sexta-feira, 16 de março de 2012

Memórias do Rio Calvo

Por Leonel Salvado
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O rio Calvo, afluente do Rio Rabaçal, ainda é uma das referências do património natural do concelho de Valpaços que em vários locais do seu quadrante setentrional proporciona aos visitantes boas oportunidades para desfrutarem de ambientes de frescura e paz de extraordinária beleza paisagística que fazem a maravilha dos espectadores especialmente dos mais nostálgicos. Tem admiravelmente merecido o maior apego e carinho da parte dos moradores (de várias gerações!) das localidades que lhe estão próximas.
Mas para além da beleza natural que ainda nos oferece, o rio Calvo foi acima de tudo, durante séculos e até um passado relativamente recente, uma fonte essencial de recursos para a sobrevivência de algumas comunidades localizadas nesse espaço. Das suas águas se serviam os povos, na maior parte dos casos livremente, para “limarem prados e Linhares”, regarem terrenos de cultivo, darem de beber ao gado, fazerem funcionar moinhos e azenhas e obterem variáveis castas de peixes. Na maior parte das suas margens abundava uma grande variedade de vegetação silvestre e árvores de grande porte e noutras partes se viam cultivar as terras de vinhas, castanheiros e outras árvores de fruto.


O Rio Calvo visto por uma lebuçanense dedicada às coisas do Património

«Chama-se Calvo e corre em leito apertado, aconchegante, junto dos moínhos do Pimentel, como são conhecidos.
Há uma manta verde, muito verde, que cobre a área envolvente, salpicada de outros tons, agora que é Primavera.
O rio canta melodias, batendo nas pedras que descansam no leito e, muitas vezes, adormece à sombra dos amieiros que lhe bordam as margens.
Já foi pão que matou a fome do povo, quando as suas águas faziam mover as mós dos moínhos que labutavam dia e noite, numa azáfama que não tinha fim.
Hoje, os moinhos estão desmantelados pelo tempo e pela incúria do homem, mas há memórias, doces memórias, que jamais se desvanecerão.»

Graça Gomes, “Sei De Um Rio”,  in Lebução de Valpaços
 

O rio Calvo, segundo Adérito Medeiros Freitas

«O rio Calvo nasce nas proximidades de Dadim, concelho de Chaves, como nome de Ribº de Lamigueiras. Tem como afluente, na margem direita, a Ribeira do Porto de Veiga. Depois da Ponte da Pulga (E.N. 103), adquire a designação de Ribeiro da Pulga; esta ponte foi destruída por uma violenta trovoada que ocorreu no dia 17 de Junho do ano de 1939. Nas proximidades da aldeia e freguesia de Nozelos é chamado Ribº de Nozelos e, a partir das proximidades de Tinhela recebe a designação de Rio Calvo. Em resumo, o Rio Calvo passa nas proximidades das aldeias de Pedome e Nozelos, e por Tinhela, Agordela, Calvo e Vale de Casas indo, finalmente, desaguar na margem direita do Rio Rabaçal, depois de ter passado pela Ponte Romana do Arquinho. […] Existiram, ao longo deste curso de água, 44 moinhos hidráulicos (43 moinhos de rodízio e 1 azenha).»

In Moinhos (Moinhos de rodízio e azenhas), Concelho de Valpaços, Vol. I, CMV,2009, p. 156

Se recuarmos aos meados do século XVIII encontramos em alguns documentos, entre outras informações, indicações acerca desta realidade, nem sempre muito claras e condizentes mas suficientemente conformes com ela.

O Rio Calvo nas Memórias Paroquiais de 1758

LEBUÇÃO - A crer no pároco memorialista desta freguesia, no século XVIII o rio Calvo tinha origem na conjunção das águas de duas nascentes distintas, ambas localizadas dentro dos limites da freguesia (abadia) de Cimo de Vila de Castanheira (actualmente do concelho de Chaves), a primeira no sítio do Pereiro (que entretanto terá secado) e a segunda junto à aldeia de Dadim, a que actualmente se tem por única nascente. O seu percurso pelas terras do actual concelho de Valpaços era já descrito pelo mesmo pároco de Lebução, grosso modo em conformidade com a descrição de Medeiros Freitas, ao mesmo tempo que destacava a grande quantidade de moinhos nele em actividade, desta forma:

«Pela parte do Poente e margens das terras de Tronco corre um regato que neste lugar se lhe pode chamar rio, o qual nasce num sítio chamado Pereiro que é termo de Cima de Vila de Castanheira e este se junta com as águas do lugar de Dadim aonde chamam Valados, as quais juntas e incorporadas umas nas outras fenecem o regatinho que por diminuição não tem nome distinto e vai formando um ribeiro com elas que se chama ribeiro da Pulga no qual há infinitos moinhos. E tem o tal regato uma légua de comprimento, de onde nasce, que é na parte do Norte, até quando chega ao lugar de Pedome, anexa desta freguesia e ali tem uma ponte de pedra e de pau, onde se passa para o lugar de Tronco.
E logo mais abaixo tem outra ponte que é somente de pedra e que fica na estrada Real que vai de Chaves para Bragança. Este ribeiro vai dilatando seu curso, que é presente em todo o ano, por uma veiga abaixo que é termo de Nozelos e Tinhela a cujos lugares corre vizinho. Porém, ao de Tinhela se avizinha mais aonde tem uma ponte melhor do que as outras de que acima falámos, pela qual entram e saem os que vão e vêm da parte do Sul para cujo lado fica a dita ponte a respeito do tal lugar.

O Padre [cura] António Fernandes d’Além»

ANTT - Memórias paroquiais, vol. 20, n.º 71, p. 527 a 540


NOZELOS - O Pároco de Nozelos, pela mesma data, também assinala o “sítio do Pereiro” como a nascente do Rio Calvo,(“o que corre pela parte do Nascente”). Como se vê pelo excerto que se segue, dá-o pelo nome de “ribeiro de Pedome” e descreve as suas principais virtudes, a montante de Nozelos, e defeitos, sobretudo a jusante da mesma freguesia.

 «Nesta terra não há rio. Nesta terra há dois ribeiros, os quais correm girando este lugar, um pela parte do Nascente e outro pela do Norte, e ambos se juntam no termo deste lugar no sítio chamado as Olgas e o que corre pela parte do Nascente tem o seu nascente daqui na distância de uma légua, no sítio chamado de Pereiro, termo de Cimo de Vila de Castanheira, freguesia de São João Baptista, e corre por terra infrutífera, porém os moradores de Cimo de Vila lhe divertem as águas para limarem os prados e Linhares com ela e o mesmo fazem os moradores da quinta de Pedome, que corre distante dela dois tiros de pedra, e entrando neste termo tem o mesmo efeito de limar os prados e linhares deste termo até onde se junta com o que corre pela parte do Norte para o Sul e, juntamente, nele há duas casas de moinhos, cada uma com duas rodas, para centeio e trigo, que moem ordinariamente desde o mês de Dezembro até ao de Maio e nele há umas castas de peixes que nesta terra se chamam escalos, os quais se extinguiram pela grande seca, porque no estio é preciso buscar algum poço mais fundo para nele beberem os gados e, assim, não cria senão escalos, rãs e cágados. Este tem o nome de ribeiro de Pedome porque passa somente na quinta chamada Pedome e tem um pontão de três traves de pau cobertas com pedras. E o que passa pela parte do Norte que nasce no sítio chamado da serra das cortiças, do termo de Bobadela, daqui distante meia légua, é mais pequeno, porém com mais substância e é mais saturável no Verão e tem o mesmo efeito de limar prados e Linhares deste termo e tem quatro casas de moinhos e as mesmas castas de pesca e, tanto que se juntam ambos não têm utilidade alguma neste termo porque correm pelo melhor sítio de terras de centeio e nelas fazem algum dano e daqui três léguas se metem no rio chamado Rabaçal.

