sábado, 14 de abril de 2012

I Centenário do Naufrágio do Titanic

Por Leonel Salvado



Foi na noite e madrugada dos dias 14 e 15 de Abril de 1912, que se afundou o RMS Titanic, uma tragédia   resultou na morte de mais de 1.500 pessoas, o que levou a considerá-la como uma das piores catástrofes marítimas de todos os tempos. Desde logo, passou a fazer parte da Cultura Popular Universal, começando a servir de inspiração a muitos romances fictícios na Literatura, no Cinema e na TV, passando pela Música e vindo mais recentemente a ser explorado pelas produtoras de jogos de computadores.
Trata-se, efectivamente, de um acontecimento inesquecível que ainda suscita sentidas emoções e que nos cabe recordar aqui nesta ocasião do seu centésimo aniversário. Para tal irei transcrever um trabalho e pesquisa da autoria de Carlos Leite Ribeiro publicado no Portal “CEN – Cá Estamos Nós” que conta com a formatação de Iara Melo.

A tragédia
O Titanic era um paquete (navio transatlântico) britânico que, durante a sua primeira viagem se afundou na noite de 14 para 15 de Abril de 1912, depois de ter chocado com um icebergue a Sul da Terra Nova.



 Mais de 1500 pessoas pereceram nesse naufrágio. Em 1985, seus destroços foram localizados a 4000 metros de profundidade.
Ao anoitecer de 14 de Abril, o Comandante Smith mandou reforçar a vigia no mastro de proa (frente do navio), e fornecer binóculos.

Esses equipamentos não foram encontrados e os vigias tiveram que fazer o seu trabalho apenas com a sua visão. O Comandante Smith retirou-se para os seus aposentos e deixou no comando na ponte o Segundo Oficial Charles Lightoller, que mais tarde foi substituído pelo Primeiro-oficial William Murdoch.
A noite estava fria e calma, sem ondulação e sem vento. Somente a luz das estrelas e do Titanic iluminavam a escuridão. Às 22h30, a temperatura da água do mar era gélida, cerca de 0,5º abaixo de zero, o suficiente para matar por hipotermia uma pessoa em apenas vinte minutos.
Às 23h40, os vigias do mastro, Frederick Fleet e Reginald Lee, avistaram uma sombra mais escura que o mar à frente. A imensa sombra cresceu rapidamente e revelou ser um imenso iceberg na direcção do navio.
Imediatamente o pânico deu lugar aos reflexos e Fleet tocou o sino de alerta do mastro três vezes e ergueu o comunicador para falar com a Ponte de Comando. Preciosos segundos se perderam até que o comunicador foi atendido pelo Sexto Oficial Paul Moody onde Fleet gritou "Iceberg logo à frente". O Primeiro-oficial que ouvira e vira a imensa massa de gelo na direcção do navio, entrou na ponte de comando. Gritou, ordenando ao timoneiro Robert Hitchens "tudo a estibordo", e à casa de máquinas, "máquinas a ré toda a força".
Na ponte de comando e no mastro de proa, os tripulantes observaram inertes o imenso iceberg vindo em rumo de colisão. Na casa das máquinas, a correria foi grande. O vapor que estava a ser enviado para os motores tinha de ser fechado, a fim de parar os pistões.
Nas salas de caldeiras, os carvoeiros tiveram que parar de alimentar as fornalhas e abrir os abafadores das caldeiras. Quando os enormes pistões estavam quase parados, uma alavanca na base dos motores fora acionada para reverter os giros das hélices centrais, e então as válvulas tiveram que ser novamente acionadas para libertar o vapor para entrar nos motores que começaram a girar no sentido inverso.
A hélice central assim que fora acionado o reverso dos motores parou de funcionar, pois este não era acionado pelos motores do navio, mas por uma turbina que era alimentada pela sobra do vapor dos motores.
A proa do navio começa a deslocar-se do Iceberg, e 47 segundos após se ter visto o Iceberg, não se consegue evitar a colisão. Esta ocorre às 23h40, na Latitude 41º 46´N e Longitude 50º 14´W. Arestas do Iceberg colidem com o casco do navio, fazendo com que se soltem os rebites entre as placas de aço, resultando em pequenas aberturas no casco, tendo sido afetados mais de noventa metros de casco deixando abertos os 5 compartimentos estanques. Apenas 20 minutos depois, o convés já tinha começado a inclinar-se.
O vigia Fleet baixa-se no ninho da gávea do mastro de proa e sente o navio tremer e pedaços de gelo são arremessados ao convés da proa. O navio todo treme e na ponte de comando o oficial Murdoch aciona imediatamente o encerramento das portas estanques. Nos porões de carga do navio, a água jorra com imensa força.
Seguiu-se então um estrondo e a água do mar rompeu por toda a lateral da sala de caldeiras número seis. As primeiras vítimas foram cinco operários que lutavam para manter seguras as correspondências na sala de correios inundada logo após a colisão. Morreram todos afogados tentando salvar as cartas que rumavam para a América a bordo do navio. Com o abanão provocado pela colisão, muitos passageiros acordaram.
O Comandante Smith dirigiu-se imediatamente para a ponte de comando e foi informado do ocorrido. Ordenou imediatamente a paragem total das máquinas. Com a paragem das máquinas, um barulho ensurdecedor é ouvido na área externa do navio, devido à grande quantidade de vapor expelido. O Comandante Smith chamou o Engenheiro-chefe, Thomas Andrews, e solicitou um exame das avarias.
Após alguns minutos, Andrews selou o destino do Titanic dizendo: "O navio vai afundar, temos menos de duas horas para evacuá-lo".
Bruce Ismay, Presidente da White Star Line e o Comandante Smith mostraram-se incrédulos com o relato. "O Titanic não pode afundar" - menciona Ismay - "é impossível ele afundar".
Haviam sido atingidos 5 compartimentos estanques.

Com quatro compartimentos, o Titanic ainda conseguiria flutuar, mas o peso de cinco compartimentos cheios de água a proa inundaria, fazendo com que a água atravessasse para os outros compartimentos, por cima das portas estanques. A água do sexto compartimento passaria para o sétimo compartimento, depois para o oitavo compartimento, e assim por diante.


O colossal paquete
Origem do nome Titanic: na mitologia grega, os Titãs eram uma raça de gigantes semelhantes a deuses que eram considerados personificações das forças da natureza. Eles eram os doze filhos (seis irmãos e seis irmãs) de Gaia e Uranus. Cada filho casou-se ou teve filhos de uma de suas irmãs. Eles são: Cronus e Rhea, Lapetus e Themis, Oceanus e Tethys, Hyperion e Theia, Crius e Mnemosyne, e Coeus e Phoebe. Um dos Titãs chamava-se exactamente Oceanus.

