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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

História de uma visita ao túmulo "do Bandarra" em Trancoso

Por Leonel Salvado

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Sugestionado pela curiosa ilustração (ao centro da imagem) que me foi disponibilizada pelo autor de BD Jorge Miguel, alusiva ao humilde enterro do sapateiro de Trancoso, Gonçalo Anes, o Bandarra - personagem celebrizada pelas suas proféticas trovas que alimentaram o mito do sebastianismo - e sensibilizado por um dos comentários que a propósito dessa mesma ilustração citava o histórico provérbio “Morra o homem, deixe a fama!” – que muitas vezes preferimos associar a outras figuras de dimensão histórica nacional, como é o caso de Camões - procurei pesquisar mais algumas informações sobre o sapateiro-profeta de Trancoso quando, mesmo a propósito, fui surpreendido por uma pequena história passada naquela cidade em 2007 que não resisto em trazê-la aqui. Ela poderá servir de teste à relevância do referido provérbio no nossos dias.

A História, contada por um membro da “comunidade Sol de blogs.sapo”com o pseudónimo de “contracorrente”, é a seguinte:

«Desde os meus tempos de escola que vivia com a curiosidade de conhecer a terra do célebre Bandarra, sapateiro de Trancoso e profeta do Quinto Império. Mas os anos foram-se passando e, só no passado mês de Novembro, a oportunidade surgiu.
Em Trancoso, como não podia deixar de ser, respira-se Bandarra por todo o lado. Na praça do município e em lugar de destaque, lá está a sua incontornável estátua. Daí partimos à procura da igreja onde está sepultado o nosso profeta. Como a igreja mais próxima se encontrava fechada, procurámos a dois jovens de 18-20 anos que ali se encontravam se era naquela igreja que estava sepultado o Bandarra. “Bandarra? Não conhecemos nenhum Bandarra…” E perante a nossa estupefacção, justificaram-se: “Nós não somos de cá, só aqui andamos a estudar…”. A estudar? A ignorância desta juventude é um espanto.
Mas como o posto da GNR era pegado com a igreja, a minha mãe procurou informar-se ali. A reacção do soldado da GNR de serviço foi idêntica à dos jovens estudantes: «o Bandarra? Nunca ouvi falar…» O homem devia estar a gozar connosco. Como é possível, estando Trancoso coberta de placas, estátuas e outras indicações com o nome do Bandarra, um soldado da GNR fazer o turno pela povoação sem nunca ter lido este nome? A não ser que não saiba ler…
Bem, saímos do posto e… o que é que vimos diante de nós? Uma lápide enorme na parede lateral da igreja e de frente para a porta do posto da GNR com um texto que tinha o seguinte título: “Túmulo do Bandarra” […]»

Será possível que, apesar do monumento e das informações escritas, o Bandarra seja hoje um desconhecido na sua própria terra?! São cada vez mais numerosos os exemplos de histórias como esta que nos induzem a interrogar se estaremos a viver uma época de crise da nossa memória histórica, e se estas histórias poderão ser entendidas como verdadeiros sintomas de uma qualquer estirpe de “amnésia colectiva” que ameaça tornar-se endémica na sociedade portuguesa.

O sumptuoso túmulo do “profeta do Quinto Império” composto por um belo epitáfio ostentando como divisa os instrumentos do seu ofício de sapateiro existente no interior da igreja de São Pedro em Trancoso, foi mandado construir em 1641 por D. Álvaro de Abranches da Câmara, General da Província da Beira, em substituição da primeira pobre sepultura que lhe foi dada em 1556.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Para lá do Douro - Memórias da quase esquecida batalha do Côa

Por Leonel Salvado

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Foi sobre a estreita ponte de curva apertada situada a 3 km da Vila de Almeida sobre terreno bastante íngreme onde corre o rio Côa em leito profundo e rodeada por acentuados declives de ásperos terrenos rochosos atravessados por numerosos muros de pedra que sucedeu, no dia 24 de Julho de 1810, o primeiro encarniçado combate da terceira invasão francesa, um dos mais dramáticos sucessos da Guerra Peninsular, entendido como dos mais decisivos para o triunfo anglo-luso na batalha das Linhas de Torres Vedras que se seguiu. Não obstante, a batalha ou combate do Côa, continua a ser um dos menos conhecidos confrontos militares desta Guerra.

Contando com a capacidade de resistência da moderna praça-forte de Almeida, a estratégia definida por Wellington para derrotar os franceses que entravam em Portugal por Vilar Formoso procedentes de Ciudad Rodrigo, compreendia a maior desertificação e destruição de víveres possível no planalto que se estende para sul e acções de guerrilha confiadas a milícias e ordenanças lusas sob as ordens de oficiais britânicos com o claro propósito de desmoralizar o adversário e, pela mesma sorte, atrasar a marcha de Massena sobre a capital de modo a proporcionar a melhor escolha e preparação do terreno para um primeiro embate massivo mais vantajoso para a aliança anglo-portuguesa (o que veio a materializar-se no Buçaco a 27 de Setembro) e ganhar tempo para uma mais eficiente construção das Linhas de Torres que vinha decorrendo em ritmo acelerado sob absoluto sigilo.

Tal estratégia não impediu a que as forças aliadas da Divisão Ligeira luso-britânica comandadas pelo Brigadeiro-General Robert Craufurd compostas por cerca de 5700 portugueses e britânicos se vissem forçadas a retirar em direcção à ponte perante o avanço dos 9800 franceses que compunham o 6.º corpo do exército de Massena comandado pelo Marechal Michel Ney. O início do combate desenrolou-se a cerca de 600 metros a sudeste do forte de Almeida onde se estabelecera a linha defensiva dos aliados. Numa primeira vaga, os franceses avançaram em força contra estes com os 13 batalhões de infantaria de Loison que logo foram desbaratados por 3 batalhões britânicos e dois batalhões de caçadores portugueses. Mas o súbito e inesperado ataque do 3º Regimento de Hussares provocou a maior desordem nas hostes anglo-lusas, que sofreram as suas primeiras baixas (12 mortos ou feridos e 45 prisioneiros) pelo que pouco depois Craufurd deu ordem de retirada em direcção ao Côa e ordenou à maior parte das forças para atravessarem a ponte e se posicionassem na margem ocidental ficando a outra parte do exército do lado oriental com ordens para retardar o inimigo tanto quanto possível. Rompida a defensiva dos aliados na margem oriental foi a muito custo e com pesadas baixas (333 homens) que se retiraram sobre a ponte sob cobertura de fogo dos batalhões anglo-lusos posicionados na margem oposta. A batalha, progressivamente mais encarniçada, prosseguiu a partir desse momento, pela posse da ponte. Os aliados conseguiram impedir todas as tentativas dos franceses para se apoderarem dela, mas as testemunhas coevas traçam um retrato terrífico do confronto asseverando que Craufurd esteve muito perto de ver os seus homens sofrerem o desastre total. Perante a coragem e determinação reveladas pelos soldados e oficiais em defender a todo o custo a ponte, Ney cedeu e ordenou a retirada concentrando-se a partir de então na tomada de da praça-forte de Almeida que mais tarde, efectivamente viria a capitular mas reteve aí o inimigo o tempo que foi preciso para se organizarem as linhas defensivas aliadas.

Em memória dos portugueses e britânicos que tombaram neste Combate do Côa foi erigido um modesto monumento sobre um afloramento granítico próximo da ponte que se vê na imagem. 

