sexta-feira, 18 de novembro de 2011

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – LEBUÇÃO 3.ª Parte

Por Leonel Salvado



 PROCESSOS

DOCUMENTOS: sinopses dos 17 processos, de um total de 34, que analisei e que decorreram no Tribunal do Santo Ofício, respeitantes a naturais e/ou moradores da freguesia de Lebução, a grande maioria deles decorrentes na segunda década da segunda metade do século XVII.

PROCESSO DE [Anónima]
Datas de produção: 1590-07-07 a 1590-07-20.
[Anónima], cristã-nova, moradora em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, casada com Pedro Gonçalves, almocreve, acusada de culpas de BLASFÉMIAS. O nome da ré não é mencionado no processo. Este decorreu antes do perdão geral concedido pelo Papa aos cristãos-novos em 1604.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra - processo 105.

PROCESSO DE ANTÓNIA CARDOSO
Datas de produção: 1659-02-08 a 1662-07-09
Antónia Cardoso, cristã-nova, de vinte e seis anos de idade, natural de Vinhais, Bispado de Miranda, moradora em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, do mesmo bispado, filha de Manuel Mendes, cristão-novo, mercador, e de Violante Dias, cristã-nova, casada com Pedro Nunes, cristão-novo, mercador, acusada de culpas de JUDAÍSMO, presa em 05/03/1659, com auto-de-fé. Sentença em 09/07/1662: Sentença Absoluta na forma de direito, sepultura eclesiástica, oferecer a Deus, por sua alma, sacrifícios e sufrágios da Igreja; foi ordenado que a sentença da mesma fosse lida em auto-de-fé.
A ré faleceu nos cárceres da Inquisição em 27/06/1661.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 429.

PROCESSO DE LOPO NUNES
Datas de produção: 1662-06-21 a 1667-12-15.
Lopo Nunes, cristão-novo, de trinta anos de idade, mercador, natural de Bragança, Bispado de Miranda, morador em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, bispado de Miranda, filho de Domingos Nunes, cristão-novo, mercador, e de Jerónima da Costa, cristã-nova, casado com Isabel Cardoso, acusado de culpas de JUDAÍSMO, preso em 19/07/1662.
Sentença:  Auto-de-fé de 20/11/1664, confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e habito penitencial perpétuo, instrução na fé, penitências espirituais.
Por Despacho de 20/11/1664, foi dada licença ao réu, que lhe foi assinada por cárcere, para ir para o lugar de LEBUÇÃO, donde não poderia ausentar-se sem licença da Mesa.
Por Despacho de 08/02/1667, foi-lhe levantada a pena de cárcere e tirado o hábito penitencial e comutados em penitências espirituais.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 1145.

PROCESSO DE LEONOR NUNES
Datas de produção: 1662-06-03 a 1662-07-17.
Leonor Nunes, um quarto de cristã-nova, de quarenta anos de idade, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de António Pires, cristão-velho, almocreve, e de Guiomar Mendes, cristã-nova, casada com Manuel de Castro, sapateiro, acusada de culpas de JUDAÍSMO, foi presa em 03/06/1662.
Sentença: Auto-de-fé de 09/07/1662, confisco de bens, ir ao Auto-de-fé, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penas e penitências espirituais.
Aos 18 de Julho de 1662 foi passado á ré termo de segredo e soltura. Depois de reconciliada, confessou mais culpas em 17 de Julho de 1662; no mesmo dia foi-lhe concedida licença para se ir onde quisesse, desde que não fosse para fora do Reino.
O processo n.º 1373 da Inquisição de Coimbra pertence ao marido da ré.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 1371.

PROCESSO DE MANUEL DE CASTRO
Datas de produção: 1660-09-01 a 1662-07-28
Manuel de Castro, cristão-novo, de trinta anos de idade, sapateiro e feitor das alfândegas de Trás-os-Montes, natural de Quintela de Lampaças, Bragança, morador em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, filho de Pedro de Castro, cristão-novo, sapateiro, e de Isabel Dias, cristã-nova, casado com Leonor Nunes, acusado de culpas de JUDAÍSMO, preso em 01/09/1660.
Sentença: Auto-de-fé de 09/07/1662, confisco de bens, ir ao auto-de-fé, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial perpétuo, instrução na fé, penas e penitências espirituais.
Aos 10 de Julho de 1662, foi passado ao réu termo de segredo e soltura. Depois de reconciliado, confessou mais culpas em 15 de Julho de 1662. Em 28 de Julho do mesmo ano foi concedida licença ao réu para ir para Bragança.
O processo da Inquisição de Coimbra n.º 1371 pertence à mulher do réu.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 1373.

PROCESSO DE LEONOR NUNES
Datas de produção: 1662-06-03 a 1664-11-15
Leonor Nunes, cristã-nova, de trinta e cinco anos de idade, natural de Vinhais, Bispado de Miranda, moradora em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, do mesmo Bispado, filha de Manuel Mendes, cristão-novo, médico, e de Brites Nunes, cristã-nova, casada com Manuel da Fonseca, mercador, acusada de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, presa em 03/06/1662.
Sentença: Auto-de-fé de 26/10/1664, confisco de bens, ir ao auto-de-fé, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penas e penitências espirituais.
Aos 15 de Novembro de 1664 foi passado à ré termo de segredo e soltura e no mesmo dia foi-lhe concedida licença para se ir.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 1377.

PROCESSO DE ISABEL DE ALVARENGA
Datas de produção: 1662-07-05 a 1662-07-29
Isabel de Alvarenga, meia cristã-nova, natural de Fiães, Bispado de Miranda, moradora em LEBUÇÃO, do mesmo bispado, filha de Sebastião de Alvarenga e de Isabel Dias, casada com Jerónimo Álvares, barbeiro, acusada de crimes de JUDAÍSMO, HERESIA, APOSTASIA, apresentada em 05/[07]/1662, foi presa em 08/07/1662 e sentenciada em 09/07/1662.
Sentença: Auto-de-fé de 09/07/1662.
Em 1662-07-29 foi-lhe concedida licença para se ir.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 2288.

PROCESSO DE HELENA CORREIA
Datas de produção: 1662-09-04 a 1662-09-11
Helena Correia, cristã-nova, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de João Dias, mercador, e de Leonor Nunes, solteira, acusada de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, apresentada em 04/09/1662, foi presa e sentenciada em 09/09/1662.
Foi passada à ré termo de ida de, 1662-09-11
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 2809.

PROCESSO DE ISABEL NUNES
Datas de produção: 1659-03-05 a 1662-07-09
Isabel Nunes, cristã-nova, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de Duarte Cardoso, mercador, e de Violante da Costa, solteira, acusada de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, presa em 05/03/1659 e sentenciada em 09/07/1662.
Sentença: Auto-de-fé em 09/07/1662.
Foi passado à ré termo de soltura e segredo em 1662-07-10. Depois de reconciliada, confessou mais culpas em 1622-07-20. Em 1662-07-29 foi-lhe dada licença para ir para onde quisesse.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 2844.

