terça-feira, 30 de agosto de 2011

Fontes, chafarizes e marcos fontanários do concelho de Valpaços – Freguesia de ARGERIZ

Transcrição do texto de Adérito Medeiros Freitas
Recriação gráfica pseudo-faiança de Leonel Salvado

Tema: Dados históricos sobre a freguesia e fontes de Argeriz | Objecto: prato
criação virtual e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

A - Argeriz
I
Fonte de Mergulho

Tema: Fonte de Meias, em Argeriz | Objecto: prato
Foto – base : Adérito M. Freitas | criação virtual e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Argeriz
Lugar: Fonte de Meias
Altitude: 592 m   Longitude: 7º 23’ 09,4 W   Latitude: 41º 35’ 425,4’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio a grosseiro, com moscovite e biotite e nítida alteração química deste último mineral secundário, o que lhe confere uma cor amarelo-acastanhada.

Características gerais: Esta fonte esteve condenada à destruição e tal sentença só não foi cumprida graças à tenaz oposição de alguns habitantes de Argeriz. Da antifa fonte de granito, apenas restam as lajes que limitavam o reservatório bem com as bases das paredes laterais e posterior. Por razões que desconheço, as restantes lajes de granito que formavam o resto da estrutura foram simplesmente retiradas e, em seu lugar, foram construídas paredes e cobertura de tijolos e cimento, originando um conjunto deveras desagradável à vista, dado o seu muito mau gosto […]
A planta, rectangular, mede 1,33 m de comprimento e 1,25 m de largura. O depósito mede 1, 18 m de profundidade porém, como um tubo estabelece a comunicação desta fonte com um tanque de lavar roupa situado a uns 10 m de distância, o nível da água no depósito não ultrapassa os 71 cm. A nascente é local, água formigueira e, outrora, era considerada de boa qualidade. Actualmente só é utilizada para lavar roupa e regadio.

Adérito M. Freitas, Concelho de Valpaços, FONTES DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA…, C.M.V., Vol. I, 2005, p. 72.

II
Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Senhor em Argeriz | Objecto: prato 
 criação digital e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Argeriz
Lugar: Fonte do Senhor
Altitude: 585 m   Longitude: 7º 23’ 07,2’’ W   Latitude: 41º 35’ 20,7’’ N
Ano de construção: 1889 C. M. V.
Material de construção: Granito equigranular de grão médio com moscovite e biotite de cor amarelo-acastanhada devido à alteração química da biotite.

Características gerais: Toda construída em granito, é uma fonte de grandes dimensões relativas. Mede, externamente, 2,06 m de comprimento, 2,75 m de largura frontal e 3,79 m de altura máxima, ao centro e frontalmente. As suas paredes são formadas por lajes paralelepipédicas de granito, justapostas. As que formam as paredes laterais e o tecto estão dispostas longitudinalmente sem que, no entanto, qualquer delas atinja todo o comprimento.
A planta interna, rectangular, mede 1,75 m de comprimento e 1,30 m de largura. A profundidade do depósito é de 78 cm, mas o nível atingido pela água é de, apenas, 52 cm, devido à posição do orifício de escoamento para o exterior. A nascente não é local, mas a água nasce a pequena distância da fonte. É límpida e o caudal elevado.
A porta termina em arco de volta perfeita e mede 1,65 m de altura, ao centro, e 1,22 m de largura. Ao contrário do que acontece com a maioria das fontes de mergulho, a porta possui uma soleira com 60 cm de altura, com a sua face superior a medir 30 cm de largura e levemente inclinada para o interior. Acima do limite superior desta soleira, a porta é contornada por uma moldura frontal com 22 cm de largura e 2,5 cm de espessura.
A cobertura, de duas águas, é formada por sete lajes de granito, três do lado esquerdo e quatro do lado direito, colocadas transversalmente e inclinadas, formando duas águas simétricas. Cada uma das duas paredes laterais é encimada por cornija horizontal moldurada (moldura simples de quarto de círculo côncavo) com 1,56 m de comprimento e saliente 15 cm. Uma outra cornija moldurada situada a uma cota mais elevada que as anteriores, também disposta horizontalmente, situa-se 44 cm acima do limite superior da porta; mede 3,07 m de comprimento, 53 cm de largura e está saliente 16 cm. Apoiadas nas extremidades desta encontram-se, superiormente, mais duas cornijas que, com a inferior descrita, formam um bonito frontão triangular no meio do qual, numa espécie de almofada rectangular de vértices truncados por arestas curvas, se encontra o ano da sua construção, em relevo (1889), e por cima desta, as letras C. M. V. muito pouco legíveis. Julgo que estas letras foram intencionalmente danificadas.
Do depósito, a água passa por um orifício existente na parede lateral para uma caleira de granito que mede 1,00 m de comprimento, 9 cm de largura e 6 cm de profundidade, a qual comunica com uma pia bebedouro com 1,85 m de comprimento, 60 cm de largura e 20 cm de profundidade. Outrora a água passava desta pia para um tanque de lavar roupa todo construído em granito picado e dotado de lavadouros individuais feitos do mesmo material rochoso, do qual ainda existem vestígios no local.

Uma das minhas visitas à Fonte do Senhor ocorreu no dia 2 de Janeiro de 2004 e o que ali fui encontra deixou-me tristemente incomodado. Observei as obras já bastante adiantadas de um novo tanque em construção, de características aberrantes relativamente ao que ali existiu, quer no que se refere à altura, quer no que se refere aos materiais utilizados, à sua morfologia, à sua cor e ao seu funcionalismo. Lamento que tais obras sejam programadas sem que o conceito de “restauro” esteja sempre presente resultado, daí, a contínua degradação de todo o nosso património!...

Foram as águas da Fonte do Senhor consideradas milagrosas?
Na religião primitiva era crença geral que as fontes de água natural escondiam os númens antigos. Este facto explicava as virtudes terapêuticas e outras que as pessoas atribuíam às suas águas. Com o Cristianismo, como referimos oportunamente, procurou-se substituir o génio pagão da fonte por algum santo e, no dizer de Leite de Vasconcelos, O país está cheio de fontes santas, umas ainda com culto vigente, outras já sem culto.
Segundo o Abade de Baçal, em Memórias Arqueológico-Históricas do Distrito de Bragança, TOMO IX, pág. 96, acreditava-se que a água das fontes estava benta na manhã de S. João (24 de Junho) e na de S. Pedro (29 de Junho), produzindo efeitos curativos em muitas moléstias e antídotos nas feitiçarias.
As tradicionais deslocações às fontes santas e outras de água natural na noite de S. João continua a verificar-se em muitas localidades e para muitas das pessoas que as realizam são costumes de primordial importância a que atribuem a sua saúde e a de toda a família para o decurso do ano.
Quanto à água da fonte que temos estado a descrever, contou-me a Sr.ª Rosa Andrade, que lhe contava a sua avó, que a água da Fonte do Senhor era considerada milagrosa. Na manhã se S. João, antes de nascer o Sol, era costume as pessoas correrem à fonte munidas de todo o tipo de vasilhame, que enchiam com água e levavam para casa para se lavarem. Entre outras doenças acreditava-se que esta água curava as enfermidades de pele.

Conheci a Sr.ª Rosa Andrade fazendo parte de um numeroso grupo de pessoas de Argeriz que comigo trabalhou, durante uma semana, numa campanha de limpeza da Cêrca de Ribas.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 73-75.