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Desconhecido membro da família real portuguesa em Moçambique

Chama-se Alberto Sousa Araújo, vive nos arredores da cidade da Beira, em Moçambique, e alega ser neto do rei D. Carlos. Um vídeo gentilmente compartilhado por Carlos Vicente.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

terça-feira, 19 de abril de 2011

505.º Aniversário do Massacre dos judeus de Lisboa

Por Leonel Salvado

Uma das duas únicas gravuras sobreviventes ao terramoto de 1755 e ao incêndio da Torre do Tombo: “Da Contenda Cristã, que recentemente teve lugar em Lisboa, capital de Portugal, entre cristãos e cristãos-novos ou judeus, por causa do Deus Crucificado| http://pt.wikipedia.org

Trata-se de um dos mais dramáticos e delicados acontecimentos da História de Portugal, também designado por “Matança da Páscoa de 1506”, de que não se faz eco a memória colectiva do povo português, não se encontra a justa referência nos manuais escolares de História existentes, em qualquer dos níveis de escolaridade, e continua a ser, desde há cinco séculos, um “pedaço de História” que merece a atenção de um círculo muito restrito de historiadores. A Historiografia situa o início do vergonhoso massacre no dia 19 de Abril de 1505. Só a 23 de Abril de 2008 foi erguido em Lisboa, no Largo de S. Domingos, próximo do Convento desta ordem, onde teve início o triste evento, um monumento em homenagem aos judeus mortos em 1506 nesta cidade.

Monumento em homenagem aos judeus vítimas do massacre de 1506, Lisboa | foto: SergioPT | http://pt.wikipedia.org
(clique sobre a imagem para aumentá-la)

A cinco séculos de distância, este monumento que se transformou em ponto de encontro de estrangeiros encontra-se, ironicamente, perto de um outro monumento em homenagem ao catolicismo e de um mural onde a frase “Lisboa, cidade da tolerância” pode ser lida em 34 línguas.


Os antecedentes

A 23 de Março de 2011 publicámos aqui no Clube de História de Valpaços um artigo que entendemos ser de interesse e relevância local e regional dedicado à “Expulsão dos judeus de Castela e o reforço das comunidades criptojudaicas em Trás-os-Montes”. Ora, uma grande parte dos cerca de 90 000 judeus entrados em Portugal em consequência da sua expulsão pelos reis católicos, Isabel de Castela e Fernando de Aragão, através do “decreto de Alhambra” de 31 de Março de 1492, permaneceram no reino, sob as condições impostas pelo monarca português, D. João II, nos termos a que nos referimos no artigo atrás mencionado, estabelecendo-se um prazo de oito meses para que os que não respeitassem essas condições abandonassem o reino. Desde então, e posto que em alguns lugares a população aceitou mal a clemência régia e constatando-se ainda que muitos judeus não possuíam condições financeiras para embarcar, o que os levava a simular a conversão para serem poupados a afrontas e punições, o monarca recorreu à conversão forçada de modo a pôr termo à onda de agitação social que já se sentia agravar-se contra eles. Começavam então as bárbaras provações por que passaram as famílias judaicas a quem se apartavam, à força, os filhos menores para serem baptizados e conduzidos à ilha de S. Tomé, onde se fariam bons cristãos e povoadores, longe da influência da doutrina mosaica e da língua e cultura hebraicas. Este procedimento “considerado bárbaro à luz do nosso tempo” levou o historiador Joaquim Veríssimo Serrão, na esteira de outros historiadores, a tecer a seguintes comentários:

“A odisseia dos judeus que constitui uma página negra da história ibérica dos fins do século XV, serviu de tema a Samuel Usque para a dolorosa evocação do sofrimento dos seus irmãos de raça. O ressentimento secular dos cristãos está longe de justificar o clima de intolerância que então dominou o País e que foi apenas e que foi apenas o prólogo de violências ainda mais cruéis que no tempo de D. Manuel viriam a atingir a raça proscrita.”

J. V. Serrão, História de Portugal, Verbo, 3ª ed. revista, 1980, vol II, p. 262

De facto, foi já no reinado de D. Manuel que a situação se complicou para as comunidades judias por força não da sua vontade pessoal (no início do seu reinado D. Manuel adoptara uma política de grande tolerância em relação aos judeus, chegando a conceder a liberdade aos que haviam recaído para a condição de escravos por vontade de D. João II) mas do compromisso a que se vira obrigado devido ao seu casamento com D. Isabel de Aragão em 1497 nos termos de cujo contrato os judeus eram considerados “hereges”, e, sobretudo após o seu casamento, no ano seguinte, com D. Maria de Aragão, posto que foi em cumprimento de uma das cláusulas deste segundo matrimónio que “o Venturoso” requereu a instalação da Inquisição em Portugal, a qual só viria a ser autorizada por decisão papal em 1531, anulada um ano depois e restabelecida, a pedido de D. João III, em 1536.  

Ainda que com grande hesitação, dado o parecer dos seus conselheiros de que a saída dos judeus empobreceria o corpo social da Nação (J. V. Serrão, ob. Cit., Id), logo no ano de 1497, D. Manuel estabeleceu o prazo de Janeiro a Outubro para que os não convertidos abandonassem o Reino, mas ordenou também que fosse dada continuidade à prática iniciada pelo seu antecessor para que àqueles fossem tirados os seus filhos com idade inferior a catorze anos, espalhados pelo País e levados ao baptismo. Ordenou ainda a condução forçada de muitos outras famílias para Lisboa, onde foram forçados ao baptismo, o que deu origem ao conceito de “cristão-novo” e ao estigmatismo que logo se lhe associou. Tal foi a ardilosa solução encontrada pelo monarca, tantas vezes sublinhada pelos historiadores, para que, sem aparente despeito pelo compromissos diplomáticos e matrimoniais assumidos com o reino vizinho, pudesse evitar a saída dos Judeus do Reino e assim manter a sua prosperidade que, como se sabe, era em grande parte assegurada pelas imensas fortunas e dinamismo económico e comercial de que eram detentores os “cristãos-novos”, sobretudo em Lisboa, então um dos principais centros cosmopolitas da época. Foi também nesse sentido que a 30 de Maio de 1498 foi aprovada a medida régia que estabelecia um prazo de vinte anos para que os judeus conversos não fossem molestados pelos cristãos. Porém, estas medidas não sortiram o efeito desejado devido à inabalável desconfiança da população perante os “cristãos-novos”, acusados de continuar secretamente a praticar o seu culto ancestral tanto em família como em comunidade, o que na maioria dos casos correspondia à verdade. Parafraseando o já citado historiador Joaquim Veríssimo Serrão (Ob. Cit. Vo lIII, p. 17), não se confirmou, como a coroa pensava, “que o tempo seria condição bastante para o apaziguamento social que se impunha.”


O Massacre e suas consequências

Existem indicadores de que por todo o País surgiam pequenos conflitos entre as comunidades de cristãos e conversos ou pseudoconversos. Mas foi em Lisboa, na Pascoela de 1506, que a situação se tornou mais grave, transformando-se num movimento insurreccional contra os judeus que durante três dias ceifou a vida a cerca de 2000 pessoas, segundo o cômputo indicado por Alexandre Herculano em Da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal e subscrito por Veríssimo Serrão (Ob. Cit., Vol. 3, p.18). Uma tragédia originada pela explosão da recalcada animosidade da população lisboeta, despoletada por um pequeno incidente e alimentada pela adesão aos amotinados de alguns nautas estrangeiros de passagem pela cidade e pela incitação à violência por dois frades dominicanos. Uma das descrições mais próximas do tempo em que sucedeu este arrepiante acontecimento, para além da de Garcia de Resende, é a que nos legou Damião de Góis na “Chronica do Felicissimo Rey D. Emanuel da Gloriosa Memória”. Conta-nos este cronista quinhentista:

«No mosteiro de São Domingos da dita cidade estava uma capela a que chamava de Jesus, e nela um crucifixo, em que foi então visto um sinal, a que davam cor de milagre, com quanto os que na igreja se acharam julgavam ser o contrário dos quais um cristão-novo disse que lhe parecia uma candeia acesa que estava posta no lado da imagem de Jesus, o que ouvindo alguns homens baixos o tiraram pelos cabelos de arrasto para fora da igreja, e o mataram, e queimaram logo o corpo no Rossio. Ao qual alvoroço acudiu muito povo, a quem um frade fez uma pregação convocando-os contra os cristãos-novos, após o que saíram dois frades do mosteiro, com um crucifixo nas mãos bradando, heresia, heresia, o que imprimiu tanto em muita gente estrangeira, popular, marinheiros de naus, que então vieram da Holanda, Zelândia, e outras partes, ali homens da terra, da mesma condição, e pouca qualidade, que juntos mais de quinhentos, começaram a matar todos os cristãos-novos que achavam pelas ruas, …tirando-os delas de arrasto pelas ruas, com seus filhos, mulheres, e filhas, os lançavam de mistura vivos e mortos nas fogueiras, sem nenhuma piedade, e era tamanha a crueza que até nos meninos, e nas crianças que estavam no berço a executavam, tomando-os pelas pernas fendendo-os em pedaços, e esborrachando-os de arremesso nas paredes. …tornaram terça-feira este danados homens a prosseguir a sua crueza, mas não tanto quanto nos outros dias porque já não achavam quem matar, pois todos os cristãos-novos que escaparam desta tamanha fúria, serem postos a salvo por pessoas honradas, e piedosas que nisto trabalharam tudo o que neles foi.»

