quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Há mais de mil anos a guiar os marinheiros | euronews, le mag


A "Torre de Hércules" ou "Farum Brigantinum", 
na Corunha,o único dos faróis romanos que ainda funciona


Dia de São Bartolomeu 2011

É um santo católico que foi um dos apóstolos de Jesus Cristo, cujo nome é de origem aramaica, de referência patronímica, derivando de Bar Talmay, que significava filho de Talmay. Nos Evangelhos, porém não figura aquele nome, mas segundo a tradição ele seria o Natanael que ali aparece, nome que significa Deus Deu, em alusão a ter sido ele a testemunhar a acção de Jesus nas Bodas de Canaã de onde alegadamente Bartolomeu seria oriundo. Ainda segundo a tradição, enquanto se dedicava à pregação, ele sofreu o martírio em Albanópolis, actual Derbent, no Cáucaso, onde a mando do governador foi esfolado vivo. As suas relíquias foram levadas para Roma, jazendo na igreja que aí foi edificada em sua dedicação. Embora sejam escassas as informações acerca de S. Bartolomeu, é um santo especialmente venerado pela Igreja católica que exorta os fiéis a seguirem os ensinamentos da sua vida, como o fez o Santo Padre, o Papa, no dia 4 de Outubro de 2006. É festejado a 24 de Agosto.
A respeito do culto a S. Bartlolomeu, obtivemos a partir do blogue de S. Bartolomeu do Galegos, dedicado a esta freguesia da Lourinhã as seguintes curiosas referências:

O culto a São Bartolomeu, na península [Ibérica], é anterior à reconquista cristã e, em Portugal, muitas paróquias instituídas nessa época têm São Bartolomeu como orago. O seu culto encontra-se espalhado por todo o país e as povoações que o têm por padroeiro são, na sua maioria, bastante antigas e, pelo menos sete delas, usam o seu nome como topónimo.

Efectivamente, no concelho de Valpaços, sabe-se que ele é orago na freguesia de Água Revés e Crasto e a sua devoção é tão antiga quanto esta histórica localidade. A sua festa aqui realizada, durante anos, em dia móvel do mês de Agosto este ano celebra-se justamente dia 24, hoje. A 24 de Agosto também lhe são dedicadas festas em Santa Valha, onde existe uma capela da sua invocação, e em Santiago de Ribeira de Alhariz. Na freguesia de Santa Valha, por exemplo - segundo costa na memória paroquial de 1758 - uma das feiras mensais que realizava na Quinta do Gorgoço era a de 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu, com grande romagem de gente.

In http://saobartolomeudosgalegos.blogspot.com/
Imagem: http://ecclesia.com.br/synaxarion/?tag=sao-bartolomeu

Para mais detalhes sobre a vida de S. Bartolomeu, clique AQUI.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - BARREIROS

Por Leonel Salvado

DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso
TOMOII
1752
[pp. 70-71]

BARREIROS. Lugar da Provincia de Traz os Montes, Bispado de Miranda, Comarca da Villa de Torre de Moncorvo, Concelho de Monforte: tem quarenta e sete visinhos, tudo gente que vive de suas lavouras, e cultura de seus campos. Há aqui Igreja Paroquial, pequena, e de huma só nave, dedicada a S. Vicente Martyr: antigamente era esta Igreja anexa à de Nossa Senhora da Assumpçaõ de Sonim, que há poucos annos se desanexou, e he hoje Freguesia sobre si. Naõ tem mais que dous Altares, o mayor com a imagem do Santo Patrono, e hum collateral dedicado a Santo Amaro. Naõ se descobrem della povoações algumas, por estar cercada de montes, e oiteiros, que lhe tomaõ a vista. He a terra, naõ obstante a sua situaçaõ afogada, sadia, e de bons ares, que lhe communica a serra de Bornes, que fica nestas visinhanças, e abundante de centeyo, vinho, e castanha, e lavra algum azeite, de que há dous lagares na terra. Deve a sua fertilidade às muitas aguas, que descem dos montes visinhos, de que usam para limar as terras, e as que sobejaõ se vaõ meter no rio Rabaçal.

In BNP, Biblioteca Nacional Digital


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 6, BARREIRAS, Monforte do Rio Lima [leia-se Barreiros, Monforte do Rio Livre]
Cota: Memórias Paroquiais, vol. 6.º, n.º 44a, p. 331 a 334

Nota: Devido ao mau estado de conservação do documento e da respectiva cópia (demasiada tinta repassada) deparámos com bastantes dificuldades de leitura e interpretação do seu teor, pelo que a transcrição apresenta algumas lacunas e pode conter alguns vocábulos rectificáveis.