III


Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Bairro do Meio, Argeriz, antes do seu restauro | Objecto: prato 
 criação digital e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Argeriz
Lugar: Bairro do Meio
Altitude: 594 m   Longitude: 7º 23’ 05,2’’ W   Latitude: 41º 35’ 18,7’’ N
Ano de construção: Desconhecida
Material de construção: Granito equigranular de grão médio com moscovite e biotite, cor amarelo-acastanhada devido à alteração química deste último mineral.

Características gerais: É, na minha opinião, a mais bonita fonte de Argeriz e, possivelmente, a mais antiga. Outrora, esta fonte devia estar totalmente livre. Hoje encontra-se parcialmente incorporada num alto muro de suporte de terras de uma propriedade vizinha actualmente pertencente ao meu caro amigo e ex-colega do Ensino Secundário, António José Barroso Barreira (para mim e para sempre, o Zeca Barroso). Esta fonte manifestava já […] alguns indícios de degradação estando a necessitar de uma intervenção urgente de restauro mas, RESTAURO no verdadeiro sentido da palabvra!... Por acordo com o proprietário, o Serviço de Obras Públicas da Câmara Municipal de Valpaços, mandou demolir e recuar o muro de suporte que continha a fonte, a fim de aumentar a largura da rua respectiva. A fonte foi deslocada cerca de 15 metros, incorporada no novo muro de suporte e mantida na sua ttraça original.

Pelo excelente trabalho realizado, um exemplo a seguir em todas as obras de restauro que, no futuro, venham a ser programadas, expresso, aqui, aos responsáveis pelo projecto e seus executores, os meus sinceros parabéns!...

A planta interna, rectangular, mede 1,20 m de comprimento e 1,02 m de largura. Possui uma profundidade total de 80 cm mas, quando a visitei pela última vez, em Janeiro de 2004, a profundidade de água era, apenas de 40 cm. A água não é, presentemente, utilizada para consumo.
A porta termina em arco de volta perfeita e mede 1,62 m de altura e 1,02 m de largura. Antes do restauro, a entrada da fonte estava fechada por uma porta de chapa de ferro de duas folhas de muito mau gosto, para não fugir à regra […]. A soleira possui um acentuado desgaste, devido ao contínuo roçar dos cântaros durante décadas. Na superfície frontal de uma das lajes, à direita da porta, encontra-se gravada uma figura antropomórfica, que pode representar um Cristo crucificado, característica não encontrada em mais nenhuma das fontes inventariadas. Ao lado desta gravura, dois sulcos verticais que, julgo, constituem a porção visível de uma outra figura outrora ali existente.
A altura total, frontal, é igual a 2,00 m e a largura 2,03 m. Como vemos, esta fonte, quando comparada com muitas outras que temos vindo a descrever, é relativamente pouco alta e pouco larga. Frontal e lateralmente possui uma cornija moldurada de boa talha, saliente 15 cm. Frontalmente, esta cornija acompanha a curvatura do arco superior da porta, do qual dista 22 cm. A sacralização desta fonte é confirmada, na minha opinião, pela presença da figura antropomórfica referida e por um conjunto de três estruturas de granito assentes sobre a cornija descrita e dispostas, respectivamente, em cada um dos extremos laterais e ao centro. Cada uma das duas estruturas ornamentais laterais, pináculos, mede 80 cm de altura e dista, cada uma delas, 57 cm da estrutura central. A sua base é um prisma quadrangular com 46 cm de aresta basal e 12 cm de altura. A terminar superiormente cada um destes pináculos, uma pirâmide quadrangular com 34 cm de altura e faces levemente côncavas. A estrutura central, que termina por uma cruz, mede 90 cm de altura, consta de uma porção basal de secções quadrangulares e que possui, na sua face frontal quadrangular, gravada uma roseta de oito pétalas. A sua porção inferior, que assenta sobre a cornija, é prismática e mede 5 cm de altura e 30 cm de aresta basal. Esta estrutura central mede 39 cm de altura e suporta, por encaixe, uma cruz latina de pontas maçanetadas e cuja altura, fora do encaixe, é igual a 42 cm.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 76-78.


B – Pereiro

Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Engaranho ou dos Milagres de S. Bonifácio, Pereiro, Argeriz | Objecto: prato 
criação digital e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Pereiro
Lugar: À Fonte
Altitude: 796 m   Longitude: 7º 24’ 13,6’’ W   Latitude: 41º 36’ 03,2’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio com moscovite e biotite e, por vezes, com leve alteração química deste último mineral.

Características gerais: A planta interna, rectangular mede 1,20 m de comprimento e 1,10 m de largura. A profundidade total do reservatório é de 1,18 m mas, quando recolhi estes elementos possuía, apenas 97 cm de água.
A porta termina superiormente em arco de volta perfeita e está, actualmente, protegida por uma estrutura formada por barras de ferro, tornando possível a visualização de todo o seu interior. Mede 93 cm de altura e 1,10 m de largura, na base. Internamente, um conjunto de lajes paralelepipédicas de granito, colocadas longitudinalmente e justapostas, formam as paredes laterais e o tecto, em abóbada de berço. Não há impostas e, por isso, as duas primeiras aduelas do tecto (saimel), uma de cada lado da abóbada assentam, directamente, sobre as lajes superiores dos respectivos pés direitos. O perfil transversal da aduela fecho da abóbada possui forma trapezoidal e a sua base maior, voltada para cima, mede, apenas, 14 cm. As duas aduelas que limitam o fecho da abóbada possuem, cada uma, 1,50 m de comprimento e 50 cm de largura. A fim de formarem com perfeição, a curvatura da abóbada, estas duas aduelas foram picadas em forma de caleira longitudinal de grande raio. A espessura destas lajes, aduelas, varia entre 13 e 17 cm.
Nas superfícies frontais de cinco das pedras que ladeiam a porta da fonte, estão gravadas nove cruzes, de dimensões não exactamente iguais […]. Na superfície interna da parede posterior, paralelamente à porta, encontram-se gravadas mais duas cruzes, cujo significado ninguém soube explicar-me. Dimensionalmente, estas cruzes são semelhantes às que se encontram gravadas nas cinco superfícies frontais referidas.
Todo o pavimento, em frente e um pouco ao lado da fonte, é formado por lajes de granito. Nestas lajes encontram-se gravadas duas cavidades alongadas, das quais partem dois sulcos rectilíneos, que se cruzam. Nestas cavidades, no início da cerimónia da Reza do Engaranho, é despejada a água de oito púcaros, tirada da fonte, que se escoa através dos referidos sulcos.
Este conjunto de cavidades e sulcos, crê-se, representarem a espada e o livro de S. Bonifácio, Santo Milagreiro cuja imagem se encontra na capela situada poucos metros a W da fonte. Na realidade […] este [S. Bonifácio na imagem da capela de S. Sebastião] suporta um livro e uma espada.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 79-81.

C - Midões

Fonte Chafariz

Tema: Fonte Chafariz do Largo do Rio, Midões, Argeriz | Objecto:  prato 
criação digital e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Midões
Lugar: Largo do Rio
Altitude: 338 m   Longitude: 7º 22’ 47,1’’ W   Latitude: 41º 33’  59,3’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio, com moscovite e biotite e nítida alteração química deste último mineral.

