terça-feira, 8 de maio de 2012

As freguesias do concelho de Valpaços no Tribunal do Santo Ofício


Para que os nossos visitantes possam aceder mais facilmente ao documento ou documentos que pretendam consultar deste conjunto documental que temos vindo a pesquisar e a transcrever, entendemos proporcionar-lhes um acesso mais cómodo através dos atalhos respectivos às freguesias a que cada um desses documentos se relaciona. De futuro poderão aceder a este "Menú" a partir da barra lateral do presente blogue. Convém que se diga que até ao presente apenas conseguimos reunir documentação, na maioria dos casos sumária sobre pessoas que nasceram ou residiram – ou ambas as coisas – em 17 das 31 freguesias que integram o concelho de Valpaços.
Esta série documental que se encontra entre o acervo do Arquivo Nacional da Torre do Tombo do qual subscrevemos aqui no Clube de História de Valpaços a designação genérica de “Tribunal de Santo Ofício” será apresentada em duas categorias distintas designadas, também em conformidade com ANTT – Digitarq - DGA, como DILIGÊNCIAS DE HABILITAÇÃO e PROCESSOS referentes a pessoas que nasceram e/ou viveram em Valpaços e noutras freguesias do actual concelho e se viram envolvidas, em situações opostas, no Tribunal do Santo Ofício. No primeiro caso, os documentos relacionam-se com pessoas que se propuseram à admissão entre os “familiares do Santo Ofício”, às quais, uma vez reconhecidas as suas habilitações completas, cabia a responsabilidade de assegurar o funcionamento da máquina inquisitória nas localidades ou regiões em que residiam, denunciando e executando as prisões dos suspeitos de heresia, confiscando os bens dos condenados e cumprindo com todas as diligências ordenadas pelos inquisidores. No segundo caso, os documentos referem-se às pessoas que se encontravam no campo oposto, o dos acusados de crimes de heresia, em função de uma multiplicidade de actos praticados, acusações que podiam variar entre a blasfémia, o perjúrio, a bigamia, práticas de feitiçaria e judaizantes, entre outras estigmatizadas pela Igreja católica e seus mais acérrimos devotos. Estes documentos são um claro indicador da existência de numerosas comunidades de cristãos-novos (cripto-judeus) em certas freguesias do actual concelho de Valpaços pelos séculos XVII e XVIII, com mais representatividade em Carrazedo de Montenegro e, sobretudo, Lebução. Convém que se diga que estas duas últimas localidades adquiriram nos séculos XVIII e XIX particular dinamismo e prosperidade para o que muito contribuiu, decerto, a presença, nelas, dos “cristãos-novos” que, como se sabe, eram, na generalidade, pessoas abastadas e ligadas aos ofícios mais proveitosos e dinamizadores da economia local e regional (haja em vista nos documentos que se seguem as suas referências profissionais mais comuns: “mercadores”, “rendeiros”, “homens de negócios”…) e que se foram integrando no tecido social das mesmas localidades e da província de Trás-os-Montes, não obstante a repressão que sobre eles exercia a Santa Inquisição, como primordialmente se conclui dos mesmos documentos. Os documentos que não dispõem de representação digital, que são a maioria, são aqui apresentados na forma sinóptica e, portanto reproduzidos directamente a partir da fonte. Os restantes são apresentados em transcrições realizadas para o Clube de História de Valpaços e da responsabilidade do respectivo autor da dessas transcrições.

segunda-feira, 7 de maio de 2012

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – VILARANDELO

Por Leonel Salvado



PROCESSO DE DIOGO DE ROXAS

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/05214
DATAS DE PRODUÇÃO
1682-01-18  a 1682-02-04

ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto Social: Cristão-Novo
Crime/Acusação: Judaísmo; Heresia; Apostasia
Estatuto Profissional: Mercador
Naturalidade: Chacim
Situação Geográfica (Naturalidade): Bispado de Miranda
Morada: Vilarandelo
Situação Geográfica (Morada): Chaves - Arcebispado de Braga
Pai: Pedro Fernandes, Curtidor
Mãe: Isabel Lopes
Estado Civil: Casado
Nome do Cônjuge: Isabel do Vale
Data da Prisão: 15/04/1679
Data da Sentença: 18/01/1682
Data do Auto de Fé: 18/01/1682

Outros Dados: R.C.; FORAM PASSADOS AO RÉU TERMOS DE SOLTURA E SEGREDO EM 1682-01-21 E DE IDA EM 1682-02-04.

COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 5214

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – TINHELA

Por Leonel Salvado


PROCESSO DE GONÇALO MARTINS

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/02247
DATAS DESCRITIVAS
26/05/1660

ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto Social: Cristão-Velho
Crime/Acusação: Impedir o recto ministério do Stº ofício
Estatuto Profissional: Almocreve
Naturalidade: Tinhela
Situação Geográfica (Naturalidade): Monforte de Rio Livre - Bispado de Miranda
Morada: Torre de Moncorvo
Situação Geográfica (Morada): Arcebispado de Braga
Pai: Pedro Gonçalves da Igreja, Lavrador
Mãe: Inês Martins
Estado Civil: Casado Nome do Cônjuge: Juliana Cardoso
Data da Prisão: 28/08/1658

Outros Dados: M.M.C.; O PROCESSO NÃO TEM A DATA DA PUBLICAÇÃO DA SENTENÇA; FOI PASSADO AO RÉU TERMO DE SOLTURA E SEGREDO EM 1660-05-26.

COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 2247


PROCESSO DE GONÇALO MARTINS [o mesmo]

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/12463
DATAS DESCRITIVAS
28/08/1658

ÂMBITO E CONTEÚDO
Acusado(a) de IMPEDIR O RECTO MINISTÉRIO DO Stº OFÍCIO, com a profissão de ALMOCREVE, natural de TINHELA, de 28 anos de idade, filho de PEDRO GONÇALVES DA IGREJA, LAVRADOR e de INÊS MARTINS, CASADO com JULIANA CARDOSO. Sentença: 1 ANO DE DEGREDO PARA FORA DE SUA VILA E TERMO (TORRE DE MONCORVO).

COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 2247

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – SONIM

Por Leonel Salvado


DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE INÁCIO JOSÉ MACHADO DE ABREU

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-CG/A/008-002/2211
DATAS DE PRODUÇÃO
1768  a 1768

ÂMBITO E CONTEÚDO
Pretendente a secretário do Exército e Governo das Armas da Província de Trás-os-Montes, natural de Chaves, filho de João António de Abreu e de Joana Alves, natural de Sonim; neto paterno de Tomé de Abreu Machado e de D. Joana de Castro e Andrade; e materno de António Borges e de Maria Alves.

COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações Incompletas, doc. 2211


DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE JOÃO ALVES

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-CG/A/008-002/2359
DATAS DE PRODUÇÃO
1793  a 1793

ÂMBITO E CONTEÚDO
Pretendente a [...], natural de Sonim, morador em ..., filho de ..., irmão de Francisco Xavier, também habilitando, viúvo de Maria José Fernandes.

COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações Incompletas, doc. 2359

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – SÃO JOÃO DA CORVEIRA

Por Leonel Salvado


PROCESSO DE BALTASAR DE SOUSA

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/00152
DATAS DE PRODUÇÃO
1711-06-01  a 1718-10-18

ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto social: cristão-velho
Idade: 50 anos
Crime/Acusação: impedir o recto ministério do Santo Ofício, perjúrio
Cargos, funções, actividades: lavrador
Naturalidade: Paradela da Veiga, arcebispado de Braga
Morada: São João da Corveira, arcebispado de Braga
Pai: Leonardo Vaz de Sousa, vivia de sua fazenda
Mãe: Águeda Gonçalves
Estado civil: casado
Cônjuge: Antónia Francisca de Carvalho
Data da prisão: 18/06/1711
Sentença: auto-de-fé de 06/08/1713. Degredo para Angola, por seis anos, pagamento de sessenta mil reis à pessoa contra quem jurou falsamente, penitências espirituais, pagamento de custas.
Por despacho de 13/10/1718, foi perdoado ao réu o tempo que lhe faltava cumprir do degredo em Angola.
Contém certidão de 14/03/1714, relativa a alguns réus a serem entregues na cadeia do Porto, f. 185.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 152

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – SANTA MARIA DE ÉMERES

Por Leonel Salvado



DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE MARTINHO DE MAGALHÃES COUTINHO

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-CG/A/008-002/4793
DATAS DE PRODUÇÃO
1713  a 1713
ÂMBITO E CONTEÚDO
Pretendente a familiar, natural de Santa Maria de Emeres, morador em Cachoeira, Baía (Brasil), filho de Salvador Lopes, natural da mesma freguesia e de Antónia Magalhães, natural de Água River ou Reves; neto paterno de Francisco Fernandes Cavaco, natural de Arnóia, e de Domingas de Mesquita, natural de Trancoso; neto materno de Fernão Cardoso, natural do lugar do Cadouço, freguesia de S. Pedro; e de Maria de Andrade, natural de Água Reves.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações Incompletas, doc. 4793

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – PADRELA

Por Leonel Salvado



PROCESSO DE LUÍS GONÇALVES DIAS

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/03223
DATAS DESCRITIVAS
23/05/1785
ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto Social: [Cristão-Velho]
Crime/Acusação: Superstição
Estatuto Profissional: Boticário
Naturalidade: Sesulfe
Situação Geográfica (Naturalidade): Valença - [Arcebispado de Braga]
Morada: Padrela
Situação Geográfica (Morada): Arcebispado de Braga
Pai: António Martins
Mãe: Maria Lopes
Estado Civil: Viúvo
Nome do Cônjuge: Catarina de Sá
Data da Apresentação: 19/05/1785
Outros Dados: M.C.; TERMO DE REPREENSÃO: 1785-05-23.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 3223

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – FIÃES

Por Leonel Salvado


PROCESSO DE ISABEL DE ALVARENGA

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/02288
DATAS DE PRODUÇÃO
1662-07-05  a 1662-07-29

ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto Social: 1/2 Cristã-Nova
Crime/Acusação: Judaísmo; Heresia; Apostasia
Naturalidade: Fiães
Situação Geográfica (Naturalidade): Bispado de Miranda
Morada: Lebução
Situação Geográfica (Morada): Bispado de Miranda
Pai: Sebastião de Alvarenga
Mãe: Isabel Dias
Estado Civil: Casada
Nome do Cônjuge: Jerónimo Álvares, Barbeiro
Data da Apresentação: 05/[07]/1662
Data da Prisão: 08/07/1662
Data da Sentença: 09/07/1662
Data do Auto de Fé: 09/07/1662
Outros Dados: M.C., FOLHAS SOLTAS; EM 1662-07-29, FOI-LHE DADA LICENÇA PARA SE IR.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 2288


PROCESSO DE PAULO DE ARAÚJO

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/09599
DATAS DE PRODUÇÃO
1666-03-08  a 1666-03-18
ÂMBITO E CONTEÚDO
Estatuto Social: Cristão-Velho
Crime/Acusação: Proposição errónea, quase herética
Estatuto Profissional: Sacerdote; Cura Na Igreja de Fiães (Monforte de Rio Livre)
Naturalidade: Castanheira
Situação Geográfica (Naturalidade): Monforte de Rio Livre - Bispado de Miranda
Morada: Stª Cruz da Castanheira
Situação Geográfica (Morada): Monforte de Rio Livre - Bispado de Miranda
Pai: António de Araújo [Roda], Vivia de Sua Fazenda
Mãe: Maria Soares de Morais
Estado Civil: Solteiro
Data da Apresentação: 08/03/1666
Data da Sentença: 18/03/1666
Outros Dados: M.C., MANCHADO, COM A 1ª FOLHA SOLTA; O RÉU APRESENTOU-SE APÓS NOTIFICAÇÃO.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 9599

