segunda-feira, 10 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – LILELA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Lilela, hoje uma pequena aldeia anexa à freguesia de Rio Torto, já foi sede de antiga freguesia e assim se mantinha em 1758, como o atesta o respectivo pároco memorialista, então vigário apresentado pelo Reitor de S. Pedro de Rio Torto. Por essa razão entendi só agora apresentar aqui o documento das “Memórias Paroquiais” que lhe diz respeito, a seguir ao daquela freguesia, recentemente publicado, em detrimento da conveniente ordem alfabética estabelecida, como aliás já aconteceu noutros casos.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 20, LILELA, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 20 n.º 86, p. 649 a 654]

O que se procura saber desta terra.
Digo que é da Província de Trás-o-Montes, Arcebispado de Braga, termo da Vila de Chaves, da Comarca de Chaves, freguesia de São Lourenço de Lilela.
É d’el Rei Nosso Senhor, que Deus guarde, esta terra. Quanto ao que pertence aos frutos da renda é Comenda do Senhor Conde de São Lourenço. A igreja é dada ou apresentada pelo Reitor de Rio Torto.
Quanto aos vizinhos, tem setenta vizinhos esta freguesia e pessoas tem cento e oitenta, excepto os meninos.
Quanto ao sítio, está posta esta igreja em um baixo cujo lugar se chama Lilela e passa uma ribeira pelo meio do povo e não se descobre dele outro lugar.
A igreja fica dentro do lugar de Lilela e a esta freguesia pertence um lugar chamado a Póvoa e também pertence a esta freguesia a quinta de Leirós que tem dois moradores nela. O orago é São Lourenço. Na Paróquia estão três Altares, o maior de São Lourenço, o colateral da mão direita é da Senhora do Rosário e o da mão esquerda de Santo António. O pároco é vigário ad nutum de São Pedro de Rio Torto e tem de renda quinze mil e seiscentos réis, trinta e dois alqueires de trigo, trinta e dois almudes de vinho, digo poderá chegar a sessenta ou setenta mil réis todo o rendimento dela e muitos anos não chega a eles.
Neste lugar de Lilela há uma ermida de Nossa Senhora dos Milagres junto do povo e fora dele; pertence à freguesia. E no lugar da Póvoa está a capela de São Sebastião; pertence aos moradores do dito lugar e fica fora do povo. E na quinta de Leirós, desta freguesia, se acha a capela da Senhora da Conceição; pertence esta a uns morgados, cavaleiros de Bragança, chamados os Malangas. Somente a São Lourenço de Lilela acode romagem, aos dez de Agosto, e é orago desta freguesia.
Os frutos da terra são azeite bastante, mas vendidos a homens de fora, centeio, algum trigo e feijões e também algum vinho.
Aqui estão sujeitos à justiça de Chaves que há juiz de fora desta Vila. Quanto ao correio aqui se servem do de Chaves que fica distante cinco léguas.
Dista esta freguesia de Braga, que é cabeça, dezoito léguas e de Lisboa [? - costura apertada]. Não tem muros, nem castelo, nem torres. Não padeceu nada do terramoto [de 1755].

O que se procura a respeito desta Serra.
Há uma serra chamada a serra de Santa Comba por estar nele Santa Comba, que é de outra freguesia e pega com o termo do lugar de Póvoa desta freguesia; por outro nome lhe chamam a serra do Rei de Orelhão. Tem duas léguas de comprimento e légua e meia de largura. Principia no termo do lugar da Póvoa, desta freguesia, e se acaba, o mais à frente, no distrito de Franco, porém dizem que vai continuando até junto de Passos. O principal braço dela chama-se Santa Comba. Nela somente nasce um regato chamado Cabreiro que não tem propriedades naturais; corre de poente para nascente e se mete no rio chamado Tua.
Na serra não há lugar nenhum. Fica ao pé dela um lugar chamado a Póvoa, desta freguesia. Fica Rio Torto entre Norte e Nascente; fica Suçães ao nascente; fica S. Pedro de Veiga de Lila ao Norte; fica a freguesia de Vales a poente; fica a Vila chamada Lamas de Orelhão e um lugar chamado Franco do Sul.
Não se acha alguma fonte de propriedades [raras] nela. Somente consta que tenha sorgos, carvalhos e giestas; não tem nela ervas de medicina.
Na dita serra há Santa Comba e São Leonardo, cada um com sua capela, mas juntas. Costuma haver romagem à de Santa Comba no dia de São Silvestre, no dia último de Setembro e no dia dez de Agosto, aonde sucede haver algumas bulhas e discórdias. Esta capela é da freguesia de São Nicolau dos Vales.
Quanto ao temperamento é fria bastante e costuma carregar-se de neve e gelo no Inverno.
Nesta serra se criam muitos lobos, porcos monteiros, coelhos e perdizes, algumas, e nada mais que raposas. Não sei se tenha lagoa, só sim alguns fojos medonhos e também um poço de caçar lobos e porcos monteiros. E nada mais digno de reparo.

O que se procura a respeito do rio.
Por este povo de Lilela passa uma ribeira de água e não tem nome próprio. Começa no termo do lugar de Jou e passa por dentro do lugar de Veiga de Lila e por Canaveses e se mete em um rio maior no fim do termo deste povo. Alguns anos seca pelo tempo do Verão.
No que respeita ao rio se chama Rabaçal que principia em Galiza e corre para o Douro. Não é de navegações. Tem algumas represas de moinhos e azenhas e tem o curso arrebatado em certas partes. Corre de Norte a Sul. Cria peixes de castas pequenas.
Tanto o rio como a ribeira não têm pescarias certas, mas sim de quem quer caçar. Têm algum arvoredo mas pouco. É cultivado de caminhos. Perde o nome quando passa pelo termo de Miradeses, o do rio, e se chama de rio Tua e vai dividindo entre o Bispado de Miranda e de Braga e passa dividindo entre o termo da Vila de Chaves e o de Mirandela. Tem duas cachoeiras e passa por um lugar chamado o Cachão e junto dele tem uma ponte no lugar de Vale de Telhas, em Mirandela, toda de pedra. Não sei que tenha lagar de azeite, nem pisão. Não sei de que nele se tirasse ouro. Os povos usam livremente de suas águas. Terá, quando passa pelo termo de Lilela mais de dez léguas. Quanto será daqui ao Douro, não o sei. Este tal rio chamado Rabaçal corre longo e se passa em barcas em muitas partes e alguns dias se não pode andar com elas por serem as águas muitas.

