segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os condes de Atouguia e as terras de Valpaços

Por Leonel Salvado

Esta influente família da nobreza portuguesa esteve durante séculos ligada aos direitos senhoriais de um número significativo de terras que hoje constituem os concelhos de Valpaços e de Chaves. As fontes historiográficas e genealógicas que se referem à identificação dos respectivos titulares nos distintos períodos do seu domínio territorial em terras transmontanas, fornecem-nos, porém, indicações bastantes vagas e imprecisas e, por conseguinte, susceptíveis de interpretações erróneas.
Convém que se diga, em primeiro lugar que o título nobiliárquico dos condes de Atouguia só aparece por decreto de D. Afonso V de 17 Dezembro de 1448, em favor de D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, que viveu entre cerca de 1390 e 1452, em reconhecimento dos serviços militares que este triunfalmente prestou àquele monarca, de quem aliás foi aio, e ao duque de Bragança, contra D. Pedro o Regente, na dramática batalha de Alfarrobeira, passando assim a ser, Álvaro Gonçalves de Ataíde, o primeiro conde de Atouguia, e nomeado ainda alcaide de Atougia e mais tarde de Coimbra. Este primeiro conde de Atouguia foi filho de Martim Gonçalves de Ataíde, alcaide-mor de Chaves e de Dona Mécia Vasques Coutinho, aia dos infantes da “ínclita geração”, mas, ao contrário do que por vezes se pensa, o primeiro conde de Atouguia, não sucedeu ao pai na guarda da praça de Chaves, antes se vira nomeado, entretanto, alcaide de Vinhais e de Monforte do Rio Livre. Julgo ter começado por essa época a esboçar-se o senhorio dos Ataídes nas terras do termo de Monforte e de algumas das que actualmente integram o concelho de Chaves. Importa ainda referir que este título nobilárquico terminou em 1759 quando D. Jerónimo de Ataíde, 11.º conde de Atouguia, envolvido no processo dos Távora (decorrente da conspiração do assassinato de D. José I) foi nesse ano condenado e executado e extinto o título, apesar do perdão que o príncipe regente D. João, futuro D. João IV, decretou em favor de seus filhos a 20 de Novembro de 1800, passando a representação da Casa para a Casa do Conde da Ribeira Grande.
Ainda a respeito dos condes de Atouguia, parecem-me verosímeis os informes que nos deixaram os genealogistas e outros compiladores acerca do seu vasto domínio territorial em todo o país, nas ilhas e em Trás-os-Montes (tanto em Monforte como em Vinhais, como aconteceu com D. Luís de Ataíde, 5.º Conde de Atouguia e seu filho, Jerónimo de Ataíde, Governador das Armas de Trás-os-Montes na época da Restauração, um dos protagonistas do respectivo golpe de Estado e um dos proeminentes confirmantes do “Auto do Levantamento e juramento d’El Rei D. João IV”).
Nem sempre os nomes que figuram nas relações dos titulares desta poderosa família nobiliárquica em várias compilações e documentos genealógicos, se afiguram condizentes, mas dos direitos jurídicos que os condes de Atouguia exerceram durante cerca de sete centúrias sobre algumas terras transmontanas (até aos meados do século XVIII) parece não existir a mínima contestação.
Surgem, por exemplo, referências aos condes de Atouguia desde 1527 (Cadastro da População do Reino) atribuindo-lhes os senhorios de terras do concelho de Valpaços, como acontece com D. Afonso de Ataíde (apontado como o 3.º conde de Atouguia), em relação ao lugar de Fornos do Pinhal, sucendendo o mesmo em registos dos primórdios do século XVIII, nos quais se diz que foram senhores da antiga abadia de Santa Valha e lugares adscritos, como Fornos do Pinhal, e comendadores na Ordem de Cristo de S. João de Castanheira, também conhecida como “Cima de Villa” (integrando lugares como Lebução, Ferreiros, Parada e Ribeira, Sanfins, Aveleda e Vales, Pedome e Moreiras), e de Oucidres (abrangendo os lugares de Alvarelhos, Lama de Ouriço, Monte de Arcas e Tinhela) e ainda, nos meados da mesma centúria, referentes à abadia de Santa Valha (haja em vista a nossa publicação sobre as aldeias do concelho de Valpaços que foram abadias e comendas da Ordem de Cristo, transcrição da “Corografia Portuguesa” do Padre António Carvalho da Costa, de 1706, e do “Dicionário Geográfico” do Padre Luiz Cardoso, de 1747, bem como das Memórias Paroquiais, de 1748, que temos transcrito na categoria “Documentos Históricos”).
Importa fazer um comentário à referência do Padre António Carvalho da Costa quando, reportanto-se às Comendas de S. João de Castanheira ou de “Cima de Villa” e à Comenda de Oucidres, afirma expressamente que é delas comendador António Luiz de Meneses; cruzando esta afirmação com a da Memória paroquial de Alvarelhos de 1758, onde se indica ser este lugar da Reitoria de Santo André de Oucidres, o respectivo pároco refere ser seu donatário o conde de Atouguia depreendendo-se, deste modo, que aquele António Luiz de Meneses seria um dos ditos condes, o que pode parecer estranho, posto que surge o apelido Meneses em lugar de Ataíde, dominante nesta família. Não me parece que àquela data o abade de Alvarelhos se referisse a D. António Luís de Meneses, que foi primeiro marquês de Marialva e 3º conde de Cantanhede e que faleceu em 1675, portanto 83 anos antes nem ao descendente deste, seu homónimo, nascido em 1743 e falecido em 1807, que foi conde de Atalaia e Marquês de Tancos, o primeiro por evidente anacronismo e o segundo por falta de provas documentais que o corrobore. Em mais rigor cronológico será de aceitar que o comendador de S. João da Castanheira e de Oucidres a que se refere o Padre Carvalho da Costa seja Jerónimo Casimiro de Ataíde, 9.º conde de Atouguia, falecido em 1720, e cujo filho e 10.º conde de Atouguia foi Luis Pedro Peregrino de Carvalho e Meneses de Ataíde que exerceu as funções de vice-rei do Brasil entre 1749 e 1755 (o nome integra curiosamente “Luis” e o apelido de “Meneses”). E quanto ao conde de Atouguia dado pelo abade de Alvarelhos na Memória paroquial de 1758 foi, certamente, o já referido Jeronimo de Ataíde, filho daquele, 11.º e último dos condes de Atouguia, supliciado em Belém no ano seguinte à redacção da Memória.
As terras que constituíam os domínios dos condes de Atouguia, passaram, após a extinção do título dos condes de Atouguia, na sequência do “processo dos Távoras”, a estar sujeitas à já conhecida evolução administrativa condicionada pelas grandes reformas da era liberal das quais resultou a extinção dos concelhos de Monforte do Rio Livre e de Carrazedo de Montenegro em favor da criação do concelho e comarca de Valpaços, a que já fizemos algumas referências aqui no Clube de História de Valpaços.
É justamente este predomínio da Casa de Atouguia sobre as terras de Monforte de Rio Livre, bem como da sua queda e perda dos seus bens em favor da Coroa, juntamente com a Casa de Távora, na sequência da conjura no atentado contra D. José, que José Viriato Capela e seus colaboradores concluem do estudo efectuado às “memórias paroquiais de 1758”. A situação da Casa de Murça e do concelho de Água Revés teve o mesmo fim, e pela mesma altura, mas neste caso por mera falta de descendência do seu último titular João Guedes de Miranda e Albuquerque.