Paz e saúde em Jesus Cristo que de todos é mandado remédio.
Na forma a mim possível, eu, o padre Baltazar Rodrigues da Rosa, cura neste Lugar de Barreiras, dou a resposta pedida pelos inclusos interrogatórios na forma seguinte:
É este povo da Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, termo da vila de Monforte de Rio Livre, Freguesia de S. Vicente.É donatário desta terra o Ilustríssimo senhor conde de  Atouguia e suponho que por não ter as suas doações correntes, está, a meu ver, tudo por  Elrei Nosso Senhor, que Deus guarde.Tem este povo cinquenta e sete moradores, cento e trinta e três pessoas de sacramento, trinta e nove rapazes e raparigas.Está situado em muitos altos e baixos e não se descobre deste lugar mais que a Corriça, Pádoa Freixo e casario, que são quintas da freguesia das Aguieiras e distam daqui duas léguas.Tem este povo termo demarcado que terá meia légua de largura para todas as partes.
A paroquia está dentro do lugar e não tem mais lugares nem aldeias com sua compreensão.
O seu orago é S. Vicente, altares tem dois, o maior aonde está o dito Santo, o menor que é colateral aonde está Santo Amaro, e aonde, no seu dia, há concurso de alguma gente por ser milagroso para os achaques das pernas.
O Pároco é cura apresentado pelo Abade desta Abadia, que é de S. Miguel do lugar de Fiães a cabeça dela, do mesmo termo, comarca e bispado. Tem de renda, o cura, cinquenta e sete alqueires de centeio, de ofertas mais vinte, de estipêndio meados de trigo e centeio, dez almudes de vinho, seis mil réis em dinheiro e o que lhe rende o pé de Altar.
Os frutos que aqui se recolhem com maior abundância são centeio, milho, feijões, castanhas, azeite e vinho.
Tem esta vila juiz ordinário, câmara com sujeição aos ministros da cabeça da comarca que aqui vêm fazer o serviço todos os anos.  Não tem correio e serve-se do de Chaves que dista daqui quatro léguas.Serão daqui à Cidade capital do Bispado dezasseis léguas, e oitenta, pouco mais
ou menos, à de Lisboa, capital do Reino.Têm estes moradores o privilégio local que se andar para a praça de Chaves gente como de soldado, e fugir, que lhe concedeu Sua Majestade, que Deus guarde, perdoá-lo neste o serviço.Tem dentro do povo uma fonte que lança água com muita abundância, quente de Inverno e fria no Verão, com cujas qualidades se diz médica  por não haver aqui pestes contagiosas, como nunca se recordam.
Suposto que esse grande tremor de terra na era de 1755 não fez mal considerável nem digno de reparar-se nos mais números deste interrogatório, não falo por não haver que nem no da serra, pois aqui a não há.
Entre o termo deste lugar e o das Aguieiras, passa o rio que aqui tem o nome de Rabaçal que é composto de três rios que se juntam por baixo da ponte de Vale de Armeiro que serão, daqui lá, três léguas. Um se chama rio do mesmo Vale de Armeiro, que tem seu princípio em Laxe Castro, lugar da raia entre a Galiza e Portugal; outro se chama o rio Mente que tem seu princípio em Castromil, lugar da raia entre Castela e Galiza e é principalmente na ponte do mesmo povo que se lança abundantemente. Outro se chama o rio Mousse que tem seu princípio no termo litoral do reino de Galiza. Estes rios perdem o nome em sozinhos e ficam-se chamando o rio de Rabaçal, que lhe dura até os Eixes, em cujo termo se junta em outro da mesma grandeza e se vai meter no Douro, em Foz Tua. Tem, pouco mais ou menos, de onde tem o princípio até que se mete no Douro, dezasseis léguas.
Não entra neste rio embarcação alguma por ser demasiadamente arrebatado em tempo de Inverno e passar por terra muito agreste e despenhada.Cria muitos barbos, bogas e escalos antes de se juntarem os três rios. Se ponderado também se criam trutas em todos eles. No tempo do Estio se pesca nele com redes [varredouras?], e o resto do mais ano com chumbeiras, o que se faz livremente por não ter senhor particular que o impeça.As margens deste distrito são infrutíferas, quase todas, por não terem terra que dê frutos e só no sítio da ponte da Corriça e no do Rabaçal dão azeite, milho, feijões e centeio, de tudo pouco, como também em outros sítios do Armeiro e aí nesses sítios há algumas oliveiras. Em todo o mais, não há nada e as árvores são silvestres.Neste termo não tem pontes algumas, antes muita necessidade delas que, como tem poucas entradas por ele por causa de não se poder abrir caminho, [se passa a gente o rio, porém] por lhe ficar dificulto atravessar ao não buscá-lo para as pontes que ficam longe e assim se tem afogado muita gente em barcas e muitas nas passagens de pedra. Tem este Rio moinhos chamados parcelas que não impedem embarcações por não poderem subir por ele.É o que tenho que dizer dos interrogatórios e números deles, a que, com a brevidade que me foi possível, dei a resposta que me foi pedida, hoje [3] de Abril 1758.

O Padre Baltazar Rodrigues da Rosa

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços – 3.C

ADÉRITO MEDEIROS FREITAS, Julho de 2001
Esta laboriosa iniciativa de transcrição e reprodução de fotos e esquemas do extraordinário trabalho realizado pelo Dr. Adérito Medeiros Freitas, assim divulgado através da Internet, é dirigida, em homenagem a este autor, a todos os valpacenses, transmontanos e portugueses interessados nesta temática, mas em especial aos valpacenses que se encontram deslocados há longa data da sua freguesia natal, bem como aos seus descendentes.

FREGUESIA DE ARGERIZ - C

TRANSCRIÇÃO E REPRODUÇÃO INTEGRAL AUTORIZADA PELO AUTOR
Para aumentar qualquer uma das imagens click sobre elas

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - ARGERIZ


Por Leonel Salvado

DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso

TOMO I
1747
[pp. 386-387]

[…]
ARGERIS, Argeris. Freguesia na Provincia de Traz os Montes, Arcebispado de Braga, Comarca da Villa de Chaves: he da apresentaçaõ do Reytor de S. Nicolau de Carrazedo. A Paroquia está fora do povo, e o seu Orago he S. Mamede, o qual está collocado no Altar mor: tem mais dous collateraes, hum de Nossa Senhora da Expectaçaõ, e outro de Nossa Senhora do Rosario. O Paroco he Cura, e tem de renda cento e cincoenta mil reis cada anno. Tem no seu destricto cinco Lugares, que são; Argeris, Pereiro, Ribas, Midões, e Valle de Espinho, e nelles tem cento e cincoenta visinhos. As suas Ermidas, saõ; Nossa Senhora do Pranto, outra dentro do povo, em que está o Santissimo, Santa Luzia, Nossa Senhora da Expectação, Nossa Senhora das Neves, e S. Gens.
Os frutos de que vivem seus moradores são; trigo, centeyo, cevada, castanha, azeite, vinho, e colhe sumagre em abundância, que vendem para outras terras.
Passa por esta Freguesia hum rio sem nome, que tendo o seu nascimento no lugar de Sarapigos, vay morrer ao rio do Crasto, correndo de Poente a Nascente: neste destricto tem duas pontes de pao, nove moinhos, cinco lagares de azeite, e nove atafonas de moer sumagre: os moradores usaõ de suas aguas livremente para a cultura dos seus campos.

