domingo, 16 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SANTA VALHA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Poder-se-á concluir, pelo conhecimento da realidade actual face ao teor do documento que a seguir transcrevo, que houve uma natural transformação da estrutura humana e material da povoação de Santa Valha entre 1758 e a actualidade. Convém todavia observar que as transformações que se inferem das informações do pároco memorialista, o Abade Domingos Gonçalves, autor do manuscrito, não deverão em todos os aspectos merecer a mesma credibilidade, uma vez que em alguns desses aspectos se denota uma certa falta de rigor informativo do mesmo prelado, designadamente na identificação dos bairros existentes na sua época e que hoje mantêm, grosso modo, os nomes, bem como na localização das várias fontes de água a que o mesmo prelado alude, a maioria das quais preserva também os mesmos nomes de há 250 anos. Em certos casos parece ter havido uma evidente desorientação por parte do Abade que não foi capaz de evitar alguns lapsos que me parecem evidentes, problemas estes relativamente aos quais entendi ser meu dever advertir os leitores mas sem deixar de salientar também que tais problemas não diminuem substancialmente o valor deste curiosíssimo documento historiográfico. Alguns topónimos estão intencionalmente transcritos na sua forma original e alguns outros são de carácter suplectivo hipotético pessoal, da minha parte, dada a sua fraca legibilidade ditada tanto pela caligrafia do autor como pela má preservação do documento e, portanto, sujeitos, estes últimos, a eventual rectificação.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 34, SANTA VALHA, Monforte de Rio Lima (leia-se Monforte de Rio Livre).
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 34, n.º 67, p. 601 a 606]

Descrição do lugar de Santa Valha

Este tal lugar fica na Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda, Comarca de Torre de Moncorvo, Termo da Vila de Monforte, Freguesia de Santa Eulália. É d’el Rei, Nosso Senhor, ao presente e sempre o foi.
Tem tal lugar, cento e quinze vizinhos e trezentas e noventa pessoas.
Está o dito lugar situado em um vale, entre dois montes bastantemente levantados, um para a parte do Norte, chamado do [Ermitão?] e revestido de castanheiros de demasiada altura, outro para a parte do Meio-dia, chamado Crasto, revestido de pinheiros, castanheiros, sobreiros e de mais algumas variedades de árvores silvestres.
Não se descobrem dele povoações algumas, por ficar muito baixo.
Não tem termo seu, pois está sujeito ao termo da Vila de Monforte e dista desta duas léguas.
A paróquia está no meio do lugar e tem suas anexas ou quintas, uma para a parte da quinta chamada da Paradelinha, que tem uma capela de Santo Antão que dista da povoação três quartos de légua, outra anexa para aparte da quinta chamada do Calvo, que tem uma capela de Santo António que dista da paróquia dois quartos de lágua e outra anexa para a parte da quinta chamada do Gorgoço, que tem uma capela de São Bartolomeu que dista da paróquia meia légua. Tem esta, nove vizinhos e quarenta pessoas; o termo do Calvo, três vizinhos e dezassete pessoas e o de Paradelinha, vinte vizinhos e sessenta pessoas.
O orago é Santa Eulália que está no Altar-mor. Tem quatro Altares, o mor e dois colaterais, um da parte da entrada ,de Nossa Senhora do Rosário, e outra da parte do Meio-dia, à direita, do mártir São Sebastião e uma capela ao lado esquerdo, do Santo Cristo com uma escada para o corpo da igreja, administrada por Jerónimo de Morais Castro, Morgado da Teixugueira. Há mais duas capelas dentro do povo, uma defronte da matriz, de São Miguel, e outra de Santa Maria Madalena, no bairro da Madalena, administradas as duas com as esmolas da vizinhança. Tem mais outra, de Santo António, no bairro assim chamado, que administra esta o Morgado António José de Morais Castro. E tem duas Irmandades, uma das Almas e outra de Nossa Senhora do Rosário.
O pároco é abade, apresenta-o o Padroado e tem de renda, com a patriarcal, um conto [1 000 000 de réis].
As ermidas ou capelas são três, dentro do lugar, de que já falei. A elas não acode nunca gente em romagem senão, por acaso, alguma vez.
Os frutos da terra em maior abundância são pão centeio e vinho tinto de cepa, delicioso, e algum milho maíz, feijões pretos e brancos e fradinhos, muita castanha, alguma fruta de nozes, peras, ameixas de várias espécies, figos de várias castas, cerejas, ginjas pequena, muitas couves, alhos, cebolas,  muita hortaliça galega e lenha de carvalhos e castanheiro, muita lenha de azevinho para o fogo, muitos lameiros de melões e melancias, queijos de várias castas e algum mel e gado ordinário miúdo.
Não tem juiz ordinário nem câmara e, por esta razão, está sujeita ao juiz ordinário e câmara da Vila de Monforte.
Faz-se feira em uma anexa de Gorgoço, de que já fiz menção, em dia de São Bartolomeu, aonde acode a vizinhança a comprar e vender espadelas de linho em rama, paninhos, vinho e pão branco e tendas de mercadorias. E dura somente quatro horas.
Dista, o dito lugar, de Miranda do Douro, cidade capital, dezasseis léguas, e de Lisboa oitenta léguas.
Tem o dito lugar três bairros. Um chama-se o Bairro [sic], tem duas fontes, uma chamada dos Alarigos, fresca de Verão e quente de Inverno e deliciosa, pois é fresca e gostosa, nasce no [rio?] e está cercada de castanheiros, álamos pretos, ciprestes, parreiras e outras árvores silvestres; outra chamada do Vilar, muito mais notável por fresca e saborosa, está cercada de castanheiros, figueiras, amieiros, marmeleiros e pinheiros e nasce numa penha. Outro bairro chama-se de Sobreiró e não tem fonte alguma. Outro, chamado de Outeiro, tem duas fontes, uma chama-se de Sobreiró e é de água também fresca e está cercada de salgueiros, macieiras e vinhas e outra chama-se da Regaça e nasce em pedra. Tem mais outros três bairros, um chamado do Pontão e tem este uma fonte que se chama a fonte do Pontão, nasce em [lodo] e é a maior, outro chamado da Igreja tem uma fonte chamada da Igreja por servir para uso da mesma igreja, outro chama-se o bairro da Madalena e não tem fonte alguma.
E assim são seis bairros e cinco fontes [sic], todas perenes e se renovam com muita abundância e nunca secaram. Com elas se rega e fertiliza pastos, Linhares e prados e além destas cinco fontes comuns tem o Lugar mais de dez fontes particulares.
 Junto da fonte de Vilar se acha e cria um pinheiro maior que tem de grosso trinta e dois palmos e ocupa, com a copa da rama, dois alqueires de centeio de sementeira, além dos mais que estão dentro da matriz.
Tem fora, pelo termo, infinito número de fontes frescas e de algumas onze […] entre as quais há uma de rara qualidade que se chama a fonte da Cruz cuja água contém o bem de desinquinar os intestinos […] que é o mesmo que a fonte [Puideira?], que será esta do lugar um quarto de légua.
Não padeceu ruína alguma no terramoto [de 1755].