 O RMS Titanic foi um navio transatlântico da Classe Olympic operado pela White Star Line e construído nos estaleiros da Harland and Wolff em Belfast, Irlanda. Até ao seu lançamento em 1912, ele foi o maior navio de passageiros do mundo.[...]


O Titanic provinha de algumas das mais avançadas tecnologias disponíveis da época e foi popularmente referenciado como "inafundável" - na verdade, um folheto publicitário de 1910, da White Star Line, sobre o Titanic, alegava que ele fora "concebido para ser inafundável".
Foi um grande choque para muitos que, apesar da tecnologia avançada e experiente tripulação, o Titanic ainda afundou com uma grande perda de vidas humanas. Os meios de comunicação social sobre o frenesi de vítimas famosas do Titanic, as lendas sobre o que aconteceu a bordo do navio, as mudanças resultantes do direito marítimo, bem como a descoberta do local do naufrágio em 1985 por uma equipe liderada pelo Dr. Robert Ballard fizeram a história do Titanic persistir famosa desde então.

O Titanic foi um transatlântico da White Star Line, construído nos estaleiros da Harland e Wolff, em Belfast, Irlanda destinado a competir com os navios Lusitania e Mauretania da empresa rival Cunard Line.


O Titanic, juntamente com os seus irmãos da classe Olympic, o Olympic e o ainda em construção Britannic (originalmente chamado de Gigantic), se destinavam a ser os maiores e mais luxuosos navios a operar.
Os projectistas foram William Pirrie, director de ambas as empresas Harland and Wolff e White Star, o arquitecto naval Thomas Andrews, gerente de construção e chefe do departamento de design da Harland and Wolff  e Alexander Carlisle, o projectista chefe e gerente geral do estaleiro do Titanic.
Carlise sugeriu que se usasse no Titanic turcos maiores que poderiam dar ao navio um potencial de transporte de 48 botes salva vidas; isso seria o bastante para acomodar todos os passageiros a bordo. No entanto, a White Star Line, concordando com a maioria das sugestões, decidiu que apenas 16 botes salva vidas de madeira (16 sendo o mínimo permitido pelas leis da época, baseada na tonelagem projectada do Titanic) seriam transportados (também havia quatro botes salva vidas desmontáveis) que no total poderiam acomodar apenas 52% das pessoas a bordo.
A construção do RMS Titanic, financiada pelo americano J.P. Morgan e sua companhia International Mercantile Marine Co., começou em 31 de Março de 1909. O casco do Titanic foi lançado no dia 31 de Maio de 1911, e sua equipagem foi concluída em 31 de Março do ano seguinte.


O Titanic tinha 269,10 metros de comprimento e 28 m de largura, uma tonelagem bruta de 46,328 toneladas, e uma altura da linha d'água até o deck de botes de 18 metros. O Titanic continha dois motores de quatro cilindros de expansão tripla, invertido com motores a vapor e uma turbina de baixa pressão Parsons de três hélices.
Havia 29 caldeiras alimentadas por 159 fornos de carvão à combustão que tornaram possível a velocidade máxima de 23 nós (43 km/h). Apenas três das quatro chaminés de 19 metros de altura eram funcionais; a quarta chaminé servia apenas para ventilação; foi adicionada para dar ao navio um olhar mais impressionante.
O navio podia transportar um total de 3,547 pessoas, entre passageiros e tripulação e, por transportar correio, usava o prefixo RMS (de Royal Mail Steamer), bem como SS (Steam Ship).
Ele ofereceu uma piscina a bordo, um ginásio, banho turco, bibliotecas, tanto em relação à primeira e a segunda classe, squash e um tribunal. As salas da Primeira classe eram enfeitadas com detalhes em madeira, móveis e outras decorações caras. Além disso, o Café Parisiense oferecia cozinha de primeira classe para os passageiros, com uma varanda de pôr-do-sol equipada com decorações trellis.


O navio incorporou recursos avançados tecnologicamente, para sua época. Tinha um extenso subsistema eléctrico alimentado com geradores de vapor para iluminação total do navio.
Ele também ostentou dois telégrafos Marconi sem fio, incluindo um rádio de 1500 watts de potência tripulado por operadores de rádio que trabalharam em turnos, permitindo o contacto e a transmissão de mensagens de muitos passageiros.




sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sexta Feira 13, Valpaços – Gastronomia e Cultura popular

Por Leonel Salvado

Clique sobre a imagem para aumentá-la

Valpaços tem actualmente dois atractivos gastronómicos de invulgar relação com duas das mais recorrentes referências do imaginário popular - as crendices e  mitos -, um, mais antigo, relacionado com o fadário das bruxas, outro, mais recente, associado à secular superstição da “Sexta-feira 13”. São dois valores que, em simbiose, proporcionam aos valpacenses uma boa oportunidade para, em alegre fanfarra, poderem celebrar gastronomicamente o significado deste dia.  

Acredite-se ou nem por isso em bruxas, seja-se parascavedecatriafóbicos ou não (passo a expressão), poder-se-á imaginar assim, uma sugestão gastronómica “à valpacense” para a celebração do dia de hoje, mais ou menos em conformidade com o significado que ele representa no imaginário popular, de preferência pela hora do jantar e após o pôr-do-sol para que tal suceda num ambiente mais adequado à ocasião:

- Uma boa rodada de BACALHAU À BRUXA DE VALPAÇOS, rigorosamente preparada de acordo com a receita original. Ele há bruxas! E como se diz aqui por esta pequena cidade onde a nossa bruxa nasceu, no século XIX, esta tornou-se mais conhecida pelas suas qualidades gastronómicas do que por “outras feitiçarias”. Afinal, esta especialidade até se pode ler no cardápio de pelo menos um dos restaurantes da Invicta com igual destaque que é dada às famosíssimas “tripas à moda do Porto”. A receita? Bem, parece que a bruxa de Valpaços só pensou em 6 pessoas (podiam ser 13!) Ei-la, tal como foi publicada por Francisco Guedes em “Cem Maneiras de Cozinhar bacalhau e outros peixes” e recolhemos no site “Valpaços on line”:

«Bacalhau à bruxa de Valpaços – para 6 pessoas:
1 kg de bacalhau;
6 cebolas;
2 alhos;
1 dl de azeite;
1 colher de sopa de manteiga;
50 g de toucinho;
600 g de batatas;
3 colheres de sopa de vinagre;
3 colheres de sopa de farinha de trigo;
1 ramo de salsa; sal e pimenta.

