sábado, 10 de março de 2012

202.º Aniversário do nascimento de Júlio do Carvalhal

Por Leonel Salvado
actualização: Agosto 2012

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Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses, como consta nos documentos oficiais, ou Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, como surge nos documentos familiares, ou simplesmente Júlio do Carvalhal, como é hoje vulgarmente conhecido, foi um notável militar (oficial do exército) e político (Governador do Distrito de Bragança, Deputado às cortes pelo círculo de Valpaços e presidente da desta Autarquia).  

Biografia
Nasceu em 05.03.1810 no lugar de Alanhosa, freguesia de  S. Miguel de Nogueira, concelho de Chaves, e faleceu na sua casa de Vilar de Nantes, Chaves, no mesmo concelho de Chaves de 9.06.1872.
Fez-se notar como militar arrojado, e é recordado como um dos «bravos do Mindelo». Efectivamente, em Março de 1829, participou na defesa da ilha Terceira, onde se conservou até Julho de 1831. Em 8.07.1832, participou no desembarque das tropas liberais no Pampelido, Mindelo, e acompanhou o duque da Terceira pelas províncias do Norte até Evoramonte. Durante este tempo participou em dezoito combates e batalhas, em muitas delas com um contributo decisivo. Pela sua bravura na Batalha de Ponte Ferreira em 29.09.1832, por exemplo, foi agraciado com o título de “Cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Espada do Valor Lealdade e Mérito” além de outros louvores recebidos enquanto oficial do Exército. Por ofício de 12.09.1836, foi nomeado Chefe do Estado-Maior do Governo Militar da Província de Trás-os-Montes e exerceu também as funções de Governador do forte de São Neutel, em Chaves.

Dotado de uma personalidade e temperamento condicionados por firmes convicções liberais, Júlio do Carvalhal deu, por várias vezes, provas de incontida rebeldia, tendo-se colocado na mesma linha do inconformismo liberal de José Estêvão contra os sucessivos ministérios cartistas da ala moderada. Foram as suas próprias convicções que o moveram, a pedido daquele, arregimentar entre as massas populares da região de Valpaços as forças necessárias à planeada rebelião do setembrismo radical, que acabou por abortar em 1844 mas constituiu um prelúdio dos igualmente malogrados movimentos da «Maria da Fonte» e da «Patuleia». Passamos a transcrever um excerto historiográfico onde se alude ao destemido acto de Júlio do Carvalhal:

«Depois desta tentativa [a conspiração de Moncorvo] em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estevão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estevão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estevão, recebeu-se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estevão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstâncias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir às necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.»

fonte : http://www.arqnet.pt/dicionario/estevaojose.html

Mas nem por tal malogro se viu deslustrado o papel histórico protagonizado por Júlio do Carvalhal, que tem sido, acima de tudo, recordado como um Homem dedicado ao desenvolvimento do distrito de Bragança, à terra que o viu nascer e ao concelho de Valpaços, um Homem que se mostrou muito mais preocupado em servir a sua terra do que em satisfazer os caprichos políticos dos timoneiros do poder central instituído.
Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Bragança, entre 21.05. 1846 a 8.10.1846 e entre 23.06.1856 e 13.07.1857, tendo-lhe cabido em Junho e Julho do seu primeiro mandato combater as guerrilhas miguelistas que assolavam o distrito. Em 1860 foi eleito deputado pelo círculo de Valpaços e reeleito sucessivamente nas legislaturas de 1861-1864, 1865, 1865-1868, 1870 e 1870-1871 destacando-se no exercício desta função como um dos grandes defensores da construção da linha de Caminhos-de-ferro entre o Porto e a Régua, sendo-lhe reconhecido o mérito de ter sido o primeiro deputado a dedicar-se à questão do Caminho-de-Ferro do Douro. Também lhe é inteiramente devida a nossa homenagem por ter sido ele quem, enquanto Presidente da Câmara de Valpaços, conseguiu obter de D. Pedro V, após insistentes pedidos, a elevação da entretanto engrandecida sede municipal, Valpaços, à categoria de vila, estabelecida por Decreto de 27.3.1861.
Chegou a ser-lhe conferido, por Decreto de Agosto de 1864 o grau de Comendador da Ordem da Conceição.