PROCESSO DE MANUEL DA FONSECA
Datas de produção: 1662-06-14 a 1662-08-11
Manuel da Fonseca, cristão-novo, mercador e tratante, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Domingos Garcia, sem ofício, e de Catarina de Sousa, solteiro, acusado de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, apresentado em 14/06/1662, foi sentenciado em 11/08/1662.
Foi ouvido e, em 1662-06-17 obteve licença para se ir. Em 1662-08-08 apresentou-se, pela segunda vez, e foi reconciliado. Foi-lhe passado termo de segredo e licença para se ir em 1662-08-12.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 2847.

PROCESSO DE BRANCA GOMES
Datas de produção: 1664-10-26 a 1664-11-15
Branca Gomes, cristã-nova, natural de Mirandela, Bispado de Miranda, moradora em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, do mesmo Bispado, filha de Gaspar Lopes, mercador, e de Violante Gomes, viúva de Luís Álvares, mercador, acusada de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, presa em 10/06/1662, foi sentenciada em 26/10/1664 com auto-de fé em 26/10/1664.
Foram passados à ré, termos de soltura e segredo em 1664-11-08 e de ida e penitência em 1664-11-15.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3395

PROCESSO DE MANUEL CAMPOS
Datas de produção: 1683-02-21 a 1683-03-05
Manuel de Campos, cristão-novo, mercador, natural de Vila Flor, Arcebispado de Braga, morador em LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, com cerca de 54 anos, filho de Pedro Dias de Mesquita, médico, e de Violante Henriques, casado com Helena Correia, acusado de culpadas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, apresentado em 09/09/1669, foi sentenciado e levado a auto-de-fé em 21/02/1683.
O réu apresentou-se com 41 anos de idade, foi ouvido e, em 1669-09-13, obteve licença para ir para a sua terra (Lebução). Mais tarde foi reconciliado; foi-lhe passado termo de ida e penitência em 1683-03-05.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3446

PROCESSO DE JERÓNIMO ALVES
Datas de produção: 1662-07-09 a 1662-07-29
Jerónimo Alves, cristão-novo, barbeiro, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Jerónimo Alves, tratante, e de Maria Rodrigues, casado com Isabel de Alvarenga, acusado de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, apresentado em 05/07/1662, preso em 08/07/1662 foi sentenciado e levado a auto-de-fé em 09/07/1662.
Foi passado ao réu termo de soltura e segredo em 1662-07-10. Em 1662-07-29 foi-lhe dada licença para se ir.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3455.

PROCESSO DE BALTASAR COSTA
Datas de produção: 1664-10-26 a 1664-11-15
Baltasar Costa, meio cristão-novo, almocreve, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Garcia Alves, mercador, e de Ana Gonçalves, viúvo de Isabel Mendes, acusado de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, preso em 03/06/1662, foi sentenciado e levado a Auto-de-fé em 26/10/1664.
Foi passado ao réu termo de soltura e segredo em 1664-10-28. Em 1664-11-15, foi-lhe dada licença para ir para a sua terra (Lebução).
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3499.

PROCESSO DE MANUEL DA FONSECA
Datas de produção: 1664-10-26 a 1664-11-15
Manuel da Fonseca, três quartos de cristão-novo, mercador, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de António Salgado, mercador, e de Isabel de Alvarenga, casado com Leonor Nunes, acusado de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, preso em 03/06/1662, foi sentenciado e levado a Auto-de-fé em 26/10/1664.
Foram passados ao réu termos de soltura e segredo em 1664-10-28 e de ida (para Lebução) em 1664-11-15.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3584.

PROCESSO DE JOSÉ MENDES
Datas de produção: 1664-04-30 a 1665-01-10
José Mendes, cristão-velho, soldado de Infantaria na Companhia de Manuel Brandão, na Praça de Chaves, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Gaspar Mendes, alfaiate, e de Maria Martins, solteiro, acusado de culpas de JUDAÍSMO, foi sentenciado em 10/01/1665.
O réu estava preso na Cadeia Pública de Coimbra. A primeira sessão do processo foi em 1664-04-30. O processo não tem acórdão.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 3715.

PROCESSO DE EMERÊNCIA DA COSTA
Datas de produção: 1664-10-26 a 1664-11-20
Emerência da Costa, meia cristã-nova, com cerca de 30 anos de idade, natural de LEBUÇÃO, termo de Monforte de Rio Livre, Bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de Baltasar da Costa, almocreve, e de Isabel Mendes, solteira, acusada de culpas de JUDAÍSMO, HERESIA e APOSTASIA, presa em 05/06/166, foi sentenciada e levada a Auto-de-fé em 26/10/1664.
Foi passado à ré termo de soltura e segredo em 1664-11-10. Em 1664-11-20, foi-lhe dada licença para se ir.
Cota actual: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra – processo 4410.

Fonte: http://digitarq.dgarq.gov.pt



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quinta-feira, 17 de novembro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SÃO PEDRO DE VEIGA DE LILA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Todos os topónimos constantes na cópia do manuscrito original encontram-se actualizados na presente transcrição.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 39, VEIGA DE LILA, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 39, n.º 116, p. 663 a 666]

Eu, Filipe Monteiro de Abreu, Comissário do Santo Ofício e Reitor na matriz igreja de São Pedro de Veiga de Lila, nesta Comarca de Chaves e Arcebispado de Braga, certifico que, em virtude dos interrogatórios e mandado a decorrer pelas freguesias do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral desta Comarca, me informei com pessoas fidedignas acerca do que nos ditos interrogatórios se procura e do que eu sobre eles posso dizer e sei. Achei, e sei, o seguinte, pelos interrogatórios.

Este lugar é da Província de Trás-os-Montes, do Arcebispado de Braga, Comarca e termo da Vila de Chaves e é da Freguesia de São Pedro de Veiga do Lila e nele está a igreja matriz situada, com três anexas.
É apresentação do Padroado Real.
Tem esta freguesia dois Lugares que são São Pedro da Veiga e o Lugar de Deimãos, que têm, o de São Pedro cinquenta e dois vizinhos, e o de Deimãos sessenta e três, e ambas, pessoas de sacramento trezentas e vinte e seis.
Está situado nas faldas de uma serra e dele se vêem muitos lugares, como o de Santa Maria de Émeres, que dista uma comprida légua, o de Carrazedo de Montenegro, que dista légua e meia e o de Rendufe que dista [omissão: uma?] légua.
Tem termo seu nos limites de suas terras. A igreja desta freguesia fica no fundo do lugar e com alguma separação dela. Tem os dois lugares referidos, que é São Pedro de Veiga e Deimãos.
Tem por orago São Pedro Apóstolo e tem três altares, o altar-mor e dois colaterais, e nicho na parede do Santo Cristo, o altar-mor de São Pedro, outro com a Senhora do Rosário e outro com Santo António. Não tem naves. Não tem Irmandades nela.
O Pároco é Reitor, da apresentação da Sereníssima Casa de Bragança e renderá em frutos, alguns anos, trezentos mil réis, e de pé de altar poderá render até quarenta [mil réis] e, outros anos, trinta [mil réis].
Tem uma ermida da invocação da Senhora do Carril. Está situada nos limites da freguesia e é cabeça de Irmandade, de Irmãos eclesiásticos e leigos. Tem ermitão que apresenta o Reitor desta freguesia e se sustenta de algumas esmolas dos fiéis e de umas terras que se arrendam cada um ano em quatro cruzados novos. Vêm a ela algumas pessoas de romagem, mas é frequentada, de ordinário, no dia da Ressurreição e Espírito Santo, aos quinze de Agosto que é o geral da dita Irmandade.
Dão-se todos os frutos que Deus dá, como centeio, trigo, cevada, milho, azeite, castanha; de frutos tem peras, amêndoas e o mais que se colhe é centeio.
Dista do seu povo a cidade capital, que é Braga, dezoito léguas, e a de Lisboa sessenta e quatro. E não há mais digno de memória do qual responda.