Deixe o bacalhau a demolhar durante 48 horas. Depois, tire a pele e as espinhas. Corte as cebolas às rodelas. Pique o toucinho e corte os alhos às tiras. Cubra o fundo do tacho com uma porção das cebolas, sobre estas coloque uma porção de bacalhau e sobre este coloque uma porção de batatas, de toucinho e dos restantes condimentos. Polvilhe com uma colher de farinha. Faça isto sucessivamente até completar três camadas de cada ingrediente. Adicione o azeite, tape-se o tacho e leve-se ao lume (cerca de 30 minutos), regando sempre com o próprio molho.» 

- E, para melhor agasalho contra o corrupio das "forças maléficas", nada melhor do que umas garrafitas (q. b.!, já agora também para 6 pessoas) do genuíno tinto ou branco de SEXTA FEIRA 13, uma verdadeira bênção da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços que logo foi partilhada com a Câmara de Montalegre (como seria de esperar!)
Depois é só desejar BOM APETITE, e aconselhar algum cuidado com o “balão”, não vá uma outra bruxa, à solta, tecê-las! 

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Arte Visigótica – Arte Pré-Românica

Por Maria Fernanda*


Depois da queda do império romano, mongóis, vândalos, suevos, alanos, francos e germânicos, entre outros povos conhecidos genericamente como bárbaros, avançaram definitivamente sobre a Europa. A Europa entrou assim num dos períodos históricos mais obscuros, entre a religiosidade dos primeiros cristãos e a beligerância dos novos senhores.

Este período histórico, conhecido como Alta Idade Média, é caracterizado pela ruralização da sociedade (em oposição à "urbanidade" clássica), por uma economia quase auto-sustentada e de fraca movimentação de trocas comerciais, pelo quase desaparecimento da cultura laica e pelo domínio cultural do clero e, por fim, pela enorme expansão da igreja cristã.

Os traços culturais próprios destes povos, dos povos conquistados e o cristianismo, estiveram na origem de uma arte que se situa entre a arte da antiguidade clássica tardia e o românico e que, por esse motivo, se denomina como pré-românica, não designando um estilo particular.

A arte pré-românica é caracterizada por uma absorção de diversas influências que resultam nas fusões inovadoras entre elementos da cultura clássica com elementos cristãos e germânicos. Não se restringe a uma região específica, mas espalha-se por toda a Europa ao longo vários séculos, destacando-se alguns géneros artísticos próprios.

A Arte visigótica é aquela que designa as expressões artísticas criadas pelos visigodos, que entraram na Península Ibérica em 415 e se tornaram o povo dominante da região, até à invasão dos mouros, em 711. Este período da arte ibérica notabilizou-se pela arquitectura, e ourivesaria.

Os mais significativos dos poucos exemplares sobreviventes da arquitectura visigótica do século VI, em território português, são a Capela de São Frutuoso em Braga e a Igreja de São Gião na Nazaré.

Capela de São Frutuoso de Montélios perto de Braga


Interior da Capela de São Frutuoso de Montélios


Interior da Capela de São Frutuoso de Montélios


Capela de S. Gião - Nazaré


Relevo da Capela de S. Gião - Nazaré

A ourivesaria visigótica desenvolveu-se, essencialmente, em Toledo e é composta principalmente de jóias com motivos geométricos, que foram encontrados em escavações de tumbas.

Tesouro de Guarrazar - Coroa de Recesvinto


Tesouro de Guarrazar - Coroa de Recesvinto - detalhe

O século VIII conheceu, porém, a primeira grande tentativa de reunificação da Europa, a criação do Império Carolíngio, sob Carlos Magno.
Carlos Magno foi a figura política mais poderosa da Alta Idade Média, pois os seus exércitos assumiram o controle de extensos territórios. Carlos foi responsável pela imposição do cristianismo e pelo ressurgimento da arte antiga.
Este foi coroado, pelo papa, em 800, como imperador do Sacro Império Romano que englobava quase toda a Europa Ocidental.

Estátua de Carlos Magno. O cavalo teria sido reaproveitado de uma estátua clássica

Após sua coroação, tornou-se grande patrono das artes.
A arte carolíngia refere-se à arte do período de Carlos Magno, estendendo-se pelos seus sucessores (entre 780 e 900 d.C.) e alargando a sua influência ao período posterior da arte otoniana.

Esta arte tem uma forte herança germânica, absorve elementos das artes bizantina e islâmica, mas inspira-se na arte romana da Antiguidade Clássica daí ser também conhecida como renascimento carolíngio.

A sua expressão arquitectónica vai incidir na construção religiosa caracterizada por pinturas murais, pelo uso de mosaicos e baixos-relevos surgindo também neste momento a igreja com deambulatório, tipologia que se irá desenvolver ao longo da Idade Média. Uma das mais significativas construções deste período é a Catedral de Aix-la Chapelle (Aachen) na Alemanha.


Interior da Capela de Aix-la-Chapelle com o deambulatório


Cúpula da Capela Palatina de  Aix-la-Chapelle


Púlpito da catedral, com painéis de marfim bizantino e inserções de vidro islâmico. 
Um dos painéis representa o deus pagão Baco.


Trono de Carlos Magno na Capela Palatina  de  Aix-la-Chapelle

Os mosaicos da Capela Palatina de Carlos Magno são parecidos com os das primeiras igrejas cristãs de Ravena e Constantinopla. Sabe-se que naquela época, muitas colunas e mármores foram trazidos de Roma para as construções do seu império.

Mosaicos do interior da Cúpula da Capela de Aix-la-Chapelle. Vêem-se as colunas vindas de Roma.


Mosaicos do interior da Capela de Aix-la-Chapelle

As artes decorativas assumem também um lugar de relevo, especialmente no que diz respeito à produção de marfins, joalharia e iluminuras, sendo estas últimas caracterizadas por um traçado extremamente dinâmico.

Coroa de Carlos Magno


Frontispício dos Evangelhos de Lindau. C. 870.
Ouro, pedras preciosas e esmalte.


Busto de Carlos Magno


Marfim - capa dos Evangelhos de Lorsch, cerca de 810


Iluminura, São Mateus Evangelista, c. 800


Mateus redigindo o "seu" Evangelho.
Iluminura de um manuscrito francês dos Evangelhos de Ebbo. séc. IX.

*Edição/versão original : Viagem pela Arte I | 8 de Fevereiro de 2012

segunda-feira, 9 de abril de 2012

147.º Aniversário do nascimento do Abade de Baçal

Francisco Manuel Alves, o “Abade de Baçal”, nasceu há 147 anos e faleceu há perto de 65 anos. Continua a ser considerado uma referência praticamente obrigatória para historiadores arqueólogos e etnólogos de formação científica da actualidade.