DOCUMENTOS: Tribunal do Santo Ofício – ERVÕES

Por Leonel Salvado


DILIGÊNCIA DE HABILITAÇÃO DE JOÃO GONÇALVES

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-CG/A/008-002/2605
DATAS DE PRODUÇÃO
1755  a 1770
DIMENSÃO E SUPORTE
EXTENSÕES
ÂMBITO E CONTEÚDO
Natural de Valongo, freguesia de Ervões, filho de Miguel Afonso e de Ana Martins.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Conselho Geral, Habilitações Incompletas, doc. 2605


PROCESSO DE DOMINGOS DE FONTES

CÓDIGO DE REFERÊNCIA
PT/TT/TSO-IC/025/07144
DATAS DE PRODUÇÃO
1709-06-15  a 1709-08-30

ÂMBITO E CONTEÚDO
Outros Nomes: Domingos Gonçalves
Estatuto Social: [Cristão-Velho]
Crime/Acusação: Solicitação
Estatuto Profissional: Capelão da Religião de Malta; Vigário da F. de S. João Baptista de Ervões
Naturalidade: Fontes
Situação Geográfica (Naturalidade): Arcebispado de Braga
Morada: Ervões
Situação Geográfica (Morada): Chaves - Arcebispado de Braga
Código Idade: 37 Ou 38 Anos
Pai: Gonçalo Gonçalves Fontes, Lavrador
Mãe: Maria Rodrigues
Estado Civil: Solteiro
Data da Apresentação: 15/06/1709
Data da Sentença: 30/08/1709
Outros Dados: M.C.; O RÉU APRESENTOU-SE, FOI OUVIDO E, EM 1709-06-18, TEVE LICENÇA PARA SE IR; NOTIFICADO, APRESENTOU-SE, PELA 2ª VEZ, EM 1709-08-03; RECONCILIADO, FOI-LHE PASSADO TERMO DE SEGREDO E LICENÇA EM 1709-08-31.
COTA ACTUAL
Tribunal do Santo Ofício, Inquisição de Coimbra, proc. 7144

domingo, 6 de maio de 2012

As freguesias do actual concelho de Valpaços nos meados do século XVIII – Administração, População e Economia - 1ª Parte


Por Leonel Salvado



1. ADMINISTRAÇÃO

1.1. O concelho de Valpaços

O Concelho de Valpaços é o resultado de um contínuo processo de reformas administrativas da época liberal no país, inspiradas nas reformas que já haviam sido preconizadas por Mouzinho da Silveira, apontadas no mesmo sentido democrático e descentralizador da administração pública e implementadas também na antiga Província de Trás-os-Montes que passou nos meados do século XIX a ser integrado pelos distritos administrativos de Vila Real, de que faz parte, e de Bragança.

O processo acima referido foi gradual, mas foram precisos apenas 62 anos para que o concelho adquirisse a estrutura que ainda hoje mantém.
Foi por Decreto de 6 de Novembro de 1836, emanado do ministério setembrista de Manuel da Silva Passos (Passos Manuel), que a então aldeia de Valpaços se viu elevada a sede de concelho constituído pela freguesia com o mesmo nome, sob a designação de freguesia de Santa Maria de Valpaços, e as localidades anexas de Lagoas, Valverde e Vale de Casas.
Após um novo código administrativo promulgado pelo mesmo Ministro, em 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1836, abriram-se claras perspectivas para um futuro engrandecimento da história do municipalismo valpacense.
Com efeito, logo em 27 de Setembro de 1837, por carta de lei, eram integradas no concelho de Valpaços as freguesias de Santiago da Ribeira de Alhariz, Ervões, Friões, Lilela, Possacos, Rio Torto, Sanfins Vassal e Vilarandelo, que pertenciam ao termo de Chaves, bem como a de Argeriz, retirada do termo de Carrazedo de Montenegro, e Fornos do Pinhal, ao de Monforte de Rio Livre.
Dezasseis anos depois, o Decreto de 31 de Dezembro de 1853 extinguia os concelhos de Carrazedo de Montenegro e Monforte de Rio Livre e determinava a transferência das freguesias dos respectivos termos, no todo e em parte, respectivamente, para o concelho e comarca (que o mesmo diploma instituía) de Valpaços.

Divisões administrativas no actual Distrito de Vila Real
1840 – 1860
(clique sobre a área dos mapas para os aumentar)
FONTE: Mapas – Fernando de Sousa, “População e economia do distrito de Vila Real em meados do século XIX” in “ESTUDOS TRANSMONTANOS”, BPAD, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Vila Real, N.º1, 1983, pp. 16 e 17