O Padre Caetano de Sá Pereira, Confirmado do lugar de Nozelos»

ANTT - Memórias paroquiais, vol. 25, n.º (N) 42, p. 293 a 302


POSSACOS – O pároco desta freguesia que designa o Rio Calvo por “Ribeira de Vale de Casas”, também realça a grande quantidade de moinhos nele existentes:
 
«Passa por esta terra uma ribeira que vem de Vale de Casas. Esta corre com bastante curso por todo este termo e tem moinhos bastantes de centeio. E tem esta um arco de pedra por onde se passa para o Bispado de Miranda e é de pedra lavrada e, dizem, tinha este dois padrões feitos à romana; um foi para Vale de Telhas e outro, dizem, veio para este lugar. Esta ribeira se mete logo dentro deste termo em um rio chamado rio Rabaçal que traz seu nascimento do Reino de Galiza e corre por este termo pela estremadura do Bispado de Miranda.
O Pároco, vigário, Padre Baltazar Fernandes de Figueiredo»

ANTT - Memórias paroquiais, vol. 30, n.º 236, p. 1813 a 1816


SANTA VALHA – Por fim, o Abade de Santa Valha ainda que aparentemente equivocado quanto à nascente do rio Calvo é o único dos quatro párocos-memorialistas que o designa por este nome, a jusante de Tinhela, fazendo uma descrição suficientemente detalhada dos seus recursos e do seu percurso.

«Neste lugar de Santa Valha somente há quatro ribeiras, uma chamada o rio Calvo que nasce no lugar de [Lomba?] e suas montanhas. Nasce brando e pequeno e corre todo o ano. Entra nele uma ribeira de Alvarelhos por baixo do lugar de Tinhela, duas léguas distante da nascente. Não é rio de barcas nem capaz para isso. É de curso arrebatado em toda a sua distância. Corre de Norte para o Meio-dia. Cria muitos peixes chamados escalos. Nas margens se cultivam muitas delas de vinhas, terras, prados e tem muitas árvores de fruto, como são castanheiros, e silvestres, como são amieiros, salgueiros, carvalhos, medronheiros e outras muitas castas de árvores silvestres. Conserva sempre o nome de rio do Calvo. Morre no rio chamado o Rabaçal, rio caudaloso, no sítio do Cachão. Tem uma cachoeira no sítio de Cachão e por essa causa não sobem os peixes chamados barbos e bogas por ele acima. Tem três pontes de pau, uma chama-se a ponte de Tinhela que está no mesmo lugar de Tinhela, outra chama-se a ponte de Agordela, na quinta de Agordela, e outra na quinta do Calvo e chama-se a ponte do Calvo. Tem perto dele infinito número de moinhos, regueiros e [olmeiros?]. Usam os povos de suas águas livremente para as culturas.
Tem o rio seis léguas desde a nascente até aonde acaba e passa por seis povos: O primeiro é Tinhela, o segundo é Agordela, o 3.º é o Calvo, o 4.º é Vale de Casas, o 5.º é Poçacos e o 6.º é o Cachão.

O Abade, Padre Domingos Gonçalves»

ANTT - Memórias paroquiais, vol. 34, n.º 67, p. 601 a 606

terça-feira, 13 de março de 2012

187.º Aniversário do nascimento de Camilo Castelo Branco


Nascido em Lisboa a 16 de Março de 1825, Camilo Ferreira Botelho Castelo Branco, invocado como um dos ícones da literatura ultra-romântica portuguesa, foi essencialmente um romancista cuja vida irrequieta e tumultuosa, desde a infância e a adolescência, lhe serviu de inspiração para a criação de algumas das suas novelas mais populares. Usando da escrita como único meio de sobrevivência e de sustento da família, dedicou-se a ela de forma alucinante, deixando uma imensa obra, fazendo-se notar também como talentoso cronista, crítico, dramaturgo, historiador, poeta e tradutor. Acometido pela doença e pela cegueira viveu os seus últimos anos mergulhado em progressiva angústia e melancolia. A 1 de Junho de 1890 sucumbia, por fim, ao estado de desespero em que se achava, suicidando-se aos 65 anos de idade na sua casa de S. Miguel de Seide, Vila Nova de Famalicão.
(2011)

domingo, 11 de março de 2012

38.º insólito Aniversário do final da Segunda Guerra Mundial


Trata-se de uma curiosidade da História Universal verdadeiramente insólita. Para o 2.º Tenente do exército imperial japonês, Hiroo Onoda, a 2ª Guerra Mundial só terminou em 10 de Março de 1974, isto é 29 anos após a rendição incondicional do Japão aos Aliados. O caso não é inédito (oxalá os valores que ele representa nunca fossem necessários para o bem-estar da Humanidade), mas é um dos mais admiráveis exemplos da coragem, perseverança e lealdade patriótica a toda a prova que se conhece.

(2011)

sábado, 10 de março de 2012

202.º Aniversário do nascimento de Júlio do Carvalhal

Por Leonel Salvado
actualização: Agosto 2012

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Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses, como consta nos documentos oficiais, ou Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, como surge nos documentos familiares, ou simplesmente Júlio do Carvalhal, como é hoje vulgarmente conhecido, foi um notável militar (oficial do exército) e político (Governador do Distrito de Bragança, Deputado às cortes pelo círculo de Valpaços e presidente da desta Autarquia).  

Biografia
Nasceu em 05.03.1810 no lugar de Alanhosa, freguesia de  S. Miguel de Nogueira, concelho de Chaves, e faleceu na sua casa de Vilar de Nantes, Chaves, no mesmo concelho de Chaves de 9.06.1872.
Fez-se notar como militar arrojado, e é recordado como um dos «bravos do Mindelo». Efectivamente, em Março de 1829, participou na defesa da ilha Terceira, onde se conservou até Julho de 1831. Em 8.07.1832, participou no desembarque das tropas liberais no Pampelido, Mindelo, e acompanhou o duque da Terceira pelas províncias do Norte até Evoramonte. Durante este tempo participou em dezoito combates e batalhas, em muitas delas com um contributo decisivo. Pela sua bravura na Batalha de Ponte Ferreira em 29.09.1832, por exemplo, foi agraciado com o título de “Cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Espada do Valor Lealdade e Mérito” além de outros louvores recebidos enquanto oficial do Exército. Por ofício de 12.09.1836, foi nomeado Chefe do Estado-Maior do Governo Militar da Província de Trás-os-Montes e exerceu também as funções de Governador do forte de São Neutel, em Chaves.