Características gerais: Toda construída em granito, esta fonte consta, essencialmente, de uma coluna de secção quadrangular e de um tanque rectangular.
A coluna, que suporta na face voltada para o tanque uma bica dotada de torneira, possui 1,56 m de altura. Os valores das arestas das suas secções horizontais não são sempre os mesmos, pois variam entre um máximo de 53 cm e um mínimo de 43 cm. Esta coluna termina em tronco de pirâmide quadrangular.
O tanque anexo foi, segundo informações recolhidas no local, de muito maiores dimensões. Tanto a sua largura como a sua profundidade foram drasticamente reduzidas com numerosas aplicações de cimento, que o descaracterizaram profundamente e o reduziram a bebedouro para animais e não tanque de armazenamento de água para regadio. Actualmente possui 1,72 m de comprimento, 60 cm de largura e as lajes paralelepipédicas de granito utilizadas na sua construção, possuem uma espessura de 25 cm. O fundo do tanque é côncavo longitudinalmente e a sua profundidade muito reduzida, por aplicação de sucessivas camadas de cimento.

A W da povoação e a uma cota mais elevada, existe uma outra fonte, praticamente abandonada, situada no lugar do Vale do Seixo, cuja água não está a ser aproveitada neste momento e corre livremente ao longo do caminho. Sem terrenos de cultura nem casas nas proximidades, creio que esta água possui todas as condições ambientais para ser de boa qualidade. A estar correcta esta minha hipótese, pena é que esta fonte não seja limpa e a sua água canalizada para uma fonte da aldeia. Porque não, por exemplo, utilizar para tal fim o Marco Fontanário abandonado, situado à beira da estrada e à saída para Vale de Espinho?

Adérito M. Freitas, Id, pp. 89-90.

D – Vale de Espinho

Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Bairro da Fonte, Vale de Espinho, Argeriz | Objecto: prato 
criação digital e adaptação: Leonel Salvado
click na imagem para aumentar

Localização: Vale de Espinho
Lugar: Bairro da Fonte
Altitude: 355 m   Longitude: 7º 21’ 01,3’’ W   Latitude: 41º 34’ 44,5’’ N
Ano de construção: Desconhecido
Material de construção: Granito equigranular de grão médio, com moscovite e biotite.

Características gerais: Para não fugir à regra, também a estrutura original desta fonte foi profundamente modificada. Com a utilização de blocos de cimento, a largura da porta foi reduzida de 45 cm. Assim, enquanto que a fonte primitiva era formada, apenas, por blocos paralelepipédicos de granito, que formam as paredes laterais, posterior e cobertura a fonte actual possui também, além daqueles, alguns blocos de cimento, que reduziram a altura e a largura da porta.
A planta interna, rectangular, mede 1,32 m de comprimento e 1,25 m de largura. A profundidade total é de 64 cm mas, devido à posição do orifício de saída, a profundidade de água, no depósito, nunca ultrapassa os 42 cm. A água é abundante, límpida e considerada de boa qualidade.
A posta actual mede 1,00 m de altura, 71 cm de largura e está fechada por uma porta metálica, com moldura de ferro forjado suportando uma placa de chapa de zinco canelado.
Da fonte, a água escoa-se para uma caleira de granito, com 96 cm de comprimento, 7 cm de largura e 3 cm de profundidade. Daqui, passa para uma pia bebedouro com 1,75 m de comprimento, 50 cm de largura e 15 cm de profundidade. Uma parte desta água corre para o exterior e, outra, através de uma tubagem adequada, atinge um tanque de lavar roupa situado a cerca de 150 m de distância.

Ainda em Vale de Espinho, a cerca de 150 metros da Capela para E, existe uma outra Fonte de Mergulho, conhecida por Fonte do Cagalhão, que se encontra em avançado estado de destruição, com as paredes em ruínas formadas por pequenos blocos irregulares de xisto metamórfico. Possui esta fonte, as seguintes coordenadas:

Altitude: 351 m
Longitude: 7º 20’ 56,3’’ W
Latitude: 41º 34’ 26,3’’ N

Tal como no caso anterior, também o ano de construção desta fonte é desconhecido.
A água, informaram-me, era muito fresca no Verão e considerada de boa qualidade.

Contaram-me, ainda, que existiram em Vale de Espinho duas senhoras com o mesmo nome, uma das quais morava nas proximidades desta fonte. Identificavam-nas dizendo: Senhora X ou Senhora Y da Fonte do Cagalhão, sem que isso significasse, para esta última, qualquer ofensa ou insulto!...

Dado o estado de degradação em que se encontra não apresento, desta fonte, nem fotografia nem quaisquer dados descritivos.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 91-92.

domingo, 28 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - BOUÇOÃES

Por Leonel Salvado


DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso
TOMOII
1751
[pp. 238-239]

BOUÇOAES. Lugar na Provincia de Traz os Montes, Bispado de Miranda, Comarca, e Correição da Villa de Torre de Moncorvo; a Igreja Paroquial dedicada a N. S. da Ribeira, he Templo de huma só nave, e antiquíssimo, e se diz ser do tempo dos Romanos; he Abbadia do Padroado Real, de que este lugar he Cabeça. Está fundada em sitio plano, junto a um cabeço, onde se descobrem alguns vestígios de muralhas, e segundo mostraõ algumas escacas relíquias, e monumentos, foy huma grande povoaçaõ em tempos antigos. Achaõ-se espalhadas pelos campos algumas pedras soltas, com vários sinaes, e letreiros, e pedaços de argamassas de tijolo enterrados, que com pouca diligencia se descobrem e estaõ indicando, que fora antigamente habitado este sitio. À parte do Nascente do adro desta Igreja existe ainda huma torre, que denota grande antiguidade, na qual há dous sinos muito bons. Consta a Paroquia de três Altares, o mayor com a Imagem da Senhora Patrona da Casa, e os dous no corpo da Igreja, hum dedicado a N.S. do Rosario, e outro a S. Sebastiaõ. Naõ tem Sacrario por estar fora do povoado, mas esta o Santissimo na Ermida de S. Maria Magdalena, fundada dentro do Lugar, huma das quatro que pertencem a esta Freguesia, as outras saõ de N. S. da Piedade, de S. Antonio e de S. Francisco. Há nella huma Confraria das Almas. Rende este Beneficio seiscentos até setecentos mil reis. Tem duas Igrejas annexas, que saõ S. Lourenço de Vilartão, cujo Cura he “in solidum” da apresentação do Abbade, e colhe os frutos daquele districto: a outra he a de S. Catharina das Aguieiras, onde tem alternativa annual o Abbade de Bouçoaes, e o Abbade de S. Miguel de Fiaens na apresentaçaõ do Cura, e ambos participaõ dos frutos por termos demarcados em todas as três Freguesias. São estes pela mayor parte centeyo, vinho, e castanha, algum trigo, e azeite. Há neste lugar Juíz da vintena, e homens do acordaõ, subordinados às Justiças de Villa de Monforte de Rio Livre, a cujo Termo pertence. Compoem-se esta Freguesia de mais oito Quintas, ou Aldeas, a saber, Tortomil, Ledoens, Lampasia, Picoens, Bouças, Ermidas, Ribeira, e Regalcovo. Consta toda a Freguesia de cento e quinze moradores, todos lavradores, que vivem de suas fazendas, e do seu trabalho. Junto a este Lugar contra o Poente passa hum ribeiro anonymo, de cuja agua se aproveitaõ os moradores para a rega dos campos, e varias moendas de paõ; e da parte do Nascente corre o rio Rabaçal: ambos trazem a sua origem do Reyno de Galliza, e correm ordinariamente no destricto desta Freguesia, por sítios ásperos, e intratáveis, por causa da grossa penedia, que lhe corta a corrente. Criaõ em maior abundância barbos, e algumas trutas, cuja pescaria, como também o uso das aguas, saõ livres em todo o anno.