«Do ano de 1759 por efeito daconjura contra D. José I, data a extinção da Casa dos Távoras – que vai buscar o essencial dos seus rendimentos (quase 75%) à Província de Trás-os-Montes e também da Casa de Atouguia, cujas jurisdições – Alijó, Favaios, Galegos, Lordelo, Monforte – e rendas seriam integradas na Coroa e Fazenda Régia. […] As informações dos párocos permitem identificar os senhorios donatários das câmaras das terras, à data de 1758, o que significa que os párocos conhecem o titular do poder político dos concelhos que residem quase sempre em Lisboa. Tal reconhecimento decorre muitas vezes certamente do facto de estes donatários serem também muitas vezes comendadores das igrejas da região e portanto com grande proximidade de relações entre donatarias-comendadores/padroeiros e párocos. De entre os Grandes do Reino, donatários/senhorios de concelhos na Província, contam se os que se seguem e se listam na tabela da página seguinte. Fixamos aqui tão só os de Vila Real. À Casa de Marialva/Cantanhede e ao seu Marquês de Marialva e Conde de Cantanhede pertencem a donataria de Atei, Cerva, Ermelo, Mondim de Basto; à Casa de Abrantes/Penaguião, à Marquesa de Abrantes, Condessa de Penaguião, Duquesa de Fontes e Camareira-mor pertencem a donataria de Fontes, Godim, Moura Morta, Penaguião, Peso da Régua; à Casa de Távora, ao Marquês de Távora, pertencem Alijó, Lordelo, Favaios; à Casa de Atouguia, ao Conde de Atouguia, pertence Monforte de Rio Livre; e à Casa de Vila Flor, o senhorio de Parada de Pinhão. À Coroa, directa ou indirectamente pelas Casas de Bragança e Casa do Infantado pertence um elevado número de concelhos e jurisdições. À Casa de Bragança pertencem, Chaves, Montalegre, Couto misto de Barroso, Meixedo, Gralhas, Padornelos, Padroso, Vilar de Perdizes, Tourém; à Casa do Infantado, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena. E ao tempo da redacção das Memórias Paroquiais desde 1758, na sequência da conjura contra D. José I, iriam ser agregadas à Coroa os domínios da Casa de Távora e Atouguia. Como por falta de descendência está a Coroa também a tomar posse das jurisdições da Casa de Murça, do concelho de Água Revés (de que tomaria posse em Fevereiro de 1758, anota o Memorialista e também de Murça).»
In Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, vol 3, Braga, 2006, Link

sábado, 13 de agosto de 2011

Santa Rita de Cássia, festejada ontem, hoje e amanhã em Sanfins de Valpaços


Aos prezados criadores desta Página no “Facebook”, à prezada comunidade de Sanfins (Valpaços) onde a festa em honra de Santa Rita de Cássia ainda decorre (e lamento não poder nela participar) e a todos os que no país e no estrangeiro a veneram, gostaria de deixar aqui uma nota de relevância histórica relacionada com esta bendita Santa, que  pretendo seja um singelo gesto de homenagem à sua memória e às festividades que lhe são dedicadas.
Quis o acaso que, há dias, numa publicação da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa consagrada ao tema “Sinais dos Expostos, Exposição Histórico – Documental”, e editada em 1987, fosse encontrar uma singular prova da dedicação a esta venerável Santa na capital do país, já pelos finais do século XVIII. Trata-se de um “sinal dos expostos" a que esta instituição guarda nos seus registos, instituição que, como se sabe, desde a sua criação, se dedicou a acolher as crianças recém-nascidas que devido a diversas circunstâncias eram “enjeitadas”, isto é deixadas secretamente aos cuidados da instituição na “roda dos Expostos”. Com elas seguia uma breve mensagem da situação sacramental do(a) exposto(a), quanto a se era baptizada ou não, e da informação ou o desejo deixados pelos responsáveis desse desesperado acto, quanto ao nome adoptado ou a adoptar, ficando, sempre, para eventual posterior resgate, um sinal para a sua identidade que podia variar, material e simbolicamente. No caso, o sinal, como se vê na figura acima, foi uma imagem impressa em papel evocativa da Santa Rita de Cássia, onde se lê “Santa Rita de Cassia vencedora de [das causas] impocíveis, e advogada de terremotos”. Tendo em conta este segundo atributo de Santa Rita de Cássia associado ao evidente trauma que, apenas 35 anos antes a catástrofe de 1755, havia produzido na população da capital, compreende-se a sua larga devoção em Lisboa: No verso da imagem foi manuscrita a seguinte comovente mensagem, datada de 1790:

“este Menino naCeu a deCete do mês de feverejro batiZou-Çe no Ventre da Maj q[uan]do o batiZarem há-de por-Ce-lhe por nome M[anu]el João Zidorio o emfeliz e ha-de Ser Madrinha a F[rei]ra S [anta] Anna ponha-ce Ca na Sid[ad]e a Criar q[eu] com o favor de D[eus] há-de ir tira-Çe batizem-no logo q[ue] Vaj doente”

O facto de a escolha ter recaído sobre a imagem e protecção de Santa Rita de Cássia parece-me deveras surpreendente, posto que, como se sabe, por essa altura, esta Santa, que viveu entre os finais do século XIV e os meados do seguinte, havia sido tão só beatificada, desde 1627 por decisão do Papa Urbano VIII, vindo a ser efectivamente canonizada apenas em 24 de Maio de 1900 pelo Papa Leão XIII.     