Dotado de uma personalidade e temperamento condicionados por firmes convicções liberais, Júlio do Carvalhal deu, por várias vezes, provas de incontida rebeldia, tendo-se colocado na mesma linha do inconformismo liberal de José Estêvão contra os sucessivos ministérios cartistas da ala moderada. Foram as suas próprias convicções que o moveram, a pedido daquele, arregimentar entre as massas populares da região de Valpaços as forças necessárias à planeada rebelião do setembrismo radical, que acabou por abortar em 1844 mas constituiu um prelúdio dos igualmente malogrados movimentos da «Maria da Fonte» e da «Patuleia». Passamos a transcrever um excerto historiográfico onde se alude ao destemido acto de Júlio do Carvalhal:

«Depois desta tentativa [a conspiração de Moncorvo] em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estevão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estevão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estevão, recebeu-se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estevão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstâncias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir às necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.»

fonte : http://www.arqnet.pt/dicionario/estevaojose.html

Mas nem por tal malogro se viu deslustrado o papel histórico protagonizado por Júlio do Carvalhal, que tem sido, acima de tudo, recordado como um Homem dedicado ao desenvolvimento do distrito de Bragança, à terra que o viu nascer e ao concelho de Valpaços, um Homem que se mostrou muito mais preocupado em servir a sua terra do que em satisfazer os caprichos políticos dos timoneiros do poder central instituído.
Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Bragança, entre 21.05. 1846 a 8.10.1846 e entre 23.06.1856 e 13.07.1857, tendo-lhe cabido em Junho e Julho do seu primeiro mandato combater as guerrilhas miguelistas que assolavam o distrito. Em 1860 foi eleito deputado pelo círculo de Valpaços e reeleito sucessivamente nas legislaturas de 1861-1864, 1865, 1865-1868, 1870 e 1870-1871 destacando-se no exercício desta função como um dos grandes defensores da construção da linha de Caminhos-de-ferro entre o Porto e a Régua, sendo-lhe reconhecido o mérito de ter sido o primeiro deputado a dedicar-se à questão do Caminho-de-Ferro do Douro. Também lhe é inteiramente devida a nossa homenagem por ter sido ele quem, enquanto Presidente da Câmara de Valpaços, conseguiu obter de D. Pedro V, após insistentes pedidos, a elevação da entretanto engrandecida sede municipal, Valpaços, à categoria de vila, estabelecida por Decreto de 27.3.1861.
Chegou a ser-lhe conferido, por Decreto de Agosto de 1864 o grau de Comendador da Ordem da Conceição.

Genealogia
Pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as Ilhas Canárias ao arquipélago da Madeira e ao Norte de Portugal, sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família que exerceu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, nas guerras liberais e noutros sucessos que se seguiram.
Júlio do Carvalhal foi legítimo herdeiro da administração da “Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios”, em Veiga de Lila, onde hoje se pode visitar o respectivo Solar e a capela que era daquela invocação e mais tarde passou à de Santo António.

Graças ao estudo publicado por Ana Luísa no seu blogue Árvore de geração da Família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência, por Fernando Eugénio do Carvalhal de Sousa Teles (ver link em rodapé), não subsistem dúvidas de que Júlio do Carvalhal pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as ilhas Canárias, ao arquipélago da Madeira, ao Norte de Portugal e sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família cujos pergaminhos atestam o seu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, e até, iremos referir a propósito da bravura revelada pelo próprio Júlio do Carvalhal, nas guerras liberais e noutras que se lhes seguiram.

Devido ao mesmo estudo, é possível remontar a ascendência de Júlio do Carvalhal a, pelo menos, dez gerações. Neste sentido está documentado que ela radica em João de Betencourt, um Ilustre Cavaleiro e General francês que em 1417 governou as ilhas Canárias e dois anos depois passou às ilhas Terceira e Madeira, obteve de D. João I inúmeras doações e se estabeleceu, casando com D. Maria de Carvalhal e Silveira. Desse enlace resultou o nascimento de Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira, nono avô de Júlio do Carvalhal, que foi feito Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade e Comendador da Ordem de Cristo e se casou na ilha da Madeira com D. Angélica da Câmara Durman. Este casal teve um filho a quem deu o nome de Manuel de Betencourt Carvalhal e Silveira de Durman. Este oitavo avô de Júlio do Carvalhal, Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade, foi Governador da Cidade de Angra do Heroísmo da mesma ilha e casou com D. Angélica de Noronha e Canto de quem teve dois filhos, tendo sido primogénito João do Carvalhal de Silveira de Noronha Betencourt (o sétimo avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Mestre de Campo do Terço da cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que casou com D. Isabel da Camara Albuquerque Borges, deles nascendo um filho, cerca de 1609, Estêvão da Silveira Carvalhal Borges Betencourt, Fidalgo Cavaleiro de Sua Majestade que foi Governador e Capitão General do arquipélago da Madeira, foi morto pelos espanhóis, no tempo dos Filipes, por recusar entregar-lhes as Ilhas, que ele defendeu por largo tempo, havendo até aí cunhado moeda. Foi o sexto avô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Margarida de Lemos, nascendo desse casamento dois filhos, o primeiro dos quais foi Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt (quinto avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real de quem se diz ter sido o principal responsável pela defesa e Restauração das ilhas depois da Aclamação de D. João IV, pelo que foi nomeado Comandante das mesmas,  a seguir Comandante de Mar e Guerra e logo depois Almirante da Armada e Ouvidor Geral de Moçambique. Do seu casamento com D. Maria da Camara houve dois filhos, o primeiro dos quais, João do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt Fidalgo e Cavaleiro foi tetravô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Maria de Noronha Corte Real nascendo deles três filhos, tendo sido um deles o trisavô de Júlio do Carvalhal, Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real que foi Governador de S. Neutel, em Chaves, depois de ter casado em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora. Foi, como se depreende de uma nota publicada no blogue a que fizemos inicialmente referência, por esta altura e através deste casamento que esta altura que esta ilustre família se estabeleceu na região de Trás-os-Montes e para a qual passou a Casa e Vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila e dela foi detentora ininterruptamente por sucessão varonil até à morte de Júlio do Carvalhal. O casal teve sete filhos, o terceiro dos quais, e primeiro varão, foi o bisavô de Júlio do Carvalhal, Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, Fidalgo da Casa Real que casou com D. Clara Costa Pereira e tiveram dois filhos sendo o primogénito e varão, avô de Júlio do Carvalhal, Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, nascido em Chaves a 14 de Dezembro de 1751 que do seu terceiro casamento, com D. Isabel Maria Bernarda Teixeira Osório de Queiroga, que era natural de Argeriz e filha do Dr. Inácio Gomes Osório de Queiroga (bacharel formado, em1731, em Cânones) e de D. Joana Maria Teixeira, resultou o nascimento de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, em Argeriz, Chaves, em 1783, herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, vereador da Camara Municipal de Chaves nos anos de 1819, 1824 e 1827.

Júlio do Carvalhal, aliás Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, foi o terceiro dos 5 filhos daquele Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt e de D. Rosália Vicência de Meneses Frias e o herdeiro do vínculo de N.ª dos Remédios, em Veiga de Lila, por morte de seu irmão Alexandre durante as lutas liberais no cerco do Porto ou no Algarve (as fontes divergem). Casou duas vezes: primeiro com D. Maria da Piedade Ferreira Sarmento de Lacerda e, após a morte desta, com a cunhada D. Maria das Dores Sarmento Pimentel de Lacerda. Deste segundo casamento não houve filhos. Do primeiro houve vários, sendo o mais novo, César do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Betencourt, o único varão, mas não deixou descendência. D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel, senhora de aprimorada cultura, escritora e poetisa foi, como primogénita de Júlio de Carvalhal, herdeira da Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila. Casou com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, o conhecido “morgado de Rio Torto, mas os dois filhos resultantes do casamento morreram de tenra idade pelo que a continuidade, por linha varonil, deste ramo da numerosa família dos Carvalhais detentora de casas e haveres nas povoações de Nantes, Argeriz e Veiga de Lila, teve de ser assegurada pela descendência de outros membros, desde logo por António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, irmão mais novo de Júlio do Carvalhal. Júlio do Carvalhal faleceu na sua casa de Vilar de Nantes (Chaves) no dia 8 de Junho de 1876.
Terminamos esta resenha genealógica centrada em Júlio do Carvalhal com uma citação do(s) autor(es) da pesquisa que para ela nos serviu de base - que julgamos ser(em) descendente(s) desta família - a respeito de D. Efigénia do Carvalhal e do destino do património deste ramo da família em Veiga de Lila. 