É o que posso dizer deste rio, a serra e o lugar e não sei outra coisa de que possa dar notícia e de como tudo o que foi o declaro por mim dito, o que juro ser verdade in verbo sacerdotis, hoje, Lilela, doze de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito anos.

O vigário, Padre Vicente Martins

O encomendado de Rio Torto, João Álvares
O pároco de Crasto, João Lopes 

domingo, 9 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – RIO TORTO

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 32, RIO TORTO, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 32, n.º 136, p. 821 a 823]

Terra e Comarca de Chaves, Arcebispado de Braga.
Esta freguesia de São Pedro de Rio Torto é do Termo de Chaves e Arcebispado de Braga. Dista de Chaves cinco léguas, de Braga vinte e de Lisboa setenta. Compõe-se de dois bairros, oitenta fogos e duzentas e trinta pessoas maiores de doze anos.
Tem a igreja três Altares e dois colaterais. No maior está o Santíssimo e a imagem do Orago; nos colaterais, em um, Santo António, e no outro, Nossa Senhora do Rosário. Há mais duas, digo três capelas no Lugar, uma no bairro de Cima, de São Caetano cujo administrador e fabricante é Dona Romila da cidade de Braga e duas no bairro de baixo que são uma de São Sebastião e outra de Nossa Senhora da Anunciação cuja fábrica pertence aos moradores. Há mais na igreja três Confrarias, a do Santíssimo, a de Santo António e a das almas com a protecção da Ascensão do Senhor.
É esta igreja Reitoria dada da Mitra e rende para o pároco, cada ano, ad summum de setenta até setenta e cindo mil réis. Apresenta três curatos: o e Miradeses (o orago deste é São Sebastião), o de São Lourenço de Lilela e o da Vila de Prechas, cujos frutos são unidos a uma mesma comenda de que é Comendador o Ilustríssimo Conde de São Lourenço. Anda esta comenda arrendada por um conto e trezentos mil réis.
Está o sobredito lugar situado em uma planície baixa e angusta e rodeada de altos, por isso demasiadamente cálida. Tem o termo e distrito deste lugar três léguas em circunferência. Todo se cultiva, menos alguns altos e fragas que produzem algumas, poucas, lenhas para uso dos moradores.
Colhem-se no dito termo muitos frutos, como são azeite, trigo, vinho, cevada, centeio, pardas, castanhas, melões, melancias, repolhos, pimentos, grãos-de-bico e outros mais legumes.

Corre pela parte do Norte, quase próximo ao lugar, um rio de poucas águas no Verão, mas no Inverno bastante caudaloso, criando nele barbos, bogas, escalos e lúcios. Tem este, próximo ao lugar, uma ponte de cantaria com cinco arcos. Este rio tem sua base e princípio em uma fonte que chamam de unha da serra de Montenegro distante deste lugar três léguas e meia. Faz sua corrente de Norte a Sul até que entra no sobredito termo e aqui vira ao Nascente e no espaço de uma légua, digo dali a uma légua se mete em outro de maior grandeza que se chama Rabaçal que tem princípio no Reino de Castela. Este rio de Rio Torto na sua corrente faz muitas voltas e torcicolos e daqui se infere tenha este lugar o nome de Rio Torto.
No que respeita às antiguidades dignas de memória, não há mais que um cabeço alto perto e à vista do Lugar, em direitura do Norte, [aonde] se vêem uns vestígios das ruínas de uma fortaleza dos romanos ou mais antiga. Aqui neste sítio se tem achado relógios de ouro e dizem, é tradição, que também se acharam pratos de prata.

Não há mais coisa alguma de substância que se haja de referir e responder aos artigos da mesma nem coisa de que se haja de fazer descrição, só sim declaro que o dito termo confina com o de Valpaços, de Valverde, Cachão, Crasto, Lilela, Póvoa e Rio Rabaçal.
O que afirmo sub salvis e assino esta, que escrevi hoje em Rio Torto, catorze de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito e, comigo, os párocos abaixo nomeados.

O Encomendado,
João Álvares

O Pároco de Miradeses, Manuel Lopes
O Pároco de Nossa Senhora das Neves, Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo

Che Guevara morreu há 44 anos


No dia 9 de Outubro de 1967 morria na aldeia de La Higuera, Bolívia, onde fora capturado um dia antes, sendo executado a tiro por um soldado boliviano, aquele que foi considerado pela revista norte-americanaTime Magazine uma das cem personalidades mais importantes do século XX – Ernesto Guevara de la Cerna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che, devido ao seu constante uso do vocativo gaúcho “che”...
Rever nossa publicação de 2010 por ocasião do 43.º aniversário da sua morteAQUI.

