sábado, 14 de janeiro de 2012

Fontes, chafarizes e marcos fontanários do concelho de Valpaços – Freguesia de BARREIROS

Transcrição do texto de Adérito Medeiros Freitas
Recriação gráfica pseudo-faiança de Leonel Salvado


Tema: Dados históricos sobre a freguesia e fontes de Barreiros | Objecto: prato |
criação digital e adaptação: Leonel Salvado | Recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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I
A - Fonte de Mergulho

Tema: Fonte do Prado em Barreiros | Objecto: prato |
criação digital e adaptação: Leonel Salvado | Foto-base: A.M. Freitas | 
Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior); http://www.planetasercomtel.com.br (fundo inferior).
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Localização: Barreiros
Lugar: Prado (Rua da Fonte)
Altitude: 450 m   Longitude: 7º 13’ 38,6 W   Latitude: 41º 41’ 19,0’’ N
Ano de construção: 1896 (Mandada construir por Joaquim Pereira de Sequeira)
Material de construção: Granito de dois tipos: um, equigranular de grão fino a médio, de duas micas e cor amarelo-acastanhada por alteração química da biotite; outro, equigranular e de grão grosseiro, com duas micas e, por vezes, com nítida alteração química da biotite.

Características gerais: Como a fotografia [imagem] documenta, trata-se de uma fonte de grande beleza, que merece ser incluída num Roteiro das Fontes do Concelho de Valpaços.
Infelizmente, ao longo dos anos e ainda recentemente, obras realizadas na rua que lhe passa ao lado bem como no espaço que lhe ficava em frente prejudicaram, e muito, o seu real valor, como justificaremos mais adiante.
Externamente e na direcção ântero-posterior, esta fonte mede 2,06 m. A largura frontal é de 2,80 m e possui, de altura máxima, 3,22 m. A planta interna, rectangular, mede 1,54 m de comprimento (direcção transversal) e 1,35 m de largura (direcção Antero-posterior). A profundidade do reservatório é de 1,10 m mas, quando recolhi estes elementos, no dia 3 de Junho de 2004, apenas possuía uma profundidade de água de 88 cm.
A porta mede 1,14 m de altura máxima, 1,54 m de largura e termina, superiormente, em arco de volta perfeita. Outrora, esta porta era mais alta e a soleira, tal como acontece com tantas outras fontes, possuía um intenso desgaste provocado pelo contínuo roçar, durante décadas, dos cântaros utilizados para recolha e transporte de água. Este desgaste constituía um importante documento do historial desta fonte mas, alguém pouco esclarecido do seu verdadeiro significado, resolveu tapá-lo colocando-lhe, por cima, uma soleira de cimento. Na minha opinião, com todos os cuidados que uma tarefa deste tipo exige, esta soleira de cimento deveria ser removida. A água não é formigueira, pois nasce a 20 m da fonte. É límpida e abundante. Outrora, a partir da nascente, atingia a fonte através de uma caleira de granito. Hoje, a água atinge a fonte através de um tubo, cuja porção terminal é uma bonita e bem trabalhada gárgula de granito com forma de tronco de cone, que mede 44 cm de comprimento e 22 cm de diâmetro frontal.
O tecto, em abóbada de berço, é formado por sete aduelas a primeira das quais de cada lado assenta directamente na última laje de granito do respectivo pé direito. Não existem impostas. A largura das aduelas diminui, de cada lado, da base para o topo (respectivamente 50, 39 e 26 cm). A aduela fecho da abóbada mede, apenas, 10 cm de largura. As arestas frontais das aduelas da abóbada estão truncadas, originando uma face curva com 4 cm de largura.
A cobertura, de duas águas, é muito inclinada e formada por cinco lajes colocadas longitudinalmente. Destas, é digno de nota a laje que forma o cume, cuja secção transversal possui a forma de um “V” invertido dando continuidade, na perfeição, a cada uma das vertentes laterais. De um e outro lado bem como frontalmente e numa extensão de 45 cm  de cada lado, como a fotografia [imagem] muito bem documenta, una cornija horizontal, saliente 10 cm. Em continuidade com esta existe, frontalmente, uma outra cornija formando como que os dois lados de um triângulo isósceles, com 1 m de altura e 2 m de base.
De um e outro lado, sobre cada uma das porções frontais da cornija horizontal, um pináculo quadrangular terminando em pirâmide, com 1,05 m de altura. Superiormente, no ponto de encontro dos dois ramos simétricos e convergentes da cornija frontal, uma peanha sustentando uma cruz relativamente recente, certamente em substituição da cruz primitiva cujo destino desconheço. […]
Em frente da fonte existe, hoje, um espaço rectangular com pavimento de cimento a que dão acesso dois degraus de granito já bastante gastos e limitado por duas lajes paralelepipédicas também de granito. Este espaço mede 2,40 m de comprimento, 1,37 m de largura e 26 cm de profundidade máxima. No espaço frontal da fonte existiram, no passado, uma pia bebedouro múltipla e dois tanques de lavar roupa. Este espaço está, actualmente, em parte ocupado por um Infantário ali construído. Devido a esta construção, os velhos tanques foram destruídos e a pia bebedouro foi soterrada.
Recentemente e devido a novas obras realizadas no local, a pia bebedouro, depois de tantos anos soterrada, foi novamente posta a descoberto. Quando recolhi estes elementos encontrava-se em frente da fonte, do seu lado direito, encostada a um muro limitante de uma propriedade. Foi cavada num grande bloco de granito que mede 2,27 m de comprimento e 75 cm de largura. As duas pias comunicam entre si por meio de um orifício situado ao nível do pavimento e cada uma delas possui, no rebordo superior das suas paredes limitantes, um sulco transversal que permite o escoamento da água quando se encontram cheias. Estas duas pias gémeas medem, respectivamente, 90 cm de comprimento, 46 cm de largura e 26 cm de profundidade (uma) e 90 cm de comprimento, 48 cm de largura e 26 cm de profundidade (a outra). […]

Adérito M. Freitas, Concelho de Valpaços, FONTES DE ABASTECIMENTO DE ÁGUA…, C.M.V., Vol. I, 2005, pp. 93-95.


B - Inscrição da Fonte do Prado

Tema: Inscrição da fonte do Prado | Objecto: prato | criação digital e adaptação: Leonel Salvado
 | Foto-base: A.M. Freitas |  Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior);
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Na fachada frontal [da fonte do Prado] e por cima da porta, uma almofada de granito equigranular de grão fino e cor acastanhada devido à intensa alteração química da biotite onde, conforme a fotografia [imagem] muito bem documenta, está incicado o ano da construção desta fonte (1896), bem como o nome da pessoas que a custeou (Joaquim Pereira de Sequeira).

C. M.
M. F. ESTA
OBRA EM
1896
JOAQUIM
P.D. SEQUEI
RA

Aproveito este momento para agradecer ao Sr. Albano Luís Pereira Rosa, bisneto do falecido Sr. Joaquim Pereira de Sequeira, todas as informações que tão amavelmente me transmitiu sobre as fontes dos Barreiros, bem como sobre outros temas de grande interesse.

Joaquim Pereira de Sequeira, casado com Carolina Rita Areias, era natural de Lebução e encontra-se sepultado no cemitério dos Barreiros. Teve dois filhos, Alípio José Pereira de Sequeira e Albano dos Anjos Pereira. O primeiro foi proprietário nesta povoação dos Barreiros e, o segundo, foi proprietário e professor, artista nato excelente, como o provam as dezenas de desenhos e pinturas que cobrem, quase por completo as paredes das duas varandas da sua antiga residência. Na sua MONOFRAFIA DE VALPAÇOS, o Dr. Veloso Martins refere-se-lhe afirmando, que Barreiros, “foi dominada muitos anos pela figura do seu professor primário Albano Pereira, espírito culto, fino humorista, distinguindo-se como artista no desenho e aguarela”.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 94-95.

