011

Imagem: Fundo (adaptado) http://missdevil.blogs.sapo.pt 
 texto: http://segredosdamimi.blogspot.com
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Neste ano de 2011 o Dia da Mãe em Portugal comemora-se hoje, dia 1 de Maio, contrariamente ao ano passado, coincidindo portanto com outra data comemorativa universal e nacional que é o Dia do Trabalhador. O «Dia das Mães» em Portugal era comemorado até há alguns anos, a 8 de Dezembro, mas passou a ser celebrado no 1.º Domingo de Maio em homenagem a Maria, mãe de Jesus. As mães recebem presentes, mensagens e flores, numa celebração que reúne toda a família.

Nesta data, que é também de homenagem religiosa à Virgem Mãe, o Clube de História deseja a todas as Mães e às suas famílias os melhores sentimentos de Amor, Carinho e Confiança no Futuro.

Algumas notas históricas sobre do Dia da Mãe
Existem indicações de que o Dia da Mãe já seria festejado na Antiguidade, na Grécia e em Roma. A celebração de Rhea, a “mãe dos deuses” e esposa de Cronos na Grécia Antiga é entendida como uma celebração à sagrada figura materna. Também os romanos tiveram a sua “mãe dos deuses”, Cybele, em honra da qual realizavam grandes festas com o mesmo significado que elas representavam para os gregos.
Só muito mais tarde, pelo início do século XVII é voltam a surgir referências associadas ao Dia da Mãe ou “Dia das Mães”. Tal sucedeu em Inglaterra onde o quarto Domingo da Quaresma passou a ser dedicado às mães das operárias inglesas que guardavam esse dia para ficar em casa com as mães, dia que passou a designar-se de Mothering Day. Dessa tradição nasceu o Mothering Cake, um bolo feito para oferecer às mães em ambiente festivo.
Em 1872 nos Estados Unidos da América, a escritora Júlia Wars Howe foi a primeira pessoa a sugerir a fixação de uma data dedicada às mães. Desde então esta tradição espalhou-se pelo mundo e actualmente o dia da mãe é celebrado em todos os continentes e em numerosos os países de culturas e religiões distintas, sendo as respectivas datas bastante variáveis, em alguns em dias fixos, noutros casos a um dos Domingo dos meses de Fevereiro, Maio, como acontece em Portugal, em Espanha, Lituânia e em alguns países de expressão oficial portuguesa como acontece em Angola, Moçambique e Cabo Verde no primeiro Domingo de Maio, e Outubro. No Brasil, por exemplo o Dia da Mãe é celebrado desde 1932 no segundo Domingo de Maio. Em Israel, facto curioso, a sua celebração foi substituída pela celebração do Dia da Família, em Fevereiro.

Algumas frases históricas sobre a Mãe

"Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”
Ditado judaico

"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."
Guy Maupassant

 

"O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão.”

Honoré de Balzac

 

"Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida."

Sófocles

 

"A mãe compreende até o que os filhos não dizem."

Textos judaicos


In http://www.aceav.pt

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Padre João Baptista Vaz de Amorim

Por Leonel Salvado

Padre João Baptista Vaz de Amorim | Recursos: Foto: Revista Aquae Flaviae (14) 1995; moldura; http://www.ruadireita.com

A referência moral e intelectual
Sacerdote de origem humilde, recordado por quem o conheceu melhor do que ninguém como «personalidade invulgar» caracterizada pela sua bondade, pela rara vocação cristã, pelo seu inabalável amor à República e pela sua erudição no campo das letras e da investigação histórica e arqueológica, João Baptista Vaz de Amorim, celebrizado na literatura com o pseudónimo de João da Ribeira, nasceu em Vilarinho das Paranheiras, aldeia do concelho de Chaves no dia 6 de Agosto de 1880 onde também veio a falecer, aos 81 anos, no dia 19 de Janeiro de 1962. Este Homem que julgamos ser uma das principais referências morais e intelectuais do seu tempo em Trás-os-Montes e no concelho de Valpaços é mais uma das figuras eleitas para a nossa Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços.