Genealogia
Pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as Ilhas Canárias ao arquipélago da Madeira e ao Norte de Portugal, sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família que exerceu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, nas guerras liberais e noutros sucessos que se seguiram.
Júlio do Carvalhal foi legítimo herdeiro da administração da “Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios”, em Veiga de Lila, onde hoje se pode visitar o respectivo Solar e a capela que era daquela invocação e mais tarde passou à de Santo António.

Graças ao estudo publicado por Ana Luísa no seu blogue Árvore de geração da Família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência, por Fernando Eugénio do Carvalhal de Sousa Teles (ver link em rodapé), não subsistem dúvidas de que Júlio do Carvalhal pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as ilhas Canárias, ao arquipélago da Madeira, ao Norte de Portugal e sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família cujos pergaminhos atestam o seu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, e até, iremos referir a propósito da bravura revelada pelo próprio Júlio do Carvalhal, nas guerras liberais e noutras que se lhes seguiram.

Devido ao mesmo estudo, é possível remontar a ascendência de Júlio do Carvalhal a, pelo menos, dez gerações. Neste sentido está documentado que ela radica em João de Betencourt, um Ilustre Cavaleiro e General francês que em 1417 governou as ilhas Canárias e dois anos depois passou às ilhas Terceira e Madeira, obteve de D. João I inúmeras doações e se estabeleceu, casando com D. Maria de Carvalhal e Silveira. Desse enlace resultou o nascimento de Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira, nono avô de Júlio do Carvalhal, que foi feito Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade e Comendador da Ordem de Cristo e se casou na ilha da Madeira com D. Angélica da Câmara Durman. Este casal teve um filho a quem deu o nome de Manuel de Betencourt Carvalhal e Silveira de Durman. Este oitavo avô de Júlio do Carvalhal, Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade, foi Governador da Cidade de Angra do Heroísmo da mesma ilha e casou com D. Angélica de Noronha e Canto de quem teve dois filhos, tendo sido primogénito João do Carvalhal de Silveira de Noronha Betencourt (o sétimo avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Mestre de Campo do Terço da cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que casou com D. Isabel da Camara Albuquerque Borges, deles nascendo um filho, cerca de 1609, Estêvão da Silveira Carvalhal Borges Betencourt, Fidalgo Cavaleiro de Sua Majestade que foi Governador e Capitão General do arquipélago da Madeira, foi morto pelos espanhóis, no tempo dos Filipes, por recusar entregar-lhes as Ilhas, que ele defendeu por largo tempo, havendo até aí cunhado moeda. Foi o sexto avô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Margarida de Lemos, nascendo desse casamento dois filhos, o primeiro dos quais foi Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt (quinto avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real de quem se diz ter sido o principal responsável pela defesa e Restauração das ilhas depois da Aclamação de D. João IV, pelo que foi nomeado Comandante das mesmas,  a seguir Comandante de Mar e Guerra e logo depois Almirante da Armada e Ouvidor Geral de Moçambique. Do seu casamento com D. Maria da Camara houve dois filhos, o primeiro dos quais, João do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt Fidalgo e Cavaleiro foi tetravô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Maria de Noronha Corte Real nascendo deles três filhos, tendo sido um deles o trisavô de Júlio do Carvalhal, Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real que foi Governador de S. Neutel, em Chaves, depois de ter casado em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora. Foi, como se depreende de uma nota publicada no blogue a que fizemos inicialmente referência, por esta altura e através deste casamento que esta altura que esta ilustre família se estabeleceu na região de Trás-os-Montes e para a qual passou a Casa e Vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila e dela foi detentora ininterruptamente por sucessão varonil até à morte de Júlio do Carvalhal. O casal teve sete filhos, o terceiro dos quais, e primeiro varão, foi o bisavô de Júlio do Carvalhal, Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, Fidalgo da Casa Real que casou com D. Clara Costa Pereira e tiveram dois filhos sendo o primogénito e varão, avô de Júlio do Carvalhal, Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, nascido em Chaves a 14 de Dezembro de 1751 que do seu terceiro casamento, com D. Isabel Maria Bernarda Teixeira Osório de Queiroga, que era natural de Argeriz e filha do Dr. Inácio Gomes Osório de Queiroga (bacharel formado, em1731, em Cânones) e de D. Joana Maria Teixeira, resultou o nascimento de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, em Argeriz, Chaves, em 1783, herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, vereador da Camara Municipal de Chaves nos anos de 1819, 1824 e 1827.