«D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel como filha primogénita de Júlio do Carvalhal, foi herdeira de casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila.
Viúva e sem filhos, D. Efigénia do Carvalhal, acautelou, atempadamente e no seu pleno juízo, assegurar a continuidade na família do referido vínculo. Assim, fez escritura de doação, com reserva de usufruto, em favor da sua sobrinha Umbelinha do Carvalhal, casada com seu primo Eugénio Evangelista do Carvalhal, de todos os seus bens.
Faleceu com 94 anos, tinha eu 12 anos, ainda tenho presente a sua lucidez e recordo, com saudade, o carinho com que nos recebia no seu solar. Da mesma maneira e com fidalguia, suas ilustres visitas eram sentadas na mesa de refeições, ouvindo-a e conversando, quase sempre em matéria de carácter cultural.
Hoje, infelizmente, quer o solar, quer os prédios rústicos, encontram-se parcelados, por vezes, em mão de estranhos à família.»

In http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/


Bibliografia e outros recursos

ALVES, Francisco Manuel, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931; Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928);
Árvore da geração da família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência |in http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Porto, 1978.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Memórias do Rabaçal

Por Leonel Salvado

A foto em grande plano é da autoria do Dr. Manuel Carvalho de Sousa, gentilmente 
cedida ao Dr. Medeiros Freitas e publicada em Moinhos, concelho de Valpaços.

O rio Rabaçal forma com o Tuela o Rio Tua. É um rio que nasce na Galiza e atravessava o território português no concelho de Vinhais a partir de onde o seu principal afluente, o Rio Mente, forma no Nordeste Transmontano uma parte da fronteira entre Portugal e Espanha. No território nacional este seu afluente, que também nasce na Galiza, serve para limitar os concelhos de Chaves e Valpaços no distrito de Vila Real, e de Valpaços e Mirandela no distrito de Bragança. Tal como o Tuela, o Rabaçal é um rio com importantes atractivos tais como uma praia fluvial com parque de campismo e alguns pontos de interesse histórico como pontes romanas e ruínas de seculares moinhos e açudes.

Ora, porque lamentavelmente não tem chovido e a água sempre foi um elemento essencial à vida, recordemos, tomando como exemplo o caso de Barreiros, a atenção que outrora era dada às fontes de abastecimento de água e aos providenciais recursos oferecidos pelo rio Rabaçal, bem como a laboriosa forma com que noutros tempos, e até um passado relativamente recente, esses recursos vitais eram explorados para garantir a imediata sobrevivência dos povos. Para além dos frutos da terra, uma substancial quota-parte de bens com que estas comunidades proviam ao sustento da suas famílias e à renda devida à paróquia dependiam dos recursos hídricos do meio natural, isto é os dos rios e suas margens.
Em 1758, naquela pequena freguesia do actual concelho de Valpaços, situada na margem direita do Rio Rabaçal,”o respectivo pároco, Padre-cura Baltazar Rodrigues da Rosa, da apresentação da Abadia de São Miguel de Fiães, deixava-nos nas “Memórias Paroquiais” as seguintes notas sobre a terra e os rios do seu “distrito”:

«É este povo da Província de Trás-os-Montes, Bispado de Miranda do Douro, Comarca de Torre de Moncorvo, termo da vila de Monforte de Rio Livre, Freguesia de S. Vicente.»[…]
«Os frutos que aqui se recolhem com maior abundância são centeio, milho, feijões, castanhas, azeite e vinho.»[…]
«Tem dentro do povo uma fonte que lança água com muita abundância, quente de Inverno e fria no Verão, com cujas qualidades se diz médica por não haver aqui pestes contagiosas, como nunca se recordam.»[…]
Entre o termo deste lugar e o das Aguieiras, passa o rio que aqui tem o nome de Rabaçal que é composto de três rios que se juntam por baixo da ponte de Vale de Armeiro que serão, daqui lá, três léguas. Um se chama rio do mesmo Vale de Armeiro, que tem seu princípio em Laxe Castro, lugar da raia entre a Galiza e Portugal; outro se chama o rio Mente que tem seu princípio em Castromil, lugar da raia entre Castela e Galiza e é principalmente na ponte do mesmo povo que se lança abundantemente. Outro se chama o rio Mousse que tem seu princípio no termo litoral do reino de Galiza. Estes rios perdem o nome em sozinhos e ficam-se chamando o rio de Rabaçal, que lhe dura até os Eixes, em cujo termo se junta em outro da mesma grandeza e se vai meter no Douro, em Foz Tua. Tem, pouco mais ou menos, de onde tem o princípio até que se mete no Douro, dezasseis léguas.
Não entra neste rio embarcação alguma por ser demasiadamente arrebatado em tempo de Inverno e passar por terra muito agreste e despenhada.
Cria muitos barbos, bogas e escalos antes de se juntarem os três rios. Se ponderado também se criam trutas em todos eles. No tempo do Estio se pesca nele com redes [varredouras?], e o resto do mais ano com chumbeiras, o que se faz livremente por não ter senhor particular que o impeça.
As margens deste distrito são infrutíferas, quase todas, por não terem terra que dê frutos e só no sítio da ponte da Corriça e no do Rabaçal dão azeite, milho, feijões e centeio, de tudo pouco, como também em outros sítios do Armeiro e aí nesses sítios há algumas oliveiras. Em todo o mais, não há nada e as árvores são silvestres.
Neste termo não tem pontes algumas, antes muita necessidade delas que, como tem poucas entradas por ele por causa de não se poder abrir caminho, [se passa a gente o rio, porém] por lhe ficar dificultoso atravessar ao não buscá-lo para as pontes que ficam longe e assim se tem afogado muita gente em barcas e muitas nas passagens de pedra.
Tem este Rio moinhos chamados parcelas que não impedem embarcações por não poderem subir por ele».[…]

In ANTT, Memórias Paroquiais 1758, Barreiras [Barreiros], Monforte de Rio Livre vol. 6.º, n.º 44a, p. 331 a 334

512.º Aniversário da partida da Armada de Pedro Álvares Cabral

Ao meio dia de 9 de Março de 1500 partiu de Lisboa a frota confiada ao comando de Pedro Álvares Cabral, um fidalgo da Beira então com 32 ou 33 anos, cujo destino era alcançar à Índia seguindo a rota recém-inaugurada por Vasco da Gama, contornando a África, mas que pelo caminho, a 22 de Abril, por razões ainda discutíveis, haveria de desembarcar numa suposta “grande ilha”, que era afinal um ponto da costa do América do Sul, no nordeste do futuro território brasileiro, a que Cabral apelidou de “Monte Pascoal”, ficando para sempre o nome deste comandante ligado à (re)descoberta do Brasil.
Para mais informações a respeito deste evento, divulgadas no presente blog por ocasião do seu 511.º Aniversário, clique sobre a imagem. 