No que respeita à Serra
Nada, por não haver nesta terra serra.

Rio
Neste lugar de Santa Valha somente há quatro ribeiras, uma chamada o rio Calvo que nasce no lugar de [Lomba?] e suas montanhas. Nasce brando e pequeno e corre todo o ano. Entra nele uma ribeira de Alvarelhos por baixo do lugar de Tinhela, duas léguas distante da nascente. Não é rio de barcas nem capaz para isso. É de curso arrebatado em toda a sua distância. Corre de Norte para o Meio-dia. Cria muitos peixes chamados escalos. Nas margens se cultivam muitas delas de vinhas, terras, prados e tem muitas árvores de fruto, como são castanheiros, e silvestres, como são amieiros, salgueiros, carvalhos, medronheiros e outras muitas castas de árvores silvestres. Conserva sempre o nome de rio do Calvo. Morre no rio chamado o Rabaçal, rio caudaloso, no sítio do Cachão. Tem uma cachoeira no sítio de Cachão e por essa causa não sobem os peixes chamados barbos e bogas por ele acima. Tem três pontes de pau, uma chama-se a ponte de Tinhela que está no mesmo lugar de Tinhela, outra chama-se a ponte de Agordela, na quinta de Agordela, e outra na quinta do Calvo e chama-se a ponte do Calvo. Tem perto dele infinito número de moinhos, regueiros e [olmeiros?]. Usam os povos de suas águas livremente para as culturas.
Tem o rio seis léguas desde a nascente até aonde acaba e passa por seis povos: O primeiro é Tinhela, o segundo é Agordela, o 3.º é o Calvo, o 4.º é Vale de Casas, o 5.º é Poçacos e o 6.º é o Cachão.

Não há nesta terra outras coisas notáveis de que se possa dar conta. É muito pouco o tempo para se fazer como deve.

O Padre Domingos Gonçalves

[\] Há mais três ribeiras, uma chamada a ribeira da [Roçada?] que nasce nas montanhas de Fiães, distante deste lugar légua e meia e esta mesma ribeira passa pelo Bairro da Igreja e junta-se em outra chamada a ribeira da Castanheira no sítio chamado de Armeiro e dista, uma de outra, um quarto de légua, ambas nascem nas montanhas de Fiães, ambas têm pontes de pedra e moinhos e no Inverno abunda nelas árvores de fruto nas suas margens. A outra chama-se de [Canamão?] e dista das outras um quarto de légua, tem as mesmas circunstâncias das outras, juntam-se todas em uma no sítio do [Bordalacho?], nome derivado de um peixe, tem uma ponte de pau de 4 olhais e vai-se meter no rio Rabaçal. Dista a nascente do rio três quartos de légua. Tem peixes chamados escalos.[/]

O Padre Domingos Gonçalves
[s. data]

164.º Aniversário do nascimento de D. Maria Pia de Sabóia, rainha de Portugal

Nascida em Turim em 16 de Outubro de 1847, D. Maria Pia de Saboia tornou-se rainha de Portugal em 1862 por via do seu casamento com D. Luís I. Foi a 41.ª rainha de Portugal e 14.ª da dinastia de Bragança.

Para rever o que publicámos em sua homenagem por ocasião do 163.º Aniversário do seu nascimento click AQUI.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SANTA MARIA DE ÉMERES

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Alguns termos aqui apresentados poderão, eventualmente,vir a estar sujeitos a rectificação, em virtude do mau estado de conservação do documento cuja cópia digital me serviu de base para a respectiva e presente transcrição.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 13, ÉMERES, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 13 n.º (E) 15, p. 147 a 150]

Eu, Francisco Martins, Comissário do Santo Ofício e pároco colado em Santa Maria de Émeres, nesta Comarca de Chaves e Arcebispado de Braga, certifico que [recebi a carta?] dos interrogatórios mandada decorrer pelas freguesias do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral, Bento de Carvalho de Faria, desta dita Comarca para informações completas e fidedignas desta freguesia de que nos ditos interrogatórios se procura e do que eu sobre elas possa dizer.
Eu acho e digo o seguinte, pelos ditos interrogatórios.

Este lugar está na Província de Trás-os-Montes, do Arcebispado de Braga, Comarca e Termo da Vila de Chaves. É da Reitoria de São Nicolau de Carrazedo e no dito Lugar está a igreja matriz que aqui vêm à missa. É apresentação do Reverendo Reitor de Carrazedo, pertencente à Mitra Primaz de Braga.
Tem esta freguesia, que são dois lugares, Santa Maria de Émeres e o lugar de Rendufe; tem o de Santa Maria de Émeres setenta e cinco vizinhos e o de Rendufe cinquenta e um, e pessoas de sacramento quatrocentas e vinte.
Está este lugar situado em um alto e alguma planície e dele de vêem Argemil e São Pedro, que distam uma légua, Carrazedo meia, e Rendufe três quartos. Tem termo seu nos limites de duas partes.
A igreja desta freguesia fica no meio do lugar. Tem os dois lugares de Santa Maria de Émeres e Rendufe. Tem por orago Nossa Senhora da Expectação e tem quatro altares, o mor e três colaterais, e nicho, na parede, do Santo Cristo: o mor de Nossa Senhora da Expectação, um de Nossa Senhora do Rosário, outro de Santo António e outro de Santa Quitéria. Não tem naves nela. Tem uma Irmandade de Santo António muito pobre.
O pároco é vigário colado e da apresentação da Reitoria de Carrazedo, da Mitra Primaz de Braga. Tem de renda, um ano por outro, cem mil réis e do pé de Altar dez para doze mil réis.
Há uma capela situada no lugar de Rendufe, com a imagem de Santo André, no cimo do lugar. Não concorre a ela romaria e sustenta-se esta ermida pelos mesmos moradores que não tem rendimento algum. Há uma capela de São Sebastião que se lhe diz missa no seu dia e não tem rendimento algum; é fabricada pelos moradores de Santa Maria de Émeres.
Colhe-se centeio, trigo e pouco vinho e tirando, se podendo, a castanha e algum azeite, o mais abundante é o centeio, pouco. Frutas tem peras e amêndoas. O mais é centeio. E não há mais digno de memória no que respondi acima, além de que todas estas propriedades nesta Freguesia e terras são da Comenda do Comendador Marquês de Fronteira e todas foreiras à Sereníssima Casa de Bragança e da Mitra Primaz de Braga.