II
Fonte de Mergulho

Tema: Fonte da Rua dos Castanheiros | Objecto: prato | criação digital e adaptação: Leonel Salvado | Foto-base: A. M. Freitas | Outros recursos: http://www.iromababy.com (fundo superior);
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Localização: Barreiros
Lugar: Rua dos Castanheiros
Altitude: 457 m   Longitude: 7º 13’ 42,3’’ W   Latitude: 41º 41’ 16,2’’ N
Ano de construção: Desconhecida
Material de construção: Granito equigranular de grão grosseiro e duas micas, com nítida alteração química da biotite.

Características gerais: Interessante fonte de reduzidas dimensões, toda em granito e certamente muito antiga. O que resta desta fonte encontra-se, hoje, em parte incorporado no muro de uma habitação. A água desta fonte, de caudal muito reduzido não é, actualmente, utilizada para qualquer fim.
A planta interna, rectangular, mede 1,20 m de comprimento e 1,05 m de largura. O muro limitante posterior está semi-destruído. A profundidade total do depósito é de 1,10 m mas, quando recolhi estes elementos, a profundidade de água era, apenas, de 40 cm.
A porta mede 1,17 m de altura máxima e 1,05 de largura. Como a fotografia [imagem] muito bem ilustra, termina em ângulo agudo, uma vez que a cobertura é formada por duas lajes tabulares de granito que convergem superiormente e se apoiam, lateralmente, nois respectivos pés direitos formados por pedras soltas um tanto irregulares. A laje da esquerda mede 82 cm de superfície frontal e 95 cm de largura. A laje da direita mede 1,02 m de superfície frontal e possui 60 cm de largura.
A formar a fachada da fonte, um muro de pedras soltas de granito, só presente do lado esquerdo. Por cima da cobertura e 40 cm acima do limite da porta, uma laje tabular de granito em posição horizontal com, aproximadamente, 1,00 m de comprimento e outro tanto de largura (logo, aproximadamente quadrangular) forma uma pala, saliente 25 cm.
Pelo facto de se encontrar incorporada entre duas paredes de uma casa de habitação dispostas em ângulo, admitimos que a mesma tenha sido, outrora, uma fonte particular.

Adérito M. Freitas, Id, pp. 96-97.

353.º Aniversário da Batalha das Linhas de Elvas

Para rever as notas que publicámos sobre esta data comemorativa,
por ocasião dos seus 352 anos, clique

505.º Aniversário do nascimento de D. Catarina de Áustria, Rainha de Portugal


Para rever as notas que publicámos sobre D. Catarina de Áustria, rainha de Portugal,
por ocasião do 504.º Aniversario do seu nascimento, clique

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

A Batalha de Cambedo - Viagem à memória de um povo raiano

Por Euroluso, 29 de Dezembro de 2011

XVI Encontro de Blogues e e Fotógrafos Lumbudus


Cambedo da Raia entrou na minha vida no XVI Encontro da blogosfera flaviense, realizado dia 4 de dezembro. Entrou e vai ficar porque a 'promiscuidade' deste pobo com os galegos me cativa. 


A aldeia não é Gernika nem teve nenhum Picasso a imortalizar o sofrimento dos paisanos, quando foi bombardeada por forças repressivas, na véspera do Natal de 1946. Na manhã de 20 de dezembro, há 65 anos, a população levantou-se, sobressaltada, com o aparato bélico e o latido dos cães.



No cerco a três fugitivos anti-franquistas, aí refugiados, participaram mil (mil?) efetivos: cinco agentes da PIDE, forças da GNR, da Guarda-Fiscal, da PSP e um pelotão do Batalhão de Caçadores nº 10, de Chaves, apoiadas do outro lado da fronteira, pela Guardia Civil espanhola.
Cambedo 4

Pátio onde o Juan e o Demétrio se esconderam

Na aldeia, com base na denúncia de uma mulher chamada Remédios, havia várias casas suspeitas de servirem de pernoita a fuxidos galegos: a da Escolástica, a do Adolfo, a do Mestre, a da Silvina e a da Engrácia. Porém, de todas, a da Albertina Tiago, foi a que ficou mais danificada na refrega que opôs os fugitivos às forças de repressão.


Desde o fim da guerra civil espanhola, em 1939, ganha pelos nacionalistas do general Francisco Franco, que anarquistas, comunistas e socialistas galegos permaneceram na raia - onde, para sobreviver, trabalhavam na agricultura, nas minas de volfrâmio ou no contrabando - ou daí procuravam partir para paragens mais longínquas, para escapar ao fuzilamento nas terras de origem.


Alguns fugitivos anti-fascistas, escondidos nas montanhas, tornaram-se guerrilheiros do maquis*, fazendo incursões em territórrio espanhol e escolhendo alvos concretos para os seus ataques.

*Maquis é o lugar onde se reunem os resistentes - maquisards - franceses à ocupação alemã durante a II Guerra Mundial. Em Espanha os maquis são os republicanos que, depois de perdida a guerra civil, combatem o franquismo nas montanhas das Astúrias e na Galiza.


A casa da Albertina nunca foi reconstruída, permanece em ruínas, como testemunho vivo da repressão, para que não se apague da memória dos homens o cêrco à aldeia, há 65 anos. 

Foto picada de Cambedo-Maquis

Sitiados durante uma noite e dois dias, os habitantes, acima de 300, viveram momentos de angústia e terror, com a troca de tiros de pistolas-metrelhadoras, dezenas de disparos de morteiros, lançamento de granadas de mão, de gás lacrimogénio, de bombas incendiárias e palheiros ardidos.


Vitorino Aires, da PIDE, seguido por agentes da PSP e da GNR, andou por este quinteiro a espetar espalhadouras na palha guardada no cabanal, à procura de guerrilheiros espanhóis  - Juan, Garcia, Demétrio e de outros que lá se poderiam ter escondido.


Em Portugal, a GNR e a PIDE escamoteavam a natureza política dos republicanos fuxidos à repressão, aos ajustes de contas e às represálias dos franquistas, no pós guerra-civil. Os meios de comunicação social, visados pela censura, davam a imagem de que se tratava de um bando de malfeitores.


O destacamento da GNR enviado para sitiar Cambedo, insuficiente para prender ou levar os perseguidos a renderem-se, foi reforçado por soldados do quartel de Chaves e por forças que tinham sido inicialmente destacadas para outras aldeias do concelho.



Da Batalha do Cambedo, resultou a morte de dois guerrilheiros - Juan Salgado Rivera e Bernardino Garcia, que terá preferido suicidar-se a render-se; a morte de dois guarda-republicanos, José Joaquim e José Teixeira Nunes; alguns feridos, incluindo uma menina; e foram presos oito galegos e 55 portugueses, dezoito dos quais de Cambedo.

Foto de Demetrio ou ´Pedro´ em 1946, picada de Cambedo-maquis

Demétrio Garcia Alvarez foi o único dos três guerrilheiros que não morreu no combate. Resistiu até se render, ao segundo dia, quando não tinha mais munições. Condenado a 28 anos de prisão, foi desterrado para o Tarrafal, em Cabo Verde, tal como José Pinheiro, conhecido por Pepe da Castanheira. Esteve lá encarcerado até 1965, tendo posteriormente ido viver para França.