quinta-feira, 8 de março de 2012

Dia Internacional da mulher- 2012

Comemora-se hoje, 8 Março, o Dia Internacional da Mulher. Trata-se de uma data comemorativa a que temos vindo dado a devida atenção em edições anteriores. Para aceder a essas edições clique sobre a imagem, ao lado

terça-feira, 6 de março de 2012

537.º Aniversário do nascimento de Miguel Ângelo

Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni, nascido em Caprese, a 6 de Março de 1475 e falecido em Roma a 18 de Fevereiro de 1564, tratado pelos portugueses por Miguel Ângelo e pelos brasileiros por Michelangelo, é considerado um dos maiores criadores da História da Arte do Ocidente. Além de pintor e escultor de renome, foi também um admirável arquitecto e poeta. Um dos mais completos trabalhos sobre a sua vida e a sua obra jamais realizados em formato digital é, em nossa opinião, o que se encontra publicado na Wikipédia, enciclopédia livre universal, para o qual remetemos os nossos leitores.
Para aceder ao artigo clique sobre a imagem ao lado.

domingo, 4 de março de 2012

618.º Aniversário do nascimento do Infante D. Henrique

O Infante D. Henrique, um dos virtuosos príncipes da “Ínclita Geração” e símbolo da glória nacional dos Descobrimentos, nasceu no Porto no dia 4 de Março de 1394 e veio a falecer na Vila de Sagres no dia 13 de Novembro de 1460.

(2011)

sábado, 3 de março de 2012

As serras e as lendas - a lenda de São Leonardo e Santa Comba dos Vales

Por Leonel Salvado


São numerosas as serras a que, em Portugal como em outras partes do mundo, estão ligadas variadas lendas, umas mais antigas do que outras, umas preservadas e transmitidas por via erudita, outras simplesmente mantidas no imaginário colectivo por via da tradição oral. Talvez seja de concluir serem raras as serras que em Portugal que não tenham a sua própria lenda.
Algumas delas, posto que nada tenham a ver com o sobrenatural mas apareçam relacionadas com determinados corpos celestes, como são os casos da lenda da Serra da Estrela e da Serra de Sintra (a lua), talvez possam radicar-se nos ancestrais cultos pagãos associados às forças da natureza e aos fenómenos astrais.

Outras conhecidas lendas, mais numerosas, onde inevitavelmente a realidade e a fantasia se misturam, traduzem histórias que envolvem figuras reais ou imaginárias (santos ou heróis populares, aventuras e desventuras amorosas…). Entre a grande maioria destas, que contêm vagas referências de enquadramento histórico, avultam as que se reportam a histórias passadas na época de dominação árabe ou de alguma forma ligadas a este povo. Trata-se de um denominador comum e peculiar do imaginário colectivo da Península Ibérica de que são particularmente sintomáticas inúmeras lendas portuguesas e que se explica pela memória que os povos ainda guardam da última grande invasão e subsequente difícil convivência de mais de cinco séculos entre cristãos e muçulmanos. A ainda hoje ressentida presença histórica do “elemento árabe” no nosso território afigura-se nestas lendas, principalmente entre as comunidades do Norte, como a mais remota referência histórica da sua consciência idiossincrática larga e predominantemente baseada na tradição cristã. Assim, também se tem visto conservadas em muitas regiões as lendas de mouras encantadas, de escondidos tesouros fabulosos de um qualquer “El- rei mouro” associadas a outras formações naturais como grutas ou simples penedos, a ruínas de vetustas fortificações ou a outros enigmáticos monumentos arqueológicos como são os casos dos “berrões” que proliferam numa vasta área que se estende desde o Nordeste de Portugal, em Trás-os-Montes e Alto Douro, junto às margens deste rio, prolonga-se pela Beira Interior Norte (em Ribacôa) ao longo da margem ocidental do rio Águeda e chega às províncias de Cáceres, Ávila e Salamanca, em Espanha.

Voltando às Serras e suas lendas, se há lendas que desde há séculos têm merecido a atenção de insignes escritores etnólogos e historiadores e ainda continuam a andar de boca em boca entre os versejadores populares, uma das mais belas é a Lenda de Santa Comba dos Vales e do Rei Mouro “Orilhão” de Lamas, religiosamente guardada pela população da actual aldeia e freguesia de São Nicolau dos Vales, concelho de Valpaços que está situada nas faldas da serra de Santa Comba (na imagem), paróquia de antiquíssima fundação, provavelmente pré-nacional (como admite Veloso Martins) que nos séculos XII e XIII ainda era designada por Santa Comba de Orelhão ou dos Vales contemporânea e vizinha, mas distinta, da paróquia de Santa Cruz de Lamas de Orelhão que é actualmente freguesia de Mirandela. Como bem anotou A. Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços, é uma “das mais belas lendas fixadas a ouro fino na história da literatura portuguesa”. Na verdade, ela já era cantada assim nos “Poemas Lusitanos” do ilustre humanista quinhentista António Ferreira (1528 – 1569), introdutor da tragédia clássica em Portugal e que viveu em Lamas de Orelhão em terras de Mirandela:

No tempo em que a infiel bárbara gente
Da mísera Espanha ocupava a terra,
E o sangue derramava cruelmente
Dos poucos que escapavam da ímpia guerra,
Uma moça belíssima e inocente
Passava a vida na mais alta serra,
Que entre Tâmega e Tua hoje parece,
Onde o sol em nascendo resplandece
Conta-se que reinava um grã Rei Mouro
Entre Tâmega e Tua, e que ocupava
Toda a terra de Lamas, rica d’ouro,
Rico de grosso gado, que criava
Em cada serra tinha um grã tesouro
Junto do muito que ós Cristãos roubava
Já a Pastora [Comba] chegava ao alto cume
Da serra, onde é mais alta a penedia
Dond’o olho abaixo olhando perde o lume
E entr’ela e o Rei só a lança se metia,
Já lhe chega o Tirano, e já presume
Que nem em terra, ou no Céu lhe escaparia,
Quando Comba gritou: ó Rocha alta onde
Venho buscar abrigo, em ti me esconde.

Ó Maravilha grande! Abrio-se a pedra
Obedece à Santa a rocha dura,
Obedeceo à Santa e abrio-se a pedra,
E defendeu-a da cruel ventura.

Trasncrição do excerto de A. M. Freitas, “Fontes de
Abastecimento de Água,Concelho de Valpaços”,
vol. II, CMV, 2005

Ainda que pelo século XIV fosse Santa Comba substituída, no orago da paroquial igreja dos Vales, por São Nicolau, nunca a tradição deixou que a Santa pastora fosse apartada da memória dos paroquianos e a sua maravilhosa lenda de tal modo se propagou pelas terras do concelho de Valpaços e pelo Norte do país que chegou a ser admiravelmente apreciada e divulgada pelo notável linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português, José Leite de Vasconcelos (1858 – 1941) na sua grandiosa obra “Religiões da Lusitânia” em igual estreita relação com uma outra lenda que os habitantes da mesma freguesia de Vales também e desde tempos imemoráveis estabelecem: a do milagroso poço de São Leonardo (também pastor e irmão de Comba) que é hoje uma fonte de mergulho criteriosamente estudada e publicada por Adérito Medeiros Freitas na obra a que atrás aludi, ao lado da qual foi recentemente edificada uma pequena capela dedicada ao Santo popular (na imagem).

