domingo, 6 de maio de 2012

As freguesias do actual concelho de Valpaços nos meados do século XVIII – Administração, População e Economia - 1ª Parte


Por Leonel Salvado



1. ADMINISTRAÇÃO

1.1. O concelho de Valpaços

O Concelho de Valpaços é o resultado de um contínuo processo de reformas administrativas da época liberal no país, inspiradas nas reformas que já haviam sido preconizadas por Mouzinho da Silveira, apontadas no mesmo sentido democrático e descentralizador da administração pública e implementadas também na antiga Província de Trás-os-Montes que passou nos meados do século XIX a ser integrado pelos distritos administrativos de Vila Real, de que faz parte, e de Bragança.

O processo acima referido foi gradual, mas foram precisos apenas 62 anos para que o concelho adquirisse a estrutura que ainda hoje mantém.
Foi por Decreto de 6 de Novembro de 1836, emanado do ministério setembrista de Manuel da Silva Passos (Passos Manuel), que a então aldeia de Valpaços se viu elevada a sede de concelho constituído pela freguesia com o mesmo nome, sob a designação de freguesia de Santa Maria de Valpaços, e as localidades anexas de Lagoas, Valverde e Vale de Casas.
Após um novo código administrativo promulgado pelo mesmo Ministro, em 31 de Dezembro desse mesmo ano de 1836, abriram-se claras perspectivas para um futuro engrandecimento da história do municipalismo valpacense.
Com efeito, logo em 27 de Setembro de 1837, por carta de lei, eram integradas no concelho de Valpaços as freguesias de Santiago da Ribeira de Alhariz, Ervões, Friões, Lilela, Possacos, Rio Torto, Sanfins Vassal e Vilarandelo, que pertenciam ao termo de Chaves, bem como a de Argeriz, retirada do termo de Carrazedo de Montenegro, e Fornos do Pinhal, ao de Monforte de Rio Livre.
Dezasseis anos depois, o Decreto de 31 de Dezembro de 1853 extinguia os concelhos de Carrazedo de Montenegro e Monforte de Rio Livre e determinava a transferência das freguesias dos respectivos termos, no todo e em parte, respectivamente, para o concelho e comarca (que o mesmo diploma instituía) de Valpaços.

Divisões administrativas no actual Distrito de Vila Real
1840 – 1860
(clique sobre a área dos mapas para os aumentar)
FONTE: Mapas – Fernando de Sousa, “População e economia do distrito de Vila Real em meados do século XIX” in “ESTUDOS TRANSMONTANOS”, BPAD, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Vila Real, N.º1, 1983, pp. 16 e 17

De Monforte passaram para Valpaços as freguesias de Alvarelhos, Barreiros, Bouçoais, Fiães (inicialmente integrada no concelho de Chaves e passada ao de Valpaços a 24 de Outubro de 1855), Nozelos, Santa Valha, Sonim, Tinhela e Lebução, sendo de notar que era a localidade de Lebução que, desde 1836 vinha substituindo a Vila de Monforte do Rio Livre, à cabeça do concelho desta que, prevalecendo porém a mesma designação fosse por força do costume ou por respeito à antiguidade da praça-forte.
Do concelho de Carrazedo de Montenegro, passaram ao de Valpaços, além da própria sede, agora extinta, as freguesias de Água Revés (concelho extinto pelo mesmo decreto de 31 de Dezembro de 1836), Canaveses, Padrela e Tazém, Santa Maria de Émeres, São João de Corveira, São Pedro de Veiga do Lila, Serapicos, Jou, Curros e Vales.
Em 1896 Jou, Curros e Vales foram anexadas a Murça, em resultado de uma jogada política do candidato regenerador à eleição pelo círculo de Alijó, Teixeira de Sousa, mas dois anos depois, sob o governo do Partido Progressista de Luciano de Castro, as duas últimas freguesias são reintegradas no concelho de Valpaços.
Com tão vasto termo municipal, Valpaços foi elevado à categoria de Vila, com o nome de Valpassos, por Decreto Real de D. Pedro V, datado de 27 de Março de 1861. Finalmente, no dia 13 de Maio de 1999 foi a Vila elevada à categoria de Cidade.
Como se poderá concluir do exposto, anteriormente ao dia 6 de Novembro de 1836, efusivamente comemorado todos os anos pela Autarquia de Valpaços, a situação administrativa das terras que a compõem - típica do Antigo Regime -, era bastante diferente!


1.2. DIVISÃO ADMINISTRATIVA CIVIL - DOS MEADOS DO SÉCULO XVIII À 1.ª METADE DO SÉCULO XIX

Em 1758 as freguesias que compõem o actual concelho de Valpaços, no distrito de Vila Real, encontravam-se distribuídos pelos concelhos de Chaves, Monforte de Rio Livre e Água Revés, tendo sido, este, concelho sobre si com jurisdição donatarial da Casa de Murça. Este último concelho, cujo senhorio pertenceu Luís Guedes de Miranda, acabou por cair em posse da Coroa por falecimento daquele último administrador da antiga Casa de Murça em 29 de Fevereiro de 1758 e por falta de sucessão legítima, juntamente com os restantes domínios da mesma Casa. Por essa razão entendi não levá-lo em conta nas representações cartográficas relativas à evolução da divisão territorial por concelhos que a seguir exponho. Convém contudo observar, como o fez e muito bem A. Veloso Martins na Monografia de Valpaços, que se manteve como Vila e sede de concelho até à sua extinção em 6 de Novembro de 1836, pelo mesmo Decreto que instituiu o concelho de Valpaços, passando entretanto para o Concelho de Carrazedo de Montenegro até 31 de Dezembro 1853, data do Decreto em que se determinou também a extinção deste.  

Divisão administrativa nos meados do século XVIII
1758 – c. 1820
(clique sobre o mapa para o aumentar)
FONTES:
1 - Mapa – Id. Ibid. p. 16. (adaptado)
2 - Leonel Salvado, “O concelho de Valpaços nas Memórias Paroquiais de 1758”, in “Clube de História de Valpaços”
http://clubehistoriaesvalp.blogspot.pt/


Distribuição das freguesias do actual concelho de Valpaços
1758
(clique sobre a tabela para a aumentar)
FONTE: Leonel Salvado, Ibid.

Pelos inícios do século XIX esta divisão administrativa assim compreendida sofreria novas alterações. Restaurado o concelho de Carrazedo de Montenegro que fora criado por carta de foral de D. Dinis em 1301, e sendo-lhe renovada a categoria de Vila e de cabeça de julgado, ainda que continuando sujeito à comarca de Chaves, Carrazedo de Montenegro compôs o seu termo com a recuperação das antigas “terras de Montenegro” que haviam sido agregadas aos concelhos de Chaves, Vila Pouca de Aguiar e Murça. E entre elas encontravam-se algumas freguesias que hoje pertencem ao concelho de Valpaços.
As paróquias de Nossa Senhora da Expectação de Crasto, São Lourenço de Lilela, São Salvador de Nozedo, Nossa Senhora da Assunção de Tazém e São Lourenço de Vilartão constituíam freguesias independentes até às reformas administrativas liberais do século XIX empreendidas em 1837 e em 1853 por força das quais foram anexadas às freguesias de Água Revés e Crasto, Rio Torto, São João da Corveira, Padrela e Tazém e Bouçoais, respectivamente, assim como se encontram hoje.


Divisão administrativa na 1.ª metade do século XIX
c. 1820 – 1837*(1853**)
(clique sobre o mapa para o aumentar)
FONTES:
1 - Mapa – Fernando de Sousa. Ibid. p. 16. (adaptado)
2 - Leonel Salvado, Ibid.
* Carta de Lei de 27 de Setembro de 1837
** Decreto de 31 de Dezembro de 1853


Distribuição das freguesias do actual concelho de Valpaços
c. 1820 – 1837*(1853**)
(clique sobre a tabela para a aumentar)
FONTES: Leonel Salvado, Ibid.
* Carta de Lei de 27 de Setembro de 1837
** Decreto de 31 de Dezembro de 1853

(clique sobre a área dos gráficos para os aumentar)



1.3 ORGANIZAÇÃO ADMINISTRATIVA ECLESIÁSTICA NOS MEADOS DO SÉCULO XVIII

José Viriato Capela, no seu trabalho “As freguesias do Distrito de Vila Real nas Memórias Paroquiais de 1758, Memórias, História e Património”, refere a importância que no quadro territorial e social das comunidades rurais do Antigo Regime se revestiam a aldeia ou o lugar, enquanto células da vida social e agrária por excelência.
Simultaneamente, ao longo dos tempos, entre os séculos XV a XVIIII, a paróquia afirmava-se como “a principal instituição de organização sócio-política das comunidades locais portuguesas”. Por esse tempo a maior parte das comunidades do actual distrito de Vila Real pertencia ao Arcebispado de Braga. Porém no seu quadrante setentrional as paróquias que hoje compõem os concelhos de Chaves e Valpaços passaram a repartir-se entre aquela arquidiocese e a diocese de Miranda do Douro desde a criação desta a 23 de Março de 1535. Nos meados do século XVIII, as freguesias da diocese bracarense nesta mesma área transmontana enquadravam-se na comarca de Chaves (que eram também do termo desta Vila) ao passo que as que transitaram para a diocese de Miranda do Douro (do termo da Vila de Monforte de Rio Livre) pertenciam à comarca de Moncorvo.

Articuladas com a paróquia, ao longo do mesmo período, encontravam-se a Coroa e a Ordem Senhorial, através do município e da ordem municipal. Os municípios apenas intermediavam a Coroa e a Ordem Senhorial na implementação dos meios para garantir o seu poder económico e os seus meios financeiros e a ordem e poder público régios – a fiscalidade e a estruturação de serviços de justiça saúde e defesa. Esta relação de poderes que as câmaras estabeleciam com as comunidades e que na expressão do mesmo autor, José Viriato Capela, era “uma relação politico – fiscal – senhorial – rentista, que decorria de uma dinâmica senhorial e individualista”, foi em grande parte também, uma realidade nas freguesias que actualmente fazem parte do concelho de Valpaços, o que se vê pelas respostas de uma variedade de párocos memorialistas aos Inquéritos paroquiais de 1758. Assim, com base nas informações dos mesmos párocos constata-se que as jurisdições comarcãs e concelhias de algumas destas freguesias estiveram, em maior ou menor dependência, em poder dos respectivos donatários, como os condes de Atouguia a quem, entre outras jurisdições, asseguraram as do concelho de Monforte de Rio Livre, ao passo que o concelho de Chaves pertencia directamente à Casa de Bragança e o de Água Revés à Casa de Murça, como atrás referi. Tal situação tinha evidentes repercussões no exercício da justiça e nas categorias das magistraturas. Apesar de nos meados do século XVIII surgirem referências a juízes eleitos nas freguesias, juízes de vintena ou juízes pedanios (“espadanios” era a expressão corrente) e quadrilheiros, que podem ser entendidos como sinais de relativa autonomia nas comunidades paroquiais, nas freguesias cujas jurisdições pertenciam à Coroa e os respectivos párocos nunca deixaram de realçar, aludindo à “Sereníssima Casa de Bragança”, era mais comum elas estarem sujeitas ao Juiz de Fora, de nomeação régia (como sucedia nas freguesias do concelho de Chaves), ao passo que naquelas em que a jurisdição ainda cabia, por direito, às referidas Casas Senhorias, os donatários, predominavam os Juízes ordinários, eleitos anualmente pelos povos e câmaras sob anuência dos respectivos Senhores, obrigados a residir nas respectivas comarcas ou nos concelhos onde exerciam, em acção conjunta ou “sujeita aos ministros da cabeça de comarca” (Memórias Paroquiais, Barreiros, 1758, Valpaços) e podendo ser acompanhados de outros magistrados, conforme os casos (como sucedia nas freguesias do termo de Monforte de Rio Livre, da Casa de Atouguia). Mas só a partir da segunda metade do século XVIII, sob o Estado Pombalino, é que esta relação de poderes começou a ser progressivamente desmantelada com vista ao estabelecimento de uma relação mais directa do Estado com os povos.

Cumpre ainda referir, neste mesmo contexto das relações de poder da organização administrativa dos meados do século XVIII no espaço do actual concelho de Valpaços, a existência de algumas abadias ou benefícios eclesiásticos nem sempre conformes com os limites definidos pela divisão administrativa civil, o que logo se verifica pela variedade dos títulos dos respectivos párocos – reitores, abades, vigários e curas.

Organização administrativa e eclesiástica no território do actual concelho de Valpaços
1758
(clique sobre a tabela para a aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Distribuição dos títulos paroquiais
(valores percentuais dos titulares e das freguesias)
1758
(clique sobre a área dos gráficos para os aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Jurisdições senhoriais
(Coroa e donatários/comendadores)
1758
(clique sobre o gráfico para o aumentar)
Fonte: Leonel Salvado, Ibid.

Dia da Mãe 2012

(clique sobre a imagem para aumentá-la)

Comemora-se hoje o Dia da Mãe em Portugal. O «Dia das Mães» em Portugal era comemorado até há alguns anos, a 8 de Dezembro, mas passou a ser celebrado no 1.º Domingo de Maio em homenagem a Maria, mãe de Jesus. As mães recebem presentes, mensagens e flores, numa celebração que reúne toda a família.

Nesta data, que é também de homenagem religiosa à Virgem Mãe, o Clube de História de Valpaços deseja a todas as Mães e suas famílias, em Portugal e em todo o mundo, os melhores sentimentos de Amor, Carinho e Confiança no Futuro.


Algumas notas históricas sobre do Dia da Mãe

Existem indicações de que o Dia da Mãe já seria festejado na Antiguidade, na Grécia e em Roma. A celebração de Rhea, a “mãe dos deuses” e esposa de Cronos na Grécia Antiga é entendida como uma celebração à sagrada figura materna. Também os romanos tiveram a sua “mãe dos deuses”, Cybele, em honra da qual realizavam grandes festas com o mesmo significado que elas representavam para os gregos.
Só muito mais tarde, pelo início do século XVII é voltam a surgir referências associadas ao Dia da Mãe ou “Dia das Mães”. Tal sucedeu em Inglaterra onde o quarto Domingo da Quaresma passou a ser dedicado às mães das operárias inglesas que guardavam esse dia para ficar em casa com as mães, dia que passou a designar-se de Mothering Day. Dessa tradição nasceu o Mothering Cake, um bolo feito para oferecer às mães em ambiente festivo.
Em 1872 nos Estados Unidos da América, a escritora Júlia Wars Howe foi a primeira pessoa a sugerir a fixação de uma data dedicada às mães. Desde então esta tradição espalhou-se pelo mundo e actualmente o dia da mãe é celebrado em todos os continentes e em numerosos os países de culturas e religiões distintas, sendo as respectivas datas bastante variáveis, em alguns em dias fixos, noutros casos a um dos Domingo dos meses de Fevereiro, Maio, como acontece em Portugal, em Espanha, Lituânia e em alguns países de expressão oficial portuguesa como acontece em Angola, Moçambique e Cabo Verde no primeiro Domingo de Maio, e Outubro. No Brasil, por exemplo o Dia da Mãe é celebrado desde 1932 no segundo Domingo de Maio. Em Israel, facto curioso, a sua celebração foi substituída pela celebração do Dia da Família, em Fevereiro.


Algumas frases históricas sobre a Mãe:

"Deus não pode estar em todos os lugares e por isso fez as mães.”
Ditado judaico

"Amamos as nossas mães quase sem o saber e só nos damos conta da profundidade das raízes desse amor no momento da derradeira separação."
Guy Maupassant

"O coração das mães é um abismo no fundo do qual se encontra sempre um perdão.”
Honoré de Balzac

"Os filhos são para as mães as âncoras da sua vida."
Sófocles

"A mãe compreende até o que os filhos não dizem."
Textos judaicos

In http://www.aceav.pt

quinta-feira, 3 de maio de 2012

543.º Aniversário do nascimento de Nicolau Maquiavel


Nicolau Maquiavel nasceu há 543 anos em Florença. É considerado como uma figura de elevada formação intelectual nos domínios da Literatura, Música, História e Política, mas foi sobretudo no campo político que se tornou numa das grandes referências do Renascimento.
Para rever alguns dados biográficos sobre Nicolau Maquiavel que publicámos por ocasião do 542.º Aniversário do seu nascimento e consultar outras fontes com mais detalhes, clique sobre a imagem.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

140.º Aniversário do Nascimento de Sidónio Pais


Comemoraram-se ontem os 140 anos do nascimento deste militar e político que se destacou no exercício de importantes cargos como deputado, ministro do Fomento, das Finanças de embaixador de Portugal em Berlim, Sidónio Pais adquiriu um halo de dignidade e misticismo ao emergir dos escombros da primeira desastrosa experiência republicana afigurando-se como o redentor da Pátria vindo a ser, durante escassos meses o 4º Presidente da República Portuguesa, instaurando um esquema de poder com carácter presidencialista sem precedentes, a “República Nova”, que tem sido interpretado como o prelúdio do regime do “Estado Novo” implantado em Portugal por António de Oliveira Salazar.

Para rever uma resenha biográfica de Sidónio Pais que editámos por ocasião do 139 Aniversário do seu nascimento, clique

terça-feira, 1 de maio de 2012

1 de Maio: Dia do Trabalhador



Celebra-se anualmente neste dia, em muitos países, o Dia do Trabalhador ou Dia Internacional dos Trabalhadores, também designado por Dia do Trabalho, como acontece no Brasil, onde tal como em Portugal, entre outras nações, é hoje é feriado nacional.

As origens da comemoração deste dia podem remontar a 1886, o ano em que se realizou uma manifestação de trabalhadores nas ruas de Chicago, nos Estados Unidos da América, envolvendo milhares de pessoas que reivindicavam a redução do horário de trabalho diário para oito horas. Seguiu-se uma greve geral na sequência do qual alguns manifestantes se envolveram com a polícia resultando na morte de alguns daqueles.
No dia 4 de Maio seguiu-se nova manifestação que descambou novamente em violência, vitimando agentes e manifestantes. Este movimento de trabalhadores em luta pela defesa de melhores condições de trabalho, conhecido como a “Revolta de Haymarket”, serviu três anos depois de inspiração à II Internacional Socialista que em 20 de Junho de 1889 reuniu em Paris e decidiu estabelecer, em homenagem ao movimento de Chicago, o dia 1 de Maio para as subsequentes manifestações anuais com os mesmos objectivos.
A violência com que foi tratada pela polícia uma manifestação ocorrida no Norte de França em 1 de Maio de 1891 reforçou a relação do dia 1 de Maio como a luta de trabalhadores, a tal ponto que, pouco depois, a Internacional Socialista reunida em Bruxelas proclamou o 1.º dia de Maio como o “dia internacional da reivindicação de condições laborais".
Finalmente, em 23 de Abril de 1919 surgem, em França, os primeiros frutos do movimento, quando o Senado francês ratificou as oitos horas de horário diário de trabalho e proclamou o primeiro dia de Maio como dia de feriado. No ano seguinte este último acto era também estabelecido na Rússia e progressivamente em muitos outros países.

Em Portugal só a partir de Maio de 1974, após a Revolução do 25 de Abril e a queda da Ditadura, é que se começou a comemorar publicamente o 1.º de Maio como o “Dia do Trabalhador”, tendo então sido decretado este dia como “Feriado Nacional Obrigatório”.
Nos Estados Unidos da América e no Canadá este dia é celebrado na primeira Segunda feira de Setembro e nas restantes regiões do Mundo a sua celebração é variável.

PARA OS MAIS NOVOS - há um interessante resumo deste dia que podes consultar no SITE JUNIOR.

domingo, 29 de abril de 2012

167.º Aniversário do nascimento de Francisco José de Medeiros


clique na imagem para a aumentar
Celebram-se amanhã os 167 anos do nascimento do Dr. Francisco José de Medeiros. Nascido em Valpaços no dia 30 de Abril de 1845, viria a ser um político notável e um dos maiores juristas do seu tempo. Alinhou no Partido Progressista em Valpaços nos últimos anos da Monarquia Constitucional, foi deputado às Cortes Constituintes, ascendeu à Câmara dos Pares e exerceu os mais altos cargos da administração da Justiça, foi Ministro da Justiça e, durante a 1ª República, Presidente do Supremo Tribunal de Justiça.

Para rever mais informações que a seu respeito publicámos na nossa
Galeria de Notáveis locais e regionais, clique
 AQUI

sábado, 28 de abril de 2012

DOCUMENTOS HISTÓRICOS: Valpaços na liderança da Indústria da Seda no distrito de Vila Real em meados do século XIX

Por Leonel Salvado

Pouco parece ter-se guardado na memória colectiva dos valpacenses no que diz respeito à significativa “tradição sericícola” do concelho de Valpaços que o tornou conhecido, nos meados do século XIX, como o mais destacado produtor de bicho-da-seda em casulo e de seda fiada do distrito de Vila Real, o único que foi capaz de competir, em qualidade e quantidade, com os concelhos do distrito de Bragança, de que Vila Real nunca foi mais do que um pálido reflexo. Trata-se de um dos recursos económicos deste concelho que há 159 anos mereceu os melhores elogios do Governador Civil, António Pinto de Lemos no “Documento Histórico” de que abaixo apresento uma cópia digitalizada.

Antes disso, e para se fazer uma ideia desta realidade, convém deixar aqui um quadro comparativo dos valores correspondentes à produção, por concelhos, no nosso distrito deste importante sector industrial relativa ao ano de 1858, que procurei simplificar a partir de um outro mais complexo elaborado por Fernando de Sousa* na data e local adiante indicados.

DISTRITO DE VILA REAL
Indústria da seda
(1858)
*Fonte: Fernando Sousa, “População e economia do distrito de Vila Real em meados do século XIX” in “ESTUDOS TRANSMONTANOS”, BPAD, Biblioteca Pública e Arquivo Distrital de Vila Real, N.º1, 1983, p. 43 (adaptado)

Segundo o autor mencionado, «a produção de seda em casulo, em 1851 era 5481 arráteis, atingiu os 18 204 arráteis em 1850. Neste ano apenas se registaram 1534 arráteis [sic] de seda fiada, que foi vendida sobretudo para o Porto.». Ora, 81.7% e 80.8% destes dois valores, respectivamente, saíram dos criadores, tratadores de produtores de Valpaços.



A que se terá ficado a dever este acentuado contraste? As principais razões para esta questão já haviam sido devidamente esclarecidas pelo referido pelo Governador Civil de Vila Real no documento que constitui o motivo principal da divulgação documental de hoje e que passo a expor uma cópia digitalizada para que o leitor o possa ajuizar por si próprio.

Clique em cada um dos documentos para os aumentar






                Fonte; Fernando Sousa, Id. Ibid., p. 43

quinta-feira, 26 de abril de 2012

364.º Aniversário do nascimento de D. Pedro II, rei de Portugal


D. Pedro II nasceu em Lisboa, no Palácio da Ribeira, no dia 26 de Abril de 1648 e faleceu no mesmo local em 9 de Dezembro de 1706 aos 58 anos de Idade. Com o cognome de “O Pacífico”. Governou o país durante 39 anos, primeiro como Regente e depois como Rei, tendo sido o 24.º monarca de Portugal e o 3.º da dinastia de Avis.
(2011)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

38.º Aniversário da Revolução de 25 de Abril

Por Leonel Salvado



Comemora-se hoje em Portugal o fim da ditadura do Estado Novo. É feriado nacional em memória ao movimento revolucionário que em 25 de Abril de 1974 concretizou esse golpe que, desde então e durante décadas, foi entendido como tendo aberto um novo e importante período da História de Portugal representado política e socialmente o caminho para a conquista da liberdade e a instauração da democracia, razão por que a mesma data tem vindo a ser considerada por muitos portugueses como o “Dia da Liberdade” o qual, todavia não deve ser confundida com o “Dia Mundial da Liberdade” que se comemora a 23 de Janeiro.
Hoje, face às dificuldades que o país atravessa, esta data parece servir mais como um motivo para reflectir da ingenuidade com que foi encarado o futuro pós-revolucionário do que como uma data a comemorar, uma data que, cada vez mais, parece vir a despertar sentimentos de desencanto face à esperança depositada pelos portugueses na"Revolução dos cravos”, até da parte de alguns portugueses que nela assumiram decisivo protagonismo. Enfim, uma data comemorativa de sabor agridoce mas, ainda assim, uma data de relevância histórica nacional que cumpre assinalar.  

“Dia do desencanto” ou como se lhe queiram chamar, nunca deixará porém de ser uma data memorável, restando-nos, ao menos “à boa maneira portuguesa”, recordar aqui uma das memórias da passagem de cidadãos comuns por esse “dia de esperança, de festa e de alegria”. Por isso escolhemos as “memórias” de Amélia Pais que foram publicadas em 2008 na rubrica “crónicas contra o esquecimento” do seu blogue pessoal.

«HÁ 34 ANOS ERA ASSIM QUE NOS SENTÍAMOS*

“Esta é a madrugada que eu esperava
O dia inicial inteiro e limpo
Onde emergimos da noite e do silêncio
E livres habitamos a substância do tempo”
[Sophia Mello Breyner Andresen]

O regime começava a cair lentamente, em processo de corrosão interna que começava também a tornar-se notório aos mais atentos - e que a tentativa militar malograda do 16 de Março vinha confirmar. Uma série de acontecimentos prenunciavam a queda - a publicação do livro de Spínola PORTUGAL E O FUTURO e os acontecimentos a nível de altas chefias militares daí decorrentes, mostravam que havia descontentamento e dúvidas a tais níveis - ora tinham sido justamente os militares que, em 28 de Maio de 1926, tinham instaurado uma ditadura que levaria ao poder Salazar e o seu regime de Estado Novo. Lembro-me de em Paris, onde passava férias da Páscoa, ter estado com portugueses exilados - neles era já geral a convicção de que em breve seria possível o tal golpe militar de que se começava a falar, nomeadamente na imprensa estrangeira. E também eles perguntavam «noticias do (meu) país», não apenas ao «vento que passa» das trovas de Manuel Alegre, mas a quem vinha de Portugal - para quando a revolução? Aguardavam ansiosamente o fim do exílio forçado e doloroso.

Em 24 de Abril, à noite, ouvindo, como de costume, o programa Limite, na Rádio, surpreendeu-me ouvir ler a 1ª quadra da canção (proibida pela censura) GRÂNDOLA VILA MORENA, seguida da canção propriamente dita. Surpreendeu-me, mas estava longe de imaginar que essa era a 'senha' do golpe. Dormi normalmente até por volta das 6 horas da manhã, altura em que fui acordada por uma colega que me dava a notícia de que havia uma revolução.

Liguei de imediato a rádio e ouvi com expectativa os comunicados dum tal MOVIMENTO DAS FORÇAS ARMADAS (M.F.A.) que dizia estar em curso uma acção de libertação do nosso povo, procurando destituir o governo que há 48 anos oprimia o país. Não sabíamos, inicialmente, de que militares se tratava: - se de militares democratas, se de 'ultras' militares de extrema-direita que contestavam Marcelo Caetano, por 'brandura'. Da janela do meu quarto, assistia-se a um desfile de viaturas militares em direcção ao sul, a Lisboa.

Creio que nunca se ouviu tanto rádio como nesse dia - estávamos presos dos comunicados, das notícias, de saber o que se seguiria. À noite, no telejornal, veríamos os primeiros rostos da revolução triunfante. E nesse dia os jornais de referência, como o saudoso República, faziam sair os seus jornais com a tarjeta: ESTE NÚMERO NÃO FOI VISADO POR NENHUMA COMISSÃO DE CENSURA.

Fui para a escola tentar dar aulas 'normais' - naturalmente tarefa impossível, e se calhar nem sequer desejada. As autoridades da escola, essas, estavam fechadas no antigo gabinete do Reitor, ouvindo rádio - a ver, também, prudentemente, no que dava...-para se pronunciarem depois. Às 3 da tarde já se sabia: - o poder autoritário, de tipo fascista, tinha sido derrubado; aguardava-se a rendição de Marcelo Caetano, refugiado com os seus ministros no Quartel do Carmo, onde era a sede da fidelíssima Guarda Nacional Republicana. Essa rendição far-se-ia mais tarde, às ordens de Salgueiro Maia, o 1ºherói conhecido do golpe [fora também aluno desta nossa Escola Secundária de Francisco Rodrigues Lobo, de Leiria].

Entretanto, e por essa hora, e com a presença já das autoridades liceais (Reitor e Vice-Reitores, de nomeação governamental), fomos todos para o Ginásio, no 1ºdos muitos Plenários que se seguiriam. Houve algumas palavras do então Reitor, que afirmou que nunca tinha vivido em democracia - e por isso, também ele iria ter muito que aprender. Falaram mais professores, mais ou menos conotados com a até ali oposição democrática - e conhecidos como tal. Lembro-me da palavra de ordem mais aplaudida: - Hoje começa uma nova vida para todos nós - uma vida de liberdade. Há tudo para fazer. Por isso, não há tempo a perder. COMECEMOS DESDE JÁ A TRABALHAR!

E é essa a minha principal memória do dia - o «dia inicial inteiro e limpo» e que depois seria o 'dia da liberdade', de descompressão, de libertação, da festa - que o foi, na verdade - e viria a despoletar idênticos movimentos, na Grécia, em Espanha, no Brasil.

Nunca vi tanta gente contente. Por uns tempos as pessoas foram diferentes: sorriam abertamente umas para as outras, não se insultavam na estrada, davam mais facilmente boleias, exigiam mais justiça, mais fraternidade, mais solidariedade - e o fim da guerra e a liberdade para os povos colonizados. Aprendiam a falar abertamente, a tomar a voz em plenários, em sindicatos, em manifestações. Acreditámos piamente que estávamos a construir um mundo melhor, mais fraterno, mais justo. Empenhámo-nos a sério - acreditámos que era possível e estava a chegar o país da utopia.

Muito errámos depois e em muitas ocasiões. Fomos enganados na nossa boa fé, outras tantas. Mas nunca professores e alunos estiveram tão unidos na sua generosidade, nunca vi juntar-se tanta gente em torno do que consideravam boas causas (mesmo que, mais tarde, viessem a considerá-las não assim tão boas...).

Nem tudo correu bem, é certo. A história far-se-á desapaixonadamente um dia. Mas foi bom poder ver a libertação dos presos políticos, foi bom ter a ilusão de que podíamos reconstruir a História, - foi bom também ver mais tarde o país seguir, após os sobressaltos de 2 anos, uma vida democrática, moderna, europeia, civilizada.


Foi bom estar nas primeiras eleições livres, em 1975, como tinha sido linda a festa do 1º primeiro de Maio... em 1974. FOI BOM VER A FESTA. Uma festa de todo um povo que era bom e generoso - e se muitos pecámos durante o chamado Período Revolucionário em Curso, a verdade é que o balanço final é positivo : podemos orgulhar-nos de sermos um país e um povo que soube vencer a 'austera, apagada e vil tristeza' de que já Camões falava, de recuperar direitos de cidadania longamente usurpados, de se erguer, sem complexos, face a uma Europa que finalmente nos aceitava no seu seio, como igual em dignidade e direitos. [...] Uma Europa maior porque mais livre - mesmo se albergando ainda grandes inquietações e, posteriormente, uma guerra terrível na Bósnia e noutras regiões da ex - República da Jugoslávia...


Depois de termos mostrado à Europa como era o mapa do mundo, depois de séculos de 'vil tristeza', erguíamo-nos de novo, encerrando o ciclo do império, sempre atlânticos, recuperando a grandeza [comprometida em Alcácer - Quibir] de não aceitar como fatal a infelicidade, o 'nevoeiro' de que falava Fernando Pessoa - e de podermos voltar a sonhar uma pátria mais justa e solidária.


E foi bom, também, ver nascer os países africanos de expressão portuguesa, que hoje são povos irmãos e não já inimigos. E ver libertar-se de outras ditaduras o Brasil, a Argentina e outros povos de além - mar. Competia - nos continuar o sonho, crescer mais e melhor, e, sobretudo, reparar injustiças, democratizar e desenvolver mais - visto que a missão de descolonizar, bem ou mal, foi feita. Essa é a tarefa dos políticos, é certo, mas é também a de cada um de nós.


E aguardemos agora, em 2008, 34 anos depois, em tempo de desencanto, que uma breve e ténue luzinha, mesmo lá bem no fundo do túnel, nos faça recuperar esses dias de encantamento e de crença no futuro.

Porque, como dizia o poeta resistente francês Paul Eluard

“La nuit n'est jamais complète.
Il y a toujours
puisque je le dis,
Puisque je l'affirme,
Au bout du chagrin, une fenêtre ouverte,
une fenêtre éclairée.”»

domingo, 22 de abril de 2012

Camille Pissarro, um pintor “transmontano”

Por Nuno Guerreiro Josué , 13-11-2005*

Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.

Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

506.º Aniversário do massacre dos judeus em Lisboa

Tendo presente a frase um dia proferida por Simon Wiesenthal, algures num dos Campos de Concentração por que terá passado, certamente no de Mauthausen – “Aqueles que não lembram a História estão condenados a repeti-la” – entendemos ser nosso dever voltar a recordar o acontecimento histórico associado à data de hoje, apesar do desonroso significado que ela representa para o povo português.



Para rever o que publicámos sobre este acontecimento,
por ocasião do seu 505.º Aniversário, clique
  AQUI

Relíquia histórica abandonada em Mirandela

Por Leonel Salvado

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QUE DESPERDÍCIO! Em Mirandela, num talhão aparentemente abandonado em plena zona modernamente urbanizada, perto da Estação de Autocarros, descobrimos por acaso esta preciosidade da 1.ª metade do século passado, um LOCOMÓVEL, debulhadora e enfardadeira de alta pressão, movida a vapor, fabricada pela Metalúrgica Duarte Ferreira & Filhos – TRAMAGAL, como se vê no pormenor da foto da direita. A avaliar pelo avançado estado de corrosão que apresenta, esta relíquia da história agrícola de Mirandela (quantos de nós lhe estaremos a dever a sobrevivência dos nossos avós!?) aparenta encontrar-se em efectiva situação de abandono, à espera que o seu legítimo proprietário ou alguma outra entidade lhe dê uma mão, a recupere e a faça chegar a um qualquer Museu, Agrícola, de Arqueologia Industrial ou a outro espaço minimamente decente para que possa ser visitada com toda a dignidade que lhe é devida.

Não terá a "Cidade-Jardim", um espaço condigno onde se possa expor este monumento para que o público se permita admirá-lo à medida da sua importância e transmitir às novas gerações as memórias que dele se guardam?
Não existem pois, em Mirandela, dois conhecidos Museus, dos quais se destaca aquele que é designado por “Museu das Curiosidades de Mirandela”, um Museu particularmente conhecido pela sua colecção de antiguidades (um Ford modelo T, um carro de bombeiros primitivo, grafonolas, carros de cavalos…)? Por que não também um Locomóvel? 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios – 18 de Abril de 2012

Por Leonel Salvado

Em retrospectiva - AS SETE MARAVILHAS DO CONCELHO DE VALPAÇOS

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No dia 7 de Fevereiro foi noticiado pela IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) que «tendo por base a proposta do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios) para 2012, o IGESPAR convidou todas as entidades, públicas e privadas, a associarem-se à celebração deste dia, subordinado ao tema “Do Património Mundial ao Património Local – proteger e gerir a mudança”».
Como, lamentavelmente a Autarquia de Valpaços não se associou a esta celebração, ao contrário da Câmara Municipal de Boticas, por exemplo, que já em 2011 o tinha feito e este ano renovou a sua adesão, organizando uma visita de estudo ao património histórico de Covas do Barroso, agendado para o dia de hoje, resta-nos a alternativa de continuarmos a depender, de iniciativas individuais - como a que foi promovida, em 2009, pelo editor do blog “Notícias de Valpaços”, Sérgio Morais, um interessante concurso para a eleição das “Sete Maravilhas do Concelho de Valpaços” a que o público aderiu com grande satisfação - no sentido de celebrarmos esta data e obtermos, junto das nossas comunidades, alguma sensibilização para a valorização e salvaguarda do nosso Património.
Em 20 de Março de 2011 entendemos homenagear e complementar esta iniciativa, criando uma forma diferente para a divulgação das sete maravilhas apuradas do Património Arquitectónico e Natural do concelho de Valpaços, representando-as num jogo de chá cujas peças foram desenhadas de raiz pelo Clube de História de Valpaços e as imagens foram reproduzidas e sobrepostas a elas, assim como se pode observar na imagem, na expectativa de que um dia alguém se lembre de pegar neste “esboço virtual” e transformá-la numa realidade.  
As 7 maravilhas do concelho de Valpaços aí representadas são: a igreja matriz de Santa Valha e a capela de Santa Maria Madalena, nesta mesma freguesia; a igreja matriz de Carrazedo de Montenegro e a Ribeira da Fraga, na mesma freguesia de Carrazedo de Montenegro; A Serra/Miradouro de Santa Comba, na freguesia de Vales; A ponte romana “do Arquinho”, na freguesia de Possacos; a igreja matriz de Valpaços, na freguesia e Valpaços. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Recomendações: "Arauto da Casa do Povo de Vilarandelo" em versão digital e "Portal de Valpaços"

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O ARAUTO DA CASA DO POVO DE VILARANDELO, um Boletim Informativo desta instituição já com alguns anos de existência, dedicado à divulgação de uma ampla variedade temática junto da comunidade vilarandelense e aberto todo o concelho de Valpaços, vai já na sua 30.ª edição impressa, de excelente organização e qualidade gráfica, e na 7.ª edição em formato digital de fácil acesso e consulta. Os nossos leitores passarão a poder aceder a este Boletim Informativo através do cabeçalho exposto na barra lateral do presente blog.
Cumpre ainda comunicar aos nossos leitores que ainda não conheçam o PORTAL DE VALPAÇOS que este site de excelente organização e qualidade informativa, tem-se destacado como um dos melhores meios disponíveis na Web para um acompanhamento das notícias de interesse local, regional e nacional, em constante actualização, pelo que também recomendamos a sua utilização e entendemos proporcionar o acesso a ele na nossa barra lateral.

domingo, 15 de abril de 2012

166.º Aniversário do início da Revolta de Maria da Fonte

Por Leonel Salvado

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A revolta da Maria da Fonte é um dos mais recordados temas da História Nacional protagonizados por figuras femininas, mas também um dos mais controversos relativamente ao significado real deste nome. O significado mais enraizado no imaginário colectivo é o que se pode encontrar, por exemplo, na Wikipédia, a enciclopédia livre, apresentado nos seguintes termos:

«Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, é o nome dado a uma revolta popular ocorrida na primavera de 1846 contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral. A revolta resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas. Iniciou-se na zona de Póvoa de Lanhoso (Minho) por uma sublevação popular que se foi progressivamente estendendo a todo o norte de Portugal. A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte.»

Carlos Leite Ribeiro publicou no “Portal CEN – CÁ ESTAMOS NÓS” um trabalho de pesquisa deveras interessante sobre a Revolta da Maria da Fonte intitulado “Dia Maria da Fonte – 15 de Abril”. Ainda que, mesmo à luz de uma atitude historiográfica de sentido crítico, isenta e desmistificadora, não subsistam motivos suficientes para esvaziar este movimento revolucionário, que se alastrou um pouco por todo o país (sete meses depois veio a repercutir-se na nossa região de Valpaços), da crença sustentada no imaginário popular segundo a qual ele foi preponderantemente protagonizado por algumas arrojadas mulheres do Norte, o autor apresenta-nos uma análise e uma interpretação bastante aceitáveis da “Revolta da Maria da Fonte” claramente fundadas no cruzamento e na ponderação dos dados de informação que recolheu em fontes diversificadas (ver Bibliografia consultada pelo autor no final do presente post).
Para melhor percepção do trabalho deste autor, entendi dividir o respectivo teor em quatro partes:

A REALIDADE E O MITO (NA VERSÃO ROMANCEADA DE CAMILO CASTELO BRANCO)
«Ainda hoje, o Hino da Maria da Fonte continua a ser a música com que se saúdam os ministros portugueses, sendo utilizado em cerimónias cívicas e militares. (Mas não é o Hino Nacional Português). O maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte.

Revolta da Maria da Fonte
Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. A causa imediata da revolta foram umas questões de recrutamento, e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, em que desempenhou um papel irrequieto e activo uma desembaraçada mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, conhecida pelo nome de Maria da Fonte. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino.
A rainha D. Maria II, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas, quando, julgou que abrandara assim a revolução, e que o duque da Terceira, que nomeara seu lugar-tenente nas províncias do norte do país, poderia reprimir as indignações do povo e estabelecer ali a paz, deu o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846, e sem nomear Costa Cabral, formou um ministério pronunciadamente cartista, presidido pelo marechal Saldanha. Esta notícia foi transmitida ao Porto pelo administrador de Vila Franca, e excitou a cólera dos portuenses. Rebentou então a revolta com espantosa energia, o duque da Terceira foi preso, e nomeou-se uma junta provisória, cuja presidência se deu ao conde das Antas e a vice-presidência a José da Silva Passos, que era a alma da revolta, e irmão do grande ministro progressista Manuel da Silva Passos. O visconde de Sá da Bandeira apareceu no Porto, aderindo à revolução. A Junta do Porto é verdade que legislava em nome da rainha, e fazia-lhe manifestações de dedicação, mas o espírito popular estava sendo nessa ocasião bem pouco simpático à soberana, que desta vez tomara a iniciativa da contra-revolução, dando o golpe de Estado de 6 de Outubro. O Espectro, jornal redigido por António Rodrigues Sampaio, e que se publicava em Lisboa, sem que a polícia conseguisse descobrir a imprensa que o imprimia nem os seus redactores, atacou pessoalmente a rainha pela sua intervenção nefasta na política partidária.
A Junta do Porto, apesar de dispor de vastíssimos recursos, não era feliz, por causa da imperícia dos seus generais. Sá da Bandeira era batido em Vale Passos [VALPAÇOS] pelo barão do Casal; o conde de Bonfim era completamente batido em Torres Vedras pelo marechal Saldanha, em Dezembro de 1846, batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. Ainda assim a insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira. Uma esquadra inglesa aprisionou a esquadra da Junta com a divisão do conde das Antas que ia a bordo, e um exército espanhol, do comando de D. Manuel Concha, foi ocupar o Porto. Ao mesmo tempo as tropas da Junta, comandadas pelo visconde de Sá da Bandeira, eram batidas no Alto do Viso pelo general Vinhais. A convenção de Gramido. de 30 de Junho de 1847, pôs fim a essa terrível insurreição, que tanto assustara a rainha, que nem sempre mostrou com os vencidos a clemência que se poderia esperar da sua generosidade. A revolução da Maria da Fonte é um dos episódios mais importantes da nossa história política do século passado. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que se tornaram muito populares, como os dois irmãos Passos, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho, etc.
Maria da Fonte - por Mário Casa Nova Martins (Alameda Digital)

A Revolução do Minho em 1846, mais conhecida pela Revolução da Maria da Fonte, pode ser inicialmente identificada como uma revolta contra as chamadas «Leis de Saúde», mais concretamente contra a lei que proibia os enterramentos nas Igrejas, obrigando que os defuntos fossem sepultados em cemitérios. Mas, a par da oposição às «Leis de Saúde» estava a luta contra o aumento dos impostos decretado pelo Governo, traduzido na destruição das “bilhetas”, que eram os boletins das contribuições.
Também, a oportunidade da Restauração de D. Miguel. E, com o alastrar da revolta a outros pontos do País, a união de Cartistas, Miguelistas e Setembristas leva a que os Cabrais se vejam obrigados a abandonar Portugal. A Revolução da Maria da Fonte teve, portanto, consequências políticas muito para além do que os seus promotores alguma vez pensaram.

“Começara o ano de 1846 docemente reclinado nos fagueiros braços da mais bonançosa paz. A agricultura prosperava, o comércio desenvolvia-se, as artes floresciam, o crédito público aumentava, a viação começava os seus primeiros ensaios e as contribuições não escaldavam ”(1). Mas o Minho profundo, aquele Minho mais conservador e mais tradicional, estava a movimentar-se, primeiro em surdina, e depois pelos actos contra a proibição de enterrarem os seus mortos nas Igrejas. Contra as autoridades vão fazê-lo, em Março na freguesia de Garfe, antes na freguesia de Travassós, concelho de Guimarães, nos primeiros dias de Abril na freguesia de Fonte Arcada, e, quase no fim desse mês, no lugar de Simões. Estes acontecimentos eram protagonizados por mulheres, armadas “umas de chuços, outras de ferrelhas e pás de enfonar, muitas com choupas e sacholas, algumas com forcados e espetos” (2), que levavam o esquife, não permitindo a presença de homens.
As autoridades participavam estes atropelos à lei ao Governo Civil, mas não obtinham resposta. Somente a seguir ao caso em Simões é que foi emitida voz de prisão para Maria da Fonte e suas sequazes, que foram presas, à excepção da cabecilha que conseguiu fugir. “Na sexta-feira próxima em que havia confessores para a desobriga” (3), o juiz de direito, o delegado, o oficial de diligências e os adjuntos dirigiram-se ao lugar, e o povo começa a tocar os sinos a rebate, tendo as autoridades que fugir. “Foi então que apareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas ao cinturão, gritando: Vamos à cadeia tirar as presas! Viva o Senhor Dom Miguel!” (4). Chegados à Póvoa, são as presas libertadas, regressando a suas casas como heroínas. Entretanto, as autoridades enviam um destacamento de cinquenta praças do Regimento “8” para a Póvoa, que nada faz. Pouco tempo depois ocorre outro enterro, na freguesia de Galegos, onde Maria da Fonte e as suas companheiras voltam a aparecer.
 Agora, a toda a gente é permitido assistir, participando o Clero plenamente na cerimónia. Desta ocorrência, são presos um homem e uma mulher, mas, “ao passarem na serra do Carvalho, lá vão tirá-los à escolta os moradores das próximas freguesias de Ferreiros e Geraz” (5). Entre 15 e 16 de Abril a revolta assume proporções inesperadas, com o ataque a Guimarães conduzido pelo Padre José das Caldas, e o ataque a Braga pelas gentes do Prado. Ao mesmo tempo são queimados todos os papéis dos arquivos da administração. Maria da Fonte participa em todos estes actos.»

A DESMISTIFICAÇÃO DA “MARIA DA FONTE”
«É importante que uma qualquer altercação da ordem estabelecida tenha um nome, ou esteja personalizada numa pessoa que, por vezes, se torne de difícil identificação. O imaginário popular necessita destas personagens, com as quais se tenta identificar, transformando-as em mitos. E, esses mitos passam de geração em geração, através da tradição oral, passando a fazer parte da história alternativa, o mundo da Tradição, enunciado por Julius Evola. A palavra “tradição” não tem, evidentemente, a mesma ressonância ou a mesma significação para todos os espíritos. De entre aqueles que se lhe referem, alguns pretendem falar da tradição cristã, outros da tradição europeia, fazendo, assim, alusão a correntes que estiveram associadas durante séculos, depois de terem nascido separadas, e que hoje, de novo, tendem em separar-se. Outros falam, ainda, de uma Tradição esotérica, que não é mais do que o fruto da sua imaginação e da sua credibilidade.
Tradição é a estrutura específica, reflexo de um esquema mental particular, no qual se foram inscrevendo, no decurso dos tempos, as diversas formas sócio-culturais da cultura dominante, e principalmente as tradições, isto é, o conjunto de hábitos e ritos consuetudinários característicos desta cultura (6).
O mito, a lenda ou a saga estão desprovidos de verdade histórica e de força demonstrativa e adquirem, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro (7).
A Padeira de Aljubarrota, o Manuelinho de Évora e a Maria da Fonte são exemplos de personagens ligadas ao povo e que representam ainda hoje a simbologia contra o invasor, o despotismo fiscal, ou contra o poder central do Estado. Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, matou depois da batalha, sete castelhanos fugitivos com uma pá, cujos restos ainda existem, permitindo prolongar no tempo a ideia da bravura das mulheres portugueses contra os invasores castelhanos, e, mais tarde, franceses (8). A revolta do povo de Évora, em 1637, contra um novo imposto, durante a ocupação castelhana, conduziu à tomada da cidade, constituindo-se um poder efectivo, conquanto clandestino, de características perturbantes à face da lei e dos costumes, que endereçava a responsabilidade das suas proclamações e provisões ao Manuelinho, doido muito conhecido e popular em Évora (9).
Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda? Efectivamente, os seus contemporâneos distribuíram os atributos da personagem por diferentes mulheres, de diferentes lugares. Uma é apresentada como irmã de um sapateiro de Simões, da freguesia de Fonte Arcada, de nome Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Póvoa de Lanhoso (10). Outra, era uma doceira de Valbom, nas vizinhanças de Lanhoso, que andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte (11). O jornal «Comércio de Portugal», de Lisboa, de 15 de Março de 1883, identificava Ana Maria Esteves, que teria, então, cinquenta e seis anos, nascida em São Tiago de Oliveira, Póvoa de Lanhoso, e casada com António Joaquim Lopes da Silva, como a Maria da Fonte (12). Finalmente, Maria da Fonte terá sido uma criança abandonada à beira da Fonte do Vide, no lugar do Barreiro, da freguesia de Fonte Arcada, que foi criada por Josefa Antunes, e que, por morte desta, passou a viver no lugar de Valbom, onde, finda a revolta, regressou, tendo posteriormente casado e partido, sem que mais se soubesse notícias dela (13).»