A Serra.
Há uma serra áspera para o Sul, nos fins e limite desta freguesia, com muitos penedos. Não tem águas de virtudes particulares, mas sendo meia légua da serra, de comprido, que principia no lugar de cadouço e acaba no de Vale de Égua, e outro tanto de comprido [possível lapso do memorialista], e não há rios. É muito falta de águas de todas as partes. Tem poucos coelhos e perdizes e não tem nem extraviados. Fojos não há neste distrito.

Certo é o que achei e posso dizer a respeito do que se pergunta nos interrogatórios deferidos e, por tudo ser verdade, fiz esta que assino.
Santa Maria de Émeres, Março, onze de mil e setecentos e cinquenta e oito anos.

Francisco Martins o que, sendo nele vigário, o juro in verbo sacerdotis.

O vigário, João Lopes da Castro
O padre António Pereira de Miranda

terça-feira, 11 de outubro de 2011

DOCUMENTOSAldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – CANAVESES

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 90, CANAVESES, Chaves.
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 8, n.º 90, p. 631 a 634]

Freguesia de Canaveses, termo da vila de Chaves, Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de braga Primaz das Espanhas.  É comenda. Anda arrendada em um conto e cem mil Réis. É possuidora dela sua Senhora viúva que ficou de D. Vasconcelos.
É Comenda. Anda arrendada em um conto e cem mil réis e é possuidora dela uma viúva que ficou de Paulo de Vasconcelos.
Tem este povo a freguesia que é composta de quatro lugares: Canaveses, Cadouço, Émeres e Ermeiro, de oitenta e seis fogos e pessoas duzentas e cinquenta e nove.
Está este povo assentado em uma ribeira chamada Mengracia e está pegado em uma serra que está a meio dele e de Jou. As águas que descem desta são poucas, mas pela distância que há entre estes dois povos, que é uma légua, quando chega a Canaveses é crescida e, em tempo de água, de neve ou nevões, faz muito mal às fazendas de Canaveses com sua soberba corrente, trazendo consigo lenhas e paus que tira e arranca de seus lugares as colmeias a que pode chegar; os bois, bezerros e gado miúdo que o seu crescimento os obriga a passarem nas partes adiante e em volta por ter a erva dependurada que, com brevidade, se juntam alguns na ribeira. Há nesta serra lenhas de sorgo, medronheiro, carrasco e tem partes muito espessas que nela se criam lobos, raposas, porcos bravos e perdizes que só se podem matar pela terra, levando-os dependurados e mortosos, e águias.
Este povo supradito está situado na ribeira, não em campina, mas sim em arvoredos da serra. Contém tantos que muitos dos homens nele não vêem senão o céu. Tem mais o lugar de Cadouço que é aqui obrigado à missa, também posto em uma ribeira e metido em três outeiros. Tem este somente uma fonte com boa água, com qualidades nobres e renovo ajudado de um ribeiro que desce da serra supradita. Para baixo deste lugar está o de Émeres, por onde passa este ribeiro, metido também entre dois outeiros e tem duas capelas, a de Nossa Senhora da Expectação e a de Nossa Senhora da Conceição com sua fábrica que, de uns anos por outros, tem de renda mil e quatrocentos [réis]; e o do Cadouço, supradito, tem uma capela da invocação do Divino Espírito Santo com sua fábrica que rende nove mil réis, uns anos por outros.
Colhe esta freguesia, centeio, trigo, milho grande e miúdo, tudo muito pouco, mas produz azeite suficiente, mas o mais dele de povos de fora que dividem as oliveiras com estes moradores para socorrer à sua necessidade pela muita pobreza que aqui há. Colhe mais fruta, cereja e ginja, em pouca quantidade por ser ordinariamente o que chamam cá remendo. É de má casta de frutos que, sendo verdes se não vendem tanto, e maduro não tem o fruto semente de se tirar dele.
Tem este povo uma fonte no cimo do lugar, afastado dele à parte que vem do Cadouço, que é muito boa a sua água, quente no Inverno e fria no Verão.
Daqui se não deixa ver terra nem povo algum por estar cercada de outeiros e ter pela borda oliveiras que pertencem a este povo e suas árvores como são choupos e com seus pomares de macieiras. Tem também figueiras que dão figos bons, mas poucos.
Fica á volta deste Deimãos, São Pedro da Veiga, Veiga do Lila, Água Revés, Santa Maria de Émeres e Santiago da Ribeira. Dista uma légua de Água Revés, Santiago, Santa Maria de Émeres e São Pedro e meia de Deimãos. Dista de Chaves cinco léguas, de Braga dezoito, de Bragança três, de Vinhais oito, de Mirandela duas e meia e de Murça duas.
A invocação da igreja é Nossa Senhora da Expectação e está no meio do povo. Tem esta igreja uma quinta chamada Ermeiro, debaixo e metida entre dois cabeços que não prestam para nada. Tem esta igreja de Nossa Senhora da Expectação três Altares que são da mesma Senhora, outro de Santo António e outro de Nossa Senhora do Rosário, que tem sua fábrica dez mil réis. Tem a Confraria do Senhor.
O pároco desta é vigário que é apresentação do Reitor de São Pedro da Veiga e tem de côngrua cinco mil e cem réis, trinta e três alqueires de trigo, vinte e quatro almudes de vinho em mosto e cada morador paga um alqueire de pão de oferta.
Os frutos em maior abundância que aqui se colhem é centeio e linho galego.
Está este concelho sujeito ao juiz de fora da Vila de Chaves.
Este sítio dista da cidade de Braga dezoito léguas e de Lisboa dizem que sessenta.
A serra supradita terá de circuito duas léguas e de comprido será talvez uma. É rodeada de povos.
Já está dito das águas que descem dela. Estas vão ter ao rio de Mirandela, daí ao Douro que vai ter à cidade do Porto. Ao redor desta serra está o lugar de Jou, o de Rendufe, Cadouço, Canaveses e Zebras. Tem esta serra, no termo dela, algumas vinhas e colmeias. Cria-se nela os gados domésticos e bravos, como são os supraditos porcos, coelhos e perdizes.