De Monforte passaram para Valpaços as freguesias de Alvarelhos, Barreiros, Bouçoais, Fiães (inicialmente integrada no concelho de Chaves e passada ao de Valpaços a 24 de Outubro de 1855), Nozelos, Santa Valha, Sonim, Tinhela e Lebução, sendo de notar que era a localidade de Lebução que, desde 1836 vinha substituindo a Vila de Monforte do Rio Livre, à cabeça do concelho desta que, prevalecendo porém a mesma designação fosse por força do costume ou por respeito à antiguidade da praça-forte.
Do concelho de Carrazedo de Montenegro, passaram ao de Valpaços, além da própria sede, agora extinta, as freguesias de Água Revés (concelho extinto pelo mesmo decreto de 31 de Dezembro de 1836), Canaveses, Padrela e Tazém, Santa Maria de Émeres, São João de Corveira, São Pedro de Veiga do Lila, Serapicos, Jou, Curros e Vales.
Em 1896 Jou, Curros e Vales foram anexadas a Murça, em resultado de uma jogada política do candidato regenerador à eleição pelo círculo de Alijó, Teixeira de Sousa, mas dois anos depois, sob o governo do Partido Progressista de Luciano de Castro, as duas últimas freguesias são reintegradas no concelho de Valpaços.
Com tão vasto termo municipal, Valpaços foi elevado à categoria de Vila, com o nome de Valpassos, por Decreto Real de D. Pedro V, datado de 27 de Março de 1861. Finalmente, no dia 13 de Maio de 1999 foi a Vila elevada à categoria de Cidade.
Como se poderá concluir do exposto, anteriormente ao dia 6 de Novembro de 1836, efusivamente comemorado todos os anos pela Autarquia de Valpaços, a situação administrativa das terras que a compõem - típica do Antigo Regime -, era bastante diferente!


1.2. DIVISÃO ADMINISTRATIVA CIVIL - DOS MEADOS DO SÉCULO XVIII À 1.ª METADE DO SÉCULO XIX

Em 1758 as freguesias que compõem o actual concelho de Valpaços, no distrito de Vila Real, encontravam-se distribuídos pelos concelhos de Chaves, Monforte de Rio Livre e Água Revés, tendo sido, este, concelho sobre si com jurisdição donatarial da Casa de Murça. Este último concelho, cujo senhorio pertenceu Luís Guedes de Miranda, acabou por cair em posse da Coroa por falecimento daquele último administrador da antiga Casa de Murça em 29 de Fevereiro de 1758 e por falta de sucessão legítima, juntamente com os restantes domínios da mesma Casa. Por essa razão entendi não levá-lo em conta nas representações cartográficas relativas à evolução da divisão territorial por concelhos que a seguir exponho. Convém contudo observar, como o fez e muito bem A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços, que se manteve como Vila e sede de concelho até à sua extinção em 6 de Novembro de 1836, pelo mesmo Decreto que instituiu o concelho de Valpaços, passando entretanto para o Concelho de Carrazedo de Montenegro até 31 de Dezembro 1853, data do Decreto em que se determinou também a extinção deste.  

Divisão administrativa nos meados do século XVIII
1758 – c. 1820
(clique sobre o mapa para o aumentar)
FONTES:
1 - Mapa – Id. Ibid. p. 16. (adaptado)
2 - Leonel Salvado, “O concelho de Valpaços nas Memórias Paroquiais de 1758”, in “Clube de História de Valpaços”
http://clubehistoriaesvalp.blogspot.pt/


Distribuição das freguesias do actual concelho de Valpaços
1758
(clique sobre a tabela para a aumentar)
FONTE: Leonel Salvado, Ibid.

Pelos inícios do século XIX esta divisão administrativa assim compreendida sofreria novas alterações. Restaurado o concelho de Carrazedo de Montenegro que fora criado por carta de foral de D. Dinis em 1301, e sendo-lhe renovada a categoria de Vila e de cabeça de julgado, ainda que continuando sujeito à comarca de Chaves, Carrazedo de Montenegro compôs o seu termo com a recuperação das antigas “terras de Montenegro” que haviam sido agregadas aos concelhos de Chaves, Vila Pouca de Aguiar e Murça. E entre elas encontravam-se algumas freguesias que hoje pertencem ao concelho de Valpaços.
As paróquias de Nossa Senhora da Expectação de Crasto, São Lourenço de Lilela, São Salvador de Nozedo, Nossa Senhora da Assunção de Tazém e São Lourenço de Vilartão constituíam freguesias independentes até às reformas administrativas liberais do século XIX empreendidas em 1837 e em 1853 por força das quais foram anexadas às freguesias de Água Revés e Crasto, Rio Torto, São João da Corveira, Padrela e Tazém e Bouçoais, respectivamente, assim como se encontram hoje.


Divisão administrativa na 1.ª metade do século XIX
c. 1820 – 1837*(1853**)
(clique sobre o mapa para o aumentar)
FONTES:
1 - Mapa – Fernando de Sousa. Ibid. p. 16. (adaptado)
2 - Leonel Salvado, Ibid.
* Carta de Lei de 27 de Setembro de 1837
** Decreto de 31 de Dezembro de 1853


Distribuição das freguesias do actual concelho de Valpaços
c. 1820 – 1837*(1853**)
(clique sobre a tabela para a aumentar)
FONTES: Leonel Salvado, Ibid.
* Carta de Lei de 27 de Setembro de 1837
** Decreto de 31 de Dezembro de 1853

(clique sobre a área dos gráficos para os aumentar)



1.3 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA ECLESIÁSTICA NOS MEADOS DO SÉCULO XVIII

José Viriato Capela, no seu trabalho “As freguesias do Distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758, Memórias, História e Património”, refere a importância que no quadro territorial e social das comunidades rurais do Antigo Regime se revestiam a aldeia ou o lugar, enquanto células da vida social e agrária por excelência.
Simultaneamente, ao longo dos tempos, entre os séculos XV a XVIIII, a paróquia afirmava-se como “a principal instituição de organização sócio-política das comunidades locais portuguesas”. Por esse tempo a maior parte das comunidades do actual distrito de Vila Real pertencia ao Arcebispado de Braga. Porém no seu quadrante setentrional as paróquias que hoje compõem os concelhos de Chaves e Valpaços passaram a repartir-se entre aquela arquidiocese e a diocese de Miranda do Douro desde a criação desta a 23 de Março de 1535. Nos meados do século XVIII, as freguesias da diocese bracarense nesta mesma área transmontana enquadravam-se na comarca de Chaves (que eram também do termo desta Vila) ao passo que as que transitaram para a diocese de Miranda do Douro (do termo da Vila de Monforte de Rio Livre) pertenciam à comarca de Moncorvo.