Serra
Há uma serra áspera com muitos montes e penedos. Não tem águas de virtudes particulares, mas sendo de uma légua de comprido, que principia no lugar de Vales e acaba no de Paços, e outra [légua] de largo, que daqui faz à Vila de Lamas de Orelhão que assim se chama por viver naquele distrito um rei mouro chamado o rei de Orelhão. É falta de águas de todas as partes. Tem em si muitos lobos e javalis, poucos coelhos e perdizes também tem. Não cria veados; já ali se viu alguns, como por acaso, que terão fugido de outra parte, que não tem pastos para eles, porque é muito áspera.
Esta serra se chama de Santa Comba, porque nele há uma capela da dita Santa aonde vai gente e se diz missa.
Não é povoada de lugares.
E nesta tenho respondido o que se pode dizer desta serra.

Rio não há neste distrito.


Isto é o que achei, e posso dizer, a respeito do que se pergunta nos interrogatórios referidos.
E, por tudo ser verdade, fiz esta, que assino, em São Pedro de Veiga, quatro de Março de mil e setecentos e cinquenta e oito anos, o que juro in verbo Sacerdotis.

Filipe Monteiro de Abreu
O Coadjutor, Manuel dos Santos

O vigário Pedro Francisco Martins
O Reitor de Vales, Simeão Nunes 

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

165.º Aniversário da batalha de Valpaços

Alegoria à batalha de Valpaços, com base em guache de Leonel Salvado

Ocorrida a 16 de Novembro de 1846 e designada muitas vezes por combate de Valpaços ou simplesmente por Acção Valpaços, a batalha de Valpaços é reconhecida como um dos sucessos das guerras liberais de relevância histórica nacional, mas determinadas situações que com ela estiveram relacionadas, devidamente identificadas e documentadas, têm inspirado escritores e historiadores locais bem conhecidos a assinalá-la como um evento memorável, invocando, a dignificante postura assumida nela, e após o seu desfecho, pela população de Valpaços, bem como o sofrimento a que os habitantes das localidades circunvizinhas foram sujeitos e estoicamente suportaram, designadamente em Vilarandelo e Ervões. Trata-se, portanto, para os valpacenses, de uma data comemorativa, a que, talvez, ainda não se tenha dado a importância devida.

Rever nossa publicação, actualizada a 10 de Maio do corrente ano e dedicada a este memorável acontecimento,

terça-feira, 15 de novembro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – VASSAL

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Todos os topónimos constantes nesta transcrição foram actualizados.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 39, VASSAL, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 39, n.º 110, p. 615 a 618]

Esta freguesia de Santa Maria de Vassal é da Província de Trás-os-Montes, Arcebispado de Braga Primaz, termo da Vila de Chaves, é vigairaria ad nutum da apresentação do Reverendo cabido da Santa Sé de Braga, compõe-se de dois lugares que se chamam, um Vassal, outro Monsalvarga e dista um do outro um quarto de légua.
Tem Vassal, aonde está a igreja matriz, cinquenta vizinhos e Monsalvarga quarenta. Têm ambos os lugares trezentas e quarenta pessoas.
Está esta freguesia situada em uns vales pequenos, junto a uma serra que fica da parte do Poente, que tem um quarto de légua de comprimento e meio de largo; e da parte do Nascente tem um penhasco levantado com grandes outeiros, por cuja causa impede a vista das terras circunvizinhas, excepto o descobrimento de uma serra chama de Santa Comba que dista três léguas. O penhasco que fica do Nascente se chama a Fraga da Ribeira e a serra que fica de Poente se chama Santa Isabel.
É orago da igreja Santa Maria. Tem três altares, um que é o principal é do mesmo orago, outro de Nossa Senhora do Rosário, outro do Santo Cristo Crucificado. Não tem mais que uma nave. Tem uma capela contígua ao mesmo lugar chamada a Senhora da Encarnação, a que os antigos chamavam a igreja velha, aonde costumam concorrer alguns devotos nos vinte e cinco de Março, que é o dia da sua festividade.
Há neste lugar duas ermidas com pouca distância uma da outra, ambas no meio do lugar, uma de Santo António e outra da Senhora do Amparo, ambas de pessoas particulares. Há mais outra no Lugar de Monsalvarga que é dos mesmos moradores e tem a invocação de São Geraldo.
Renderá esta igreja para o Pároco sessenta mil réis, pouco mais ou menos.
Os frutos da terra que costumam colher os moradores em maior abundância são centeio e vinho, castanhas e algum azeite.
Serve-se do correio da Vila de Chaves, que dista três léguas, e este chega a Vila Real que dista de Chaves sete léguas.
Dista esta freguesia da cidade de Braga, capital do Arcebispado, dezoito léguas e da Corte e cidade de Lisboa, sessenta léguas.
Tem esta freguesia um privilégio de não acompanharem presos.
No terramoto do ano de 1755, a fonte deste lugar de Vassal, que levava água com muita abundância, totalmente secou e só agora, quando chove muito, lança água com muito menos abundância.

Passa contíguo a este Lugar de Vassal um rio pequeno que em alguns Verões seca. Tem este seu nascimento na freguesia de Ervões, que dista deste lugar meia légua,  corre de Norte ao Sul e cria peixes pequenos. Tem duas pontes de pau, uma chamada a ponte de cima, outra de baixo. Tem quatro moinhos. Os moradores usam livremente de suas águas para a cultura de seus campos. Este, na distância de meia légua se mete em outro no sítio das Cadavadas, que é limite deste Lugar, que tem seu nascimento na Venda da Serra e corre pelo termo desta freguesia, e terá, de Norte a Sul, duas léguas. Tem muitos moinhos, uma ponte de pau do sítio das Cadavadas em cujo sítio se tem afogado muitas pessoas e bestas por ser muito arrebatado no Inverno e já no mesmo sítio houve uma ponte de cantaria que descobriu em a grande tormenta que houve no ano de 1751, cujos vestígios se acham hoje submergidos com areia e bem necessita de reedificar esta ou fazer outra, por ser a estrada mais principal para a cidade de Bragança, e por causa da dita passagem não estar capaz, procuram outra com maior distância e perigo de suas vidas por passarem em barcas. Cria, este rio, alguns peixes pequenos chamados escalos e não seca no Verão.

Não há mais coisa alguma nesta freguesia que possa ser digna de memória, e por tudo ser verdade, mandei o que me informei, sendo como assino, com dois Párocos mais vizinho que são o de Valpaços e o de São Pedro Fins, como assino Pároco de Santa Maria de Vassal.