In BNP, Biblioteca Nacional Digital


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 4, ARGERIZ, Chaves

Freguesia de São Mamede de Argeris
O Vigário Antonio Martins, pároco colado nesta Paroquial Igreja de São Mamede de Argeris que é termo e Comarca de Chaves do Arcebispado de Braga Primaz, satisfazendo a ordem que recebi do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral da predita Comarca para responder aos interrogatórios que com ela me foram entregues , o faço na forma e maneira seguinte.
É esta freguesia da Província de Trás-os-Montes do Arcebispado de Braga Primaz, Comarca e termo Da Vila de Chaves e freguesia de São Mamede e é terra d'El Rey Nosso Senhor.
Tem esta freguesia cento e sessenta e cinco fogos, pouco mais ou menos, terá pesoas de sacramento, quinhentos e trinta, e menores,  quarenta , pouco mais ou menos.
Está esta freguesia situada nas beiras de uns altos os quais altos constam de pedras o que comummente se lhes chama nesta terra fragas; para nascente consta de vales; e se descobre dos altos terra da vila de Monforte que dista daqui três para quatro légoas; e se descobre mais dos mesmos altos, terra de Bragança que dista daqui oito para dez léguas; e se descobre mais terra da Vila de Dona Chama, que dista daqui cinco léguas; e se descobre mais terra da Vila de Mirandela, que dista daqui quatro léguas; e se decobre mais a Serra de Siabra, que é terra de Castela e nos meses de Julho, Agosto e Setembro deixa de ter neve, que dista desta freguesia quinze para vinte léguas.

Esta freguesia do termo de Chaves tem um lugar que se chama Argeris que terá setenta e cinco fogos, pouco mais ou menos. Tem o lugar de Pereiro que terá de vizinhos, trinta, pouco mais ou menos. Tem o lugar de Ribas que terá de vizinhos, outros trinta. Tem o lugar de Midões que terá de vizinhos catorze. Tem a quinta de Vale de Espinho que tem onze vizinhos pouco mais ou menos.
Está a paróquia desta freguesia fora do lugar mas não tão distante que chegue a mais de um quarto de légua deste lugar de Argeris, onde está situada. Tem mais o lugar do Pereiro, o lugar de Ribas e a quinta de Vale de Espinho.
É o orago desta freguesia São Mamede, o qual está no altar mor da igreja, no altar colateral da parte do Evangelho, Nossa Senhora do Rosário, e  no altar colateral, da parte da Epístola, Nossa Senhora da Apresentação. E não há mais altares do que os três nomeados, como também não tem nave alguma, e tem uma Irmandade que está debaixo da invocaçam de Santo António. Este lugar de Argeris tem uma capela dentro de si, a qual se chama a Capela do Santíssimo Sacramento, administrada pelos moradores, fregueses desta freguesia, excepto o sacrário que o é pelo comendador.
É o parocho desta freguesia vigário colado, cuja apresentação pertence ao Reitor de Carrazedo de Montenegro e tem de renda, um ano por outro, trezentos certos, e incertos cento e cinquenta mil réis. Não tem beneficiados. Não tem conventos. Não tem hospital. Não tem casa de misericórdia.

Tem esta freguesia, neste lugar de Argeris, a ermida de Nossa Senhora do Pranto, situada a alguma meia légua do lugar dos moradores, aos quais pertence a administração dela. Tem o lugar do Pereiro uma ermida do Mártir São Sabastião, a ermida de Nossa Senhora da Expectação, situada no lugar de Ribas, a qual é administrada por bens que antigamente se deixou em direito, que renderaõ, um ano por outro, dez mil réis, pouco mais ou menos, e a ermida de Nossa Senhora das Neves, do lugar de Midões, que fica situada ao pé das casas cuja administração pertence aos moradores do mesmo lugar; e a outra ermida no meio da quinta de Vale de Espinho, cuja evocação é de São Gens, administrada pelos moradores da mesma quinta;
A nenhuma das ermidas acima nomeadas, acodem a elas romeiros em dia algum determinado.
Os frutos desta freguesia que os moradores recolhem em maior abundância são vinhos, cevadas, castanhas, sumagres e linho, centeio, trigo e milhão, pouco.
É esta freguesia sujeita a justiças do Juiz de fora da vila de Chaves.
Não é esta freguesia couto, cabeça de Concelho, honra ou Beetria.
Não há nesta freguesia memória de homens insignes por letras ou armas e virtudes e saber dado.
Não tem esta freguesia feira alguma
Não tem correio esta freguesia e serve-se com o de Chaves que dista daqui três léguas.
Dista esta freguesia da Cidade de Braga, capital, dezoito léguas, e da capital do reino, que é Lisboa, oitenta léguas mais ou menos.
Não tem privilégios, antiguidades ou outras coisas dignas de memória.

Não há nesta freguesia, ou perto dela, fonte ou lagoa célebre que suas águas tenham especial qualidade. Não há porto de mar.
Não é esta freguesia murada, só sim ao pé do lugar de Ribas, desta freguesia, há, num alto, umas muralhas, já demolidas, que dizem os antigos foram Cerca de Mouros. Não há castelo, nem torre.
Não padeceu esta freguesia ruína alguma no terramoto de mil e setecentos e cinquenta e cinco anos.
E não há mais de que se possa falar e memória para responder ao presente interrogatório.
Quanto às qualidades de serras, não tem esta freguesia serra alguma, nem que responder aos interrogatórios que compreende nela.
Quanto à qualidade de rios não tem esta freguesia rio algum que dele se possa fazer memória, excepto um regato chamado [o bradela?], que no inverno leva água para moer alguns moinhos.  No Verão e no estio é necessário, para regar, fazê-lo em poças, cobri-lo de poças para regar alguns frutos. E este povo de Argeris tem três fontes de água, todas de cantaria, e as águas não têm virtudes senão para beber as gentes e crias.
Tudo deferido assim afirmo ser verdade e juro in verbo sacerdotis. 