Sr. Sebastião Salgado, cicerone das dezenas de participantes
 no XVI Encontro de bloguistas e fotógrafos Lumbudus.



Casa por onde Juan ou Facundo se escapou para o alto do monte, com intuito de se por a salvo, do lado de lá da fronteira. Encurralado pela Guardia Civil, acabou por ser morto por um guarda-republicano, quando recuava. Juan tinha laços familiares em Cambedo, tal como Demétrio.



Placa comemorativa, em galego, do cinquentenário da Batalha do Cambedo, "En lembranza do voso sufrimento, 1946-1996". A placa, oferecida por intelectuais galegos de Ourense, resgata a memória da solidariedade raiana e a auto-estima dos habitantes de Cambedo, durante quase três décadas ostracizados por a PIDE os apodar de vermelhos e acoitantes de bandoleiros.

Arlindo Espírito Santo, filho de Silvino, cabo reformado da 
guarda-fiscal, acusado de pertencer a associação criminosa. 
O pai esteve preso 11 meses e ficou sem a pensão.

Após ter lido o que alguns autores escreveram sobre a Batalha do Cambedo, fico intrigado com referências a uma suposta amnésia da população. Fernando Ribeiro diz que há uma vontade expressa em não falar sobre o assunto e que a placa, comemorativa do cinquentenário do combate, é vista como um elemento de perturbação adicional. 


Perturbação? Se assim for, é de presumir que o epílogo da história da "Batalha do Cambedo" apenas será escrito quando deixar de haver sobreviventes receosos de que o conhecimento de toda a verdade sobre cumplicidades e traições, na relação com os guerrilheiros, abra feridas que se pretendem esquecer.

Nota: As fotos das forças militarizadas são da simulação de um controle fronteiriço em Vilarelho da Raia, feito por membros da Associação Cultural da aldeia. Ver AQUI.


Fontes consultadas:
http://caminhosdamemoria.wordpress.com/2009/09/10/cambedo-da-raia-1946/
http://historiasdaraia.blogspot.com/2010/01/fronteiras-cambedo-da-raia.html
http://abaciente.blogspot.com/2010/12/20-de-dezembro-de-1946-escaramuca-em.html
http://cambedo-maquis.blogs.sapo.pt/2007/12/ 
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Memorial da “Terra Mágica” – LM, Moçambique V

Parque Silva Pereira
Por Manuel Terra, 1 de Dezembro de 2011


 Neste rol de evocações que se vão sucedendo, a ufania da minha juventude tocada pelos bons momentos e instantes de felicidade vividos em L. M., relembra-me as passagens quase diárias pelo Parque Silva Pereira (hoje Jardim dos professores) zona verde, muito tropical procurado em tardes solarengas por muitos alunos que frequentavam o Liceu Salazar (hoje Escola Secundária Josina Machel) no início da Av. Brito Camacho (hoje Patrice Lumumba) e que se situava mesmo defronte do parque. Contrariamente ao apelido atual, naquele tempo era o verdadeiro jardim dos estudantes que apenas tinham que atravessar a passadeira, para atingirem a encantadora zona bem orlada de árvores e canteiros. Ao fundo o seu belo miradouro coberto de trepadeiras, de onde era possível deslumbrar o olhar contemplando no horizonte, a majestosa Baía Espírito Santo, os navios que cruzavam as suas águas e a íngreme barreira da Maxaquene. A vegetação verdejante do parque, marcada pela beleza multicolor das suas plantas, contrastava familiarmente com os bancos já gastos pela torreira do sol ou a impiedade da chuva e, todos lhes davam uma importância muito especial tornando-o num ponto de convergência de muitos miúdos e adolescentes, que de pasta na mão aguardavam com tranquilidade, mais um dia de aulas. Era seguramente, um local de lazer e de estudo e que servia de igual modo para os mais novos descarregarem a adrenalina e os mais espigadotes trocarem olhares amorosos, com as moças que se posicionavam nos varandins da ala feminina do liceu. Ali tinham lugar habituais pândegas académicas, que escondiam muitas emoções e histórias proibidas. Fazia parte da rotina dos sábados no parque, as atividades da Mocidade Portuguesa organização vincada por uma estrutura pré-militar, integrada como disciplina obrigatória regida de inexorável pontualidade, decretada pelo toque da ruidosa campainha que se fazia ouvir no átrio do estabelecimento de ensino. Passava-mos meia manhã encafuados em fardamentos de camisa verde escura e calção de caqui, bivaque na cabeça marchando e em exercícios físicos, seguidos com natural curiosidade por pedestres que por ali circulavam. O parque tornara-se também itinerário quase obrigatório de turistas, que viajando por vários continentes, se hospedavam no vizinho Hotel Cardoso e que em momentos de visível descontração se deitavam sobre a relva ou tiravam fotografias de grupo. São estes factos uma constante da vida, recordações de um tempo áureo que deixa marcas e que me obriga a constantes divagações por vias do passado.
In http://terramagica-terra.blogspot.com

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Um novo dado para a controvérsia luso-britânica sobre a descoberta da Austrália

Dundee Beach, Austrália, foto: http://www.travelblog.org

AUSTRÁLIA
Encontrado canhão que pode ser português
por DN.pt, 10 de Janeiro de 2012

Um rapaz de 13 anos encontrou numa praia do norte da Austrália o que pode ser um canhão pedreiro como os que eram utilizados nos navios portugueses do século XVI. Uma descoberta que pode ajudar a provar que os portugueses estiveram na Austrália no mesmo período em que ocuparam Timor.
A descoberta foi feita em Janeiro de 2010, quando as marés foram excepcionalmente baixas. Christopher Doukas, natural de Darwin, conseguiu andar pela costa até Dundee Beach, a uma distância de duas horas de carro, e foi aí que encontrou o canhão, que se pensa ter 500 anos. O pai ajudou-o a levar a arma para casa, onde descobriram que era feita de bronze.
Em Julho do ano passado, a mãe do rapaz, Barbara, contactou o museu de Darwin para dar conta da descoberta. Mas só agora, e depois de Barbara ter falado com o Ministério Público local, é que o museu pediu para investigar o canhão. Christopher descobriu na internet que um objeto similar foi vendido por 8000 libras (9 669 euros), por isso, confessou à agência noticiosa australiana AAP, que gostaria também de vender a sua descoberta a um museu.
Portugal ocupou Timor, em 1515, mas a possibilidade dos nossos exploradores terem viajado no início do século XVI mais cerca de 700 quilómetros, até à costa norte da Austrália, ainda está por provar. Embora alguns mapas franceses desta época mostrem o que parece ser a parte norte da Austrália, o que poderá ser uma evidência de que os exploradores lusos chegaram aí nesse período, esta teoria ainda é muito controversa.
Em cima da mesa estão ainda hipóteses como a de que o objecto tenha sido levado pela maré até ao local onde foi encontrado ou que tenha sido deixado aí por comerciantes do século XVI.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Dia de São Gonçalo de Amarante 2012

Este Santo venerado em  Portugal, sobretudo no Norte onde nasceu, e no Brasil é também invocado em algumas freguesias do concelho de Valpaços.


Para rever o post que lhe dedicámos, no seu dia, em 2011,
clique na imagem.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Vilarandelo na rede viária do Império Romano

Por Leonel Salvado


A antiguidade da ocupação humana na área que envolve esta localidade de Vilarandelo, freguesia do concelho de Valpaços e vila desde 12 de Julho de 2011, é reconhecida em inúmeras obras de divulgação nacional e monográfica e a sua localização na referida importante Via Romana Braga-Astorga é também nelas posta em evidência.