Júlio do Carvalhal, aliás Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, foi o terceiro dos 5 filhos daquele Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt e de D. Rosália Vicência de Meneses Frias e o herdeiro do vínculo de N.ª dos Remédios, em Veiga de Lila, por morte de seu irmão Alexandre durante as lutas liberais no cerco do Porto ou no Algarve (as fontes divergem). Casou duas vezes: primeiro com D. Maria da Piedade Ferreira Sarmento de Lacerda e, após a morte desta, com a cunhada D. Maria das Dores Sarmento Pimentel de Lacerda. Deste segundo casamento não houve filhos. Do primeiro houve quatro filhos, sendo o mais novo, César do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Betencourt, o único varão que não deixou descendência. D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel, senhora de aprimorada cultura, escritora e poetisa foi, como primogénita de Júlio de Carvalhal, herdeira de Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila. Casou com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, o conhecido “morgado de Rio Torto, mas os dois filhos resultantes do casamento morreram em tenra idade pelo que a continuidade, por linha varonil, deste ramo da numerosa família dos Carvalhais detentora de casas e haveres nas povoações de Nantes, Argeriz e Veiga de Lila, teve de ser assegurada pela descendência de outros membros, desde logo por António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, irmão mais novo de Júlio do Carvalhal. Júlio do Carvalhal faleceu na sua casa de Vilar de Nantes (Chaves) no dia 8 de Junho de 1876.
Terminamos esta resenha genealógica centrada em Júlio do Carvalhal com uma citação do autor da pesquisa que para ela nos serviu de base (autor que julgamos ser um dos descendentes desta família) a respeito de D. Efigénia do Carvalhal e do destino do património deste ramo da família em Veiga de Lila. 

«D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel como filha primogénita de Júlio do Carvalhal, foi herdeira de casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila.
Viúva e sem filhos, D. Efigénia do Carvalhal, acautelou, atempadamente e no seu pleno juízo, assegurar a continuidade na família do referido vínculo. Assim, fez escritura de doação, com reserva de usufruto, em favor da sua sobrinha Umbelinha do Carvalhal, casada com seu primo Eugénio Evangelista do Carvalhal, de todos os seus bens.
Faleceu com 94 anos, tinha eu 12 anos, ainda tenho presente a sua lucidez e recordo, com saudade, o carinho com que nos recebia no seu solar. Da mesma maneira e com fidalguia, suas ilustres visitas eram sentadas na mesa de refeições, ouvindo-a e conversando, quase sempre em matéria de carácter cultural.
Hoje, infelizmente, quer o solar, quer os prédios rústicos, encontram-se parcelados, por vezes, em mão de estranhos à família.»

In http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/


Bibliografia e outros recursos

ALVES, Francisco Manuel, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931; Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928);
Árvore da geração da família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência |in http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Porto, 1978.

2 comentários:

  1. Foi na realidade um homem muito importante da época, nomeadamente para o nosso concelho. A sua memória está, e bem, gravada na toponímia de uma das ruas da nossa cidade e no nome da nossa Escola EB2/3.
    Amílcar Rôlo - Valpaços

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  2. Bem-haja por mais este construtivo e motivador comentário, amigo valpacense Amílcar Rôlo. Pena que na toponímia figure o título de Dr.,que não tem qualquer sentido para a pessoa para e época em que viveu!

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