Argeris, 9 de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito anos que


Assinei, O Vigário Antonio Martins
O pároco de Santiago da Ribeira de Alharis, Manoel da Silva
O pároco de Sanfins, Manuel Álvares


Para se aquilatar da importância destes documentos para o conhecimento de importantes aspectos da sociedade setecentista portuguesa, em especial quanto à organização administrativa civil e religiosa que compunha o reino, recomendamos a análise de um excelente estudo colectivo, coordenado por José Viriato Capela em Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, cujo 3.º volume é dedicado às freguesias do Distrito de Vila Real e que contém a leitura e elaboração de índices e roteiros dos mesmos documentos e se encontra publicado em formato Pdf – Se deseja aceder a este estudo, clique AQUI.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os condes de Atouguia e as terras de Valpaços

Por Leonel Salvado

Esta influente família da nobreza portuguesa esteve durante séculos ligada aos direitos senhoriais de um número significativo de terras que hoje constituem os concelhos de Valpaços e de Chaves. As fontes historiográficas e genealógicas que se referem à identificação dos respectivos titulares nos distintos períodos do seu domínio territorial em terras transmontanas, fornecem-nos, porém, indicações bastantes vagas e imprecisas e, por conseguinte, susceptíveis de interpretações erróneas.
Convém que se diga, em primeiro lugar que o título nobiliárquico dos condes de Atouguia só aparece por decreto de D. Afonso V de 17 Dezembro de 1448, em favor de D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, que viveu entre cerca de 1390 e 1452, em reconhecimento dos serviços militares que este triunfalmente prestou àquele monarca, de quem aliás foi aio, e ao duque de Bragança, contra D. Pedro o Regente, na dramática batalha de Alfarrobeira, passando assim a ser, Álvaro Gonçalves de Ataíde, o primeiro conde de Atouguia, e nomeado ainda alcaide de Atougia e mais tarde de Coimbra. Este primeiro conde de Atouguia foi filho de Martim Gonçalves de Ataíde, alcaide-mor de Chaves e de Dona Mécia Vasques Coutinho, aia dos infantes da “ínclita geração”, mas, ao contrário do que por vezes se pensa, o primeiro conde de Atouguia, não sucedeu ao pai na guarda da praça de Chaves, antes se vira nomeado, entretanto, alcaide de Vinhais e de Monforte do Rio Livre. Julgo ter começado por essa época a esboçar-se o senhorio dos Ataídes nas terras do termo de Monforte e de algumas das que actualmente integram o concelho de Chaves. Importa ainda referir que este título nobilárquico terminou em 1759 quando D. Jerónimo de Ataíde, 11.º conde de Atouguia, envolvido no processo dos Távora (decorrente da conspiração do assassinato de D. José I) foi nesse ano condenado e executado e extinto o título, apesar do perdão que o príncipe regente D. João, futuro D. João IV, decretou em favor de seus filhos a 20 de Novembro de 1800, passando a representação da Casa para a Casa do Conde da Ribeira Grande.
Ainda a respeito dos condes de Atouguia, parecem-me verosímeis os informes que nos deixaram os genealogistas e outros compiladores acerca do seu vasto domínio territorial em todo o país, nas ilhas e em Trás-os-Montes (tanto em Monforte como em Vinhais, como aconteceu com D. Luís de Ataíde, 5.º Conde de Atouguia e seu filho, Jerónimo de Ataíde, Governador das Armas de Trás-os-Montes na época da Restauração, um dos protagonistas do respectivo golpe de Estado e um dos proeminentes confirmantes do “Auto do Levantamento e juramento d’El Rei D. João IV”).
Nem sempre os nomes que figuram nas relações dos titulares desta poderosa família nobiliárquica em várias compilações e documentos genealógicos, se afiguram condizentes, mas dos direitos jurídicos que os condes de Atouguia exerceram durante cerca de sete centúrias sobre algumas terras transmontanas (até aos meados do século XVIII) parece não existir a mínima contestação.
Surgem, por exemplo, referências aos condes de Atouguia desde 1527 (Cadastro da População do Reino) atribuindo-lhes os senhorios de terras do concelho de Valpaços, como acontece com D. Afonso de Ataíde (apontado como o 3.º conde de Atouguia), em relação ao lugar de Fornos do Pinhal, sucendendo o mesmo em registos dos primórdios do século XVIII, nos quais se diz que foram senhores da antiga abadia de Santa Valha e lugares adscritos, como Fornos do Pinhal, e comendadores na Ordem de Cristo de S. João de Castanheira, também conhecida como “Cima de Villa” (integrando lugares como Lebução, Ferreiros, Parada e Ribeira, Sanfins, Aveleda e Vales, Pedome e Moreiras), e de Oucidres (abrangendo os lugares de Alvarelhos, Lama de Ouriço, Monte de Arcas e Tinhela) e ainda, nos meados da mesma centúria, referentes à abadia de Santa Valha (haja em vista a nossa publicação sobre as aldeias do concelho de Valpaços que foram abadias e comendas da Ordem de Cristo, transcrição da “Corografia Portuguesa” do Padre António Carvalho da Costa, de 1706, e do “Dicionário Geográfico” do Padre Luiz Cardoso, de 1747, bem como das Memórias Paroquiais, de 1748, que temos transcrito na categoria “Documentos Históricos”).
Importa fazer um comentário à referência do Padre António Carvalho da Costa quando, reportanto-se às Comendas de S. João de Castanheira ou de “Cima de Villa” e à Comenda de Oucidres, afirma expressamente que é delas comendador António Luiz de Meneses; cruzando esta afirmação com a da Memória paroquial de Alvarelhos de 1758, onde se indica ser este lugar da Reitoria de Santo André de Oucidres, o respectivo pároco refere ser seu donatário o conde de Atouguia depreendendo-se, deste modo, que aquele António Luiz de Meneses seria um dos ditos condes, o que pode parecer estranho, posto que surge o apelido Meneses em lugar de Ataíde, dominante nesta família. Não me parece que àquela data o abade de Alvarelhos se referisse a D. António Luís de Meneses, que foi primeiro marquês de Marialva e 3º conde de Cantanhede e que faleceu em 1675, portanto 83 anos antes nem ao descendente deste, seu homónimo, nascido em 1743 e falecido em 1807, que foi conde de Atalaia e Marquês de Tancos, o primeiro por evidente anacronismo e o segundo por falta de provas documentais que o corrobore. Em mais rigor cronológico será de aceitar que o comendador de S. João da Castanheira e de Oucidres a que se refere o Padre Carvalho da Costa seja Jerónimo Casimiro de Ataíde, 9.º conde de Atouguia, falecido em 1720, e cujo filho e 10.º conde de Atouguia foi Luis Pedro Peregrino de Carvalho e Meneses de Ataíde que exerceu as funções de vice-rei do Brasil entre 1749 e 1755 (o nome integra curiosamente “Luis” e o apelido de “Meneses”). E quanto ao conde de Atouguia dado pelo abade de Alvarelhos na Memória paroquial de 1758 foi, certamente, o já referido Jeronimo de Ataíde, filho daquele, 11.º e último dos condes de Atouguia, supliciado em Belém no ano seguinte à redacção da Memória.
As terras que constituíam os domínios dos condes de Atouguia, passaram, após a extinção do título dos condes de Atouguia, na sequência do “processo dos Távoras”, a estar sujeitas à já conhecida evolução administrativa condicionada pelas grandes reformas da era liberal das quais resultou a extinção dos concelhos de Monforte do Rio Livre e de Carrazedo de Montenegro em favor da criação do concelho e comarca de Valpaços, a que já fizemos algumas referências aqui no Clube de História de Valpaços.
É justamente este predomínio da Casa de Atouguia sobre as terras de Monforte de Rio Livre, bem como da sua queda e perda dos seus bens em favor da Coroa, juntamente com a Casa de Távora, na sequência da conjura no atentado contra D. José, que José Viriato Capela e seus colaboradores concluem do estudo efectuado às “memórias paroquiais de 1758”. A situação da Casa de Murça e do concelho de Água Revés teve o mesmo fim, e pela mesma altura, mas neste caso por mera falta de descendência do seu último titular João Guedes de Miranda e Albuquerque.