Articuladas com a paróquia, ao longo do mesmo período, encontravam-se a Coroa e a Ordem Senhorial, através do município e da ordem municipal. Os municípios apenas intermediavam a Coroa e a Ordem Senhorial na implementação dos meios para garantir o seu poder económico e os seus meios financeiros e a ordem e poder público régios – a fiscalidade e a estruturação de serviços de justiça saúde e defesa. Esta relação de poderes que as câmaras estabeleciam com as comunidades e que na expressão do mesmo autor, José Viriato Capela, era “uma relação politico – fiscal – senhorial – rentista, que decorria de uma dinâmica senhorial e individualista”, foi em grande parte também, uma realidade nas freguesias que actualmente fazem parte do concelho de Valpaços, o que se vê pelas respostas de uma variedade de párocos memorialistas aos Inquéritos paroquiais de 1758. Assim, com base nas informações dos mesmos párocos constata-se que as jurisdições comarcãs e concelhias de algumas destas freguesias estiveram, em maior ou menor dependência, em poder dos respectivos donatários, como os condes de Atouguia a quem, entre outras jurisdições, asseguraram as do concelho de Monforte de Rio Livre, ao passo que o concelho de Chaves pertencia directamente à Casa de Bragança e o de Água Revés à Casa de Murça, como atrás referi. Tal situação tinha evidentes repercussões no exercício da justiça e nas categorias das magistraturas. Apesar de nos meados do século XVIII surgirem referências a juízes eleitos nas freguesias, juízes de vintena ou juízes pedanios (“espadanios” era a expressão corrente) e quadrilheiros, que podem ser entendidos como sinais de relativa autonomia nas comunidades paroquiais, nas freguesias cujas jurisdições pertenciam à Coroa e os respectivos párocos nunca deixaram de realçar, aludindo à “Sereníssima Casa de Bragança”, era mais comum elas estarem sujeitas ao Juiz de Fora, de nomeação régia (como sucedia nas freguesias do concelho de Chaves), ao passo que naquelas em que a jurisdição ainda cabia, por direito, às referidas Casas Senhorias, os donatários, predominavam os Juízes ordinários, eleitos anualmente pelos povos e câmaras sob anuência dos respectivos Senhores, obrigados a residir nas respectivas comarcas ou nos concelhos onde exerciam, em acção conjunta ou “sujeita aos ministros da cabeça de comarca” (Memórias Paroquiais, Barreiros, 1758, Valpaços) e podendo ser acompanhados de outros magistrados, conforme os casos (como sucedia nas freguesias do termo de Monforte de Rio Livre, da Casa de Atouguia). Mas só a partir da segunda metade do século XVIII, sob o Estado Pombalino, é que esta relação de poderes começou a ser progressivamente desmantelada com vista ao estabelecimento de uma relação mais directa do Estado com os povos.

Cumpre ainda referir, neste mesmo contexto das relações de poder da organização administrativa dos meados do século XVIII no espaço do actual concelho de Valpaços, a existência de algumas abadias ou benefícios eclesiásticos nem sempre conformes com os limites definidos pela divisão administrativa civil, o que logo se verifica pela variedade dos títulos dos respectivos párocos – reitores, abades, vigários e curas.

Organização administrativa e eclesiástica no território do actual concelho de Valpaços
1758
(clique sobre a tabela para a aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Distribuição dos títulos paroquiais
(valores percentuais dos titulares e das freguesias)
1758
(clique sobre a área dos gráficos para os aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Jurisdições senhoriais
(Coroa e donatários/comendadores)
1758
(clique sobre o gráfico para o aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Dia da Mãe 2012

(clique sobre a imagem para aumentá-la)

Comemora-se hoje o Dia da Mãe em Portugal. O «Dia das Mães» em Portugal era comemorado até há alguns anos, a 8 de Dezembro, mas passou a ser celebrado no 1.º Domingo de Maio em homenagem a Maria, mãe de Jesus. As mães recebem presentes, mensagens e flores, numa celebração que reúne toda a família.

Nesta data, que é também de homenagem religiosa à Virgem Mãe, o Clube de História de Valpaços deseja a todas as Mães e suas famílias, em Portugal e em todo o mundo, os melhores sentimentos de Amor, Carinho e Confiança no Futuro.


Algumas notas históricas sobre do Dia da Mãe

Existem indicações de que o Dia da Mãe já seria festejado na Antiguidade, na Grécia e em Roma. A celebração de Rhea, a “mãe dos deuses” e esposa de Cronos na Grécia Antiga é entendida como uma celebração à sagrada figura materna. Também os romanos tiveram a sua “mãe dos deuses”, Cybele, em honra da qual realizavam grandes festas com o mesmo significado que elas representavam para os gregos.
Só muito mais tarde, pelo início do século XVII é voltam a surgir referências associadas ao Dia da Mãe ou “Dia das Mães”. Tal sucedeu em Inglaterra onde o quarto Domingo da Quaresma passou a ser dedicado às mães das operárias inglesas que guardavam esse dia para ficar em casa com as mães, dia que passou a designar-se de Mothering Day. Dessa tradição nasceu o Mothering Cake, um bolo feito para oferecer às mães em ambiente festivo.
Em 1872 nos Estados Unidos da América, a escritora Júlia Wars Howe foi a primeira pessoa a sugerir a fixação de uma data dedicada às mães. Desde então esta tradição espalhou-se pelo mundo e actualmente o dia da mãe é celebrado em todos os continentes e em numerosos os países de culturas e religiões distintas, sendo as respectivas datas bastante variáveis, em alguns em dias fixos, noutros casos a um dos Domingo dos meses de Fevereiro, Maio, como acontece em Portugal, em Espanha, Lituânia e em alguns países de expressão oficial portuguesa como acontece em Angola, Moçambique e Cabo Verde no primeiro Domingo de Maio, e Outubro. No Brasil, por exemplo o Dia da Mãe é celebrado desde 1932 no segundo Domingo de Maio. Em Israel, facto curioso, a sua celebração foi substituída pela celebração do Dia da Família, em Fevereiro.