Não havendo mais que dar nomeação na dita povoação, assino esta, feita hoje, aos [trinta?] de Março de 1758.

O vigário, José Pereira de Melo

O vigário de Jou, António Andrade de Lemos
O vigário de Veiga de Lila, António Pereira de Miranda        

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – LILELA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Lilela, hoje uma pequena aldeia anexa à freguesia de Rio Torto, já foi sede de antiga freguesia e assim se mantinha em 1758, como o atesta o respectivo pároco memorialista, então vigário apresentado pelo Reitor de S. Pedro de Rio Torto. Por essa razão entendi só agora apresentar aqui o documento das “Memórias Paroquiais” que lhe diz respeito, a seguir ao daquela freguesia, recentemente publicado, em detrimento da conveniente ordem alfabética estabelecida, como aliás já aconteceu noutros casos.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 20, LILELA, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 20 n.º 86, p. 649 a 654]

O que se procura saber desta terra.
Digo que é da Província de Trás-o-Montes, Arcebispado de Braga, termo da Vila de Chaves, da Comarca de Chaves, freguesia de São Lourenço de Lilela.
É d’el Rei Nosso Senhor, que Deus guarde, esta terra. Quanto ao que pertence aos frutos da renda é Comenda do Senhor Conde de São Lourenço. A igreja é dada ou apresentada pelo Reitor de Rio Torto.
Quanto aos vizinhos, tem setenta vizinhos esta freguesia e pessoas tem cento e oitenta, excepto os meninos.
Quanto ao sítio, está posta esta igreja em um baixo cujo lugar se chama Lilela e passa uma ribeira pelo meio do povo e não se descobre dele outro lugar.
A igreja fica dentro do lugar de Lilela e a esta freguesia pertence um lugar chamado a Póvoa e também pertence a esta freguesia a quinta de Leirós que tem dois moradores nela. O orago é São Lourenço. Na Paróquia estão três Altares, o maior de São Lourenço, o colateral da mão direita é da Senhora do Rosário e o da mão esquerda de Santo António. O pároco é vigário ad nutum de São Pedro de Rio Torto e tem de renda quinze mil e seiscentos réis, trinta e dois alqueires de trigo, trinta e dois almudes de vinho, digo poderá chegar a sessenta ou setenta mil réis todo o rendimento dela e muitos anos não chega a eles.
Neste lugar de Lilela há uma ermida de Nossa Senhora dos Milagres junto do povo e fora dele; pertence à freguesia. E no lugar da Póvoa está a capela de São Sebastião; pertence aos moradores do dito lugar e fica fora do povo. E na quinta de Leirós, desta freguesia, se acha a capela da Senhora da Conceição; pertence esta a uns morgados, cavaleiros de Bragança, chamados os Malangas. Somente a São Lourenço de Lilela acode romagem, aos dez de Agosto, e é orago desta freguesia.
Os frutos da terra são azeite bastante, mas vendidos a homens de fora, centeio, algum trigo e feijões e também algum vinho.
Aqui estão sujeitos à justiça de Chaves que há juiz de fora desta Vila. Quanto ao correio aqui se servem do de Chaves que fica distante cinco léguas.
Dista esta freguesia de Braga, que é cabeça, dezoito léguas e de Lisboa [? - costura apertada]. Não tem muros, nem castelo, nem torres. Não padeceu nada do terramoto [de 1755].

O que se procura a respeito desta Serra.
Há uma serra chamada a serra de Santa Comba por estar nele Santa Comba, que é de outra freguesia e pega com o termo do lugar de Póvoa desta freguesia; por outro nome lhe chamam a serra do Rei de Orelhão. Tem duas léguas de comprimento e légua e meia de largura. Principia no termo do lugar da Póvoa, desta freguesia, e se acaba, o mais à frente, no distrito de Franco, porém dizem que vai continuando até junto de Passos. O principal braço dela chama-se Santa Comba. Nela somente nasce um regato chamado Cabreiro que não tem propriedades naturais; corre de poente para nascente e se mete no rio chamado Tua.
Na serra não há lugar nenhum. Fica ao pé dela um lugar chamado a Póvoa, desta freguesia. Fica Rio Torto entre Norte e Nascente; fica Suçães ao nascente; fica S. Pedro de Veiga de Lila ao Norte; fica a freguesia de Vales a poente; fica a Vila chamada Lamas de Orelhão e um lugar chamado Franco do Sul.
Não se acha alguma fonte de propriedades [raras] nela. Somente consta que tenha sorgos, carvalhos e giestas; não tem nela ervas de medicina.
Na dita serra há Santa Comba e São Leonardo, cada um com sua capela, mas juntas. Costuma haver romagem à de Santa Comba no dia de São Silvestre, no dia último de Setembro e no dia dez de Agosto, aonde sucede haver algumas bulhas e discórdias. Esta capela é da freguesia de São Nicolau dos Vales.
Quanto ao temperamento é fria bastante e costuma carregar-se de neve e gelo no Inverno.
Nesta serra se criam muitos lobos, porcos monteiros, coelhos e perdizes, algumas, e nada mais que raposas. Não sei se tenha lagoa, só sim alguns fojos medonhos e também um poço de caçar lobos e porcos monteiros. E nada mais digno de reparo.