REVER
(2011)

domingo, 8 de abril de 2012

Carta Arqueológica do Concelho de Valpaços – 5. C

ADÉRITO MEDEIROS FREITAS, Julho de 2001

(clique na imagem para a aumentar)

FREGUESIA DE BOUÇOAIS - C

TRANSCRIÇÃO E REPRODUÇÃO INTEGRAL AUTORIZADA PELO AUTOR

Cristo ressuscitou! Aleluia!

Por Jorge Fernandes, 7 de Abril de 2012*


"Cristo Ressuscitou, venceu a morte.
o Seu corpo se envolve em luz divina.
eis o sol da esperança, eis o Deus forte
que nos liberta e que nos ilumina!

A nova criação hoje começa.
jamais triunfará o vil pecado.
o Senhor nos cumpriu sua promessa
no sangue do Cordeiro imaculado."


Páscoa Feliz para todos!

sábado, 7 de abril de 2012

7 de Abril: Dia nacional dos Moinhos

Por Leonel Salvado

clique na imagem se pretender aumentá-la

Diga-se, a título de curiosidade, que o “Dia Nacional dos Moinhos” foi formalmente criado pela “Rede Portuguesa de Moinhos” em 2007, assinalando a data de 7 de Abril. Mas, pelo que temos visto em diversas fontes de informação, convém esclarecer que os grandes objectivos que estiveram na base da criação desta data dedicada aos Moinhos - despertar a atenção da população para o inestimável valor patrimonial dos moinhos tradicionais, bem como motivar e coordenar vontades e esforços de proprietários, moleiros, autarquias, museus, associações, investigadores, molinólogos e amigos dos moinhos para a sua salvaguarda e divulgação – já estavam definidos e já eram implementados em certas regiões uma meia dúzia de anos antes, como já em 2005 o Presidente da Associação Portuguesa de Molinologia, Jorge Miranda, reconhecia em declarações à Agência Lusa, dando exemplos de algumas dessas iniciativas, de reduzida importância em certas regiões do Centro e Sul do país, mas realçando um outro exemplo de maior amplitude na região BOTICAS onde já tinha sido criado um percurso de 70 Km com 80 moinhos intervencionados e os respectivos trilhos de acesso e sinalética. Efectivamente, a Câmara Municipal de Boticas merece que lhe seja reconhecido o mérito de ter sido uma das precursoras nesta iniciativa, posto que foi nesta vila portuguesa do distrito de Vila Real que se realizou, já em 2002, o II Encontro Nacional de Molinologia depois de o primeiro ter tido lugar, no ano anterior, na cidade de Montijo, distrito de Setúbal.

A Câmara Municipal de VALPAÇOS aderiu também, e muito cedo, à mesma iniciativa, que nesta autarquia surgiu na sequência de uma das suas preocupações iniciadas nos anos 80 com o objectivo de conhecer e divulgar toda a riqueza e diversidade do seu Património Cultural, participando nos dias 18, 19 e 20 de Outubro de 2002 no aludido “II Encontro Nacional de Molinologia”, em Boticas, onde foram apresentados 14 mapas baseados em Folhas dos Serviços Cartográficos do Exército (na escala de 1:25.000) representado os respectivos cursos de água com o posicionamento dos moinhos hidráulicos neles identificados (num total de 130 moinhos de rodízio) e publicando em Maio de 2009 um excelente trabalho, em dois volumes, da autoria do dedicado geólogo, arqueólogo e etnólogo, Dr. Adérito Medeiros Freitas, intitulado “Concelho de Valpaços Moinhos (moinhos de Rodízio e Azenhas)”, (na imagem), que foi quem preparou orientou a participação da Autarquia valpacense no referido encontro nacional. No conjunto dos trabalhos de investigação que formam o conteúdo desta obra, contam-se 192 engenhos hidráulicos, desde “Moinhos de rodízio”, “Azenhas” e “Moinhos de Pisão”.

É por isso que, em minha opinião, esta data de 7 de Abril constituirá para sempre uma das melhores oportunidades para homenagearmos o Dr. Adérito Medeiros Freitas em reconhecimento do extraordinário e inestimável serviço que abnegadamente tem prestado aos valpacenses.
Bem-haja, portanto, Dr. Adérito Medeiros Freitas por este serviço público e, entre muitos outros, parabéns também pela 2.ª edição (actualizada) de “Lagares Cavados na Rocha”, igualmente patrocinada pela Câmara Municipal de Valpaços cuja apresentação teve lugar no passado dia 31 de Março integrando mais um dos eventos culturais da tradicional Feira do Folar, no caso da XIV edição desta.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

191.º Aniversário da abolição da Inquisição em Portugal

Por Leonel Salvado

clique na imagem para aumentá-la

Celebrou-se no passado dia 31 de Março o 191.º Aniversário da abolição da Inquisição em Portugal, acontecimento que representa um exemplar passo de justiça humana no nosso país e assim deve ser sentido por todos os portugueses e particularmente pelas comunidades de judeus portugueses, em Portugal e no Mundo. Ironicamente, 31 de Março (de 1492) também foi a data da expulsão dos judeus de Castela que deram entrada em Portugal, juntando-se aos seus congéneres sefarditas aqui estabelecidos antes da conversão forçada. É evidente que as feridas abertas pela abominável “máquina inquisitorial” e pela constante discriminação a que se viram sujeitos pelos povos que nela se inspiravam um pouco por todo o país, foram sarando muito lentamente e em alguns casos não sararam por completo como é o dos descendentes de numerosas famílias de judeus sefarditas portugueses que haviam partido para outros países e actualmente se identificam pelos seus sobrenomes, mantêm um vínculo sentimental às suas origens, solicitando e aguardando que o Governo português lhes conceda o direito à restituição da nacionalidade dos seus antepassados. Contudo, é inegável que a partir daquela data a dignidade do povo judeu foi sendo garantida e respeitada (embora nunca de uma forma tão linear e progressiva até à revolução do 25 de Abril de 1974), ao ponto de os descendentes de muitos sefarditas que escolheram ficar fazerem hoje parte aparentemente indistinguível do tecido social e genético de muitas regiões portuguesas, como acontece em Trás-os-Montes, sobretudo no distrito de Bragança.