750.º Aniversário do nascimento de D. Dinis, rei de Portugal


D. Dinis I de Portugal (Lisboa [?], 9 de Outubro 1261 — Santarém. 7 de Janeiro de 1325) foi o sexto rei de Portugal. Filho de D. Afonso III e da infanta Beatriz de Castela, neto de Afonso X de Castela, foi aclamado em Lisboa em 1279. Viveu 63 anos e desses 46 passou-os a governar os Reinos de Portugal e do Algarve, tendo subido ao trono com 17 anos…



Rever nossa publicação de 2010, por ocasião do 749 aniversário do seu nascimento

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – POSSACOS

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 30, POSSACOS, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 30, n.º 236, p. 1813 a 1816]

Relação dos interrogatórios que se perguntam saber desta terra, são os seguintes.
É esta terra da Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de Braga, Comarca e Termo de Chaves e Freguesia de Poçacos, orago de Nossa Senhora das Neves.
É do duque de Bragança e lhe paga foros. Tem este lugar de Poçacos oitenta e cinco vizinho e duzentas e setenta pessoas de sacramento.
Está situado em uma terra plana e tem, no meio, uma laguna com uma fonte no meio que dá água bastante para o povo e descobre-se dela a metade do Bispado de Miranda, como é a Serra de Bornes e a Vila de Mirandela. Tem termo seu e tem légua e meia, em redondo, e compreende e vêm à missa a este lugar a quinta de Cachão que tem doze vizinhos. Está a igreja fora do lugar ao redor das casas em um cabeço cheio de oliveiras. Tem este lugar de Poçacos e a quinta de Cachão de freguesia. É orago de Nossa Senhora das Neves e tem três Altares, o maior de Nossa Senhora e dois colaterais, um de Santo António e outro de Santo Cristo. É o pároco vigário ad nutum e é apresentação do pároco de Santiago da Ribeira de Alhariz. Tem o pároco dez mil réis de côngrua e de cada freguês uma oferta de pão centeio.
Não tem beneficiados. Tem duas capelas dentro do lugar, como a de Santo António que a administra Maria Machada, deste lugar, outra de Nossa Senhora da Assunção que a administra Domingos Martins, deste lugar. Não acode a elas romagem.
Os frutos da terra são pão centeio, com abundância, vinho do superlativo e azeite, tudo com abundância.
Tem juiz espedanio [pedâneo] que está sujeito ao juiz de fora, de vara branca, da Vila de Chaves. Não tem couto nem coisa que o valha.
Saiu deste lugar um Doutor formado em Coimbra chamado João Lopes Martins.
Serve-se do correio de Chaves que dista deste lugar quatro léguas.
Dista esta terra da cidade do Arcebispado dezoito léguas e da de Lisboa, capital do Reino, dista setenta léguas.
Tem privilegiados e paga foros à Sereníssima Casa de Bragança. Abriu-se um interior com o terramoto de 1755.

Não há serra, só está situado, este lugar, de umas fragas que tem muitos sobreiros que dão muita cortiça que dá muito dinheiro e se gasta bem e tem este sítio um sumidouro em que corre a água por baixo da terra um quarto de meia légua, e nada mais.

Passa por esta terra uma ribeira que vem de Vale de Casas. Esta corre com bastante curso por todo este termo e tem moinhos bastantes de centeio. E tem esta um arco de pedra por onde se passa para o Bispado de Miranda e é de pedra lavrada e, dizem, tinha este dois padrões feitos à romana; um foi para Vale de Telhas e outro, dizem, veio para este lugar. Esta ribeira se mete logo dentro deste termo em um rio chamado rio Rabaçal que traz seu nascimento do Reino de Galiza e corre por este termo pela estremadura do Bispado de Miranda. Corre uma légua  e bastantemente caudaloso. Não é navegável por causa do muito fragaredo que tem e passa em uma ponte de Vale de Telhas para o Bispado de Miranda.
Cria este rio peixes em abundância como são bogas, escalos e barbos, tudo em abundância, e se pesca nele livremente. Não se cultivam as suas margens por serem penhascosas e todo o ano corre com bastante curso e arrebatado e corre de Norte para o Sul e se mete em outro rio chamado o Tuela, por cima de Mirandela, e caminha para o Douro e tem moinhos bastantes.
Tem este rio uma légua de comprido nesta terra.

Não há nada mais que dar conta e, posta na verdade, fiz e assinei.

(Declaro que há mais nesta freguesia um sítio que chamam a Fraga da Senhora em redor deste lugar que dá pedra de cantaria tal como da pedraria que se foi daqui para Chaves, que são quatro léguas, para as obras do Hospital de Sua Majestade)

Eu, o Padre Baltazar Fernandes, vigário desta igreja de Nossa Senhora das Neves do lugar de Poçacos, com os dois párocos mais vizinhos, o Reverendo vigário de Valpaços e o Reverendo vigário de Vassal, o que afirmo in verbo sacerdotis, hoje em Poçacos, aos 3 de Abril de 1758.

O Pároco, Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo
O Vigário Dâmaso Osório de Queiroga
O Vigário, Padre Francisco Pereira de Aial

440.º Aniversário da Batalha de Lepanto


É considerada a maior batalha naval da História no Mar Mediterrâneo, depois da de Actium, em 31 a. C., e participaram naquela alguns portugueses, deixando marcas na nossa tradição oral. Trata-se portanto de uma data comemorativa de relevância universal e nacional que entendemos dever recordar aqui, mais uma vez.
Para rever o significado e a importância deste evento, de que fizemos eco por ocasião do seu 439.º Aniversário, click AQUI.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma visita ao Solar dos Morgados de Vilartão