O que se procura a respeito do rio.
Por este povo de Lilela passa uma ribeira de água e não tem nome próprio. Começa no termo do lugar de Jou e passa por dentro do lugar de Veiga de Lila e por Canaveses e se mete em um rio maior no fim do termo deste povo. Alguns anos seca pelo tempo do Verão.
No que respeita ao rio se chama Rabaçal que principia em Galiza e corre para o Douro. Não é de navegações. Tem algumas represas de moinhos e azenhas e tem o curso arrebatado em certas partes. Corre de Norte a Sul. Cria peixes de castas pequenas.
Tanto o rio como a ribeira não têm pescarias certas, mas sim de quem quer caçar. Têm algum arvoredo mas pouco. É cultivado de caminhos. Perde o nome quando passa pelo termo de Miradeses, o do rio, e se chama de rio Tua e vai dividindo entre o Bispado de Miranda e de Braga e passa dividindo entre o termo da Vila de Chaves e o de Mirandela. Tem duas cachoeiras e passa por um lugar chamado o Cachão e junto dele tem uma ponte no lugar de Vale de Telhas, em Mirandela, toda de pedra. Não sei que tenha lagar de azeite, nem pisão. Não sei de que nele se tirasse ouro. Os povos usam livremente de suas águas. Terá, quando passa pelo termo de Lilela mais de dez léguas. Quanto será daqui ao Douro, não o sei. Este tal rio chamado Rabaçal corre longo e se passa em barcas em muitas partes e alguns dias se não pode andar com elas por serem as águas muitas.

É o que posso dizer deste rio, a serra e o lugar e não sei outra coisa de que possa dar notícia e de como tudo o que foi o declaro por mim dito, o que juro ser verdade in verbo sacerdotis, hoje, Lilela, doze de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito anos.

O vigário, Padre Vicente Martins

O encomendado de Rio Torto, João Álvares
O pároco de Crasto, João Lopes 

domingo, 9 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – RIO TORTO

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 32, RIO TORTO, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 32, n.º 136, p. 821 a 823]

Terra e Comarca de Chaves, Arcebispado de Braga.
Esta freguesia de São Pedro de Rio Torto é do Termo de Chaves e Arcebispado de Braga. Dista de Chaves cinco léguas, de Braga vinte e de Lisboa setenta. Compõe-se de dois bairros, oitenta fogos e duzentas e trinta pessoas maiores de doze anos.
Tem a igreja três Altares e dois colaterais. No maior está o Santíssimo e a imagem do Orago; nos colaterais, em um, Santo António, e no outro, Nossa Senhora do Rosário. Há mais duas, digo três capelas no Lugar, uma no bairro de Cima, de São Caetano cujo administrador e fabricante é Dona Romila da cidade de Braga e duas no bairro de baixo que são uma de São Sebastião e outra de Nossa Senhora da Anunciação cuja fábrica pertence aos moradores. Há mais na igreja três Confrarias, a do Santíssimo, a de Santo António e a das almas com a protecção da Ascensão do Senhor.
É esta igreja Reitoria dada da Mitra e rende para o pároco, cada ano, ad summum de setenta até setenta e cindo mil réis. Apresenta três curatos: o e Miradeses (o orago deste é São Sebastião), o de São Lourenço de Lilela e o da Vila de Prechas, cujos frutos são unidos a uma mesma comenda de que é Comendador o Ilustríssimo Conde de São Lourenço. Anda esta comenda arrendada por um conto e trezentos mil réis.
Está o sobredito lugar situado em uma planície baixa e angusta e rodeada de altos, por isso demasiadamente cálida. Tem o termo e distrito deste lugar três léguas em circunferência. Todo se cultiva, menos alguns altos e fragas que produzem algumas, poucas, lenhas para uso dos moradores.
Colhem-se no dito termo muitos frutos, como são azeite, trigo, vinho, cevada, centeio, pardas, castanhas, melões, melancias, repolhos, pimentos, grãos-de-bico e outros mais legumes.

Corre pela parte do Norte, quase próximo ao lugar, um rio de poucas águas no Verão, mas no Inverno bastante caudaloso, criando nele barbos, bogas, escalos e lúcios. Tem este, próximo ao lugar, uma ponte de cantaria com cinco arcos. Este rio tem sua base e princípio em uma fonte que chamam de unha da serra de Montenegro distante deste lugar três léguas e meia. Faz sua corrente de Norte a Sul até que entra no sobredito termo e aqui vira ao Nascente e no espaço de uma légua, digo dali a uma légua se mete em outro de maior grandeza que se chama Rabaçal que tem princípio no Reino de Castela. Este rio de Rio Torto na sua corrente faz muitas voltas e torcicolos e daqui se infere tenha este lugar o nome de Rio Torto.
No que respeita às antiguidades dignas de memória, não há mais que um cabeço alto perto e à vista do Lugar, em direitura do Norte, [aonde] se vêem uns vestígios das ruínas de uma fortaleza dos romanos ou mais antiga. Aqui neste sítio se tem achado relógios de ouro e dizem, é tradição, que também se acharam pratos de prata.

Não há mais coisa alguma de substância que se haja de referir e responder aos artigos da mesma nem coisa de que se haja de fazer descrição, só sim declaro que o dito termo confina com o de Valpaços, de Valverde, Cachão, Crasto, Lilela, Póvoa e Rio Rabaçal.
O que afirmo sub salvis e assino esta, que escrevi hoje em Rio Torto, catorze de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito e, comigo, os párocos abaixo nomeados.

O Encomendado,
João Álvares

O Pároco de Miradeses, Manuel Lopes
O Pároco de Nossa Senhora das Neves, Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo

Che Guevara morreu há 44 anos


No dia 9 de Outubro de 1967 morria na aldeia de La Higuera, Bolívia, onde fora capturado um dia antes, sendo executado a tiro por um soldado boliviano, aquele que foi considerado pela revista norte-americanaTime Magazine uma das cem personalidades mais importantes do século XX – Ernesto Guevara de la Cerna, mais conhecido por Che Guevara ou El Che, devido ao seu constante uso do vocativo gaúcho “che”...
Rever nossa publicação de 2010 por ocasião do 43.º aniversário da sua morteAQUI.