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - Alvarelhos


DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso
TOMO I
1747
[pp. 386-387]
[…]

ALVARELHOS. Lugar na Provincia de Traz os Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, Arciprestado, e Termo da Villa de Monforte de Rio-Livre. Està situado em hum valle, junto da serra Negra, entre dous ribeiros, que passaõ hum pelo Norte, e outro pelo Sul. Consta de sessenta fogos: tem Igreja Paroquial de huma so nave, dedicada a Nossa Senhora da Expectaçaõ, annexa, e filial de Santo André de Oucidres. Compoem-se de três Altares, o mayor com o Santctissimo, a Imagem da Santa Padroeira, e dous collateraes, o da parte do Evangelho dedicado a Christo crucificado, e o da Epistola a Santa Luzia.
O Parocho he Cura confirmado, apresentaçaõ do Vigario de Oucidres, e tem quarenta mil reis de renda.
No Termo, e limites deste Lugar há um fortim para a parte do Poente, que hoje se acha arruinado, a que chamaõ a Coroa. He tradiçaõ, que nelle habitava hum Rey Mouro no tempo, em que dominavaõ estas terras. Há outro sitio, entre Alvarelhos, e Oucidres, a que daõ o nome de Valle da Batalha, por se dizer, que alli houvera vários choques, e batalhas entre os Christãos, e os Sarracenos, ficando estes sempre vencidos, e os Christãos vencedores, ajudando-os hum Cavalleiro desconhecido, mas que se presumia ser o Apostolo Santiago, e o viaõ andar montado em hum cavallo branco. O qual depois de vencidas as batalhas, se recolhia a hum valle, que fica ao Poente do sitio da Batalha, aonde se edificou huma Ermida, dedicada ao Santo Apostolo, que hoje se acha arruinada, e só as paredes de conservaõ ainda em pé.
Os frutos que em mayor abundância recolhem os moradores deste lugar, saõ; centeio, vinho, castanha, e linho.
Fertilizaõ este Lugar dous ribeiros sem nome, que trazem a sua origem do Lugar de Vila-Nova: tem neste povo dous moinhos, que naõ moem senaõ pelo Inverno. Juntaõ-se ambos no sitio do Prado; produzem algum peixe miúdo, principalmente escallos; fenecem em outro, que vem do Lugar de Tinhella, onde chamaõ o Codeçal. De huma, e outra parte se cultivaõ as suas margens, naõ lhe servindo de embaraço o arvoredo silvestre, de que se vê cingido, e assombrado, e livremente usaõ os moradores das suas aguas para a cultura dos campos.



MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 3, ALVARELHOS, MONFORTE DE RIO LIMA [Leia-se "de Rio Livre"]

Senhor:
Com o devido respeito, respondendo aos interrogatórios de que o interrogante faz menção,  faço certo e certifico, eu, o padre José  Álvares, cura da freguesia de nossa Senhora da Expectação do Lugar de Alvarelhos, termo da Vila de Monforte, bispado de Miranda do Douro e comarca da Torre de Moncorvo, em como este Lugar fica na Província de Trás-os-Montes, bispado de Miranda do Douro, comarca da Torre de Moncorvo, termo da vila de Monforte e pertence, a freguesia, à Reytoria de Santo André do Lugar de Oucidres. É donatário o Excelentíssimo conde de Atouguia. Tem quarenta e seis vizinhos, todos de famílias de Lavradores que vivem da sua Agricultura. Está situado num baixo fundo tendo em sua circunferência serra e outras partes altas. Não se descobre dele povoação alguma, ainda que [estejam] próximos os Lugares de Oucidres e Tinhela, a quinta de Vila Nova e a quinta de Lama de Ouriço. Tem termo seu próprio. A paróquia é só e está situada no meio do Lugar. Seu orago é Nossa Senhora da Expectaçaõ. Tem três Altares, o maior que é do orago e dois colaterais, um de Santo António e outro de São Bernardino. O pároco é cura e é da apresentação do Reverendo Reitor de Santo André do Lugar de Oucidres e tem de renda certa, em cada  ano, doze mil e quinhentos em dinheiro, vinte e quatro almudes de vinho, vinte e dois alqueires de trigo e vinte de Centeio e o que render o pé de Altar.
Os frutos que os moradores recolhem com maior abundância é centeyo e vinho, castanha e Linho e muita, digo suficiente, hortaliça. Cria seus Bois e gado miúdo e tem suficientes prados para eles.
É sujeito à jurisdição do Juiz ordinário da Vila de Monforte de Rio Livre e Comarca do dito Concelho.

Dele [lugar de Alvarelhos] saiu uma religiosa freira, professa no Convento da Conceiçaõ da Vila de Chaves e, por suas virtudes, tem sido Abadessa dois anos da dita religião e ainda hoje vive.
Não tem correio, serve-se do correio da Vila de Chaves que chega até Vila Real que está distante quinze léguas da Vila de Chaves.
Está distante, este lugar, da Cidade Capital deste Bispado, que é Miranda do Douro, dezoito léguas, e da cidade de Lisboa, Capital do Reino, dista oitenta léguas. 
Há uma grande serra circunvizinha às casas deste lugar, distante um tiro de bala de espingarda para o poente. Terá duas Legoas de comprido para o poente e légua e meia  para o nascente, que tem principio por comprimento neste Lugar de Alvarelhos e na quinta de Vila Nova, do termo desta Vila de Monforte de Rio Livre, e tem seu fim adiante de Quintela, do termo da Vila de Chaves. E de largura, começa no Lugar de São Julião e no de São Lourenço, termo desta Vila de Chaves, e acaba no Lugar de Sá e no de Ervões, do mesmo termo de Chaves. O nome principal dela chama-se a serra de São Gião.
Este lugar está cercado de dois ribeiros e cada um deles tem seu moinho e seu pontão de pedra. Correm de poente para o nascente. O que está para a parte do poente nasce na própria serra, um quarto de légua por cima do lugar, e o da parte do nascente tem seu principio na Quinta de Vila Nova, um quarto de légua por cima deste lugar, e logo, a um tiro de bala para baixo deste lugar, se encontram e vão fenecer os lameiros que vêm do Lugar de Tinhela e depois, ao seu corrente, pelas Quintas de Agordelas e do Calvo e Vale de Casas. Em cada corrente tem bastantes moinhos e algumas pontes de pau. Vai fenecer ao pé da Quinta do Cachão, onde se mete no caudaloso Rio do Rabaçal. Ao longo desta serra, para a parte do poente, estão os lugares de Faiões, São Lourenço e São Julião, termo da Vila de Chaves, e, para a parte do nascente, estão os seguintes lugares: 
Este mesmo Lugar de Alvarelhos, a quinta de Lama de Ouriço, do termo desta Vila de Monforte de Rio Livre, e a de Quintela. No meio naõ tem povoação alguma e ainda a que tem muita gente não tem alguma digna de memória. [...] É dotado de Torgas, Carqueijas queirogas e alguns carvalhos bravos. Em alguns fundos e faldas dela, dá castanha e ao pé deste lugar de Alvarelhos, por onde correm os ribeiros, dá alguma fruta […], alguma hortaliça e algum vinho. E pelos altos alguma [terra] é cultivada, ainda que pouca, de centeyo. É muito áspera e fria. Não tem Igrejas nem mosteiros. Apascenta-se nela Bois e gado miúdo. Trás em si bastantes lobos, raposas, perdizes, coelhos e lebres. Tem alguns fojos e Lagoas mas, não são dignos de memória.
Naõ há neste lugar de Alvarelhos rio algum, somente dois ribeiros que correm do poente ao nascente […]; o da parte do poente, nasce da serra própria, por cima do lugar, a um quarto de légua. Tem um moinho e pontão de pedra no sítio do rio. E o da parte do nascente, tem seu principio na Quinta de Vila Nova, a um quarto de légua distante deste lugar e tem hum moinho e pontaõ de pedra no sitio do Prado, perto das casas deste lugar. Juntam-se ambos, logo por baixo de um lugar no sitio da Veiga. Correm todo o ano […]. Ao lado deles há Lameiros e cultivam-se muitas terras lavradias e tem, do lado, árvores, ainda que poucas, de castanheiros ao pé do lugar, e para baixo amieiros e salgueiros. Não têm suas águas virtude particular alguma, antes são livres para a cultura dos campos. Conservam sempre o nome de Ribeiro de Alvarelhos. Não tem cachoeira nem represa que lhe impeça o seu curso. Tem um moinho perto do lugar, por baixo, de que se juntam ambos, chamado o do Curso. Tem um pontão de pedra a meia légua deste lugar, junto a Tinhela. Para baixo deste pontão o recebe a Quinta da Agordela e vai tendo seu curso ao pé da Quinta do Calvo e da quinta da Agordela, em cujo sitio há bastantes moinhos e, na quinta da Agordela, um pontão de pedra e outro pontão logo por baixo da Quinta do Calvo.