 In BNP, Biblioteca Nacional Digital

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 7, BOUÇÃES, Monforte do Rio Lima [leia-se Bouçoais, Monforte do Rio Livre]
[Cota: Memórias paroquiais, vol. 7, n.º 51, p. 1075 a 1078]


Bouçoães é um lugar sito na Província de Trás-os-Montes, Comarca de Moncorvo de que dista ao Norte dez para onze léguas e de Lisboa capital do Reino setenta e tantas até oitenta ao mesmo rumo.
É bispado de Miranda de que dista dezasseis léguas ao Noroeste. É termo da Vila de Monforte de Rio Livre de que é donatário o Excelentíssimo conde de Atouguia. É governado por juiz ordinário. Dista do dito lugar, ao poente, duas léguas. Serve-se do correio de Chaves que parte aos Domingos. Tem o dito lugar trinta e seis fogos. Tem a Igreja matriz em um cabeço afastado do lugar, ao Norte, um grande quarto de légua, com a invocação da Senhora da Ribeira. Tem três altares, a maior da dita invocação, o colateral, da parte do Norte, da Senhora do Rosário, o da parte da epístola, de S. Sebastião. Tem pia baptismal para toda a freguesia. Tem uma torre à antiga afastada da igreja à parte do Sul com dois sinos.
O Santíssimo existe em Bouçoães na capela da Santa Maria Madalena que tem só um altar e nela duas Irmandades, uma dos moradores muito pobres, outra das Almas.
É esta igreja Abadia do Padroado real e rende trezentos e tantos mil réis até quatrocentos. Paga de pensão anual à Patriarcal sessenta mil réis, ao Seminário e Mitra cinco mil e setecentos, de passais, e pobre pé de altar, cinco mil réis.
Apresenta um cura em Bouçoães, a que paga, outro em Vilartão anexo lugar à mesma Abadia, outro no lugar das Aguieiras, também anexo. A este paga o Reverendíssimo abade de Sonim, por ser a apresentação anual alternativa de ambos.
Tem Bouçoães uma fonte de água muito insossa, tem outra fora à parte do Poente chamada das Figueirinhas muito fresca, salgada e boa, mas os moradores, ou por estar longe ou por preguiça usam comummente da do povo.
Consta esta freguesia da quinta ou lugar chamado de Lampaça, que fica perto da Matriz, ao Norte e tem catorze moradores; a quinta de Lodões que fica ao poente, tem um morador; é senhorio da comenda de que é comendador o Excelentíssimo conde de Valadares; a quinta de Tortomil, que tem dezanove moradores, dista meia légua da Matriz ao poente, tem uma capela com a invocação de São Francisco, não há romagem e só missa cantada no seu dia; a quinta de Real Covo, que dista da Matriz, ao Sul, meia légua grande, tem cinco moradores; a quinta da Ribeira que também, ao Sul da Matriz, dista meia légua, tem quatro moradores, fica perto do rio aonde há uma passagem por penhascos a que chamam o salto da Ribeira; quando não vai o rio grande, se passa sem perigo por uns burricos entre fragas sem se ver água por ir sepultada por baixo dos penhascos mas, indo grande, salta por cima dos penhascos [e] os que usam o salto nunca mais aparecem; a quinta das Ermidas, sita em um penhasco ao nascente da Matriz, de que dista um quarto de légua, tem um morador; houve nela uma capela com a invocação da Senhora do Pranto; a quinta das Bouças que fica ao nascente da Matriz um grande quarto de légua e tem nove moradores; a quinta de Picões que fica ao nascente da Matriz um quarto de légua e tem sete moradores. Fica junto ao rio chamado Rabaçal caudaloso [que] corre todo o ano de Norte a Sul.
Houve lá uma ponte de pedra que levou o rio, depois se fez uma de pau que teve o mesmo fim e se valem da passagem em outro salto chamado de Picões em que tem perigado muitas pessoas. E por ser estrada do correio de Chaves para Bragança e causarem as correntes um grande prejuízo aos vassalos de Sua Majestade, que Deus guarde, obrigando-os a conduzir os serviços para a intendência da junta de guerra que existe nas sobreditas praças e levá-los quando não se passa o rio por pontes mais distantes, foi servido Sua Majestade, o Senhor Rei D. João quinto, de gloriosa memória, conceder uma provisão para se fazer uma ponte no sítio chamado de Varjellas há  anos e até aqui se não pôs isto em execução com tanto detrimento dos vassalos de Sua Majestade.
Por cima da dita quinta, um quarto de légua, a Norte, no sítio chamado entre-ambas-as-águas, se lhe junta outro ribeiro chamado o Mente, o qual, a uma légua de distância da dita quinta, ao Norte, se lhe une à ribeira de Mente o rio chamado S. Gonçalo e juntos correm a meter-se no sítio de entre-ambas-as águas no Rabaçal, que lhe modifica o nome.
A pouca distância, para cima de entre-ambas-as-águas tem o rio Rabaçal uma ponte de pau no [sítio] chamado de Vale de Armeiro. Tem este rio algumas moendas. As suas moagens admitem pouca fábrica por serem cheias de penhascos de cantaria; [de] pesca tem barbos, bogas, em pouca quantidade, e algumas trutas.
Tem a dita quinta de Picões a sua capela de cantaria construída à moderna com a invocação de Santo António, mandada fazer pelo sargento-mor de Cavalaria António de Sá Pereira do Lago, da Casa dos Morgados de Vilartão, o qual a deu aos moradores da dita quinta.
Tem a freguesia de Bouçoães noventa e seis fogos, trezentos e vinte e seis pessoas de confissão e comunhão.
O fruto que se colhe em maior abundância é centeio. Os mais são vinho palheto brandinho, castanhas, linho e algum azeite pelas ribeiras. Está situado o dito Bouçoães à saída do rio de que já se deu notícia, como também dos que lhe ficam ao nascente.
Do dito lugar se avista ao nascente, a cinco léguas, um cabeço que se chama a Senhora da Serra por ter no alto uma igreja com a mesma invocação que se festeja a 8 de Setembro. Avista-se também a serra de Bornes que fica a nascente, dista sete para oito léguas, de que darão notícia com mais individuação os nacionais dela.
Também se vê, seis léguas ao Sul, a Senhora da Assunção, que está no alto da serra a sua igreja e que, em outros tempos, foi romagem de grande concurso.
Também se descobre a serra de Santa Comba que fica ao Sul em igual distância.
Não houve, pela graça de Deus, nesta freguesia ruína alguma causada pelo terramoto de 1755, nem também há coisa alguma digna de memória de que se dê notícia, e de expressar neste papel se vê quão trabalhosa é, que brota cheia de penhascos, que se não cultivam, e por legítima consequência muito pobre. É o que posso dizer na verdade.