«Do ano de 1759 por efeito daconjura contra D. José I, data a extinção da Casa dos Távoras – que vai buscar o essencial dos seus rendimentos (quase 75%) à Província de Trás-os-Montes e também da Casa de Atouguia, cujas jurisdições – Alijó, Favaios, Galegos, Lordelo, Monforte – e rendas seriam integradas na Coroa e Fazenda Régia. […] As informações dos párocos permitem identificar os senhorios donatários das câmaras das terras, à data de 1758, o que significa que os párocos conhecem o titular do poder político dos concelhos que residem quase sempre em Lisboa. Tal reconhecimento decorre muitas vezes certamente do facto de estes donatários serem também muitas vezes comendadores das igrejas da região e portanto com grande proximidade de relações entre donatarias-comendadores/padroeiros e párocos. De entre os Grandes do Reino, donatários/senhorios de concelhos na Província, contam se os que se seguem e se listam na tabela da página seguinte. Fixamos aqui tão só os de Vila Real. À Casa de Marialva/Cantanhede e ao seu Marquês de Marialva e Conde de Cantanhede pertencem a donataria de Atei, Cerva, Ermelo, Mondim de Basto; à Casa de Abrantes/Penaguião, à Marquesa de Abrantes, Condessa de Penaguião, Duquesa de Fontes e Camareira-mor pertencem a donataria de Fontes, Godim, Moura Morta, Penaguião, Peso da Régua; à Casa de Távora, ao Marquês de Távora, pertencem Alijó, Lordelo, Favaios; à Casa de Atouguia, ao Conde de Atouguia, pertence Monforte de Rio Livre; e à Casa de Vila Flor, o senhorio de Parada de Pinhão. À Coroa, directa ou indirectamente pelas Casas de Bragança e Casa do Infantado pertence um elevado número de concelhos e jurisdições. À Casa de Bragança pertencem, Chaves, Montalegre, Couto misto de Barroso, Meixedo, Gralhas, Padornelos, Padroso, Vilar de Perdizes, Tourém; à Casa do Infantado, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena. E ao tempo da redacção das Memórias Paroquiais desde 1758, na sequência da conjura contra D. José I, iriam ser agregadas à Coroa os domínios da Casa de Távora e Atouguia. Como por falta de descendência está a Coroa também a tomar posse das jurisdições da Casa de Murça, do concelho de Água Revés (de que tomaria posse em Fevereiro de 1758, anota o Memorialista e também de Murça).»
In Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, vol 3, Braga, 2006, Link

sábado, 13 de agosto de 2011

Santa Rita de Cássia, festejada ontem, hoje e amanhã em Sanfins de Valpaços


Aos prezados criadores desta Página no “Facebook”, à prezada comunidade de Sanfins (Valpaços) onde a festa em honra de Santa Rita de Cássia ainda decorre (e lamento não poder nela participar) e a todos os que no país e no estrangeiro a veneram, gostaria de deixar aqui uma nota de relevância histórica relacionada com esta bendita Santa, que  pretendo seja um singelo gesto de homenagem à sua memória e às festividades que lhe são dedicadas.
Quis o acaso que, há dias, numa publicação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa consagrada ao tema “Sinais dos Expostos, Exposição Histórico – Documental”, e editada em 1987, fosse encontrar uma singular prova da dedicação a esta venerável Santa na capital do país, já pelos finais do século XVIII. Trata-se de um “sinal dos expostos" a que esta instituição guarda nos seus registos, instituição que, como se sabe, desde a sua criação, se dedicou a acolher as crianças recém-nascidas que devido a diversas circunstâncias eram “enjeitadas”, isto é deixadas secretamente aos cuidados da instituição na “roda dos Expostos”. Com elas seguia uma breve mensagem da situação sacramental do(a) exposto(a), quanto a se era baptizada ou não, e da informação ou o desejo deixados pelos responsáveis desse desesperado acto, quanto ao nome adoptado ou a adoptar, ficando, sempre, para eventual posterior resgate, um sinal para a sua identidade que podia variar, material e simbolicamente. No caso, o sinal, como se vê na figura acima, foi uma imagem impressa em papel evocativa da Santa Rita de Cássia, onde se lê “Santa Rita de Cassia vencedora de [das causas] impocíveis, e advogada de terremotos”. Tendo em conta este segundo atributo de Santa Rita de Cássia associado ao evidente trauma que, apenas 35 anos antes a catástrofe de 1755, havia produzido na população da capital, compreende-se a sua larga devoção em Lisboa: No verso da imagem foi manuscrita a seguinte comovente mensagem, datada de 1790:

“este Menino naCeu a deCete do mês de feverejro batiZou-Çe no Ventre da Maj q[uan]do o batiZarem há-de por-Ce-lhe por nome M[anu]el João Zidorio o emfeliz e ha-de Ser Madrinha a F[rei]ra S [anta] Anna ponha-ce Ca na Sid[ad]e a Criar q[eu] com o favor de D[eus] há-de ir tira-Çe batizem-no logo q[ue] Vaj doente”

O facto de a escolha ter recaído sobre a imagem e protecção de Santa Rita de Cássia parece-me deveras surpreendente, posto que, como se sabe, por essa altura, esta Santa, que viveu entre os finais do século XIV e os meados do seguinte, havia sido tão só beatificada, desde 1627 por decisão do Papa Urbano VIII, vindo a ser efectivamente canonizada apenas em 24 de Maio de 1900 pelo Papa Leão XIII.     