A existência de um castro a pouca distância, a Nordeste de Vilarandelo, no Alto conhecido por Muradela (ou Muradelha) tem suscitado a convicção de que a sua antiguidade remonta à época pré-romana.

Mas é a respeito da época romana que surgem os primeiros e melhores indicadores da sua importância, tanto na toponímia como na arqueologia. Valpaços e uma larga parte das freguesias que o compõem encontravam-se no cruzamento ou passagem dessa via romana. Sob o asfalto de uma grande parte da estrada nacional que nos ligam a Chaves, Vila pouca de Aguiar e a Castro de Avelãs, de algumas estradas municipais ou perto delas, sob a vegetação, escondem-se os troços de calçadas que podemos apelidar de itinerários ou “variantes” da importante Via Romana que seguramente desde o início século III da era cristã ligava Bracara Augusta (Braga) a Asturica (Astorga), por Aquae Flaviae (Chaves).
Tem estado a ser feito um estudo minucioso por Pedro Soutinho no sentido de se obter uma reconstituição cartográfica o mais fiável possível deste e de outros itinerários das vias romanas em Portugal. Outros vestígios e achados, tais como pontes romanas ou medievo-romanas e marcos miliários1 associados a esses troços, têm sido de grande valor para a sua reconstituição, ao mesmo tempo que servem para assinalar a importância que os mesmos troços tiveram na complexa rede viária de então, bem como a importância, pelo proveito que delas retiravam, dos povoados hispano-romanos junto das quais elas passavam. E ainda que o topónimo Vilarandelo seja mais recente, nascido talvez nos alvores da nacionalidade, ou antes desta, de um aglomerado de pequenos “vilares” de que os actuais cinco bairros da vila podem remanescer, como sugere Veloso Martins,  avulta a existência de uma elevação natural de que a tradição popular conserva o nome de Cividade2, de onde deriva o nome cidade e que era frequentemente usado na época romana para designar núcleos urbanos de certa importância administrativa. O sítio do Alto da Cividade continua por muita gente a ser identificado como o mesmo sítio da Muradela e, portanto, do aludido castro de Virarandelo, apesar da objecção colocada por Adérito Medeiros Freitas na “Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços”, segundo o qual «os locais de Muradella e Cividade não correspondem ao mesmo sítio». Se a primeira interpretação for a mais acertada, será de concluir pela sugestão de que o vetusto castro de Vilarandelo terá sido administrativamente promovido na época romana à categoria de “civitatem”, no singular e sem genitivo, isto é, sem a indicação particular do povo que a compunha.

Quanto ao enquadramento de Vilarandelo no traçado viário da época romana estabelecido nesta região do concelho de Valpaços, não se torna francamente sustentável a opinião manifestada por A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços ao afirmar, a propósito de Vilarandelo, que «aqui passava uma notável via militar romana, que se dirigia de Aquae Flaviae para o Douro, e que em nossa opinião, nada tem que ver com a famosa estrada Bracara-Astorga.» Tal como tem sido observado por Pedro Soutinho no seu estudo e reconstituição cartográficas dos itinerários das principais vias romanas em Portugal, a verdade é que a “famosa estrada Bracara-Astorga”, a que se refere Veloso Martins, compreendia 4 itinerários distintos, designados por “itinerário(s) de Antonino”, 3 a saber: Por Ponte de Lima; “per loca marítima” (Litoral); pela Serra do Gerês (“Via nova”); por Aquae Flaviae (Chaves). E este último, designado por “itinerário XVII”, compunha-se, por sua vez, de variantes que dele derivavam ou confluíam e de outas vias transversais que com ele cruzavam. Ora, por Vilarandelo passava precisamente o itinerário principal da via XVII, que é designado por “itinerário de Chaves a Castro de Avelãs por Valpaços”, rumo a Astorga (ver MAPA). Mas porque também, segundo Pedro Soutinho, dele derivava, em Valpaços, rumo ao Sul, uma hipotética variante em direcção a Marialva, por Pocinho, Foz-Côa e Freixo de Numão, julgo radicar-se nesta situação o equívoco do autor da Monografia de Valpaços, tanto mais que que o itinerário Chaves - Vila Pouca de Aguiar - Rio Douro, também considerado por Soutinho, não passava junto a  Vilarandelo.

Variante do Itinerário XVII, Chaves – Valpaços – Castro de Avelãs,
 segundo Pedro Soutinho
clique sobre o mapa para aumentar

Podemos finalmente estabelecer assim, em conformidade com o mapa exposto e as pesquisas que estiveram na base da sua elaboração, um roteiro descritivo da referida via romana junto da qual se supõe que tenha florescido uma comunidade hispano-romana no espaço onde hoje se enconta a vila de Vilarandelo e dos principais vestígios que abonam em favor dessa realidade:


VILARANDELO NA VARIANTE DO ITINERÁRIO XVII - AQUAE FLAVIAE (CHAVES) A ASTURICA (ASTORGA), POR VALPAÇOS E CASTRO DE AVELÃS.

«Partindo da Madalena, Chaves, depois de atravessar o Tâmega, segue a direito pela EN103.
Na capela, continua em frente por terra; na bifurcação segue à direita para Quinta. de S. Germano; após o canal segue à esquerda e 50 metros depois, segue à direita onde passa a calçada que ascende ao Alto de S. Lourenço; segue para Eiras (miliário a Constancio I).

S. Lourenço (ver magnífico troço da Calçada de S. Lourenço subindo a encosta; miliário anepígrafo já desaparecido; o acesso à calçada faz-se no miradouro de S. Lourenço continuando depois pela Casa dos Ferradores, Largo do Cruzeiro, Rua da Travessa, até à EN213; ao chegar ao chafariz segue para Juncal). Ponte Romana de S. Lourenço sobre a ribeira de S. Julião (1 arco, a 500 m da povoação e segue para Arco e Lama).

S. Julião de Montenegro (na Igreja paroquial apareceram 4 miliários, miliário Macrino e miliário a Décio, este da milha VI, expostos dentro da igreja, um miliário anepígrafo no adro da igreja e ainda um fragmento na casa do Pe. Fernando Pereira em Vilar de Nantes; continua pelo Alto do Cavalinho, Falgueira, Poças, Alto da Giesta e Barracão)

, Ervões (apareceram 2 miliários nas obras de demolição da capela de Sta. Luzia; um miliário a Macrino que hoje está no terreiro da casa de Hermínio Quintino e outro nas fundações da mesma).

VILARANDELO (miliário a Macrino, apareceu na Capela do Espírito Santo dentro do cemitério e está hoje no jardim junto ao mercado com um outro miliário a Caracala que apareceu no pátio da casa de Francisco Coroado em Vilarandelo; um fragmento de miliário foi para o MRF [Museu Regional de Flaviense] em Chaves)»

Miliários a Macrino, à direita, e a Caracala, à esquerda, no Jardim do Toural, Vilarandelo
Foto da Junta de Freguesia de Vilarandelo

O miliário de Vilarandelo dedicado a Caracala foi datado por António Rodrigues Colmenero do ano 214 d. C. e dele existe uma interpretação (versão de Colmenero) publicada por Adérito Medeiros Freitas na Carta Arqueológica de Valpaços.
O miliário a Macrino foi datado de 217 d. C. pelo mesmo autor.
O fragmento de miliário que se encontra no MRF foi, segundo a mesma fonte, encontrado nas imediações de Vilarandelo e Colmenero admite duas datações possíveis, por tanto poder ter sido dedicado a Constatino I, como a seu filho Constantino o Grande, isto é entre 292 e 305 da potestade do primeiro ou a seguir a esta data.
Segue para Lagoas

«Lagoas (a calçada passa a Norte de Valpaços; miliários deslocados no Solar e Capela dos Morgados Pinto Leite, Casa do Arco).

