domingo, 23 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SANFINS

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Só muito recentemente consegui encontrar o documento das "Memórias Paroquiais de 1758" relativo a Sanfins (de Valpaços) sob a referência de “Pedro Fins (São), Chaves” e de que divulgo aqui a respectiva transcrição. Convém que se diga que na árdua e incessante procura deste documento, deparei com muitos outros referentes a topónimos idênticos tais como Sanfins da Castanheira, Sanfins do Douro, bem como outros vários “São Pedro Fins”, que analisei um por um e que, pelo seu teor não me restaram dúvidas que seriam de descartar. A mesma sorte não tiveram, como pude constatar, os investigadores desta temática coordenados por José Viriato Capela, e ele próprio, que tomaram “Sanfins da Castanheira” como a Sanfins actualmente de Valpaços, o que, inevitavelmente, acabou por se traduzir numa involuntária distorção dos dados e factos a relativamente à freguesia “São Pedro Fins”, curato da Reitoria de Carrazedo de Montenegro no mesmo termo de Chaves que é o que hoje constitui a freguesia de Sanfins do concelho de Valpaços. Cumpre, portanto, advertir que a consulta do livro e publicações posteriores daquele autor intitulados ambos “As Freguesias do Distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758, Memórias, História e Património” deve ser feita, para este e para outros casos em que entretanto também encontrei alguns equívocos, com necessária cautela e ponderação.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo28, PEDRO FINS (São), Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 28, n.º 101a, p. 649 a 650]

São Pedro fins

Respondendo ao despacho do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral da Comarca de Chaves:
Eu, o Padre Manuel Alves, faço certo e como esta freguesia de São Pedro Fins é da Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de Braga, Termo e Comarca de Chaves. É anexa de São Nicolau de Carrazedo de Montenegro e apresentado pelo mesmo Reitor de Montenegro, pertencente ao ordinário de Braga.
Tem sessenta e seis moradores, pessoas de Sacramento cento e oitenta e sete, e menores quarenta e nove que, todos juntos fazem a conta de duzentas e trinta e cinco pessoas [sic].
Está situada em mais fragas que terra movediça, entre vinhas e olivais e algumas terras de fruto e das povoações não se descobre senão Argeriz, que dista meia légua desta, Água Revés, que dista uma légua e Vassal, que dista menos de meia légua, e nada mais.
O termo é seu e não tem mais lugares.
A Paróquia está no mesmo lugar metida. O orago é São Pedro ad vincula. Tem três altares, um do orago, e nele está a imagem do dito São Pedro, e dois colaterais, um da imagem de Nossa Senhora do Rosário e o outro da imagem de Cristo. É só de uma nave.
O pároco é vigário ad Nutum e o apresenta o Reverendo Reitor de São Nicolau de Carrazedo, como dito fica. A Renda que tem serão, pouco mais ou menos, sessenta mil réis.
Os moradores, os frutos que recolhem são os seguintes: centeio vinho, trigo, azeite, castanhas e legumes de feijão grande e miúdo; e, com mais abundância, centeio e vinho.
Não tem juiz ordinário, está sujeita ao juiz e fora da Comarca e Vila de Chaves, Província de Trás-os-Montes.
O correio é o de Chaves e dista desta freguesia três léguas e desta a Vila de Chaves até onde chega que é Vila Real são dez léguas, pouco mais ou menos. Dista deste lugar a cidade capital de Braga dezoito léguas e a cidade de Lisboa oitenta léguas, pouco mais ou menos.

Em Serra não há nesta freguesia que dizer.

O rio chama-se rio de São Fins, principia o seu nascimento aonde chamam a Venda da Serra e finda no rio de Miradezes, corre de Norte para o Sul e tem três léguas de comprido donde nasce até donde finda. Está entre o Nascente e o Poente e passa por perto de três lugares, um chamado Alfonge, outro Parada e por perto desta freguesia de São Pedro Fins e por Rio Torto. Tem três Rodas de Moinhos e tem um sumidouro aonde passa o rio por baixo de um fragão. Quando o rio vai grande não tem ponte alguma, nem árvores algumas senão fragas. Os peixes que tem o dito rio são bogas e escalos.

E não se continha mais nesta freguesia nos ditos artigos, assim em uns como nos outros, e por ser verdade o passei na mesma que assino com os Reverendos vigários de Argeriz e Vassal, hoje, onze de Março de mil setecentos e cinquenta e oito anos.

São Pedro Fins, era et supra o que juro in verbo Sacerdotis.

O Vigário de São Pedro Fins, Comarca de Chaves, Padre Manuel Alves

O pároco de São Mamede de Argeriz, vigário António Martins
O Vigário de Santa Maria de Vassal, Dâmaso Osório de Queiroga   

sábado, 22 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – NOZEDO

Por Leonel Salvado


Nota prévia: A aldeia de Nozedo, actualmente uma anexa da freguesia de São João da Corveira, foi outrora freguesia independente. A sua autonomia relativamente à Corveira, que o presente documento dos meados do século XVIII, que aqui transcrevo, atesta, poderá remontar ao século XVII quando, já então, o respectivo pároco seria da confirmação e apresentação do Reitor da vizinha paróquia e Reitoria de Santa Leocádia do Monte. Também pertencia, por esse tempo, a esta freguesia de São Salvador de Nuzedo o lugar de Argemil, hoje anexa à de Carrazedo de Montenegro. Pela segunda metade do XIX, seria finalmente a anexada à freguesia de São João da Corveira, no termo da Vila de Carrazedo de Montenegro e, em 1853, com a extinção deste concelho, transitou, na mesma condição, para o concelho e comarca, entretanto criados, de Valpaços. Na presente transcrição entendi manter alguns topónimos na forma como se lêem na cópia do documento original.  