Bouçoães, 13 de Abril de 1758.

O Abade António Xavier Fernandes



quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Há mais de mil anos a guiar os marinheiros | euronews, le mag


A "Torre de Hércules" ou "Farum Brigantinum", 
na Corunha,o único dos faróis romanos que ainda funciona


Dia de São Bartolomeu 2011

É um santo católico que foi um dos apóstolos de Jesus Cristo, cujo nome é de origem aramaica, de referência patronímica, derivando de Bar Talmay, que significava filho de Talmay. Nos Evangelhos, porém não figura aquele nome, mas segundo a tradição ele seria o Natanael que ali aparece, nome que significa Deus Deu, em alusão a ter sido ele a testemunhar a acção de Jesus nas Bodas de Canaã de onde alegadamente Bartolomeu seria oriundo. Ainda segundo a tradição, enquanto se dedicava à pregação, ele sofreu o martírio em Albanópolis, actual Derbent, no Cáucaso, onde a mando do governador foi esfolado vivo. As suas relíquias foram levadas para Roma, jazendo na igreja que aí foi edificada em sua dedicação. Embora sejam escassas as informações acerca de S. Bartolomeu, é um santo especialmente venerado pela Igreja católica que exorta os fiéis a seguirem os ensinamentos da sua vida, como o fez o Santo Padre, o Papa, no dia 4 de Outubro de 2006. É festejado a 24 de Agosto.
A respeito do culto a S. Bartlolomeu, obtivemos a partir do blogue de S. Bartolomeu do Galegos, dedicado a esta freguesia da Lourinhã as seguintes curiosas referências:

O culto a São Bartolomeu, na península [Ibérica], é anterior à reconquista cristã e, em Portugal, muitas paróquias instituídas nessa época têm São Bartolomeu como orago. O seu culto encontra-se espalhado por todo o país e as povoações que o têm por padroeiro são, na sua maioria, bastante antigas e, pelo menos sete delas, usam o seu nome como topónimo.

Efectivamente, no concelho de Valpaços, sabe-se que ele é orago na freguesia de Água Revés e Crasto e a sua devoção é tão antiga quanto esta histórica localidade. A sua festa aqui realizada, durante anos, em dia móvel do mês de Agosto este ano celebra-se justamente dia 24, hoje. A 24 de Agosto também lhe são dedicadas festas em Santa Valha, onde existe uma capela da sua invocação, e em Santiago de Ribeira de Alhariz. Na freguesia de Santa Valha, por exemplo - segundo costa na memória paroquial de 1758 - uma das feiras mensais que realizava na Quinta do Gorgoço era a de 24 de Agosto, dia de S. Bartolomeu, com grande romagem de gente.

In http://saobartolomeudosgalegos.blogspot.com/
Imagem: http://ecclesia.com.br/synaxarion/?tag=sao-bartolomeu

Para mais detalhes sobre a vida de S. Bartolomeu, clique AQUI.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - BARREIROS

Por Leonel Salvado

DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso
TOMOII
1752
[pp. 70-71]

BARREIROS. Lugar da Provincia de Traz os Montes, Bispado de Miranda, Comarca da Villa de Torre de Moncorvo, Concelho de Monforte: tem quarenta e sete visinhos, tudo gente que vive de suas lavouras, e cultura de seus campos. Há aqui Igreja Paroquial, pequena, e de huma só nave, dedicada a S. Vicente Martyr: antigamente era esta Igreja anexa à de Nossa Senhora da Assumpçaõ de Sonim, que há poucos annos se desanexou, e he hoje Freguesia sobre si. Naõ tem mais que dous Altares, o mayor com a imagem do Santo Patrono, e hum collateral dedicado a Santo Amaro. Naõ se descobrem della povoações algumas, por estar cercada de montes, e oiteiros, que lhe tomaõ a vista. He a terra, naõ obstante a sua situaçaõ afogada, sadia, e de bons ares, que lhe communica a serra de Bornes, que fica nestas visinhanças, e abundante de centeyo, vinho, e castanha, e lavra algum azeite, de que há dous lagares na terra. Deve a sua fertilidade às muitas aguas, que descem dos montes visinhos, de que usam para limar as terras, e as que sobejaõ se vaõ meter no rio Rabaçal.

In BNP, Biblioteca Nacional Digital


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 6, BARREIRAS, Monforte do Rio Lima [leia-se Barreiros, Monforte do Rio Livre]
Cota: Memórias Paroquiais, vol. 6.º, n.º 44a, p. 331 a 334

Nota: Devido ao mau estado de conservação do documento e da respectiva cópia (demasiada tinta repassada) deparámos com bastantes dificuldades de leitura e interpretação do seu teor, pelo que a transcrição apresenta algumas lacunas e pode conter alguns vocábulos rectificáveis.