Possacos (4 miliários; miliário a Magnêncio que apareceu junto à Igreja e hoje está numa casa particular em Carlão, Alijó; miliário a Flávio Dalmácio que apareceu nos alicerces de uma casa no Largo das Duas Fontes e hoje está no MNA [Museu Nacional de Arqueologia]; e mais 2 miliários referidos no CIL II [Corpus Inscriptionum latinarium II] entretanto já desaparecidos: miliário a Macrino? da Qta. do P. António de Sousa, CIL II  4790, miliário a Carino? da Qta. de Francisco da Costa Homem, CIL II 4792; a via desvia da EN206 à direita, pouco depois da povoação, e desce à ponte por 2 km).

Ponte Romana do Arquinho ou de Possacos sobre o rio Calvo (daqui provém o miliário a Maximino e Máximo, CIL II 4788, deslocado depois para a ponte de Vale de Telhas, acabando junto à capela de N. S. de Fátima em Vale de Telhas onde está hoje; indica reparações da via na frase “vias et pontes temporis vetustate conlapsos restituerunt curante”; referência a mais 2 miliários nas imediações, entretanto desaparecidos; depois da ponte, a via sobe até à EN206 e depois por caminho de terra até ao parque de campismo na margem do Rio Rabaçal).

Ponte Romano-Medieval de Vale de Telhas, sobre o rio Rabaçal (é uma construção medieval, mas que utiliza materiais romanos, como alguns silhares com marcas de fórfex, provenientes da anterior ponte romana que seria mais a jusante no lugar da Barca, onde havia um conjunto de pelo menos 5 miliários que foram deslocados ou estão desaparecidos: o miliário a Galério que está hoje no Museu de Vila Real, o miliário a Maximino Daia que está hoje na casa da família Verdelho em Vale de Gouvinhas, os 2 miliários que estão em Vale de Telhas descritos abaixo e um miliário a Numeriano entretanto desaparecido)

Pinetum, mansio4 a XX milhas de Chaves junto à travessia do Rio Rabaçal. A mansio poderia ser na área do parque de campismo atendendo aos vestígios aí existentes e o povoado de Pinetum poderia ser no Castro do Cabeço da Mochicara em Vale de Telhas. Os vários miliários que apareceram nas margens do rio e que iam sendo agrupados junto à ponte medieval reforçam que a milha 20 era vencida neste local.

Vale de Telhas (miliário a Constantino II junto à fonte romana proveniente da ponte e o miliário a Maximino e Máximo no adro da capela de N. S. de Fátima proveniente de Possacos; a via não passa na aldeia, mas na EN206)»

In Vias Romanas em Portugal, itinerários | http://viasromanas.planetaclix.pt/index.html


O itinerário prosseguia, já fora dos limites do concelho de Valpaços, por Bouça, Ferradosa, Lamalonga, até Castro de Avelãs e, daqui, em direcção a Bragança, penetrando em território espanhol através do Rio das Maçãs, entre Porto Calçado e Vale de Perdizes, até Astorga.

Notas:
1 Miliário (do latim “miliarium”, a parte de “milia passum”, mil passos), marcos colocados ao longo das vias do Império Romano em intervalos de cerca de 1480 metros (equivalentes a cada milha), com informações sobre os responsáveis pela construção e manutenção da via, muitas vezes dedicadas aos imperadores da época em que foram erigidos e tendo na base ou no final da inscrição a indicação da milha vencida na respectiva via.
2 Cividade (do latim “civitatem”, acusativo singular de “civitas”) muito usado na época romana geralmente associado a um determinativo para designar um aglomerado populacional de maior dimensão e importância do que outros como “castrum”, ”vici”, “castella” e “populi”.
3 O Itinerário de Antonino ou Itinerário Antonino (em latim: "Antonini Itinerarium") é um registo das estações e distâncias ao longo de várias das estradas do Império Romano, contendo direcções sobre como deslocar-se entre povoações, presumivelmente publicado pela primeira vez no início do século III, mas cujo autor está ainda por determinar. Dos 372 caminhos descritos, 34 pertenciam à Península Ibérica.
4 Mansio (do latim), local de estada curta, aquartelamento.

Bibliografia e outros recursos:
FREITAS, Adérito Medeiros, Concelho de Valpaços, CARTA ARQUEOLÓGICA, Julho de 2001, CMV, pp. 400-407.
MARTINS, A. Veloso, Valpaços, Monografia, Lello & Irmão, Porto, 2.ª ed., Dez. 1990, pp. 268-263.
PEDRO SOUTINHO, “Vias Romanas em Portugal, Itinerários de Antonino” e “Blogue das Vias Romanas em Portugal” |  http://viasromanas.planetaclix.pt | http://viasromanas.blog.pt |.
Outros recursos on line.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – VEIGA DE LILA

Por Leonel Salvado



Nota prévia: Os documentos que não dispõe de representação digital, que são a maioria, são aqui apresentados na forma sinóptica e, portanto reproduzidos directamente a partir da fonte. Os restantes são apresentados em transcrições realizadas para o Clube de História de Valpaços e da responsabilidade do respectivo autor da dessas transcrições. O caso presente é o de uma Cristã-Velha, Ana Gomes, natural de VEIGA DE LILA e moradora em Lisboa que na 2.ª metade do século XVII se viu acusada de Bigamia e foi condenada pelo Tribunal do Santo Ofício e cujo processo, com representação digital, pode ser consultado na íntegra na ANTT / Digitarq. Dgarq. Para aceder ao processo completo em versão digitalizada, disponibilizada pela ANTT, clique na imagem que se segue (acesso por vezes condicionado!).

PROCESSO DE ANA GOMES (sinopse)
DATAS DE PRODUÇÃO: 1669-12-02 [?] a 1671-07-24 [?].   

ÂMBITO E CONTEÚDO
Ana Gomes, CRISTÃ-VELHA, com 26 anos de idade, natural do lugar de VEIGA DE LILA, termo de Chaves, moradora em Lisboa, filha de Gaspar Gomes, trabalhador e de Isabel Fernandes, casada com Amaro Gonçalves, trabalhador, acusada de BIGAMIA, foi presa em 17/12/1670.
Sentença: Auto-de-fé de 21/06/1671. Ir ao auto-de-fé com vela acesa na mão, abjuração de leve, açoitada publicamente, degredo para o Brasil, por sete anos, cárcere a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé católica, penitências espirituais, pagamento de custas.
A ré casou segunda vez com Manuel Martins, trabalhador.  
COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Oficio, Inquisição de Lisboa, processo 8864.
COTA ANTIGA: Ano 1671, estante 8, maço 23, n.º 14.

Fonte: http://digitarq.dgarq.gov.pt (publicação autorizada para o Clube de História de Valpaços).

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – SANTA VALHA

Por Leonel Salvado



A – DILIGÊNCIAS DE HABILITAÇÃO

1. DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE MARIANA JOSEFA

RELAÇÃO COM SANTA VALHA: Filha de Natural
DATAS DE PRODUÇÃO:  1715  a 1715

ÂMBITO E CONTEÚDO
Mariana Joseja, pretendente a ama [do Paço], natural e moradora em Lisboa, filha de Bartolomeu Rodrigues, natural de SANTA VALHA, termo da antiga vila de Monforte de Rio Livre, do bispado de Miranda do Douro, e de Maria da Conceição, irlandesa; neta paterna de Mateus Gonçalves e de Catarina Rodrigues, naturais e moradores em Santa Valha.