Algumas frases históricas sobre a Mãe:

"Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”
Ditado judaico

"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."
Guy Maupassant

"O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão.”
Honoré de Balzac

"Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida."
Sófocles

"A mãe compreende até o que os filhos não dizem."
Textos judaicos

In http://www.aceav.pt

quinta-feira, 3 de maio de 2012

543.º Aniversário do nascimento de Nicolau Maquiavel


Nicolau Maquiavel nasceu há 543 anos em Florença. É considerado como uma figura de elevada formação intelectual nos domínios da Literatura, Música, História e Política, mas foi sobretudo no campo político que se tornou numa das grandes referências do Renascimento.
Para rever alguns dados biográficos sobre Nicolau Maquiavel que publicámos por ocasião do 542.º Aniversário do seu nascimento e consultar outras fontes com mais detalhes, clique sobre a imagem.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

140.º Aniversário do Nascimento de Sidónio Pais


Comemoraram-se ontem os 140 anos do nascimento deste militar e político que se destacou no exercício de importantes cargos como deputado, ministro do Fomento, das Finanças de embaixador de Portugal em Berlim, Sidónio Pais adquiriu um halo de dignidade e misticismo ao emergir dos escombros da primeira desastrosa experiência republicana afigurando-se como o redentor da Pátria vindo a ser, durante escassos meses o 4º Presidente da República Portuguesa, instaurando um esquema de poder com carácter presidencialista sem precedentes, a “República Nova”, que tem sido interpretado como o prelúdio do regime do “Estado Novo” implantado em Portugal por António de Oliveira Salazar.

Para rever uma resenha biográfica de Sidónio Pais que editámos por ocasião do 139 Aniversário do seu nascimento, clique

terça-feira, 1 de maio de 2012

1 de Maio: Dia do Trabalhador



Celebra-se anualmente neste dia, em muitos países, o Dia do Trabalhador ou Dia Internacional dos Trabalhadores, também designado por Dia do Trabalho, como acontece no Brasil, onde tal como em Portugal, entre outras nações, é hoje é feriado nacional.

As origens da comemoração deste dia podem remontar a 1886, o ano em que se realizou uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos da América, envolvendo milhares de pessoas que reivindicavam a redução do horário de trabalho diário para oito horas. Seguiu-se uma greve geral na sequência do qual alguns manifestantes se envolveram com a polícia resultando na morte de alguns daqueles.
No dia 4 de Maio seguiu-se nova manifestação que descambou novamente em violência, vitimando agentes e manifestantes. Este movimento de trabalhadores em luta pela defesa de melhores condições de trabalho, conhecido como a “Revolta de Haymarket”, serviu três anos depois de inspiração à II Internacional Socialista que em 20 de Junho de 1889 reuniu em Paris e decidiu estabelecer, em homenagem ao movimento de Chicago, o dia 1 de Maio para as subsequentes manifestações anuais com os mesmos objectivos.
A violência com que foi tratada pela polícia uma manifestação ocorrida no Norte de França em 1 de Maio de 1891 reforçou a relação do dia 1 de Maio como a luta de trabalhadores, a tal ponto que, pouco depois, a Internacional Socialista reunida em Bruxelas proclamou o 1.º dia de Maio como o “dia internacional da reivindicação de condições laborais".
Finalmente, em 23 de Abril de 1919 surgem, em França, os primeiros frutos do movimento, quando o Senado francês ratificou as oitos horas de horário diário de trabalho e proclamou o primeiro dia de Maio como dia de feriado. No ano seguinte este último acto era também estabelecido na Rússia e progressivamente em muitos outros países.

Em Portugal só a partir de Maio de 1974, após a Revolução do 25 de Abril e a queda da Ditadura, é que se começou a comemorar publicamente o 1.º de Maio como o “Dia do Trabalhador”, tendo então sido decretado este dia como “Feriado Nacional Obrigatório”.
Nos Estados Unidos da América e no Canadá este dia é celebrado na primeira Segunda feira de Setembro e nas restantes regiões do Mundo a sua celebração é variável.

PARA OS MAIS NOVOS - há um interessante resumo deste dia que podes consultar no SITE JUNIOR.

domingo, 29 de abril de 2012

167.º Aniversário do nascimento de Francisco José de Medeiros


clique na imagem para a aumentar
Celebram-se amanhã os 167 anos do nascimento do Dr. Francisco José de Medeiros. Nascido em Valpaços no dia 30 de Abril de 1845, viria a ser um político notável e um dos maiores juristas do seu tempo. Alinhou no Partido Progressista em Valpaços nos últimos anos da Monarquia Constitucional, foi deputado às Cortes Constituintes, ascendeu à Câmara dos Pares e exerceu os mais altos cargos da administração da Justiça, foi Ministro da Justiça e, durante a 1ª República, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

Para rever mais informações que a seu respeito publicámos na nossa
Galeria de Notáveis locais e regionais, clique
 AQUI

sábado, 28 de abril de 2012

DOCUMENTOS HISTÓRICOS: Valpaços na liderança da Indústria da Seda no distrito de Vila Real em meados do século XIX

Por Leonel Salvado

Pouco parece ter-se guardado na memória colectiva dos valpacenses no que diz respeito à significativa “tradição sericícola” do concelho de Valpaços que o tornou conhecido, nos meados do século XIX, como o mais destacado produtor de bicho-da-seda em casulo e de seda fiada do distrito de Vila Real, o único que foi capaz de competir, em qualidade e quantidade, com os concelhos do distrito de Bragança, de que Vila Real nunca foi mais do que um pálido reflexo. Trata-se de um dos recursos económicos deste concelho que há 159 anos mereceu os melhores elogios do Governador Civil, António Pinto de Lemos no “Documento Histórico” de que abaixo apresento uma cópia digitalizada.

Antes disso, e para se fazer uma ideia desta realidade, convém deixar aqui um quadro comparativo dos valores correspondentes à produção, por concelhos, no nosso distrito deste importante sector industrial relativa ao ano de 1858, que procurei simplificar a partir de um outro mais complexo elaborado por Fernando de Sousa* na data e local adiante indicados.

DISTRITO DE VILA REAL
Indústria da seda
(1858)
*Fonte: Fernando Sousa, “População e economia do distrito de Vila Real em meados do século XIX” in “ESTUDOS TRANSMONTANOS”, BPAD, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Vila Real, N.º1, 1983, p. 43 (adaptado)

Segundo o autor mencionado, «a produção de seda em casulo, em 1851 era 5481 arráteis, atingiu os 18 204 arráteis em 1850. Neste ano apenas se registaram 1534 arráteis [sic] de seda fiada, que foi vendida sobretudo para o Porto.». Ora, 81.7% e 80.8% destes dois valores, respectivamente, saíram dos criadores, tratadores de produtores de Valpaços.



A que se terá ficado a dever este acentuado contraste? As principais razões para esta questão já haviam sido devidamente esclarecidas pelo referido pelo Governador Civil de Vila Real no documento que constitui o motivo principal da divulgação documental de hoje e que passo a expor uma cópia digitalizada para que o leitor o possa ajuizar por si próprio.

Clique em cada um dos documentos para os aumentar






                Fonte; Fernando Sousa, Id. Ibid., p. 43

quinta-feira, 26 de abril de 2012

364.º Aniversário do nascimento de D. Pedro II, rei de Portugal


D. Pedro II nasceu em Lisboa, no Palácio da Ribeira, no dia 26 de Abril de 1648 e faleceu no mesmo local em 9 de Dezembro de 1706 aos 58 anos de Idade. Com o cognome de “O Pacífico”. Governou o país durante 39 anos, primeiro como Regente e depois como Rei, tendo sido o 24.º monarca de Portugal e o 3.º da dinastia de Avis.
(2011)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

38.º Aniversário da Revolução de 25 de Abril

Por Leonel Salvado



Comemora-se hoje em Portugal o fim da ditadura do Estado Novo. É feriado nacional em memória ao movimento revolucionário que em 25 de Abril de 1974 concretizou esse golpe que, desde então e durante décadas, foi entendido como tendo aberto um novo e importante período da História de Portugal representado política e socialmente o caminho para a conquista da liberdade e a instauração da democracia, razão por que a mesma data tem vindo a ser considerada por muitos portugueses como o “Dia da Liberdade” o qual, todavia não deve ser confundida com o “Dia Mundial da Liberdade” que se comemora a 23 de Janeiro.
Hoje, face às dificuldades que o país atravessa, esta data parece servir mais como um motivo para reflectir da ingenuidade com que foi encarado o futuro pós-revolucionário do que como uma data a comemorar, uma data que, cada vez mais, parece vir a despertar sentimentos de desencanto face à esperança depositada pelos portugueses na"Revolução dos cravos”, até da parte de alguns portugueses que nela assumiram decisivo protagonismo. Enfim, uma data comemorativa de sabor agridoce mas, ainda assim, uma data de relevância histórica nacional que cumpre assinalar.  

“Dia do desencanto” ou como se lhe queiram chamar, nunca deixará porém de ser uma data memorável, restando-nos, ao menos “à boa maneira portuguesa”, recordar aqui uma das memórias da passagem de cidadãos comuns por esse “dia de esperança, de festa e de alegria”. Por isso escolhemos as “memórias” de Amélia Pais que foram publicadas em 2008 na rubrica “crónicas contra o esquecimento” do seu blogue pessoal.

«HÁ 34 ANOS ERA ASSIM QUE NOS SENTÍAMOS*

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
[Sophia Mello Breyner Andresen]

O regime começava a cair lentamente, em processo de corrosão interna que começava também a tornar-se notório aos mais atentos - e que a tentativa militar malograda do 16 de Março vinha confirmar. Uma série de acontecimentos prenunciavam a queda - a publicação do livro de Spínola PORTUGAL E O FUTURO e os acontecimentos a nível de altas chefias militares daí decorrentes, mostravam que havia descontentamento e dúvidas a tais níveis - ora tinham sido justamente os militares que, em 28 de Maio de 1926, tinham instaurado uma ditadura que levaria ao poder Salazar e o seu regime de Estado Novo. Lembro-me de em Paris, onde passava férias da Páscoa, ter estado com portugueses exilados - neles era já geral a convicção de que em breve seria possível o tal golpe militar de que se começava a falar, nomeadamente na imprensa estrangeira. E também eles perguntavam «noticias do (meu) país», não apenas ao «vento que passa» das trovas de Manuel Alegre, mas a quem vinha de Portugal - para quando a revolução? Aguardavam ansiosamente o fim do exílio forçado e doloroso.

Em 24 de Abril, à noite, ouvindo, como de costume, o programa Limite, na Rádio, surpreendeu-me ouvir ler a 1ª quadra da canção (proibida pela censura) GRÂNDOLA VILA MORENA, seguida da canção propriamente dita. Surpreendeu-me, mas estava longe de imaginar que essa era a 'senha' do golpe. Dormi normalmente até por volta das 6 horas da manhã, altura em que fui acordada por uma colega que me dava a notícia de que havia uma revolução.

Liguei de imediato a rádio e ouvi com expectativa os comunicados dum tal MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS (M.F.A.) que dizia estar em curso uma acção de libertação do nosso povo, procurando destituir o governo que há 48 anos oprimia o país. Não sabíamos, inicialmente, de que militares se tratava: - se de militares democratas, se de 'ultras' militares de extrema-direita que contestavam Marcelo Caetano, por 'brandura'. Da janela do meu quarto, assistia-se a um desfile de viaturas militares em direcção ao sul, a Lisboa.

Creio que nunca se ouviu tanto rádio como nesse dia - estávamos presos dos comunicados, das notícias, de saber o que se seguiria. À noite, no telejornal, veríamos os primeiros rostos da revolução triunfante. E nesse dia os jornais de referência, como o saudoso República, faziam sair os seus jornais com a tarjeta: ESTE NÚMERO NÃO FOI VISADO POR NENHUMA COMISSÃO DE CENSURA.

Fui para a escola tentar dar aulas 'normais' - naturalmente tarefa impossível, e se calhar nem sequer desejada. As autoridades da escola, essas, estavam fechadas no antigo gabinete do Reitor, ouvindo rádio - a ver, também, prudentemente, no que dava...-para se pronunciarem depois. Às 3 da tarde já se sabia: - o poder autoritário, de tipo fascista, tinha sido derrubado; aguardava-se a rendição de Marcelo Caetano, refugiado com os seus ministros no Quartel do Carmo, onde era a sede da fidelíssima Guarda Nacional Republicana. Essa rendição far-se-ia mais tarde, às ordens de Salgueiro Maia, o 1ºherói conhecido do golpe [fora também aluno desta nossa Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria].

Entretanto, e por essa hora, e com a presença já das autoridades liceais (Reitor e Vice-Reitores, de nomeação governamental), fomos todos para o Ginásio, no 1ºdos muitos Plenários que se seguiriam. Houve algumas palavras do então Reitor, que afirmou que nunca tinha vivido em democracia - e por isso, também ele iria ter muito que aprender. Falaram mais professores, mais ou menos conotados com a até ali oposição democrática - e conhecidos como tal. Lembro-me da palavra de ordem mais aplaudida: - Hoje começa uma nova vida para todos nós - uma vida de liberdade. Há tudo para fazer. Por isso, não há tempo a perder. COMECEMOS DESDE JÁ A TRABALHAR!

E é essa a minha principal memória do dia - o «dia inicial inteiro e limpo» e que depois seria o 'dia da liberdade', de descompressão, de libertação, da festa - que o foi, na verdade - e viria a despoletar idênticos movimentos, na Grécia, em Espanha, no Brasil.

Nunca vi tanta gente contente. Por uns tempos as pessoas foram diferentes: sorriam abertamente umas para as outras, não se insultavam na estrada, davam mais facilmente boleias, exigiam mais justiça, mais fraternidade, mais solidariedade - e o fim da guerra e a liberdade para os povos colonizados. Aprendiam a falar abertamente, a tomar a voz em plenários, em sindicatos, em manifestações. Acreditámos piamente que estávamos a construir um mundo melhor, mais fraterno, mais justo. Empenhámo-nos a sério - acreditámos que era possível e estava a chegar o país da utopia.

Muito errámos depois e em muitas ocasiões. Fomos enganados na nossa boa fé, outras tantas. Mas nunca professores e alunos estiveram tão unidos na sua generosidade, nunca vi juntar-se tanta gente em torno do que consideravam boas causas (mesmo que, mais tarde, viessem a considerá-las não assim tão boas...).

Nem tudo correu bem, é certo. A história far-se-á desapaixonadamente um dia. Mas foi bom poder ver a libertação dos presos políticos, foi bom ter a ilusão de que podíamos reconstruir a História, - foi bom também ver mais tarde o país seguir, após os sobressaltos de 2 anos, uma vida democrática, moderna, europeia, civilizada.


Foi bom estar nas primeiras eleições livres, em 1975, como tinha sido linda a festa do 1º primeiro de Maio... em 1974. FOI BOM VER A FESTA. Uma festa de todo um povo que era bom e generoso - e se muitos pecámos durante o chamado Período Revolucionário em Curso, a verdade é que o balanço final é positivo : podemos orgulhar-nos de sermos um país e um povo que soube vencer a 'austera, apagada e vil tristeza' de que já Camões falava, de recuperar direitos de cidadania longamente usurpados, de se erguer, sem complexos, face a uma Europa que finalmente nos aceitava no seu seio, como igual em dignidade e direitos. [...] Uma Europa maior porque mais livre - mesmo se albergando ainda grandes inquietações e, posteriormente, uma guerra terrível na Bósnia e noutras regiões da ex - República da Jugoslávia...


Depois de termos mostrado à Europa como era o mapa do mundo, depois de séculos de 'vil tristeza', erguíamo-nos de novo, encerrando o ciclo do império, sempre atlânticos, recuperando a grandeza [comprometida em Alcácer - Quibir] de não aceitar como fatal a infelicidade, o 'nevoeiro' de que falava Fernando Pessoa - e de podermos voltar a sonhar uma pátria mais justa e solidária.


E foi bom, também, ver nascer os países africanos de expressão portuguesa, que hoje são povos irmãos e não já inimigos. E ver libertar-se de outras ditaduras o Brasil, a Argentina e outros povos de além - mar. Competia - nos continuar o sonho, crescer mais e melhor, e, sobretudo, reparar injustiças, democratizar e desenvolver mais - visto que a missão de descolonizar, bem ou mal, foi feita. Essa é a tarefa dos políticos, é certo, mas é também a de cada um de nós.


E aguardemos agora, em 2008, 34 anos depois, em tempo de desencanto, que uma breve e ténue luzinha, mesmo lá bem no fundo do túnel, nos faça recuperar esses dias de encantamento e de crença no futuro.

Porque, como dizia o poeta resistente francês Paul Eluard

“La nuit n'est jamais complète.
Il y a toujours
puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin, une fenêtre ouverte,
une fenêtre éclairée.”»