A PROGRESSÃO DO MOVIMENTO
«O baixo Clero desempenhou um papel determinante na Revolução do Minho, não só na disseminação da ideia, como na arregimentação do Povo para a guerrilha. De pouca cultura, mas com um forte sentimento quanto ao Sobrenatural e à Tradição, o Clero minhoto tinha como pastores espirituais homens rudes, integralmente dedicados ao Trono e ao Altar, como, entre muitos outros, os Padres João do Cano, José das Caldas, José da Lage, Manuel da Agra, e, o mais popular de todos, o Padre Casimiro. Padre Casimiro José Vieira, “Defensor das Cinco Chagas e General Comandante das Forças Populares do Minho e Trás-os-Montes”, nasceu no ano de 1817, em Vieira do Minho. Nas vésperas da Revolução da Maria da Fonte, “em Março de 1846 estudava retórica em Braga, habilitando-se para pregador. Era boa figura, tinha um lindo bigode preto, era muito pândego” (14). Profundo legitimista, de mero espectador da revolta popular, rapidamente passa à liderança daquelas gentes. “A força e a popularidade do Padre Casimiro residem, acima de tudo, na eficácia com que utilizou os parcos meios ao seu alcance. O principal desses meios foi, sem dúvida, o conhecimento do terreno. As subtilezas da psicologia não lhe são, também, desconhecidas. Totalmente consciente de que a sua guerra mais não poderia ser do que uma guerrilha de camponeses, mantém-lhe sempre o ritmo sincronizado pelo ritmo dos trabalhos agrícolas” (15).
“A principal tarefa que atribuía a si próprio era a defesa do Trono, na pessoa do Rei legítimo, D. Miguel I, e do Altar. A Igreja vivia uma época difícil no Portugal Liberal, e o sentimento profundamente religioso das gentes do Minho chocava-se com o que ia assistindo nas suas terras, e com as notícias que os almocreves e os pasquins lhes traziam das perseguições movidas pelos liberais. A propaganda liberal criou de D. Miguel I a imagem dos vencedores contra os vencidos, isto é, vencedores, atribuíram ao Rei legítimo um conjunto de adjectivos suezes, que não correspondiam à verdade daqueles tempos. O miguelista arquetípico definia-se, «depois da Convenção de Évora-Monte, simultaneamente saudoso do seu Rei e consciente dos erros e das imbecilidades dos poderosos que o cercavam e que o venderam como Cristo. Aí surge a figura de um outro D. Miguel I, bem diferente do usurpador caceteiro ou do campino da Vilafrancada, convencionalizados pela história, mas sim o Rei do povo miúdo, amado pelos soldados e pela arraia que se sacrifica na guerra sem saber perfeitamente o que era o liberalismo pedrista, a não ser uma vaga doutrina essencialmente anticatólica que os aterrava e punha em xeque todo um edifício de convicções multi-seculares” (16).
Padre Casimiro, tal como tantos outros Padres do Minho, é um convicto miguelista, e vai preparando as suas gentes e os seus guerrilheiros para a luta pela Restauração de D. Miguel I. “Decidido a restaurar D. Miguel I, adquiriu enorme prestígio entre as gentes simples dos campos e dos montes, foi incansável nos seus propósitos, fazendo frente aos destacamentos militares enviados de Braga para reduzirem à obediência os amotinados” (17). Chegou a controlar a área entre os rios Cávado e Ave, e a recrutar apoiantes em Trás-os-Montes. À facilidade com que enunciava os seus princípios, no Púlpito, ou aos povos que ia conquistando para a Causa, juntava-se a maneira popular, mas agradável, como escrevia nos diferentes periódicos do Norte, alimentando, com o exemplo e com a palavra, a missão a que se propusera, redentor de Portugal restaurando o Rei deposto.
A ligação entre D. Miguel I e o mito do miguelismo surge logo após o primeiro desterro para a Áustria, no seguimento da Abrilada, em 1824, onde D. João VI, por intervenção do Corpo Diplomático e perante as ameaças deste em abandonar Lisboa, ordena a sua exoneração de generalíssimo dos exércitos (18). «A mentalidade mítica, ao contrário do pensamento racional, apreende a realidade sócio-histórica como o resultado de esforços e de lutas de potências, que nas culturas sacras têm natureza santa e nas secularizadas natureza misteriosa, isto é, algo que não só não é explicado, como também não pode ser explicado racionalmente (19). Durante o tempo em que esteve ausente de Portugal, a política do Duque de Palmela mais fez crescer a saudade que, principalmente, o povo sentia de D. Miguel I. “A morte do controverso D. João VI daria pretexto, entre outras coisas, a que se começasse a falar do Infante, ‘cativo’ em Viena, como se fosse o “Desejado” e se exigisse o seu regresso” (20). Com o seu regresso, e durante o seu curto reinado, luzes, foguetes e festa rija foi o que mais houve em Portugal, além da profusão de procissões e de missas e Te Deum Laudamus em acção de graças (21). A principal característica do reinado de D. Miguel I foi a intensidade de actos religiosos, a pretexto de um qualquer acontecimento. Após Évora-Monte, e até à sua morte, o carácter religioso da sua vida evoluiu para um misticismo, no qual foi acompanhado pela Família Real no exílio. Em Portugal, em paralelo ao descalabro político-financeiro do País e ao aumento da repressão aos miguelistas, cresce o fervor e a saudade do “’Rei Exilado’, do “Rei Proscrito”, do ‘Rei Martyr’, ou, muito simplesmente, do ‘Desditoso’” (22). Ao tempo da Revolução do Minho, D. Miguel I era, para muitos, a última salvação para Portugal. Por todo o País se encontravam adeptos do Rei Legítimo, mas era, fundamentalmente, no Minho, berço da nacionalidade, que a saudade daqueles tempos se tornava mais aguda.
A Carta Constitucional de 1826 foi reposta no seguimento do golpe militar de 27 de Janeiro de 1842, dirigido, do Porto, por António Bernardo da Costa Cabral. Era o início do Cabralismo, e a esperança de uma ordem melhor, de conciliação nacional e de progresso. Todavia, pouco tempo duraram as esperanças do povo, que, em breve, se viu com uma nova e gravosa política fiscal, traduzida em novos impostos e empréstimos, enquanto a própria economia nacional era posta perante novos tratados de comércio e navegação ruinosos. No campo político, como resposta à grave situação social e financeira, dá-se a união da oposição ao Ministro do Reino, Costa Cabral, através de alianças, porventura contra-natura, dos Setembristas, Miguelistas e Cartistas dissidentes. Apresentavam um discurso comum na censura à administração económica, política fiscal, à organização administrativa e à estrutura municipal (23).
O Cartismo é a designação que se aplicou ao liberalismo moderado português, oposto ao extremismo Setembrista, triunfante em 1836. A doutrina política do Cartismo pretendia ser uma conciliação entre o poder real e a soberania da Nação, mas, sociologicamente, tinha a tendência para o imobilismo governativo e para o aristocratismo económico de tipo agrícola e comercial. A Carta Constitucional de 1826 foi outorgada ao País pelo Imperador do Brasil D. Pedro I, D. Pedro IV em Portugal, após a notícia da morte de D. João VI ter chegado ao Brasil (24). A Revolução de Setembro ocorre no dia 9 desse mês, com a chegada dos deputados oposicionistas nortenhos a Lisboa. À sua chegada foram recebidos, entusiasticamente, com “morras” à Carta e “vivas” à Constituição de 1822. O Governo Conservador do Duque da Terceira foi obrigado a demitir-se e a Rainha D. Maria II nomeia um Ministério favorável aos revoltosos, consumando-se a Revolução de Setembro. No aspecto ideológico, o Setembrismo teria sido a expressão política da tendência à inovação industrial contra as actividades nacionais rotineiras do alto comércio e dos grandes interesses agrícolas (25).
O ano de 1844 marca um crescendo na repressão cabralista. É a partir deste ano que começam a ocorrer tentativas revolucionárias em diferentes pontos do País, como o pronunciamento de Torres Novas a Almeida, a sublevação do Regimento de Infantaria “12” de Castelo Branco, e a revolta de estudantes da Universidade de Coimbra (26). As acusações a Costa Cabral de poder discricionário, no desrespeito das leis e voz do Parlamento, do coartar das liberdades públicas, tornando-se mais centralizador e oligárquico, iam subindo de tom, e foi necessário recorrer a processos menos limpos para vencer a oposição. “Recorrendo a todos os meios ao seu alcance, desde a máquina governativa à compra de influências, a firmeza do ministro acabaria por se impor aos adversários” (27). E, nas eleições de 1845 a oposição elegeu para a Câmara dos Deputados um número destes, que não inquietava o Governo.
O Decreto de 26 de Novembro de 1845, que reorganizava a saúde pública, curava dos serviços de sanidade no interior do Reino e dos portos de mar, ordenava que os enterros deviam fazer-se nos cemitérios, não era mais do que uma regulamentação do Decreto de 3 de Janeiro de 1837. Porém, veio acirrar mais o descontentamento contra Costa Cabral. É neste clima de protestos violentos, motins e agitação social, que se dão os acontecimentos de 19 de Março de 1846 na Aldeia de Santo André de Frades, Concelho de Póvoa de Lanhoso, marcando o início da Revolução do Minho. Para a combater “Costa Cabral nomeia seu irmão, José Bernardo da Silva Costa Cabral, ao tempo ministro da Justiça, comissário do Governo com ‘poderes extraordinários sobre todas as autoridades civis e militares da província do Minho, e as outras terras do Norte, em que possa rebentar a revolta, para exonerar de seus cargos e substituir como julgasse conveniente’” (28). Cognominado pela oposição como o “Rei do Norte”, José Cabral instalou um regime de terror, onde as prisões arbitrárias, os fuzilamentos e a confiscação de bens particulares eram a prática corrente. Ao mesmo tempo que esse clima de terror ia alastrando a diversas partes do País, começam a aparecer, primeiro por todo o Norte, depois na Beira e na Estremadura, Juntas Provisionais que faziam a apologia do direito à Liberdade do Povo, contra a Tirania. No Parlamento Almeida Garrett pede a demissão de Costa Cabral, e a Rainha D. Maria II, certa da impossibilidade de lutar contra o povo exonera o ministro odiado, que juntamente com o irmão, emigra para Espanha, dando fim à ditadura dos Cabrais.»

CONCLUSÃO
«A Revolução da Maria da Fonte foi uma revolução em que as Mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da acção. Os Miguelistas viram a sua crença ressuscitar, na esperança de um novo sebastianismo libertador. Os Cartistas livraram-se do ditador. Os Setembristas readquiriram forças para regressarem ao poder. O Povo continuou desiludido com o Liberalismo, que apenas favorecia a classe nova a que ele dera origem, os “barões” da alta burguesia.»

Bibliografia consultada
[1] Branco, Camilo Castelo - Maria da Fonte, pg. 22
[2] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 24
[3] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 26
[4] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 27
[5] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 28
[6] Benoist, Alain - Les Idées à L’ Endroit, pg. 115
[7] Benoist, Alain de - Nova Direita Nova Cultura, pg. 436
[8] Peres, Damião - História de Portugal, vol. II, pg. 391
[9) Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. II, pg. 491
[10] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 16
[11] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 17
[12] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 36
[13] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 30
[14] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg.48
[15] Casimiro, Padre - Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pg. 11
[16] Costa, Francisco de Paula Ferreira da - Memórias de um Miguelista, pg. 14
[17] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, Vol. I, pg. 519
[18] Serrão, Joaquim Veríssimo - História de Portugal, vol. VII, pg. 395
[19] Pelayo, Manuel Garcia - Los Mitos Políticos, pg. 18
[20] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - Miguelismo Ideologia e Mito, pg.264
[21] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 265
[22] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 286
[23] Mattoso, José - História de Portugal, vol. V, pg. 110
[24] Carvalho, Alberto Martins de - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 500
[25] Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. V, pg. 561
[26] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 104
[27] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 105
[28] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 183