750.º Aniversário do nascimento de D. Dinis, rei de Portugal


D. Dinis I de Portugal (Lisboa [?], 9 de Outubro 1261 — Santarém. 7 de Janeiro de 1325) foi o sexto rei de Portugal. Filho de D. Afonso III e da infanta Beatriz de Castela, neto de Afonso X de Castela, foi aclamado em Lisboa em 1279. Viveu 63 anos e desses 46 passou-os a governar os Reinos de Portugal e do Algarve, tendo subido ao trono com 17 anos…



Rever nossa publicação de 2010, por ocasião do 749 aniversário do seu nascimento

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – POSSACOS

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 30, POSSACOS, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 30, n.º 236, p. 1813 a 1816]

Relação dos interrogatórios que se perguntam saber desta terra, são os seguintes.
É esta terra da Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de Braga, Comarca e Termo de Chaves e Freguesia de Poçacos, orago de Nossa Senhora das Neves.
É do duque de Bragança e lhe paga foros. Tem este lugar de Poçacos oitenta e cinco vizinho e duzentas e setenta pessoas de sacramento.
Está situado em uma terra plana e tem, no meio, uma laguna com uma fonte no meio que dá água bastante para o povo e descobre-se dela a metade do Bispado de Miranda, como é a Serra de Bornes e a Vila de Mirandela. Tem termo seu e tem légua e meia, em redondo, e compreende e vêm à missa a este lugar a quinta de Cachão que tem doze vizinhos. Está a igreja fora do lugar ao redor das casas em um cabeço cheio de oliveiras. Tem este lugar de Poçacos e a quinta de Cachão de freguesia. É orago de Nossa Senhora das Neves e tem três Altares, o maior de Nossa Senhora e dois colaterais, um de Santo António e outro de Santo Cristo. É o pároco vigário ad nutum e é apresentação do pároco de Santiago da Ribeira de Alhariz. Tem o pároco dez mil réis de côngrua e de cada freguês uma oferta de pão centeio.
Não tem beneficiados. Tem duas capelas dentro do lugar, como a de Santo António que a administra Maria Machada, deste lugar, outra de Nossa Senhora da Assunção que a administra Domingos Martins, deste lugar. Não acode a elas romagem.
Os frutos da terra são pão centeio, com abundância, vinho do superlativo e azeite, tudo com abundância.
Tem juiz espedanio [pedâneo] que está sujeito ao juiz de fora, de vara branca, da Vila de Chaves. Não tem couto nem coisa que o valha.
Saiu deste lugar um Doutor formado em Coimbra chamado João Lopes Martins.
Serve-se do correio de Chaves que dista deste lugar quatro léguas.
Dista esta terra da cidade do Arcebispado dezoito léguas e da de Lisboa, capital do Reino, dista setenta léguas.
Tem privilegiados e paga foros à Sereníssima Casa de Bragança. Abriu-se um interior com o terramoto de 1755.

Não há serra, só está situado, este lugar, de umas fragas que tem muitos sobreiros que dão muita cortiça que dá muito dinheiro e se gasta bem e tem este sítio um sumidouro em que corre a água por baixo da terra um quarto de meia légua, e nada mais.

Passa por esta terra uma ribeira que vem de Vale de Casas. Esta corre com bastante curso por todo este termo e tem moinhos bastantes de centeio. E tem esta um arco de pedra por onde se passa para o Bispado de Miranda e é de pedra lavrada e, dizem, tinha este dois padrões feitos à romana; um foi para Vale de Telhas e outro, dizem, veio para este lugar. Esta ribeira se mete logo dentro deste termo em um rio chamado rio Rabaçal que traz seu nascimento do Reino de Galiza e corre por este termo pela estremadura do Bispado de Miranda. Corre uma légua  e bastantemente caudaloso. Não é navegável por causa do muito fragaredo que tem e passa em uma ponte de Vale de Telhas para o Bispado de Miranda.
Cria este rio peixes em abundância como são bogas, escalos e barbos, tudo em abundância, e se pesca nele livremente. Não se cultivam as suas margens por serem penhascosas e todo o ano corre com bastante curso e arrebatado e corre de Norte para o Sul e se mete em outro rio chamado o Tuela, por cima de Mirandela, e caminha para o Douro e tem moinhos bastantes.
Tem este rio uma légua de comprido nesta terra.

Não há nada mais que dar conta e, posta na verdade, fiz e assinei.

(Declaro que há mais nesta freguesia um sítio que chamam a Fraga da Senhora em redor deste lugar que dá pedra de cantaria tal como da pedraria que se foi daqui para Chaves, que são quatro léguas, para as obras do Hospital de Sua Majestade)

Eu, o Padre Baltazar Fernandes, vigário desta igreja de Nossa Senhora das Neves do lugar de Poçacos, com os dois párocos mais vizinhos, o Reverendo vigário de Valpaços e o Reverendo vigário de Vassal, o que afirmo in verbo sacerdotis, hoje em Poçacos, aos 3 de Abril de 1758.

O Pároco, Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo
O Vigário Dâmaso Osório de Queiroga
O Vigário, Padre Francisco Pereira de Aial

440.º Aniversário da Batalha de Lepanto


É considerada a maior batalha naval da História no Mar Mediterrâneo, depois da de Actium, em 31 a. C., e participaram naquela alguns portugueses, deixando marcas na nossa tradição oral. Trata-se portanto de uma data comemorativa de relevância universal e nacional que entendemos dever recordar aqui, mais uma vez.
Para rever o significado e a importância deste evento, de que fizemos eco por ocasião do seu 439.º Aniversário, click AQUI.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Uma visita ao Solar dos Morgados de Vilartão