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo25, NUZEDO, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 25, n.º (N) 38, p. 277 a 280]

Nuzedo
O Padre João Nunes, vigário nesta Igreja de São Salvador de Nuzedo, Comarca de Chaves, Arcebispado de Braga, Primaz, certifico em como, satisfazendo a ordem que me foi apresentada do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário geral desta Comarca de Chaves, para haver de responder a uns interrogatórios que pelo mesmo Senhor me foram enviados, e constam de papel lacrado de letra redonda, e o que deles posso certificar e pude averiguar, pelo que respeita a esta freguesia, é o seguinte.

Primeiramente, é situada na Província de Trás-os-Montes e se compõe de dois lugares, o de Nuzedo, aonde se acha junto dela, para a parte do Nascente, a Igreja Matriz, porém fora do mesmo lugar, a qual é pertencente ao Arcebispado de Braga, Primaz, e da Comarca de Chaves, pelo que respeita à jurisdição Eclesiástica. E pelo que respeita ao secular é do termo da Vila de Chaves, de que é donatária a Sereníssima Casa de Bragança, e da Comarca e Ouvidoria da mesma cidade e também o é pela Provedoria da Comarca de Guimarães.
Tem, este lugar, quarenta vizinhos e o número de pessoas de sacramento representa, entre machos e fêmeas, cento e vinte e cinco.
Acha-se situado não em vale nem totalmente em monte, mas sim em terra que pelos seus arredores produzem algum trigo, centeio, milhos, linhos e algumas hortas e tem algumas árvores de fruto como são castanheiros e algumas macieiras e pereiras e também algumas videiras de pouca quantidade. E junto dela, para a parte do Nascente, tem um regueiro que não dá pescaria alguma, o qual tem um pontilhão de pedra por onde se passa somente a pé, e além deste regueiro, correndo de Nascente para o Sul, se acha um monte de lenhas muito miúdas, o qual tem suas baixas em que se acham plantados castanheiros. Tem também seus lameiros do distrito deste povo e um rego de água de que se acham de poder os moradores o ir buscá-la ao distrito de Vilarinho do Monte e usarem dela somente para regar desde o primeiro de Abril até dia de São Miguel. Te mais duas fontes de água perene dentro do mesmo povo, correndo de Norte para Nascente.
O fruto que os moradores mais recolhem é centeio.
Dista dele a cidade de Braga, cabeça de Arcebispado, dezoito léguas, e a de Lisboa fica distante setenta e duas léguas.
No terramoto do ano de mil e setecentos e trinta e cinco [sic], não padeceu ruína alguma.
É orago desta freguesia o Salvador do mundo. Tem a igreja três Altares. No principal de acha o Salvador do mundo, em vulto, e nos colaterais se acha, da mesma sorte em vulto, a Senhora do Rosário, em uma, e noutro Santa Luzia e São Sebastião.
É esta igreja anexa da de Santa Leocádia, do Padroado Real. O pároco que se acha nela é vigário Confirmado e renderá, de um ano para outro, cinquenta e cinco mil réis.
Acha-se dentro do lugar uma capela da invocação de São Sebastião que é do povo, aonde se acha um Altar aonde se diz missa e nele se acha também a imagem de Santo António.

No que respeita ao lugar de Argemil, que é desta mesma freguesia e dista deste quase um quarto de légua, se compõe de quarenta e seis moradores e, ao presente, tem de pessoas de sacramento, que assistem missa, cinquenta e uma, entre homens e mulheres.
No que diz respeito aos frutos, são da mesma qualidade dos de Nuzedo, acima nomeado, e somente lhe acresce algum vinho que no dito termo se acha, ainda que pouco.
Tem este lugar três fontes perenes de que usa o povo, uma no fundo dele, outra no meio e outra no cimo. Tem mais um rego de água levada de outras fontes que se acham no mesmo distrito para a parte do Norte, o qual leva daí para o Nascente. Somente no tempo de Verão é que lhe encaminham as águas para uma poça que se acha dentro do povo no sítio a que chamam o Villar e daí, pelo juiz vintenário, é repartida entre os moradores para a rega dos frutos dos seus campos, até aonde possa chegar.
Tem este povo três capelas, uma no fundo dele, para a parte do Nascente, da invocação de Nossa Senhora das Necessidades, com três Altares e em todas se diz missa; em o Altar principal se acha colocada a imagem da mesma Senhora, em vulto, de Santo António e de São Bernardino. Nesta capela, de tempo antiquíssimo, se sepultam as pessoas que no dito lugar falecem e na mesma se lhes fazem os sufrágios pelas suas almas com a assistência do vigário da mesma freguesia. Há também nela uma Confraria do Santíssimo Coração de Jesus erigida por Bula Pontifícia e aprovada pelo ordinário em cuja Irmandade se acham muitos Irmãos, assim sacerdotes como leigos de um e outro sexo. É esta capela do mesmo povo cujos moradores dele a fabricam.
Como também há outra capela, da invocação de São Teotónio, que se acha em uma borda do povo, para a parte do Norte, e também há um Altar em que se diz missa. O santo que está no Altar é de vulto e também é fabricada pelos moradores do mesmo povo e só tem uma terra que rende para a mesma capela, cada ano, duzentos e cinquenta réis.
A terceira capela dos acima nomeados, é da invocação de Nossa Senhora da Conceição, aonde a imagem desta se acha em vulto, tem seu retábulo dourado e nele postos, também em vulto, Santo António e São Patrício junto deste Altar aonde se celebra o Sacrifício da missa. Acha-se esta capela situada no cimo do mesmo lugar, junto das casas. A fábrica se acha instituída por um vínculo de que é administrador o padre Patrício Fernandes dos Santos, abade de São Cosme de Pedome na Província do Minho.
Neste lugar também não padeceu ruína alguma no terramoto de mil e setecentos e cinquenta [rasurado] e cinco.