Por Leonel Salvado


Correspondendo a um convite que nos foi graciosamente dirigido, fizemos uma visita ao Solar dos Morgados de Vilartão, situado na freguesia de Bouçoais no concelho de Valpaços. Este belo conjunto do património histórico edificado do concelho encontra-se em admirável estado de recuperação, graças ao espírito de iniciativa, energia e paixão pelas coisas da História que vimos transparecer da pessoa do seu actual proprietário, nosso afável e esclarecido cicerone, o Dr. Joaquim Malvar de Azevedo, oriundo de uma conceituada família de Vila Nova de Famalicão, em companhia de sua prestimosa esposa que é uma das descendente dos morgados de Vilartão e uma das herdeiras do vasto património da ilustre família dos Morais Soares, grande parte do qual teve de ser por eles readquirido pela compra, dada a sua dispersão ao longo dos tempos que se seguiram à extinção dos morgadios nos primórdios da era liberal. Trata-se de um amplo espaço de indescritível riqueza arquitectónica tanto no seu exterior como no interior do corpo do edifício, onde se respira história em cada um dos seus recantos e do imenso mobilário, enfim, um espaço revigorante para quem se disponha a entregar-se ao prazer de descobrir neste recôndito lugar de Trás-os-Montes uma riqueza patrimonial que não ficará muito a dever um grande número de sublimados solares e palácios-museu que recheiam os roteiros turísticos do país e movimentam multidões de visitantes, um solar de uma prestigiada linhagem aristocrática da Província que fez a história de Trás-os-Montes e onde coexistiram, e ainda coexistem, elementos arquitectónicos de épocas distintas de extraordinário interesse que vão desde século XVII ao século XX, em maior ou menor conformidade com os estilos de influência europeia rigorosamente definidos nos tratados de arquitectura de cada uma dessas épocas, a par com outros elementos tipicamente transmontanos.
Tivemos a oportunidade de constatar, sob orientação do Dr. Malvar de Azevedo, que na construção do solar no início do século XVII por determinação de Álvaro de Morais Soares  -filho de Aleixo Gonçalves Soares e de D.ª Helena de Góis, de Vinhais, que casou em Vilartão com D.ª Maria Teixeira, filha Gaspar de Lobão, cavaleiro na Ordem de Cristo - quem instituiu o morgadio que perdurou por sete gerações, houve a preocupação em se aproveitar uma construção mais antiga inserida num pátio também certamente de construção mais antiga, provavelmente da época medieval, que actualmente é chamado de pátio grande ou das cavalariças, um espaço amplo e constituído por colunas de secção rectangular de generosas proporções e é tida como a ala mais antiga de todo o conjunto arquitectónico e, portanto anterior ao corpo principal do edifício setecentista que passou a compreender mais duas alas resultando numa estrutura em “U” com três pátios. Uma destas alas destinava-se aos serviços de cozinha com outras dependências e foi na entrada para este espaço que, já no século XX, o célebre Doutor Armando Morais Soares carinhosamente apelidado de “o último Doutor João Semana”, em homenagem e simpatia pela abnegada dedicação a que se entregou no tratamento dos seus doentes mais pobres e necessitados, que dividiu o compartimento para instalar o seu consultório. Desnivelada em três degraus do corpo principal, como era comum na época, a cozinha do solar é verdadeiramente admirável, compreendendo uma copa e uma dispensa e uma entrada independente. Outra ala, que integra uma parte de construção mais antiga a que atrás nos referimos, foi construída com o fim de acomodar a criadagem e a funcionar, também, como sala de arrumos. No corpo principal admirámos as sumptuosas salas de recepção dispostas em linha de que se destaca a câmara-mor. O centro desta câmara, onde se encontrava a cama dos morgados, estava alinhado através da ampla janela com o altar da capela do solar que foi mandada construir pelo mesmo Álvaro de Morais Soares em 1644, mais uma preciosidade arquitectónica em estado de ruína mas que, segundo o Dr. Malvar de Azevedo, se prevê para breve a sua recuperação. Ainda relativamente ao edifício do solar, se as alterações à planta original até à actualidade foram pouco significativas, o mesmo já não se dirá dos telhados, pois como observa o Dr. Malvar, estes originalmente seriam em forma de pirâmide mais ajustados aos tectos em masseira e cobertos com telhas fabricadas no próprio morgadio.
Cumpre ainda fazer uma referência à existência de um arquivo constituído por variada documentação, desde documentos de correspondência relativamente recentes, tendo em conta a antiguidade do solar, e fotografias antigas da família.
Para finalizar, devo dizer que foi uma honra e um prazer pessoal conhecer este grandioso exemplar da riqueza patrimonial que podemos achar no concelho de Valpaços e um prazer também conhecer as pessoas cujo espírito de determinação de coragem e apego ao seu património, que do ponto de vista histórico e cultural é de toda a comunidade local, regional e nacional, que são o Doutor Joaquim Malvar de Azevedo e sua esposa. Para eles vai a nossa gratidão pela oportunidade que nos ofereceram para conhecermos o Solar dos Morgados de Vilartão e para todos os valpacenses vai a nossa recomendação para que se disponham a conhecê-lo também.

Para já, sugerimos que façam uma visita ao blogue do Solar, começando pela sua página incial, AQUI.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – NOZELOS

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 16, NOZELOS, Monforte de Rio Lima (leia-se NOZELOS, Monforte de Rio Livre)
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 25, n.º (N) 42, p. 293 a 302]