Casada com Mateus Spadini, natural de Livorno (Itália).

COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Oficio, Conselho Geral, Habilitações de Mullheres, mç. 4, doc. 17.



B – PROCESSOS DA INQUISIÇÃO

1. PROCESSO DE DUARTE CHAVES
DATAS DE PRODUÇÃO: 1704-06-25  a 1705-05-11

ÂMBITO E CONTEÚDO
Duarte Chaves, CRISTÃO-NOVO , com 46 anos de idade, sem ofício, solteiro, natural de SANTA VALHA, termo de Monforte de Rio Livre, bispado de Miranda, morador no mesmo lugar, filho de Luís Chaves, cristão-novo, sapateiro, e de Mécia Álvares, cristã-nova,  acusado de culpas de JUDAÍSMO, foi preso em 19/07/1704.

O réu FALECEU NOS CÁRCERES DA INQUISIÇÃO, em 11/05/1705.

Sentença: Auto-de-fé de 24/07/1706. Seus ossos enterrados em sepultura eclesiástica, oferecer a Deus, por sua alma, sacrifícios e sufrágios da igreja. Foi ordenado que a sentença do mesmo fosse lida em auto-de-fé.

O réu dizia ser judeu, não queria ser nomeado por cristão-novo, porque considerava que só os mouros, depois de baptizados, eram cristãos-novos.

COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, processo 533.


2. PROCESSO DE MARIA CHAVES
DATAS DE PRODUÇÃO: 1679-04-18 a 1682-02-05

ÂMBITO E CONTEÚDO

Maria Chaves, MEIA CRISTÃ-NOVA, com 46 anos de idade, natural de SANTA VALHA, termo Monforte de Rio Livre, bispado de Miranda, moradora no mesmo lugar, filha de Baltasar de Chaves, cristão-velho, e de Branca Dias, cristã-nova, casada com António de Tovar, parte de cristão-novo, mercador, acusada de culpas de JUDAÍSMO, foi presa em 18/04/1679.

Sentença: Auto-de-fé de 18/01/1682. Confisco de bens, abjuração em forma, cárcere e hábito penitencial a arbítrio dos inquisidores, instrução na fé, penitências espirituais.

Por despacho de 05/02/1682, foi-lhe tirado o hábito penitencial, dada licença para ir para qualquer parte do reino, donde não poderia ausentar-se sem licença da Mesa, e foram-lhe impostas penitências espirituais.

COTA ACTUAL: Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, processo 1007.

Fonte: http://digitarq.dgarq.gov.pt (publicação autorizada para o Clube de História de Valpaços).

Breviário histórico do concelho de Valpaços, por freguesias, de A a V – BOUÇOAIS

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Se há uma História Concisa de Portugal, com a propósito de apresentar uma história que não demore muito tempo a ler, mas que dê uma imagem global da evolução histórica do povo português, não será certamente despropositado publicar nesta rubrica, para os valpacenses e para todos os que se interessam pela História de Valpaços, uma descrição do essencial da evolução histórica do concelho, devidamente fundamentada, contudo desprovida das inconclusivas controvérsias que nela se acham e que se revestem de natural interesse para os mais eruditos, mas certamente enfadonhas para os nossos demais leitores a que este o Clube de História de Valpaços também se propõe servir.


OUÇOAIS. Parece não existirem dúvidas de que a localidade de Bouçoais e a área integrada nos limites da sua freguesia sejam de remota ocupação humana. As evidências arqueológicas reveladas nesta mesma freguesia por Adérito Medeiros Freitas na Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços, assim como os Documentos Epigráficos ali achados e estudados por António Rodrigues Colmenero e publicados pela Câmara Municipal de Chaves na revista Aquae Flaviae, anexadas pelo primeiro autor na referida obra, apontam nesse sentido. Trata-se de uma das regiões do concelho de Valpaços com sinais claros e incontestáveis de antigos povoados castrejos que remontarão à época pré-romana – assinalando-se logo a 500 metros da povoação de Bouçoais os vestígios de um castro, bem como os de um outro nas proximidades da povoação anexa de Lampaça e ainda outro, designado por castro das Ermidas, no sítio de Perada ou Serralhão, na margem direita do rio Rabaçal, a Sudeste da cabeça da freguesia, do lado direito da estrada Lampaça-Vinhais –, bem como da passagem e permanência por aí dos romanos - uma ara votiva a Júpiter, datável do século II d.C., com características indigenistas que sugerem uma estrutura gentílica e não territorial; um altar em bloco de granito de epigrafia erodida com provável função original sacrificial e de cronologia indeterminada, recolhidas ambas em Tortomil, outra povoação anexa desta freguesia; uma estela ricamente decorada, de excepcional estado de conservação, com campo epigráfico de texto perfeitamente legível, atribuído também a um grupo étnico particular (gentilitas), datável igualmente do século II que foi achada em Vilartão, aldeia também actualmente anexa à mesma freguesia; um provável marco em granito anepígrafo, ou com legenda safada (provavelmente um marco miliário), ao lado de uma outro similar, a servirem ambos de suporte da varanda da casa de um agricultor em Bouçoais; dois outros monumentos epigráficos descobertos no referido castro de Lampaça, sendo um deles uma lápide funerária assinalando uma defunta sepultada no mesmo castro, com epigrafia suficientemente legível e atribuível à terceira centúria da era cristã. Convém acrescentar que neste mesmo castro de Lampaça ou castro de Nossa Senhora da Ribeira, como preferiu chamar-lhe A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços, refere este autor que se têm “encontrado muitas telhas de rebordo [“tegulae”], moedas romanas, fíbulas, etç.”
Por tudo o que aqui considerámos, parece acertada a observação acerca de Bouçoais respigada da Enciclopédia Portuguesa e Brasileira por Veloso Martins  de que “basta a importante arqueologia pré-romana da localidade para provar que o seu povoamento não e apenas anterior ao século XII

Supõe-se que nos primórdios da nacionalidade já se tivesse erigido em Bouçoais uma igreja que viria a ser paroquial. O topónimo arcaico de Bouçoais surge nas Inquirições de 1251 de D. Afonso III na forma “Bouzoos”, que alterado para Bouços, Bouçoas, Bouçães e Bouçoães ou Bouçoais, comserva-se como diminutivo de Bouça ou Bouças, nome muito frequente em Portugal e na Galiza, onde aparece sob a forma bouza, talvez de origem pré-romana, com o significado de terreno inculto, onde cresce vegetação bravia, portanto terreno por desbravar, sendo que o verbo bouçar ou bouzar significa desbravar (queimar o mato em terreno de lavoura), não sendo raro, segundo estudiosos da toponímia galego-portuguesa, que o topónimo bouça apareça associado a lugares de interesse arqueológico, como é o caso de Bouçoais. Veloso Martins subscreve a sugestão publicada na Enciclopédia Portuguesa e Brasileira de que, existindo na freguesia uma povoação com o nome de Bouças, se terá usado para Bouçoais a forma Bouçoas ou Bouçoães, que é o diminutivo daquele nome, e que aquela povoação terá sido depois «suplantada em importância por Bouçoais em razão de, neste lugar se ter erigido, nos princípios nacionais, uma igreja que veio a ser paroquial».