O estudante
Falecendo seu pai quando João Vaz de Amorim contava apenas dois anos de idade, passou, juntamente com a mãe e a irmã, a viver na residência de seu tio materno, Padre José Caetano de Amorim, em Friões, pároco desta aldeia do concelho de Valpaços, segundo alguns autores[1] ou em S. Julião de Montenegro, segundo outros que dão o mesmo seu tio como sendo pároco desta localidade do concelho de Chaves.[2] Há, contudo, consenso perante o facto de ter sido junto deste sacerdote que Vaz de Amorim fez a instrução elementar ou primária, após o que, segundo Alípio Martins, realizou com sucesso o exame de admissão no liceu em Bragança e fez os primeiros estudos secundários em Valpaços sob orientação de um professor particular. Ainda segundo o mesmo autor, foi encorajado por uma senhora de S. Julião de Montenegro a prosseguir os seus estudos secundários no Colégio de S. Joaquim, em Chaves, antes de se propor no liceu-seminário de Guimarães ao 4.º e o 5.º Anos de Humanidades, em que foi aprovado. Prosseguiu aí, nos dois anos subsequentes, os estudos no ramo das Ciências obtendo também foi aprovação.[3]
Refere Barroso da Fonte que, entretanto, João Vaz de Amorim teria sido convidado pelo Padre Joaquim Marcelino da Fontoura para leccionar no referido Colégio de S. Joaquim, informação que à primeira vista pode parecer pouco condizente com a de Alípio Martins Afonso, o qual faz uma referência à extinção do mesmo colégio que obrigou Vaz de Amorim a regressar à casa da sua patrona, em S. Julião, e continuar aí os seus estudos sob a orientação do respectivo pároco que já havia sido seu professor no extinto colégio. Parece-nos todavia possível que ambos os autores estejam certos pois, dando crédito a um breve mas substancial historial do Colégio flaviense de S. Joaquim publicado no dia 1 de Setembro de 2006 por Fernando Ribeiro no seu blogue “Chaves, Olhares sobre a cidade” e intitulado de “Chaves – o largo do Anjo e o Padre”, confirma-se que, tendo sido fundado pelo mencionado Padre Joaquim Marcelino da Fontoura em 1893/94, a instituição foi de facto extinta no ano de 1896 por decisão do seu próprio fundador em consequência de uma série intrigas que visavam colocar em causa a sua honestidade e o seu desinteresse na gestão da mesma. O Padre Fontoura regressou à sua aldeia natal, Anelhe, concelho de Chaves e aí permaneceu em estado de profunda indignação. Por esta altura Vaz de Amorim contaria 16 anos de Idade e estaria, como referimos, em S. Julião prosseguindo com os seus estudos particulares, antes de ingressar no liceu-seminário de Guimarães. Mas em 1898, ao fim de três anos de insistentes pedidos por parte do Presidente da Câmara de Chaves com a promessa de atribuição de um subsídio de duzentos mil reis, o orgulhoso Padre Joaquim da Fontoura aceitou os pedidos e reabriu o colégio de S. Joaquim «indo instalar-se no Largo do Anjo, na então casa da família Arrochela, actualmente os Serviços Municipais de Águas da Câmara Municipal.»[4] Nesta data, Vaz de Amorim teria concluído o 4.º e 5.º anos dos cursos de Humanidades e de Ciências, sendo razoavelmente credível, e supomos que documentalmente fundamentada, a informação de Barroso da Fonte, voluntaria ou involuntariamente omitida por Alípio Martins Afonso, acerca do convite entretanto dirigido a Amorim para leccionar no renovado colégio pelo respectivo director, colégio que afinal viria a ser definitivamente encerrado em 1907.