O correio de que se servem estes dois lugares é o da Vila de Chaves e se declara que o lugar de Argemil fica para parte do Nascente da declarada cabeça desta freguesia.
Declaro que o regueiro que passa pela parte do Nascente deste povo é muito pequeno e nasce no termo do mesmo e logo se mete em um ribeiro que passa pelas Vargeas, da Sagrada Religião de Malta, que fica para a parte do Sul. Tem o regueiro deste povo um moinho centieiro que se dá com muita água nos três ou quatro meses do Inverno e no mais tempo está quieto.


Tem este lugar e o de Argemil, para a parte do Norte, uma pedreira Barreira que não é fina nem muito graciosa, de que se fazem as casas e os templos desta redondeza.
Há também na igreja matriz deste mesmo lugar uma imagem de Nossa Senhora do Carmo, em vulto, que está no Altar maior, na parte do Evangelho, que a pôs um devoto e está nele por mandado do Senhor Vigário Geral desta Comarca de Chaves.

E não pude averiguar mais do que dizem os interrogatórios juntos. O referido é verdade e o juro in verbo Sacerdotis, assinado aos sete de Março de mil e setecentos e cinquenta anos.

O Padre João Nunes

O Reitor João de Almeida Sousa e Sá
O Reitor de São Nicolau de Carrazedo, António Gomes

322.º Aniversário do Nascimento de D. João V, rei de Portugal

João Francisco António José Bento Bernardo foi o 25.º rei de Portugal, o 4.º da dinastia de Bragança, cognominado de O Magnânimo ou O Rei-Sol Português. Foi o terceiro filho (segundo varão) dos oito legítimos que nasceram de D. Pero II e D. Maria Sofia de Neuburgo. A sua corte foi rodeada de grande ostentação por influência das restantes cortes europeias, sobretudo a francesa, e graças à prosperidade que o ouro do Brasil então proporcionou ao reino. Este monarca do despotismo esclarecido português ficou também conhecido como o freirático , devido às suas relações amorosa com conhecidas senhoras religiosas da época, de que resultou o nascimento de alguns filhos ilegítimos, dentre os quais os célebres “meninos de Palhavã”.
Para rever o que publicámos por ocasião do 321º Aniversário do seu nascimento, click AQUI

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SÃO JOÃO DA CORVEIRA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Na presente transcrição alguns topónimos, por mera curiosidade etimológica que podem suscitar, são apresentados na forma como se lêem na cópia do manuscrito original.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo12, CORVEIRA, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 12, n.º 339, p. 2725 a 2738]

Corveira
O Padre João de Almeida Sousa e Sá, pároco in perpetuum da Igreja de São João da Corveira desta grande Religião da Igreja de Malta, certifico em como, em cumprimento de uma ordem mandada e determinada pelo Excelentíssimo e Ilustríssimo Dom Frei Aleixo de Miranda Henriques, eleito Bispo de Miranda, Vigário Capitular e Governador deste Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, enviada a mim, pároco supra nomeado e infra assinado, pelo muito Reverendo Senhor Bento de Carvalho e Faria, Vigário Geral desta Comarca de Chaves, e sendo-me entregue com os interrogatórios juntos, me informei do conteúdo deles e alcancei e sei o seguinte.