In http://pt.wikipedia.org

Sabemos pelo mesmo Damião de Góis das medidas de justiça régia sobre os implicados no motim e das consequências que daí resultaram nas relações sociais entre as duas comunidades, através das seguintes palavras de Veríssimo Serrão:

Logo que soube do «alevantamento», D. Manuel, que se encontrava em Avis a caminho de Beja, mandou a Lisboa o Prior do Crato e o barão de Alvito com amplos poderes para punir os culpados. Os chefes do motim, em número de 50, receberam o castigo da forca, sofrendo os dois religiosos a pena do garrote. Por carta régia de 22 de Maio retirou-se à capital uma parte dos seus antigos privilégios, destituíram-se funcionários, levantou-se devassa a outros e suspenderam-se as eleições na Casa dos Vinte e Quatro, numa forma de exemplar condenação do bárbaro crime de que Lisboa fora teatro. A culpa do malefício recaía também sobre os «outros moradores & da dita cidade e termo della» que não se tinham oposto aos «muitos insultos & danos» que ensanguentaram a capital.”

Joaquim V. Serrão, Ob cit., Vol. III. pp. 18-19

Tais medidas foram de molde a abrir um ambiente de maior tolerância em relação aos judeus, concedendo-se-lhes a possibilidade de abandonar o Reino por sua livre vontade com todos os seus haveres e proporcionando aos que ilegalmente se ausentaram a oportunidade de regresso sem qualquer castigo. Sobrevindo a bonança obteve-se a reconciliação, visto que a maior parte deles decidiu permanecer em Portugal e foi reposta a paz religiosa até ao final do reinado de D. Manuel. Com a subida ao trono de D. João III repetiu-se a cisão entre cristãos e conversos e agravou-se o ressentimento secular dos cristãos a que Joaquim Veríssimo Serrão aludiu no primeiro excerto que dele transcrevemos neste post. A amargurada odisseia dos judeus  em Portugal ainda estava bastante longe do seu termo.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Fóssil de uma tartaruga de Torres Vedras com 145 milhões de anos surpreende cientistas

Escudo ventral do fóssil de tartaruga com 145 milhões de anos (DR)


Embora este achado, junto ao rio Acabrichel em Torres Vedras, de mais um fóssil de tartaruga com centena e meia de milhões de anos possa parecer insignificante, ele pode ajudar, segundo alguns paleontólogos espanhóis, a completar o puzzle geográfico dos continentes no Jurássico Superior, altura em que a Europa e a América do Norte começavam a afastar-se uma da outra. Vale a pena ler, na totalidade, mais esta “notícia com História”.

É a tartaruga de água doce mais antiga da Europa. E é de Torres Vedras
Por Teresa Firmino 23.02.2011
Vivia numa zona de pântanos e linhas de água sinuosas. O seu fóssil pertence a um género e a uma espécie novos para a ciência. Não muito longe do local onde nadava, o Atlântico Norte começava a formar-se e a separar a Europa da América do Norte.
Estavam a escavar os ossos de um dinossauro num morro junto à foz do rio Alcabrichel, perto de Torres Vedras, quando um deles, Bruno Teodoso, literalmente tropeçou numa tartaruga jurássica. Escorregou e, ao roçar com um braço por cima dos sedimentos, destapou acidentalmente o fóssil de uma tartaruga com 145 milhões de anos.
Nessa altura, em 2003, a Associação Leonel Trindade (ALT) - Sociedade de História Natural, de Torres Vedras, continuou por mais três anos a escavação do dinossauro que ficou encravado durante 145 milhões de anos na colina que agora dá para a praia de Santa Rita e para um Atlântico a perder de vista.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Adeus, Napoleão!

A defesa mais eficaz da história é portuguesa

À força de braços, a população construiu 152 fortificações ao longo de uma centena de quilómetros. Tudo no mais absoluto sigilo e em tempo record. Objectivo cumprido: os franceses foram expulsos de vez.

Montes de terra, pedra, argamassa e alguma madeira. Aquele que é considerado o sistema de fortificações de campanha mais eficiente da história militar não impressiona à primeira vista. Não tem o ar imponente de São Julião da Barra, em Oeiras, ou de São João da Foz do Douro, no Porto. Na verdade, está mais perto do poeirento Forte Sedgwick, onde Kevin Costner assume o papel de capitão Dunbar, no filme Danças Com Lobos. As aparências iludem e as Linhas de Torres Vedras são um bom exemplo do dito popular. No Outono de 1809, perante a ameaça de uma nova invasão francesa, o general inglês Arthur Wellesley ordena o reconhecimento dos terrenos a Norte de Lisboa. A sua intenção é estabelecer um sistema defensivo para proteger a capital porque “é-lhe difícil prever por onde Napoleão irá invadir Portugal”, explica o historiador Carlos Guardado da Silva, director do Arquivo Municipal de Torres Vedras.
Wellesley decide cercar o Norte da cidade com três linhas, que reforçam os obstáculos naturais do terreno e permitem controlar os principais acessos. Os trabalhos de construção arrancam a 3 de Novembro de 1809 e, “num período inferior a um ano, constroem-se, no maior segredo, 126 obras, entre fortificações permanentes e outras de carácter temporário”, revela Ana Catarina Sousa, arqueóloga da Câmara Municipal de Mafra. Desde 2002 que a especialista se dedica ao estudo das Linhas de Torres Vedras e, por isso, sabe que o aperfeiçoamento do sistema continua até 1812, “pois esperam uma nova investida de Napoleão, o que não acontece”. No total, erguem 152 fortificações apetrechadas com 523 bocas de fogo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

51º Aniversário da famosa fuga de Peniche

Álvaro Cunhal, o Forte de Peniche e o plano de fuga

Fuga de Peniche

A famosa fuga de Peniche foi uma das mais espectaculares da história do fascismo português, por se tratar de uma das prisões de mais alta segurança do Estado Novo.
No dia 3 de Janeiro de 1960 evadem-se do forte de Peniche: Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho e Francisco Martins Rodrigues.
No fim da tarde pára na vila de Peniche, em frente ao forte, um carro com o porta-bagagem aberto. Era o sinal de que do exterior estava tudo a postos. Quem deu o sinal foi o actor, já falecido, Rogério Paulo.
Dado e recebido o sinal, no interior do forte dá-se início à acção planeada. O carcereiro foi neutralizado com uma anestesia e com a ajuda de uma sentinela - José Alves - integrado na organização da fuga, os fugitivos passaram, sem serem notados, a parte mais exposta do percurso. Estando no piso superior, descem para o piso de baixo por uma árvore. Daí correm para a muralha exterior para descerem, um a um, através de uma corda feita de lençóis para o fosso exterior do forte. Tiveram ainda que saltar um muro para chegar à vila, onde estavam à espera os automóveis que os haviam de transportar para as casas clandestinas onde deveriam passar a noite.
Álvaro Cunhal passou a noite na casa de Pires Jorge, em São João de Estoril, onde ficaria a viver durante algum tempo.
Esta fuga só foi possível graças a um planeamento muito rigoroso e uma grande coordenação entre o exterior e o interior da prisão.
Do interior a comissão de fuga era composta por Álvaro Cunhal, Jaime Serra e Joaquim Gomes. Do exterior, organizaram a fuga Pires Jorge e Dias Lourenço, com a ajuda de Otávio Pato, Rui Perdigão e Rogério Paulo.

