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domingo, 16 de setembro de 2012

Da Minha Janela… a lápis de cor


Trata-se de um novo blogue para divulgação de um conjunto de ilustrações criadas por Leonel Salvado para a Galeria de Notáveis do Clube de História de Valpaços e outros trabalhos realizados com os mais elementares instrumentos de trabalho: lápis de cor e papel cavalinho. Estes trabalhos começarão a ser revelados no blogue assim intitulado bem como na página com o mesmo nome no facebook e em duas outras páginas do facebook, uma apenas de divulgação e outra de eventual utilização comercial.

O blogue

Da minha janela… no Facebook                         
  
  Ilustrações Leonel Salvado no Facebook
                                                                                                                                        
Clique nas imagens para aceder aos respectivos espaços


Nota: a maioria dos trabalhos apresentados nestes espaços serão exibidos numa exposição planeada para o final do 1.º trimestre de 2013 em Valpaços.

domingo, 22 de abril de 2012

Camille Pissarro, um pintor “transmontano”

Por Nuno Guerreiro Josué , 13-11-2005*

Pissarro, pai do Impressionismo, descendente de judeus portugueses de Trás-os-Montes.

Até há pouco tempo, quando se discutia a paternidade da pintura moderna, o consenso parecia apontar para um único nome: Paul Cézanne. Nas últimas décadas, no entanto, um número crescente de historiadores de arte começou a questionar este pressuposto, olhando antes para Camille Pissarro, amigo e mestre de Cézanne, como o verdadeiro precursor da revolução que transformaria radicalmente a pintura na última metade do século XIX. Jacob Camille Pissarro, de seu nome completo, era filho de Abraham (Frederic) Gabriel Pissarro, um judeu “marrano” português, transmontano de Bragança, que ainda criança (nos finais do século XVIII) emigrara com os pais para Bordéus, onde na altura existia uma comunidade significativa de judeus portugueses refugiados da Inquisição. Camille nasceu a 10 de Julho de 1830 em St. Thomas, nas Ilhas Virgens, para onde o pai se mudara anos antes para servir de executor do testamento de um tio.
Camille Pissarro era um personagem fascinante. Amigo e mestre de Degas, Cézanne e Gauguin, Camille Pissarro era visto pelos colegas como um “patriarca” – uma figura generosa, amável e profundamente fiel às suas amizades. “Pissarro foi como um pai para mim: era o homem a quem se pediam conselhos, era como le bon Dieu”, escreveu sobre ele Cézanne. Henri Matisse chamou-lhe “o Moisés da pintura contemporânea, aquele que nos dá a Lei”; Cézanne afirmaria categoricamente: “todos nós descendemos de Pissarro.”
Anarquista convicto, Camille Pissarro não era religioso em termos formais mas, mesmo assim, nunca dissimularia o judaísmo herdado dos seus antepassados portugueses. Pelo contrário, Pissarro orgulhava-se de ser judeu.
Durante o Caso Dreyfus – o paradigma do antisemitismo que dividiu a sociedade francesa dos finais do século XIX – Pissarro, ao mesmo tempo que combatia o ódio irracional contra os judeus, sentiria na pele o antisemitismo de alguns dos seus colegas, mesmo vindo de amigos, como Degas e Renoir. Nessa altura, alguns dos seus colegas mais próximos chegariam mesmo a por em causa a sua relação de amizade, temendo “ficar contaminados” por se associarem a um judeu. “Continuar com o israelita Pissarro é ficar manchado com revolução”, escreveu Renoir, com um antisemitismo tristemente típico da época.
Na última edição da revista Commentary, o crítico de arte Dana Gordon escreve um excelente artigo de cinco páginas intitulado Justice to Pissarro, onde defende que a paternidade da pintura moderna deve ser definitivamente atribuída, não a Cézanne, mas a Camille Pissarro, o pintor descendente de judeus sefarditas de Bragança.

Camille Pissarro, L’Ermitage à Pontoise, 1867.


Camille Pissarro, Vue de ma fenêtre, Eragny sur Epte, 1886-88.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Relíquia histórica abandonada em Mirandela

Por Leonel Salvado

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QUE DESPERDÍCIO! Em Mirandela, num talhão aparentemente abandonado em plena zona modernamente urbanizada, perto da Estação de Autocarros, descobrimos por acaso esta preciosidade da 1.ª metade do século passado, um LOCOMÓVEL, debulhadora e enfardadeira de alta pressão, movida a vapor, fabricada pela Metalúrgica Duarte Ferreira & Filhos – TRAMAGAL, como se vê no pormenor da foto da direita. A avaliar pelo avançado estado de corrosão que apresenta, esta relíquia da história agrícola de Mirandela (quantos de nós lhe estaremos a dever a sobrevivência dos nossos avós!?) aparenta encontrar-se em efectiva situação de abandono, à espera que o seu legítimo proprietário ou alguma outra entidade lhe dê uma mão, a recupere e a faça chegar a um qualquer Museu, Agrícola, de Arqueologia Industrial ou a outro espaço minimamente decente para que possa ser visitada com toda a dignidade que lhe é devida.

Não terá a "Cidade-Jardim", um espaço condigno onde se possa expor este monumento para que o público se permita admirá-lo à medida da sua importância e transmitir às novas gerações as memórias que dele se guardam?
Não existem pois, em Mirandela, dois conhecidos Museus, dos quais se destaca aquele que é designado por “Museu das Curiosidades de Mirandela”, um Museu particularmente conhecido pela sua colecção de antiguidades (um Ford modelo T, um carro de bombeiros primitivo, grafonolas, carros de cavalos…)? Por que não também um Locomóvel? 