Apresento de seguida o Decreto para a abolição da Inquisição, antecedido da acta da curiosa discussão acerca do preâmbulo do mesmo decreto que decorreu no Palácio das Necessidades na mesma sessão das Cortes Extraordinárias e Constituintes de 31 de Março de 1821, tal como foram transcritos e publicados em comemoração desta data em 2011 no blog “BEIT ISRAEL, A Casa de Israel”:

I
O senhor Freire leo o Decreto para abolição da Inquisição. Discutio-se ácerca do preambulo, e disse:
O senhor Pimentel Maldonado. – Não foi por tal motivo que o Congresso decretou unanimemente a abolição da Inquisição. Foi a injustiça abominavel de similhante instituição, que nos obrigou a isto. Bem claramente se discutio, e ponderando-se o assumpto por mui diversos modos, bem que todos concordes na extincção deste Tribunal, não houve hum só Deputado que se lembrasse de tal fundamento. Que vem a dizer multiplicidade de Tribunaes, á vista de tamanhas rasões quaes forão as que se expendêrão neste lugar? A Commissão Ecclesiastica devia cingir, se a ellas. Voto pois, que torne o Decreto a organizar-se, e que se fundamento no verdadeiro motivo da nossa decisão. Foi, o torno a dizer, a injustiça abominavel da instituição, e não a multiplicidade de Tribunaes.
O senhor Fernandes Thomaz. – Não se declare antes rasão nenhuma: essa he offensiva ao decoro, e luzes do Seculo e sentimentos desta Assemblea. Seria ridiculo que no Mundo se dissesse, que se tinha extinguido a Inquisição porque não se podia sustentar, extingue-se porque não deve existir n'hum Paiz em que ha homens livres.
O senhor Vaz Velho. – Senhor Presidente, creio que, apesar de alguns dos Membros deste Augusto Congresso terem clamado, que ninguem deve mais fallar sobre a materia subjeita, com tudo, como este clamor não he o voto da Assemblea, eu tenho a faculdade de poder expor a minha, opinião. Este Decreto, senhores, de que estamos tratando, sobre a extincção da Inquisição he hum Diploma, que sendo posterior ás Bases da Constituição, elle não póde desviar-se dos principios nellas adoptados. Nós estabelecemos nas Bases da Constituição principios de liberdade que são incompativeis em o dicto Tribunal, logo que cousa mais natural, do que dizer-se no Preambulo do Decreto, que se extingue aquelle Tribunal e Inquisições, por ser contrarias aos principies liberaes adoptados e estabelecidos nas Bases da Constituição? Isto he mais proprio, e menos vago, do que dizer-se, que he contrario ao systema constitucional. Este he o meu voto.
O senhor Borges Carneiro. – Votou que no preambulo se dessem estas rasões - Por ser contraria á rasão Natural, á Doutrina do Evangelho, e ao systema Constitucional.
O senhor Maldonado apoyou o senhor Borges Carneiro.
Hum dos senhores Deputados disso que se devia omittir o ser contraria á Doutrina do Evangelho.
O senhor Borges Carneiro Mostrou que com effeito o era, que a Igreja não tinha approvado similhante estabelecimento; que elle da obra do Despotismo dos Papas combinados com os Jesuitas, e com os Aulicos.
O senhor Arcebispo da Bahia. – Conciliou estas differentes opiniões, julgando que bastaria dizer-se no preambulo, que se extinguia a inquisição, por não ser compativel com o estado Constitucional.
Proseguio a discussão, e ultimamente ficou approvado o Decreto com declaração de que no preambulo sómente se dissesse -- que a sua Existencia era contraria ao systema Constitucional, e que assim se expedisse.

II
DIÁRIO DAS CORTES GERAES E EXTRAORDINARIAS DA NAÇÃO PORTUGUEZA.
NUM. 47
SESSÃO DO DIA 31 DE MARÇO DE 1821
(O documento é reproduzido com a grafia da época)

DECRETO.

As Cortes Geraes, Extraordinarias, e Constituintes da Nação Portugueza, Considerando que a existencia do Tribunal da Inquisição he incompativel com os principios adoptados nas Bases da Constituição, Decretão o seguinte:

1.° O Concelho Geral ao Santo Officio, as Inquisições, os Juisos do Fisco, e todas as suas dependencias, ficão abolidos no Reyno de Portugal. O conhecimento dos Processos pendentes, e que de futuro se formarem sobre causas espirituaes, e meramente ecclesiasticas, he restituido á Juriadicção Episcopal. O de outras quaesquer causas de que conhecião o referido Tribunal, e Inquisições, fica pertencendo aos Ministros Seculares, como o de outros crimes ordinarios, para serem decididos na conformidade das Leys existentes.

2.° Todos os Regimentos, Leys, e Ordens relativas á existencia do referido Tribunal, e Inquisições, ficão revogadas, e de nenhum effeito.

3.° Os bens, e rendimentos, que pertencião aos dictos estabelecimentos, de qualquer natureza que sejão, e por qualquer titulo que fossem adquiridos, sejão provisoriamente administrados pelo Thesouro Nacional, assim como os outras rendimentos publicos.

4.º Todos os Livros, e tudo Manuscriptos, Processos findos e tudo o mais que existir nos Cartorios do mencionado Tribunal, e Inquisções, serão remettidos á Bibliotheca Publica de Lisboa, para serem conservados em cautela na Repartição dos Manuscriptos, e inventariados.

5.° Por outro Decreto, é depois de tomadas as necessarias informações, serão designados os ordenados que ficarão percebendo os Empregados que servirão no dicto Tribunal, e Inquisições.

A Regencia do Reyno assim o lenha entendido, e faça executar. Paço das Cortes 31 de Março de 1821. – Hermano José Braancamp do Sobral, Presidente – Agostinho José Freire, Deputado Secretario – João Baptista Felgueiras, Deputado Secretario.

In http://beit-israel.blogspot.pt

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Solares do concelho de Valpaços – Solar dos Machados

Por Leonel Salvado

clique na imagem sempre que quiser aumentá-la

Como tive oportunidade de realçar, em notas prévias às duas edições anteriores desta série de publicações, das três casas brasonada existente em Possacos, esta é a única cujo nome pelo qual é hoje vulgarmente designada, “o solar dos Machados”, se confirma, ainda que parcialmente, através de uma leitura das armas que se encontram representados no respectivo brasão.

O solar
Parece evidente que o imóvel se encontra um pouco descaracterizado relativamente à sua traça primitiva em consequência das obras de remodelação a que foi sendo sujeito ao longo dos tempos, mas talvez seja de sustentar que se trate do mais antigo solar da localidade de Possacos, como em 1943 admitiu o Padre João da Ribeira, em “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Terras de Montenegro”, trabalho publicado em várias edições no “Comércio de Chaves” (1939-1947) e reeditado recentemente na Revista “Aquae Flaviae”, ao descrevê-lo da seguinte forma:

«Das casas solarengas […], a que tem aspecto e feição de mais antiga, é uma que fica em um pequeno bairro, para além do Largo da Fonte e à margem esquerda da estrada que leva à Torre de Dona Chama. A sua entrada é um amplo portal encimado por uma cruz latina e pirâmides flamejantes, vendo-se ao lado, mas já ma parede do corpo do edifício, o brasão de armas em fina cantaria regional […] Em uma das salas desta casa, tivemos o ensejo de apreciar, no tecto em cúpula octogonal, uns curiosos frescos, representando cenas venatórias, acompanhadas de sentenças alusivas e de fundo moral, costume esse bem peculiar e característicos dos passados séculos XVI e XVII.»