Ainda no século XII, a igreja de Santa Maria de Bouçoas (Bouçoais) é mencionada nas Inquirições de 1258, do mesmo D. Afonso III, a par da de São Lourenço de Vilartão e da de São Martinho de Fermil, como igrejas filiadas na «parrochia de Santa Maria de Riparia» (paróquia de Santa Maria da Ribeira), na «terra» de Rio Livre, num templo cuja fundação pode anteceder a nacionalidade portuguesa, posto que no mesmo documento se refere que o local (herdamento) onde foi edificado se repartia entre foreiros à coroa e foreiros e fidalgos que, por antigo costume («per usum»), lhe apresentavam o abade. A localização desta igreja paroquial é indeterminada, mas parece afigurar-se a Veloso Martins como mais provável que ela se situaria no seio de uma comunidade instalada no cabeço do castro que atrás mencionámos e que se ergue junto da actual matriz de Bouçoais, a qual, com o tempo, se viu substituída pela que esteve na origem desta no título da matriz de Santa Maria da Ribeira, sobre a primeira e as outras duas, talvez por ser a mais vizinha daquela. A aceitar-se que isso se tenha efectivamente passado, só tem sentido que o tenha sido após o século XIV.   

Entretanto, antes que tal tivesse sucedido, em 1273 era criado o concelho de Monforte de Rio Livre por Carta de foral do mesmo monarca, D. Afonso III, abrindo caminho para o enquadramento judicial e administrativo da antiga «terra de Rio Livre», pelo qual, como se sabe, a referida “Paróquia de Santa Maria da Ribeira”, isto é a mesma primitiva paróquia com suas igrejas filiadas de Bouçoas, Fermil e Vilartão, foi juridicamente integrada no termo e julgado daquela Vila e do mesmo modo se manteve a mesma freguesia de Santa Maria, após ter sido encabeçada pela matriz de Bouçoais e até à extinção do respectivo concelho, em 1853.

No que respeita à organização eclesiástica, a paróquia Bouçoais pertenceu, desde a sua origem e até à primeira metade do século XVI, ao Arcebispado de Braga, como todas as paróquias do Noroeste peninsular, mas com a criação do Bispado de Miranda, em 23 de Março de 1545, passou para esta diocese, juntamente com as restantes paróquias do termo de Monforte de Rio Livre. Um pouco mais tarde, por outro lado, seria integrada na Comarca1 de Torre de Moncorvo.

Uma das mais curiosas particularidades históricas de Bouçoais é a que se prende com a sua remota tradição abacial, de que se faz eco o aludido documento das Inquirições de 1258. É ponto assente, pelo que se extrai de documentos muito posteriores, como por exemplo os do século XVIII, que Bouçoais foi Abadia do Padroado Real no termo da Vila de Monforte de Rio Livre, restando saber se o foi sempre, desde a sua origem. Fosse como fosse, a verdade é que em qualquer momento da sua existência Bouçoais viu-se perante novos donatários em lugar dos tais “filhos-de-algo” que por antigo costume a “Abadavam” (apresentavam o abade), como vagamente deles se diz naquelas Inquirições de D. Afonso III. Os novos donatários da terra de Bouçoais foram os condes de Atouguia, começando em 1448 com o primeiro deste título nobiliárquico criado por D. Afonso V para D. Álvaro Gonçalves de Ataíde, filho de Martim Gonçalves de Ataíde (Alcaide-nor de Chaves) e de D. Mécia Vasques Coutinho (aia dos infantes da “ínclita geração”), e acabando 341 anos depois com D. Jerónimo de Ataíde (11.º, e último, conde de Atouguia) que foi supliciado em Belém, por ser acusado de envolvimento na conjura da tentativa de assassinato de D. José I que deu início ao famigerado “processo dos Távoras”.

Em 1706, o Padre António Carvalho da Costa ainda descrevia a Abadia de Bouçoais, como sendo do termo da Vila de Monforte de Rio Livre e da Província da Comarca de Trás-os-Montes2. Rendia a Abadia mais de 200 000 réis. O lugar de Bouçoais, que era a cabeça dela, tinha 32 vizinhos, uma ermida e 6 fontes de abastecimento de água. Pertenciam à Abadia também os seguintes lugares: Vilartão, com 60 vizinhos, igreja paroquial da apresentação do abade de Bouçoais, uma ermida e 6 fontes; Picões, com 8 vizinhos e 4 fontes; Bouças, com 5 vizinhos, uma ermida e 4 fontes; “Hermidas”, com 20 vizinhos e 2 fontes; “Hermos” e Tortomil, com 20 vizinhos, uma ermida e 6 fontes; “Regalcovo”, com 4 vizinhos e 3 fontes; “Lampaças”, com 9 vizinhos e 8 fontes, portanto, um total de 158 vizinhos. Havia muito, certamente que a igreja de São Martinho de Fermil se subtraíra à antiga paróquia de Santa Maria da Ribeira, ainda que se tenha mantido no julgado de Monforte de Rio Livre3.

Em 1751, o Padre Luís Cardoso, no seu Dicionário Geográfico, já se refere à igreja paroquial de Bouçoais da invocação de Nossa Senhora Ribeira como templo antiquíssimo, de uma só nave, que «se diz ser do tempo dos romanos», situada na Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda, Comarca e Correição da Vila de Torre de Moncorvo, cujo benefício rendia 600 000 a 700 000 réis, com duas igrejas anexas, a de São Lourenço de Vilartão, cujo cura era “in solidum” da apresentação do Abade, e a de Santa Catarina das Aguieiras, cujo cura era de «apresentação alternativa anual» do mesmo Abade de Santa Maria de Bouçoais e do Abade de São Miguel de Fiães. Existiam quatro ermidas na freguesia das quais a capela de Santa Maria Madalena e vinculada a esta uma «Confraria das Almas». Possuía “juiz de vintena” e “homens do acórdão” que eram subordinados «às justiças da Vila de Monforte de Rio Livre», a cujo termo pertencia. A freguesia compunha-se de um total de 115 moradores «todos lavradores que vivem de suas fazendas e do seu trabalho» e compreendiam-na mais oito aldeias ou quintas, «a saber, Tortomil, “Ledoens”, “Lampasia”, “Picoens”, Bouças, Ermidas, Ribeira e “Regalcovo”.» A população de Vilartão não figura neste cômputo por constituir, no secular, freguesia própria.

Em 1758 a realidade político-administrativa, religiosa e material de Bouçoais parece ter mudado pouco o que já o mesmo se não possa dizer da realidade demográfica. Com efeito, nas declarações do respectivo abade António Xavier Fernandes, em resposta ao Inquérito que foi posto a correr pelo Governo pombalino pelas freguesias do Reino redigidas nesse ano e conhecidas por “Memórias Paroquiais”, reafirmava-se o enquadramento jurídico-administrativo descrito pelo Padre Luís Cardoso, avultando-se porém que a Abadia rendia então apenas 300 000 a 400 000 réis, que era donatário da terra o conde de Atouguia, que na capela de Santa Maria Madalena existiam já «duas Irmandades, uma dos moradores muito pobres e outra das Almas», e que a freguesia era governada por “juiz ordinário”. Mais referia o abade de Bouçoais, no mesmo documento, que este lugar tinha 36 fogos e que as quintas ou restantes lugares da freguesia contavam com os seguintes moradores: Lampaça 14, Lodões (comenda do conde de Valadares) 1, Tortomil 19, Real Covo 5, Ribeira 4, Ermidas 1, Bouças 9 e Picões 7, o que totalizava, para a freguesia, 96 fogos. Segundo informação coeva do cura de Vilartão (Memórias Paroquiais, Vilartão…) esta povoação tinha, à mesma data, 58 fogos e 200 pessoas, de longe a mais populosa da Abadia de Bouçoais.  