E leva continuando seu curso cada vez crescendo mais […], passa ao pé da quinta de Vale de Casas, do concelho de Chaves e vai ao pé da quinta do Cachão onde o recebe o grande e arrebatado Rio Rabaçal. Seraõ duas grandes léguas do seu nascimento até onde fenece esta muito má terra, desunida e fragosa. Naõ tenho mais cousa alguma digna de memoria de que faça sabedor e, para que conste e ser verdade, fiz este memorial pelos interrogatórios apensos que assinei neste Lugar de Alvarelhos, aos vinte e seis do mês de Abril de mil e setecentos e cincoenta e oito anos

O padre José  Alvares

In http://digitarq.dgarq.gov.pt


Para se aquilatar da importância destes documentos para o conhecimento de importantes aspectos da sociedade setecentista portuguesa, em especial quanto à organização administrativa civil e religiosa que compunha o reino, recomendamos a análise de um excelente estudo colectivo, coordenado por José Viriato Capela em Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, cujo 3.º volume é dedicado às freguesias do Distrito de Vila Real e que contém a leitura e elaboração de índices e roteiros dos mesmos documentos e se encontra publicado em formato Pdf – Se deseja aceder a este estudo, clique AQUI.

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - Apresentação

Por Leonel Salvado
O Clube de História de Valpaços irá brevemente dar início a uma transcrição de documentos históricos relativos aos vários lugares que hoje compõem o concelho de Valpaços nos meados do século XVIII, por ordem alfabética dos nomes das sedes das Juntas de Freguesia, que constam de duas obras fundamentais: O Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso (de que foram editadas apenas dois volumes com as entradas de A a C dos respectivos nomes das localidades) e as Memórias Paroquiais, nome por que ficaram conhecidas as respostas dos vários párocos do país ao Inquérito que lhes foi dirigido, após o terramoto de Lisboa de 1755. Esta determinação perfilhada pelo Secretário de Estado Sebastião José de Carvalho e Melo surgiu como uma feliz oportunidade para compensar a enorme lacuna que resultou da catástrofe pela destruição da monumental obra de compilação ainda inédita destinada ao Dicionário Geográfico da iniciativa do referido Padre Luiz Cardoso, razão porque o acervo resultante daqueles inquéritos passou a ser designada, para muitos abusivamente (apesar do envolvimento do próprio Luiz Cardoso na iniciativa), como a parte restante do Dicionário Geográfico, embora em grande parte também (ainda!) manuscrita e com informação não tratada arquivisticamente. No âmbito do trabalho que a que nos propusemos levar a cabo aqui, entendemos proceder a algumas notas de esclarecimento acerca do significado, âmbito e conteúdo das fontes que iremos transcrever no seu estilo ortográfico original. Em alguns dos documentos transcritos não nos foi possível evitar algumas lacunas.  
As Memórias Paroquiais de 1758 – Significado, âmbito e conteúdo
Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações pedindo as suas descrições geográficas, demográficas, históricas, económicas, e administrativas, para além da questão dos estragos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755. As respostas deveriam ser remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino. 
As respostas ao inquérito terão sido levadas para a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, da Congregação do Oratório, para serem trabalhadas pelo Padre Luís Cardoso (?-1769). O ex-libris existente na maioria dos volumes confirma esta custódia. O índice terá sido elaborado ou concluído no ano de 1832, data que apresenta. Passaram depois para a Biblioteca da Ajuda depois da extinção das ordens religiosas, seguindo para o Depósito Geral das Livrarias, no antigo Convento de São Francisco da Cidade, e daí para a Torre do Tombo entre os anos de 1836 e 1838.
In http://digitarq.dgarq.gov.pt


O Questionário:

I - O QUE SE PROCURA SABER DESSA TERRA É O SEGUINTE
Venha tudo escrito em letra legível, e sem abreviaturas
1. Em que província fica, a que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?
2. Se é do rei, ou de donatário e quem o é ao presente?
3. Quantos vizinhos tem (e o número de pessoas)?
4. Se está situada em campina, vale ou monte e que povoações se descobrem daí e qual a distância?
5. Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam e quantos vizinhos tem?
6. Se a paróquia está fora ou dentro do lugar e quantos lugares ou aldeias tem a freguesia todos pelos seus nomes?
7. Qual é o orago, quantos altares tem e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas e de que santos?
8. Se o pároco é cura, vigário, reitor, prior ou abade e de que apresentação é e que renda tem?
9. Se tem beneficiados, quantos e que renda tem e quem os apresenta?
10. Se tem conventos e de que religiosos ou religiosas e quem são os seus padroeiros?
11. Se tem hospital, quem o administra e que renda tem?
12. Se tem casa de misericórdia e qual foi a sua origem e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas coisas?
13. Se tem algumas ermidas e de que santos e se estão dentro, ou fora do lugar e a quem pertencem?
14. Se acodem a elas romagem, sempre ou em alguns dias do ano e quais são estes?
15. Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?
16. Se tem juiz ordinário, etc., câmara ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra e qual éesta?
17. Se é couto, cabeça de concelho, honra ou behetria?
18. Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem alguns homens insignes por virtudes, letras ou armas?
19. Se tem feira e em que dias e quantos dura, se é franca ou cativa?
20. Se tem correio e em que dias da semana chega e parte; e se o não tem, de que correio se serve e quanto dista a terra aonde ele chega?
21. Quanto dista da cidade capital do bispado e de Lisboa capital do reino?
22. Se tem alguns privilégios, antiguidades, ou outras coisas dignas de memória?
23. Se há na terra ou perto dela alguma fonte, ou lagoua célebre e se as suas águas tem alguma especial qualidade?
24. Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?
25. Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação. Se há nela ou no seu distrito algum castelo ou torre antiga e em que estado se acha ao presente?
26. Se padeceu alguma ruína no Terremoto de 1755 e em quê e se está reparada?
27. E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório.

II - O QUE SE PROCURA SABER DESSA SERRA É O SEGUINTE
1. Como se chama?
2. Quantas léguas tem de comprimento e de largura; onde principia e onde acaba?
3. Os nomes dos principais braços dela?
4. Que rios nascem dentro do seu sítio e algumas propriedades mais notáveis deles: as partes para onde correm e onde fenecem?
5. Que vilas e lugares estão assim na serra, como ao longo dela?
6. Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras?
7. Se há na terra minas de metais; ou canteiras de pedras ou de outros materiais de estimação?
8. De que plantas ou ervas medicinais é a serra povoada e se se cultiva em algumas partes e de que géneros de frutos é mais abundante?
9. Se há na serra alguns mosteiros, igrejas de romagem ou imagens milagrosas?
10. A qualidade do seu temperamento?
11. Se há nela criações de gados ou de outros animais ou caça?
12. Se tem alguma lagoua ou fojos notáveis?
13. E tudo o mais houver digno de memória?

II - O QUE SE PROCURA SABER DESSE RIO É O SEGUINTE
1. Como se chama assim o rio, como o sítio onde nasce?
2. Se nasce logo caudaloso e se corre todo o ano?
3. Que outros rios entram nele e em que sítio?
4. Se é navegável e de que embarcações é capaz?
5. Se é de curso arrebatado ou quieto, em toda a sua distância ou em alguma parte dela?
6. Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente?
7. Se cria peixes e de que espécie são os que trás em maior abundância?
8. Se há neles pescarias e em que tempo do ano?
9. Se as pescarias são livres ou de algum senhor particular, em todo o rio ou em alguma parte dele?
10. Se se cultivam as suas margens e se tem arvoredo de fruto ou silvestre?
11. Se tem alguma virtude particular as suas águas?
12. Se conserva sempre o mesmo nome ou o começa a ter diferente em algumas partes; e como se chamam estas ou se há memória de que em outro tempo tivesse outro nome?
13. Se morre no mar ou em outro rio e como se chama este e o sítio em que entra nele?
14. Se tem alguma cachoeira, represa, levada ou açudes que lhe embarassem o ser navegavel?
15. Se tem pontes de cantaria ou de pau, quantas e em que sítio?
16. Se tem moínhos, lagares de azeite, pizões, noras ou outro algum engenho?
17. Se em algum tempo ou no presente, se tirou ouro das suas areias?
18. Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos ou com alguma pensão?
19. Quantas léguas tem o rio e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?
20. E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Concelho de Valpaços – aldeias que foram cabeças de Abadias do Padroado Real no termo da Vila de Monforte do Rio Livre, e outras que lhes pertenciam

Por Leonel Salvado

“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
 (1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre [pp. 432 - 433]
[conforme o original]

Abbadia de Santavalha, &lugares, que neste termo lhe pertencem.

Santa Valha he cabeça da Abbadia do Padroado Real, que rende setecentos mil reis: tem este lugar, & a quinta de Calvo da sua Freguesia cento & trinta visinhos, & demais da Igreja Matriz tem huma Ermida, & vinte fontes.
Fornos tem noventa visinhos, Igreja Paroquial da apresentação do Abbade de Santavalha, mais huma Ermida, & oito fontes.
Paradelinha tem 16. Visinhos, nenhuma Ermida, & seis fontes.
Bouça tem cincoenta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, nenhuma Ermida, & huma fonte.
Gregozos tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.


Abbadia de Sonim, & lugares que lhe tocaõ neste termo.

Sonim cabeça de Abbadia do Padroado Real, rende mais de trezentos mil reis, tem noventa visinhos, & demais da Igreja Matriz tem três Ermidas, & doze fontes.
Barreiros tem cincoenta & quatro visinhos, huma Ermida, & seis fontes.
Fiàes tem setenta visinhos, Igreja Parochial da apresentaçaõ do Abbade de Sonim, mais huma Ermida, & doze fontes.
Aguieira tem cento & nove visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, mais quatro Ermidas, & dez fontes.


Abbadia de Bouçoaes, & lugares, que neste termo lhe pertencem.

Bouçoaes cabeça de Abbadia do Padroado Real, que rende mais de duzentos mil reis, tem trinta & dous visinhos, & demais da Igreja Matriz huma Ermida, & seis fontes.
Villartão tem sessenta visinhos, Igreja Parochial da apresentação do Abbade de Bouçoaes, mais huma Ermida, & seis fontes.
Picões tem oito visinhos, & quatro fontes.
Bouças tem cinco visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.
Hermidas tem vinte visinhos, & duas fontes.
Hermos, & Tortomil tem vinte visinhos, huma Ermida, & seis fontes.
Regalcovo tem quatrovisinhos, & três fontes.
Lampaças tem nove visinhos, & oito fontes.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