In http://www.citi.pt
Imagens (adaptadas): Id. | http://rumoaosul-marius70.blogspot.com | http://isabelmariados.blogspot.com


A evasão recordada pelo PCP no Telejornal da RTP1, há um ano

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quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O Colmeal das Donas, uma aldeia fantasma no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo

Actualizado em 8 e Fevereiro de 2012

O Colmeal, uma "aldeia fantasma", foto de João Paulo Sousa in http://www.panorâmio.com

As aldeias abandonadas são uma realidade que vem suscitando, nos últimos anos, diversas reacções de pesar dos portugueses, sobretudo à escala regional, umas vezes movidos pelo natural apego ao seu património material e cultural, outras por incontidos sentimentos de nostalgia, outras vezes até por um inconsolável sentimento de injustiça. Na maioria dos casos, como sucedeu com a aldeia do Cachão, no concelho de Valpaços, essa realidade parece ter sido fruto da interioridade e dos surtos de emigração que se intensificaram no país a partir dos anos setenta. Noutros casos, porém, como os que sucederam nos tempos em que a ruralidade era encarada como umas das virtudes da Nação, encorajada pelo regime e acatada com maior ou menor resignação pelos povos, as causas revestiram contornos de efectiva injustiça e de consequências dramáticas que deixaram marcas nas populações durante várias gerações. Um desses casos, talvez o mais paradigmático, foi o caso da “tragédia do Colmeal”, uma aldeia do concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, cujos moradores foram obrigados a abandoná-la por forças da GNR, no ano de 1957, em consequência de uma acção judicial que ainda hoje, passados 53 anos, gera desabafos de clara indignação em algumas vítimas e descendentes e confundem os juristas que procuram, à luz do sistema jurídico da época, indagar da legitimidade dessa acção. Esta questão, que desde há duas décadas tem preocupado o poder municipal, tem sido levada aos meios de comunicação e hoje mesmo foi tema de destaque no programa televisivo “Tardes da Júlia”, apresentado por Júlia Pinheiro no canal TVI. Enfim, face à documentação disponível, este lamentável acontecimento afigura-se-nos como uma tragédia que pode ser (re)apresentada em três actos.

A TRAGÉDIA DO COLMEAL EM TRÊS ACTOS
Colmeal, outrora designada de Colmeal das Donas é uma aldeia abandonada da freguesia que ainda lhe deve o nome, situada no concelho de Figueira de Castelo Rodrigo. De origens remotas (surge pela primeira vez mencionada em documentos papais e leoneses do século XII) tem uma história curiosa que atingiu o dramatismo a partir da década de 40 do século passado, começando por fazer correr rios de tinta na imprensa regional e nacional nos anos que se seguiram à revolução dos cravos e tendo vindo, nestes últimos anos, a ser cada vez mais mediatizada e a constituir motivo de fascínio por parte das novas gerações que a têm feito passar nos meios de comunicação social nas mais variadas formas, que vão desde as interessantes versões romanceadas de Felícia Cabrita até às reportagens de Sandra Invêncio e de Gabriela Marujo, as souberam explorar, literária e jornalisticamente, as memórias e lamentações dos seus antigos habitantes e expõem toda a verdade nua e crua da história desta «aldeia fantasma».

Acto Primeiro – Lendas e Narrativas

António Bordalo, 72 anos esgalhados na terra, tenta esquivar-se a uma velha maleita que se lhe encostou à alma. As pernas escanzeladas descobrem a força e a agilidade do antigo pastor e cortam o silvedo como lanças.
A espreitar do vale, o campanário da igreja paroquial do Colmeal dá sainete à serra. António estaca, no olhar o desconcerto, na boca mil maldições. Deus noutro tempo não sabia o que fazia. A porta do templo saiu dos gonzos, o telhado ruiu e o sino, que tinha escapado às invasões francesas, voou com alguma dança macabra. O velho procurava em volta vestígios do cemitério que as silvas escondem, entra na igreja, tropeça. As pedras de granito das sepulturas foram levantadas, crânios estilhaçados e ossos cortam-lhe os passos. Abre a porta da sacristia que dá para o cemitério, arbustos encorpados como gente, onde os bichos daninhos se acoitam, impedem a passagem, e ele quebra cego na dor: «Bandidos, ladrões, que aqui tenho meus avós, minha mãe, meu sangue».
António atravessa a aldeia fantasma à procura de velhas lembranças. O telhado da sua antiga casa tombou e à porta uma mata densa impede-lhe a entrada. No solar de Pedro Álvares Cabral, os frescos nas paredes despedaçadas, e a pedra de armas ainda resistem ao logro do tempo. As vacas são agora as senhoras da casa fidalga, nos antigos salões rompem com os velhos moldes feudais aliviando aliviando a tripa e protegem-se do sol implacável de Julho.
Sentado na escadaria, o velho solta a memória, alegrias e tristezas, lendas e medos de gente da serra, habitantes de uma aldeia com passado que teve o nome assente nos cronicões. Ali tinham nascido e morrido seus antepassados, avós lusos e iberos. O pai era lavrador e tinha de seu uma junta de bois e muitas colmeias. Viviam apenas da lavoura e quando não havia agricultura iam à jeira para terras de famílias abastadas. A água não faltava nas hortas e pomares, e as frutas e as hortaliças do Colmeal eram muito cobiçadas. Mas quando se aproximava Maio, antes das colheitas, não sobrava trigo para trocar por sardinha ou rabos de bacalhau, e os mais pobres não tinham outro passadio que não fosse pão com azedas que cresciam nas paredes.
Ia o século a dar os primeiros acordes e António, mal completara 7 anos, começou a galgar a serra com o rebanho do feitor. José Feliciano era bom homem, e ainda ia longe o tempo dos desacertos. Calçou-o, foram os primeiros sapatos que conheceu, com tamancos de pau ferrados. Dava-lhe a merenda e ao fim do ano oferecia-lhe um animal. António não pedia mais à sorte, que isso era quase pecado, e aos poucos conseguia uma cabrada. O rapaz andava com o rebanho à folha pela serra, sem quebranto. Um pau de choupo servia de arma contra os lobos e para vergar o fole a quem não viesse por bem. Pelava-se para abater o lobo ou a raposa e mostrava-se depois de povo em povo, a fazer gala da presa e a arrecadar ovos e farinha pelo serviço prestado aos galinheiros. Mas quando se aproximava Junho arrepelava-se se tinha que passar pela Cova da Moura, uma sepultura do tempo da moirama, encerrada numa fraga. Mantinham velhos pastores, que passavam dias e noites a cismar naqueles serros que arranhavam o céu, que a moura saía do seu encanto pela festa de S. João, e à noitinha estendia a sua roupa à orvalhada para não ganhar traça. As mulheres, a quem a natureza tinha concedido a fraqueza, quando vinham da ceifa não olhavam para trás para não caírem no feitiço. António com coisas dessa natureza nunca mofou, e era certo que depois da meia-noite baixava as trancas para se defender do andaço dos lobisomens que batiam às aldrabas a ver se pegava, e deitavam coices às portas.
Ao domingo abandonavam os sachos e as gadanhas, era dia de folgança. De manhã Padre Seixas, mais conhecido por Cieiro, mercê da comparação que o povo fazia entre ele e o vento nordeste, violento e frio, celebrava; ainda a missa era cantada. A igreja estava apinhada de povo, muito afeiçoado às coisas de Deus. O santo predilecto era o Pai eterno, que tinha uma bola na mão, representação do mundo. E eles andavam sempre muito alinhados com as leis divinas para não desfeitarem o santo, porque sabiam que se o globo caísse se afundava o mundo.
Mal a noite se punha, os rapazes faziam a ronda pelo povo, tocando concertina. As moças casadoiras juntavam-se à volta da fogueira e o baile corria até de madrugada. Não havia bicho-careta dos arredores que faltasse à festa, vinham de machimbo ou a butes no engodo das raparigas que tinham fama de muito galantes. Felisbela já andava embeiçada por um rapaz, um ás da harmónica, e nunca faltava à dança. Só tinha três fardas para pôr no corpo, mas chegava para agradar. O pai tinha-a debaixo de olho com medo que o vento a emprenhasse e punha-se debaixo do lampião para não perder qualquer atrevimento do noivo. Era leve como as penas e alegrava a roda com a sua graça. O lenço caía e mostrava o cabelo entrançado, grosso e brilhante, a querer desprender-se do carrapito. Os moços de fora levavam rebuçados que ela não comia temendo alguma miscelânea que a metesse doida. Era amiga da pândega mas sem dar muito paleio para não cair nas bocas do mundo e casar com honra e crédito. As romãzeiras engalanavam a aldeia, e os mais velhos abancavam em pedras e compunham a festa com relatos de coisas antigas e os enigmas das origens. Colmeal pertencera ao reino de Leão mas com as rapsódias da história passou para a coroa portuguesa. As demandas com os espanhóis despovoaram os lugares da serra e D. Afonso V deu-lhe carta de Couto em 1540, era senhor desse povo João Gouveia. Com a morte do fidalgo andou aquela terra de senhor para senhor até acabar nas mãos de Pedro Álvares Cabral. Felisbela que não conhecia letra nem livro, sabia que a sua aldeia existia desde o início do mundo e, como toda a gente, em tudo punha milagres. Por isso pelava-se para ouvir Amadeu, o poeta da terra, que em tempos ia a Belmonte, por soutos e moitas, altos e baixos, entregar aos cabrais um braço de cebolas e umas tantas galinhas pelo foro do povo.