Paz e saúde em Jesus Cristo que de todos é mandado remédio.
Na forma a mim possível, eu, o padre Baltazar Rodrigues da Rosa, cura neste Lugar de Barreiras, dou a resposta pedida pelos inclusos interrogatórios na forma seguinte:
É este povo da Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, termo da vila de Monforte de Rio Livre, Freguesia de S. Vicente.É donatário desta terra o Ilustríssimo senhor conde de  Atouguia e suponho que por não ter as suas doações correntes, está, a meu ver, tudo por  Elrei Nosso Senhor, que Deus guarde.Tem este povo cinquenta e sete moradores, cento e trinta e três pessoas de sacramento, trinta e nove rapazes e raparigas.Está situado em muitos altos e baixos e não se descobre deste lugar mais que a Corriça, Pádoa Freixo e casario, que são quintas da freguesia das Aguieiras e distam daqui duas léguas.Tem este povo termo demarcado que terá meia légua de largura para todas as partes.
A paroquia está dentro do lugar e não tem mais lugares nem aldeias com sua compreensão.
O seu orago é S. Vicente, altares tem dois, o maior aonde está o dito Santo, o menor que é colateral aonde está Santo Amaro, e aonde, no seu dia, há concurso de alguma gente por ser milagroso para os achaques das pernas.
O Pároco é cura apresentado pelo Abade desta Abadia, que é de S. Miguel do lugar de Fiães a cabeça dela, do mesmo termo, comarca e bispado. Tem de renda, o cura, cinquenta e sete alqueires de centeio, de ofertas mais vinte, de estipêndio meados de trigo e centeio, dez almudes de vinho, seis mil réis em dinheiro e o que lhe rende o pé de Altar.
Os frutos que aqui se recolhem com maior abundância são centeio, milho, feijões, castanhas, azeite e vinho.
Tem esta vila juiz ordinário, câmara com sujeição aos ministros da cabeça da comarca que aqui vêm fazer o serviço todos os anos.  Não tem correio e serve-se do de Chaves que dista daqui quatro léguas.Serão daqui à Cidade capital do Bispado dezasseis léguas, e oitenta, pouco mais
ou menos, à de Lisboa, capital do Reino.Têm estes moradores o privilégio local que se andar para a praça de Chaves gente como de soldado, e fugir, que lhe concedeu Sua Majestade, que Deus guarde, perdoá-lo neste o serviço.Tem dentro do povo uma fonte que lança água com muita abundância, quente de Inverno e fria no Verão, com cujas qualidades se diz médica  por não haver aqui pestes contagiosas, como nunca se recordam.
Suposto que esse grande tremor de terra na era de 1755 não fez mal considerável nem digno de reparar-se nos mais números deste interrogatório, não falo por não haver que nem no da serra, pois aqui a não há.
Entre o termo deste lugar e o das Aguieiras, passa o rio que aqui tem o nome de Rabaçal que é composto de três rios que se juntam por baixo da ponte de Vale de Armeiro que serão, daqui lá, três léguas. Um se chama rio do mesmo Vale de Armeiro, que tem seu princípio em Laxe Castro, lugar da raia entre a Galiza e Portugal; outro se chama o rio Mente que tem seu princípio em Castromil, lugar da raia entre Castela e Galiza e é principalmente na ponte do mesmo povo que se lança abundantemente. Outro se chama o rio Mousse que tem seu princípio no termo litoral do reino de Galiza. Estes rios perdem o nome em sozinhos e ficam-se chamando o rio de Rabaçal, que lhe dura até os Eixes, em cujo termo se junta em outro da mesma grandeza e se vai meter no Douro, em Foz Tua. Tem, pouco mais ou menos, de onde tem o princípio até que se mete no Douro, dezasseis léguas.
Não entra neste rio embarcação alguma por ser demasiadamente arrebatado em tempo de Inverno e passar por terra muito agreste e despenhada.Cria muitos barbos, bogas e escalos antes de se juntarem os três rios. Se ponderado também se criam trutas em todos eles. No tempo do Estio se pesca nele com redes [varredouras?], e o resto do mais ano com chumbeiras, o que se faz livremente por não ter senhor particular que o impeça.As margens deste distrito são infrutíferas, quase todas, por não terem terra que dê frutos e só no sítio da ponte da Corriça e no do Rabaçal dão azeite, milho, feijões e centeio, de tudo pouco, como também em outros sítios do Armeiro e aí nesses sítios há algumas oliveiras. Em todo o mais, não há nada e as árvores são silvestres.Neste termo não tem pontes algumas, antes muita necessidade delas que, como tem poucas entradas por ele por causa de não se poder abrir caminho, [se passa a gente o rio, porém] por lhe ficar dificulto atravessar ao não buscá-lo para as pontes que ficam longe e assim se tem afogado muita gente em barcas e muitas nas passagens de pedra. Tem este Rio moinhos chamados parcelas que não impedem embarcações por não poderem subir por ele.É o que tenho que dizer dos interrogatórios e números deles, a que, com a brevidade que me foi possível, dei a resposta que me foi pedida, hoje [3] de Abril 1758.

O Padre Baltazar Rodrigues da Rosa

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços – 3.C

ADÉRITO MEDEIROS FREITAS, Julho de 2001
Esta laboriosa iniciativa de transcrição e reprodução de fotos e esquemas do extraordinário trabalho realizado pelo Dr. Adérito Medeiros Freitas, assim divulgado através da Internet, é dirigida, em homenagem a este autor, a todos os valpacenses, transmontanos e portugueses interessados nesta temática, mas em especial aos valpacenses que se encontram deslocados há longa data da sua freguesia natal, bem como aos seus descendentes.

FREGUESIA DE ARGERIZ - C

TRANSCRIÇÃO E REPRODUÇÃO INTEGRAL AUTORIZADA PELO AUTOR
Para aumentar qualquer uma das imagens click sobre elas

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias - ARGERIZ


Por Leonel Salvado

DICCIONARIO GEOGRAFICO OU NOTICIA HISTORICA DE TODAS AS CIDADES, VILLAS, LUGARES, e Aldeas, Rios, Ribeiras, e Serras dos Reynos de Portugal, e Algarve, com todas as cousas raras, que nelles se encontraõ, assim antigas, como modernas… d’o Padre Luiz Cardoso

TOMO I
1747
[pp. 386-387]

[…]
ARGERIS, Argeris. Freguesia na Provincia de Traz os Montes, Arcebispado de Braga, Comarca da Villa de Chaves: he da apresentaçaõ do Reytor de S. Nicolau de Carrazedo. A Paroquia está fora do povo, e o seu Orago he S. Mamede, o qual está collocado no Altar mor: tem mais dous collateraes, hum de Nossa Senhora da Expectaçaõ, e outro de Nossa Senhora do Rosario. O Paroco he Cura, e tem de renda cento e cincoenta mil reis cada anno. Tem no seu destricto cinco Lugares, que são; Argeris, Pereiro, Ribas, Midões, e Valle de Espinho, e nelles tem cento e cincoenta visinhos. As suas Ermidas, saõ; Nossa Senhora do Pranto, outra dentro do povo, em que está o Santissimo, Santa Luzia, Nossa Senhora da Expectação, Nossa Senhora das Neves, e S. Gens.
Os frutos de que vivem seus moradores são; trigo, centeyo, cevada, castanha, azeite, vinho, e colhe sumagre em abundância, que vendem para outras terras.
Passa por esta Freguesia hum rio sem nome, que tendo o seu nascimento no lugar de Sarapigos, vay morrer ao rio do Crasto, correndo de Poente a Nascente: neste destricto tem duas pontes de pao, nove moinhos, cinco lagares de azeite, e nove atafonas de moer sumagre: os moradores usaõ de suas aguas livremente para a cultura dos seus campos.

In BNP, Biblioteca Nacional Digital


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 4, ARGERIZ, Chaves

Freguesia de São Mamede de Argeris
O Vigário Antonio Martins, pároco colado nesta Paroquial Igreja de São Mamede de Argeris que é termo e Comarca de Chaves do Arcebispado de Braga Primaz, satisfazendo a ordem que recebi do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral da predita Comarca para responder aos interrogatórios que com ela me foram entregues , o faço na forma e maneira seguinte.
É esta freguesia da Província de Trás-os-Montes do Arcebispado de Braga Primaz, Comarca e termo Da Vila de Chaves e freguesia de São Mamede e é terra d'El Rey Nosso Senhor.
Tem esta freguesia cento e sessenta e cinco fogos, pouco mais ou menos, terá pesoas de sacramento, quinhentos e trinta, e menores,  quarenta , pouco mais ou menos.
Está esta freguesia situada nas beiras de uns altos os quais altos constam de pedras o que comummente se lhes chama nesta terra fragas; para nascente consta de vales; e se descobre dos altos terra da vila de Monforte que dista daqui três para quatro légoas; e se descobre mais dos mesmos altos, terra de Bragança que dista daqui oito para dez léguas; e se descobre mais terra da Vila de Dona Chama, que dista daqui cinco léguas; e se descobre mais terra da Vila de Mirandela, que dista daqui quatro léguas; e se decobre mais a Serra de Siabra, que é terra de Castela e nos meses de Julho, Agosto e Setembro deixa de ter neve, que dista desta freguesia quinze para vinte léguas.