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios – 18 de Abril de 2012

Por Leonel Salvado

Em retrospectiva - AS SETE MARAVILHAS DO CONCELHO DE VALPAÇOS

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No dia 7 de Fevereiro foi noticiado pela IGESPAR (Instituto de Gestão do Património Arquitectónico e Arqueológico) que «tendo por base a proposta do ICOMOS (Conselho Internacional dos Monumentos e Sítios) para 2012, o IGESPAR convidou todas as entidades, públicas e privadas, a associarem-se à celebração deste dia, subordinado ao tema “Do Património Mundial ao Património Local – proteger e gerir a mudança”».
Como, lamentavelmente a Autarquia de Valpaços não se associou a esta celebração, ao contrário da Câmara Municipal de Boticas, por exemplo, que já em 2011 o tinha feito e este ano renovou a sua adesão, organizando uma visita de estudo ao património histórico de Covas do Barroso, agendado para o dia de hoje, resta-nos a alternativa de continuarmos a depender, de iniciativas individuais - como a que foi promovida, em 2009, pelo editor do blog “Notícias de Valpaços”, Sérgio Morais, um interessante concurso para a eleição das “Sete Maravilhas do Concelho de Valpaços” a que o público aderiu com grande satisfação - no sentido de celebrarmos esta data e obtermos, junto das nossas comunidades, alguma sensibilização para a valorização e salvaguarda do nosso Património.
Em 20 de Março de 2011 entendemos homenagear e complementar esta iniciativa, criando uma forma diferente para a divulgação das sete maravilhas apuradas do Património Arquitectónico e Natural do concelho de Valpaços, representando-as num jogo de chá cujas peças foram desenhadas de raiz pelo Clube de História de Valpaços e as imagens foram reproduzidas e sobrepostas a elas, assim como se pode observar na imagem, na expectativa de que um dia alguém se lembre de pegar neste “esboço virtual” e transformá-la numa realidade.  
As 7 maravilhas do concelho de Valpaços aí representadas são: a igreja matriz de Santa Valha e a capela de Santa Maria Madalena, nesta mesma freguesia; a igreja matriz de Carrazedo de Montenegro e a Ribeira da Fraga, na mesma freguesia de Carrazedo de Montenegro; A Serra/Miradouro de Santa Comba, na freguesia de Vales; A ponte romana “do Arquinho”, na freguesia de Possacos; a igreja matriz de Valpaços, na freguesia e Valpaços. 

terça-feira, 17 de abril de 2012

Recomendações: "Arauto da Casa do Povo de Vilarandelo" em versão digital e "Portal de Valpaços"

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O ARAUTO DA CASA DO POVO DE VILARANDELO, um Boletim Informativo desta instituição já com alguns anos de existência, dedicado à divulgação de uma ampla variedade temática junto da comunidade vilarandelense e aberto todo o concelho de Valpaços, vai já na sua 30.ª edição impressa, de excelente organização e qualidade gráfica, e na 7.ª edição em formato digital de fácil acesso e consulta. Os nossos leitores passarão a poder aceder a este Boletim Informativo através do cabeçalho exposto na barra lateral do presente blog.
Cumpre ainda comunicar aos nossos leitores que ainda não conheçam o PORTAL DE VALPAÇOS que este site de excelente organização e qualidade informativa, tem-se destacado como um dos melhores meios disponíveis na Web para um acompanhamento das notícias de interesse local, regional e nacional, em constante actualização, pelo que também recomendamos a sua utilização e entendemos proporcionar o acesso a ele na nossa barra lateral.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Sexta Feira 13, Valpaços – Gastronomia e Cultura popular

Por Leonel Salvado

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Valpaços tem actualmente dois atractivos gastronómicos de invulgar relação com duas das mais recorrentes referências do imaginário popular - as crendices e  mitos -, um, mais antigo, relacionado com o fadário das bruxas, outro, mais recente, associado à secular superstição da “Sexta-feira 13”. São dois valores que, em simbiose, proporcionam aos valpacenses uma boa oportunidade para, em alegre fanfarra, poderem celebrar gastronomicamente o significado deste dia.  

Acredite-se ou nem por isso em bruxas, seja-se parascavedecatriafóbicos ou não (passo a expressão), poder-se-á imaginar assim, uma sugestão gastronómica “à valpacense” para a celebração do dia de hoje, mais ou menos em conformidade com o significado que ele representa no imaginário popular, de preferência pela hora do jantar e após o pôr-do-sol para que tal suceda num ambiente mais adequado à ocasião:

- Uma boa rodada de BACALHAU À BRUXA DE VALPAÇOS, rigorosamente preparada de acordo com a receita original. Ele há bruxas! E como se diz aqui por esta pequena cidade onde a nossa bruxa nasceu, no século XIX, esta tornou-se mais conhecida pelas suas qualidades gastronómicas do que por “outras feitiçarias”. Afinal, esta especialidade até se pode ler no cardápio de pelo menos um dos restaurantes da Invicta com igual destaque que é dada às famosíssimas “tripas à moda do Porto”. A receita? Bem, parece que a bruxa de Valpaços só pensou em 6 pessoas (podiam ser 13!) Ei-la, tal como foi publicada por Francisco Guedes em “Cem Maneiras de Cozinhar bacalhau e outros peixes” e recolhemos no site “Valpaços on line”:

«Bacalhau à bruxa de Valpaços – para 6 pessoas:
1 kg de bacalhau;
6 cebolas;
2 alhos;
1 dl de azeite;
1 colher de sopa de manteiga;
50 g de toucinho;
600 g de batatas;
3 colheres de sopa de vinagre;
3 colheres de sopa de farinha de trigo;
1 ramo de salsa; sal e pimenta.

Deixe o bacalhau a demolhar durante 48 horas. Depois, tire a pele e as espinhas. Corte as cebolas às rodelas. Pique o toucinho e corte os alhos às tiras. Cubra o fundo do tacho com uma porção das cebolas, sobre estas coloque uma porção de bacalhau e sobre este coloque uma porção de batatas, de toucinho e dos restantes condimentos. Polvilhe com uma colher de farinha. Faça isto sucessivamente até completar três camadas de cada ingrediente. Adicione o azeite, tape-se o tacho e leve-se ao lume (cerca de 30 minutos), regando sempre com o próprio molho.» 

- E, para melhor agasalho contra o corrupio das "forças maléficas", nada melhor do que umas garrafitas (q. b.!, já agora também para 6 pessoas) do genuíno tinto ou branco de SEXTA FEIRA 13, uma verdadeira bênção da Santa Casa da Misericórdia de Valpaços que logo foi partilhada com a Câmara de Montalegre (como seria de esperar!)
Depois é só desejar BOM APETITE, e aconselhar algum cuidado com o “balão”, não vá uma outra bruxa, à solta, tecê-las! 

sábado, 7 de abril de 2012

7 de Abril: Dia nacional dos Moinhos

Por Leonel Salvado

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Diga-se, a título de curiosidade, que o “Dia Nacional dos Moinhos” foi formalmente criado pela “Rede Portuguesa de Moinhos” em 2007, assinalando a data de 7 de Abril. Mas, pelo que temos visto em diversas fontes de informação, convém esclarecer que os grandes objectivos que estiveram na base da criação desta data dedicada aos Moinhos - despertar a atenção da população para o inestimável valor patrimonial dos moinhos tradicionais, bem como motivar e coordenar vontades e esforços de proprietários, moleiros, autarquias, museus, associações, investigadores, molinólogos e amigos dos moinhos para a sua salvaguarda e divulgação – já estavam definidos e já eram implementados em certas regiões uma meia dúzia de anos antes, como já em 2005 o Presidente da Associação Portuguesa de Molinologia, Jorge Miranda, reconhecia em declarações à Agência Lusa, dando exemplos de algumas dessas iniciativas, de reduzida importância em certas regiões do Centro e Sul do país, mas realçando um outro exemplo de maior amplitude na região BOTICAS onde já tinha sido criado um percurso de 70 Km com 80 moinhos intervencionados e os respectivos trilhos de acesso e sinalética. Efectivamente, a Câmara Municipal de Boticas merece que lhe seja reconhecido o mérito de ter sido uma das precursoras nesta iniciativa, posto que foi nesta vila portuguesa do distrito de Vila Real que se realizou, já em 2002, o II Encontro Nacional de Molinologia depois de o primeiro ter tido lugar, no ano anterior, na cidade de Montijo, distrito de Setúbal.