Resposta de um papel que me veio remetido do Muito Reverendo Senhor Doutor Arcipreste Abade de Monforte e me foi entregue por António de Morais, deste Lugar, no qual se contém setenta interrogatórios em três capítulos dos quais […] respondo:
A Província em que fica este lugar que se chama Nozelos é a Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, termo da Vila de Monforte e Freguesia de Nossa Senhora da Expectação.
O Senhor desta terra e das mais de seu estado é o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Atouguia e o Senhor Donatário é o Excelentíssimo Senhor Conde de Valadares.
Este lugar, de onde vai este papel, chama-se Nozelos que se compõe de cinquenta e nove fogos e duzentas e seis pessoas. Este lugar está situado em uma terra que não é propriamente vale por estarem muitas moradas dela situadas em pedra dura e levantado em um alto que de todas as partes há ladeiras para subir a ele e da parte do nascente corre um ribeiro, na distância de três tiros de bala, que tem seu nascimento no termo de Cimo de Vila de Castanheira, freguesia de São João Baptista, no sítio do Pereiro, e da parte do Norte tem outro ribeiro que tem seu nascimento no termo do lugar de Bobadela onde chamam a serra da cortiça, distante deste lugar meia légua, o qual passa distante das últimas casas a um terço da mesma, e para a mesma parte do Norte se descobre o lugar de Tronco, freguesia de São Tiago, distante deste quase meia légua, e para o do Sul se descobre a igreja de São Miguel, do lugar de Fiães, distante deste meia légua, e não se descobrem deste mais povoações por causa de um outeiro que tem para a parte do Sul que impede descobrirem-se mais algumas, excepto a de Tinhela, que dista daqui meia légua por uma ribeira abaixo, que é propriamente vale.
Este lugar tem termo seu (e é termo da Vila de Monforte, distante deste uma légua) que tem aonde é mais amplo quase meia légua em circuito composto de terras lavradias, vinhas, lameiros, castanheiros e árvores infrutíferas que nesta terra se chamam por vários nomes, como são carvalhos, amieiros, salgueiro e sangrinhos e não compreende lugar nem aldeia alguma e o mais fica expressado [supra].
A Paróquia está dentro do lugar, no meio dele, e não compreende lugares nem aldeias a mais do que fica expressado, nem deste tenho mais que dizer.
O seu orago é Nossa Senhora do Ó, chamada por outro nome de Nossa Senhora da Expectação, e tem três Altares, dois colaterais e o Maior, aonde está a imagem da mesma cuja festa se celebra aos dezoito do mês de Dezembro com oito ou dez clérigos, e no mesmo Altar está a imagem de São Caetano cuja festa se celebra aos dez dias do mês de Agosto, e da parte da Epístola está o Altar de Santo António cuja festa se celebra aos treze de Junho, e  no mesmo Altar está a imagem de São Brás, aonde se lhe faz uma missa cantada com quatro clérigos com alguma limitada esmola que lhe traz algum romeiro no seu dia. Da parte do Evangelho está o Altar de Nossa Senhora do Rosário cuja festa se celebra no segundo Domingo de Outubro, conforme o zelo dos mordomos e todas as imagens são de vulto e está também neste Altar a imagem de Santo Amaro cuja festa se celebra no dia quinze de Janeiro, aonde vêm, nesse dia, muitos romeiros, principalmente velhos, a rezar à dita imagem onde trazem algumas esmolas que recolhe o mordomo para fazer a festa. E não há mais altares e estes estão todos compostos com asseio e limpeza, tendo todos os retábulos dourados e os mais ornatos condizentes. Não tem naves, somente tem, da parte do Evangelho, uma Sacristia aonde se conservam com asseio os ornatos da dita igreja e não tem Confraria alguma, nem Irmandade.
O Pároco é cura confirmado e quem o apresentou foi o Reverendo Reitor de Oucidres cujo Benefício é do mesmo e renderá cento e cinquenta mil réis e este curato renderá cinquenta mil réis.
Os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância é o pão de centeio e algum trigo e vinho, sendo dos mais estimados e melhores desta Povíncia, castanhas, milho, feijão, ervanço e de todos os renovos que nesta terra se chamam do Verão.
Tem juiz ordinário, vereadore e, almotacés de cujo corpo se compõe a Câmara de fazem audiência na Vila de Monforte na Casa da Câmara, onde há cadeia para os delinquentes e a estes, juntos, se sujeita a gente desta terra e ao Doutor Corregedor da Torre de Moncorvo.
Esta terra não tem correio e se serve do de Chaves que chega ali na Quarta-feira, pelo meio-dia, e parte ao Domingo de tarde e dista desta terra três léguas.
Este lugar dista da cidade capital deste Bispado, que se chama Miranda do Douro, dezoito léguas, e da capital deste Reino setenta e cinco.
Há na Vila de Monforte, cabeça desta terra, um castelo e a fortificação e estado em que se acha descreve o Reverendo Abade de Monforte que tem as casas junto a ele.
Não tenho notícia de que nesta terra se arruinasse templo nem casa alguma no terramoto de 1755. Não há nesta terra coisa alguma digna de memória.

Há nesta terra alguns montes de lenhas com várias árvores cujos nomes são castanheiros, carvalhos, amieiros, salgueiros, sangrinhos e algumas árvores de fruto como são pereiras, macieiras, amoreiras e nestes montes se vêem vários lobos, porém não se criam nestes por serem os matos raros, e também neles se criam raposas, lebres, coelhos e perdizes e várias castas de aves como melros, rolas, corvos, bubelas, carriças e rouxinóis. Não há neste montes coisa especial de que se possa fazer reflexo, pois cada um tem seu dono e assim os não deixam fazer pastos de sorte que neles se criem ovelhas que possam causar deformidade.
Nesta terra não há rio. Nesta terra há dois ribeiros, os quais correm girando este lugar, um pela parte do Nascente e outro pela do Norte, e ambos se juntam no termo deste lugar no sítio chamado as Olgas e o que corre pela parte do Nascente tem o seu nascente daqui na distância de uma légua, no sítio chamado de Pereiro, termo de Cimo de Vila de Castanheira, freguesia de São João Baptista, e corre por terra infrutífera, porém os moradores de Cimo de Vila lhe divertem as águas para limarem os prados e Linhares com ela e o mesmo fazem os moradores da quinta de Pedome, que corre distante dela dois tiros de pedra, e entrando neste termo tem o mesmo efeito de limar os prados e linhares deste termo até onde se junta com o que corre pela parte do Norte para o Sul e, juntamente, nele há duas casas de moinhos, cada uma com duas rodas, para centeio e trigo, que moem ordinariamente desde o mês de Dezembro até ao de Maio e nele há umas castas de peixes que nesta terra se chamam escalos, os quais se extinguiram pela grande seca, porque no estio é preciso buscar algum poço mais fundo para nele beberem os gados e, assim, não cria senão escalos, rãs e cágados. Este tem o nome de ribeiro de Pedome porque passa somente na quinta chamada Pedome e tem um pontão de três traves de pau cobertas com pedras. E o que passa pela parte do Norte que nasce no sítio chamado da serra das cortiças, do termo de Bobadela, daqui distante meia légua, é mais pequeno, porém com mais substância e é mais saturável no Verão e tem o mesmo efeito de limar prados e Linhares deste termo e tem quatro casas de moinhos e as mesmas castas de pesca e, tanto que se juntam ambos não têm utilidade alguma neste termo porque correm pelo melhor sítio de terras de centeio e nelas fazem algum dano e daqui três léguas se metem no rio chamado Rabaçal.