Esta freguesia do termo de Chaves tem um lugar que se chama Argeris que terá setenta e cinco fogos, pouco mais ou menos. Tem o lugar de Pereiro que terá de vizinhos, trinta, pouco mais ou menos. Tem o lugar de Ribas que terá de vizinhos, outros trinta. Tem o lugar de Midões que terá de vizinhos catorze. Tem a quinta de Vale de Espinho que tem onze vizinhos pouco mais ou menos.
Está a paróquia desta freguesia fora do lugar mas não tão distante que chegue a mais de um quarto de légua deste lugar de Argeris, onde está situada. Tem mais o lugar do Pereiro, o lugar de Ribas e a quinta de Vale de Espinho.
É o orago desta freguesia São Mamede, o qual está no altar mor da igreja, no altar colateral da parte do Evangelho, Nossa Senhora do Rosário, e  no altar colateral, da parte da Epístola, Nossa Senhora da Apresentação. E não há mais altares do que os três nomeados, como também não tem nave alguma, e tem uma Irmandade que está debaixo da invocaçam de Santo António. Este lugar de Argeris tem uma capela dentro de si, a qual se chama a Capela do Santíssimo Sacramento, administrada pelos moradores, fregueses desta freguesia, excepto o sacrário que o é pelo comendador.
É o parocho desta freguesia vigário colado, cuja apresentação pertence ao Reitor de Carrazedo de Montenegro e tem de renda, um ano por outro, trezentos certos, e incertos cento e cinquenta mil réis. Não tem beneficiados. Não tem conventos. Não tem hospital. Não tem casa de misericórdia.

Tem esta freguesia, neste lugar de Argeris, a ermida de Nossa Senhora do Pranto, situada a alguma meia légua do lugar dos moradores, aos quais pertence a administração dela. Tem o lugar do Pereiro uma ermida do Mártir São Sabastião, a ermida de Nossa Senhora da Expectação, situada no lugar de Ribas, a qual é administrada por bens que antigamente se deixou em direito, que renderaõ, um ano por outro, dez mil réis, pouco mais ou menos, e a ermida de Nossa Senhora das Neves, do lugar de Midões, que fica situada ao pé das casas cuja administração pertence aos moradores do mesmo lugar; e a outra ermida no meio da quinta de Vale de Espinho, cuja evocação é de São Gens, administrada pelos moradores da mesma quinta;
A nenhuma das ermidas acima nomeadas, acodem a elas romeiros em dia algum determinado.
Os frutos desta freguesia que os moradores recolhem em maior abundância são vinhos, cevadas, castanhas, sumagres e linho, centeio, trigo e milhão, pouco.
É esta freguesia sujeita a justiças do Juiz de fora da vila de Chaves.
Não é esta freguesia couto, cabeça de Concelho, honra ou Beetria.
Não há nesta freguesia memória de homens insignes por letras ou armas e virtudes e saber dado.
Não tem esta freguesia feira alguma
Não tem correio esta freguesia e serve-se com o de Chaves que dista daqui três léguas.
Dista esta freguesia da Cidade de Braga, capital, dezoito léguas, e da capital do reino, que é Lisboa, oitenta léguas mais ou menos.
Não tem privilégios, antiguidades ou outras coisas dignas de memória.

Não há nesta freguesia, ou perto dela, fonte ou lagoa célebre que suas águas tenham especial qualidade. Não há porto de mar.
Não é esta freguesia murada, só sim ao pé do lugar de Ribas, desta freguesia, há, num alto, umas muralhas, já demolidas, que dizem os antigos foram Cerca de Mouros. Não há castelo, nem torre.
Não padeceu esta freguesia ruína alguma no terramoto de mil e setecentos e cinquenta e cinco anos.
E não há mais de que se possa falar e memória para responder ao presente interrogatório.
Quanto às qualidades de serras, não tem esta freguesia serra alguma, nem que responder aos interrogatórios que compreende nela.
Quanto à qualidade de rios não tem esta freguesia rio algum que dele se possa fazer memória, excepto um regato chamado [o bradela?], que no inverno leva água para moer alguns moinhos.  No Verão e no estio é necessário, para regar, fazê-lo em poças, cobri-lo de poças para regar alguns frutos. E este povo de Argeris tem três fontes de água, todas de cantaria, e as águas não têm virtudes senão para beber as gentes e crias.
Tudo deferido assim afirmo ser verdade e juro in verbo sacerdotis. 


Argeris, 9 de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito anos que


Assinei, O Vigário Antonio Martins
O pároco de Santiago da Ribeira de Alharis, Manoel da Silva
O pároco de Sanfins, Manuel Álvares


Para se aquilatar da importância destes documentos para o conhecimento de importantes aspectos da sociedade setecentista portuguesa, em especial quanto à organização administrativa civil e religiosa que compunha o reino, recomendamos a análise de um excelente estudo colectivo, coordenado por José Viriato Capela em Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, cujo 3.º volume é dedicado às freguesias do Distrito de Vila Real e que contém a leitura e elaboração de índices e roteiros dos mesmos documentos e se encontra publicado em formato Pdf – Se deseja aceder a este estudo, clique AQUI.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Os condes de Atouguia e as terras de Valpaços