Em manuscritos dos meados do século XVIII aparecem claras referências à devoção que os povos ainda prestavam a Santa Comba e a São Leonardo entre outras mais vagas referências ao seu motivo. É o caso da seguinte “notícia” do Reitor de São Nicolau dos Vales, Simeão Nunes, sobre esta freguesia, em resposta aos interrogatórios para as “Memórias Paroquiais” postos a decorrer em todas as paróquias do país no ano de 1758:

No alto de uma serra vizinha da mesma paróquia, chamada a serra de Santa Comba, para a parte do Nascente, se acham duas ermidas, uma da mesma Santa Comba com duas imagens colocadas no seu altar, uma de roca e outra mais pequena de escultura de madeira, e outra [ermida] de São Leonardo, ambos irmãos pastores. Acha-se nesta uma imagem de Cristo Crucificado, com quem têm devoção os habitadores circunvizinhos, e outra do pastor São Leonardo, feita por um ermitão, de pedra Milagrosa, ainda que tosca. Pertence a administração destas capelas aos moradores desta paróquia. São estas imagens de muita veneração nas freguesias vizinhas e distantes pois, além de muitas romagens particulares que a elas fazem pelo ano, os dias em que mais é frequentada a sua casa é dia [data omissa] de Janeiro, subindo à serra na véspera e dormindo ali, e na véspera de São Lourenço, dez de Agosto, dormindo ali do mesmo modo; e são advogadas de qualquer necessidade que a recorrem.
No alto desta serra, junto à ermida de São Leonardo, se acha um poço quadrado feito de pedra. Das suas águas usam os habitantes circunvizinhos como muito medicinais para o achaque da asma; é chamado o poço de São Leonardo e há tradição que naquele lugar caíram as tripas do mesmo Santo no tempo do seu martírio.

ANTT, Memórias paroquiais, 1758 [VALES, S. Nicolau, Chaves], vol. 38, n.º 84, p. 475 a 478

É ainda o caso do testemunho deixado pelo vigário da vizinha paróquia de São Lourenço de Lilela (entretanto extinta e integrada na freguesia de Rio Torto), padre Vicente Martins, o qual menciona expressamente a alternativa toponímica, obviamente condicionada pela lenda, que, pelo mesmo ano de 1758, também se usava para designar a mesma serra de Santa Comba dos Vales:

Há uma serra chamada a serra de Santa Comba por estar nele Santa Comba, que é de outra freguesia e pega com o termo do lugar de Póvoa desta freguesia; por outro nome lhe chamam a serra do Rei de Orelhão.
Na dita serra há Santa Comba e São Leonardo, cada um com sua capela, mas juntas. Costuma haver romagem à de Santa Comba no dia de São Silvestre, no dia último de Setembro e no dia dez de Agosto, aonde sucede haver algumas bulhas e discórdias. Esta capela é da freguesia de São Nicolau dos Vales.

ANTT, Memórias paroquiais, 1750 [LILELA, Chaves], vol. 20 n.º 86, p. 649 a 654

Uma boa prova da vivacidade popular que a lenda de Santa Comba ainda conservava nos anos 90, na aldeia de Vales, é esta quadra da autoria de um dos seus naturais e residentes, José Joaquim Pereira (Sr. Zezinho), recolhida Por Medeiros Freitas:

Senhora Santa Combinha,
Rei Mouro te perseguiu.
Não triunfando de Vós,
A fraga se vos abriu.

De tal modo a força da tradição veio impondo a indissociabilidade das duas lendas que elas se fundiram numa só, o que se vê pela forma como foram contadas, em 1999, na cerimónia de inauguração da Ampliação e Remodelação dos Paços do Concelhos, na entrada de cujo edifício foi erigida uma bela escultura em bronze da autoria de José Rodrigues representando o Rei Orelhão e pastora Comba (na imagem):

No tempo em que os Mouros dominavam a Península Ibérica reinava em Lamas um rei mouro, grande, membrudo e feio como uma orelha de asno e outra de cão a quem chamavam o Orelhão.
Comba era a mais bela pastora da serrania que com seu irmão Leonardo, apascentavam o gado, tranquilos e descuidados.
A fama da sua formosura e da sua pureza chegou aos ouvidos de Orelhão que vencido pela paixão, ofereceu-lhe todas as riquezas para a conquistar.
Surda aos aliciamentos do sedutor, preferiu continuar casta, pura e humilde.
Perdidas todas as esperanças de conseguir conquistá-la a bem, o Mouro resolveu tomá-la à força.
A resistência da menina surpreendeu o Mouro que a persegue de lança em riste montado no seu cavalo. Encurralada entre o perseguidor e a penedia e ao alcance da lança, já a caminho para a atingir, Comba transbordante de fé evoca poderes divinos no sentido da rocha a abrigar. Prodigiosamente a rocha abre-se, recolhe a virgem e fecha-se numa manifestação do poder divino.
O Mouro, desesperado, ainda esboça um movimento para a matar, mas, repara em Leonardo, que também virtuoso, assistia mudo e aterrado à tragédia da sua irmã, e de imediato o trespassa, lançando o corpo a um charco próximo.
Na rocha que abrigou Comba ficou a marca da lança e da pata do cavalo do rei mouro.
A água do charco onde foi lançado o corpo do jovem tornou-se água de muitas virtudes.

Este acto evocativo celebrado pela Câmara Municipal de Valpaços com o apoio da “Árvore, Cooperativa das Actividades Artísticas C. R. L.” constitui a materialização do orgulho há muito sentido pelos valpacenses em possuir “intra-muros o cenário [a serra de Santa Comba] e o motivo [o trágico fim dos pastores irmãos] de uma das mais belas lendas” de Portugal – parafraseando o autor da “Monografia de Valpaços”, A. Veloso Martins no que já havia observado, em 1990, data da 2.ª edição desta sua obra.

quinta-feira, 1 de março de 2012

365.º Aniversário do nascimento de S. João de Brito

João Heitor de Brito, S. João de Brito, foi um dos “Grandes Portugueses” presentes na galeria da RTP que ficou do célebre programa com este nome, talvez ainda pouco conhecido da maioria dos portugueses. Nascido em Lisboa a 1 de Março de 1647 numa proeminente família da corte de D. João IV, foi desde muito jovem missionário jesuíta, enviado, por duas vezes à Índia em missões de evangelização desse subcontinente, acabando por encontrar aí a morte, sofrendo o martírio no alto de um monte em Urgur a 4 de Fevereiro de 1693. Vivendo “a vida como uma aventura evangélica”, na expressão de D. Manuel Clemente, enquanto bispo auxiliar de Lisboa, hoje bispo do Porto, o seu cadáver foi amputado de pés e mãos e os restos mortais lançados às feras. Em 1947 foi canonizado pelo Papa Pio XII, celebrizando-se a sua festa litúrgica a 4 de Fevereiro, data da sua morte. Foi um Grande Português.