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - Alvarelhos


DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso
TOMO I
1747
[pp. 386-387]
[…]

ALVARELHOS. Lugar na Provincia de Traz os Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, Arciprestado, e Termo da Villa de Monforte de Rio-Livre. Està situado em hum valle, junto da serra Negra, entre dous ribeiros, que passaõ hum pelo Norte, e outro pelo Sul. Consta de sessenta fogos: tem Igreja Paroquial de huma so nave, dedicada a Nossa Senhora da Expectaçaõ, annexa, e filial de Santo André de Oucidres. Compoem-se de três Altares, o mayor com o Santctissimo, a Imagem da Santa Padroeira, e dous collateraes, o da parte do Evangelho dedicado a Christo crucificado, e o da Epistola a Santa Luzia.
O Parocho he Cura confirmado, apresentaçaõ do Vigario de Oucidres, e tem quarenta mil reis de renda.
No Termo, e limites deste Lugar há um fortim para a parte do Poente, que hoje se acha arruinado, a que chamaõ a Coroa. He tradiçaõ, que nelle habitava hum Rey Mouro no tempo, em que dominavaõ estas terras. Há outro sitio, entre Alvarelhos, e Oucidres, a que daõ o nome de Valle da Batalha, por se dizer, que alli houvera vários choques, e batalhas entre os Christãos, e os Sarracenos, ficando estes sempre vencidos, e os Christãos vencedores, ajudando-os hum Cavalleiro desconhecido, mas que se presumia ser o Apostolo Santiago, e o viaõ andar montado em hum cavallo branco. O qual depois de vencidas as batalhas, se recolhia a hum valle, que fica ao Poente do sitio da Batalha, aonde se edificou huma Ermida, dedicada ao Santo Apostolo, que hoje se acha arruinada, e só as paredes de conservaõ ainda em pé.
Os frutos que em mayor abundância recolhem os moradores deste lugar, saõ; centeio, vinho, castanha, e linho.
Fertilizaõ este Lugar dous ribeiros sem nome, que trazem a sua origem do Lugar de Vila-Nova: tem neste povo dous moinhos, que naõ moem senaõ pelo Inverno. Juntaõ-se ambos no sitio do Prado; produzem algum peixe miúdo, principalmente escallos; fenecem em outro, que vem do Lugar de Tinhella, onde chamaõ o Codeçal. De huma, e outra parte se cultivaõ as suas margens, naõ lhe servindo de embaraço o arvoredo silvestre, de que se vê cingido, e assombrado, e livremente usaõ os moradores das suas aguas para a cultura dos campos.



MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 3, ALVARELHOS, MONFORTE DE RIO LIMA [Leia-se "de Rio Livre"]

Senhor:
Com o devido respeito, respondendo aos interrogatórios de que o interrogante faz menção,  faço certo e certifico, eu, o padre José  Álvares, cura da freguesia de nossa Senhora da Expectação do Lugar de Alvarelhos, termo da Vila de Monforte, bispado de Miranda do Douro e comarca da Torre de Moncorvo, em como este Lugar fica na Província de Trás-os-Montes, bispado de Miranda do Douro, comarca da Torre de Moncorvo, termo da vila de Monforte e pertence, a freguesia, à Reytoria de Santo André do Lugar de Oucidres. É donatário o Excelentíssimo conde de Atouguia. Tem quarenta e seis vizinhos, todos de famílias de Lavradores que vivem da sua Agricultura. Está situado num baixo fundo tendo em sua circunferência serra e outras partes altas. Não se descobre dele povoação alguma, ainda que [estejam] próximos os Lugares de Oucidres e Tinhela, a quinta de Vila Nova e a quinta de Lama de Ouriço. Tem termo seu próprio. A paróquia é só e está situada no meio do Lugar. Seu orago é Nossa Senhora da Expectaçaõ. Tem três Altares, o maior que é do orago e dois colaterais, um de Santo António e outro de São Bernardino. O pároco é cura e é da apresentação do Reverendo Reitor de Santo André do Lugar de Oucidres e tem de renda certa, em cada  ano, doze mil e quinhentos em dinheiro, vinte e quatro almudes de vinho, vinte e dois alqueires de trigo e vinte de Centeio e o que render o pé de Altar.
Os frutos que os moradores recolhem com maior abundância é centeyo e vinho, castanha e Linho e muita, digo suficiente, hortaliça. Cria seus Bois e gado miúdo e tem suficientes prados para eles.
É sujeito à jurisdição do Juiz ordinário da Vila de Monforte de Rio Livre e Comarca do dito Concelho.