E não tenho mais nada que dizer, por não haver rio nem serra, e para mais aclarar o que havia que responder pelos predicados e qualidades da terra, os cumpri neste papel. E assim, conclui este papel com a resposta acima declarada e neste escrita.

E, para fé da verdade me assino, hoje, vinte e um dias do mês de Abril de mil setecentos e cinquenta e oito.

O Padre Caetano de Sá Pereira,
Confirmado do lugar de Nozelos

São Francisco de Assis 2011

Imagem em domínio público, Wikimedia Commons, http://pt.wikipedia.org

Celebra-se hoje na Igreja Católica a festa litúrgica de S. Francisco de Assis, o santo fundador de uma das mais duráveis instituições monásticas vocacionada para a missionação, inspirada nos altos valores de humildade e humanidade.

Para rever a publicação que lhe dedicámos no mesmo dia, em 2010, click AQUI.

domingo, 2 de outubro de 2011

541.º Aniversário do nascimento de D. Isabel de Aragão e Castela, Rainha de Portugal


Dona Isabel de Aragão e Castela, a desafortunada décima sexta rainha de Portugal que este ano voltamos a recordar, aqui.



Para aceder à publicação que lhe dedicámos por ocasião do 540.º Aniversário do seu nascimento click AQUI.

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – CRASTO

Por Leonel Salvado


Nota Prévia: Até ao decreto de 31 de Dezembro de 1853 que determinou a extinção do Concelho de Carrazedo de Montenegro e a criação da comarca de Valpaços a cujo concelho e comarca passou a integrar como uma anexa à freguesia de Água Revés e Crasto, a povoação com este último nome havia constituído freguesia independente do termo da Vila de Chaves e curato anexo à Reitoria de Carrazedo de Montenegro.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 12, CRASTO, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 12, n.º 454, p. 3139 a 3142]

Lembrança do que se manda saber da terra e Freguesia de Nossa Senhora da Expectação do Lugar e Freguesia de Crasto.
O Padre João Lopes, pároco nesta Freguesia de Nossa Senhora da Expectação do Crasto, da Comarca de Chaves, Arcebispado de Braga Primaz, faço certo em como esta freguesia está na Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de Braga Primaz, Comarca de Chaves e termo, da Freguesia de Nossa Senhora da Expectação.
Esta terra é de ElRei meu Senhor, no presente o Senhor D. José, que Deus guarde, e tem esta freguesia quarenta e oito moradores, de pessoas maiores noventa e três, de menores seis, de confissão somente. Está situada em um vale formando fila entre três altos os quais são o ladeiro alto, o Castelo e os Sumagreiros. Dela se não descobrem senão vales perto dela. Tem seu termo que tem de largo e comprido uma légua em quatro. A igreja está fora da povoação num tiro de espingarda. O seu orago é o que acima disse e tem três Altares e as imagens que neles se acham são no maior de Nossa Senhora, em um dos colaterais Santa Maria Madalena e Santo Nome de Jesus e em outro Santo Amaro cujo nome se celebra aos quinze de Janeiro, em qual dia vem a ele muita gente de romaria ao dito santo pelos muitos milagres que faz e neste dia se faz Feira em que se vende muita cerne de porco, couves, castanhas e outras mais coisas que a terra dá. O pároco é cura e a apresentação dele pertence ao Reitor de Carrazedo de Montenegro, da mesma comarca, e tem de estipêndio dez mil réis em dinheiro, seiscentos réis da doutrina, trinta e dois alqueires de trigo, dois almudes de vinho cálido e vinte e seis alqueires de centeio. Os frutos que os moradores colhem e são daqui levados são centeio, azeite, vinho e sumagre e de todos os mais é o centeio e vinho. Está sujeita às justiças da Vila de Chaves de que recebe o Juiz de Fora e o Vigário Geral. Serve-se do correio de Chaves, o qual chega na Quarta-feira e vai no Domingo e dista desta terra quatro léguas. Dista, esta freguesia, da cidade de Lisboa setenta léguas, da capital de Arcebispado, ou cidade de Braga, dezoito, e da Comarca, que é de Chaves, quatro. Acha-se nesta freguesia um castelo antigo que está ainda com algumas paredes em redondo, situado em um alto entre duas ribeiras e chamado o Castelo Moiro. Entre os dois rios [ribeiras] tem de largura uma légua em quatro, e, como já disse, [uma] principia na ribeira do Castelo Moiro e acaba na ribeira de Rio Torto e [outra] na ribeira de Vale de Égua e acaba nos sumagreiros do mesmo Castelo. […]
Por esta freguesia passam duas ribeiras que desaguam na mesma povoação, uma que corre todo o ano nesta povoação de Crasto e tem princípio na freguesia de Argemil que dista desta duas léguas e se mete nesta ribeira de Rio Torto que fica distante um quarto de légua. Tem uma outra de que faço menção que passa pela mesma freguesia junto do Castelo, a qual tem seu princípio na serra de S. Gião em uma fonte que fica deste distante três léguas e se mete no Rio Torto.
Cultiva-se nesta os montes, de que há pouca erva nesta terra, como carvalhos, carrascos estreitos, verguios e os mais destas terras são cultivadas pelos moradores delas. Esta terra é muito quente de Verão e no Inverno muito fria porque fica muito funda e não dá nela o sol senão no meio-dia. Nela se criam alguns gados miúdos, como são muitos nelas, e se criam algumas perdizes e coelhos.
Estes rios não são navegáveis nem são capazes de qualquer barco. São pequenos e não correm todo o ano. Neles se criam alguns peixes pequenos como são bogas e escalos que na Primavera pescam muito e toda a água no rio de que se podem servir não tem dono e são livres para quem as quer e pode caçar. Estão estes rios em parte cercados de árvores silvestres que não dão fruto. Têm estes rios alguns açudes de moinhos e têm estes dois rios cada um sua ponte com arribas de pau, uma ao pé do mesmo povo e outra aonde se mete a ribeira no rio Rabaçal. E têm estes dois rios três moinhos de moer pão na ribeira que passa pelo povo e outro na beira da mesma que apanha as duas águas. Das águas dos ditos rios usam os vizinhos delas livremente para as culturas dos seus campos. Passa esta ribeira que vai pelo dito povo num lugar chamado Ribas e noutro chamado Avarenta e acaba em outro chamado Rio Torto. E o outro rio principia na serra que disse de S. Gião e passa por Quintela, Ribeira de Santiago, Sanfins e acaba em Rio Torto.
E não se continha mais nos ditos interrogatórios e informando-me com pessoas mais velhas desta freguesia, fiz esta carta do que pudesse fazer memória que tudo aqui escrevi em verdade e de que foram testemunhos o Abade Manuel Alves, pároco e São Pedro Fins e o cura António Martins, pároco de São Mamede de Argeriz, que tudo posto na verdade assinei ao fim como na verdade in verbo sacerdotis, aos quatro de Agosto de Setecentos e cinquenta e oito anos, o cura, Padre João Lopes, pároco desta freguesia.
O Padre João Lopes
O vigário de São Pedro Fins, comarca de Chaves, Padre Manuel Alves
O Padre António Martins   