Amadeu mexia em verso no passado e trapaceava as crónicas.
Junto à fogueira com a garrafa de vinho à perna, o poeta contava à sua maneira o que já ouvira dizer a seus antepassados sobre a origem da aldeia. Era uma vez um pastor deste lugar que entrou em desassossego com um sonho que o perseguia. Alguém lhe dizia que fosse a Belém procurar o seu bem, e de tanto malucar com este mistério, um dia foi. Ao chegar à beira de uma fonte, encontrou um pastor negro que lhe deu a chave da mensagem. E ele partiu às pressas, para junto do seu gado que andava no pasto, e debaixo de umas lajes encontrou uma cabra e um chibo de ouro. Por ser homem de honra não se alapardou com o tesouro e foi ao palácio entregá-lo ao rei. O monarca, satisfeito com a oferenda, disse ao pastor que lhe satisfazia um desejo. E o homem pediu-lhe umas terras para amanhar, e pastos para as suas cabras, e assim nasceu o Colmeal.
Felisbela quando mirava o solar dos Cabrais não duvidava da lenda na pedra de armas gravada, uma cabra e um chibo.
Por Felícia Cabrita, Colmeal, Ecos da Marofa, edição de 10-05-2007
Imagens: http://www.cm-fcr.pt

Acto Segundo – A verdade nua e crua

Eram mais ou menos dez horas da manhã, quando os habitantes do Colmeal, concelho de Figueira de Castelo Rodrigo, foram surpreendidos por uma força da GNR que os expulsou de suas casas e lhes confiscou os seus pertences. Estava-se a 8 Julho de 1957. Quarenta anos volvidos no meio de todo o abandono a que ficou votado, e do elevado estado de degradação dos edifícios, o Colmeal serve de campo de pastagem dos animais daquele que se diz dono da aldeia. Mas há quem não esqueça esta injustiça.
«Andaram naquilo até à noite», lembra Albino Carvalho. Na altura, tinha pouco mais de trinta anos e a «vida arranjada». A tarefa era executada por «dois homens que traziam as coisas de casa para a rua», e, «como a gente era muita», foi necessário um dia inteiro. De certa forma, os habitantes do Colmeal sabiam que «algo de mal» lhes iria acontecer. Mas nunca pensaram numa sentença tão dura.
A história deste povo é de origem antiquíssima. O documento mais antigo que se conhece data do ano de 1183, quando D. Fernando II (Rei de Leão) se encontrava em Ciudad Rodrigo e doou o Colmeal, conjuntamente com outras povoações, à Ordem de São Julião do Pereiro. Uma doação confirmada pelo Papa Lúcio II em Abril do mesmo ano. Esta ordem teve a sua sede no lugar do Pereiro, onde ainda hoje se podem ver os vestígios perto de Cinco Vilas que faz fronteira com o Colmeal. Após o Tratado de Alcanices, os bens desta Ordem passam para a Ordem de Alcântara, em 1297, e as terras de Riba Côa são integradas na Coroa Portuguesa. As disputas com os espanhóis despovoaram os lugares da serra, e D. Afonso V deu-lhe carta de Couto - terra que não pagava impostos por pertencer a um nobre, com o nome de Colmeal das Donas em 1540. Era senhorio deste povo João Gouveia.
Com a morte deste fidalgo o Colmeal das Donas passa a pertencer a Vasco Fernandes de Gouveia (1476), e, com a morte deste, a Fernão Álvares Cabral e D. Isabel de Gouveia. Pais de Pedro Álvares Cabral.
Mudanças sucessivas levaram a que a burguesia endinheirada, saída da República, se fosse apoderando dos domínios da nobreza. Os Condes de Belmonte não escaparam e venderam o foro do Colmeal das Donas. Os novos proprietários mantinham direitos que remontavam ao tempo das sesmarias, ao mesmo tempo que lavravam à pressa escrituras e delimitavam terrenos. As gentes do Colmeal por sua vez, habituadas à servidão, continuavam a pagar foro. Desta feita, aos feitores dos novos senhorios. «Aquilo não se fazia»
O triste fado da aldeia foi ditado no início da década de 40 com a chegada de um novo rendeiro, que subia as rendas a seu bel-prazer. Valores que atingiram níveis quase impossíveis de suportar. Durante anos os habitantes "mataram-se" a trabalhar para pagar as rendas. Albino Carvalho recorda esses tempos sem saudade, mas lá vai dizendo que, embora as terras «fossem más», «uns lavravam, outros tinham cabras, outros tinham vacas», e a agricultura lá ia dando para viver e pagar aos rendeiros.
Revoltados com a situação, os habitantes do Colmeal recusaram-se a pagar e, como resultado, tiveram de travar uma longa batalha jurídica que de nada lhes valeu. O processo começou com a acção de despejo para o caseiro da casa dos Cabrais, acusado de deixar de pagar renda ao senhorio, mas anos depois os aldeões passaram à categoria de subarrendatários do mesmo e tratados de igual modo. Por altura das colheitas dois oficiais da justiça chegaram com a sentença final. Uma acção de despejo. Estava-se no dia 8 de Julho de 1957.
A GNR apresentou-se fortemente armada para o acto de despejo. Enquanto os aldeões tentavam a sua sorte nos montes sobranceiros à aldeia, as mulheres e as crianças refugiavam-se na igreja. Nada impediu as autoridades de rebentarem com as portas das casas e levarem os poucos haveres desta gente simples.
«Andavam em demanda há muito tempo», na opinião de Albino Carvalho. Designadamente, de Rosa Quirino Cunha e Silva que queria ser dona de todo o Colmeal. Tanto que o seu advogado, Manuel Vilhena, conseguiu "ajeitar" as leis e transformou a aldeia - anterior à nacionalidade portuguesa -, numa quinta.
A única coisa que Albino e a sua família conseguiram salvar foi «algumas roupas». Como não podia regressar ao Colmeal, a terra que o viu nascer, Albino teve de recomeçar do zero noutro lado. A escolha recaiu sobre Bizarril, a terra natal da sua esposa, e uma das anexas que serviu de refúgio às gentes da aldeia despojada. «Arrendámos esta casita», conta Albino, onde ainda hoje vivem os dois, o sustento era garantido pela agricultura. A profissão que sempre conheceram. «Tempos difíceis». As dificuldades arranjaram-lhe uma doença a que ele chama «velhice», e que não o deixa deslocar-se com a mesma energia de antes. Tem apenas 72 anos, mas anda encostado a um pau como se a vida o tivesse deixado. Com lágrimas nos olhos, lembra o filho que deixou lá enterrado. «Disseram-me que o cemitério está num estado lastimável, que arrancaram as pedras», conta. Assim como lamenta que o actual proprietário «tenha vendido todos os santos da igreja, segundo me disseram, a um senhor de Trancoso».
Maria Matilde não nasceu naquela aldeia, mas foi lá crismada, e lembra-se bem da festa de S.Miguel. «Era uma grande festa. Toda a gente das aldeias vizinhas se deslocava ao Colmeal». Maria Matilde não fugiu à regra «e quase todos os anos ia à festa». Esta mulher natural de Bizarril não está de acordo com o que aconteceu aos habitantes da aldeia vizinha. «Aquilo não se fazia», afirma em tom revoltado. «Ainda me lembro que se via um guarda com uma metralhadora, além no cimo do monte». E reforça, «aquilo não se fazia»... «O Colmeal não é a quinta dada aos Quirinos».
Jerónimo Leitão proclama-se legítimo dono do Colmeal. «O Dr.Vilhena e o Dr.Crespo vieram ter comigo, e perguntaram-me se queria comprar aquela aldeia abandonada», recorda. Respondeu afirmativamente mas com uma condição: a compra ser feita pelos três. Assim foi. Os donos do Colmeal passavam a ser Manuel Vilhena, Miguel Crespo e Jerónimo Leitão. Entretanto, Vilhena vendeu a sua parte a este último, que passou a ser dono de cerca de mil hectares. Depois do 25 de Abril vendeu «400 hectares à Portucel», e arrendou, «por 25 anos, as partes mais altas da serra [Marofa] à Soporcel».
«Fizemos tudo para a recuperar», garante Jerónimo Leitão, «mas já naquela altura estava degradada». O espaço foi então aproveitado para uma exploração agrícola, a ser aumentada futuramente. «Vou proceder à recuperação de lameiros para as vacas», adianta. Quanto à venda do recheio da igreja, argumenta que «comprei, por isso é meu. Tenho toda a legitimidade de fazer o que achar melhor».
Quem não se conforma é Aires Cruz, descendente e criado na aldeia do Colmeal, e um dos expulsos, que afirma que «está provado que o Colmeal é uma aldeia e não uma quinta». «A aldeia tem uma Igreja Matriz [em 1320/21, no arrolamento que D. Dinis mandou elaborar estava mencionada a Igreja do Colmeal], uma casa da Junta da Paróquia, um Paçal com adro, um cemitério e ruas públicas», isto, garante, «provado e documentado». «Uma quinta não pode ter Paçal, Junta da Paróquia, nem cemitério público, onde os enterramentos datam de meados do século XVII». Resumindo, «existe uma aldeia, que é a aldeia do Colmeal, e cujas confrontações estão bem definidas, porque são de todos conhecidas». No entanto, prossegue, «existe uma quinta, não se sabe onde, mas que não pode ser a quinta que a justiça deu de facto aos Quirinos». Essa é a grande questão para Aires Cruz: «O Colmeal não é a quinta que foi dada aos Quirinos».
Este interesse desmesurado, em sua opinião, tinha a ver com a abundância de água. Um autêntico «manancial que dava aos camponeses uma situação de estabilidade». Tanto que levou os interessados a fazer os registos pela calada. Opção acertada já que os habitantes «não tinham argumentos nem quem os defendesse». Estavam por conta própria na medida em que nem o então presidente da câmara, Porfírio Augusto Junqueiro, os defendeu quando foram chamados a tribunal. Nunca saberemos o que esteve por detrás da atitude do presidente, mas, nas palavras da viúva, Mercedes Junqueiro, poderá ter a ver com questões legais. «Seria possível ao presidente da câmara opôr-se a uma lei emitida pelo Tribunal?», pergunta. O facto é que existiam registos de propriedades, e garantias orais de pertença de terrenos. E a decisão tombou a favor daqueles que tinham os registos. Mas Mercedes Junqueiro garante que a decisão não foi tomada «friamente». Foi uma decisão «demorada e dolorosa». E finaliza, «eu e o meu marido tivemos muita mágoa pelo povo do Colmeal».