O Padre Dâmaso Osório de Queiroga
O vigário de Valpaços, Padre Francisco Pereira de Aial
O vigário de São Pedro Fins, o PadreManuel Álvares

Declaro que a dita serra acima chamada de Santa Isabel contém algumas pedras que, postas no lume, ardem e destilam enxofre e delas se tem feito muito para acender lume; o que tudo acima é para dar satisfação ao despacho do Senhor Doutro Vigário Geral desta Comarca de Chaves, a que assino e juro in verbo Sacerdotis, Vassal, em 13 de Março de 1758.

O vigário, o Padre Dâmaso Osório de Queiroga  

domingo, 13 de novembro de 2011

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – LEBUÇÃO 2.ª Parte

Por Leonel Salvado



O PROCESSO DE JOSEFA TERESA (Continuação)

DOCUMENTO: transcrição parcial

Outra Culpa contra a mesma ré Josefa Teresa.

Do processo de Isabel Henriques, cristã-nova, solteira, filha de Domingos Lopes, ferreiro, natural de Vila de Alpadrinha, Bispado da Guarda, e moradora nesta cidade de Lisboa.
A qual se apresentou de culpas de Judaísmo nesta Inquisição de Lisboa em 17 de Dezembro de 1750, em que disse ter vinte e quatro anos de idade; deu-se-lhe curador, fez-se-lhe a sessão de genealogia e crença, foi recebida no grémio e união da Santa Madre Igreja por assento da Mesa de 15 de Maio de 1752, depois do que confessou mais em seis de Setembro do mesmo ano, em que disse da ré, ouviu sua sentença no auto público da fé que se celebrou na igreja de São Domingos de Lisboa em 24 de Setembro de 1752.

Aos seis de Setembro de 1752, em Lisboa, nos Estados e Casa primeira das audiências da Santa Inquisição, estando ali, na de manhã, o Senhor Inquisidor Luís Barata de Lima mandou vir perante si, por pedir audiência, a Isabel Henriques, ré presa contida nestes autos e, sendo presente por dizer o que dirá para continuar a sua confissão, lhe foi dado o juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs sua mão, sob cargo do qual lhe foi mandado dizer verdade e ter segredo, o que tudo prometeu cumprir, e logo disse que era de mais lembrada.
Disse mais que, haverá seis meses e meio, pouco mais ou menos, nesta cidade de Lisboa e casa de Josefa Teresa, cristã-nova, casada com José Rodrigues Álvares, homem de negócio, filha de Baltazar Mendes, da mesma ocupação, não sabe o nome da mãe, natural do Lugar de LEBUÇÃO, não sabe que fosse presa ou apresentada, se achou com ela e, estando ambas sós entre práticas, se declararam por crentes e observantes da Lei de Moisés para salvação de suas almas, e não falaram em cerimónias nem passaram mais, nem disseram quem os havia ensinado, nem com quem mais se comunicaram, e se fiaram uns dos outros por parentes, amigos e da mesma nação, e mais não disse, nem ao costume, e, sendo-lhe lida esta confissão, disse estava escrita na verdade; e assinaram comigo, que assinei pela ré, de seu rodo e consentimento por não saber escrever, e com seu Curador e com o dito Senhoe Inquisidor. André Corsino de Figueiredo o escrevi = Luís Baratada de Lima = André Corsino de Figueiredo = Clemente Xavier dos Santos.

Crédito
André Corsino de Figueiredo, Notário que escrevi a confissão retro da ré, Isabel Henriques, nela contida, certifico dizer-me o Senhor Inquisidor Luís Barata de Lima, lhe dava crédito ordinário, e o mesmo lhe dou eu, de que passei o presente, de mandado do dito Senhor Inquisidor, e assinei, Lisboa, no Santo Ofício, 6 de Setembro de 1752. Luís Barata de Lima = André Corsino de Figueiredo.

[Interpõem-se no presente processo mais confissões de culpas de Judaísmo com Josefa Teresa dos cinco restantes confitentes, apresentados ou presos, nomeados na 1ª Parte desta transcrição, bem como os respectivos créditos atribuídos pelos Inquisidores que foram na ordem de quatro “ordinários” e um “diminuto” e as respectivas trasladações notariais]

[Declaração de bens]
Perguntada que bens de raiz tem de que tivesse de pagar ao tempo de sua prisão, se são de morgado, capela, prazo ou Factorum Eclesiástico ou secular ou tem outro algum encargo; que bens móveis tinha, peças de ouro ou prata, direitos e acções contra algumas pessoas ou estas contra ela, que dívidas lhe devem ou está devendo, que conhecimentos, letras ou outros papéis tinha em seu poder ou mão alheia.

Disse que ela não tem bens alguns de raiz, e móveis os seguintes: Dois cordões de ouro que não sabe quanto pesavam; três pares de brincos das orelhas com alguns diamantes, não sabe o seu valor, e uns são em prata; mais um par de brincos das orelhas sem diamantes, não sabe o seu valor; meia dúzia de facas com cabos de prata, não sabe o seu valor; três ou quatro colheres e três ou quatro garfos de prata, não lhes sabe o valor; Duas salvas de prata com algum lavor, não sabe o seu valor; uma cruz com diamantes assentes em prata, não sabe o seu valor; um rosider de ouro com diamantes, não sabe o seu valor; uma venera de ouro com seus algofares, não sabe o seu valor; uma cruz de ouro com diamantes, não sabe o seu valor; umas contas ou rosário de ouro, não sabe o seu valor; três anéis de ouro com diamantes e uma delas com topázio, não sabe o valor; um vestido de gorgorão preto com algum uso, não sabe o seu valor; umas roupas de melania cor-de-pérola com pouco uso, não sabe o seu valor; uma saia de melania azul, não sabe o seu valor; uma saia de Primavera de matizes já usada, não sabe o seu valor; uma saia de cetim cor-de-rosa acolchoada, não sabe o seu valor e já usada; uma saia de camelão fino alvadia já usada, não sabe o seu valor; uma mantilha de cetim azul-claro forrada de cetim encarnado, já usada, não sabe o seu valor; duas roupinhas, uma de melania e outra de pano encarnado, usadas, não sabe o seu valor; um espartilho de cetim azul, não sabe o seu valor; um manto de seda velho, não sabe o seu valor; alguns louções, toalhas, guardanapos, camisas de linho, e como nada destes tenha por conta não pede declaração de seu número; um espelho grande de vestir com molduras encarnadas, não sabe quanto vale; um leito de pau preto, não sabe quanto vale; meia dizia de cadeiras e moscóvia com pregaria grossa dourada, não sabe o seu valor; dois bufetes, um de pau preto e outro pintado, não sabe o seu valor.
E que ela, declarante, não sabe o dinheiro que havia na casa e só dele poderá dar notícia seu marido, José Rodrigues Álvares, assim como também de outros móveis de que ela se não lembra, e dos que na casa havia pertencentes a seu pai, Baltazar Mendes Cardoso.
Que ela, declarante, não tem acções contra pessoa alguma e nem contra ela alguém as tenha; e das dívidas que se devem à sua casa, ou esta deve, só o dito seu marido pode dar notícia.
E que isto é o que tem que declarar a respeito do seu inventário, que, sendo-lhe lido e por ela ouvido, e entendido, disse estar escrito na verdade, e assinou com o dito Inquisidor. Pedro Paulo da Silveira o escrevi.