Esta terra de São João da Corveira fica na Província de Trás-os-Montes, pertence ao Arcebispado de Braga, Primaz, distrito da Comarca e Termo de Chaves e pertence à freguesia de São João da Corveira que é da Sagrada Religião de Malta.
É do Comendador desta Comenda, Frei Paulo Guedes Pereira Pinto, cavaleiro professo da Ordem da Sagrada Religião, que é Donatário da mesma.
Tem a Freguesia cento e trinta fogos e trezentas e quarenta e oito pessoas.
Está situada em uma campina breve cercada de montes não muito elevados. Descobrem-se várias terras e montes e as abas dos subúrbios de Carrazedo de Monte Negro e a torre da mesma igreja dista um quarto de légua e o Lugar de São Pedro dos Vales dista duas léguas.
Tem termo separado das mais terras, o seu principal Lugar de São João da Corveira de trinta e um vizinhos, o lugar das Vargeas que tem nove vizinhos, Quintelinha três, Vilarinho do Monte vinte e dois, Junqueira dezasseis, Sobrado dezasseis, Riobom trinta e dois, Bustos dois, que fazem oito Lugares.
Acha-se situada a freguesia em um alto, fora do dito Lugar de São João, para a parte do Nascente, distante deste cento e dezassete passos. Não tem aldeias, mas sim lugares que vão distintos pelos seus nomes no interrogatório supra.
É o seu orago São João Baptista. Tem três altares, o mor, aonde está o Santíssimo Sacramento, e dois colaterais; no da parte do Evangelho está colocada a imagem de Nossa Senhora do Rosário, no da Epístola a imagem do Santo Cristo Crucificado e São Brás. Tem quatro colunas de cada parte, de pedra, que sustentam o tecto, e uma Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Intitulam-se os párocos Reitores, da apresentação do Comendador que for desta Comenda que é, hoje, o acima nomeado. Rende cento e vinte mil réis.
Não tem beneficiados, nem cura pago pelo Comendador, que muito necessário é, nem paga outra alguma pensão.
Não há convento algum.
Não há Hospital.
Não tem Misericórdia.
Tem na borda de um passal, ao pé das casas de residência contíguas à igreja, a capela de Santo António. Pertence a fábrica desta ao Comendador. No mesmo lugar de São João tem a capela de São Sebastião. Tem a capela de São Gonçalo no meio do lugar das Vargeas. Tem a capela de Nossa Senhora das Neves fora do dito lugar de Vilarinho do Monte, ao pé da estrada. Tem a capela de Nossa Senhora da Expectação em uma aba do lugar da Junqueira. Tem a capela de Santo Ildefonso no meio do lugar de Sobrado. Tem a capela de Nossa Senhora dos Cheiros do lugar de Riobom, no princípio deste, ao pé da entrada, indo do Nascente para o Poente.
Todas estas capelas pertencem a esta igreja e freguesia, porém a fábrica delas pertence aos moradores dos lugares em que estão situadas, menos a de Santo António e a de Nossa Senhora dos Cheiros, porque destas pertence a fábrica ao Comendador, e da do sitio de Riobom tem somente do arco da capela mor para dentro.
Em todas as capelas se diz missa rezada nos dias dos seus oragos. Na capela de Nossa Senhora dos Cheiros se faz uma Feira aos vinte e cinco de Março, aonde também acode alguma gente de romagem, e neste dia se lhe faz missa cantada com as esmolas que, para isso, a piedade dos fiéis de Deus ali deixam, como também a do Senhor São Brás, em o seu dia, que está colocado no altar colateral desta igreja, aos três de Fevereiro, em o qual dia se faz uma Feira aonde acodem pessoas de romagem.
Os frutos da terra são castanha, trigo, centeio e milho, o que recolhem os lavradores em maior abundância e muito pouco dos três são os que sustentam a maior parte do ano destes produtos.
Tem juiz de vintena sujeito às justiças seculares de Chaves, a saber, Câmara e juiz de fora da Vila de Chaves e o ouvidor de Bragança. E pelo que respeita ao eclesiástico se sujeita ao Sereníssimo Infante Dom Pedro, Grão Prior do Crato, e ao Doutor Vigário Geral da Sagrada Religião de Malta, residente na cidade do Porto, assim no espiritual como no temporal e no espiritual somente ao ordinário de Braga, Primaz.
É Distrito de Malta e goza dos seus privilégios, assim no eclesiástico como no secular, por bulas pontifícias e indultos confirmados pelos Senhores Reis, de gloriosa memória, e pelo Senhor Rei Dom José, o primeiro, que Deus guarde.
Não me consta que desta Freguesia se distinguisse ou florescesse alguém por virtudes, Letras ou Armas e só se compõe de gente lavradora, de boa vida e costumes.
Fazem-se duas Feiras, uma aos três de Fevereiro, cada um ano, outra aos vinte e cinco de Março. A primeira em dia de São Brás, ao largo desta igreja, e pagam para o dito Santo, cada um que traz géneros para vender, cinquenta réis de cada assento, a outra no largo da capela de Nossa Senhora dos Cheiros, do lugar de Riobom, e dão o que a sua devoção permite para a missa cantada da dita Senhora e não são cativas por outro algum donativo.
Não há correio, servem-se do da Vila de Chaves que dista três léguas, chega às Quartas Feiras de tarde e parte ao Domingo pelas nove horas da manhã.
Dista da cidade capital de Braga, Primaz, dezoito léguas e da de Lisboa, capital do Reino, setenta e quatro.
Têm fontes nesta Freguesia, e em todos os lugares dela, que deveremos chamar de ordinárias mas saudáveis.
Não há porto de mar.
Não ruínas, nem muralhas ou fortalezas.
Não padeceu ruína alguma esta igreja, capelas ou casas no terramoto do ano de mil setecentos e cinquenta e cinco, ainda que fosse com veemência grande.
Não há mais coisa alguma especial ou digna de descrever.

Pelo que respeita às Serras
Não há serras no distrito desta minha Freguesia de marcos adentro.
Há uma planície de mato, perto, que poderá ter de largura e comprimento um quarto de légua, situado aonde chamam a Reboreda e principia ao lugar de Vilarinho do Monte, que está a Nordeste, e acaba em o lugar de Junqueira, para o Sul, e de outra parte principia no fundo da serra da Padrela e acaba, ao comprido, para a parte do Sudoeste.
Nesta dita planície nascem para a parte do Nordeste duas águas que vêm fazer de lagoa, não de água represa mas corrida, que passa pela falda da dita Reboreda por uma ribeira chamada da Junqueira para a parte do sul, pelo lugar de Sobrado, que serve para fazer regar alguns lameiros, e fenece em o rio chamado do Poio no lugar da chamada [Cunca?] em qual sítio tem outros lameiros em que se apascenta o gado daquele lugar.
Constam estes montes de urzes, carquejas e carvalhos. Não tem mais de que se faça memória. Em algumas partes destes montes se semeia centeio e trigo em pouca quantidade.
O temperamento destas terras é fresco, aonde de Dezembro até Abril, em alguns cimos, cai neve mas saudável.
Cria-se nestes montes muitos gados, como bois, cabras e ovelhas, e caça, assim como de perdizes, lebres e coelhos e destes géneros se criam abundantes se deixarem de matar nos meses que, pela lei, são proibidos por serem os tais montes naturais deles.