A Câmara Municipal de VALPAÇOS aderiu também, e muito cedo, à mesma iniciativa, que nesta autarquia surgiu na sequência de uma das suas preocupações iniciadas nos anos 80 com o objectivo de conhecer e divulgar toda a riqueza e diversidade do seu Património Cultural, participando nos dias 18, 19 e 20 de Outubro de 2002 no aludido “II Encontro Nacional de Molinologia”, em Boticas, onde foram apresentados 14 mapas baseados em Folhas dos Serviços Cartográficos do Exército (na escala de 1:25.000) representado os respectivos cursos de água com o posicionamento dos moinhos hidráulicos neles identificados (num total de 130 moinhos de rodízio) e publicando em Maio de 2009 um excelente trabalho, em dois volumes, da autoria do dedicado geólogo, arqueólogo e etnólogo, Dr. Adérito Medeiros Freitas, intitulado “Concelho de Valpaços Moinhos (moinhos de Rodízio e Azenhas)”, (na imagem), que foi quem preparou orientou a participação da Autarquia valpacense no referido encontro nacional. No conjunto dos trabalhos de investigação que formam o conteúdo desta obra, contam-se 192 engenhos hidráulicos, desde “Moinhos de rodízio”, “Azenhas” e “Moinhos de Pisão”.

É por isso que, em minha opinião, esta data de 7 de Abril constituirá para sempre uma das melhores oportunidades para homenagearmos o Dr. Adérito Medeiros Freitas em reconhecimento do extraordinário e inestimável serviço que abnegadamente tem prestado aos valpacenses.
Bem-haja, portanto, Dr. Adérito Medeiros Freitas por este serviço público e, entre muitos outros, parabéns também pela 2.ª edição (actualizada) de “Lagares Cavados na Rocha”, igualmente patrocinada pela Câmara Municipal de Valpaços cuja apresentação teve lugar no passado dia 31 de Março integrando mais um dos eventos culturais da tradicional Feira do Folar, no caso da XIV edição desta.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Solares do concelho de Valpaços – Solar dos Machados

Por Leonel Salvado

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Como tive oportunidade de realçar, em notas prévias às duas edições anteriores desta série de publicações, das três casas brasonada existente em Possacos, esta é a única cujo nome pelo qual é hoje vulgarmente designada, “o solar dos Machados”, se confirma, ainda que parcialmente, através de uma leitura das armas que se encontram representados no respectivo brasão.

O solar
Parece evidente que o imóvel se encontra um pouco descaracterizado relativamente à sua traça primitiva em consequência das obras de remodelação a que foi sendo sujeito ao longo dos tempos, mas talvez seja de sustentar que se trate do mais antigo solar da localidade de Possacos, como em 1943 admitiu o Padre João da Ribeira, em “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Terras de Montenegro”, trabalho publicado em várias edições no “Comércio de Chaves” (1939-1947) e reeditado recentemente na Revista “Aquae Flaviae”, ao descrevê-lo da seguinte forma:

«Das casas solarengas […], a que tem aspecto e feição de mais antiga, é uma que fica em um pequeno bairro, para além do Largo da Fonte e à margem esquerda da estrada que leva à Torre de Dona Chama. A sua entrada é um amplo portal encimado por uma cruz latina e pirâmides flamejantes, vendo-se ao lado, mas já ma parede do corpo do edifício, o brasão de armas em fina cantaria regional […] Em uma das salas desta casa, tivemos o ensejo de apreciar, no tecto em cúpula octogonal, uns curiosos frescos, representando cenas venatórias, acompanhadas de sentenças alusivas e de fundo moral, costume esse bem peculiar e característicos dos passados séculos XVI e XVII.»

Revista Aquae Flaviae, Chaves, nº14, 1995, pp. 167-168

Como se pode constatar, com alguma dificuldade, a partir da observação da foto que representa o estado actual do conjunto do edifício, o portal descrito pelo autor ainda existe, sem aparentes alterações estruturais (ao fundo na foto). A fachada encimada ao centro pela pedra de armas é constituída, na parte inferior esquerda, por uma porta de verga recta sobre a qual se erguem, dos lados, duas janelas sacadas e uma varanda de pedra assente sobre dois pares laterais de cachorros simples. No mesmo nível, do lado oposto existem mais duas janelas semelhantes, cada uma com sua varanda, do mesmo tipo. Alguns pormenores estéticos da sua fachada, como é o caso da cornija direita que enquadra em espirais simétricas a pedra de armas e que se encontra pintada de branco (na foto), sugerem uma construção de feição renascentista ou dela reminiscente, o que me induz, em favor da observação que nos ficou do Padre João da Ribeira na segunda parte do excerto que dele transcrevemos, remontar a construção original deste edifício pelo menos ao século XVII. Outro facto que pode estar associado a esta Casa solarenga, numa perspectiva ainda conjectural, é o da existência de uma capela da invocação de Santo António a que o pároco do Possacos, vigário Baltazar Fernandes de Figueiredo aludia num manuscrito das “Memórias Paroquiais de 1758” cuja transcrição para leitura actualizada foi publicada aqui no Clube de História de Valpaços, como estando situada “dentro do lugar” (de Possacos) e administrada por uma “Maria Machada” (leia-se Maria Machado) moradora no mesmo lugar. A relação foi-me sugerida por Rui Freixedelo, um genealogista com ascendentes em Possacos que num comentário à referida Memória Paroquial no blogue Clube de História de Valpaços e em contactos posteriores me informou possuir dados de uma Maria Machado, moradora nos Possacos cujo testamento em favor dos seus três filhos data de 1774. É possível que se trate da mesma pessoa e, posto que a prerrogativa que vemos ser-lhe reconhecida costumava caber, sobretudo tratando-se de senhoras, a pessoas de elevado estatuto social, também admito que a dita senhora pertenceria à família em posse do Solar dos Machados e que a referida capela se encontraria inserida nesta casa, como era ordinário suceder nas demais casas solarengas, a algumas das quais também se encontravam vinculadas outras capelas fora do seu espaço principal. Este será um dado a confirmar junto dos actuais proprietários do imóvel.

O brasão
O insigne erudito, apaixonado pela história e pela heráldica a que tenho vindo a recorrer, “João da Ribeira”, aliás Padre João Vaz de Amorim, refere no estudo já mencionado, mas de uma forma vaga e omissa quanto à fonte de informação que lhe serviu de base para essa referência, que “o velho solar pertenceu em tempos passados a uns senhores Machados, oriundos de Fornos de Pinhal, e à antiga família Carvalho, de Serapicos, freguesia das proximidades de Carrazedo de Montenegro”. No que respeita à família Carvalho não disponho do mínimo fundamento para refutar tal informação, mas se o solar em causa esteve na posse dessa antiga família não creio que essa posse sucedesse desde tempos antigos. Quanto aos Machados, procedendo da mesma leitura das armas representadas no brasão que o solar ostenta, não posso estar mais de acordo com tal informação, ainda que não me pareça suficientemente claro que a família Machado fosse oriunda de Fornos de Pinhal. A única relação que conheço de alguém com o sobrenome Machado, de Possacos, com Fornos de Pinhal é o documentado facto de Francisco Manuel Machado (filho de Maria Machado, atrás mencionada) ter sido casado, pela segunda metade do século XVIII, com Engrácia Maria Vilares da Fornos de Pinhal, dados genealógicos que me foram gentilmente fornecidos por Rui Freixedelo. Em todo o caso, prevalece a dúvida se estes Machado de Possacos serão da mesma família Machado a quem coube a posse do solar e a que ainda se deve o nome.
Estranhamente, talvez sugestionado pelas informações que atrás transcrevemos, “João da Ribeira” fez uma interpretação parcialmente errada da pedra de armas do “solar dos Machados” quando dela deixou as seguintes declarações:

«E, na verdade, no escudo esquartelado do brasão lá se acham as divisas dessas famílias, ou sejam – “os cinco machados postos em aspa e a estrela de ouro, entre uma quaderna de crescentes de crescentes de prata”.»

Como fui alertado, e muito bem, por Rui Freixedelo, quando lhe manifestei a minha estranheza por não se vislumbrar no escudo nenhum sinal das divisas da família Carvalho - que são, exactamente as que o Padre Vaz de Amorim refere – o que se afigura como mais evidente é que, para além das dos Machado (correctamente interpretadas) as restantes divisas serão das famílias Morais (com algumas reticências) e dos Alão (com a maior certeza). De facto, como se vê na pedra de armas apresentada na foto, que julgo ser datável do século XVII, o escudo não é sequer verdadeiramente esquartelado, mas antes partido (esquartelado só o é o partido das armas plenas dos Alão). A minha leitura da pedra de armas em causa é a seguinte:

Partido I – 1: MACHADO – (de vermelho), com cinco machados de prata (encabados de ouro) e postos em sautor ou aspa (X); 2: MORAIS* (?) – (de vermelho), com uma torre torreada (de prata) rematada por uma bandeira (que parece conter uma árvore).
Partido II – ALÃO** - esquartelado: o primeiro e o quarto quartel xadrezados (de ouro e vermelho), de seis peças em pala (na vertical) e seis em faixa (na horizontal); o segundo e terceiro (de campo azul), com cinco flores-de-lis (de ouro) postas em sautor ou aspa (X).
Timbre – A torre do escudo.

Faz portanto algum sentido que esta casa solarenga tenha pertencido primitivamente a uma família que poderia chamar-se de “Alão de Morais Machado”.


*Talvez não seja de estranhar que nas armas dos Morais não figure no escudo a árvore, pois a representação de árvores nos brasões de armas só se tornaram comuns no século XVIII (como a que se vê na pedra de armas dos Morais Pinto no Solar designado de António Terra, também em Possacos).

**Família pré-nacional proveniente de Bragança.


Para aceder a outros solares [local/regional] tratados neste blogue, clique AQUI

sexta-feira, 30 de março de 2012

520.º Aniversário da expulsão dos judeus de Castela e o reforço das comunidades criptojudaicas em Trás-os-Montes

Por Leonel Salvado

Expulsão dos judeus de Espanha em 1492,
xilogravura, posteriormente colorida, de Michaly Von Zichy, 1880, AKG Imagens/Latins Tock
 http://www2.uol.com.br/historiaviva

Celebram-se amanhã os 520 anos do acontecimento a que me reportarei em primeiro lugar. Por provisão assinada em Alhambra, a 31 de Março de 1492 os reis católicos, Isabel e Fernando, determinaram a expulsão dos judeus do reino de Castela. A determinação, conhecida como o “decreto de Alhambra” estabeleceu na realidade, segundo Joaquim Veríssimo Serrão (Historia de Portugal, Verbo, Vol. II pp.261-262), que nessa data “os judeus que não quisesses converter-se teriam de sair daquele reino até o fim de Julho, levando os seus bens com excepção de ouro, pratas e moedas. Supõe o mesmo historiador que apartir de então “cerca de 30 000 famílias, num total aproximado de 150 00 pessoas deixaram a Espanha, vindo a maior parte, ao redor de 90 000 para o reino vizinho. Mais informa veríssimo Serrão que D. João II lhes abrira cinco postos de entrada dentre os quais Bragança com a obrigação de os fugitivos pagarem uma taxa de 8 cruzados, taxa reduzida à metade para as crianças e os oficiais mecânicos, caso contrário sujeitar-se-iam a ficar cativos. Mais estabeleceu o monarca português um prazo de oito meses para abandonarem o reino, a menos que pagassem uma contribuição elevada, o que aconteceu com as famílias mais abastadas. Diz-nos também Joaquim Veríssimo Serrão que a maior parte dos judeus de Castela-a-Velha se estabeleceu em Trás-os-Montes, deixando marcas nos seus apelidos da sua origem geográfica, tais como Leão, Burgos, Ledesma, Soria e Valhadolid. Convém que se diga que a presença do povo mosaico em Trás-os-Montes remonta a épocas anteriores, pois como sublinha o historiador que temos seguido até aqui, na segunda metade do século XV - cremos que se refere a um qualquer momento anterior ao “decreto de Alhambra” – assinalam-se comunas de judeus em Miranda do Douro, Torre de Moncorvo, Freixo de Espada à Cinta e Vila Flor, entre outras. E o mesmo já se passava segundo a mesma fonte no século XIV em Bragança e Mogadouro – para nos cingirmos apenas a Trás-os-Montes (Id. Vol I, p 340).
Resulta do exposto, o que aliás é corroborado em outras fontes, que devemos considerar no tecido social de ascendência judaica em Trás-os-Montes comunidades de dupla composição: uma autóctene e outra castelhana. É essa a realidade que vem sendo confirmada cientificamente por um estudo recente do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto, coordenado por António Amorim, que abordaremos mais adiante.
Aos judeus autóctenes de Trás-os-Montes, maioritariamente estabelecidos no actual distrito de Bragança, juntaram-se outros judeus provenientes de Castela que pela suas características somáticas dificilmente se distinguiam, pois eram ambas as comunidades descendentes dos “Sefarditas” (do ramo semita), cripto-judeus ibéricos designados por “anussim”, designação que deriva de “B’nei anussim” ou “Ben anus” com os significados de” filhos forçados” ou “filho forçado” ou, ainda mais comumente designados por “judeus marranos”.

Uma das localidades que tem servido de paradigma para a questão da ascendência dos “anussim” é Vilarinho dos Galegos, uma freguesia do concelho de Mogadouro a que tem atribuído uma certa exclusividade nesse âmbito. Contudo, Carlos Baptista publicou um artigo na página da “Comunidade Masorti” de Lisboa que, sem negar a relação daquela comunidade com a cultura judaica, integra-a num conjunto de outras localidades igualmente relacionadas com as antigas comunidades ”anussim”, a grande maioria delas pertencentes ao distrito de Bragança. Trata-se de um artigo de grande interesse sobre esta temática que entendemos transcrever.


«Vilarinho dos Galegos, uma exclusividade no panorama transmontano?

Não, de facto não o é, e não será de modo nenhum uma situação única no que respeita à presença dos “anussim” a nível regional.
Trás-os-Montes até pela sua localização geográfica, sempre foi uma espécie de “abrigo seguro” para as suas gentes, e uma barreira difícil de transpor até para os próprios emissários do Santo Ofício.
Por lá se instalaram comunidades judaicas, mesmo antes do nascimento de Portugal como nação, e nos finais do século XV, houve uma enorme vinda de judeus de Espanha para toda aquela região fronteiriça.
Chacim, Carção, Vimioso, Orjais, Chaves, Bragança, Mogadouro, Rebordelo, Valpaços e Mirandela, entre outras localidades, e neste caso Vilarinho dos Galegos, são alguns bons exemplos de povoações transmontanas, onde é bem visível ainda a presença judaica em algumas casas, na gastronomia, e nas suas orações religiosas. Se Vilarinho dos Galegos, integrada no concelho de Mogadouro, poderá não ser uma exclusividade histórica, pelo menos é sem dúvida um dos marcos da perseverança e da tenacidade dos “anussim” em Portugal. Possuidores de tradições e de ritos mais ou menos secretos, eles continuam a perpetuar um pouco a alma e a herança do povo de Israel em terras de “Sefarad”.
Vilarinho conta hoje com um número de habitantes que não chegará às três centenas, e actualmente por toda aquela região, ainda são conhecidos por “judeus”.
Numa nota final, e para quem aprecia e dá valor à memória de uma população que persiste em salvaguardar a sua cultura, os “Novos Contos da Montanha”, do escritor Miguel Torga, são de facto uma leitura obrigatória para se conhecer este interessante fenómeno, que são os “anussim” de Trás-os-Montes.»

Carlos Baptista, “Comunidade Judaica Masorti de Lisboa”
In http://www.beitisrael.org

Muito interessante também e, aliás em conformidade com a informação que se retira do artigo anterior é estoutro artigo sobre um amplo estudo científico “destinado a traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita” e que no que toca à “caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança” já chegou a surpreendentes resultados. Vale a pena ler e aguardar pelos novos desenvolvimentos deste trabalho.

«Judeus de Trás-os-Montes mantêm perfil genético

Um estudo recente, coordenado por António Amorim, do Instituto de Patologia e Imunologia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), vem demonstrar que a comunidade de descendente de judeus, em Trás-os-Montes, conseguiu manter uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto.
É a primeira vez que a composição genética dos judeus portugueses do Norte é analisada e a conclusão aponta para um baixo nível de contaminação por mistura de sangue e para a preservação de genes judaicos.
Pode falar-se de uma comunidade transmontana de proveniência judaica com dupla composição: uma autóctone e outra castelhana, robustecida pela expulsão dos judeus de Castela, em 1492, e pela fuga à Inquisição do reino vizinho. Após os decretos de expulsão/conversão forçada (por D. Manuel I, em 1496) e após três séculos de Inquisição, este estudo pretende traçar a demografia histórica das comunidades criptojudaicas e da diáspora sefardita.
Ainda não está concluído, mas já foram lançados alguns resultados preliminares que se relacionam com a zona de Trás-os-Montes: está feita a caracterização da composição genética da comunidade de judeus do Distrito de Bragança.
Para a elaboração deste estudo foram analisados 57 indivíduos (das aldeias de Carção e Vilarinho dos Galegos; vila de Argoselo; Cidades de Bragança e Mogadouro) que se assumiam como possuindo ancestralidade `judaica`.
De acordo com o coordenador do estudo, António Amorim, foram detectadas em comunidades do distrito de Bragança “linhagens típicas do Próximo Oriente dez vezes mais frequentes do que no resto do país que se identificam como sendo de origem judaica”. Pode dizer-se, continua António Amorim, “que houve manutenção de uma identidade cultural que se correlaciona com a persistência de um perfil genético distinto, mas que não corresponde a um isolamento total”. Quanto à interpretação destes dados, o investigador prefere “esperar pelos resultados das linhagens femininas para (re)analisar essas questões”, sendo que, de qualquer modo, "o nível histórico e sociológico dessa análise será feito por especialistas nessas áreas”. O estudo emergiu de uma análise do cromossoma Y (masculino), passado exclusivamente de pai para filho, e denunciou uma diversidade muito elevada de linhagem, com uma incorporação de genes não-judaicos relativamente pequena e a ausência de um acentuado desvio genético. Falta agora tentar perceber como é que estas comunidades evitaram a mistura de genes, previsível durante séculos de repressão religiosa.
Este estudo tem, no entanto, uma amplitude mais vasta. Abraça o crescente interesse, em várias áreas científicas, pela reconstituição de migrações, nomeadamente das populações judaicas que constituem um paradigma de comunidades em migração constante. O projecto focou um subconjunto bem limitado desses movimentos: o das comunidades judaicas da Ibéria depois do século XVI, quando esta minoria demograficamente importante foi forçada a escolher entre a conversão e o exílio. Pretende utilizar marcadores genéticos de populações actuais para inferir a demografia histórica das comunidades que permaneceram na Ibéria e daquelas que migraram para a Europa do Norte e para o Novo Mundo.»

in http://www.fc.up.pt

Para quem se interessa por esta temática - Os judeus em Trás-os-Montes - sugerimos que visite regularmente o blogue com este título, AQUI.

terça-feira, 27 de março de 2012

Solares do concelho de Valpaços – Solar dos Barros, Xavieres e Pimentéis e Morais Pinto

Por Leonel Salvado

(clique na imagem para aumentar)

Nota prévia: A respeito dos solares de Possacos, tirando o dos “Machados”, tem existido ao longo dos tempos a uma enorme confusão na sua relação com as famílias mais conhecidas da aristocracia local pelos séculos XVIII e XIX às quais elas pertenceram, nomeadamente os Morais, os Pinto, os Xavier e Pimentel e nas correspondências destas com as representações heráldicas que esses solares ostentam, o que é perfeitamente natural. Na verdade, a identificação dos solares, aqui como em qualquer outra parte foi variando no tempo e dependeu sempre do ponto de vista das pessoas. Como se compreenderá, a prevalência do determinativo original procedente de uma interpretação heráldica não tem necessariamente de corresponder, nem corresponde na maioria dos casos, à designação comum que é sujeita a alterações sempre em função dos nomes dominantes de família dos sucessivos proprietários, tal como tem sucedido em Possacos, tanto no percurso final da monarquia constitucional, como daí até à actualidade. Digo nomes dominantes porque também, por exemplo, não me parece que alguma vez tenham sido invocados pela população local os nomes das famílias Cardoso, Barros e Alão, cujas divisas também se encontram nas pedras de armas dos três solares conhecidos na localidade de Possacos. Os nomes que sobressaem ainda hoje para a identificação dos solares desta localidade são Morais-Pinto/António Terra, Xavier-Pimentel e Machado.