Por Leonel Salvado

Esta influente família da nobreza portuguesa esteve durante séculos ligada aos direitos senhoriais de um número significativo de terras que hoje constituem os concelhos de Valpaços e de Chaves. As fontes historiográficas e genealógicas que se referem à identificação dos respectivos titulares nos distintos períodos do seu domínio territorial em terras transmontanas, fornecem-nos, porém, indicações bastantes vagas e imprecisas e, por conseguinte, susceptíveis de interpretações erróneas.
Convém que se diga, em primeiro lugar que o título nobiliárquico dos condes de Atouguia só aparece por decreto de D. Afonso V de 17 Dezembro de 1448, em favor de D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, que viveu entre cerca de 1390 e 1452, em reconhecimento dos serviços militares que este triunfalmente prestou àquele monarca, de quem aliás foi aio, e ao duque de Bragança, contra D. Pedro o Regente, na dramática batalha de Alfarrobeira, passando assim a ser, Álvaro Gonçalves de Ataíde, o primeiro conde de Atouguia, e nomeado ainda alcaide de Atougia e mais tarde de Coimbra. Este primeiro conde de Atouguia foi filho de Martim Gonçalves de Ataíde, alcaide-mor de Chaves e de Dona Mécia Vasques Coutinho, aia dos infantes da “ínclita geração”, mas, ao contrário do que por vezes se pensa, o primeiro conde de Atouguia, não sucedeu ao pai na guarda da praça de Chaves, antes se vira nomeado, entretanto, alcaide de Vinhais e de Monforte do Rio Livre. Julgo ter começado por essa época a esboçar-se o senhorio dos Ataídes nas terras do termo de Monforte e de algumas das que actualmente integram o concelho de Chaves. Importa ainda referir que este título nobilárquico terminou em 1759 quando D. Jerónimo de Ataíde, 11.º conde de Atouguia, envolvido no processo dos Távora (decorrente da conspiração do assassinato de D. José I) foi nesse ano condenado e executado e extinto o título, apesar do perdão que o príncipe regente D. João, futuro D. João IV, decretou em favor de seus filhos a 20 de Novembro de 1800, passando a representação da Casa para a Casa do Conde da Ribeira Grande.
Ainda a respeito dos condes de Atouguia, parecem-me verosímeis os informes que nos deixaram os genealogistas e outros compiladores acerca do seu vasto domínio territorial em todo o país, nas ilhas e em Trás-os-Montes (tanto em Monforte como em Vinhais, como aconteceu com D. Luís de Ataíde, 5.º Conde de Atouguia e seu filho, Jerónimo de Ataíde, Governador das Armas de Trás-os-Montes na época da Restauração, um dos protagonistas do respectivo golpe de Estado e um dos proeminentes confirmantes do “Auto do Levantamento e juramento d’El Rei D. João IV”).
Nem sempre os nomes que figuram nas relações dos titulares desta poderosa família nobiliárquica em várias compilações e documentos genealógicos, se afiguram condizentes, mas dos direitos jurídicos que os condes de Atouguia exerceram durante cerca de sete centúrias sobre algumas terras transmontanas (até aos meados do século XVIII) parece não existir a mínima contestação.
Surgem, por exemplo, referências aos condes de Atouguia desde 1527 (Cadastro da População do Reino) atribuindo-lhes os senhorios de terras do concelho de Valpaços, como acontece com D. Afonso de Ataíde (apontado como o 3.º conde de Atouguia), em relação ao lugar de Fornos do Pinhal, sucendendo o mesmo em registos dos primórdios do século XVIII, nos quais se diz que foram senhores da antiga abadia de Santa Valha e lugares adscritos, como Fornos do Pinhal, e comendadores na Ordem de Cristo de S. João de Castanheira, também conhecida como “Cima de Villa” (integrando lugares como Lebução, Ferreiros, Parada e Ribeira, Sanfins, Aveleda e Vales, Pedome e Moreiras), e de Oucidres (abrangendo os lugares de Alvarelhos, Lama de Ouriço, Monte de Arcas e Tinhela) e ainda, nos meados da mesma centúria, referentes à abadia de Santa Valha (haja em vista a nossa publicação sobre as aldeias do concelho de Valpaços que foram abadias e comendas da Ordem de Cristo, transcrição da “Corografia Portuguesa” do Padre António Carvalho da Costa, de 1706, e do “Dicionário Geográfico” do Padre Luiz Cardoso, de 1747, bem como das Memórias Paroquiais, de 1748, que temos transcrito na categoria “Documentos Históricos”).
Importa fazer um comentário à referência do Padre António Carvalho da Costa quando, reportanto-se às Comendas de S. João de Castanheira ou de “Cima de Villa” e à Comenda de Oucidres, afirma expressamente que é delas comendador António Luiz de Meneses; cruzando esta afirmação com a da Memória paroquial de Alvarelhos de 1758, onde se indica ser este lugar da Reitoria de Santo André de Oucidres, o respectivo pároco refere ser seu donatário o conde de Atouguia depreendendo-se, deste modo, que aquele António Luiz de Meneses seria um dos ditos condes, o que pode parecer estranho, posto que surge o apelido Meneses em lugar de Ataíde, dominante nesta família. Não me parece que àquela data o abade de Alvarelhos se referisse a D. António Luís de Meneses, que foi primeiro marquês de Marialva e 3º conde de Cantanhede e que faleceu em 1675, portanto 83 anos antes nem ao descendente deste, seu homónimo, nascido em 1743 e falecido em 1807, que foi conde de Atalaia e Marquês de Tancos, o primeiro por evidente anacronismo e o segundo por falta de provas documentais que o corrobore. Em mais rigor cronológico será de aceitar que o comendador de S. João da Castanheira e de Oucidres a que se refere o Padre Carvalho da Costa seja Jerónimo Casimiro de Ataíde, 9.º conde de Atouguia, falecido em 1720, e cujo filho e 10.º conde de Atouguia foi Luis Pedro Peregrino de Carvalho e Meneses de Ataíde que exerceu as funções de vice-rei do Brasil entre 1749 e 1755 (o nome integra curiosamente “Luis” e o apelido de “Meneses”). E quanto ao conde de Atouguia dado pelo abade de Alvarelhos na Memória paroquial de 1758 foi, certamente, o já referido Jeronimo de Ataíde, filho daquele, 11.º e último dos condes de Atouguia, supliciado em Belém no ano seguinte à redacção da Memória.
As terras que constituíam os domínios dos condes de Atouguia, passaram, após a extinção do título dos condes de Atouguia, na sequência do “processo dos Távoras”, a estar sujeitas à já conhecida evolução administrativa condicionada pelas grandes reformas da era liberal das quais resultou a extinção dos concelhos de Monforte do Rio Livre e de Carrazedo de Montenegro em favor da criação do concelho e comarca de Valpaços, a que já fizemos algumas referências aqui no Clube de História de Valpaços.
É justamente este predomínio da Casa de Atouguia sobre as terras de Monforte de Rio Livre, bem como da sua queda e perda dos seus bens em favor da Coroa, juntamente com a Casa de Távora, na sequência da conjura no atentado contra D. José, que José Viriato Capela e seus colaboradores concluem do estudo efectuado às “memórias paroquiais de 1758”. A situação da Casa de Murça e do concelho de Água Revés teve o mesmo fim, e pela mesma altura, mas neste caso por mera falta de descendência do seu último titular João Guedes de Miranda e Albuquerque.

«Do ano de 1759 por efeito daconjura contra D. José I, data a extinção da Casa dos Távoras – que vai buscar o essencial dos seus rendimentos (quase 75%) à Província de Trás-os-Montes e também da Casa de Atouguia, cujas jurisdições – Alijó, Favaios, Galegos, Lordelo, Monforte – e rendas seriam integradas na Coroa e Fazenda Régia. […] As informações dos párocos permitem identificar os senhorios donatários das câmaras das terras, à data de 1758, o que significa que os párocos conhecem o titular do poder político dos concelhos que residem quase sempre em Lisboa. Tal reconhecimento decorre muitas vezes certamente do facto de estes donatários serem também muitas vezes comendadores das igrejas da região e portanto com grande proximidade de relações entre donatarias-comendadores/padroeiros e párocos. De entre os Grandes do Reino, donatários/senhorios de concelhos na Província, contam se os que se seguem e se listam na tabela da página seguinte. Fixamos aqui tão só os de Vila Real. À Casa de Marialva/Cantanhede e ao seu Marquês de Marialva e Conde de Cantanhede pertencem a donataria de Atei, Cerva, Ermelo, Mondim de Basto; à Casa de Abrantes/Penaguião, à Marquesa de Abrantes, Condessa de Penaguião, Duquesa de Fontes e Camareira-mor pertencem a donataria de Fontes, Godim, Moura Morta, Penaguião, Peso da Régua; à Casa de Távora, ao Marquês de Távora, pertencem Alijó, Lordelo, Favaios; à Casa de Atouguia, ao Conde de Atouguia, pertence Monforte de Rio Livre; e à Casa de Vila Flor, o senhorio de Parada de Pinhão. À Coroa, directa ou indirectamente pelas Casas de Bragança e Casa do Infantado pertence um elevado número de concelhos e jurisdições. À Casa de Bragança pertencem, Chaves, Montalegre, Couto misto de Barroso, Meixedo, Gralhas, Padornelos, Padroso, Vilar de Perdizes, Tourém; à Casa do Infantado, Vila Real, Vila Pouca de Aguiar, Ribeira de Pena. E ao tempo da redacção das Memórias Paroquiais desde 1758, na sequência da conjura contra D. José I, iriam ser agregadas à Coroa os domínios da Casa de Távora e Atouguia. Como por falta de descendência está a Coroa também a tomar posse das jurisdições da Casa de Murça, do concelho de Água Revés (de que tomaria posse em Fevereiro de 1758, anota o Memorialista e também de Murça).»
In Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, vol 3, Braga, 2006, Link