sábado, 1 de outubro de 2011

Dia de São Miguel Arcanjo 2011


Celebrou-se anteontem, dia 29 de Setembro, São Miguel Arcanjo. Tal como S. Gabriel e S. Rafael, que se comemoram liturgicamente nesta mesma data de 29 de Setembro, S. Miguel Arcanjo é um dos Santos Anjos que a Igreja católica tem em grande veneração. É mesmo considerado um dos primeiros, se não o primeiro e mais eminente dos espíritos celestiais guerreiros, arauto de Deus, e Príncipe dos Exércitos Celestiais que combateram os anjos rebeldes comandados por Lucifer. Segundo a tradição judaica, S. Miguel foi o protector do povo eleito. Da sinagoga dos israelitas a Missão de S. Miguel passou à mesquita (pois é também venerado noIslamismo) e à Igreja de Cristo, obtendo no Catolicismo, desde as suas origens, considerável devoção.


No concelho de Valpaços, S. Miguel Arcanjo é orago da freguesia de Fiães, paróquia muito antiga, supostamente de origem anterior ao século XV sob a designação de S. Miguel de Fiães (parrochia Sancti Michaelis de Feanes) que englobaria partes das actuais freguesias de Lebução e de Tinhela.
Imagem: http:// http://santosesanjos.blogspot.com
Para conhecer mais pormenores sobre a vida de S. Miguel Arcanjo, clique AQUI


terça-feira, 27 de setembro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – ERVÕES

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 13, ERVÕES, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 213, n.º (E) 44, p. 331 a 336]

Está na Província de Trás-os-Montes, termo da Vila e Comarca e Chaves, Arcebispado de Braga. É da jurisdição de Malta, cujos donatários são da Comenda de S. João da Corveira, da mesma religião.
Tem este lugar e freguesia duzentos e vinte vizinhos e pessoas seiscentas e quatro. Está situado na falda de um monte do qual se descobrem os lugares ou aldeias de Argeriz que fica à distância de uma légua, Santiago de Alhariz na distância de duas, Cachão na distância de outras duas e a serra de Santa Comba em meio com toda a sua largura; ela fica na distância de quatro léguas.
Não tem termo seu mas sim limites e compreende sete lugares, o de Sá que tem setenta e cinco vizinhos, o de Ervões sessenta, o de Valongo catorze, o de Alpande vinte e seis, o de Sadoncelho oito, o de Alfonge quinze e o de Lamas vinte e dois.
Está a Paróquia afastada do povo à distância de oitenta [?] passos, pouco mais ou menos, em campo ermo, e compreende sete lugares cujos nomes vão acima nomeados. O orago é o salvador São João Baptista. Tem três altares, o maior, que se denomina de Altar-mor, e dois colaterais, um deles do Santo Cristo e outro de Nossa Senhora do Rosário. Não tem nave alguma mas tem sim quatro Irmandades, a do Senhor, a do Nome de Deus, a de Nossa Senhora do Rosário e a de Santo António.
O Pároco é Reitor apresentado pelo Comendador da Corveira da religião de Malta, colado pelo Vigário Geral dela e tem de renda cento e oitenta mil réis, uns anos por outros. Não tem beneficiados.
Todos os lugares desta freguesia têm capelas e cada uma afastada da povoação dela: A de Sá, capela de Santa Lúcia; a de Valongo, de Nossa Senhora dos Prazeres; a de Alpande, de S. Pedro; a de Alfonge e Sadoncelho, de Nossa Senhora da Expectação; a de Lamas, de São Tiago e São Filipe; a de Ervões, de São Sebastião, cuja capela está dentro do povo. Em muitos dias do ano se frequenta em romagens as capelas da dita Santa Lúcia e Nossa Senhora dos Prazeres e nos seus próprios dias se faz junto a elas feira franca de um só dia.
Os frutos desta terra de maior abundância são pão, vinho e castanha por ser no país natural a qualidade destes géneros.
Está esta terra sujeita ao governo e às justiças da Vila de Chaves.
Há nesta terra quatro homens formados, dos quais dois advogados em Chaves e, além destes, há outro que está aqui ao serviço de sua Majestade e é casado em Vilarandelo.
Não tem correio e serve-se do de Chaves que fica na distância de três léguas.
Dista da cidade capital de Arcebispado dezoito léguas e da cidade capital do Reino sessenta. Tem os privilégios de Malta, porém não se sabe quais e não se lhe sabe outras antiguidades ou coisas dignas de memória. Tem este termo duas fontes humildes de que usa o povo e o gado dele. Não tem porto de mar. Não é murado. Não padeceu no terramoto de mil setecentos e cinquenta e cinco ruína alguma.