Revista Aquae Flaviae, Chaves, nº14, 1995, pp. 167-168

Como se pode constatar, com alguma dificuldade, a partir da observação da foto que representa o estado actual do conjunto do edifício, o portal descrito pelo autor ainda existe, sem aparentes alterações estruturais (ao fundo na foto). A fachada encimada ao centro pela pedra de armas é constituída, na parte inferior esquerda, por uma porta de verga recta sobre a qual se erguem, dos lados, duas janelas sacadas e uma varanda de pedra assente sobre dois pares laterais de cachorros simples. No mesmo nível, do lado oposto existem mais duas janelas semelhantes, cada uma com sua varanda, do mesmo tipo. Alguns pormenores estéticos da sua fachada, como é o caso da cornija direita que enquadra em espirais simétricas a pedra de armas e que se encontra pintada de branco (na foto), sugerem uma construção de feição renascentista ou dela reminiscente, o que me induz, em favor da observação que nos ficou do Padre João da Ribeira na segunda parte do excerto que dele transcrevemos, remontar a construção original deste edifício pelo menos ao século XVII. Outro facto que pode estar associado a esta Casa solarenga, numa perspectiva ainda conjectural, é o da existência de uma capela da invocação de Santo António a que o pároco do Possacos, vigário Baltazar Fernandes de Figueiredo aludia num manuscrito das “Memórias Paroquiais de 1758” cuja transcrição para leitura actualizada foi publicada aqui no Clube de História de Valpaços, como estando situada “dentro do lugar” (de Possacos) e administrada por uma “Maria Machada” (leia-se Maria Machado) moradora no mesmo lugar. A relação foi-me sugerida por Rui Freixedelo, um genealogista com ascendentes em Possacos que num comentário à referida Memória Paroquial no blogue Clube de História de Valpaços e em contactos posteriores me informou possuir dados de uma Maria Machado, moradora nos Possacos cujo testamento em favor dos seus três filhos data de 1774. É possível que se trate da mesma pessoa e, posto que a prerrogativa que vemos ser-lhe reconhecida costumava caber, sobretudo tratando-se de senhoras, a pessoas de elevado estatuto social, também admito que a dita senhora pertenceria à família em posse do Solar dos Machados e que a referida capela se encontraria inserida nesta casa, como era ordinário suceder nas demais casas solarengas, a algumas das quais também se encontravam vinculadas outras capelas fora do seu espaço principal. Este será um dado a confirmar junto dos actuais proprietários do imóvel.

O brasão
O insigne erudito, apaixonado pela história e pela heráldica a que tenho vindo a recorrer, “João da Ribeira”, aliás Padre João Vaz de Amorim, refere no estudo já mencionado, mas de uma forma vaga e omissa quanto à fonte de informação que lhe serviu de base para essa referência, que “o velho solar pertenceu em tempos passados a uns senhores Machados, oriundos de Fornos de Pinhal, e à antiga família Carvalho, de Serapicos, freguesia das proximidades de Carrazedo de Montenegro”. No que respeita à família Carvalho não disponho do mínimo fundamento para refutar tal informação, mas se o solar em causa esteve na posse dessa antiga família não creio que essa posse sucedesse desde tempos antigos. Quanto aos Machados, procedendo da mesma leitura das armas representadas no brasão que o solar ostenta, não posso estar mais de acordo com tal informação, ainda que não me pareça suficientemente claro que a família Machado fosse oriunda de Fornos de Pinhal. A única relação que conheço de alguém com o sobrenome Machado, de Possacos, com Fornos de Pinhal é o documentado facto de Francisco Manuel Machado (filho de Maria Machado, atrás mencionada) ter sido casado, pela segunda metade do século XVIII, com Engrácia Maria Vilares da Fornos de Pinhal, dados genealógicos que me foram gentilmente fornecidos por Rui Freixedelo. Em todo o caso, prevalece a dúvida se estes Machado de Possacos serão da mesma família Machado a quem coube a posse do solar e a que ainda se deve o nome.
Estranhamente, talvez sugestionado pelas informações que atrás transcrevemos, “João da Ribeira” fez uma interpretação parcialmente errada da pedra de armas do “solar dos Machados” quando dela deixou as seguintes declarações:

«E, na verdade, no escudo esquartelado do brasão lá se acham as divisas dessas famílias, ou sejam – “os cinco machados postos em aspa e a estrela de ouro, entre uma quaderna de crescentes de crescentes de prata”.»

Como fui alertado, e muito bem, por Rui Freixedelo, quando lhe manifestei a minha estranheza por não se vislumbrar no escudo nenhum sinal das divisas da família Carvalho - que são, exactamente as que o Padre Vaz de Amorim refere – o que se afigura como mais evidente é que, para além das dos Machado (correctamente interpretadas) as restantes divisas serão das famílias Morais (com algumas reticências) e dos Alão (com a maior certeza). De facto, como se vê na pedra de armas apresentada na foto, que julgo ser datável do século XVII, o escudo não é sequer verdadeiramente esquartelado, mas antes partido (esquartelado só o é o partido das armas plenas dos Alão). A minha leitura da pedra de armas em causa é a seguinte:

Partido I – 1: MACHADO – (de vermelho), com cinco machados de prata (encabados de ouro) e postos em sautor ou aspa (X); 2: MORAIS* (?) – (de vermelho), com uma torre torreada (de prata) rematada por uma bandeira (que parece conter uma árvore).
Partido II – ALÃO** - esquartelado: o primeiro e o quarto quartel xadrezados (de ouro e vermelho), de seis peças em pala (na vertical) e seis em faixa (na horizontal); o segundo e terceiro (de campo azul), com cinco flores-de-lis (de ouro) postas em sautor ou aspa (X).
Timbre – A torre do escudo.

Faz portanto algum sentido que esta casa solarenga tenha pertencido primitivamente a uma família que poderia chamar-se de “Alão de Morais Machado”.


*Talvez não seja de estranhar que nas armas dos Morais não figure no escudo a árvore, pois a representação de árvores nos brasões de armas só se tornaram comuns no século XVIII (como a que se vê na pedra de armas dos Morais Pinto no Solar designado de António Terra, também em Possacos).