Luís Barata de Lima
Josefa Teresa

Termo de Curador
Aos vinte e nove dias do mês de Julho de mil setecentos e cinquenta e dois anos, em Lisboa, nos Estados e Casa primeira das Audiências da Santa Inquisição, estando ali, na de manhã, o Senhor Inquisidor Luís Barata de Lima mandou vir perante si a Josefa Teresa, ré presa nos Cárceres desta Inquisição e com ela mandou vir também o Padre Clemente Xavier dos Santos e, sendo ambos presentes, foi dito ao mesmo Padre que, pela ré ser menor, o fariam seu Curador para que lhe prestasse a sua autoridade para poder estar em juízo e a aconselhar em tudo o que fizer a bem de sua justiça, o que o dito Padre aceitou e disse lhe prestaria a sua autoridade para o dito efeito e cumpriria tudo o mais que se lhe encarregava son cargo do juramento dos Santos Evangelhos que lhe foi dado, de que fiz este termo de mandado do Senhor Inquisidor, com quem assinou. Pedro Paulo da Silveira o escrevi.
Luís Barata de Lima
Clemente Xavier dos Santos

Confissão
Aos vinte e nove dias do mês de Julho de mil setecentos e cinquenta e dois anos, em Lisboa, nos Estados e Casa primeira das audiências da Santa Inquisição, estando ali, de manhã, o Senhor Inquisidor Luís Barata de Lima mandou vir perante si a uma mulher que, em vinte de dois deste presente mês veio para os Cárceres desta Inquisição e, sendo presente por dizer que queria confessar culpas de judaísmo que houvera cometido,  lhe foi dado o juramento dos Santos Evangelhos, em que pôs a mão, sob cargo do qual prometeu dizer a verdade e ter segredo; e logo disse chamar-se Josefa Teresa, cristã-nova, casada com José Rodrigues Álvares, homem de negócio, filha de Baltazar Mendes Cardoso, da mesma ocupação, e de Teresa Maria de Campos, natural do lugar de LEBUÇÃO, termo da Vila de Monforte, Bispado de Miranda, e moradora nesta cidade, de dezanove anos de idade.
Foi admoestada que pois tomava tão bom conselho, como o de querer confessar suas culpas, lhe convinha muito trazê-las todas à memória para delas fazer uma inteira e verdadeira confissão sem acrescentar, nem diminuir coisa alguma, nem levantar a si, ou a outrem, testemunhos falsos, porque isto é o que lhe convém para descarga de sua consciência, salvação de sua alma e bom despacho da sua causa; e lhe fazem saber que está obrigada a dizer de todas as pessoas com quem tivesse comunicado a sua crença, ou sejam vivas ou mortas, presas, soltas, reconciliadas, ausentes deste Reino ou nele residentes, parentes ou não parentes, tudo o que com elas tiver passado ou delas souber a respeito da dita crença; ao que respondeu que só a verdade havia de dizer, e qual era.
Que houvera nove anos no Lugar de LEBUÇÃO e casa de sua tia, Violante Pereira, cristã-nova, casada com José Rodrigues, não sabe a sua ocupação, filha de seus avós maternos, a que não sabe os nomes, natural e moradora do dito Lugar, não sabe que fosse presa ou apresentada, se achou com ela e, estado ambas sós e ela, confitente, rezando pelas suas contas, lhe disse a dita sua tia que rezasse somente o Padre Nosso sem dizer Jesus no fim porquanto, se queria salvar a sua alma, havia de deixar a Lei de Cristo e viver na de Moisés em que só havia salvação e que, por sua observância, havia de rezar a dita oração sem dizer Jesus no fim, não havia de comer carne de porco, lebre, coelho, nem peixe de pele e que devia guardar os sábados de trabalho como dias Santos, vestindo camisa lavada na Sexta-feira à tarde, e varrendo as casas, e jejuar o dia grande no mês de Setembro, porque ela, dita Violante Pereira, que isto lhe dizia e ensinava, cria e vivia na dita Lei de Moisés com intento de nela se salvar e que, por sua observância, fazia as ditas cerimónias e, parecendo bem a ela, confitente, o dito ensino por ser feito por sua tia que era mulher de mais idade, se apartou logo ali da Lei de Cristo Senhor Nosso, de que já tinha notícia e suficiente instrução, e se passou a viver na crença da Lei de Moisés esperando salvar-se nela, e assim declarou à mesma sua tia, dizendo-lhe que na dita lei se fiava, crendo e servindo com o dito intento, e que, por sua observância, faria as ditas cerimónias, as quais com efeito fez quando tinha comodidade; a crença dos quais erros durou a ela, confitente, até hoje em que pediu audiência para vir confessar suas culpas, e tornou a abraçar a Lei de Cristo Senhor Nosso, em que está vivendo pela iluminação do Espírito Santo; e de as haver cometido está muito arrependida delas, pede perdão e que com ela se use de misericórdia.
Disse mais que haverá seis anos, pouco mais ou menos, na Vila de Vinhais, e casa de seu tio Pedro Álvares, torcedor de Seda, se achou com quatro filhas do mesmo e de sua mulher Catarina Pereira, chamadas Antónia, Leonor, Francisca e Inácia, não lhes sabe os sobrenomes, cristãs-novas, solteiras, naturais e moradoras da dita Vila, não sabe que fossem presas ou apresentadas, e, estando todas as cinco, a saber ela, confitente, e as ditas Antónia, Leonor, Francisca e Inácia, entre práticas que tiveram, se declararam por crentes e observantes da Lei de Moisés para salvação de suas almas, e não falaram em cerimónias, nem passaram mais, nem disseram quem as havia ensinado, nem com quem mais se comunicaram, e se fiaram umas das outras por serem parentes amigas e da mesma nação; e mais não disse, nem ao costume.

[Admoestação e ratificação]
Foi-lhe dito que tomou muito bom conselho em principiar a confessar suas culpas, que examine bem sua consciência e pondo de parte todos os respeitos humanos que a poderão impedir se resolva a fazer uma íntegra e verdadeira confissão de todas elas, sem levantar à ré, nem a outrem, testemunho falso, estando certa que, se assim o fizer, porá sua alma em estado de salvação e merecerá ser tratada com a misericórdia que a Santa Madre Igreja costuma conceder aos bons e verdadeiros confitentes, a qual tanto leva maior quanto mais cedo descarregar a sua consciência; e, por dizer que se fosse de mais lembrada e o que devia declarar, foi  outra vez admoestada em forma e mandada a seu cárcere, sendo-lhe primeiro lida esta sua confissão, em presença de seu Curador, e por ela ouvida, e entendida, disse estava escrita na verdade, e que nela se afirma e ratifica e torna a dizer de novo, sendo necessário, que nela não tem que acrescentar, diminuir, mudar ou emendar, nem de novo que dizer ao costume, sob cargo do juramento dos Santos Evangelhos que outra vez lhe foi dado, ao que estiveram presentes, por honestas e religiosas pessoas, os licenciados Alexandre Henriques Arnaut e Manuel Afonso Rebelo, Notários desta Inquisição que ex causa assistiram a esta ratificação e a que assinaram com a ré, seu Curador e com o dito Senhor Inquisidor. Pedro Paulo da Silveira, o escrevi.
Luís Barata e Lima
Joseja Teresa
Clemente Xavier dos Santos
Alexandre Henriques Arnaut
Manuel Afonso Rebelo.