Pelo que pertence ao rio
Chama-se a este rio do Poio. Nasce na falda da serra de Padrela de três fontes que se juntam no sítio que chamam Bouças, o qual defontouro lança-se de marcha para a parte do poente. A este se une a água da Fonte de Padrela, vai correndo seu curso para a parte do Sul, daí volta para a do nascente, pelas margens e regadas de Sobrado e ribeiras do Poio, até chegar ao lugar das Vargeas. Neste sítio se lhe junta um regato que se acha a nascente dos lameiros de Vald’isa que toma a sua corrente até ao dito lugar das Vargeas aonde, unida às do Poio, segue a sua carreira outra vez para Sul, e passa por esta vez numa parte da serra de Carrazedo, ao poente. Junta-se mais ao dito rio do Poio outro regato que tem seu princípio em o lugar de Corveira donde, correndo para o Sul, passa por uma ilharga do lugar de Nuzedo. Aqui se lhe junta, a poente do dito lugar, mas seguindo sua corrente até às Vargeas aonde se junta com o dito rio Poio. É este o princípio do Rio Poio e fenece na ponte de Abreiro de onde entra no Foz Tua, tudo para a parte do Sul. Desde o fim ao princípio dista cinco léguas.
Não nasce caudaloso. Todo o ano corre. Os regatos que se lhes metem são os que acima digo, no distrito desta freguesia.
Não é navegável.
Corre do seu princípio até esta freguesia, para o Sul, daí para Nascente até às Vargeas e daqui para o Sul.
Não cria outros géneros de peixes mais que trutas e, estas, em pouca quantidade.
A pescaria a esta casta de peixes é feita de Junho até Setembro e é com chumbeira e redes de varrer e atravessar, porém pequenas por conta do pouco âmbito do rio.
Durante anos foi este rio, desta Freguesia, privilegiado por ser terra da Sagrada Religião de Malta, e ainda hoje é, e quando assiste na Comenda o Comendador lhe guardam o mesmo respeito e, no mais tempo, o devassam e pescam nos meses em que a lei não permite.
Nas poucas margens que tem nesta freguesia se cultivam de centeio, milho e trigo. O arvoredo é silvestre, nada de árvores de fruto por ser a terra de qualidade frigidíssima.
Nenhuma outra virtude tem as suas águas mais que fertilizar as terras.
No âmbito desta freguesia não tem, nem me consta tenha, outro nome mais que o de rio Poio.
Morre no Foz Tua, que é outro rio de maior curso, aonde chamam a Ponte do Abreiro, terra de Malta.
Não tem cachoeiras mas sim alguns prados, não muito fundos, e açudes tantos quantos são os moinhos, e não é nem pode ser navegável.
Não tem mais que uma ponte de cantaria, aonde chamam de Carrazedo, pela qual se continua a estrada Real de Bragança e Miranda e mais terras da parte do Nascente para a cidade de Braga e Porto.
No distrito desta freguesia há vinte e dois moinhos com vinte e dois açudes que todo o ano trabalham. Não há memória de que deixassem de moer por falta de água e, por isso, acodem no Verão quando há necessidade de água. De todos estes contámos quatro léguas em redondo, os quais moinhos estão, no distrito, de meia légua. Não há outro algum engenho.
Não há memória de que das areias deste rio se tirasse ouro ou alguma outra casta de metal.
As águas deste rio não são pensionadas a ninguém. Usam livremente os lavradores delas e estes só pagam, de marcos adentro, foros e pensões das terras ao Donatário delas que é o Comendador desta sobredita Comenda.
Do nascimento deste rio até aonde se submete no Foz Tua tem cinco léguas e passa por Padrela, lugar vizinho a esta freguesia para a parte do Poente, Sobrado, Vargeas, lugares desta freguesia, Carrazedo, Curros, Mascanho, Murça, Abreiro aonde, na parte deste lugar, se entranha no Foz Tua.


Não há coisa notável nesta terra, monte ou rio de que possa dar notícia na verdade.
Passo na verdade o referido que em fé da qual me assino, com dois párocos mais vizinhos, na forma da ordem que se me entregou e interrogatório junto.

São João da Corveira, dez de Março de mil setecentos cinquenta e oito, assino e declaro in verbo Sacerdotis.

O Reitor, João de Almeida Sousa e Sá

O vigário de Nuzedo, Padre João Nunes
O vigário de São Pedro de Padrela, Francisco Fernandes de Carvalho

864.º Aniversário da conquista de Lisboa


Comemoram-se hoje os 864 anos da rendição aos cristãos da Lisboa mourisca, submetida a um engenhoso cerco imposto pelos primeiros – as forças de D. Afonso Henriques e uma imensa multidão de Cruzados, de várias nacionalidades, em trânsito para a Terra Santa. O cerco, iniciado a 1 de Julho de 1147, só terminaria, efectivamente, a 25 de Outubro do mesmo ano, mas foi na data que hoje se comemora que se abriram as melhores perspectivas para o sucesso da empresa que proporcionou aos portugueses o definitivo domínio sobre esta cidade que em 1255 se tornou a capital desta Nação.

Existe um documento de significativo interesse histórico onde se relatam os sucessos ocorridos no cerco e tomada de Lisboa que é uma carta do Cruzado Osberto de Bawdsey que encontrámos divulgada e comentada no “Portal da História” e para a qual remetemos os nossos leitores. 

click para aceder ao documento

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

90.º Aniversário do desaparecimento de um ilustre transmontano


Perfizeram ontem, dia 19 de Outubro, 90 anos sobre a ocorrência da “Noite Sangrenta”, um triste episódio da História de Portugal vergonhosamente designado na opinião pública de além-fronteiras da época como uma das «revoluções à portuguesa» que conduziu ao assassinato de uma das figuras cimeiras da política portuguesa, o flaviense António Granjo, entre dois outros correligionários seus.

Rever o que publicámos por ocasião do 89.º Aniversário deste lamentável evento,

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: A Província de Trás-os-Montes vista por um memorialista dos finais do século XVIII

Por Leonel Salvado


Trata-se de uma descrição de economia das diferentes comarcas da Província de Trás-os-Montes intitulada Memória Económico-Política de 1799, de Luís António Medeiros Velho, ex-juiz de fora de Chaves, que foi publicada por Fernando de Sousa em População e Sociedade, n.º 4, IEPF, Porto, 1998, no seu trabalho Uma Descrição de Trás-os-Montes nos finais do século XVIII e encontrei transcrita no estudo coordenado por José Viriato Capela sob o título As Freguesias do distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758, a qual, com o devido respeito pelo autor e transcritor nomeados, passo a reproduzir:

«A Provincia de Tras-os-Montes que está em huma das partes mais septentrionaes do Reyno se compoem de quatro comarcas: a primeira he a de Miranda, a segunda he a de Moncorvo, a terceira de Bragança, e a quarta de Villa Real, alem de alguns conselhos pertencentes ás comarcas de Lamego, e Guimaraens.
A comarca de Miranda he regularmente pouco povoada; tem immensas terras, e alguns montes, e todas proporcionadas para darem trigos, senteios, e cevadas, e poderião dar algum milho grosso e painço, se o cultivassem. Em poucos sitios produz vinhos, e os que se colhem nos concelhos de Lomba, e Vinhaes são generosos, e muito balsamicos, e ainda sem beneficio se conservão muito tempo, e destilados dão bom rendimento em agua ardente: o seu consumo he na propria terra, e algum vay para Galiza e Castella. Nas ladeiras, ou ribadas do Douro se colhem também alguns vinhos, que tinhão saída para Espanha; hoje porem he menor a exportação desque o Ministerio daquelle reyno cuidou em mandar plantar vinhas, e impoz cento e sessenta reis em cada almude de vinho de Portugal de direitos de entrada: porem apezar de todo este disvello, os povos de Galiza se não podem dispensar do mesmo vinho, por ser o frio daquelle paiz contrario á ditta producção, e o mesmo acontece ás terras de Saago, e Campos de Castella Velha, e assim pouco sufficientes aquellas providencias para deixarem de se aproveitar dos vinhos de Portugal, que são melhores, e ficão proximos, e a melhor commodo. Seria justo animar na referida comarca a plantação e verdadeiro cultivo das vinhas; a plantação de castanheiros, para o que he propria a terra, e há poucos á proporção dos dilatados terrenos, e estas arvores ao mesmo passo que dão hum proveitoso fructo, produzem bellas madeiras, e o resto serve de lenhas para os fogos. As oliveiras são quazi desconhecidas em toda a comarca, e posto que alguns poucos terrenos podessem produzillas á força de arte, não he necessario forçar a natureza do paiz, he melhor seguilla com a cultivação daquelles fructos, que lhe são mais analogos. Os gados ovelhuns se dão admiravelmente: os carneiros e ovelhas são grandes, a lan boa, porem desgraçadamente está em summa neglicencia semelhante creação, que ao mesmo passo que utiliza com as lans, e admiraveis estrumes dá carnes para o necessario sustento. Na mesma comarca há huma caudelaria donde sahem os melhores cavallos do Reyno e as mulas são formosas de admiravel grandeza mas faz poucos progressos a mesma caudelaria, porque a mayor parte dos cavalos, que servem de pays são pequenos, rixosos outros, já com algumas aleijoens, e cheyos de reçabios, tudo por falta das necessarias providencias, e se acharem muito adulteradas as do regimento das caudelarias do senhor D. Pedro segundo, e ainda estas deminutas para evadirem as referidas malicias dos caudeis e lavradores.
A comarca de Moncorvo he situada em paiz mais temperado e quente: produz muito azeite em quasi todos os concelhos e he o melhor do Reyno, e em toda ella tem amoreiras para a creação do bixo da seda; porem não são as necessarias á proporção das que pode produzir: dá trigos, centeyos, cevadas, legumes, e alguns milhos, e pode produzir nos concelhos de Mirandella, Villariça, Anciaens e outros; muitos e nervosos canamos naquelles predios, que ainda hoje conservão o nome de canameiras, segundo com mayor individuação fiz em ver hum plano que corre por differentes vias. As hortaliças são das melhores, produz regularmente poucos vinhos, mas pode produzir muitos mais; porem o solto da terra, a má escolha das uvas, o fraco grangeo das vinhas, e feitoria dos vinhos faz que posto que sejão maduros prometão pouca duração, excepto os vinhos de Santa Valha, que são dos melhores da provincia para o quotidiano uso. Não produz castanheiros senão no conselho de Monforte, pelo calido do paiz. São os carneiros e ovelhas e lans admiraveis e finas; porem em tudo há suma indolencia e crassa ignorancia.
Nos conselhos da Torre de Moncorvo e Freixo-de Espada-Cinta se colhem algumas
amendoas, mas poucas em attenção as que se podião colher: os meloens e queijos de ovelha, são bellos, produz alguma fructa de caroço, e em toda a comarca a população he deminuta, e no lugar de Carvoiçaes há abundantes minas de ferro, que sendo tão interessantes como necessárias jazem no summo desprezo.
 A comarca de Bragança, no termo da cidade, e villa do Oiteiro, he regularmente fria, e alevantada como a de Miranda lemitrofica; produz centeyos, trigos, alguma cevada, poucos milhos, castanha, para o que he muito natural: mas a plantação he relativamente muito deminuta, e em alguns sitios produz bellos e generosos vinhos; como são os de Izeda, Moraes, Arcas e Nuzellos que com a simples feitoria durão annos pelo balsamico, e espirituoso. Há nos dois dittos conselhos huma caudelaria, muitos prados, prados particulares, e publicos, para o pasto, e sustento dos potros; mas falta-lhe muito para chegar a estado da perfeição, a que podia subir: produzem alguns linhos de teya, mas poucos, e mal cultivados: o concelho de Chaves he mais bem temperado produz trigos, centeyos, cevadas, e milhos, linhos de teya, muitos vinhos e generosos, munta castanha, algum azeite, toda a qualidade de legumes, bellas fructas de caroço, gostosissimas hortaliças, boas lans, e alguns sitios muita cabra. Podia produzir muito canamo, e ter muito gado vacum, de que há geral falta neste Reyno. Se o rio Tamega que borda os largos campos, ou veiga da mesma villa fosse sangrado no simo da mesma veiga, cuja obra não sendo de mayor despeza faria regar legoa, e mea de longitude, e mea de latitude, que tem os mesmos campos, seria a colheita dos trigos melhor, e dos linhos treplicada; e nos prados arteficiaes se podião crear milhares de vitellas e bezerros, de que há huma grande falta. Os dois concelhos de Montealgre, e Ruivaes pelo montanhoso só são proprios para senteyos, e alguns milhos, poucos vinhos e verdes, alguma castanha e linhos; porem são admiraveis para a creação de gados vacuns pelos prados e pastos, que lhes fornecem os dilatados montes; e já os povos tem algum cuidado neste utilissimo e necessario ramo, mas ainda lhe resta muito para chegar ao desejado gráo de perfeição. Os conselhos que pertencem á comarca de Lamego estão na costa septentrional do Alto Doiro produzem pouco pão, algum azeite, pouca castanha e muitos, e generosos vinhos: a cultura destes pouco tem a emendar, e os caminhos daquelle terreno assim publicos, como vicinaes e muito pelo ingreme, e ladeiroso do paiz, mas quiz a Providencia que com summo prazer de todos sahisse ley para dar principio á reedificação de semelhantes caminhos, tudo devido ás solicitaçoens officiosas de hum excelentissimo genio patriotico, que os seus mercimentos o aproximárão ao throno para hum dia encher a nação daquellas felici-dades, que os seus vastos projectos tem premeditado.
Os conselhos da mesma provincia pertencentes á comarca de Guimaraens produzem muitos milhos, senteyos, legumes, linhos, castanhas, painços; e os gados são regularmente cabras, e os vinhos verdes tendo muita semelhança com os da provincia do Minho aonde a agricultura está em mayor auge.»