**Família pré-nacional proveniente de Bragança.


Para aceder a outros solares [local/regional] tratados neste blogue, clique AQUI

domingo, 1 de abril de 2012

Dia das mentiras 2012

"O Dia da Mentira, também conhecido como Dia dos Bobos, é celebrado no dia 1º de abril e é uma data onde as pessoas contam mentiras e pregam peças em seus conhecidos por pura diversão. O Dia da Mentira é comemorado por crianças e adultos, e existem brincadeiras que persistem por vários anos, alguns chegam a ser de humor negro, que são aquelas que ridicularizam e humilham as pessoas, mas em geral, são brincadeiras saudáveis."
In http://www.calendarr.com/brasil/

(2011)

sábado, 31 de março de 2012

302.º Aniversário de D. Mariana Vitória, rainha de Portugal

D. Mariana Vitória de Bourbon, rainha de Portugal,
retrato de Miguel António de Amaral (1710-1780)
 Museu Hermitage | Wikimedia Commons

Mariana Vitória de Bourbon nasceu em Madrid no dia 31 de Março de 1710, filha do rei de Espanha, Filipe V e de sua esposa D. Isabel de Parma. Prometida aos quatro anos em casamento ao futuro Luís XV de França, seu pai, desejoso de estabelecer uma aliança com a coroa portuguesa decidiu, em 1725, destiná-la a casar-se com herdeiro desta, o príncipe D. José, projecto que foi bem acolhido pelo rei de Portugal, D. João V que em 1727 enviou a Madrid o marquês de Abrantes, embaixador extraordinário, onde este obteve solenemente a mão da infanta, celebrando-se as cerimónias ante-nucpciais em 19 de Fevereiro de 1729.
Com a morte d’O Magnânimo em 1750, D. José subiu ao trono com sua esposa D. Mariana Vitória que assim se tornava na 32.ª Rainha de Portugal (5.ª da dinastia de Bragança), se exceptuarmos desta relação D. Ana Barbosa, esposa de D. António Prior do Crato cuja legitimidade como rei de Portugal é controversa. Em 1776 é D. Mariana Vitória nomeada Regente pelo marido, entretanto abalado por problemas de saúde e progressiva debilidade física que o levariam à morte no ano seguinte, sucendendo a D. José no trono de Portugal a sua filha herdeira D. Maria I, retirando-se sua mãe entretanto para Espanha e regressando a Lisboa onde feleceu em 15 de Janeiro de 1781. Jaz na Igreja de S. Francisco de Paula.
Das principais virtudes desta rainha de Portugal originária da Casa de Bourbon, destaca-se o seu espírito de temperança manifestado desde cedo e ainda em vida de D. João V, havendo na sua correspondência com seus familiares espanhóis referências reprobatórias dos gastos indevidos e excessivos do sogro. Além disso foi uma rainha menos timorata do que conciliadora empenhada em assegurar as melhores relações entre os dois Estados Ibéricos, sendo sob sua influente diligência que o 2º Tratado de El Pardo, em 1778, celebrado entre D. Maria I e Carlos III de Espanha, chegou a bom termo, estabelecendo-se o necessário consenso quanto à questão dos limites entre as duas soberanias no território da América e estipulando-se o casamento entre do infante D. João, de Portugal, com a infanta D. Carlota Joaquina, das Astúrias, e o da infanta D. Mariana Vitória Josefa com o infante D. Gabriel, irmão do príncipe das Astúrias. Julga-se que terá contribuído para atenuar algumas manifestações fanáticas alimentadas pela filha, D. Maria I, decorrentes do profundo espírito religioso desta e do traumático efeito que sobre ela exercera o atentando contra a vida de seu pai.

sexta-feira, 30 de março de 2012

520.º Aniversário da expulsão dos judeus de Castela e o reforço das comunidades criptojudaicas em Trás-os-Montes

Por Leonel Salvado

Expulsão dos judeus de Espanha em 1492,
xilogravura, posteriormente colorida, de Michaly Von Zichy, 1880, AKG Imagens/Latins Tock
 http://www2.uol.com.br/historiaviva

Celebram-se amanhã os 520 anos do acontecimento a que me reportarei em primeiro lugar. Por provisão assinada em Alhambra, a 31 de Março de 1492 os reis católicos, Isabel e Fernando, determinaram a expulsão dos judeus do reino de Castela. A determinação, conhecida como o “decreto de Alhambra” estabeleceu na realidade, segundo Joaquim Veríssimo Serrão (Historia de Portugal, Verbo, Vol. II pp.261-262), que nessa data “os judeus que não quisesses converter-se teriam de sair daquele reino até o fim de Julho, levando os seus bens com excepção de ouro, pratas e moedas. Supõe o mesmo historiador que apartir de então “cerca de 30 000 famílias, num total aproximado de 150 00 pessoas deixaram a Espanha, vindo a maior parte, ao redor de 90 000 para o reino vizinho. Mais informa veríssimo Serrão que D. João II lhes abrira cinco postos de entrada dentre os quais Bragança com a obrigação de os fugitivos pagarem uma taxa de 8 cruzados, taxa reduzida à metade para as crianças e os oficiais mecânicos, caso contrário sujeitar-se-iam a ficar cativos. Mais estabeleceu o monarca português um prazo de oito meses para abandonarem o reino, a menos que pagassem uma contribuição elevada, o que aconteceu com as famílias mais abastadas. Diz-nos também Joaquim Veríssimo Serrão que a maior parte dos judeus de Castela-a-Velha se estabeleceu em Trás-os-Montes, deixando marcas nos seus apelidos da sua origem geográfica, tais como Leão, Burgos, Ledesma, Soria e Valhadolid. Convém que se diga que a presença do povo mosaico em Trás-os-Montes remonta a épocas anteriores, pois como sublinha o historiador que temos seguido até aqui, na segunda metade do século XV - cremos que se refere a um qualquer momento anterior ao “decreto de Alhambra” – assinalam-se comunas de judeus em Miranda do Douro, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e Vila Flor, entre outras. E o mesmo já se passava segundo a mesma fonte no século XIV em Bragança e Mogadouro – para nos cingirmos apenas a Trás-os-Montes (Id. Vol I, p 340).
Resulta do exposto, o que aliás é corroborado em outras fontes, que devemos considerar no tecido social de ascendência judaica em Trás-os-Montes comunidades de dupla composição: uma autóctene e outra castelhana. É essa a realidade que vem sendo confirmada cientificamente por um estudo recente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, coordenado por António Amorim, que abordaremos mais adiante.
Aos judeus autóctenes de Trás-os-Montes, maioritariamente estabelecidos no actual distrito de Bragança, juntaram-se outros judeus provenientes de Castela que pela suas características somáticas dificilmente se distinguiam, pois eram ambas as comunidades descendentes dos “Sefarditas” (do ramo semita), cripto-judeus ibéricos designados por “anussim”, designação que deriva de “B’nei anussim” ou “Ben anus” com os significados de” filhos forçados” ou “filho forçado” ou, ainda mais comumente designados por “judeus marranos”.