Por Leonel Salvado


Correspondendo a um convite que nos foi graciosamente dirigido, fizemos uma visita ao Solar dos Morgados de Vilartão, situado na freguesia de Bouçoais no concelho de Valpaços. Este belo conjunto do património histórico edificado do concelho encontra-se em admirável estado de recuperação, graças ao espírito de iniciativa, energia e paixão pelas coisas da História que vimos transparecer da pessoa do seu actual proprietário, nosso afável e esclarecido cicerone, o Dr. Joaquim Malvar de Azevedo, oriundo de uma conceituada família de Vila Nova de Famalicão, em companhia de sua prestimosa esposa que é uma das descendente dos morgados de Vilartão e uma das herdeiras do vasto património da ilustre família dos Morais Soares, grande parte do qual teve de ser por eles readquirido pela compra, dada a sua dispersão ao longo dos tempos que se seguiram à extinção dos morgadios nos primórdios da era liberal. Trata-se de um amplo espaço de indescritível riqueza arquitectónica tanto no seu exterior como no interior do corpo do edifício, onde se respira história em cada um dos seus recantos e do imenso mobilário, enfim, um espaço revigorante para quem se disponha a entregar-se ao prazer de descobrir neste recôndito lugar de Trás-os-Montes uma riqueza patrimonial que não ficará muito a dever um grande número de sublimados solares e palácios-museu que recheiam os roteiros turísticos do país e movimentam multidões de visitantes, um solar de uma prestigiada linhagem aristocrática da Província que fez a história de Trás-os-Montes e onde coexistiram, e ainda coexistem, elementos arquitectónicos de épocas distintas de extraordinário interesse que vão desde século XVII ao século XX, em maior ou menor conformidade com os estilos de influência europeia rigorosamente definidos nos tratados de arquitectura de cada uma dessas épocas, a par com outros elementos tipicamente transmontanos.
Tivemos a oportunidade de constatar, sob orientação do Dr. Malvar de Azevedo, que na construção do solar no início do século XVII por determinação de Álvaro de Morais Soares  -filho de Aleixo Gonçalves Soares e de D.ª Helena de Góis, de Vinhais, que casou em Vilartão com D.ª Maria Teixeira, filha Gaspar de Lobão, cavaleiro na Ordem de Cristo - quem instituiu o morgadio que perdurou por sete gerações, houve a preocupação em se aproveitar uma construção mais antiga inserida num pátio também certamente de construção mais antiga, provavelmente da época medieval, que actualmente é chamado de pátio grande ou das cavalariças, um espaço amplo e constituído por colunas de secção rectangular de generosas proporções e é tida como a ala mais antiga de todo o conjunto arquitectónico e, portanto anterior ao corpo principal do edifício setecentista que passou a compreender mais duas alas resultando numa estrutura em “U” com três pátios. Uma destas alas destinava-se aos serviços de cozinha com outras dependências e foi na entrada para este espaço que, já no século XX, o célebre Doutor Armando Morais Soares carinhosamente apelidado de “o último Doutor João Semana”, em homenagem e simpatia pela abnegada dedicação a que se entregou no tratamento dos seus doentes mais pobres e necessitados, que dividiu o compartimento para instalar o seu consultório. Desnivelada em três degraus do corpo principal, como era comum na época, a cozinha do solar é verdadeiramente admirável, compreendendo uma copa e uma dispensa e uma entrada independente. Outra ala, que integra uma parte de construção mais antiga a que atrás nos referimos, foi construída com o fim de acomodar a criadagem e a funcionar, também, como sala de arrumos. No corpo principal admirámos as sumptuosas salas de recepção dispostas em linha de que se destaca a câmara-mor. O centro desta câmara, onde se encontrava a cama dos morgados, estava alinhado através da ampla janela com o altar da capela do solar que foi mandada construir pelo mesmo Álvaro de Morais Soares em 1644, mais uma preciosidade arquitectónica em estado de ruína mas que, segundo o Dr. Malvar de Azevedo, se prevê para breve a sua recuperação. Ainda relativamente ao edifício do solar, se as alterações à planta original até à actualidade foram pouco significativas, o mesmo já não se dirá dos telhados, pois como observa o Dr. Malvar, estes originalmente seriam em forma de pirâmide mais ajustados aos tectos em masseira e cobertos com telhas fabricadas no próprio morgadio.
Cumpre ainda fazer uma referência à existência de um arquivo constituído por variada documentação, desde documentos de correspondência relativamente recentes, tendo em conta a antiguidade do solar, e fotografias antigas da família.
Para finalizar, devo dizer que foi uma honra e um prazer pessoal conhecer este grandioso exemplar da riqueza patrimonial que podemos achar no concelho de Valpaços e um prazer também conhecer as pessoas cujo espírito de determinação de coragem e apego ao seu património, que do ponto de vista histórico e cultural é de toda a comunidade local, regional e nacional, que são o Doutor Joaquim Malvar de Azevedo e sua esposa. Para eles vai a nossa gratidão pela oportunidade que nos ofereceram para conhecermos o Solar dos Morgados de Vilartão e para todos os valpacenses vai a nossa recomendação para que se disponham a conhecê-lo também.

Para já, sugerimos que façam uma visita ao blogue do Solar, começando pela sua página incial, AQUI.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – NOZELOS

Por Leonel Salvado


MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 16, NOZELOS, Monforte de Rio Lima (leia-se NOZELOS, Monforte de Rio Livre)
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 25, n.º (N) 42, p. 293 a 302]