Fontes: http://repositorium.sdum.uminho.pt/ | SOUSA, Fernando de, Uma descrição de Trás os Montes nos finais do século XVIII, in População e Sociedade, n.º 4, IEPF, Porto, 1998, pp. 413-444.

Dia Mundial contra a Pobreza e Exclusão Social 2011

Hoje é o Dia Mundial contra a Pobreza e exclusão Social, uma causa sobre a qual toda a humanidade tem o dever de reflectir e pela qual também cabe a todos os homens e mulheres do mundo lutar, de acordo com as suas possibilidades.

Para rever o que publicámos no ano de 2010 sobre esta data e significado da respectiva causa click AQUI.

domingo, 16 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SANTA VALHA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Poder-se-á concluir, pelo conhecimento da realidade actual face ao teor do documento que a seguir transcrevo, que houve uma natural transformação da estrutura humana e material da povoação de Santa Valha entre 1758 e a actualidade. Convém todavia observar que as transformações que se inferem das informações do pároco memorialista, o Abade Domingos Gonçalves, autor do manuscrito, não deverão em todos os aspectos merecer a mesma credibilidade, uma vez que em alguns desses aspectos se denota uma certa falta de rigor informativo do mesmo prelado, designadamente na identificação dos bairros existentes na sua época e que hoje mantêm, grosso modo, os nomes, bem como na localização das várias fontes de água a que o mesmo prelado alude, a maioria das quais preserva também os mesmos nomes de há 250 anos. Em certos casos parece ter havido uma evidente desorientação por parte do Abade que não foi capaz de evitar alguns lapsos que me parecem evidentes, problemas estes relativamente aos quais entendi ser meu dever advertir os leitores mas sem deixar de salientar também que tais problemas não diminuem substancialmente o valor deste curiosíssimo documento historiográfico. Alguns topónimos estão intencionalmente transcritos na sua forma original e alguns outros são de carácter suplectivo hipotético pessoal, da minha parte, dada a sua fraca legibilidade ditada tanto pela caligrafia do autor como pela má preservação do documento e, portanto, sujeitos, estes últimos, a eventual rectificação.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 34, SANTA VALHA, Monforte de Rio Lima (leia-se Monforte de Rio Livre).
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 34, n.º 67, p. 601 a 606]

Descrição do lugar de Santa Valha

Este tal lugar fica na Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda, Comarca de Torre de Moncorvo, Termo da Vila de Monforte, Freguesia de Santa Eulália. É d’el Rei, Nosso Senhor, ao presente e sempre o foi.
Tem tal lugar, cento e quinze vizinhos e trezentas e noventa pessoas.
Está o dito lugar situado em um vale, entre dois montes bastantemente levantados, um para a parte do Norte, chamado do [Ermitão?] e revestido de castanheiros de demasiada altura, outro para a parte do Meio-dia, chamado Crasto, revestido de pinheiros, castanheiros, sobreiros e de mais algumas variedades de árvores silvestres.
Não se descobrem dele povoações algumas, por ficar muito baixo.
Não tem termo seu, pois está sujeito ao termo da Vila de Monforte e dista desta duas léguas.
A paróquia está no meio do lugar e tem suas anexas ou quintas, uma para a parte da quinta chamada da Paradelinha, que tem uma capela de Santo Antão que dista da povoação três quartos de légua, outra anexa para aparte da quinta chamada do Calvo, que tem uma capela de Santo António que dista da paróquia dois quartos de lágua e outra anexa para a parte da quinta chamada do Gorgoço, que tem uma capela de São Bartolomeu que dista da paróquia meia légua. Tem esta, nove vizinhos e quarenta pessoas; o termo do Calvo, três vizinhos e dezassete pessoas e o de Paradelinha, vinte vizinhos e sessenta pessoas.
O orago é Santa Eulália que está no Altar-mor. Tem quatro Altares, o mor e dois colaterais, um da parte da entrada ,de Nossa Senhora do Rosário, e outra da parte do Meio-dia, à direita, do mártir São Sebastião e uma capela ao lado esquerdo, do Santo Cristo com uma escada para o corpo da igreja, administrada por Jerónimo de Morais Castro, Morgado da Teixugueira. Há mais duas capelas dentro do povo, uma defronte da matriz, de São Miguel, e outra de Santa Maria Madalena, no bairro da Madalena, administradas as duas com as esmolas da vizinhança. Tem mais outra, de Santo António, no bairro assim chamado, que administra esta o Morgado António José de Morais Castro. E tem duas Irmandades, uma das Almas e outra de Nossa Senhora do Rosário.
O pároco é abade, apresenta-o o Padroado e tem de renda, com a patriarcal, um conto [1 000 000 de réis].
As ermidas ou capelas são três, dentro do lugar, de que já falei. A elas não acode nunca gente em romagem senão, por acaso, alguma vez.
Os frutos da terra em maior abundância são pão centeio e vinho tinto de cepa, delicioso, e algum milho maíz, feijões pretos e brancos e fradinhos, muita castanha, alguma fruta de nozes, peras, ameixas de várias espécies, figos de várias castas, cerejas, ginjas pequena, muitas couves, alhos, cebolas,  muita hortaliça galega e lenha de carvalhos e castanheiro, muita lenha de azevinho para o fogo, muitos lameiros de melões e melancias, queijos de várias castas e algum mel e gado ordinário miúdo.
Não tem juiz ordinário nem câmara e, por esta razão, está sujeita ao juiz ordinário e câmara da Vila de Monforte.
Faz-se feira em uma anexa de Gorgoço, de que já fiz menção, em dia de São Bartolomeu, aonde acode a vizinhança a comprar e vender espadelas de linho em rama, paninhos, vinho e pão branco e tendas de mercadorias. E dura somente quatro horas.
Dista, o dito lugar, de Miranda do Douro, cidade capital, dezasseis léguas, e de Lisboa oitenta léguas.
Tem o dito lugar três bairros. Um chama-se o Bairro [sic], tem duas fontes, uma chamada dos Alarigos, fresca de Verão e quente de Inverno e deliciosa, pois é fresca e gostosa, nasce no [rio?] e está cercada de castanheiros, álamos pretos, ciprestes, parreiras e outras árvores silvestres; outra chamada do Vilar, muito mais notável por fresca e saborosa, está cercada de castanheiros, figueiras, amieiros, marmeleiros e pinheiros e nasce numa penha. Outro bairro chama-se de Sobreiró e não tem fonte alguma. Outro, chamado de Outeiro, tem duas fontes, uma chama-se de Sobreiró e é de água também fresca e está cercada de salgueiros, macieiras e vinhas e outra chama-se da Regaça e nasce em pedra. Tem mais outros três bairros, um chamado do Pontão e tem este uma fonte que se chama a fonte do Pontão, nasce em [lodo] e é a maior, outro chamado da Igreja tem uma fonte chamada da Igreja por servir para uso da mesma igreja, outro chama-se o bairro da Madalena e não tem fonte alguma.
E assim são seis bairros e cinco fontes [sic], todas perenes e se renovam com muita abundância e nunca secaram. Com elas se rega e fertiliza pastos, Linhares e prados e além destas cinco fontes comuns tem o Lugar mais de dez fontes particulares.
 Junto da fonte de Vilar se acha e cria um pinheiro maior que tem de grosso trinta e dois palmos e ocupa, com a copa da rama, dois alqueires de centeio de sementeira, além dos mais que estão dentro da matriz.
Tem fora, pelo termo, infinito número de fontes frescas e de algumas onze […] entre as quais há uma de rara qualidade que se chama a fonte da Cruz cuja água contém o bem de desinquinar os intestinos […] que é o mesmo que a fonte [Puideira?], que será esta do lugar um quarto de légua.
Não padeceu ruína alguma no terramoto [de 1755].