E ida a ré para o seu Cárcere, foram perguntados os ditos ratificantes se lhes parecia que falava verdade e merecia crédito, e por eles foi dito que lhes parecia que falava verdade e merecia crédito; e tornaram a assinar com o dito Senhor Inquisidor. Pedro Paulo da Silveira o escrevi.
Luís Barata de Lima
Alexandre Henriques Arnaut
Manuel Afonso Rebelo.

[interpõe-se Crédito ordinário que lhe foi dado, na forma habitual, 29 de Julho de 1752, assinados pelo Inquisidor Luís Barata de Lima e Notário Pedro Paulo da Silveira, seguido de novas confissões de culpas e judaísmo da parte de Joseja Teresa com outras pessoas, grosso modo nos mesmos termos das precedentes]

Genealogia [e sessão de Crença]
Disse ela, como dito tem, se chama Josefa Teresa, cristã-nova, natural do Lugar e LEBUÇÃO e moradora nesta cidade, de dezanove para vinte anos de idade.
Que sua mãe é já defunta e se chamava Teresa Maria de Campos, natural de LEBUÇÃO, e seu pai se chama Baltazar Mendes Cardoso, homem de negócio, natural da Vila de Vinhais e morador na de Chaves.
Que seus avós paternos são já defuntos e não lhes sabe os nomes e entende que fossem naturais e moradores da Vila de Vinhais.
Que seus avós maternos, também já defuntos, não sabe como se chamavam e foram naturais e moradores do Lugar de LEBUÇÃO.
Que ela, por parte do dito seu pai, tem um tio e duas ditas, irmãos íntegros do mesmo, chamados Pedro Álvares, Maria Nunes e Filipe, não sabe de que, nem donde são naturais.
Que seu tio Pedro Álvares é torcedor de Seda, morador na Vila de Vinhais, casado com Catarina Pereira, de quem tem três filhos e quatro filhas chamados Luís, António, Alexandre, Antónia, Leonor, Francisca e Inácia, todos solteiros, naturais e moradores na Vila de Vinhais e o António e Alexandre eram de pouca idade quando ela, declarante, se ausentou para esta cidade.
Que sua tia Maria Nunes é moradora no Lugar de Rebordelo, casada com João Pimentel, não sabe a sua ocupação, nem os filhos que tem, porque somente conhece os dois chamados Rafael José Pimentel e Daniel José, naturais do dito Lugar.
Que seu primo Rafael José Pimentel é morador no Lugar de LEBUÇÃO, não sabe a ocupação que tem e é casado com Florinda Rosa, de quem ouviu que têm um filho de pouca idade a que não sabe o nome.
Que seu primo Daniel José é rendeiro, não sabe donde assiste e é solteiro e sem filhos.
Que sua tia Filipa é moradora em Rebordelo, casada com Francisco da Costa, não sabe a sua ocupação, do qual tem filhos, a que não os nomes pelos não conhecer.
Que ela tem mais um tio e duas tias, meios-irmãos do dito seu pai, chamados Francisco António, Isabel Maria e Catarina da Costa, naturais da Vila de Vinhais, segundo lhe parece.
Que seu tio Francisco António é homem de negócio, morador na Vila de Chaves, casado com Mariana Teresa, de quem tem dois filhos e uma filha chamados Inácio Xavier da Costa, Matilde Francisca, e o outro não sabe o nome, naturais do Lugar de LEBUÇÃO, e são solteiros e o Inácio, que é o mais velho, terá agora catorze anos.
Que sua ria Isabel Maria é moradora no Lugar de LEBUÇÃO, casada com Jerónimo Álvares, homem de negócio, de quem tem três filhos chamados Francisco Luís, Luísa Mariana, e aos mais não sabe os nomes, e são naturais uns de LEBUÇÃO e outros de Vinhais.
Que sua tia Catarina da Costa é moradora na Vila da Alhandra, casada com Luís Henriques, tendeiro, de quem tem três filhos e quatro filhas chamados Francisco Henriques, Alexandre, Rafael, Clara, Angélica, Rosa, e outra de pouca idade a que não sabe o nome, todos solteiros, não está certa das suas naturalidades, e são moradores na dita Vila.
Que ela, por parte da dita sua mãe, teve quatro tias, irmãs íntegras da mesma, chamadas Violante Pereira, Isabel Pereira, Helena de Campos, Ana Pereira, e um tio a que não sabe o nome que faleceu sem filhos, todas naturais do Lugar de LEBUÇÃO.
Que sua tia Violante Pereira era moradora no Lugar de LEBUÇÃO, casada com José Rodrigues, não sabe o seu ofício, de quem teve um filho e uma filha chamados Alexandre Pereira e Branca Maria, não sabe donde são naturais.
Que seu primo Alexandre Pereira faleceu em Bragança, casado com Luísa Maria Bernarda, de quem teve alguns filhos a que não sabe os nomes.
Que sua prima Branca Maria é moradora em LEBUÇÃO, solteira e sem filhos.
Que sua tia Isabel Pereira é já defunta e foi moradora em LEBUÇÃO, casada com António Correia, torcedor, de quem tem três filhos e três filhas chamados Manuel Mendes, torcedor, Diogo, não sabe de que, e João, também torcedores, e Helena, Teresa e Violante, todos solteiros e sem filhos, naturais e moradores do dito Lugar.
Que sua tia Helena de Campos é já defunta e foi moradora em LEBUÇÃO, casada com Pedro Álvares Campos, rendeiro, de quem teve um filho e três filhas chamados Francisco, que faleceu solteiro, Mariana Teresa, Angélica Teresa e Florinda Rosa, naturais do dito Lugar de LEBUÇÃO.
Que sua prima Mariana Teresa é casada com seu tio Francisco António de quem tem os filhos que acima declarou.
Que sua prima Angélica Teresa assiste em Chaves, solteira e sem filhos.
Que sua prima Florinda Rosa é casada com seu primo Rafael José Pimentel, acima confrontado.
Que sua tia Ana Pereira é já defunta e foi moradora no Lugar de LEBUÇÃO, casada com Francisco Ramos, não sabe a sua ocupação, de quem teve um filho e três filhas chamados Gabriel, não sabe de que, Teresa, Antónia e Luísa, todos solteiros, naturais e moradores em LEBUÇÃO.
Que ela, por parte da dita sua mãe, tem uma tia meia-irmã da mesma chamada Brites Pereira, natural e moradora em LEBUÇÃO e foi casada com Diogo Lopes, torcedor, de quem teve alguns filhos, e só sabe que um se chamava Manuel Mendes, e uma filha chamada Luísa e outra Leonor, naturais do dito Lugar de LEBUÇÃO.
Que seu primo Manuel Mendes é torcedor, casado com Helena Maria, de quem ouviu que tem dois outros filhos, a que não sabe os nomes.
Que sua prima Luísa é moradora em LEBUÇÃO, solteira e sem filhos.
E que sua prima Leonor é já defunta e foi casada não sabe com quem e ouviu que tivera uma filha a que não sabe o nome.