Nos confins desta terra há uma serra a que chamam de serra de São Julião cuja parte é no limite do lugar de Sá, desta freguesia de Ervões, e um pedaço dela passa quase de um quarto de légua e está desviada da parte dos moradores daquele lugar. Porém, não é frutífera e só serve para se produzir alguns principais alimentos no tempo de Inverno. Não sei nem me consta do comprimento e largura da dita serra, nem as léguas que compreende nem também os nomes dos principais braços dela. Na dita serra nascem dois rios, ambos do lado da serra, um deles que é o Carriço, a que também se chama Ribeirinho, que fica no limite do lugar de Sá e que corre noutros sítios em que perde o nome de Carriço, no qual há cinco moinhos de que o que fica a maior distância está a três quartos de légua. Tem um moinho de pedra em cujo sítio tem também dois moinhos, também de pão e logo mais abaixo, em pouca distância, há outro moinho, este desviado em meio quarto de légua, num monte de salgueiros, e todo este rio vai tão retirado que a margem dele não é frutífera e, suposto que por ele há algumas ervas e frutas silvestres, percorrem estes lugares somente no Inverno[…]. E [há] outro rio que nasce na mesma serra e no termo do lugar de Vilarandelo, na distância de meio quarto de légua, cujo rio tem o nome da Quadrada […]. Há mais outro rio que nasce num lugar chamado Prado dentro dos limites do lugar de Quintela de Friões, na distância de meia légua, e passa junto aos lugares de Sadoncelho e Alfonge e se mete no rio chamado de Rio Torto […].
Junto à serra estão os lugares de Sá e Vilar de Ouro.
Não há neste distrito fontes de propriedades raras. Não há nele minas de metais, porém há no lugar de Sá uma pedreira só de pedra.
Não há no pedaço da serra plantas ou ervas medicinais, porém, atrás do dito pedaço se cultiva em algumas partes. Não há na dita serra mosteiros, igrejas de romagem nem imagens milagrosas. A qualidade do seu temperamento [da serra] é fria. Alguns lobos se criam nela e alguma caça de coelhos. Não sei se haja lagoas ou fojos notáveis. Também me não consta que haja nela outra qualquer coisa digna de memória.

Chama-se ao rio o Carriço cujo nascimento é no arvoredo da serra no sítio do Ribeirinho, como digo no interrogatório quarto [acima] no qual vai declarado que se serve a povoação tanto deste regato como dos mais que entram nesta terra.
No rio ou regato a que chamam do Carriço e que perde o nome no sítio de Ribeirinho do Pisco [?], neste mesmo sítio tem um pontão de pedra assentado sobre madeira e, mais abaixo, no sítio a que chamam o Salgueiral, tem outro pontão de pedra e algumas poldras. O de Sadoncelho também tem poldras e, logo mais abaixo, um pontão de pedra e poldras num sítio do termo do lugar de Alfonge, tudo dentro desta freguesia de Ervões.

Não há memória que em algum tempo ou no presente se tirasse ouro das areias dos rios. Usam os povos livremente das suas águas para a cultura dos campos. Se este regato nesta terra é comprido devido aos menos, se consoante o é independente, o não sei; a distância pode ser mais de uma légua. Toda a freguesia é muito pouco notável.
Mais ao dar o que se procurava por expressões tudo na verdade e forma o escrevi, em o mês de Março, cinco de 1758.

O Reitor Luís Fernandes da Serra
O Pároco de Vilarandelo Manuel de Sequeira Rebelo
O Reitor Manuel Teixeira Pires 

201.º Aniversário da Batalha do Buçaco



"A Batalha do Buçaco (ou Bussaco, de acordo com a grafia antiga), foi uma batalha travada durante a Terceira Invasão Francesa, no decorrer da Guerra Peninsular, na Serra do Buçaco, a 27 de Setembro de 1810. De um lado, em atitude defensiva, encontravam-se as forças anglo-lusas sob o comando do Tenente-general Arthur Wellesley, primeiro Duque de Wellington. Do outro lado, em atitude ofensiva, as forças francesas lideradas pelo Marechal André Massena. No fim da batalha, a vitória mostrava-se nitidamente do lado anglo-luso."
In http://pt.wikipedia.org/wiki/Batalha_do_Bu%C3%A7aco
Para mais informações sobre a batalha do Buçaco, segundo a mesma fonte,
 clique AQUI.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

216.º Aniversário do nascimento do Marquês de Sá da Bandeira


Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, 1.º Barão, 1.º Visconde e 1.º Marquês de Sá da Bandeira deve ser entendido pelos valpacenses como uma figura histórica nacional de relevância local/regional. No dia 16 de Novembro de 2011 comemoram-se os 165 anos da batalha de Valpaços que é também recordada como o combate ou a “Acção Valpaços”, que lançou a Vila nos pergaminhos da História Nacional, onde este bravo general das guerras liberais, então com o título de visconde de Sá da Bandeira, se afigurou, apesar da derrota ou dos resultados imprecisos do confronto de acordo com a interpretação de alguns autores, como um dos mais destacados protagonistas. Comemoram-se hoje os 216 anos do seu nascimento.

Para aceder a um resumo biográfico desta figura histórica, click AQUI.