302.º Aniversário da “Passarola” do Padre Bartolomeu de Gusmão



A 8 de Agosto de 1709, o padre jesuíta inventor, Bartolomeu de Gusmão, apresentou em Lisboa, na Sala dos Embaixadores da Casa da Índia, perante a estupefacção de uma numerosa e ilustre assistência, onde se incluía o Casal Real e o Núncio Apostólico, a sua máquina voadora, ao fazer aí uma demonstração técnica das suas potenciais capacidades fazendo subir até ao tecto um balão aquecido a ar. Para alguns autores, a espectacularidade desta demonstração trouxe a Bartolomeu de Gusmão o apoio e a confiança necessária para a concepção de uma versão maior e tripulada do seu engenho que supostamente teria sido testada com sucesso. O engenho foi então baptizado de «a Passarola» e o padre voador, como então se passou a chamar, foi considerado um dos mais importantes pioneiros da aeronáutica a nível mundial, por esta sua proeza, cerca de 70 anos antes do célebre balão dos Montgolfier. José Saramago deixou-nos uma descrição deste extraordinário acontecimento no Memorial do Convento. Para outros, a Passarola nunca voou, e o célebre desenho que lhe está associado não passa de uma criação exótica fruto da curiosidade e da imaginação de um jovem aristocrata que foi aluno de Matemática do inventor cujas experiências com aeróstatos também ficaram muito aquém das suas expectativas e dos acreditavam no seu sucesso, tendo Bartolomeu de Gusmão passado os seus últimos anos em Portugal no meio de grande desilusão e de resignação. Vendo-se perseguido pela Inquisição, mudou-se para Toledo, onde veio a falecer a 18 de Novembro de 1724.
Mas quem foi este padre inventor? Em que consistiu exactamente a sua invenção?
Para estas e outras questões sobre o Padre Bartolomeu de Gusmão clique AQUI.

domingo, 7 de agosto de 2011

Comemorou-se ontem o 345.º Aniversário do nascimento da rainha de Portugal, Maria Sofia Isabel de Neuburgo

Nascida em Brevath, no ducado de Juliers e palatinado de Neuburgo, a 6 de Agosto de 1666, Maria Sofia Isabel de Neuburgo foi a 25.ª rainha de Portugal, segunda mulher de D. Pedro II, por casamento celebrado a 11 de Agosto de 1687, após o monarca português ter enviuvado, quatro anos antes, de D. Maria Maria Francisca de Sabóia. Viveu como rainha de Portugal durante 12 anos, vindo a falecer em Lisboa, no Paço da Ribeira em 4 de Agosto de 1699, aos 33 anos, vitimada por um ataque de erisipela no rosto e cabeça. Foi sepultada em Lisboa no panteão real de S. Vicente de Fora com grandes elogios fúnebres, tanto aí como em Lagos, em homenagem à sua doce personalidade, caracterizada pela bondade e pelo afecto, à qual o rei D. Pedro correspondeu sempre com igual tratamento e zeloso respeito. Além disso, é referida como uma rainha devota e caritativa que conquistou os corações dos povos. Dos 12 anos de casamento nasceram sete filhos, o segundo dos quais veio a ser o herdeiro de D. Pedro à Coroa de Portugal, D. João V. 

Para mais pormenores sobre Maria Sofia Isabel de Neuburgo clique AQUI.

Imagem: D. Maria Sofia de Neuburgo, imagem no domínio público da Wikimédia Commons

DOCUMENTOS: Concelho de Valpaços – aldeias que foram das Comendas da Ordem de Cristo e do Padroado Real no termo da Vila de Monforte do Rio Livre (e de Chaves)

Por Leonel Salvado

“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
 (1706 – 1712)
LIVRO SEGUNDO – Da Comarca da Provincia de Trás os Montes
TOMO PRIMEIRO
CAP. III – Da Villa de Monforte do Rio Livre  [pp. 433 - 434]
[conforme o original]

Commenda de S. Joaõ da Castanheira, & lugares, que neste termo lhe tocaõ.

Desta Commenda he cabeça a Ermida antiga de S. Joaõ da Castanheira fundada junto ao lugar, que chamaõ Cima de Villa, ou Castanheira; he da Ordem de Christo do Padroado Real. He seu Commendador Antonio Luiz de Menezes: rende toda a Commenda quintentos mil reis com o ramo, que entre no termo da Villa de Chaves, porèm o ramo do termo desta Villa rende só duzentos mil reis: a Reytoria, que he do Padroado Real, rende oitenta mil reis cada anno. Este lugar da Castanheira, ou Cima de Villa, tem setenta visinhos, & demãos da Igreja Matriz huma Ermida, & vinte fontes. Junto a este lugar estão vestígios de huma fortaleza, que he tradição fora dos Mouros, aonde agora está a Ermida de S. Sebastião.
Lebução tem sessenta vizinhos, Igreja Parochial da apresentação do Reytor da Castanheira, mais huma Ermida, & seis foontes.
Ferreiros  tem vinte visinhos, huma Ermida, & seis fontes.
Parada, & Ribeira tem vinte & seis visinhos, huma Ermida, & seis fontes: Tambem junto a este lugar se vem as ruínas de huma fortaleza, que foy dos Mouros. […]
Sanfins tem trinta visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, mais huma Ermida e seis fontes. […]
Aveleda, & Valles tem dezasete visinhos, huma Ermida, & quatro fontes.[…]
Podome tem treze visinhos, huma Ermida, & quatro fontes. […]
Moreiras tem dez visinhos, nenhuma Ermida, & sete foontes.


Commenda de Oucidres, & Lugares, que neste termo lhe tocaõ.

He cabeça desta Commenda o lugar de Oucidres, he da Ordem de Christo, do Padroado Real; he seu Commendador Antonio Luis de Menezes, & rende duzentos e cincoenta mil reis cada anno: a Reytoria he da apresentação do Bispo de Miranda. Tem este lugar de Oucidres cincoenta & cinco visinhos,& demias da Igreja Matriz tem huma Ermida, & doze fontes.[…]
Alvarelhos tem setenta visinhos, Igreja Parochial, que apresenta o Reytor de Oucidres, mais huma Ermida, & seis fontes.
Lama de Ouriço tem trinta & sete visinhos, huma Ermida, & seis fontes: junto a este lugar se vem as ruínas de huma fortaleza, que dizem haver sido dos Mouros.[…]
Monte Darcas tem quarenta & oito visinhos, huma Ermida, & seis fontes: junto a este lugar se vem os vestígios de huma fortaleza dos Arabes.
Tinhela tem setenta& quatro visinhos, Igreja Parochial da mesma apresentação, mais huma Ermida, & seis fontes.[…].

[termina o Capítulo III]

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

433.º Aniversário da Batalha de Alcácer Quibir

A batalha de Alcácer Quibir (Alcácer - Quivir, Al Quasr al-kibr, Alcazarquivir ou Alcassar, cujo significado literal na linguagem árabe é "grande palácio"), referida nas fontes marroquinas como «a batalha dos três reis» decorreu perto da cidade de Ksar-El-Kebir, entre Tânger e Fez, em 4 de Agosto de 1578 completando ontem os seus 433 anos. Foi o maior desastre da história militar portuguesa, tanto pelo número de combatentes envolvidos, como pelos seus resultados trágicos.  
Deixámos aqui no Clube de História de Valpaços por ocasião do 432.º Aniversário algumas notas acerca desta malograda batalha.