Que ela tem quatro irmãos e uma irmã chamados Diogo Manuel, Luís Bernardo, Alexandre José e Francisco António, Maria Rosa Luísa, e teve mais outra irmã que faleceu solteira e sem filhos chamada Justa Maria Perpétua, todos naturais de LEBUÇÃO e todos são filhos dos ditos pais.
Que seu irmão Diogo Manuel não tem ofício e é casado com Isabel Maria, de quem tem três filhos e uma filha, todos de pouca idade, chamados Carlos, Bernardo, Luís e Teresa, naturais de LEBUÇÃO.
Que seu irmão Luís Bernardo é médico, morador nesta cidade, solteiro e sem filhos.
Que seu irmão Alexandre José não tem ofício e assiste em Vila Pouca, casado com Brites, não sabe de que, e não tem filhos.
Que seu irmão Francisco António é morador em Chaves, não tem ofício e é solteiro e sem filhos.

Que ela, como dito tem, é casada com José Rodrigues Álvares, homem de negócio, de quem tem duas filhas, ambas de dezasseis meses, chamadas Maria Rosa e Teresa Luísa, naturais desta cidade.

Que ela é cristã baptizada, e o foi na igreja de São Nicolau do Lugar de LEBUÇÃO pelo Pároco que então era, a que não sabe o nome, e foi seu padrinho o Conde de Valadares, e não quem foi sua madrinha, mas talvez Bernarda Carvalho de Azevedo.
Que ela não é crismada.
Que ela, tanto que chegou aos anos de juízo e de confissão, ia às igrejas e nelas ouvia Missa e Pregação, confessava-se e comungava e fazia as mais obras de cristã.

E logo foi mandada por de joelhos e depois de se persignar e benzer disse a doutrina da Igreja, a saber o Padre Nosso, Ave Maria, Salve Rainha, Creio em Deus Padre, Mandamentos da Lei de Deus, e os da Santa Madre Igreja que tudo soube.
Que ela nunca saiu fora deste Reino e nele tem assistido no Lugar de LEBUÇÃO, sua pátria, nas Vilas de Vinhais e Chaves e nesta cidade de Lisboa, aonde falava com todas as pessoas que se lhe ofereciam, ou fossem Cristãos-Velhos ou Cristãos-Novos.
Que ela nunca foi apresentada no Santo Ofício, e presa só agora, e de seus parentes não sabe os que o foram.
Perguntada se sabe ela, a ré, ou suspeita da causa de sua prisão:
Disse que ela presume estar presa pelas culpas de judaísmo que tem confessado.

[…]

[Interpõem-se novas Admoestações, 7 longas sessões de “crédito ordinário” e uma de “crédito diminuto”, seguindo-se a conclusão do processo, o respectivo despacho da Mesa do Santo Ofício e do Conselho Geral e do Acórdão da Santa Inquisição com a Sentença. SÍNTESE DA SENTENÇA: Auto-de-fé de 19 de Maio de 1754. Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito, penitências a arbítrio e penitências espirituais]

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sexta-feira, 11 de novembro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – VALPAÇOS

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Segue-se, nesta série documental, a “Memória Paroquial” de 1758 da freguesia de Santa Maria de Valpaços, hoje cidade e sede Municipal do concelho com o mesmo nome criado este em 6 de Novembro de 1836. Trata-se de um documento que já foi sujeito a uma bem conhecida transcrição que é a que consta na Monografia de Valpaços da autoria de A. Veloso Martins. Esta transcrição apresenta um excelente nível de realização, porém encontrei nela, face ao manuscrito original, duas a três imprecisões insignificante e uma mais substancial que entendi rectificar na presente, actualizando também os topónimos, sem desprimor para a qualidade científica revelada por aquele autor em toda a sua mencionada obra e para o valor igualmente científico que encontro nesta.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo 38, VALPAÇOS, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 38, n.º 49, p. 259 a 261]