Uma das localidades que tem servido de paradigma para a questão da ascendência dos “anussim” é Vilarinho dos Galegos, uma freguesia do concelho de Mogadouro a que tem atribuído uma certa exclusividade nesse âmbito. Contudo, Carlos Baptista publicou um artigo na página da “Comunidade Masorti” de Lisboa que, sem negar a relação daquela comunidade com a cultura judaica, integra-a num conjunto de outras localidades igualmente relacionadas com as antigas comunidades ”anussim”, a grande maioria delas pertencentes ao distrito de Bragança. Trata-se de um artigo de grande interesse sobre esta temática que entendemos transcrever.


«Vilarinho dos Galegos, uma exclusividade no panorama transmontano?

Não, de facto não o é, e não será de modo nenhum uma situação única no que respeita à presença dos “anussim” a nível regional.
Trás-os-Montes até pela sua localização geográfica, sempre foi uma espécie de “abrigo seguro” para as suas gentes, e uma barreira difícil de transpor até para os próprios emissários do Santo Ofício.
Por lá se instalaram comunidades judaicas, mesmo antes do nascimento de Portugal como nação, e nos finais do século XV, houve uma enorme vinda de judeus de Espanha para toda aquela região fronteiriça.
Chacim, Carção, Vimioso, Orjais, Chaves, Bragança, Mogadouro, Rebordelo, Valpaços e Mirandela, entre outras localidades, e neste caso Vilarinho dos Galegos, são alguns bons exemplos de povoações transmontanas, onde é bem visível ainda a presença judaica em algumas casas, na gastronomia, e nas suas orações religiosas. Se Vilarinho dos Galegos, integrada no concelho de Mogadouro, poderá não ser uma exclusividade histórica, pelo menos é sem dúvida um dos marcos da perseverança e da tenacidade dos “anussim” em Portugal. Possuidores de tradições e de ritos mais ou menos secretos, eles continuam a perpetuar um pouco a alma e a herança do povo de Israel em terras de “Sefarad”.
Vilarinho conta hoje com um número de habitantes que não chegará às três centenas, e actualmente por toda aquela região, ainda são conhecidos por “judeus”.
Numa nota final, e para quem aprecia e dá valor à memória de uma população que persiste em salvaguardar a sua cultura, os “Novos Contos da Montanha”, do escritor Miguel Torga, são de facto uma leitura obrigatória para se conhecer este interessante fenómeno, que são os “anussim” de Trás-os-Montes.»

Carlos Baptista, “Comunidade Judaica Masorti de Lisboa”
In http://www.beitisrael.org

Muito interessante também e, aliás em conformidade com a informação que se retira do artigo anterior é estoutro artigo sobre um amplo estudo científico “destinado a traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita” e que no que toca à “caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança” já chegou a surpreendentes resultados. Vale a pena ler e aguardar pelos novos desenvolvimentos deste trabalho.

«Judeus de Trás-os-Montes mantêm perfil genético

Um estudo recente, coordenado por António Amorim, do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), vem demonstrar que a comunidade de descendente de judeus, em Trás-os-Montes, conseguiu manter uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto.
É a primeira vez que a composição genética dos judeus portugueses do Norte é analisada e a conclusão aponta para um baixo nível de contaminação por mistura de sangue e para a preservação de genes judaicos.
Pode falar-se de uma comunidade transmontana de proveniência judaica com dupla composição: uma autóctone e outra castelhana, robustecida pela expulsão dos judeus de Castela, em 1492, e pela fuga à Inquisição do reino vizinho. Após os decretos de expulsão/conversão forçada (por D. Manuel I, em 1496) e após três séculos de Inquisição, este estudo pretende traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita.
Ainda não está concluído, mas já foram lançados alguns resultados preliminares que se relacionam com a zona de Trás-os-Montes: está feita a caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança.
Para a elaboração deste estudo foram analisados 57 indivíduos (das aldeias de Carção e Vilarinho dos Galegos; vila de Argoselo; Cidades de Bragança e Mogadouro) que se assumiam como possuindo ancestralidade `judaica`.
De acordo com o coordenador do estudo, António Amorim, foram detectadas em comunidades do distrito de Bragança “linhagens típicas do Próximo Oriente dez vezes mais frequentes do que no resto do país que se identificam como sendo de origem judaica”. Pode dizer-se, continua António Amorim, “que houve manutenção de uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto, mas que não corresponde a um isolamento total”. Quanto à interpretação destes dados, o investigador prefere “esperar pelos resultados das linhagens femininas para (re)analisar essas questões”, sendo que, de qualquer modo, "o nível histórico e sociológico dessa análise será feito por especialistas nessas áreas”. O estudo emergiu de uma análise do cromossoma Y (masculino), passado exclusivamente de pai para filho, e denunciou uma diversidade muito elevada de linhagem, com uma incorporação de genes não-judaicos relativamente pequena e a ausência de um acentuado desvio genético. Falta agora tentar perceber como é que estas comunidades evitaram a mistura de genes, previsível durante séculos de repressão religiosa.
Este estudo tem, no entanto, uma amplitude mais vasta. Abraça o crescente interesse, em várias áreas científicas, pela reconstituição de migrações, nomeadamente das populações judaicas que constituem um paradigma de comunidades em migração constante. O projecto focou um subconjunto bem limitado desses movimentos: o das comunidades judaicas da Ibéria depois do século XVI, quando esta minoria demograficamente importante foi forçada a escolher entre a conversão e o exílio. Pretende utilizar marcadores genéticos de populações actuais para inferir a demografia histórica das comunidades que permaneceram na Ibéria e daquelas que migraram para a Europa do Norte e para o Novo Mundo.»

in http://www.fc.up.pt

Para quem se interessa por esta temática - Os judeus em Trás-os-Montes - sugerimos que visite regularmente o blogue com este título, AQUI.

90.º Aniversário da partida de Sacadura Cabral e Gago Coutinho para a primeira travessia aérea do Atlântico Sul

Partida do Lusitânia com Sacadura Cabral e Gago Coutinho, Lisboa, 1922
http://pt.wikipedia.org | http://www.fotolog.com.br

Já nos reportámos a esta efeméride na nossa publicação no dia 17 de Junho de 2010, intitulado “A primeira travessia aérea do Atlântico-Sul, que é uma abordagem geral a este glorioso feito de Sacadura Cabral e Gago Coutinho na História da Aeronáutica Mundial e que contém ainda as resenhas biográficas de cada um destes protagonistas.
Para ver ou rever este assunto clique