Para aceder a essa publicação

Dia da dedicação da basílica de Santa Maria Maior e de N.ª Senhora das Neves, 2011

Santa Maria Maior é orago da freguesia de Valpaços. É festejada em muitos lugares da Igreja Católica, por vezes com a designação de Nossa Senhora das Neves, a 5 de Agosto.

Já lhe dedicámos na categoria "Hagiológio [local / regional]" algumas notas, sob o título "Santa Maria Maior e outras devoções marianas no concelho de  Valpaços".

Para aceder a essa publicação no presente blogue
ciick AQUI.

DOCUMENTOS: Concelho de Valpaços – A vila de Carrazedo de Montenegro e outras freguesias do concelho de Valpaços que foram do termo de Chaves

Por Leonel Salvado

Nota Prévia: Antes das grandes reformas administrativas da era liberal em Portugal os centros da organização municipal não tinham necessariamente que receber o qualificativo de Villa. Carrazedo de Montenegro, por exemplo, constitui um dos casos muito pouco esclarecidos no sentido de que tenha sido sede de concelho até, como consta em muitas monografias, à sua, documentada, extinção municipal em consequência da reforma administrativa, em 1853. Na verdade, segundo fontes incontestáveis como é o caso da “Corografia Portuguesa e descipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” composto e começado a publicar em 1706, “São Nicolao de Carrazedo” era, à época, mencionada como apenas uma das demais freguesias do termo de Chaves. Não duvidamos da sua remota fundação paroquial medieval nem da, documentada asserção de que tenha recebido um primeiro foral de D. Dinis em 1301, com a designação de ”Villa Boa de Montenegro”, pela qual se obrigava à renda anual de 3 000 libras, seguido de um outro em 1303 em que essa obrigação se desdobrava em duas prestações, e que, desde então, e durante a subsequente idade medieval tenha ocupado um importante papel político-administrativo e de tutela eclesiástica sobre as demais terras de Montenegro. Quanto à existência de um novo foral no século XVII, que se diz ter sucedido em razão dos interesses do Senhorio da Casa de Bragança, no qual de integrava, pouco ou nenhuma importância deve ter exercido na reabilitação da importância que Carrazedo de Montenegro deve ter tido nos finais da época medieval se não apenas no domínio da jurisdição eclesiástica, pois como também se deduz das informações do Padre António Carvalho da Costa, a freguesia de S. Nicolau de Carrazedo seria no início do século XVIII reitorado da mitra do arcebispo de Braga e comenda da Ordem de Cristo do qual eram curados anexos algumas freguesias do mesmo termo de Chaves. A sua reafirmação na tutela municipal das terras que hoje compõem o concelho de Valpaços desde 1853 deve ter ocorrido após os meados do século XVIII, pois tanto pelo que se extrai da descrição do Padre Carvalho da Costa, redigida cerca de 106, como do que se lê no primeiro volume do Dicionário Geográfico do Padre Luiz Cardoso que escapou ao Terramoto de 1755, Carrazedo de Montenegro era uma sombra do que havia certamente sido no passado e, portanto, essa reafirmação teria durado apenas cerca de mais um século até à mencionada extinção do seu concelho em 1853. Nem sequer surge na documentação setecentista a designação de “Villa” em relação a Carrazedo de Montenegro. A sua reelevação a sede concelho parece ter sido um produto das primeiras reformas administrativas liberais, como depreendemos do que se diz no site “Valpaços no sapo.pt” que «foi a falta de pagamentos da renda estipulada [nos seus primeiros forais de 1301-1303] que levou a que passasse a integrar o concelho de Chaves» e que «saldou-se em conflitos que fariam com que em finais do século XVII as terras de Montenegro voltassem a ter […] o seu concelho restaurado, promovida a Vila em 1820 e a cabeça de julgado na comarca de Chaves». Se em relação à reelevação de Carrazedo de Motenegro a Vila na primeira das datas mencionadas já apresentei as minhas dúvidas, parece-me aceitável, em face da documentação posterior, que a segunda asserção esteja correcta: Uma efeméride favorecida pelo regime liberal que, paradoxalmente haveria, de estar na origem da extinção do concelho de Carrazedo de Montenegro em favor da criação do concelho de Valpaços. Parece-me relevante, por conseguinte, considerar Carrazedo de Montenegro como uma localidade do concelho de Valpaços que também foi vila na Idade Média, deixou de o ser, voltou a sê-lo nos primórdios da época liberal em Portugal, perdeu de novo essa categoria e tornou a reavê-la por determinação da Assembleia da República, a 18 de Julho de 1990. Enfim, uma povoação que merece destaque entre as freguesias do concelho de Valpaços que foram durante séculos freguesias do termo de Chaves.

“COROGRAFIA e desrcipçam topográfica do famoso reyno de Portugal…” do Padre António Carvalho da costa.
 (1706 – 1712)
TRATADO III – Da Comarca & Ouvidoria de Bragança
TOMO I
CAP. V [pp. 506 – 511]
[conforme o original]

Da Villa de Chaves
He esta Villa do Arecebispado de Braga, & do Estado da Casa de Bragança, em que entre o seu Ouvidor em Correiçaõ, & o Provedor da Comarca de Guimaraens a exercitar seu officio […].
Reside nesta Villa hum Auditor Geral, que conhece das causas dos Soldados, & há hum Vigario Geral posto pelo Arcebispo de Braga com certa jurisdiçaõ coarctada nesta Villa, & em outras circunvisinhas. Assistem ao seu governo civil hum Juiz de Fóra, Vereadores com seus Officiaes, hum Juiz dos Orfãos com dous Escryvaens, & seis Tabeliaens. Tem muitas casas nobres de appellidos, Magalhaens, Teixeiras, Barros, Bahias, Queirogas, Madeiras, Pinheiros, Fontouras, Moraes, Araujos, Fontes, Oliveiras, Carneiros, Campilhos, Pereiras, Velhos, Barrozos, Sousas, Costas, Pessoas, Brandoens, Chaves, Pequenos, & outros muitos.