Para rever a reportagem sobre a Vida e Morte de São João de Brito existente na “Galeria da RTP” dos Grandes Portugueses, clique na imagem.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2.º Aniversário do Clube de História de Valpaços


Celebramos hoje o primeiro aniversário do Clube de História de Valpaços. Julgamos ter vindo a honrar o compromisso que estabelecemos com a comunidade valpacense que foi, e continuará a ser o de contribuirmos para a divulgação do património histórico e cultural do concelho de Valpaços sem deixar de fazer alguma luz sobre outros assuntos de relevância nacional e Universal nas várias categorias temáticas que temos criado. Nesta data especial para o blogue, seus colaboradores e seguidores, cumpre deixar uma nota de agradecimento e homenagem a todos os que nele têm directa e indirectamente participado, desde os elementos da equipa, identificados no perfil, aos seguidores que diligentemente partilharam as suas publicações e participaram com os seus comentários de forma construtiva e total abnegação. Apraz-nos informar que nunca nos chegou qualquer tipo de comentário depreciativo ou com objectivos maliciosos ou suspeitos - todos os que aqui nos chegaram, incluindo os de comentadores anónimos, foram tecidos com o claro objectivo de melhorar a qualidade das publicações a que se reportavam.
Um Agradecimento Especial a todos quantos nos acompanharam, com o Google rede social, durante a ainda curta existência deste blogue, designadamente a:

Sérgio Morais | José António Soares da Silva | Terra | Euroluso | Pe Ricardo Pinto | Carlos Reis Martins | André Pinto | Portugal Romano | Carla Castro | Fernando Alves| jass | Umbelina | O meu espaço | Celestino Chaves | Paulo Pascoal | Gio | Armando Pinto | Voz | Ceicinha Câmara |leeninha alcilene | Pavaroty | FNA-Escuteiros Adultos | Vilardeamargo-blog | Catrop | jorge fernandes | mm.Gsil | Vítor Loureiro | Micael Sousa | Graça Gomes | Loanda M | Carol Machado | Costa Pinto | Rui Cepeda | onze palavras | d’Azevedo | Gonçalves | Mov. Anti-Corrupção | João | Lccl | Univsersidade Sénior de Valpaços | A busca pela Sabedoria | Combates pela História | Regina | helena maria marques | Mundo da Arqueologia | Ralf Wokan | jmalvar | mesquita artur | Lavras em destaque | reysenpai | João Gomes Salvador | Catarina | Reis Quarteu | lelo Demoncorvo | Alfredo Gomes | Mendonça | Normando Alves | Rui Doutel Morais | AMPUH |  Hilario Marrero Perez | Leila Duarte | Mab |cml nascimento |Emilia | j.valpacos [Eugénio Borges | Vilarandelo-um dia uma imagem…]

Obrigado ainda aos responsáveis pelos restantes blogues com os quais temos estado em contacto.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

A mais antiga floresta fossilizada descoberta na China

«DESCOBERTA FLORESTA FOSSILIZADA COM 298 MILHÕES DE ANOS

Uma representação da floresta encontrada na China

Na China desenterrou-se uma Pompeia do mundo natural com 298 milhões de anos. As cinzas de uma erupção cobriram uma floresta de fetos arbóreos, que ficou preservada até agora. O retrato deste pântano tropical está descrito na revista Proceedings of the Natural Academy of Sciences desta semana e permite compreender melhor a evolução das florestas da Terra numa altura em que ainda não havia flores

“É como [a cidade romana] Pompeia”, disse em comunicado Herrmann Pfefferkorn, um dos autores do estudo, que pertence à Universidade de Pensilvânia, referindo-se à cidade situada na Itália que ficou cristalizada pelas cinzas do Vesúvio durante a erupção de 79 d.C. “Pompeia dá-nos um conhecimento profundo sobre a cultura romana, mas não nos diz nada sobre a história da [civilização] romana em si mesmo.”

Por outro lado, permite a comparação. Pompeia “elucida-nos o tempo que veio antes e que veio depois. Esta descoberta é semelhante. É uma cápsula do tempo, e desse ponto de vista permite-nos interpretar muito melhor o que aconteceu antes e depois”, disse o cientista.
E que tempo é este? Na cronologia da história geológica, há 298 milhões de anos, a Terra encontrava-se no início do período Pérmico, antes da era dos dinossauros. Nesta altura os mamíferos e as plantas com flor ainda não existiam e os répteis e as coníferas – o grupo de plantas a que os pinheiros pertencem – eram uma aquisição recente da evolução.

O mundo terrestre era dominado por anfíbios e por fetos com porte de árvore. E as placas tectónicas estavam a acabar de se juntar para formar a Pangeia. O local arqueológico que os cientistas da Academia de Ciência chinesa estudaram, na região da antiga Mongólia, no Norte da China, era na altura uma super ilha separada do continente, que se situava a latitudes tropicais, no Hemisfério Norte.

Os cientistas fizeram um verdadeiro trabalho de ecologia paleontológica com estratos soterrados que desenterraram, analisando 1000 metros quadrados de área florestal em três sítios diferentes. Se não tivesse havido erupção, ao longo de milhões de anos aquela paisagem ter-se-ia transformado em carvão no interior da Terra, como aconteceu em muitos locais semelhantes a norte a sul da formação.

Mas a cinza fez fossilizar a floresta, que ficou comprimida em 66 centímetros de solo e fez com que a equipa pudesse recriar um retrato detalhado da floresta. “Está maravilhosamente preservada”, disse Pfefferkorn. “Podemos estar ali a olhar e encontrar um ramo com folhas, e depois encontramos o outro ramo e o outro ramo. Depois encontramos um cepo da mesma árvore. É realmente emocionante.”

Os cientistas encontraram seis grupos de plantas diferentes com várias espécies em cada grupo. Há um estrato mais basal com fetos arbóreos, de onde de quando em vez saem árvores mais finas e altas que parecidas a um espanador de penas, com 25 metros de altura. Encontraram também um grupo de plantas extinto que libertava esporos e árvores que parecem ser antepassados das cicadófitas, plantas sem flores que fazem lembrar palmeiras.

"Isto agora é a base. Qualquer outra descoberta, normalmente muito menos completa do que esta, tem que ser avaliada com base no que determinámos aqui", disse Pfefferkon, referindo-se à evolução da flora daquela altura.

Jornal o PÚBLICO, 22.02.2012 | http://www.publico.pt/Ciências

Novas revelações científicas sobre a evolução humana

«NEANDERTAIS PODERIAM JÁ ESTAR PERTO DA EXTINÇÃO QUANDO NOS ENCONTRARAM

Representação de uma família de Neandertais

Os estudos de ADN têm uma tendência para revolver a história da evolução humana, desta vez uma nova investigação sugere que quando os nossos antepassados contactaram com os Neandertais, há menos de 50.000 anos, estes já eram sobreviventes de um fenómeno que tinha ceifado quase totalmente a espécie, conclui um artigo publicado na revista Molecular Biology and Evolution.

A equipa internacional, que inclui investigadores do Centro de Evolução e Comportamento Humano da Universidade Complutense de Madrid, analisou o ADN extraído do osso de 13 Neandertais. Os indivíduos viveram entre os 100.000 e os 35.000 anos, e foram encontrados em sítios arqueológicos que se estendem desde a Espanha até à Ásia.

Os cientistas analisaram a variabilidade do ADN mitocondrial, que existe dentro das mitocôndrias, as baterias das células que são sempre herdadas da mãe para os filhos. A partir desta análise, verificaram que havia muito mais variabilidade entre os Neandertais que viveram há mais de 50.000 anos, do que os indivíduos que viveram durante os 10.000 anos depois, pouco antes de se terem extinguido.
Os indivíduos com menos de 50.000 anos tinham uma variabilidade genética seis vezes menor do que os mais antigos. Isto evidencia um fenómeno que provocou a morte de um grande número de pessoas desta espécie. Depois disto, sucedeu-se uma re-colonização da Europa a partir de populações de Neandertais vindas de Ásia.