Dele [lugar de Alvarelhos] saiu uma religiosa freira, professa no Convento da Conceiçaõ da Vila de Chaves e, por suas virtudes, tem sido Abadessa dois anos da dita religião e ainda hoje vive.
Não tem correio, serve-se do correio da Vila de Chaves que chega até Vila Real que está distante quinze léguas da Vila de Chaves.
Está distante, este lugar, da Cidade Capital deste Bispado, que é Miranda do Douro, dezoito léguas, e da cidade de Lisboa, Capital do Reino, dista oitenta léguas. 
Há uma grande serra circunvizinha às casas deste lugar, distante um tiro de bala de espingarda para o poente. Terá duas Legoas de comprido para o poente e légua e meia  para o nascente, que tem principio por comprimento neste Lugar de Alvarelhos e na quinta de Vila Nova, do termo desta Vila de Monforte de Rio Livre, e tem seu fim adiante de Quintela, do termo da Vila de Chaves. E de largura, começa no Lugar de São Julião e no de São Lourenço, termo desta Vila de Chaves, e acaba no Lugar de Sá e no de Ervões, do mesmo termo de Chaves. O nome principal dela chama-se a serra de São Gião.
Este lugar está cercado de dois ribeiros e cada um deles tem seu moinho e seu pontão de pedra. Correm de poente para o nascente. O que está para a parte do poente nasce na própria serra, um quarto de légua por cima do lugar, e o da parte do nascente tem seu principio na Quinta de Vila Nova, um quarto de légua por cima deste lugar, e logo, a um tiro de bala para baixo deste lugar, se encontram e vão fenecer os lameiros que vêm do Lugar de Tinhela e depois, ao seu corrente, pelas Quintas de Agordelas e do Calvo e Vale de Casas. Em cada corrente tem bastantes moinhos e algumas pontes de pau. Vai fenecer ao pé da Quinta do Cachão, onde se mete no caudaloso Rio do Rabaçal. Ao longo desta serra, para a parte do poente, estão os lugares de Faiões, São Lourenço e São Julião, termo da Vila de Chaves, e, para a parte do nascente, estão os seguintes lugares: 
Este mesmo Lugar de Alvarelhos, a quinta de Lama de Ouriço, do termo desta Vila de Monforte de Rio Livre, e a de Quintela. No meio naõ tem povoação alguma e ainda a que tem muita gente não tem alguma digna de memória. [...] É dotado de Torgas, Carqueijas queirogas e alguns carvalhos bravos. Em alguns fundos e faldas dela, dá castanha e ao pé deste lugar de Alvarelhos, por onde correm os ribeiros, dá alguma fruta […], alguma hortaliça e algum vinho. E pelos altos alguma [terra] é cultivada, ainda que pouca, de centeyo. É muito áspera e fria. Não tem Igrejas nem mosteiros. Apascenta-se nela Bois e gado miúdo. Trás em si bastantes lobos, raposas, perdizes, coelhos e lebres. Tem alguns fojos e Lagoas mas, não são dignos de memória.
Naõ há neste lugar de Alvarelhos rio algum, somente dois ribeiros que correm do poente ao nascente […]; o da parte do poente, nasce da serra própria, por cima do lugar, a um quarto de légua. Tem um moinho e pontão de pedra no sítio do rio. E o da parte do nascente, tem seu principio na Quinta de Vila Nova, a um quarto de légua distante deste lugar e tem hum moinho e pontaõ de pedra no sitio do Prado, perto das casas deste lugar. Juntam-se ambos, logo por baixo de um lugar no sitio da Veiga. Correm todo o ano […]. Ao lado deles há Lameiros e cultivam-se muitas terras lavradias e tem, do lado, árvores, ainda que poucas, de castanheiros ao pé do lugar, e para baixo amieiros e salgueiros. Não têm suas águas virtude particular alguma, antes são livres para a cultura dos campos. Conservam sempre o nome de Ribeiro de Alvarelhos. Não tem cachoeira nem represa que lhe impeça o seu curso. Tem um moinho perto do lugar, por baixo, de que se juntam ambos, chamado o do Curso. Tem um pontão de pedra a meia légua deste lugar, junto a Tinhela. Para baixo deste pontão o recebe a Quinta da Agordela e vai tendo seu curso ao pé da Quinta do Calvo e da quinta da Agordela, em cujo sitio há bastantes moinhos e, na quinta da Agordela, um pontão de pedra e outro pontão logo por baixo da Quinta do Calvo.

E leva continuando seu curso cada vez crescendo mais […], passa ao pé da quinta de Vale de Casas, do concelho de Chaves e vai ao pé da quinta do Cachão onde o recebe o grande e arrebatado Rio Rabaçal. Seraõ duas grandes léguas do seu nascimento até onde fenece esta muito má terra, desunida e fragosa. Naõ tenho mais cousa alguma digna de memoria de que faça sabedor e, para que conste e ser verdade, fiz este memorial pelos interrogatórios apensos que assinei neste Lugar de Alvarelhos, aos vinte e seis do mês de Abril de mil e setecentos e cincoenta e oito anos

O padre José  Alvares

In http://digitarq.dgarq.gov.pt


Para se aquilatar da importância destes documentos para o conhecimento de importantes aspectos da sociedade setecentista portuguesa, em especial quanto à organização administrativa civil e religiosa que compunha o reino, recomendamos a análise de um excelente estudo colectivo, coordenado por José Viriato Capela em Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, cujo 3.º volume é dedicado às freguesias do Distrito de Vila Real e que contém a leitura e elaboração de índices e roteiros dos mesmos documentos e se encontra publicado em formato Pdf – Se deseja aceder a este estudo, clique AQUI.

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - Apresentação

Por Leonel Salvado
O Clube de História de Valpaços irá brevemente dar início a uma transcrição de documentos históricos relativos aos vários lugares que hoje compõem o concelho de Valpaços nos meados do século XVIII, por ordem alfabética dos nomes das sedes das Juntas de Freguesia, que constam de duas obras fundamentais: O Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso (de que foram editadas apenas dois volumes com as entradas de A a C dos respectivos nomes das localidades) e as Memórias Paroquiais, nome por que ficaram conhecidas as respostas dos vários párocos do país ao Inquérito que lhes foi dirigido, após o terramoto de Lisboa de 1755. Esta determinação perfilhada pelo Secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo surgiu como uma feliz oportunidade para compensar a enorme lacuna que resultou da catástrofe pela destruição da monumental obra de compilação ainda inédita destinada ao Dicionário Geográfico da iniciativa do referido Padre Luiz Cardoso, razão porque o acervo resultante daqueles inquéritos passou a ser designada, para muitos abusivamente (apesar do envolvimento do próprio Luiz Cardoso na iniciativa), como a parte restante do Dicionário Geográfico, embora em grande parte também (ainda!) manuscrita e com informação não tratada arquivisticamente. No âmbito do trabalho que a que nos propusemos levar a cabo aqui, entendemos proceder a algumas notas de esclarecimento acerca do significado, âmbito e conteúdo das fontes que iremos transcrever no seu estilo ortográfico original. Em alguns dos documentos transcritos não nos foi possível evitar algumas lacunas.  
As Memórias Paroquiais de 1758 – Significado, âmbito e conteúdo
Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. 
As respostas ao inquérito terão sido levadas para a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, da Congregação do Oratório, para serem trabalhadas pelo Padre Luís Cardoso (?-1769). O ex-libris existente na maioria dos volumes confirma esta custódia. O índice terá sido elaborado ou concluído no ano de 1832, data que apresenta. Passaram depois para a Biblioteca da Ajuda depois da extinção das ordens religiosas, seguindo para o Depósito Geral das Livrarias, no antigo Convento de São Francisco da Cidade, e daí para a Torre do Tombo entre os anos de 1836 e 1838.
In http://digitarq.dgarq.gov.pt


O Questionário:

I - O QUE SE PROCURA SABER DESSA TERRA É O SEGUINTE
Venha tudo escrito em letra legível, e sem abreviaturas
1. Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?
2. Se é do rei, ou de donatário e quem o é ao presente?
3. Quantos vizinhos tem (e o número de pessoas)?
4. Se está situada em campina, vale ou monte e que povoações se descobrem daí e qual a distância?
5. Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam e quantos vizinhos tem?
6. Se a paróquia está fora ou dentro do lugar e quantos lugares ou aldeias tem a freguesia todos pelos seus nomes?
7. Qual é o orago, quantos altares tem e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas e de que santos?
8. Se o pároco é cura, vigário, reitor, prior ou abade e de que apresentação é e que renda tem?
9. Se tem beneficiados, quantos e que renda tem e quem os apresenta?
10. Se tem conventos e de que religiosos ou religiosas e quem são os seus padroeiros?
11. Se tem hospital, quem o administra e que renda tem?
12. Se tem casa de misericórdia e qual foi a sua origem e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas coisas?
13. Se tem algumas ermidas e de que santos e se estão dentro, ou fora do lugar e a quem pertencem?
14. Se acodem a elas romagem, sempre ou em alguns dias do ano e quais são estes?
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra e qual éesta?
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra ou behetria?
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas?
19. Se tem feira e em que dias e quantos dura, se é franca ou cativa?
20. Se tem correio e em que dias da semana chega e parte; e se o não tem, de que correio se serve e quanto dista a terra aonde ele chega?
21. Quanto dista da cidade capital do bispado e de Lisboa capital do reino?
22. Se tem alguns privilégios, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória?
23. Se há na terra ou perto dela alguma fonte, ou lagoua célebre e se as suas águas tem alguma especial qualidade?
24. Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?
25. Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela ou no seu distrito algum castelo ou torre antiga e em que estado se acha ao presente?
26. Se padeceu alguma ruína no Terremoto de 1755 e em quê e se está reparada?
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.

II - O QUE SE PROCURA SABER DESSA SERRA É O SEGUINTE
1. Como se chama?
2. Quantas léguas tem de comprimento e de largura; onde principia e onde acaba?
3. Os nomes dos principais braços dela?
4. Que rios nascem dentro do seu sítio e algumas propriedades mais notáveis deles: as partes para onde correm e onde fenecem?
5. Que vilas e lugares estão assim na serra, como ao longo dela?
6. Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras?
7. Se há na terra minas de metais; ou canteiras de pedras ou de outros materiais de estimação?
8. De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada e se se cultiva em algumas partes e de que géneros de frutos é mais abundante?
9. Se há na serra alguns mosteiros, igrejas de romagem ou imagens milagrosas?
10. A qualidade do seu temperamento?
11. Se há nela criações de gados ou de outros animais ou caça?
12. Se tem alguma lagoua ou fojos notáveis?
13. E tudo o mais houver digno de memória?

II - O QUE SE PROCURA SABER DESSE RIO É O SEGUINTE
1. Como se chama assim o rio, como o sítio onde nasce?
2. Se nasce logo caudaloso e se corre todo o ano?
3. Que outros rios entram nele e em que sítio?
4. Se é navegável e de que embarcações é capaz?
5. Se é de curso arrebatado ou quieto, em toda a sua distância ou em alguma parte dela?
6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente?
7. Se cria peixes e de que espécie são os que trás em maior abundância?
8. Se há neles pescarias e em que tempo do ano?
9. Se as pescarias são livres ou de algum senhor particular, em todo o rio ou em alguma parte dele?
10. Se se cultivam as suas margens e se tem arvoredo de fruto ou silvestre?
11. Se tem alguma virtude particular as suas águas?
12. Se conserva sempre o mesmo nome ou o começa a ter diferente em algumas partes; e como se chamam estas ou se há memória de que em outro tempo tivesse outro nome?
13. Se morre no mar ou em outro rio e como se chama este e o sítio em que entra nele?
14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada ou açudes que lhe embarassem o ser navegavel?
15. Se tem pontes de cantaria ou de pau, quantas e em que sítio?
16. Se tem moínhos, lagares de azeite, pizões, noras ou outro algum engenho?
17. Se em algum tempo ou no presente, se tirou ouro das suas areias?
18. Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos ou com alguma pensão?
19. Quantas léguas tem o rio e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?
20. E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Concelho de Valpaços – aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhes pertenciam

Por Leonel Salvado

“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
 (1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre [pp. 432 - 433]
[conforme o original]

Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem.

Santa Valha he cabeça da Abbadia do Padroado Real, que rende setecentos mil reis: tem este lugar, & a quinta de Calvo da sua Freguesia cento & trinta visinhos, & demais da Igreja Matriz tem huma Ermida, & vinte fontes.
Fornos tem noventa visinhos, Igreja Paroquial da apresentação do Abbade de Santavalha, mais huma Ermida, & oito fontes.
Paradelinha tem 16. Visinhos, nenhuma Ermida, & seis fontes.
Bouça tem cincoenta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, nenhuma Ermida, & huma fonte.
Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.


Abbadia de Sonim, & lugares que lhe tocaõ neste termo.

Sonim cabeça de Abbadia do Padroado Real, rende mais de trezentos mil reis, tem noventa visinhos, & demais da Igreja Matriz tem três Ermidas, & doze fontes.
Barreiros tem cincoenta & quatro visinhos, huma Ermida, & seis fontes.
Fiàes tem setenta visinhos, Igreja Parochial da apresentaçaõ do Abbade de Sonim, mais huma Ermida, & doze fontes.
Aguieira tem cento & nove visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, mais quatro Ermidas, & dez fontes.


Abbadia de Bouçoaes, & lugares, que neste termo lhe pertencem.

Bouçoaes cabeça de Abbadia do Padroado Real, que rende mais de duzentos mil reis, tem trinta & dous visinhos, & demais da Igreja Matriz huma Ermida, & seis fontes.
Villartão tem sessenta visinhos, Igreja Parochial da apresentação do Abbade de Bouçoaes, mais huma Ermida, & seis fontes.
Picões tem oito visinhos, & quatro fontes.
Bouças tem cinco visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.
Hermidas tem vinte visinhos, & duas fontes.
Hermos, & Tortomil tem vinte visinhos, huma Ermida, & seis fontes.
Regalcovo tem quatrovisinhos, & três fontes.
Lampaças tem nove visinhos, & oito fontes.