O sacerdote
Por ocasião do referido convite, recebido do Padre Joaquim Marcelino da Fontoura, João Vaz de Amorim havia já tomado a decisão de entrar para o Seminário de Braga onde, em 1901, se ordenou sacerdote com a idade de 21 anos. Coube-lhe então, no início do seu múnus paroquiar uma aldeia do concelho de Valpaços, a aldeia de Padrela, segundo Alípio Afonso, ou a de Paradela, também designada por Paradela de Monforte, segundo Barroso da Fonte. Foi no decurso destas funções que recebeu a boa nova da implantação da República em Portugal pela qual revelou desde a sua juventude, em Chaves, uma ardorosa e incessante paixão. Ironicamente, pouco tempo depois decide emigrar para o Brasil onde se diz, impropriamente, que exerceu funções junto do bispo de S. Paulo. Dizemos impropriamente porque, na verdade, este que fora de facto o décimo terceiro bispo da diocese criada naquela cidade, era já então arcebispo e dele sabemos que se chamava D. Duarte Leopoldo da Silva, filho de pai português, e que a ele precisamente se deveu a elevação de S. Paulo a arquidioceses, em 1908, passando a ser, por conseguinte, o seu primeiro arcebispo até à sua morte, em 1938.[5] A decisão tomada pelo Padre João de Amorim tem sido alvo de controvérsia, havendo quem, como Barroso da Fonte, a interprete como consequência do desencanto do pároco perante os excessos de anticlericalismo cometidos pelos republicanos da 1ª República e que resultaram na prisão dos seus colegas. Mas há também quem, como o autor das “Palavras Prévias” publicadas na Revista Aquae Flaviae em edição dedicada ao Padre Amorim, aliás “João da Ribeira”, autor que supomos ser Júlio Montalvão Machado, julgue que a sua precipitada partida para o Brasil fora motivada «por razões pessoais e nunca porque se desse mal com o regime implantado[6] Não tardou o Padre Vaz de Amorim a regressar a Portugal, correspondendo ao pedido de sua mãe nesse sentido, havendo-lhe sido confiada a paróquia de Loivos, no concelho de Chaves, que paroquiou durante 23 anos. Atendido o seu desejo em ser transferido para a paróquia de Bouçoais, aqui se manteve por mais um longo período que tem sido considerado como o mais próspero da sua vida nas áreas da investigação histórica e arqueológica e da produção literária. Mais tarde, segundo Alípio Afonso, regressou à sua terra natal, Vilarinho das Paranheiras, que paroquiou até ao fim da sua vida.

Parecem-nos justas as palavras de homenagem de Alípio Martins Afonso ao Padre João de Amorim «sob duas vertentes: a do literato e de paladino da democracia».


O literato
Dedicado, como por várias vezes referimos, à investigação e à publicação de importantes apontamentos históricos, arqueológicos e até políticos, o Padre Amorim a quem, em virtude da sua paixão pela Arqueologia, a História e Heráldica, nas palavras prévias que lhe são dedicadas no Aquae Flaviae, é considerado como «figura tão rara e sábia como seu Mestre, assim ele chamava o Abade de Baçal»[7], legou-nos uma série de trabalhos repartidos em diversas publicações, tanto durante a sua estada no Brasil como, posteriormente em Portugal:
Ali movido pelo seu amor à Pátria, mas leal como sempre ao ideário republicado democrático, publicou a “Voz de Portugal” e a “Pátria”; em Portugal, na imprensa regional transmontana, e com o pseudónimo de “João da Ribeira” divulgou interessantes apontamentos, como no “Comércio de Chaves” - no qual foram sendo publicados, entre 1939 e 1947 os vários artigos que compõem a sua obra “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Montenegro” - no “Almanaque de Lembranças de Chaves”, no “Mensageiro de Bragança” e no “Vilarrialense”.[8] Segundo Barroso da Fonte publicou também o livro “Pelos Montados da Serra”, não chegando a ser publicado um outro livro que entretanto deixou preparado, intitulado “Coisas da Minha Terra”. Aquele livro, que julgamos ser o mesmo que numa outra fonte surge referido como “pelos Povoados da Serra: aspectos portugueses”com a indicação de que foi publicado em Chaves em 1935, foi o único que o Padre Vaz de Amorim pessoalmente publicou e as razões pelas quais isso sucedeu são reveladas por Alípio Afonso com base na explicação apresentada pela sobrinha do respectivo autor, D. Maria Amorim, de que a modesta vida do tio não comportava os elevados custos de impressão. Também verificámos, através de uma outra fonte, que em 1952, publicou, em Guimarães, um trabalho sobre Arqueologia intitulado”Na Citânia de Briteiros: uma pedra enigmática?”[9]

O paladino da democracia
A convicção político-ideológica democrática republicana, publicamente assumida, pelo Padre João Baptista Vaz de Amorim e a coragem com que se bateu em sua defesa contra a ditadura do Estado Novo, frequentemente evocada pelos seus biógrafos surge claramente corroborada num estudo científico mais abrangente na área da história política em Portugal que tivemos a oportunidade de consultar e que nos serviu de valioso instrumento para o assunto que publicámos aqui no Clube de História, em 31 de Março de 1910 sob o título “Valpacenses na luta contra o Estado Novo”. Da relação que fizemos nesse estudo, intitulado “Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973)” dos candidatos valpacenses, por naturalidade ou afinidade, constatámos com surpresa que João Baptista Vaz de Amorim foi um dos pioneiros dessa mole de transmontanos valpacenses que, destemidamente, tomou a dianteira no alinhamento pela oposição ao regime  ditatorial instituído. Sobre o que dele se dis neste estudo entendemos citar o seguinte excerto:

«Em 1949, foi candidato pela lista organizada em Vila Real e que não foi aceite, sob o pretexto oficial de que não fora possível obter a sua certidão de eleitor, facto que ele mais tarde desmentiria.»[10]

A esta sua longa odisseia na luta contra o Estado Novo, e aos dissabores que dela advieram, também se faz alusão na introdução à edição da Revista Aquae Flaviae em sua memória nos seguintes termos:

«Já com 78 anos, solidário à sua ideia política de sempre, presidiu em Chaves ao jantar de homenagem ao General Humberto Delgado.
Quiseram então um grupo de amigos festejar os seus 80 anos, colocando junto à velha casa de Vilarinho das Paranheiras onde havia nascido, uma lápide de homenagem, penhor de amizade e adoração dos seus conterrâneos e que testemunhasse aos futuros o valor e dignidade daquele homem. Não o consentiu o Governador Civil da época e nada mais foi possível que uma modesta visita de poucos, dos muitos que gostariam de demonstrar-lhe quanto sentiam e admiravam a sua magnífica lição.
Dois anos depois, em 1962, falecia o Padre João Vaz de Amorim.
Só em 1974, livres de quaisquer peias, foi possível, finalmente, colocar essa lápide adiada a realçar publicamente a esplêndida lição desse homem, exemplo de uma vida nobilíssima como sacerdote e erudito, nunca esquecida dos ideais da República.»[11]


As tardias e parcas homenagens
Fica do excerto que acabamos de expor uma ideia das dificuldades com que se depararam um grupo de amigos desta singular personagem quando se propuseram homenageá-lo, ainda em vida, pelos serviços prestados na propagação dos valores cristãos, da cultura e da democracia na própria aldeia onde ele havia nascido. A assinalar a sua grandeza humana existe apenas a referida lápide e uma rua como seu nome na sua terra natal e uma outra em Chaves! Que dizer das aldeias que longamente paroquiou? Resta-nos concluir, com grande mágoa, observando que passados que foram trinta e sete anos de liberdade e de democracia, bem ou mal conduzidos pouco importa para este caso, nada mais foi feito, sobretudo no concelho de Valpaços, no sentido de legar às presentes e futuras gerações um testemunho evocativo da grandeza do Padre João Baptista Vaz de Amorim, como devia, e ainda deve, ser feito acima de tudo como prova de gratidão pela simpatia que ele manifestou e inspirou por estas terras enquanto sacerdote e erudito bem como pela árdua e exemplar luta que travou, enquanto aqui viveu, contra o temível regime ditatorial do Estado Novo.  


Referências
[1] Barroso da Fonte (coordenado por), Dicionário dos mais ilustres Trasmontanos e Alto Durienses, Editora Cidade Berço, Guimarães, Vol I,  1998 | disponível resumo digital:
 http://www.dodouropress.pt/index.asp?idedicao=66&idseccao=553&id=2074&action=noticia
[2] Alípio Martins Afonso, Revista Aquae Flaviae, In Memoriam Pe João Vaz de Amorim,n.º 14, 1995, p. 9.
[3] Ibid., Ibid.
[4] http://chaves.blogs.sapo.pt/33661.html
[5] http://pt.wikipedia.org/wiki/Duarte_Leopoldo_e_Silva
[6] Revista Aquae Flaviae, Id., p. 5
[7] Ibid.
[8] Alípio Martins Afonso, ibid.
[9] Mário Matos e Lemos,  Candidatos da Oposição à Assembleia Nacional do Estado Novo (1945-1973), Divisão de Edições da Assembleia da República e Texto Editores, Lda, 2009, p. 102 | disponível em formato PDF:  http://www.parlamento.pt/ArquivoDocumentacao/Documents/Candidatos_Oposicao.pdf
[10] Ibid., Ibid.
[11] Revista Aquae Flaviae, id.