“O facto de os Neandertais terem estado quase extintos na Europa, e depois terem recuperado, e tudo isso ter acontecido antes de entrarem em contacto com os humanos modernos, é uma surpresa total”, disse Love Dalen, o primeiro autor do artigo, que pertence ao centro de investigação de Madrid e ao Museu de História Natural de Estocolmo, Suécia. “Isto indica que os Neandertais poderiam ser mais sensíveis a mudanças climáticas dramáticas que ocorreram durante a última Idade do Gelo, do que se pensava anteriormente”, disse, citado pela BBC News.

Segundo o artigo, a variabilidade do genoma dos Neandertais antes do tal fenómeno que ocorreu há 50.000 anos era equivalente à variabilidade da espécie humana. Depois do fenómeno, essa variabilidade passou a ser menor do que a que existe hoje entre a população da Islândia.
Este fenómeno poderá estar ligado às alterações climáticas. Pensa-se que há cerca de 50.000 anos alterações nas correntes oceânicas do Atlântico causaram uma série de temporadas geladas que alteraram inclusive a cobertura vegetal da Europa.

O que quer que tenha acontecido depois, quando os humanos modernos foram migrando pela Europa, continua a ser uma incógnita. Mas estes dados sugerem que as populações de Neandertais que os nossos antepassados encontraram seriam muito mais homogéneas a nível genético e por isso muito mais vulneráveis a alterações no ambiente.»

Jornal o PÚBLICO, 27.02.2012 | http://www.publico.pt/Ciências

domingo, 26 de fevereiro de 2012

À descoberta de vocações artísticas no concelho de Valpaços – Santa Valha

Por Leonel Salvado

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A Artista a quem me apraz render hoje a minha sincera e devida homenagem chama-se Graziela Teixeira da Mota. Trata-se de uma pintora já conhecida de muitos portugueses e estrangeiros e que já vi ser considerada por alguns admiradores comuns e colegas de arte, que certamente poderão pronunciar-se melhor do que ninguém sobre as sua obras, como uma das principais referências da pintura impressionista portuguesa da actualidade, cujos temas de eleição incidem, entre outros geograficamente menos circunscritos, sobre a zona histórica do Porto, Património Mundial, o velho casario, os costumes da população portuense e, sobretudo, os históricos eléctricos da cidade invicta, como revelam as pinturas que dela expomos mais abaixo.
Na mesma medida do seu incontestável talento, o que me parece relevante chamar a atenção dos valpacenses para esta artista, na presente rubrica dedicada às vocações artísticas do concelho de Valpaços, é a sua própria qualidade humana – trata-se de uma pintora radicada há largos anos na cidade do Porto, onde se formou na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, mas que, pelo que me foi dado observar nas suas ligações de amizade em páginas regionais do Facebook, inclusive na própria página vinculada ao Clube de História de Valpaços, tenho por certo que é natural de Santa Valha, aldeia e freguesia do concelho de Valpaços e que revela uma assídua e exemplar relação de empatia, tanto com as pessoas da sua terra natal como com as demais do próprio concelho a que pertence.
A juntar a estas qualidades devo sublinhar a sua nobreza de carácter claramente evidenciada por ocasião da Exposição de alguns dos seus trabalhos no Hotel Altis, no Porto, em Abril de 2011. Este evento foi anunciado e divulgado pela “mulher.sapo.pt” onde se recordava que Graziela Teixeira da Mota, contando já com várias exposições nacionais e internacionais, realizava esta Mostra cultural em parceria com associação “Acreditar–Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro” em favor de cuja instituição revertia uma percentagem de cada obra vendida.
É pela combinação destas virtudes – a sua invulgar vocação artística, amor pela suas raízes e o seu espírito de solidariedade - que entendi dedicar-lhe estas palavras de homenagem. Mas confesso que tenho pena que a pintura que encabeça o presente post seja, como efectivamente parece ser, a única obra da nossa pintora da Invicta e de Santa Valha dedicada a esta bela e histórica aldeia do concelho de Valpaços que a viu nascer e de quem bem vejo que dela também se orgulha. A pintora valpacense, como tem sido designada Graziela Teixeira da Mota em vários eventos, é uma referência humana incontornável do património cultural deste concelho.

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76.º Aniversário da revelação pública do carro mais popular do mundo

Por Leonel Salvado


Anúncio do sistema de vendas do KdF-Wagen: "cinco marcos semanais você 
deve separar, se em seu próprio carro quiser passear" | http://pt.wikipedia.org

Quem não conhece o VW “carocha” ou ainda não o tenha visto uma qualquer das suas versões mais antigas a circular algures pelas nossas estradas?! Foi o carro mais popular e o mais vendido do mundo, ultrapassando em 1972 o recorde do Ford Modelo T, fabricado nos EUA. O último modelo do Carocha foi produzido no México em 2003. Foi o primeiro modelo fabricado pelo actual Gigante da indústria automóvel, o Grupo VWAG, e um produto do esforço industrial da Alemanha nazi, nos últimos anos que antecederam à 2ª Guerra Mundial.
Em 1936, na Alemanha, Adolph Hitler desfilava como seu Estado Maior a bordo de um novo automóvel feito para o povo alemão. Era a concretização de um sonho do ditador desde os tempos em que esteve preso e teve conhecimento da proeza cometida por Henry Ford ao conseguir oferecer ao público norte-americano um automóvel ao alcance das famílias menos abonadas, o Ford Modelo T. Entusiasta por carros desde a juventude e empenhado na recuperação da economia e na modernização do país, no qual por sua iniciativa de construiu uma extensa rede de “Autobahns” (o embrião das actuais modernas auto-estradas), faltava-lhe oferecer ao povo alemão, para a realização da plataforma política do seu partido, um “carro do povo”, isto é um automóvel feito por trabalhadores alemães e para os trabalhadores alemães. Esse carro passou a designar-se, por conveniência, de “Volkswagen”, (pronunciando-se "folks váguen" traduzido para português como "carro do povo"), ou simplesmente "Volks" (pronunciando-se "folks", com o mesmo significado de "do povo"). Alguns dos requisitos propostos por Adolph Hitler, que colaborou pessoalmente na definição do design definitivo do projecto, não foram concretizados, mas o “carro do povo” tornou-se uma realidade adequada às expectativas do seu criador e do povo alemão: Um automóvel barato, de consumo moderado e versátil, características favoráveis à propaganda nazi e às necessidades das famílias alemãs dessa época. Antecipando-se à aprovação dos protótipos, deixados à responsabilidade de vários engenheiros da confiança do ditador (dentre os quais se destacou o consagrado engenheiro austríaco Ferdinand Porsche), Adolph Hitler fez-se transportar num dos modelos experimentais do “carocha” num desfile realizado a 26 de Fevereiro de 1936. Assim nascia um dos ícones da história do automóvel.
Apesar de te rnascido no seio  famigerado regime nazi, o “carocha”, assim carinhosamente conhecido pelos portugueses e países de expressão inglesa como o "beetle" (sobretudo nos E.U.A., onde foi um automóvel, ironicamente, bastante popular entre a comunidade “hippie”, nos anos 60) ou ainda como  o“fusca”, para os brasileiros, continuou a ser um dos automóveis mais populares nos vários continentes após a Segunda Guerra Mundial. Actualmente é um dos automóveis clássicos mais apreciados pelos coleccionadores ou pelos simples nostálgicos entusiastas dos “automóveis que fizeram história”.

Para muitos mais detalhes sobre a história do “Carocha” clique AQUI