No que respeita à Serra
Nada, por não haver nesta terra serra.

Rio
Neste lugar de Santa Valha somente há quatro ribeiras, uma chamada o rio Calvo que nasce no lugar de [Lomba?] e suas montanhas. Nasce brando e pequeno e corre todo o ano. Entra nele uma ribeira de Alvarelhos por baixo do lugar de Tinhela, duas léguas distante da nascente. Não é rio de barcas nem capaz para isso. É de curso arrebatado em toda a sua distância. Corre de Norte para o Meio-dia. Cria muitos peixes chamados escalos. Nas margens se cultivam muitas delas de vinhas, terras, prados e tem muitas árvores de fruto, como são castanheiros, e silvestres, como são amieiros, salgueiros, carvalhos, medronheiros e outras muitas castas de árvores silvestres. Conserva sempre o nome de rio do Calvo. Morre no rio chamado o Rabaçal, rio caudaloso, no sítio do Cachão. Tem uma cachoeira no sítio de Cachão e por essa causa não sobem os peixes chamados barbos e bogas por ele acima. Tem três pontes de pau, uma chama-se a ponte de Tinhela que está no mesmo lugar de Tinhela, outra chama-se a ponte de Agordela, na quinta de Agordela, e outra na quinta do Calvo e chama-se a ponte do Calvo. Tem perto dele infinito número de moinhos, regueiros e [olmeiros?]. Usam os povos de suas águas livremente para as culturas.
Tem o rio seis léguas desde a nascente até aonde acaba e passa por seis povos: O primeiro é Tinhela, o segundo é Agordela, o 3.º é o Calvo, o 4.º é Vale de Casas, o 5.º é Poçacos e o 6.º é o Cachão.

Não há nesta terra outras coisas notáveis de que se possa dar conta. É muito pouco o tempo para se fazer como deve.

O Padre Domingos Gonçalves

[\] Há mais três ribeiras, uma chamada a ribeira da [Roçada?] que nasce nas montanhas de Fiães, distante deste lugar légua e meia e esta mesma ribeira passa pelo Bairro da Igreja e junta-se em outra chamada a ribeira da Castanheira no sítio chamado de Armeiro e dista, uma de outra, um quarto de légua, ambas nascem nas montanhas de Fiães, ambas têm pontes de pedra e moinhos e no Inverno abunda nelas árvores de fruto nas suas margens. A outra chama-se de [Canamão?] e dista das outras um quarto de légua, tem as mesmas circunstâncias das outras, juntam-se todas em uma no sítio do [Bordalacho?], nome derivado de um peixe, tem uma ponte de pau de 4 olhais e vai-se meter no rio Rabaçal. Dista a nascente do rio três quartos de légua. Tem peixes chamados escalos.[/]

O Padre Domingos Gonçalves
[s. data]

164.º Aniversário do nascimento de D. Maria Pia de Sabóia, rainha de Portugal

Nascida em Turim em 16 de Outubro de 1847, D. Maria Pia de Saboia tornou-se rainha de Portugal em 1862 por via do seu casamento com D. Luís I. Foi a 41.ª rainha de Portugal e 14.ª da dinastia de Bragança.

Para rever o que publicámos em sua homenagem por ocasião do 163.º Aniversário do seu nascimento click AQUI.