Lugares do termo desta Villa, que se dividem pelas Freguesias seguintes.
[…]
S. Vicente de Vilharandello tem cento & cincoenta & dous visinhos, & huma Ermida: he Vigairaria de Malta da Commenda de Saõ Joaõ da Corveira.
S. Joaõ, Vigairaria de Malta da mesma Commenda, tem estes lugares, Ervvões com cincoenta visinhos, Lamas com dezaseis, Alpande com vinte & cinco, Valongo com oito, Villardouro com seis, Alfonge com doze, Sendocelhe cõ dez, & Sa com cincoente & cinco, & huma Ermida de Santa Luzia.
Santa Maria de Vaçal, Curado da apresentação do Cabido de Braga, tem Vaçal com cincoenta visinhos, & Monçalvarga com quarenta.
S. Pedro de Frioes, Vigairaria da apresnetação da Casa de Bragança, que rende duzentos mil reis; tem estes lugares, Frioens com seis visinhos, Villarinho com vinte & dous, Frugende com dezanove, Quintella com cincoenta, S. Domingos com seis, Ladairo com dez, Selleirós com cincoenta, Villaranda boa com doze, Paranhos com dezoito, & Mosteiro de cima com vinte & seis: os dízimos desta Freguesia saõ do Prior de Chaves.
S. Mamede, Curado annexo à Reytoria de S. Nicolao de Carrazedos, tem Argeris com oitenta visinhos, Ribas com vinte & cinco, Pereiro de Santiago com vinte, Alvarenta com quinze, Midoens com dez, & Valdespinho com oito.
S. Pedro de Sanfins, Curado annexo à mesma Reytoria de Carrazedo, tem quarenta vizinhos.
Santa Maria de Crasto, Curado annexo à mesma Reytoria de Crasto, tem quarenta visinhos.
S. Pedro do Rio torto, Reytoria, & Commenda de Christo,( de que he Commendador o Conde de S. Lourenço) tem noventa visinhos.
S. Lourenço de Lilella, Curado annexo à Reytoria de Saõ Pedro de Rio torto, tem Lillela com vinte & seis visinhos, Povoa com vinte & dous, Payo com doze.
Nossa Senhora das Neves da Veiga de Lila tem trinta & dous visinhos: he annexa à Reytoria de S. Pedro dos Valles.
S. Pedro dos Valles*, Reytoria da apresentaçaõ da Casa de Bragança, que com as suas annexas rende ao Reytor duzentos mil reis, tem quarenta visinhos, & huma Commenda que apresenta a Casa de Bragança, que renderá trezentos mil reis.
Nossa Senhora do O, he annexa à Reytoria de S. Pedro dos Valles: tem estes lugares, Canavezes com quarenta visinhos, Cadouso com vinte, Deimáos com trinta, & Emeres com oito.
S. Nicolao dos Valles, Reytoria da Mitra, & Commenda de Christo (de que he Commendador Francisco Teixeira Chaves) tem Vallos com vinte & dous visinhos, & Zebres com dezaseis.
Santo André tem Jou* com sessenta & cinco visinhos, Toubres com dezoito, Valdigua com oito, Cima da Villa com quarenta & cinco: he annexa à Reytoria de S. Pedro dos Valles.
S. Miguel, Curado annexo à Reytoria de S. Nicolao de Carrazedo, tem Curros com vinte & cinco visinhos, Val do Campo com doze, & Cabanas com onze.
Santa Maria de Emeres, Curado annexo à mesma Reytoria de Carrazedo, tem setenta visinhos.
S. Nicolao de Carrazedo, Reytoria da Mitra, & Commenda de Christo (de que he Commendador o Marquez da Fronteira) tem Carrazedo com noventa vizinhos, Silva com vinte & seis, Cubo, & Ribeira da Fraga com trinta.
Santa Maria de Tazem, Curado annexo à Reytoria de Carrazedo, tem o lugar de Tazem com trinta visinhos, Valizellos com doze, Cubas com nove, & Frutuoso com quinze
S Joaõ da Corveira, Vigairaria de Malta, tem S. Joaõ da Corveira com dezoito visinhos, Corveira com doze, Junqueira com quatorze, Rio bom com vinte & dous, Sobrado da Junqueira com dezanove, Busto com nove, Varges, & Quintelinha com oito, & Vilarinho do Monte com dezoito.
S. Salvador de Nuzedo he annexa à Reytoria de Santa Leucadia: tem Nuzedo com quarenta visinhos, & Argemil com quarenta&e cinco; rende a Reytoria de Santa Leucadia com as suas annexas cem mil reis, & tem huma Commenda da Casa de Bragança, que rende quatrocentos mil reis.
S. Pedro de Padrela, Curado anexo à Reytoria de Carrazedo, tem trinta visinhos.[…]
Santa Ana de Serapicos, Curado da apresentação do Cabido de Braga, tem trinta & seis visinhos.
Santiago, Vigairaria do mesmo Cabido, tem estes lugares, Santiago da Ribeira com quatro vizinhos, Alvites e Dagoy com desaseis, Campo degoa com cinquenta,Cancello com oito, Esturãos com dezanone, Paredella de S. Juzenda com vinte, Parada de S. Juzenda com treze, S. Cibraõ com doze, Villela do Monte com quatorze, & Villa-nova do Monte com dezaseis.
Santa Maria, Vigairaria do mesmo Cabido, tem Valpassos com cento & sessenta visinhos, Lagoas com vinte & dous, Valverde com doze, & Val de Casas com trinta.
Santa Maria de Possaquos, Vigairaria do mesmo Cabido, tem Possaquos com cem visinhos, & Cachão com vinte.

[Termina o Cap. V]

*Em 1896 Jou, Curros e Vales foram anexadas ao concelho Murça, em resultado de uma jogada política do candidato regenerador à eleição pelo círculo de Alijó, Teixeira de Sousa, mas dois anos depois, sob o governo do Partido Progressista de Luciano de Castro, as duas últimas freguesias são reintegradas no concelho de Valpaços.

terça-feira, 2 de agosto de 2011

Há 79 anos

O funeral nacional de D. Manuel II, em Lisboa a 2 de Agosto de 1932
Exilado em Inglaterra após o triunfo da revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, D. Manuel guardou sempre um carinho especial pela sua Pátria, a mesma que o enjeitara, não se poupando a esforços na eminência do envolvimento de Portugal na Primeira Grande guerra para para obter dos monárquicos a garantia de que não hostilizariam a república enquanto durasse o conflito, chegando mesmo ao ponto de solicitar ao governo português autorização para tomar parte no exército republicano que iria combater pala causa dos aliados. Vendo goradas as suas expectativas, primeiro devido ao facto de os monárquicos portugueses serem germanófilos, aguardando uma vitória do Kaiser que repusesse a monarquia em Portugal, depois por não ver contemplado o seu desejo em combater ao lado dos seus compatriotas anglófilos, embora republicanos, D. Manuel manteve o mesmo fervor patriótico que se tornou bem notório quando no seu testamento declarou a sua vontade em legar ao Estado português os seus pessoais, para a fundação de um museu, bem como o seu desejo em ser sepultado em Portugal.

Para rever o memorial aqui publicado em 2010 no Clube história de Valpaços,