À espera de respostas concretas

Após o 25 de Abril o processo foi reaberto, as pessoas foram ouvidas no Tribunal de Figueira, por um desembargador vindo de Coimbra, e ficou decidido que poderiam regressar às suas casas e terras, ficando a parte do Pradinho para a actual quinta. Uma decisão publicada em edital nas várias aldeias do concelho. Aires Cruz ainda se lembra desse edital estar afixado em Freixeda do Torrão e no Bizarril, e de ter recebido posteriormente «um exemplar em Angola», que deixou na casa que teve de abandonar devido à Guerra Civil.
O Governador Civil da Guarda na altura era Manuel Cardoso Vilhena. A 4 de Janeiro de 1989, Fernando Carrilho Martins, então autarca de Figueira, publicava um edital onde tornava público que, «nos termos do Decreto-Lei nº 205/88, de 16 de Junho último, e por força do disposto no artigo 2º da mesma disposição legal, a partir deste data, adaptação ou alteração dos bens imóveis classificados ou em vias de classificação e das respectivas zonas espaciais de protecção têm de ser assinadas por arquitectos». Da lista de bens imóveis que se encontravam classificados, constava a Povoação do Colmeal como imóvel com valor concelhio.
Em 1993, Aires Cruz apresentou o caso ao Procurador-Geral da República e demais autoridades, onde não pôde deixar de se mostrar indignado com todo este processo e acusa as autoridades judiciais de «não saberem, ou não quererem ver que estavam a praticar uma injustiça, em vez de aplicar a justiça». Até à data, e apesar de ter feito várias diligências, ainda não recebeu respostas concretas, e aguarda que seja feita «justiça a uma aldeia antiquíssima».
Fonte: Gabriela Marujo, Os despojos do dia, Terras da Beira, edição de 9-10-1997
Imagem: http://www.novaaguia.blogspot.com