O Solar representado na foto é actualmente conhecido como o “Solar dos Morais Pinto” e situa-se no lado oposto da mesma artéria da localidade de Possacos onde se encontra um outro Solar que tratámos na primeira edição desta categoria temática e a que hoje se costuma chamar o “Solar de António Terra”, o qual, como procurámos esclarecer - na esteira da interpretação do Padre João Vaz de Amorim – pertenceu em tempos passados à família Morais Pinto e julgo que certamente também às famílias dos Xavieres e Pimentéis, a que a primeira parece ter-se ligado, já que na respectiva pedra de armas se vê a divisa dos Pimentéis e na década de 40 do século passado ainda era designada pelos moradores de Possacos como a “Casa dos Xavieres”, segundo testemunha o mesmo autor com o pseudónimo de “João da Ribeira” na obra “Por Montes e Vales… Terras de Monforte e Terras de Montenegro.
Posto que por essa mesma época, o Solar hoje comummente designado como dos Morais Pinto (na foto) ainda pertencia aos “legítimos representantes” da família Pimentel, como “João da Ribeira” teve o cuidado de anotar, esclarecendo porém que os “Pimentéis de Possacos são parentes próximos dos Morgados de Rio Torto e dos Carvalhais de Veiga de Lila e Argeriz, cujo primitivo solar avoengo foi em Padrela”, parece-me mais acertado atribuir a sua primitiva posse, ainda pelo século XVIII, não a esta família mas a uma outra de que não há memória na povoação, mas que é atestada pela pedra de armas que o mesmo solar ainda ostenta – a família Barros. Efectivamente, a pedra de armas do Solar dito dos Morais Pinto, que foi também o “solar dos Xavieres e Pimentéis”, é datável do século XVIII e exibe as armas plenas dos Barros, como muito bem observou o Padre João Vaz de Amorim e se confirma na simbologia heráldica que ela contém – Armas: três bandas acompanhadas de nove estrelas postas 1, 3, 3, 2. Timbre: uma aspa carregada de 5 estrelas do escudo. Não obstante a linhagem dos Morais Pinto ter-se esgotado com Luís Augusto de Morais Pinto, segundo “João da Ribeira”, a verdade é que o Solar de que falamos encontra-se actualmente na posse dos descendentes desta família, sendo esta a única razão por que o nome de Morais Pinto lhe tem servido de determinativo.

Para aceder a outros solares [local/regional] tratados neste blogue, clique

sexta-feira, 23 de março de 2012

O anúncio aviculário da Primavera e as Tosquias

Por Leonel Salvado
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«Quando surge o Milhafre, nova estação se aproxima!
É o tempo da tosquia, quando chega a Primavera, e as andorinhas aconselham a troca das roupas quentes por vestes mais estivais
Aristófanes, “As Aves”, 414 a. C.

Dois milénios depois, ainda é assim em muitas regiões portuguesas, como é caso de Figueira de Castelo Rodrigo, em Riba-Côa, e em outros locais do Norte onde quer que, de Março a Agosto, se costume vislumbrar o voo de milhafres e haja ovinos para tosquiar, como acontece em Trás-os-Montes (particularmente em Miranda do Douro) e em algumas partes do estuário do Minho. Por toda a parte as andorinhas confirmam a chegada da Primavera e convidam à celebração deste ciclo de vida renascida.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Das memórias do Rabaçal à actualidade.

Por Leonel Salvado.

O Rio Rabaçal em Bouçoais

HISTÓRICA LEGISLAÇÃO FUNDAMENTA PROIBIÇÃO DE PESCA NO RIO RABAÇAL
Há dias, mais exactamente no dia 9 de Março do presente ano de 1912, publicámos aqui e na página do Facebook vinculada ao presente blogue um artigo invocando algumas memórias do Rio Rabaçal que, em boa hora, constatámos terem caído nas boas graças de um grande número dos amigos do “Clube de História Valpaços”, alguns dos quais recordam com imensa saudade esta preciosa referência do seu Património Natural. Ora, quatro dias depois desta publicação o Vice- Presidente da Autoridade Florestal Nacional, do Ministério da Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento do Território, João Soveral, determinou a criação de uma zona de protecção no troço do mesmo rio, a jusante da sua confluência com o Mente até ao Pontão e São Jomil e, a montante, nos termos de várias freguesias dentre os quais no de Bouçoais, concelho de Valpaços, assinando o AVISO que torna publica a proibição, também aí, do exercício da pesca. Razão? «Na sequência do evento de mortalidade piscícola ocorrido na Albufeira de Rebordelo, no rio Rabaçal, concelho de Vinhais». Convém que se diga que só agora de torna público este aviso e que ele se fundamenta no art.º 43 do Decreto N.º 44623 do longínquo ano de 10 de Outubro de 1962.
Já em 1758, isto é há cerca de dois séculos e meio, o abade de Bouçoais, António Xavier Fernandes, informava, assim, dos parcos recursos piscatórios que os paroquianos retiravam do rio Rabaçal:

«[de] pesca tem barbos, bogas, em pouca quantidade, e algumas trutas

Parece que nos últimos oito anos, após a construção da Barragem de Rebordelo, as coisas se complicaram ainda mais.

Para aceder ao referido aviso clique
 AQUI ou AQUI

sábado, 3 de março de 2012

As serras e as lendas - a lenda de São Leonardo e Santa Comba dos Vales

Por Leonel Salvado


São numerosas as serras a que, em Portugal como em outras partes do mundo, estão ligadas variadas lendas, umas mais antigas do que outras, umas preservadas e transmitidas por via erudita, outras simplesmente mantidas no imaginário colectivo por via da tradição oral. Talvez seja de concluir serem raras as serras que em Portugal que não tenham a sua própria lenda.
Algumas delas, posto que nada tenham a ver com o sobrenatural mas apareçam relacionadas com determinados corpos celestes, como são os casos da lenda da Serra da Estrela e da Serra de Sintra (a lua), talvez possam radicar-se nos ancestrais cultos pagãos associados às forças da natureza e aos fenómenos astrais.

Outras conhecidas lendas, mais numerosas, onde inevitavelmente a realidade e a fantasia se misturam, traduzem histórias que envolvem figuras reais ou imaginárias (santos ou heróis populares, aventuras e desventuras amorosas…). Entre a grande maioria destas, que contêm vagas referências de enquadramento histórico, avultam as que se reportam a histórias passadas na época de dominação árabe ou de alguma forma ligadas a este povo. Trata-se de um denominador comum e peculiar do imaginário colectivo da Península Ibérica de que são particularmente sintomáticas inúmeras lendas portuguesas e que se explica pela memória que os povos ainda guardam da última grande invasão e subsequente difícil convivência de mais de cinco séculos entre cristãos e muçulmanos. A ainda hoje ressentida presença histórica do “elemento árabe” no nosso território afigura-se nestas lendas, principalmente entre as comunidades do Norte, como a mais remota referência histórica da sua consciência idiossincrática larga e predominantemente baseada na tradição cristã. Assim, também se tem visto conservadas em muitas regiões as lendas de mouras encantadas, de escondidos tesouros fabulosos de um qualquer “El- rei mouro” associadas a outras formações naturais como grutas ou simples penedos, a ruínas de vetustas fortificações ou a outros enigmáticos monumentos arqueológicos como são os casos dos “berrões” que proliferam numa vasta área que se estende desde o Nordeste de Portugal, em Trás-os-Montes e Alto Douro, junto às margens deste rio, prolonga-se pela Beira Interior Norte (em Ribacôa) ao longo da margem ocidental do rio Águeda e chega às províncias de Cáceres, Ávila e Salamanca, em Espanha.

Voltando às Serras e suas lendas, se há lendas que desde há séculos têm merecido a atenção de insignes escritores etnólogos e historiadores e ainda continuam a andar de boca em boca entre os versejadores populares, uma das mais belas é a Lenda de Santa Comba dos Vales e do Rei Mouro “Orilhão” de Lamas, religiosamente guardada pela população da actual aldeia e freguesia de São Nicolau dos Vales, concelho de Valpaços que está situada nas faldas da serra de Santa Comba (na imagem), paróquia de antiquíssima fundação, provavelmente pré-nacional (como admite Veloso Martins) que nos séculos XII e XIII ainda era designada por Santa Comba de Orelhão ou dos Vales contemporânea e vizinha, mas distinta, da paróquia de Santa Cruz de Lamas de Orelhão que é actualmente freguesia de Mirandela. Como bem anotou A. Veloso Martins na sua Monografia de Valpaços, é uma “das mais belas lendas fixadas a ouro fino na história da literatura portuguesa”. Na verdade, ela já era cantada assim nos “Poemas Lusitanos” do ilustre humanista quinhentista António Ferreira (1528 – 1569), introdutor da tragédia clássica em Portugal e que viveu em Lamas de Orelhão em terras de Mirandela:

No tempo em que a infiel bárbara gente
Da mísera Espanha ocupava a terra,
E o sangue derramava cruelmente
Dos poucos que escapavam da ímpia guerra,
Uma moça belíssima e inocente
Passava a vida na mais alta serra,
Que entre Tâmega e Tua hoje parece,
Onde o sol em nascendo resplandece
Conta-se que reinava um grã Rei Mouro
Entre Tâmega e Tua, e que ocupava
Toda a terra de Lamas, rica d’ouro,
Rico de grosso gado, que criava
Em cada serra tinha um grã tesouro
Junto do muito que ós Cristãos roubava
Já a Pastora [Comba] chegava ao alto cume
Da serra, onde é mais alta a penedia
Dond’o olho abaixo olhando perde o lume
E entr’ela e o Rei só a lança se metia,
Já lhe chega o Tirano, e já presume
Que nem em terra, ou no Céu lhe escaparia,
Quando Comba gritou: ó Rocha alta onde
Venho buscar abrigo, em ti me esconde.

Ó Maravilha grande! Abrio-se a pedra
Obedece à Santa a rocha dura,
Obedeceo à Santa e abrio-se a pedra,
E defendeu-a da cruel ventura.

Trasncrição do excerto de A. M. Freitas, “Fontes de
Abastecimento de Água,Concelho de Valpaços”,
vol. II, CMV, 2005

Ainda que pelo século XIV fosse Santa Comba substituída, no orago da paroquial igreja dos Vales, por São Nicolau, nunca a tradição deixou que a Santa pastora fosse apartada da memória dos paroquianos e a sua maravilhosa lenda de tal modo se propagou pelas terras do concelho de Valpaços e pelo Norte do país que chegou a ser admiravelmente apreciada e divulgada pelo notável linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo português, José Leite de Vasconcelos (1858 – 1941) na sua grandiosa obra “Religiões da Lusitânia” em igual estreita relação com uma outra lenda que os habitantes da mesma freguesia de Vales também e desde tempos imemoráveis estabelecem: a do milagroso poço de São Leonardo (também pastor e irmão de Comba) que é hoje uma fonte de mergulho criteriosamente estudada e publicada por Adérito Medeiros Freitas na obra a que atrás aludi, ao lado da qual foi recentemente edificada uma pequena capela dedicada ao Santo popular (na imagem).

Em manuscritos dos meados do século XVIII aparecem claras referências à devoção que os povos ainda prestavam a Santa Comba e a São Leonardo entre outras mais vagas referências ao seu motivo. É o caso da seguinte “notícia” do Reitor de São Nicolau dos Vales, Simeão Nunes, sobre esta freguesia, em resposta aos interrogatórios para as “Memórias Paroquiais” postos a decorrer em todas as paróquias do país no ano de 1758:

No alto de uma serra vizinha da mesma paróquia, chamada a serra de Santa Comba, para a parte do Nascente, se acham duas ermidas, uma da mesma Santa Comba com duas imagens colocadas no seu altar, uma de roca e outra mais pequena de escultura de madeira, e outra [ermida] de São Leonardo, ambos irmãos pastores. Acha-se nesta uma imagem de Cristo Crucificado, com quem têm devoção os habitadores circunvizinhos, e outra do pastor São Leonardo, feita por um ermitão, de pedra Milagrosa, ainda que tosca. Pertence a administração destas capelas aos moradores desta paróquia. São estas imagens de muita veneração nas freguesias vizinhas e distantes pois, além de muitas romagens particulares que a elas fazem pelo ano, os dias em que mais é frequentada a sua casa é dia [data omissa] de Janeiro, subindo à serra na véspera e dormindo ali, e na véspera de São Lourenço, dez de Agosto, dormindo ali do mesmo modo; e são advogadas de qualquer necessidade que a recorrem.
No alto desta serra, junto à ermida de São Leonardo, se acha um poço quadrado feito de pedra. Das suas águas usam os habitantes circunvizinhos como muito medicinais para o achaque da asma; é chamado o poço de São Leonardo e há tradição que naquele lugar caíram as tripas do mesmo Santo no tempo do seu martírio.

ANTT, Memórias paroquiais, 1758 [VALES, S. Nicolau, Chaves], vol. 38, n.º 84, p. 475 a 478

É ainda o caso do testemunho deixado pelo vigário da vizinha paróquia de São Lourenço de Lilela (entretanto extinta e integrada na freguesia de Rio Torto), padre Vicente Martins, o qual menciona expressamente a alternativa toponímica, obviamente condicionada pela lenda, que, pelo mesmo ano de 1758, também se usava para designar a mesma serra de Santa Comba dos Vales:

Há uma serra chamada a serra de Santa Comba por estar nele Santa Comba, que é de outra freguesia e pega com o termo do lugar de Póvoa desta freguesia; por outro nome lhe chamam a serra do Rei de Orelhão.
Na dita serra há Santa Comba e São Leonardo, cada um com sua capela, mas juntas. Costuma haver romagem à de Santa Comba no dia de São Silvestre, no dia último de Setembro e no dia dez de Agosto, aonde sucede haver algumas bulhas e discórdias. Esta capela é da freguesia de São Nicolau dos Vales.

ANTT, Memórias paroquiais, 1750 [LILELA, Chaves], vol. 20 n.º 86, p. 649 a 654

Uma boa prova da vivacidade popular que a lenda de Santa Comba ainda conservava nos anos 90, na aldeia de Vales, é esta quadra da autoria de um dos seus naturais e residentes, José Joaquim Pereira (Sr. Zezinho), recolhida Por Medeiros Freitas:

Senhora Santa Combinha,
Rei Mouro te perseguiu.
Não triunfando de Vós,
A fraga se vos abriu.

De tal modo a força da tradição veio impondo a indissociabilidade das duas lendas que elas se fundiram numa só, o que se vê pela forma como foram contadas, em 1999, na cerimónia de inauguração da Ampliação e Remodelação dos Paços do Concelhos, na entrada de cujo edifício foi erigida uma bela escultura em bronze da autoria de José Rodrigues representando o Rei Orelhão e pastora Comba (na imagem):

No tempo em que os Mouros dominavam a Península Ibérica reinava em Lamas um rei mouro, grande, membrudo e feio como uma orelha de asno e outra de cão a quem chamavam o Orelhão.
Comba era a mais bela pastora da serrania que com seu irmão Leonardo, apascentavam o gado, tranquilos e descuidados.
A fama da sua formosura e da sua pureza chegou aos ouvidos de Orelhão que vencido pela paixão, ofereceu-lhe todas as riquezas para a conquistar.
Surda aos aliciamentos do sedutor, preferiu continuar casta, pura e humilde.
Perdidas todas as esperanças de conseguir conquistá-la a bem, o Mouro resolveu tomá-la à força.
A resistência da menina surpreendeu o Mouro que a persegue de lança em riste montado no seu cavalo. Encurralada entre o perseguidor e a penedia e ao alcance da lança, já a caminho para a atingir, Comba transbordante de fé evoca poderes divinos no sentido da rocha a abrigar. Prodigiosamente a rocha abre-se, recolhe a virgem e fecha-se numa manifestação do poder divino.
O Mouro, desesperado, ainda esboça um movimento para a matar, mas, repara em Leonardo, que também virtuoso, assistia mudo e aterrado à tragédia da sua irmã, e de imediato o trespassa, lançando o corpo a um charco próximo.
Na rocha que abrigou Comba ficou a marca da lança e da pata do cavalo do rei mouro.
A água do charco onde foi lançado o corpo do jovem tornou-se água de muitas virtudes.

Este acto evocativo celebrado pela Câmara Municipal de Valpaços com o apoio da “Árvore, Cooperativa das Actividades Artísticas C. R. L.” constitui a materialização do orgulho há muito sentido pelos valpacenses em possuir “intra-muros o cenário [a serra de Santa Comba] e o motivo [o trágico fim dos pastores irmãos] de uma das mais belas lendas” de Portugal – parafraseando o autor da “Monografia de Valpaços”, A. Veloso Martins no que já havia observado, em 1990, data da 2.ª edição desta sua obra.

domingo, 26 de fevereiro de 2012

À descoberta de vocações artísticas no concelho de Valpaços – Santa Valha

Por Leonel Salvado

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A Artista a quem me apraz render hoje a minha sincera e devida homenagem chama-se Graziela Teixeira da Mota. Trata-se de uma pintora já conhecida de muitos portugueses e estrangeiros e que já vi ser considerada por alguns admiradores comuns e colegas de arte, que certamente poderão pronunciar-se melhor do que ninguém sobre as sua obras, como uma das principais referências da pintura impressionista portuguesa da actualidade, cujos temas de eleição incidem, entre outros geograficamente menos circunscritos, sobre a zona histórica do Porto, Património Mundial, o velho casario, os costumes da população portuense e, sobretudo, os históricos eléctricos da cidade invicta, como revelam as pinturas que dela expomos mais abaixo.
Na mesma medida do seu incontestável talento, o que me parece relevante chamar a atenção dos valpacenses para esta artista, na presente rubrica dedicada às vocações artísticas do concelho de Valpaços, é a sua própria qualidade humana – trata-se de uma pintora radicada há largos anos na cidade do Porto, onde se formou na Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, mas que, pelo que me foi dado observar nas suas ligações de amizade em páginas regionais do Facebook, inclusive na própria página vinculada ao Clube de História de Valpaços, tenho por certo que é natural de Santa Valha, aldeia e freguesia do concelho de Valpaços e que revela uma assídua e exemplar relação de empatia, tanto com as pessoas da sua terra natal como com as demais do próprio concelho a que pertence.
A juntar a estas qualidades devo sublinhar a sua nobreza de carácter claramente evidenciada por ocasião da Exposição de alguns dos seus trabalhos no Hotel Altis, no Porto, em Abril de 2011. Este evento foi anunciado e divulgado pela “mulher.sapo.pt” onde se recordava que Graziela Teixeira da Mota, contando já com várias exposições nacionais e internacionais, realizava esta Mostra cultural em parceria com associação “Acreditar–Associação de Pais e Amigos de Crianças com Cancro” em favor de cuja instituição revertia uma percentagem de cada obra vendida.
É pela combinação destas virtudes – a sua invulgar vocação artística, amor pela suas raízes e o seu espírito de solidariedade - que entendi dedicar-lhe estas palavras de homenagem. Mas confesso que tenho pena que a pintura que encabeça o presente post seja, como efectivamente parece ser, a única obra da nossa pintora da Invicta e de Santa Valha dedicada a esta bela e histórica aldeia do concelho de Valpaços que a viu nascer e de quem bem vejo que dela também se orgulha. A pintora valpacense, como tem sido designada Graziela Teixeira da Mota em vários eventos, é uma referência humana incontornável do património cultural deste concelho.

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