A maior profusão e clareza documental no século XVIII, permitem-nos fazer uma ideia mais objectiva do quotidiano das populações locais dessa época. Assim, podemos assegurar que a população da povoação de Bouçoais fundada em sítio plano, junto a um cabeço de ocupação antiga, bem como as dos restantes lugares da freguesia que se estendem num vasto planalto de relativa altitude para Ocidente da margem direita do rio Rabaçal, viviam essencialmente da agricultura, retirando da terra para seu sustento, em maior abundância centeio, vinho (que o abade designava de “palheto brandinho”), castanhas e algum trigo e azeite e no Rabaçal se criavam barbos e algumas trutas que também contribuíam para a alimentação dos povos que aí, tal como usavam livremente de suas águas para regar algumas propriedades, também faziam durante todo o ano pescarias livres e nas suas margens funcionavam alguns moinhos, ainda que de «pouca fábrica por serem cheias de penhascos de cantaria» (abade de Bouçoais, 1758). No ribeiro que passa junto a Bouçoais, a Oeste, também os moradores se serviam livremente das suas águas para a rega dos campos e tinham aí «várias moendas de pão» (Padre Luís Cardoso).
Não obstante estes Providenciais recursos, queixava-se o referido abade de Bouçoais da pobreza da terra por ser «cheia de penhascos que não se cultivam» e por se verem os povos da freguesia atormentados pela falta de passagens pelo caudaloso Rabaçal onde «houve uma ponte de pedra que levou o rio, depois se fez uma de pau que teve o mesmo fim» e por virem, assim, as gentes a usar o “salto da Ribeira”, numa passagem por penhascos junto à Quinta do mesmo nome, em que muitas pessoas perderam a vida e em outro “salto” próximo de Picões em que também perigaram muitas pessoas. Por pertencer a passagem da arruinada ponte, desde tempos antigos, à estrada de correio de Chaves para Bragança, o rei D. João V concedera uma provisão para que fosse edificada uma nova ponte noutro sítio. Mas pouco proveito parece que tenham tirado dessa provisão os habitantes da freguesia de Bouçoais, pois o Abade António Xavier Fernandes terminava o seu desabafo afirmando que «não se pôs isto em execução, com tanto detrimento dos vassalos de Sua Majestade».

Na única povoação da actual freguesia de Bouçoais que ainda no século XVIII era freguesia sobre si, mas integrada nesta Abadia do Padroado Real, se fundou a Casa dos Morgados de Vilartão, povoação onde durante várias gerações os seus titulares tiveram o seu solar e a bela capela da invocação de Nossa Senhora da Expectação. Estes monumentos foram recentemente recuperados por um ramo dos herdeiros dos antigos titulares que tem feito neles um extraordinário trabalho de restauração. Desta ilustre família se destacaram António de Sá Pereira do Lago e seu irmão Álvaro de Morais Soares, filhos de Pedro Aires Soares que foi Governador da Praça e Vila de Monforte de Rio Livre e seu termo. Foi aquele António Sá Pereira do Lago, sargento-mor de Cavalaria no Regimento Ligeiro da Província de Trás-os-Montes, quem mandou edificar no lugar de Picões, vinculado ao morgadio, uma capela de singular beleza dedicada a Santo António, acabando por doá-la aos respectivos moradores. Em 1758 era titular desta Casa Álvaro de José Morais Soares Carneiro. O morgadio foi assegurado pelas gerações seguintes, com algumas dificuldades de permeio ditadas pela morte trágica e prematura dos legítimos sucessores e da impossibilidade de sucessão directa, terminando em João Baptista Frias Soares, que em 1812 sucede em lugar dos falecidos irmãos no título de 7.º Morgado de Vilartão, e último, visto que os morgadios foram extintos em Portugal por Cata de lei de 19 de Maio de 1863, no reinado de D. Luís I.

Em 1868, segundo o cômputo publicado pelo Padre Carvalho da Costa na segunda edição da sua “Corografia”, a freguesia de Bouçoais contava já com 188 fogos. A evolução populacional desta freguesia foi em crescendo até aos meados do século passado, com uma ligeira regressão nas suas duas primeiras décadas.

A freguesia de Bouçoais manteve-se no concelho de Monforte de Rio Livre até à extinção deste por Decreto de 31 de Dezembro de 1853, passando ao concelho Valpaços, que havia sido criado por Decreto de 6 de Novembro de 1836, e à comarca igualmente de Valpaços que este segundo Decreto também instituiu. A paróquia de Vilartão foi extinta e integrada na freguesia de Bouçoais, juntando-se aos lugares de Bouças, Ermidas, Lampaça, Picões, Tortomil e Real Covo que o conformam.
A paróquia de Santa Maria de Bouçoais pertence ao arciprestado de Valpaços e à diocese de Vila Real, desde 22 de Abril de 1922, conservado o orago de Nossa Senhora da Ribeira.


Notas:

1 Convém observar que desde a época romano-gótica, o termo Comarca servia para designar divisões conformadas por freguesias ou paróquias e, portanto, geralmente em conformidade ou reduzidas às divisões eclesiásticas estabelecidas na Península Ibérica. Mais tarde e até ao século XVII, o termo aplica-se já a grandes divisões militares e administrativas, mas em muitos casos ainda, em correspondência com as divisões eclesiásticas. Só com a reforma administrativa liberal de 1835 o nome passa a ser utilizado para designar as divisões judiciais básicas e só desde então é que as comarcas são integradas nos concelhos.

2 Na descrição é sintomático o sentido sinonímico e transitório dos termos, pois na verdade as comarcas entendidas no século XVII na acepção referida na nota anterior, passam a designar-se por Províncias e o nome comarca, em desuso nessa acepção, transita para as subdivisões administrativas mas ainda, em certa medida, relacionadas com as divisões eclesiásticas. 

3 Que Fermil se matinha no julgado de Monforte de Rio Livre ainda pelo início do século XVI se corrobora por uma notificação mandada pelo rei D. Manuel aos juízes, concelho e homens-bons, dessa Vila, relativo ao provimento no ofício de procurador nesse julgado e dirigido a um Pedro Anes, Tabelião, que ali era morador com a referência expressa de “nesse julgado” (Chancelaria de D. Manuel I, liv. 23, fl. 11).

Fontes:
CAPELA, José Viriato et alii, Portugal nas Memórias Paroquiais de 1758, Braga, 2006.
CARDOSO, Luís, Dicionário Geográfico, 1751, Vol II, pp. 238-239.
COSTA, António Carvalho da, Corografia Portuguesa e descripçam topográfica do famoso reyno de Portugal... (1706-1712), Livro Segundo,Tomo I, cap. III, pp. 432-433.

FREITAS, Adérito Medeiros, Concelho de Valpaços, CARTA ARQUEOLÓGICA, Julho de 2001, CMV, pp. 110-184.
MARTINS, A. Veloso, Valpaços, Monografia, Lello & Irmão, Porto, 2.ª ed., Dez. 1990, pp. 173-178.
MEMÓRIAS PAROQUIAIS DE 1758,  Bouçoais, Monforte de Rio Livre, Vol. 7 n.º 51, pp. 1075 a 1078, ANTT |http://ttonline.dgarq.gov.pt.
Id,  Vilartão, Monforte de Rio Livre, Vol. , n.º 308, pp. 1869 a 1872, ANTT |http://ttonline.dgarq.gov.pt.
REGISTOS PAROQUIAIS, Valpaços, Paróquia de Bouçoais, ANTT | Id.