Acto Terceiro – As perspectivas de regresso

Da casa onde Jacinta Carvalho nasceu e viveu até aos 21 anos já só resta parte das paredes exteriores. A aldeia fantasma do Colmeal é toda ela ruína, da igreja que já perdeu o telhado àquele que terá sido um imponente solar, no extremo oposto. «Esta não é a minha terra», reage emocionada a idosa, que, no último sábado, visitou pela primeira vez a aldeia desde os acontecimentos daquela manhã de Julho de 1957 - em que os habitantes foram despejados por uma ordem judicial, num caso único nos anais da justiça portuguesa.
Jacinta Carvalho vive a uns 13 quilómetros do Colmeal, em Castelo Rodrigo, e conseguiu estar 52 anos sem voltar à sua terra natal. Por opção. A sua família, tal como as restantes 12 que aqui moravam em regime de foro, perdeu tudo. Confessa que lhe custa recordar o quanto o pai chorou naquele dia, em que a família se mudou para Castelo Rodrigo, para a casa onde morava já uma irmã, que entretanto ali tinha casado. Foi aqui que recomeçou a sua vida, que também casou e teve três filhos. Começa por responder com um «não sei porquê» quando questionada acerca dos motivos que a levaram a aceitar o convite de O INTERIOR para voltar à aldeia. E emociona-se novamente. Diz que não foi pela recente decisão da Assembleia Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo de criar um grupo de trabalho para averiguar do potencial turístico do Colmeal – baseado na sua história, nas potencialidades ambientais e ainda no facto de por aqui ter morado a mãe de Pedro Álvares Cabral – e nem tão pouco pela possibilidade de vir a recuperar a casa da família. «Para que a quero agora?», questiona.
Jacinta Carvalho não tem planos para a casa. «Não vim cá antes porque tinha medo de me sentir mal», confessa. Veio agora porque, a cada vez que respondia com um “não” aos sucessivos convites de familiares e outros ex-moradores, crescia a curiosidade em saber como estaria a sua pequena aldeia: «Olhe, já não aguentava mais», desabafa.
Jacinta Carvalho recorda-se bem do dia do despejo. Conta que foi a mãe que na véspera, numa ida a Figueira Castelo Rodrigo, soube que na manhã seguinte iriam ser despejados. Tudo porque o feitor subarrendatário não pagava a renda há quatro anos àquela que era, de acordo com uma escritura de 1912, a nova e legítima proprietária dos terrenos dos herdeiros dos condes de Belmonte. A mãe da então jovem Jacinta Carvalho apressou-se a regressar à terra para avisar os aldeões. Na altura, Jacinta Carvalho era já a única de seis irmãos a residir ali com os pais. «Tínhamos uma boa seara nesse ano e então passámos a noite toda a tentar levar para Castelo Rodrigo o máximo que conseguíamos», recorda. Com o amanhecer veio o inevitável: 25 praças e três oficiais da GNR irromperam pela aldeia, entraram nas casas, retiraram os pertences dos moradores e colocaram-nos nas proximidades da Quinta Serra, a mais de um quilómetro. «Os nossos bens estavam misturados com os dos outros», conta. A família pegou nos seus pertences e rumou para Castelo Rodrigo. Outras permaneceram por ali até encontrarem um tecto.
«Um erro judicial, matricial e histórico»
Foi o caso de Aires Cruz, outro ex-habitante, que há 17 anos tenta perceber o que diz ter sido «um erro judicial, matricial e histórico». Tinha na altura 9 anos. «Foi muito complicado», lembra. A mãe era uma viúva com cinco filhos para sustentar. A família acabou por fixar-se em Freixeda do Torrão. Agora, Aires Cruz mostra-se algo céptico em relação às recém-anunciadas intenções da autarquia, mas diz que são «boas notícias» e que «já é tempo de ser feita justiça». O antigo residente do Colmeal tem mesmo uma monografia para publicar no próximo ano, onde diz provar que se tratou «de uma apropriação de terras indevida». O Colmeal é sede de freguesia e está provado documentalmente que é paróquia, desde 1940, refere Aires Cruz. «O documento nunca foi apresentado em tribunal, que considerou erradamente o Colmeal como quinta», sustenta. O resultado das suas investigações já o levou mesmo a escrever ao Presidente da República, Procurador-Geral da República e presidente do Supremo Tribunal de Justiça, entre outros. Aires Cruz diz esperar agora que a autarquia não se fique pelas intenções.
Fonte: Sandra Invêncio, De regresso ao Colmeal, 52 anos depois, Interior, edição de 21-05-2009
Imagem: Id.


Update... quase tudo na mesma!

“Da igreja restam as colunas, o arco e pedaços de parede. Os proprietários cederam-na à paróquia no ano passado, entregando algumas imagens que se julgavam desaparecidas.
Quando chegou à presidência da câmara, há seis anos, António Edmundo contactou os proprietários das terras. Falou «com o pai e com o filho, e nada». Já vai na «terceira geração» e espera agora que o neto resolva a situação. 
«Ainda há quatro ou cinco famílias vivas» de antigos habitantes e cada uma devia ter a oportunidade de recuperar a sua casa ou de a transformar para acolher os turistas que ali se deslocassem, e a casa dos Cabral seria o local colectivo, para reuniões, bar, restaurante – foi este o desafio que o autarca lançou ao actual proprietário, mas a ideia «praticamente não avançou», lamenta. 
«Há muita confusão à volta do processo», que chegou a ser estudado por uma comissão na assembleia municipal – mas «que não fez nada praticamente». A autarquia gostava de ver o passado posto de lado «antes que se perca aquilo tudo».
«Turismo de aldeia» era o que António Edmundo gostava de ver nascer no local e até já apresentou um plano de viabilidade ao actual dono – que devia, na sua opinião, recorrer a fundos comunitários. A autarquia assumiria a recuperação da capela, a chegada de água e energia à aldeia, os arruamentos. 
António Edmundo até já aproveitou os fundos comunitários para caminhos rurais e fez uma estrada em paralelo até Colmeal, num projecto que custou 89 mil euros (comparticipado em 66 mil pela União Europeia). A estrada termina onde as ruínas começam.
In http://www.cafeportugal.net, sábado, 9 de Julho de 2011

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma inesquecível história de Natal – “Noite Feliz na terra de ninguém”

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Quem já viu o filme “Joyeux Noel” conhece esta história. Os factos reais que aqui vamos recordar, citando Bruno Leuzinger, inspiraram a realização do filme assim intitulado, uma produção francesa, germânica, britânica, belga e romena dirigida e roteirizada em 2005 por Christian Carion, que foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro no 78.º Academy Awards. Dele apresentamos um trailer no final deste post.

Noite feliz na terra de ninguém: Natal de 1914
por Bruno Leuzinger

No Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol.
Finalmente parou de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada.
E de repente o silêncio é quebrado. Das trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio retorna. Por pouco tempo.
“Good, old Fritz!”, gritam os britânicos. Os “Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não”).
Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental – que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes. É o que diz o jornalista alemão Michael Jürgs em seu livro Der Kleine Frieden im Grossen Krieg – Westfront 1914: Als Deutsche, Franzosen und Briten Gemeinsam Weihnachten Feierten (“A Pequena Paz na Grande Guerra – Frente Ocidental 1914: Quando Alemães, Franceses e Britânicos Celebraram Juntos o Natal”, inédito no Brasil).
Conhecido então como Grande Guerra (pouca gente imaginava que uma segunda como aquela seria possível), o conflito estourou após a morte do arquiduque Francisco Ferdinando. Herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, ele e sua esposa Sofia foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, no dia 28 de junho. O atentado, cometido por um estudante, fora tramado por um membro do governo sérvio. Um mês mais tarde, em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. As nações européias se dividiram. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Nas semanas seguintes, os alemães invadiram a Bélgica, que até então se mantivera neutra, e, ainda em agosto, atravessaram a fronteira com a França. Chegaram perto de tomar Paris, mas os franceses os detiveram, em setembro.
Nos primeiros meses, a propaganda militar conseguiu inflar o orgulho dos soldados – de lado a lado. O fervor patriótico crescia paralelamente ao ódio pelos inimigos. Entretanto, em dezembro o moral das tropas já despencara. A guerra se arrastava havia quase um semestre. Os britânicos haviam perdido 160 mil homens até então; Alemanha e França, 300 mil cada. Para piorar, as condições nas trincheiras eram péssimas. O odor beirava o insuportável, devido às latrinas descobertas e aos corpos em decomposição. Estirados pela terra de ninguém, cadáveres atraíam ratazanas aos milhares. Era um verdadeiro banquete. Com tanta carne, elas engordavam tanto que algumas eram confundidas com gatos. Pior que as ratazanas, só os piolhos. Milhões deles, nos cabelos, barbas, uniformes. Em toda parte.
Quando chovia forte, a água batia na altura dos joelhos. Dormia-se em buracos escavados na parede e era comum acordar assustado no meio da noite, por causa das explosões ou de uma ratazana mordiscando seu rosto. Durante o dia, quem levantasse a cabeça sobre o parapeito era um homem morto. Os franco-atiradores estavam sempre à espreita (no final da tarde, praticavam tiro ao alvo no inimigo e, quando acertavam, diziam que era um “beijo de boa-noite”). O soldado entrincheirado passava longos períodos sem ter o que fazer. Horas e horas de tédio sentado no inferno. Só restava esperar e olhar para céu – onde não havia ratazanas nem cadáveres.
O cotidiano de horrores foi minando a vontade de lutar. Uma semana antes do Natal já havia sinais disso. Foi assim em Armentières, na França, perto da fronteira com a Bélgica. Soldados alemães arremessaram um pacote para a trincheira britânica. Cuidadosamente embalado, trazia um bolo de chocolate e dentro, escondido, um bilhete. Os alemães pediam um cessar-fogo naquela noite, entre 19h30 e 20h30. Era aniversário do capitão deles e queriam surpreendê-lo com uma serenata. O bolo era uma demonstração de boa vontade. Os britânicos concordaram e, na hora da festa inimiga, sentaram no parapeito para apreciar a música. Aplaudidos pelos rivais, os alemães anunciaram o encerramento da serenata – e da trégua – com tiros para cima. Em meio à barbárie, esses pequenos gestos de cordialidade significavam muito.
Ainda assim, era difícil imaginar o que estava por vir. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem, um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.
No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal. O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.
Aquela situação por si só já era inusitada: alemães e britânicos cavando e rezando juntos. Mas o que se viu depois foi um desfile de cenas surreais. Em Wez Macquart, França, um britânico cortava os cabelos de qualquer um – aliado ou inimigo – em troca de alguns cigarros. Em Neuve Chapelle, também na França, os soldados indicavam discretamente para seus novos amigos a localização das minas subterrâneas. Em Pervize, na Bélgica, homens que na véspera tentavam se matar agora trocavam presentes: tabaco, vinho, carne enlatada, sabonete. Uns disputavam corridas de bicicleta, outros caçavam coelhos. Uma luta de boxe entre um escocês e um alemão foi interrompida antes que os dois se matassem. Alguém sugeriu um duelo de pistolas entre um alemão e um inglês, mas a idéia foi rechaçada – afinal, aquilo era um cessar-fogo.
Porém, o melhor estava por vir. Nos dias 25 e 26, foram organizadas animadas partidas de futebol. Centenas jogaram bola nos campos de batalha. “Bola” em muitos casos era força de expressão; podia ser apenas um monte de palha amarrado com arame, ou uma lata de conserva vazia. E, no lugar de traves, capacetes, tocos de madeira ou o que estivesse à mão. Foi assim em Wulvergem, na Bélgica, onde o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2. A vitória suada foi cercada de polêmica: o terceiro gol alemão teria sido marcado em posição irregular (o atacante estava impedido) e a partida, encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.
A maioria das confraternizações se deu nos 50 quilômetros entre Diksmuide (Bélgica) e Neuve Chapelle. Os soldados britânicos e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores – instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. O medo da morte e a saudade de casa eram compartilhados por todos. Já franceses e belgas eram menos afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era mais difícil apertar a mão do inimigo. Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em particular também ficou muito irritada com a situação. Lutando ao lado dos alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.
Naquele tempo, Hitler ainda não apitava nada. Entretanto, os homens que davam as cartas também não estavam nem um pouco felizes. Dos quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.
A trégua velada resistiu ainda por um tempo. Até março de 1915, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert, na França, faziam de conta que a guerra não existia – ficava cada um na sua. Mas a lembrança das confraternizações foi aos poucos cedendo espaço para o ódio. A carnificina recrudesceu, prosseguindo até a rendição da Alemanha, em novembro de 1918, arrasando a Europa e deixando cerca de 10 milhões de mortos. Talvez a matança até valesse a pena, se a profecia do escritor de ficção científica H.G. Wells tivesse dado certo. O autor de A Máquina do Tempo escrevera em um ensaio que aquela seria “a guerra que acabaria com todas as guerras”. Wells, é claro, estava enganado. Os momentos de paz, como os do Natal de 1914, seriam escassos também ao longo de todo o século 20. A Grande Guerra tinha sido só o começo.