Resposta de um papel que me veio remetido do Muito Reverendo Senhor Doutor Arcipreste Abade de Monforte e me foi entregue por António de Morais, deste Lugar, no qual se contém setenta interrogatórios em três capítulos dos quais […] respondo:
A Província em que fica este lugar que se chama Nozelos é a Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, termo da Vila de Monforte e Freguesia de Nossa Senhora da Expectação.
O Senhor desta terra e das mais de seu estado é o Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Conde de Atouguia e o Senhor Donatário é o Excelentíssimo Senhor Conde de Valadares.
Este lugar, de onde vai este papel, chama-se Nozelos que se compõe de cinquenta e nove fogos e duzentas e seis pessoas. Este lugar está situado em uma terra que não é propriamente vale por estarem muitas moradas dela situadas em pedra dura e levantado em um alto que de todas as partes há ladeiras para subir a ele e da parte do nascente corre um ribeiro, na distância de três tiros de bala, que tem seu nascimento no termo de Cimo de Vila de Castanheira, freguesia de São João Baptista, no sítio do Pereiro, e da parte do Norte tem outro ribeiro que tem seu nascimento no termo do lugar de Bobadela onde chamam a serra da cortiça, distante deste lugar meia légua, o qual passa distante das últimas casas a um terço da mesma, e para a mesma parte do Norte se descobre o lugar de Tronco, freguesia de São Tiago, distante deste quase meia légua, e para o do Sul se descobre a igreja de São Miguel, do lugar de Fiães, distante deste meia légua, e não se descobrem deste mais povoações por causa de um outeiro que tem para a parte do Sul que impede descobrirem-se mais algumas, excepto a de Tinhela, que dista daqui meia légua por uma ribeira abaixo, que é propriamente vale.
Este lugar tem termo seu (e é termo da Vila de Monforte, distante deste uma légua) que tem aonde é mais amplo quase meia légua em circuito composto de terras lavradias, vinhas, lameiros, castanheiros e árvores infrutíferas que nesta terra se chamam por vários nomes, como são carvalhos, amieiros, salgueiro e sangrinhos e não compreende lugar nem aldeia alguma e o mais fica expressado [supra].
A Paróquia está dentro do lugar, no meio dele, e não compreende lugares nem aldeias a mais do que fica expressado, nem deste tenho mais que dizer.
O seu orago é Nossa Senhora do Ó, chamada por outro nome de Nossa Senhora da Expectação, e tem três Altares, dois colaterais e o Maior, aonde está a imagem da mesma cuja festa se celebra aos dezoito do mês de Dezembro com oito ou dez clérigos, e no mesmo Altar está a imagem de São Caetano cuja festa se celebra aos dez dias do mês de Agosto, e da parte da Epístola está o Altar de Santo António cuja festa se celebra aos treze de Junho, e  no mesmo Altar está a imagem de São Brás, aonde se lhe faz uma missa cantada com quatro clérigos com alguma limitada esmola que lhe traz algum romeiro no seu dia. Da parte do Evangelho está o Altar de Nossa Senhora do Rosário cuja festa se celebra no segundo Domingo de Outubro, conforme o zelo dos mordomos e todas as imagens são de vulto e está também neste Altar a imagem de Santo Amaro cuja festa se celebra no dia quinze de Janeiro, aonde vêm, nesse dia, muitos romeiros, principalmente velhos, a rezar à dita imagem onde trazem algumas esmolas que recolhe o mordomo para fazer a festa. E não há mais altares e estes estão todos compostos com asseio e limpeza, tendo todos os retábulos dourados e os mais ornatos condizentes. Não tem naves, somente tem, da parte do Evangelho, uma Sacristia aonde se conservam com asseio os ornatos da dita igreja e não tem Confraria alguma, nem Irmandade.
O Pároco é cura confirmado e quem o apresentou foi o Reverendo Reitor de Oucidres cujo Benefício é do mesmo e renderá cento e cinquenta mil réis e este curato renderá cinquenta mil réis.
Os frutos da terra que os moradores recolhem com maior abundância é o pão de centeio e algum trigo e vinho, sendo dos mais estimados e melhores desta Povíncia, castanhas, milho, feijão, ervanço e de todos os renovos que nesta terra se chamam do Verão.
Tem juiz ordinário, vereadore e, almotacés de cujo corpo se compõe a Câmara de fazem audiência na Vila de Monforte na Casa da Câmara, onde há cadeia para os delinquentes e a estes, juntos, se sujeita a gente desta terra e ao Doutor Corregedor da Torre de Moncorvo.
Esta terra não tem correio e se serve do de Chaves que chega ali na Quarta-feira, pelo meio-dia, e parte ao Domingo de tarde e dista desta terra três léguas.
Este lugar dista da cidade capital deste Bispado, que se chama Miranda do Douro, dezoito léguas, e da capital deste Reino setenta e cinco.
Há na Vila de Monforte, cabeça desta terra, um castelo e a fortificação e estado em que se acha descreve o Reverendo Abade de Monforte que tem as casas junto a ele.
Não tenho notícia de que nesta terra se arruinasse templo nem casa alguma no terramoto de 1755. Não há nesta terra coisa alguma digna de memória.

Há nesta terra alguns montes de lenhas com várias árvores cujos nomes são castanheiros, carvalhos, amieiros, salgueiros, sangrinhos e algumas árvores de fruto como são pereiras, macieiras, amoreiras e nestes montes se vêem vários lobos, porém não se criam nestes por serem os matos raros, e também neles se criam raposas, lebres, coelhos e perdizes e várias castas de aves como melros, rolas, corvos, bubelas, carriças e rouxinóis. Não há neste montes coisa especial de que se possa fazer reflexo, pois cada um tem seu dono e assim os não deixam fazer pastos de sorte que neles se criem ovelhas que possam causar deformidade.
Nesta terra não há rio. Nesta terra há dois ribeiros, os quais correm girando este lugar, um pela parte do Nascente e outro pela do Norte, e ambos se juntam no termo deste lugar no sítio chamado as Olgas e o que corre pela parte do Nascente tem o seu nascente daqui na distância de uma légua, no sítio chamado de Pereiro, termo de Cimo de Vila de Castanheira, freguesia de São João Baptista, e corre por terra infrutífera, porém os moradores de Cimo de Vila lhe divertem as águas para limarem os prados e Linhares com ela e o mesmo fazem os moradores da quinta de Pedome, que corre distante dela dois tiros de pedra, e entrando neste termo tem o mesmo efeito de limar os prados e linhares deste termo até onde se junta com o que corre pela parte do Norte para o Sul e, juntamente, nele há duas casas de moinhos, cada uma com duas rodas, para centeio e trigo, que moem ordinariamente desde o mês de Dezembro até ao de Maio e nele há umas castas de peixes que nesta terra se chamam escalos, os quais se extinguiram pela grande seca, porque no estio é preciso buscar algum poço mais fundo para nele beberem os gados e, assim, não cria senão escalos, rãs e cágados. Este tem o nome de ribeiro de Pedome porque passa somente na quinta chamada Pedome e tem um pontão de três traves de pau cobertas com pedras. E o que passa pela parte do Norte que nasce no sítio chamado da serra das cortiças, do termo de Bobadela, daqui distante meia légua, é mais pequeno, porém com mais substância e é mais saturável no Verão e tem o mesmo efeito de limar prados e Linhares deste termo e tem quatro casas de moinhos e as mesmas castas de pesca e, tanto que se juntam ambos não têm utilidade alguma neste termo porque correm pelo melhor sítio de terras de centeio e nelas fazem algum dano e daqui três léguas se metem no rio chamado Rabaçal.

E não tenho mais nada que dizer, por não haver rio nem serra, e para mais aclarar o que havia que responder pelos predicados e qualidades da terra, os cumpri neste papel. E assim, conclui este papel com a resposta acima declarada e neste escrita.

E, para fé da verdade me assino, hoje, vinte e um dias do mês de Abril de mil setecentos e cinquenta e oito.

O Padre Caetano de Sá Pereira,
Confirmado do lugar de Nozelos

São Francisco de Assis 2011

Imagem em domínio público, Wikimedia Commons, http://pt.wikipedia.org

Celebra-se hoje na Igreja Católica a festa litúrgica de S. Francisco de Assis, o santo fundador de uma das mais duráveis instituições monásticas vocacionada para a missionação, inspirada nos altos valores de humildade e humanidade.

Para rever a publicação que lhe dedicámos no mesmo dia, em 2010, click AQUI.

domingo, 2 de outubro de 2011

541.º Aniversário do nascimento de D. Isabel de Aragão e Castela, Rainha de Portugal


Dona Isabel de Aragão e Castela, a desafortunada décima sexta rainha de Portugal que este ano voltamos a recordar, aqui.



Para aceder à publicação que lhe dedicámos por ocasião do 540.º Aniversário do seu nascimento click AQUI.