Satisfazendo ao despacho do Muito Reverendo Senhor Doutor Vigário Geral de Chaves, digo, pelos interrogatórios que me foram entregues, que esta freguesia de Santa Maria de Valpaços fica na Província de Trás-os-Montes, é do Arcebispado de Braga, da Comarca de Chaves e ao mesmo termo pertence.
É d’el Rei ou Duque de Bragança, havendo-o.
Tem trezentos e dez vizinhos e pessoas de ambos os sexos, excepto os párvulos sem uso da razão, terá novecentas e dezasseis.
Está esta freguesia situada em uma [encosta] de um pequeno ou raso monte, mas lavradio, que lhe fica ao poente. Do cimo da freguesia se vêem as freguesias seguintes: Rio Torto, Crasto,  Sanfins, Argeriz, Santiago de Alhariz, Vassal, Ervões, Vilarandelo, Fornos, Vale de Telhas, Vale de Salgueiro. E há um sítio do Outeiro da Vela que se descobre dali, a seis e a oito léguas em redondo, e até lugares da Galiza, por cima de Chaves, se vêem deste sítio e se vê a serra da Nogueira em Bragança e a serra de Sanábria em Castela.
Tem seu termo grande e demarcado com padrões por feitio que dizem Bragança. À dita Casa paga toda a freguesia trezentos e sessenta alqueires de centeio, que arrecadam os pessoeiros e se metem todos os anos e tem uma boa casa para os recolher o rendeiro que os arrenda. O termo tem uma légua para todos os lados; de circuito terá duas. Tem a freguesia três lugares: um chama-se Lagoas, tem trinta e dois moradores; tem, mais adiante, Vale de Casas, que confina com Fornos, do Bispado de Miranda; que tem dezassete moradores; tem outro ao Nascente, Valverde, que tem quarenta e seis moradores; mas todos estes ficam incluídos no número acima, porque todos vêm à missa à matriz de Valpaços. Só tem cada lugar sua capela: A das Lagoas é de Santo Amaro; a de Vale de Casas é de São Gonçalo; e a de Valverde é de São Brás; e todas têm retábulos bem feitos e têm ornatos seus e todo o apresto da missa que, muitos anos, se diz nelas todos os dias Santos, de manhã, para os pastores e velhos que não podem vir à missa conventual da matriz que está no meio do povo de Valpaços. É igreja muito bem grande, com sua capela-mor e sacristia que fabrica o cabido da Sé de Braga, por ser o Padroeiro e Senhor da renda, não só desta freguesia mas de outras quatro vizinhas que são Possacos, Vassal, Santiago e Serapicos e esta renda anda junta e dá, todos os anos, dois contos e cem mil réis e às vezes duzentos.
O pároco dela é vigário que o mesmo cabido apresenta com o ordenado de quarenta alqueires de centeio e quarenta almudes de vinho e doze mil e oitocentos em dinheiro e sete libras de cera, todos os anos, e não tem casas de residência nem salário para as arrendar. O pé de altar chega a render todos os anos cem mil réis.
Não tem beneficiados nem convento nem misericórdia.
Tem em Valpaços a ermida de São Sebastião que está na borda do lugar para o Norte. É milagrosa a dita imagem, porque, havendo males contagiosos ou na gente ou nos gados, recorrem a ela os moradores, e logo cessam; e haverá dez anos, houve um mal de que ninguém escapava, fez-se uma festa ao Santo e com ela uma procissão em que se cercou a freguesia, e não deu o dito mal a mais ninguém. Não romagem nem dias para isso certos. Esta ermida é dos fregueses que a fizeram com esmolas.
O orago desta freguesia é a Assunção de Nossa Senhora a 15 de Agosto. Tem cinco altares: O primeiro de Nossa Senhora do Rosário, da parte do Evangelho, é imagem de vulto que se orna com vestidos, que tem muitos e preciosos, tem seu rendimento de azeite todos os anos, de oliveiras que lhe deixam os fregueses, que dá doze a quinze réis cada ano, faz muitos milagres aos que a invocam e lhe dão muitas ofertas, como são mortalhas, os enfermos que escapam dos perigos, cabeças, mãos pernas e peitos de cera, e linho e trigo; da parte da epístola tem o altar do Santo Cristo com uma imagem grande; da mesma parte e mais para baixo tem o altar das Almas pintadas com São Miguel em imagem por padroeiro e neste altar está também Santo Antão e Santa Luzia em imagens de quatro palmos; neste mesmo altar, dentro dele está o Senhor amortalhado em um caixão bem pintado, imagem que serve na Semana Santa para o descimento da Cruz e para a procissão da Sexta Feira Santa; há mais nesta igreja outra imagem do Senhor da Cruz às costas que serve para a procissão de passos e está por tal arte feita que faz os passos dos sermões da Quaresma todos, que são o Senhor no horto, preso à coluna, coroado de espinhos do Ecce Homo; tem mais outro altar da parte do Evangelho da invocação de São Pedro Apóstolo, de que é administrador o Morgado da fonte desta freguesia e o fabrica por sua conta, os mais, os fregueses nele têm o legado de uma missa cada mês. A igreja tem dois sinos bons, mas não tem rendimento algum; tudo fazem os fregueses das suas bolsas.
A terra produz bons e excelentes frutos, porque dá muita cevada e trigo. Porém a maior sementeira é de centeio, sustento comum dos moradores, e dá tanto sem se estercar que alguns anos dá quinze, vinte e trinta mil alqueires dentro dos marcos. Também dá muito linho e tanto que há lavradores que semeiam a quinze e a vinte alqueires e depois vendem muitas arrobas dele espadado. Colhe-se também muito milhão e muito legume de toda a casta, feijão branco e rajado, e miúdo, e muito ervanço. Dá muita hortaliça de couves e tronchudas e repolhos, muita alface e cebola, melão e melancia e muita fruta de peras e maçãs e ameixas e maracotões e gil-mendes perfeitos, e, se disto não dá muito mais, é porque o descuido de plantarem todos faz com que os que não têm furtem aos que têm, que por isso desgostam de ter mais. É muito abundante de vinhas de boas e excelentes uvas, e nas vinhas há muitas figueiras que dão duas vezes figos, no princípio de Julho os lampos grandes e gostosos e no de Setembro outros de que secam muitas arrobas; e das uvas fazem excelentes passas, em espacial do guveio e bastardo, este preto, aquele branco, e são tão duras as uvas que vêm de meia légua nos carros em cestos para casa e fazem delas dependuras em casa, que duram até à Quaresma tão sãs como no São Miguel, e o vinho é maduro e já daqui foi a embarcar para fora do Reino e iria todos os anos se não ficara distante do Porto quase trinta léguas, mas vai muita aguardente que dele se faz. Dá também muito azeite de que colhe cada ano quinhentos e seiscentos almudes, e só o Morgado da igreja passa de colher cem almudes cada ano. Também é abundante de castanheiros enxertos de que recolhe grande quantidade de castanha e com ela se fazem as cevas e sustentam de inverno as bestas e gados.
Tem juiz e quadrilheiros e jurados que são postos pela Câmara de Chaves, aonde há juiz de fora e lá se decidem os pleitos.
Não é couto nem tem concelho nem outra coisa de isenção.
Não há memória de homens insignes, senão alguns que pela guerra alcançaram alguns postos maiores. Há dois morgados, o da fonte e o da igreja, que saiu do da fonte, antigos e nobres, cavaleiros do hábito de Cristo. No lugar das Lagoas ainda vive, e tem quase cem anos, Gonçalo Fernandes, soldado reformado, que foi nas guerras da Catalunha, onde pelejou e fez muitas proezas por Carlos terceiro contra os castelhanos.
Não tem feira esta terra, mas serve-se das muitas outras que há ao redor e algumas não passa de uma légua.
Não tem correio, mas serve-se do de Chaves donde dista quatro léguas.
Da cidade capital, que é Braga dista dezoito léguas, e de Lisboa, para onde há duas estradas, uma por Lamego e Viseu de sessenta e oito léguas, e outra pelo Porto de setenta léguas.
Tem esta freguesia e a de Possacos um privilégio d’el Rei pelo que paga à Casa de Bragança muito célebre, porque não conhece ao dito Senhor senão com sisa e décima, do mais de tudo está isenta.
Tem uma fonte donde gasta todo o povo por ser a mais excelente, que aos que se criam com ela isenta da dor de pedra e da retenção de urina. Tem mais fontes e poços que com pouca altura se abrem e dão muita água para regar, e tem dois regatos pequenos que são água até o Santiago, depois secam, mas do Santo André até Maio sustentam muitos moinhos a moer.
Teve esta freguesia antigamente um mineral de breu de que se tirava muito, mas hoje não há quem o procure, mas ainda tem o nome a terra que o dava, pois se chama a Cortinha do forno de breu. Tem mais esta freguesia no sítio das Lagoas um mineral de pedra branca e fina de que se fazem obras excelentes, até retábulos, porque tem bom temperamento para tudo o que se quer dela obrar até ficar lisa como papel, e dela mandou el Rei fazer frontispício do seu hospital de Chaves, donde dista quatro léguas.
Tem esta freguesia uma Irmandade do Santíssimo Sacramento, que tem grande quantidade de irmãos não só da gente desta freguesia mas ainda de dez freguesias à roda, onde vai fazer nelas os sufrágios dos irmãos que lá morrem, e nesta igreja faz dois gerais, um na Quinta-feira do meio da Quaresma e outro no Sábado do Cospus Christi e, no Domingo, uma festividade célebre, e tem missa semanal e mais trinta, por cada irmão que morre, e um ofício de vinte padres.

E não sei mais coisa alguma digna de memória e por passar na verdade fiz esta por minha mão, que assinei com dois párocos vizinhos, que são o de Possacos e o de Vassal, aos 8 de Março de 1758.

O vigário, o Padre Francisco Pereira de Aial

O vigário de Santa Maria de Vassal, o Padre Dâmaso Osório de Queiroga
O vigário de Santa Maria de Possacos, o Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo.