terça-feira, 31 de maio de 2011

542.º Aniversário do nascimento de D. Manuel I, rei de Portugal

Retrato de D. Manuel I | foto de domínio público via wikipedia commons
Já publicámos uma biografia deste monarca português por ocasião do 541.º Aniversário para a qual remetemos os nossos leitores.
Clique na imagem para aceder à respectiva publicação

domingo, 29 de maio de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - II

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano. 



Bartolomeu Dias (no  511.º Aniversário da sua morte)

Foi este navegador português, nascido nos meados do século XV, que se tornou célebre por ter dobrado, em 1488, o depois denominado de “Cabo da Boa Esperança”, que logo baptizou de “Cabo das Tormentas”, e por ser o primeiro europeu a navegar para além dele. Ironicamente viria a encontrar a morte junto deste mesmo tenebroso promontório, a 29 de Maio de 1500 na segunda viagem em que participou, integrando esquadra de Pedro Álvares Cabral e quando esta, rumando em direcção ao oriente, após a descoberta do Brasil, foi colhida por uma violenta tempestade que provocou o naufrágio de quatro naus, dentre as quais a que ele capitaneava. Se a respeito dos seus feitos na grandiosa epopeia ultramarina portuguesa e das circunstâncias do seu trágico fim, poucas dúvidas se oferecem aos historiadores, estes continuam a dispor de escassos dados biográficos para que se possa fazer uma referência segura da sua origem familiar e geográfica. Talvez seja, dentre as quatro figuras que aqui elegemos, a de que menos fundamentos historiográficos e genealógicos se encontram para sustentar a sua origem transmontana atribuída pela tradição. Como observou Damião Peres na sua conhecida obra História dos Descobrimentos e na Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, não obstante haver fundamentos documentais para se afirmar que o nome completo do navegador seria Bartolomeu Dias de Novais, este último apelido não surge nos documentos coevos […] «motivo que tem dificultado a sua identificação visto terem existido na mesma época vários indivíduos com o mesmo nome»[…]. [1] Esta é a posição que mais recentemente foi reiterada por um dos maiores especialistas da História da Expansão marítima portuguesa, Luís de Albuquerque, no Dicionário de História de Portugal, sem mais observações. [2]
Efectivamente, embora se saiba que ele foi escudeiro da Casa Real e administrador do “Armazém da Guiné”, entre 1494 e 1497 e que se suspeite que descendesse de outro célebre navegador, Dinis Dias (navegador henriquino que, em 1442 terá participado nas explorações do golfo de Arguim, em 1444 descoberto Cabo Verde e, no ano seguinte, sob o comando de Lançarote, explorado a costa ocidental africana entre o Cabo Branco e o Senegal) e também se saiba que foi irmão de Diogo Dias, que o acompanhou nas suas arriscadas jornadas, existem notícias de um Bartolomeu Dias, dado como mercador em Lisboa e Itália, entre 1475 e 1478. [2] E mais outros haveria certamente! 
Serão estas razões suficientemente plausíveis para que Bartolomeu Dias não figure no Dicionário dos mais ilustres transmontanos e alto-durienses, obra dirigida por Barroso da Fonte, a par de Diogo Cão e Fernão de Magalhães, também eles excelsas figuras da História da Expansão Ultramarina portuguesa, mas cujas origens transmontanas não se afiguram menos discutíveis?    
Em minha opinião, estamos perante um daqueles casos em que a falta de respostas científicas nos obriga, com a necessária e absoluta salvaguarda da imparcialidade historiográfica, a respeitar a tradição. Mas esta, a propósito da naturalidade de Bartolomeu Dias surge ainda repartida entre duas ou três alternativas: Mirandela, sede de concelho do distrito de Bragança, ou Alcochete, ou ainda do Montijo, ambos centros municipais do distrito de Setúbal de onde se diz que residiram os seus descendentes de apelido Novais, em todo o caso meras especulações. Então porque não, de novo, Mirandela?

Estátua de Bartolomeu Dias na cidade do Cabo 
 conteúdo livre Wikimédia Commons | autor: Dewet  



Referências

[1] VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, vol. 6, 1966, p.1291.
[2] DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, dir. Joel Serrãp, vol. II, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, pp. 294-295.
[3] LINK

sábado, 28 de maio de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - I

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.


Diogo Cão

Ficou o navegador português do século XV com este nome para a História como um dos pioneiros na descoberta e exploração da costa sudoeste africana que, a mando de D. João II, realizou duas viagens nessa área entre 1482 e 1484 e entre 1485 e 1486, tendo na primeira chegado à foz do rio Zaire avançado pelo interior do mesmo rio e alcançado as cataratas de Ielala, deixando aí uma inscrição da sua passagem na célebre pedra com esse nome e estabelecendo as primeiras relações com o Reino do Congo. Numa segunda viagem, consciente de que a foz do rio Zaire não era, como inicialmente julgara o limite meridional do continente africano prosseguiu mais para sul, chegando ao Cabo da Cruz ou Cabo do Padrão na actual Namíbia, sem lograr achar a desejada passagem para o Índico. Foi Diogo Cão quem introduziu a utilização de padrões em pedra, em vez de madeira, para assinalar as descobertas portuguesas. Apesar de não ter alcançado o Cabo que depois seria baptizado de “Cabo da Boa Esperança” e de ter sido por esse motivo caído em desgraça perante o rei, é considerado como um dos grandes heróis da epopeia dos Descobrimentos.

Mas quando e onde terá nascido este Diogo Cão?

Relativamente à primeira questão, os primeiros registos da sua existência datam do início da década de 1480 e reportam-se à primeira viagem por ele empreendida e a que atrás nos referimos, ordenadas por D. João II com o objectivo de se certificar da passagem do extremo sul do continente africano.

Quanto à segunda questão, também muito pouco se sabe a respeito da sua origem geográfica e familiar, pelo que a maior parte dos historiadores actuais se decide pela absoluta imparcialidade a seu respeito, referindo-se-lhe apenas como um navegador português do século XV. Porém, outros historiadores consagrados, embora de geração mais recuada, como é o caso de Damião Peres consentiram em tomá-lo «provavelmente como um membro de uma família radicada em Vila Real».[1] E actualmente esta possibilidade ainda parece longe de ser descartada em publicações nacionais e regionais, impressas e outras digitais on line na Internet, na própria “Wikipédia, a enciclopédia livre”, na Infopédia e num número significativo de páginas e blogues, onde a expressão «nascido provavelmente na região de Vila Real» surge amiúde. No Primeiro Volume do “Dicionário dos mais Ilustres Transmontanos e Alto Durienses”, por exemplo afirma-se com aparente convicção que Diogo Cão «era descendente de uma família de Vila Real» que «seu pai e avô foram militares de carreira ao serviço da Pátria» e que «o avô distinguiu-se na guerra da independência e o pai no reinado de D. Afonso V.»[2] Mas esta relação de Diogo Cão, o navegador, com a família Cão de Vila Real, sustentada pela tradição, nunca mereceu a necessária concordância dos genealogistas. O insigne nobiliarista Felgueiras Gayo, autor de uma vastíssima obra que ainda hoje constitui uma base fundamental para os investigadores desta área, o “Nobiliário das Famílias de Portugal”, obra reeditada em 17 volumes entre 1938 e 1941 e pela última vez em 1989, refere-se ao navegador como tendo nascido por volta de 1450 e originário da família Cão, não de Vila de Real mas de Évora, tomando-o por filho de Álvaro Fernandes ou Gançalves Cão e neto de Gonçalo Cão, nascido ao redor de 1370.[3] Este mesmo Gonçalo Cão é também invocado como efectivamente avô do navegador Diogo Cão pelos que defendem ser este oriundo de Vila Real. Parece assim que coexistiram várias famílias Cão no reino, sem relação de parentesco entre elas. No site “Vida Vedra, magazine on line Pontevedra (categoria: cultura.es)”, encontrámos justamente uma interpretação neste sentido, ainda que noutro contexto, que passamos a trancrever[4]


«Isabel Coelho era tia paterna de Constança. Casara com Diogo Martins Cão e no ano de 1472 viviam em São Mamede de Vila Verde, na terra de Felgueiras. A documentação que chegou até aos nossos dias, é rica em informação pontual e dispersa, referenciando pessoas de sobrenome “Cão”. Porém, salvaguardando o caso de duas linhagens, uma em Évora e Vila Viçosa, e outra em Vila Real, não permite estabelecer linhas de parentesco entre os deste apelido.

Sublinhem-se contudo, três insinuantes coincidências: Fernão Pereira, senhor da Terra da Feira era, naqueles tempos, alcaide-mor de Vila Viçosa; um homem chamado Diogo Cão celebrizou-se enquanto “descobridor do Congo”, navegando as costas de África em busca da passagem para oriente, a mando do Rei D. João II; esse homem teve um filho chamado Pedro Cão que rondaria os 18 anos quando a 1 de Agosto de 1476 um Pedro Cão, “escudeiro do Conde de Caminha”, recebia uma Carta de Perdão do Rei D. Afonso V, existente no arquivo das chancelarias régias, na Torre do Tombo em Lisboa. Estas fontes de informação permitem identificar, sem risco de maior erro, a forte possibilidade do Diogo Cão navegador, ser parente próximo do Diogo Martins Cão, e que o escudeiro Pedro Cão fosse seu irmão, ou mesmo aquele seu filho.»

Posto que se tenha em conta a relação parental aqui estabelecida entre Diogo Cão, “o descobridor do Congo” com Diogo Martins Cão, residente em S. Mamede de Vila Verde, “na terras Felgueiras” que, como se sabe é uma sub-região do Tâmega, e que o filho do mesmo Diogo Cão, Pedro Cão (este nome é mesmo indicado por Felgueiras Gayo como o do primogénito do navegador) seria “escudeiro do conde de Caminha”, tais “insinuantes coincidências” no que respeita a estes indivíduos com indicações geográficas mais próximas de Vila Real do que de Évora e Vila Viçosa poderão ser mais do que simples coincidências. Existe, portanto, uma séria probabilidade de Diogo Cão ter sido efectivamente oriundo de Vila Real.


Outras dúvidas se têm colocado a respeito da data e local do seu falecimento. Baseando-se numa expressão da carta de Henricus Martellus de 1489, referindo-se à Serra Parda, na zona do Cabo da Cruz que foi o limite do território descoberto por Diogo Cão («diegus canus... hic moritur») Joaquim Veríssimo Serrão considerou a hipótese de o navegador ter falecido por esse altura e nessa zona, mas logo descartou esta possibilidade por haver dúvidas «se a expressão não se deve antes aplicar ao termo montanhoso do local.» Aproveitando o testemunho de Rui de Pina, o mesmo historiador encontra razões para acreditar que o navegador voltou ao reino após a sua derradeira missão e por não ver concretizado o seu primordial objectivo, que era o de atingir a ponta sul de África e, enfim, a passagem para o Oriente, foi posto à margem por D. João II e votado ao esquecimento, o que explica o facto de o cronista não mais evocar o seu nome. Acrescenta ainda Veríssimo Serrão que «não se provando que o seu túmulo esteja na sé de Vila Real, de onde a tradição diz que era oriundo, permanece assim o mistério do olvido que cobriu o seu nome após a segunda viagem.» [5]  




Estátua de Diogo Cão em Vila Real |
 | Fonte: http://www.flickr.com/photos/samuel_santos/4970110241/


Referências:

[1]VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, vol. 4, 1966, p. 874.

[2] DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRASMONTANOS E ALTO DURIENSES, Coordenado Barroso da Fonte, Vol I, Editora Cidade Berço | Disponível em http://www.dodouropress.pt

[3] GAYO, Felgueiras, Nobiliário das Famílias de Portugal, vol. III, 2.ª ed., Braga, 1989, p. 174

[4] LINK


[5] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Verbo. vol. II, 3.ª ed. revista, 1980, p. 181

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Génios loucos

Criativos, sensíveis, estranhos

A história está cheia de mentes geniais capazes de criar obras sublimes e, ao mesmo tempo, cair na loucura e nas piores perversões, no roubo ou mesmo no homicídio.
A galeria Tate Britain de Londres expõe, entre outras jóias artísticas, um pequeno quadro intitulado O Golpe de Mestre do Lenhador-Duende. O autor, o pintor Richard Dadd, fez uma viagem ao Egipto, em 1842, durante a qual sofreu uma trágica mudança de personalidade, provavelmente causada pelo consumo de ópio e de outras drogas. No regresso, já não voltaria a ser ele próprio: o seu carácter tornara-se azedo e mostrava-se paranóico e agressivo.
De volta a Inglaterra, Dadd assegurava que o deus egípcio Osíris o incumbira de uma dolorosa missão, cujos detalhes não revelava. A conselho de um médico, o pintor resolveu passar um período a descansar na casa de campo da família, no Kent. Uma tarde, enquanto passeava por um bosque nas redondezas, Dadd desferiu uma machadada no pai e, depois, desmembrou o corpo. O parricida foi detido passados alguns dias, em França, quando se preparava para degolar um homem. Entre os seus pertences, a Polícia encontrou um caderno onde escrevera uma longa lista de nomes de pessoas, entre as quais se contava o papa, que devia assassinar por ordem de Osíris.
Aos 27 anos, Dadd foi encerrado num hospício, onde dedicou quase uma década à referida tela, que mostra um grupo de fadas, elfos e duendes a observar um lenhador que se prepara para dar uma machadada. A seus pés, não há lenha, apenas terra. Dadd morreu no hospital psiquiátrico de Broadmoor, em 1886.

Quebrar o gelo

No começo do século XX, numa das suas inúmeras bebedeiras, Maurice Utrillo pegou fogo ao hotel de Montmartre onde se alojava. Na rua, no meio dos bombeiros e polícias, a multidão apontava para o telhado do hotel, onde se perfilava a figura do pintor francês. Os habitantes do bairro tinham-no reconhecido e gritavam “É o louco!”, “Detenham o louco!”.
Em 1905, o dramaturgo Alfred Jarry, autor de Rei Ubu e criador da escola patafísica, sentou-se num café parisiense ao lado de uma senhora e, por alguma razão, resolveu embirrar com um cliente que se encontrava junto desta. Ergueu-se, tirou uma pistola do coldre e disparou contra um espelho, provocando pânico no café e a fuga precipitado do fulano que o punha nervoso. Já calmo, voltou-se para a aterrorizada dama e disse-lhe: “Agora que quebrámos o gelo, conversemos.” O seu gosto por puxar o gatilho causou-lhe vários problemas, mas nunca feriu ninguém.

Extravagantes e criminosos

Muitos artistas foram extravagantes, associais ou neuróticos, assim como obcecados sexuais (Giacomo Puccini), com tendência para a pedofilia (o pintor Balthus), escatológicos ou infantis e malcriados (Amadeus Mozart). Outros tinham graves perturbações mentais, como o poeta surrealista Antonin Artaud, natural de Marselha, que sofria de doença bipolar. Por sua vez, o pintor surrealista Salvador Dalí, criador do “método paranóico-crítico”, foi considerado como um génio ególatra e enlouquecido.
Michael Fitzgerald, psiquiatra irlandês do Trinity College Dublin, assegura que muitos génios foram vítimas de alguma forma de autismo. Será que isso significa que o talento criativo está relacionado com a loucura? A maioria dos psiquiatras rejeita semelhante associação. Os grandes artistas podem ser tão normais ou tão perversos como qualquer outra pessoa.
Músicos, pintores ou escritores são criativos e hiper-sensíveis, mas podem também ser assassinos, ladrões ou seres pervertidos. Tal como os restantes mortais, exibem as diversas variantes da condição humana, como poderá apreciar nas páginas que se seguem.

Sid Vicious: décibeis de sangue

John Simon Ritchie nasceu em Londres, em 1957, e foi criado pela mãe, toxicodependente, depois de o pai os ter abandonado. Na adolescência, fez parte de bandas de rua e andou a vender droga. Uma vez, quando assistia a um concerto, feriu uma espectadora e esteve preso uma semana. Depois, juntou-se ao movimento punk e conheceu o vocalista dos Sex Pistols, Johnny Rotten, que lhe deu o nome de Sid Vicious. Foi com esse pseudónimo que se juntou ao grupo como baixista, em 1977.
Viciado em heroína, Sid deixou a banda em 1978 e instalou-se no Hotel Chelsea de Nova Iorque com a namorada, a groupie Nancy Spungen. No dia 12 de Outubro, ela foi encontrada morta no quarto que partilhavam, apunhalada e banhada em sangue. No chão, havia seringas e uma faca. Sid, aturdido com a droga, foi acusado de assassínio e libertado sob fiança. Enquanto aguardava o julgamento, morreu de overdose aos 21 anos.

Cervantes: brigas e prisão

O pai de Cervantes era um médico que passou por grandes dificuldades para conseguir sustentar a numerosa prole. Na juventude, Cervantes foi para Madrid, onde decidiu dedicar-se às letras, mas meteu-se numa briga e feriu um tal Antonio de Sigura, segundo filho de um membro da alta nobreza espanhola. Foi condenado à mutilação da mão direita e a dez anos de desterro, mas fugiu para Itália e refugiou-se na milícia. O jovem escritor combateu em Lepanto, onde perdeu a mobilidade da mão esquerda, e esteve cinco anos preso em Argel. De regresso a Espanha, foi parar à cadeia, acusado de vender parte do trigo destinado à Armada. Diz-se, também, que foi proxeneta das irmãs.

Caravaggio: um pintor em fuga

A vida de Michelangelo Merisi da Caravaggio foi recheada de tumultos, sexo, violência e fugas precipitadas. Nasceu em 1571, no seio de uma modesta família milanesa, e chegou a Roma aos 21 anos na mais absoluta miséria. Ali, trabalhou como retratista para subsistir, antes de entrar ao serviço do cardeal Del Monte, próximo dos Médicis. Na cidade, aperfeiçoou a técnica do claro-escuro... e a dos escândalos.
Dizia-se que roubara o cadáver de uma mulher para servir de modelo da Virgem. Era alcoólico, frequentava os bas-fonds e passou várias vezes pela prisão. O jogo, a noite e a prostituição feminina e masculina fascinavam-no. Em 1606, aos 35 anos, matou um tal Tomassoni num duelo por causa de uma dívida de jogo. Foi condenado à morte, mas conseguiu fugir para Malta. Ali, foi acolhido pelos cavaleiros da Ordem de Malta graças ao seu talento artístico. Passados dois anos, fugiu novamente, após seduzir a filha de um dignatário, e foi expulso da Ordem por ser “putrefacto e fétido”. Esteve na Sicília e em Nápoles, seguindo depois para Roma a fim de obter o perdão do papa, mas morreu em circunstâncias estranhas e o seu corpo nunca foi encontrado. Corria o ano de 1610.

Jean Genet: a vida nas margens

Nascido em Paris, em 1910, de uma mãe prostituta e pai desconhecido, Jean Genet foi entregue à assistência pública, que lhe deu um uniforme, um par de tamancos de madeira e um número de registo. Deixou o orfanato para ser acolhido por um casal que cobrava 21 francos por mês para mantê-lo, e cometeu o primeiro roubo aos dez anos. Aos 15, foi enviado para um centro de menores perto de Tours, onde permaneceu três anos. Foi ali que descobriu a sua homossexualidade.
Aos 18 anos, alistou-se na Legião Estrangeira e foi enviado para o Norte de África. Depois, deixou a milícia e prostituiu-se até conseguir voltar a Paris. Preso por roubar e falsificar documentos, foi na cela que escreveu Diário de um Ladrão. Jean Cocteau reparou no seu talento e arranjou-lhe editor, mas Genet continuou a roubar livros nas bibliotecas para vender na rua. Detiveram-no novamente e esteve à beira de ser condenado à prisão perpétua, mas Cocteau intercedeu e a pena foi reduzida a alguns meses. Depois, conheceu o êxito literário, participou nos movimentos de Maio de 1968, apoiou diversas causas revolucionárias e instalou-se em Larache (Marrocos).

Chatterton: mentir para triunfar

Nos seus escassos 18 anos de vida, Thomas Chatterton (1752–1770) conseguiu transformar-se num ícone da poesia pré-romântica e... num grande impostor. Natural de Bristol e órfão de pai, foi internado num colégio aos seis anos. Lia febrilmente e, aos onze, compôs os seus primeiros poemas. Inspirando-se em antigos pergaminhos, escreveu a écloga Eleonore e Juga, na qual imitava uma linguagem medieval que fez passar como sendo do monge Thomas Rowley. Ao ver que a coisa pegava, continuou a criar falsificações e a vendê-las por alguns xelins. Inventou autores e escreveu obras que provinham, supostamente, de um cofre encontrado numa igreja. Quando se descobriu a fraude, fugiu para Londres e começou a assinar com o seu nome. Chegou a publicar mas, depois, suicidou-se com arsénico.

William Burroughs: rápido no gatilho

Além de ser um dos escritores mais influentes da geração beat, William Burroughs (1914–1997) foi um grande adepto das armas e um tenaz dependente de heroína. Em 1951, perseguido pela polícia norte-americana, emigrou com a família para o México. Numa noite de embriaguez, colocou uma maçã na cabeça da mulher, Joan Vollmer, e disparou o seu Colt 45. Embora se orgulhasse da pontaria, falhou e matou-a. Acusado de homicídio voluntário, passou alguns dias na cadeia, mas conseguiu sair com o auxílio da sua família abastada, proprietária da companhia de calculadoras Burroughs Adding Machines. Refugiado em Tânger, bissexual e consumidor de drogas compulsivo, escreveu livros fascinantes como Junkie ou Naked Lunch (Festim Nu), baseados na sua experiência.

Arthur Rimbaud: mudado a tiro

Em 1880, Arthur Rimbaud tinha 26 anos e vivia na Etiópia, onde se dedicava ao tráfico de seda, ouro, plumas e armas. “Importamos espingardas”, escreveu à família. Uma existência oposta à vida com que sonhara quando trocou a sua Charleville natal por Paris, aos 17 anos, para se transformar num poeta boémio. Em 1871, o belo adolescente deslumbrou com os seus versos Paul Verlaine, o qual abandonou a mulher e o filho por ele. Os dois poetas amaram-se e embriagaram-se de absinto e haxixe. Durante uma cena de ciúmes, Verlaine deu um tiro no efebo e foi condenado a dois anos de prisão. Depois de criar, em três anos, uma das obras ímpares da literatura, Rimbaud fugiu e trocou a boémia pelos negócios, mas não encontrou paz em África. Sozinho e doente com cancro, regressou a Marselha para morrer.

Marquês de Sade: castigado pela sua libertinagem

Donatien Alphonse François, marquês de Sade, nasceu em Paris no seio de uma família da aristocracia provençal, em 1740. Na sua vida acidentada, foi preso por ordem da Monarquia, da República e do Império, e passou 27 anos encerrado em diversas cadeias e manicómios. Quais foram os seus crimes? Um comportamento com tendência para os excessos, caracterizado por uma sexualidade agressiva, além dos textos que escreveu, considerados demasiado violentos e eróticos. O pai, numa tentativa para o endireitar, casou-o aos 23 anos com a herdeira de uma família nobre e abastada. A mulher sustentou-o economicamente, apesar dos escândalos que ele protagonizou. Acusado de rapto, violência sexual e actos de barbárie contra três jovens que o denunciaram, Sade passou a juventude em fuga.
Aos 37 anos, foi enviado para a cadeia. Durante os treze que passou por detrás das grades nas prisões de Vincennes e da Bastilha, escreveu Os 120 Dias de Sodoma. Libertado em 1790, o “Divino Marquês” sobreviveu à custa da publicação de obras clandestinas escandalosas, como Justine. Durante a Revolução francesa, tomou posição contra a pena capital e a guilhotina. Em 1800, publicou Zoloé e as Suas Duas Amantes, obra que exaltou os ânimos e lhe valeu a condenação dos revolucionários. Sade foi encarcerado no hospício de Charenton, onde morreu em 1814, aos 74 anos.
Muitas histórias foram inventadas, e outras exageradas, sobre o nobre cujo apelido deu origem à palavra “sádico”. A verdade é que falou de sexo sem pudor, um pecado grave no século XVIII, e parte dos seus manuscritos foi destruída pela própria família.

SUPER 156 - Abril 2011

quarta-feira, 25 de maio de 2011

238.º Aniversário da abolição da distinção entre “cristãos novos” e “cristãos velhos” em Portugal

Por Leonel Salvado
Padre António Vieira, um dos defensores dos judeus e da 
extinção da distinção entre cristãos novos e cristãos velhos
| óleo sobre tela de autor desconhecido, início do século 
XVIII, Casa Cadaval, Muge, Portugal | origem: Portal da História / Wikipédia

Foi no dia 25 de Maio de 1773, em plena disseminação das ideias iluministas em Portugal e sob influência da extraordinária argúcia política do ministro de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, o Marquês de Pombal, que o rei de Portugal, que aquele rei de Portugal promulgou a lei que extinguia as diferenças entre "cristãos velhos" e "cristãos novos" que durante perto de três séculos – desde a expulsão dos judeus de Castela pelos reis católicos e a sua conversão forçada ao cristianismo tanto aí como em Portugal e no Brasil – vinha dando azo a manifestações populares de fanatismo anti-semita, algumas delas excepcionalmente trágicas como foi a que conduziu ao lamentável massacre de Lisboa na Pascoela de 19 de Abril de 1506 que aqui recordámos no nosso Memorial [Nacional] [Rever].
Convém referir que a situação dos judeus em Portugal cuja existência, aqui, constituindo minorias étnicas, poderá remontar à época anterior à invasão árabe (e surge documentada desde o reinado de D. Dinis), variou sempre em função das orientações políticas e religiosas dos nossos monarcas. Terá sido após o “decreto de Alhambra”de 31 de Março de 1492, isto é a partir do reinado de D. João II, que em vagas sucessivas muitos judeus portugueses abandonaram o país e só existem provas documentais da utilização dos nomes cristão velho e cristão novo a partir do reinado de D. Manuel. Ora, a lei de 25 de Maio de 1773 foi o resultado do hábil estratagema de Pombal com vista à transformação da Inquisição num instrumento político, esvaziando-a de uma das suas competências primordiais que era justamente o de perseguir e condenar aqueles de que existissem suspeitas de praticarem outras religiões, suspeitas essas que recaíam maioritariamente sobre os cristãos-novos. Tal estratagema destinava-se ainda a minar ao crescente exercício de influência que à época generalizadamente se atribuía à Companhia de Jesus sobre essa instituição, ainda que, ironicamente, destacados membros da Companhia tivessem manifestado o contrário, como pode ter sido o caso do Padre Gabriel Malagrida e foi, seguramente o caso do Padre António Vieira, que se insurgiu energicamente em defesa dos judeus e contra a própria Inquisição.

Imperando o princípio da igualdade que muitos homens iluminados apregoavam, a distinção entre cristãos novos e cristãos velhos deixava de ter sentido e o próprio monarca disso parece ter sido também convencido. Promulgada a lei caducaram todas as leis anteriores que discriminavam os cristãos novos, foi abolida a “limpeza de sangue” e proibido o uso da palavra “cristão-novo”. Segundo Arlindo Correia num texto publicado em 20 de Setembro de 2008 de que abaixo deixamos a referência on line, para esta lei que punha «todos em pé de igualdade, independentemente dos seus antepassados», exceptuando «os descendentes de quem tinha sido condenado pela Inquisição» […]«iam-se buscar duas Leis do tempo de D. Manuel e de D. João III que afirmavam tal igualdade, que tinha sido afastada por D. Sebastião.» Todavia, a Inquisição perduraria ainda em Portugal até à Revolução liberal vintista, perdendo progressivamente a tenebrosa conotação de outrora até ser extinta por decreto de 31 de Março de 1831 emanado das Cortes Gerais Extraordinárias Constituintes da Nação.

Mesmo assim, muitas famílias de judeus sefardistas portugueses que foram partindo para outros países jamais regressaram e os seus descendentes ainda hoje, séculos depois, identificáveis pelos seus sobrenomes mantêm um vínculo sentimental às suas origens, solicitando e aguardando que o Governo português lhes conceda o direito à restituição da nacionalidade dos seus antepassados. A respeito dos que desta sorte de judeus escolheram ficar por terras transmontanas já dedicámos aqui no Clube de História  um post na categoria “Notícias com História [local/regional]" intitulado “A expulsão dos judeus de Castela e o reforço das comunidades cripto-judaicas em Trás-os-Montes”. [Rever]


Para aceder a mais pormenores sobre esta data comemorativa clique AQUI.

Para um estudo ainda mais aprofundado sobre os judeus em Portugal clique AQUI.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

"Apanhados na rede", exposição de fotografia do Projecto Afectos

Por Leonel Salvado
clique na foto para aumentar

Esteve patente ao público nos Paços do Concelho da cidade de Valpaços, entre os dias 16 e 20 de Maio de 2011, uma belíssima e curiosa exposição fotográfica organizada pelo Projecto Afectos composta por 40 fotografias representando alguns idosos “apanhados de surpresa”. Trata-se de uma iniciativa intitulada “Apanhados na Rede” visando fazer corresponder o arranjo cénico desta mostra fotográfica à metáfora “apanhados na rede larga” onde “as expressões captadas pela objectiva transmitem momentos de alegria e boa disposição” e ao mesmo tempo fazendo jus aos objectivos primordiais do Grupo que, segundo os responsáveis do mesmo Grupo consistem no “dever de repensar o nosso próprio futuro e tentar compreender a velhice a tempo de vivê-la da melhor forma”. Segundo os mesmos responsáveis, “respeitar e dar carinho aos idosos que nos cercam é uma maneira de nos aproximar dessa realidade.
 Parabéns ao Projecto Afectos por este inolvidável evento cultural e humanitário.

sábado, 21 de maio de 2011

484.º Aniversário do nascimento de Filipe I, rei de Portugal

Retrato de Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal)por Alonso Sánchez 
Coello (1527-1590), Museu del Prado, Madrid | http://pt.wikipedia.org

Designado como Filipe de Habsburgo e Avis, Filipe II de Espanha (I de Portugal) nasceu em Valladolid em 21 de Maio de 1527 e faleceu em El Escorial no dia 13 de Setembro de 1598. Foi o 18º rei de Portugal (se não tivermos em conta D. António, o prior do Crato, que reinou de facto, embora por aclamação apenas dos seus partidários, durante um breve período de tempo, entre 9 e 17 de Julho de 1580, e reconhecido ainda como rei nos Açores até 1583), sucedendo formalmente, isto é segundo as listas mais conhecidas dos reis de Portugal, ao cardeal-rei D. Henrique I em cujas listas se interpõe entre 31 de Janeiro de 1580 e 17 de Junho de 1580 um governo exercido por um conselho de governadores do reino de Portugal, o mesmo que, nesta última data, reconheceu por maioria em Castro Marim a legitimidade de Filipe ao trono português. Embora a partir desta mesma data passasse a governar parcialmente o país, só a partir de 17 de Abril de 1581, após sua legitimação nas Cortes de Tomar, é que se tornou de jure rei de Portugal, legitimação essa apenas ensombrada pela resistência açoriana até ao referido ano de 1583. É, portanto, sob reserva destas nuances, que Filipe I surge considerado como o 18.º rei de Portugal, sendo também por vezes mencionado como um continuador da dinastia de Avis na qualidade de filho da primogénita de D. Manuel I, Isabel de Portugal, pelo seu casamento com Carlos V. Contudo, a dinastia é mais frequente e simplesmente designada de filipina por ter sido por ele inaugurada, sucedida por seu filho, Filipe II, e terminada com seu neto, Filipe III de Portugal com a Restauração da independência, em 1640.
Com Filipe I consumou-se a união ibérica, favorecida pela crise dinástica portuguesa irremediavelmente ditada pela morte de D. Sebastião em Alcácer Quibir e pelas fragilidades evidenciadas na defesa dos direitos à sucessão da coroa de Portugal dos três restantes candidatos: Emanuel Felisberto, duque de Sabóia, filho da infanta D. Beatriz, casada com Carlos III anterior titular do ducado, também aquela filha de D. Manuel; D. António, Prior do Crato, a que nos referimos, filho do infante D. Luís e, por isso, neto paterno de D. Manuel; D. Catarina, duquesa de Bragança, filha legítima do infante D. Duarte que por sua vez era igualmente filho de D. Manuel; o duque de Parma, Alexandre Farnésio, neto materno do mesmo infante D. Duarte.
Herdeiro do Sacro Império Romano Germânico e rei de Espanha e de Portugal, coube-lhe governar um vastíssimo território nos quatro continentes, reflectindo-se gravemente em Portugal a progressiva decadência do império dos Habsburgos durante os cerca de 60 anos que se seguiram à sua coroação neste país.

Para aceder a mais pormenores sobre o reinado de Filipe I de Portugal clique AQUI.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

734.º Aniversário da morte do papa português, João XXI

Por Leonel Salvado

Papa João XXI (Pedro Hispano) | Aljodasch, http://wikipedia.org

Mais conhecido por Pedro Hispano, recebeu no baptismo o nome de Pedro Julião. Ignora-se a data e o local exactos do seu se nascimento, aventando-se que tenham sido entre 1205 e 1220 em Lisboa, havendo quem sugira que na actual freguesia de S. Julião. A sua paternidade é também controversa, defendendo alguns autores que tenha nascido do médico João Rebelo, de quem teria herdado a profissão, e de Teresa Gil, pretendendo outros que tenha sido filho do chanceler de D. Sancho I, o Mestre Julião Pais. Terá, portanto, nascido após menos de um século da conquista de Lisboa e vivido durante os reinados de D. Afonso II, D. Sancho III e D. Afonso III.

Pedro Hispano Iniciou os seus estudos na escola da catedral de Lisboa prosseguindo-os mais tarde na Universidade de Paris (ou Montpellier – dividem-se mais uma vez os historiadores), adquirindo uma sólida formação escolástica nas áreas da medicina, teologia, lógica e dialéctica bem como na área da física e metafísica aristotélica. Entre 1246 e 1252 foi professor de Medicina na Universidade de Siena, granjeando grande fama pela manifestação da sua vasta e diversificada cultura científica, tanto na docência como na publicação de tratados de medicina de filosofia e de Teologia que serviram de primordial referência nas universidades europeias durante os séculos que se seguiram de predominância cultural escolástica.
Entre 1250 e 1258 já havia ingressado no sacerdócio, em Portugal, pois, como refere Joaquim Veríssimo Serrão, entre estas duas datas «confirma-se a sua presença no Reino, como deão da sé de Lisboa e arcediago de Braga, figurando nas Cortes de Guimarães daquele ano e assinando como testemunha em várias cartas de Afonso III.» Ainda segundo este historiador, «também se pode assentar a sua presença nas Cortes de Leiria de 1254» e «no fim de 1257 viu aceita pelo Papado a sua apresentação para prior da Igreja de Santa Maria de Guimarães» e ainda «em Junho de 1258, chamado agora Pedro Julião, estava junto do monarca na mesma vila. [1] Em 1271 o cabido da sé de Braga elegeu-o para esta arquidiocese e em 1273 foi elevado a cardeal-arcebispo de Tusculum, nas proximidades de Roma, sendo, aí, em 1275 nomeado médico principal do Sumo Pontífice, Gregório X e, a 13 de Setembro de 1276, em conclave realizado em Viterbo, é eleito papa e coroado a 20 de Setembro, adoptando o nome de João XXI, adopção esta que se costuma considerar ter sido por lapso, uma vez que não existiu papa algum com o nome de João XX. [2]

O seu pontificado decorreu até 16 de Maio do ano seguinte quando, sentindo-se mal, delegou no cardeal Orsini (futuro Nicolau III) e retirou-se para o palácio apostólico de Viterbo, em cujo aposento, estando em obras, se recolheu e veio a encontrar a morte devido ao desabamento das paredes. Inicialmente sepultado na catedral de S. Lourenço, em Viterbo, os seus restos mortais foram trasladados no século XVI para um humilde túmulo e esquecidos, até que a 28 de Março de 2000, por intervenção do Presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, e com o contributo do mesmo Município, foram finalmente depositados num decente mausoléu no interior da catedral. Foi o 188.º Papa, antecedido por Adriano V e sucedido por Nicolau III.

Acerca da acção do papa português, João XXI, durante o seu curto pontificado transcrevemos as seguintes considerações:

João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressa-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera.
Embora sem grande sucesso, leva por diante a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente. Esforça-se por libertar a Terra Santa em poder dos turcos.
Tenta reconciliar grandes nações europeias, como França,  Alemanha e Castela, dentro do espírito da unidade cristã. Neste sentido, envia legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou, sem sucesso.
Pontífice dotado de rara simplicidade, recebe em audiência tanto os ricos como os pobres.  Dante Alighieri, poeta italiano (1265-1321), na sua famosa ‘Divina Comédia’, coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a alma de São Boaventura, apelidando-o de "aquele que brilha em doze livros", menção clara a doze tratados escritos pelo erudito pontífice português. O rei aragonês Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de D. Dinis de Portugal, elogia-o em forma de canção no "Paraíso", canto XII. Mecenas de artistas e estudantes, é tido na sua época por 'egrégio varão de letras', 'grande filósofo', 'clérigo universal' e 'completo cientista físico e naturalista'.

In http://pt.wikipedia.org



Convém que se diga que algumas das obras atribuídas à autoria de Pedro Hispano têm encontrado inúmeras objecções, principalmente as Summulæ Logicales (ou Tractatus), 
uma obra filosófica que durante trezentos anos valeu como compêndio de Lógica nas Universidades europeias e de certa forma também as obras  Scientia libri de anima¸ Commentarium in De anima e Thesaurus pauperum, para além da Expositio librorum Beati Dionysii, esta última uma um tratado de Medicina. A polémica, ao que parece, está para continuar.

Fontes:

[1] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, 3.ª Ed. Vol I, Verbo, 1979, p. 234

[2] Pedro Hispano (Papa João XXI). In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011.
       


Para uma análise da obra filosófica e médica de Pedro Hispano clique AQUI.

Para uma análise da polémica a propósito das obras atribuídas à autoria de Pedro Hispano clique AQUI e AQUI.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Princesa egípcia com 3500 anos é o primeiro caso conhecido de aterosclerose

18.05.2011 - 10:09 Por Romana Borja-Santos
Ahmose-Meryet-Amon, filha do faraó Seqenenre Tao II, terá morrido com cerca de 40 anos
 (Foto: Dr. Michael Miyamoto )


Não fumava e tinha uma posição social que lhe permitia ter uma boa alimentação e viver sem o stress de quem trabalha. Mesmo assim, a princesa Ahmose-Meryet-Amon, filha do faraó Seqenenre Tao II, poderá ser o primeiro caso conhecido de aterosclerose – uma doença cardiovascular crónica. Hoje seria candidata de eleição para um bypass coronário.


Para ler o artigo completo clique na imagem

terça-feira, 17 de maio de 2011

Recordando Joaquim de Castro Lopo, no 59.º aniversário da sua morte

Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços  | Arranjo gráfico: Leonel Salvado
Clique na imagem para rever o que publicámos em sua homenagem

domingo, 15 de maio de 2011

O cão de gado transmontano

Transcrição

Fiel e amigo do pastor | outros nomes: Mastim Português -Transmontano

História 
O Cão de Gado Transmontano é uma raça antiga, descendente dos mastins do tronco Ibérico. Desenvolveu-se naturalmente no nordeste de Trás-os-Montes, com pouca influência do pastor na criação. A selecção destes cães era ditada pela natureza e mais concretamente pelo lobo.

O Cão de Gado Transmontano é uma raça possante e funcional que desempenha de forma exemplar a função de guarda. Particularmente utilizado para defender os rebanhos de ovelhas e cabras, a popularidade da raça caiu quando o êxodo rural e a emigração mais se verificaram na região. Com a necessidade de proteger o lobo, a importância da utilização destes cães pelos pastores tornou-se vital. Aliás, os pastores só são indemnizados pelas ovelhas perdidas para os lobos se tiverem pelo menos um cão por cada 50 cabeças de gado.
Apesar da sua longa história, só recentemente é que a raça foi reconhecida pelo Clube Português de Canicultura, mas aguarda ainda o reconhecimento do FCI. O estalão desta raça é provisório, valendo por um período de cinco anos após a aprovação.
Para além do reconhecimento nacional, existem também programas que visam proteger e divulgar o Cão de Gado Transmontano. Exemplo disso é o trabalho feito no Parque Natural de Montesinho, onde as ninhadas e cães são contabilizados e interessados são colocados em contacto com os criadores, sobretudo pastores.
Têm-se criado também exposições para esta raça, de forma a divulgar e apurar os melhores exemplares.

Temperamento 
O Cão de Gado Transmontano é um animal possante, que necessita de um dono experiente. As suas maiores qualidades podem virar graves defeitos se o dono não for capaz de dominar o cão. Independente e possessivo, o Cão de Gado Transmontano deve ser ensinado desde pequeno a respeitar o dono.
Mas é a sua territorialidade e capacidade de iniciativa que o torna num cão de guarda de rebanhos de excepção. A zona onde é mantido ou passeado é entendida pelo cão como sua e tenta sempre protegê-la de estranhos. Está adaptado ao frio rigoroso do Inverno transmontano, mas também ao calor sufocante do Verão. Para se proteger das condições atmosféricas, escava buracos na terra, em busca de abrigo do vento forte ou em procura de um local mais fresco. Mantido em jardins, a relva é sempre esburacada.
O Cão de Gado Transmontano necessita de bastante espaço e não é o cão indicado para ambientes urbanos. Embora se habitue à trela, este cão prefere cumprir a sua função livremente no campo.
Em adultos, estes cães tornam-se sensíveis, ao ponto de serem ciumentos. Dóceis com a família, mantêm contudo uma personalidade reservada.  
Dão-se bem com outros cães após ser estabelecida uma hierarquia.

Aparência Geral 
O Cão de Gado Transmontano é a maior raça de cães portuguesa. De porte gigante, as fêmeas entre 66 e 76 cm, pesando 45 a 60 kg, mas já os machos atingem entre 74 e 84 cm e pesam 55 a 65 kg.
Esta raça é também uma das mais rústicas, mantendo-se forte e imponente, com uma aparência nobre.
A cabeça é maciça com um stop moderado. Os olhos médios são cor de mel ou castanho-escuro. As orelhas, também de tamanho médio, são ligeiramente mais compridas do que largas, afunilando na ponta, mas terminando redondas.
Embora os machos sejam bastante mais altos do que as fêmeas, o corpo de ambos mantém uma forma rectangular. Mesmo assim, os animais dos dois sexos não são demasiado volumosos, apresentam-se antes fortes e bem musculados.  
O Cão de Gado Transmontano tem a pele grossa, exceptuando na cabeça, onde se apresenta mais fina. No pescoço, forma pequenas pregas de pele que são uma protecção contra os ataques dos lobos.
O pêlo é liso e de comprimento médio, formando uma pelagem densa e grossa. A raça tem sub-pêlo. O Cão de Gado Transmontano é mais comum em branco com malhas pretas, amarelas, fulvas ou lobeiro. A raça pode também apresentar um só cor ou ser raiada. Em determinadas zonas pode ser: mosqueada, no fundo do manto, ou afogueada, na máscara.

Saúde e Higiene 
Apesar de ser bastante resistente, existem algumas doenças típicas de cães de porte grande que também afectam o cão de Gado Transmontano. A displasia da anca e cotovelo têm alguma prevalência na raça e os progenitores devem despistados antes de acasalarem.Apesar de ser bastante resistente, existem algumas doenças típicas de cães de porte grande que também afectam o cão de Gado Transmontano. A displasia da anca e cotovelo têm alguma prevalência na raça e os progenitores devem despistados antes de acasalarem.
A pelagem deve ser escovada uma vez por semana, para remover terra, pó ou outra sujidade. O banho só deve ser dado quando não puder ser evitado.
In http://arcadenoe.sapo.pt/raca/cao_de_gado_transmontano/275

Para informações mais detalhados sobre o perfil desta raça consulte um documento em formato pdf, AQUI.

Hoje é Dia Internacional da Família


15 de Maio o Dia Internacional da Família, instituído pela ONU em 1993.
Desde esse ano que o dia tem sido celebrado um pouco por todo o mundo, enfatizando a importância da família enquanto instituição.

 Observa o teu culto a família e cumpre os teus deveres para com o teu pai,  a tua mãe e todos os teus parentes. Educa as crianças e não precisarás de castigar os homens.”
Pitágoras


Mensagem à família

Na educação dos nossos filhos
Todo o exagero é negativo.
Responda-lhe, não o instrua.
Proteja-o, não o encubra.
Ajude-o, não o substitua.
Abrigue-o, não o esconda.
Ame-o, não o idolatre.
Acompanhe-o, não o leve.
Mostre-lhe o perigo, não o atemorize.
Inclua-o, não o isole.
Alimente as suas esperanças, não as descarte.
Não exija que seja o melhor, peça-lhe para ser bom e dê-lhe o exemplo.
Não o mime em demasia, rodeie-o de amor.
Não o mande estudar, prepare-lhe um clima de estudo.
Não fabrique um "castelo" para ele, vivam todos com naturalidade.
Não lhe ensine a ser, seja você como quer que ele seja.
Não lhe dedique a vida, vivam-na todos.
Lembre-se de que seu filho não o ouve, ele observa-o.
E, finalmente, quando a gaiola do canário se quebrar, não compre outra...
Ensina-lhe a viver sem portas.


Eugênia Puebla

In http://cancioneiro-ebis.blogspot.com/2011/05/dia-mundial-da-familia.html

sábado, 14 de maio de 2011

12.º Aniversário da elevação de Valpaços a cidade

De aldeia a vila, de vila a cidade | fonte: http://www.ngw.nl/int/por/v/valpacos.htm

Comemorou-se ontem, dia 13 de Maio, o 12.º Aniversário da elevação de Valpaços, data da aprovação, na Assembleia da República presidida pelo Dr. Almeida Santos, do requerimento que legitimou a efeméride e que foi pronta e efusivamente festejada pela população.
Haja em vista um interessante trabalho de reportagem audiovisual da autoria de Vitor Loureiro publicado ontem em 

A pintura maneirista no concelho de Valpaços, “um pouco pela rama”!

Capela de S. Maria Madalena em Santa Valha e  igreja matriz de Vilarandelo, repositórios de duas existências histórico-artísticas da pintura maneirista
A Câmara Municipal de Macedo de Cavaleiros em parceria com a Associação Cultural «Terras Quentes» tem desenvolvido desde 2004 um importante trabalho de inventariação artística dos acervos existentes nas 38 freguesias do concelho levado a cabo no âmbito de um protocolo celebrado com o Instituto de História da Arte da Faculdade de Letras de Lisboa que tem contribuído em várias campanhas de Verão com equipas de inventariantes.
A consciencialização para a necessidade de uma iniciativa deste género foi surgindo a partir da realização, em Macedo de Cavaleiros, de Conferências sobre História da Arte e Património e do decisivo papel que nelas desempenhou Vítor Manuel Guimarães Veríssimo Serrão na Conferência que no campo da pintura dissertou sobre o tema “A Pintura Maneirista no Nordeste Transmontano – entre periferismos e modernidade” observando que os distritos de Vila Real e Bragança eram os que a nível nacional não contavam ainda com um inventário de “existências histórico-artísticas” nem com monografias concelhias integrando o estudo dos respectivos acervos patrimoniais e, muito menos, com um «corpus» de recenseamento documental relativo a artistas e artífices actuantes na região ao longo dos séculos da história portuguesa.” Da sua pesquisa sobre este tema, Vítor Serrão deixou-nos nessa conferência algumas indicações interessantes dentre os quais de duas dessas “existências histórico-artísticas” em localidades do concelho de Valpaços: Vilarandelo e Santa Valha.
Infelizmente, não serviram essas indicações, ainda que um pouco «pela rama», de suficiente incentivo para que também neste concelho se abrisse “uma via de pesquisa onde a incógnita e o desconhecimento mais reforçam a expectativa quanto à qualidade dos espécimes a recensear”, como sustenta o mesmo historiador, Vítor Serrão. Resta-nos, ao menos, a consolação de contarmos com a existência, neste concelho de Valpaços, de pessoas com saber, dedicação e sensibilidade que têm vindo a publicar, com o patrocínio da Câmara Municipal, importantes trabalhos de investigação, como é o caso do Dr. Adérito Medeiros Freitas, dos responsáveis alguns sites locais (da freguesia de Santa Valha, de Bouçoães…) e de outras pessoas que nos seus blogues (Notícias de Valpaços, Lebução de Valpaços, Vilarandelo um dia uma imagem, Valpassos d’Oje…) vão indicando aqui e ali alguns dos nossos valores artísticos e chamando a atenção para a sua importância. Uma destas pessoas que nos cumpre destacar é o Reverendo Padre Jorge Fernandes que, entre outras referências artísticas locais, deixadas no seu blogue “são cousas da vida”, expôs aqui, em 31 de Janeiro de 2011, a propósito da grandiosa mas enigmática figura do abade Martim Velho Barreto, preciosos exemplares do património histórico-sacro-artístico relacionados com essa figura em Santa Valha, Fornos do Pinhal e até, talvez, em Bouça.

Voltando às referidas existências histórico-artísticas e artistas e artífices identificados e já sublinhados por Vítor Serrão no espaço do concelho de Valpaços, vamos fazer aqui a transcrição de dois excertos do documento com o teor da comunicação apresentada por este historiador na conferência a que aludimos dedicado à pintura maneirista no Nordeste transmontano que foi publicado na Internet em formato Pdf.

 Pintura maneirista em Santa Valha

Vista parcial do altar da capela de S. Maria Madalena, Santa Valha | foto: http://www.santavalha.com
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[...]É certo que, como dissemos, a pesquisa de arquivo e a verificação de campo está ainda por estabelecer em toda a região, incluindo o seu cotejo criterioso com a realidade pictural dos focos castelhano e leonês, do lado espanhol, já que muitas destas obras poderão ser devidas à execução de oficinas itinerantes originárias da faixa castelhano-leonesa. É certo, também, que muitas das peças já analisadas revelam modéstia de programas e execução frustre; nada de estranhar em demasia, numa altura e numa região em que os mercados escasseavam de recursos e de gosto e em que o uso das «imagens sagradas» era sobretudo de ordem didascálico, a fim de assegurar maior eficiência ao serviço apostólico da Igreja. Mesmo assim, os dados plásticos recenseáveis mostram, numa boa parcela das obras em apreço, uma apreciável qualidade pictórica (caso muito evidente é o das tábuas de São Pedro dos Sarracenos) e algumas típicas «características de escola» (em ciclos fresquistas, por exemplo os de Santa Valha) que deixam adivinhar tendências focalizadas em alguns centros mais destacados da província, de Bragança a Miranda, a Chaves, a Vila Real ou a Torre de Moncorvo. […]
Resta, evidentemente, estudar bem o impacto dos figurinos maneiristas num campo ainda tão mal «reconhecido» como foi a produção pictural realizada no mercado transmontano durante a segunda metade do século XVI e os alvores do XVII, sob signo crescente dos ditames da Contra-Reforma. Existem testemunhos que revelam uma inesperada actualidade na compreensão dos modelos investigados e como tal difundidos a partir de Itália na arte do pós-Renascimento.Obra notável da primeira fase maneirista em terras transmontanas é o Retábulo Fingido pintado por Tristão Correia em 1555 e que decora, com edículas simulando painéis de cavalete a formar o altar, a totalidade do espaço do presbitério da modesta Capela de Santa Madalena em Santa Valha (Valpaços) (Fig. 1). A obra encontra-se assinada no friso da zona inferior: «ESTA CAPELA SE REFORMOV COM SATISFAÇOENS DE PENITEMCIA (...) A MANDOV A(fons)º LUIS CAPELAO FAZER (...) PINTOVSE NA ERA DE 1555 E PIMTOVA TRISTAO CORREA DE CHAVES». Trata-se de espécime muito interessante de pintura a fresco, de expressão regionalista mas de bom pincel, utilizando já em pleno os cânones do Maneirismo italianizante, no sentido da consciente deformidade dos figurinos, das novas combinações cromáticas (abertas ao efeitos caprichoso dos carmins-violáceos, amarelos, brancos e azuis) e da escala alongada dos valores compositivos. Os frescos da Capela de Santa Madalena em Santa Valha representam três passos da vida da padroeira na parede fundeira da capela-mor e, aos lados do «retábulo fingido», as figuras também emolduradas em estruturas arquitectónicas virtuais de São Mamede e de Santo Amaro. Tristão Correia, pintor até data recente completamente desconhecido, aparece-nos já referenciado em Coimbra, em registos paroquiais da freguesia de São Tiago, em 1550 e em 1552, ligado então ao baptismo de duas filhas. Trata-se de um facto bem interessante, que mostra a provável formação deste artista num meio culturalmente muito mais evoluído, antes de se mudar para a vila de Chaves, onde já vivia, com oficina aberta, em 1555. Até ao momento, nada mais se sabe da sua actividade de fresco e de cavalete (já que, parece bem visível face ao que os murais de Santa Valha nos mostram, devia trabalhar nas duas modalidades), mas é provável que, face ao tipo de «receituário» estilístico que estes frescos atestam e que tão bem definem a sua «mão», possam vir a ser identificadas novas peças do seu labor... […]

Pintura maneirista em Vilarandelo

Interior da igreja matriz de Vilarandelo | foto: http://vilarandelo-umdiaumaimagem.blogspot.com
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Sabemos, por exemplo, que trabalharam nesta região [do bispado de Bragança-Miranda], entre muitos outros cujos nomes se desconhecem por carência de pesquisas, os pintores de óleo e fresco Pedro de França e Tristão Correia, activos no segundo terço do século XVI, António Leitão, activo no último terço de Quinhentos, e ainda, o pintor vila realense Álvaro Correia, activo já no século XVII avançado mas com fidelidade a modelos plásticos da centúria anterior. Antes destes, sabemos que trabalha em igrejas da zona do Marão um pintor injustamente esquecido, de nome Arnao, artista de forte personalidade, que se integra ainda dentro dos cânones do Renascimento e que não será estudado, por isso, no âmbito da presente síntese sobre a pintura maneirista transmontana, por ser de fase anterior; bem estudado por Joaquim Inácio Caetano, esse pintor fresquista deixou nas igrejas de Folhadela e de Vila Marim, tal como, já antes, na matriz de Midões (frescos assinados e datados de 1535), provas do seu incontestável talento de desenhador probo, com cuidados de modelação naturalista e sintomática cultura segundo os modelos clássicos da Renascença.
É curioso atestar, antes de mais, o modo como os quatro artistas que se destacaram, e bem assim outros cujos nomes se desconhecem mas de que restam algumas pinturas a óleo integradas em retábulos - como na igreja de Malta (freguesia de Olmos, Macedo de Cavaleiros), nas igrejas de São Pedro de Sarracenos e de Sacóias (Bragança), ambos com ligação pictórica aos focos de Zamora e de Toro, na igreja de Algosinho (Mogadouro), na igreja de Vilarandelo (Valpaços) e na igreja românica de Adeganha (Torre de Moncorvo) - e numerosas decorações murais - como as da Capela da Senhora do Areal em Agrochão (Macedo de Cavaleiros), dadas a conhecer por Belarmino Afonso as da interessantíssima Capela de Nossa Senhora da Teixeira (Torre de Moncorvo), de cerca de 1584, as das igrejas de Bemposta e de Sendim, entre tantos outros ciclos -, testemunham uma actualizada adesão aos novos modelos estéticos do Maneirismo italianizante, que mais ou menos a partir do fim do reinado de D. João III começavam a substituir-se, no melhor mercado artístico nacional, aos já esclerosados modelos renascentistas de derivação flamenga, dominantes na primeira metade do século XVI.

Fonte: Vítor Serrão, Pintura Maneirista no Nordeste Transmontano, entre periferismos e modernidade: algumas contribuições, colóquio de História de Arte e Património, Macedo de Cavaleiros, sd. | http://www.terrasquentes.com.pt


Ainda relativamente a Vilarandelo, as pinturas a que se refere Vítor Serrão no retábulo da respectiva igreja parecem-nos ser as mesmas que foram descritas em “Valpaços Digital” da seguinte forma:

Na capela-mor, o retábulo de talha dourada e polícroma, ocupa a totalidade da parede testeira, integrando duas portas laterais que correspondem, na zona superior, a duas pinturas. Ao centro, as colunas torsas enquadram os nichos dos santos, prolongando-se nas arquivoltas do retábulo, e definindo uma tribuna com trono piramidal. Nos panos laterais, e sobre os azulejos encontram-se várias pinturas com molduras de talha. Estas, representando cenas da Paixão de Jesus, foram na sua origem executadas a fresco, mas em época posterior sofrem um repinte a óleo.

In http://www.valpacos-digital.com