In Aventuras da História - http://historia.abril.com.br
Reedição de 22-12-2009 in http://www.historiadigital.org

Joyeux Noel

terça-feira, 30 de novembro de 2010

CARTA DE D. CATARINA DE BRAGANÇA AO SEU ESPOSO

Na exposição sobre os portugueses na Royal Society (fundada em 1660 e com carta régia desde 1662), que está patente na Biblioteca Joanina em Coimbra é exibido o original de uma carta da rainha Catarina de Bragança ao seu esposo, Carlos II de Inglaterra, datado de 1661, quando a rainha, casada à distância, ainda não tinha ido para Inglaterra.
Curiosamente, a jornalista e escritora Isabel Stilwell, incorpora parte do texto dessa carta na sua biografia romanceada "Catarina de Bragança. A coragem de uma infanta portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra", Esfera dos Livros, 1ª edição, 2008. Lê-se na p. 257:

"Meu caro marido e senhor meu,
Se o contentamento de me ver com carta de Vossa Magestade pudesse ser satisfação igual da pena que me havia custado a falta dela, não seria necessário dizer-lhe a estimação que dela fiz, bem como a alegria com que festejei a chegada de quem ma trouxe.

(...) Mas quererá Deus trazer a armada breve e levar-me à vossa presença, pois só ver-vos apaziguará as minhas saudades. Entretanto, rogo que Ele vos dê prosperidade, como aquela de que depende toda a minha felicidade.
De Vossa Magestade
Sua mulher que mais o ama e sua mãos beija
Catarina R."


A carta foi escrita pela mão da rainha em português porque ela não sabia inglês assim como o marido não sabia português. A armada inglesa veio buscá-la a Lisboa (uma magnífica gravura mostra, na exposição, a exuberância do cortejo), mas o marido não foi recebê-la a Portsmouth, mandando antes o irmão. O casamento, como é sabido, correu mal...

Fonte: http://dererummundi.blogspot.com/

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Sacadura Cabral desapareceu no Mar do Norte há 86 anos

Artur de Sacadura Freire Cabral (Celorico da Beira, 23-04-1881 - Mar do Norte, 14-11-1924)

Já nos havíamos reportado a esta singular figura da História da Aviação em Portugal no post que publicámos a 17 de Junho do corrente ano, intitulado “A primeira travessia aérea do Atlântico Sul”, nesta mesma categoria da “Aviação na História [Nacional]”, que foi um dos seus maiores feitos, juntamente com Gago Coutinho. Decorridos 86 anos da sua trágica morte e do mecânico que o acompanhava, Pinto Correia, algures no Mar do Norte aos comandos de um Fokker T III W, é tempo para deixarmos aqui mais umas palavras em sua memória, subscrevendo o sentido discurso de homenagem que Jorge Estrela lhe dedicou no seu blogue “Phalerae” há quase dois anos, bem como a ilustração e caracterização de um aparelho aeronáutico semelhante ao que foi referido publicados por Miguel Amaral no blogue colectivo “Templar Squadron” a 7 de Julho passado.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

439.º Aniversário da Batalha de Lepanto


A batalha de Lepanto
Travou-se esta famosa batalha naval no dia 7 de Outubro de 1571, no Golfo de Patras, Mar Jónico, entre uma poderosa esquadra da Liga Santa, comandada por D. João de Áustria e constituída por navios cristãos da República de Veneza, Reino de Espanha, Cavaleiros de Malta e Estados Pontifícios, e uma armada Turca sob o comando de Ali Pashá. É considerada como o maior confronto naval disputado no Mediterrâneo depois da batalha de Actium, travada em 31 Antes de Cristo durante a guerra civil romana que opôs as frotas de Octávio e Marco António. Sucedida a batalha de Lepanto por instâncias da República de Veneza junto do Papa Pio V, sob pretexto de que os otomanos haviam invadido a ilha de Chipre que se encontrava sob domínio veneziano, de imediato o Sumo Pontífice reuniu a referida esquadra, envolvendo os estados cristãos atrás mencionados. Terminou a batalha com uma clara vitória da Liga Santa, vitória essa que representou o fim da expansão islâmica no Mediterrâneo. Encontrando-se Portugal sob o domínio da dinastia filipina, participaram na batalha também portugueses, pelo se trata de uma data comemorativa igualmente portuguesa. Aliás, a Batalha de Lepanto deixou duráveis marcas na tradição oral portuguesa, sobretudo entre a população da costa algarvia.

Existe um estudo muito interessante acerca da Batalha de Lepanto, segundo a tradição oral portuguesa e a versão d’ “O Romanceiro do Algarve de Estácio da Veiga – II”, publicado na revista cultural do Algarve, al gharb, a 8 de Setembro de 2003.

Para conhecer alguns pormenores de interesse historiográfico sobre a Batalha, clique AQUI.

Imagem: http://pt.wikipedia.org Categoria: Batalhas navais