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domingo, 15 de abril de 2012

166.º Aniversário do início da Revolta de Maria da Fonte

Por Leonel Salvado

clique na imagem para melhor observação

A revolta da Maria da Fonte é um dos mais recordados temas da História Nacional protagonizados por figuras femininas, mas também um dos mais controversos relativamente ao significado real deste nome. O significado mais enraizado no imaginário colectivo é o que se pode encontrar, por exemplo, na Wikipédia, a enciclopédia livre, apresentado nos seguintes termos:

«Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, é o nome dado a uma revolta popular ocorrida na primavera de 1846 contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral. A revolta resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas. Iniciou-se na zona de Póvoa de Lanhoso (Minho) por uma sublevação popular que se foi progressivamente estendendo a todo o norte de Portugal. A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte.»

Carlos Leite Ribeiro publicou no “Portal CEN – CÁ ESTAMOS NÓS” um trabalho de pesquisa deveras interessante sobre a Revolta da Maria da Fonte intitulado “Dia Maria da Fonte – 15 de Abril”. Ainda que, mesmo à luz de uma atitude historiográfica de sentido crítico, isenta e desmistificadora, não subsistam motivos suficientes para esvaziar este movimento revolucionário, que se alastrou um pouco por todo o país (sete meses depois veio a repercutir-se na nossa região de Valpaços), da crença sustentada no imaginário popular segundo a qual ele foi preponderantemente protagonizado por algumas arrojadas mulheres do Norte, o autor apresenta-nos uma análise e uma interpretação bastante aceitáveis da “Revolta da Maria da Fonte” claramente fundadas no cruzamento e na ponderação dos dados de informação que recolheu em fontes diversificadas (ver Bibliografia consultada pelo autor no final do presente post).
Para melhor percepção do trabalho deste autor, entendi dividir o respectivo teor em quatro partes:

A REALIDADE E O MITO (NA VERSÃO ROMANCEADA DE CAMILO CASTELO BRANCO)
«Ainda hoje, o Hino da Maria da Fonte continua a ser a música com que se saúdam os ministros portugueses, sendo utilizado em cerimónias cívicas e militares. (Mas não é o Hino Nacional Português). O maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte.

Revolta da Maria da Fonte
Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. A causa imediata da revolta foram umas questões de recrutamento, e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, em que desempenhou um papel irrequieto e activo uma desembaraçada mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, conhecida pelo nome de Maria da Fonte. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino.
A rainha D. Maria II, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas, quando, julgou que abrandara assim a revolução, e que o duque da Terceira, que nomeara seu lugar-tenente nas províncias do norte do país, poderia reprimir as indignações do povo e estabelecer ali a paz, deu o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846, e sem nomear Costa Cabral, formou um ministério pronunciadamente cartista, presidido pelo marechal Saldanha. Esta notícia foi transmitida ao Porto pelo administrador de Vila Franca, e excitou a cólera dos portuenses. Rebentou então a revolta com espantosa energia, o duque da Terceira foi preso, e nomeou-se uma junta provisória, cuja presidência se deu ao conde das Antas e a vice-presidência a José da Silva Passos, que era a alma da revolta, e irmão do grande ministro progressista Manuel da Silva Passos. O visconde de Sá da Bandeira apareceu no Porto, aderindo à revolução. A Junta do Porto é verdade que legislava em nome da rainha, e fazia-lhe manifestações de dedicação, mas o espírito popular estava sendo nessa ocasião bem pouco simpático à soberana, que desta vez tomara a iniciativa da contra-revolução, dando o golpe de Estado de 6 de Outubro. O Espectro, jornal redigido por António Rodrigues Sampaio, e que se publicava em Lisboa, sem que a polícia conseguisse descobrir a imprensa que o imprimia nem os seus redactores, atacou pessoalmente a rainha pela sua intervenção nefasta na política partidária.
A Junta do Porto, apesar de dispor de vastíssimos recursos, não era feliz, por causa da imperícia dos seus generais. Sá da Bandeira era batido em Vale Passos [VALPAÇOS] pelo barão do Casal; o conde de Bonfim era completamente batido em Torres Vedras pelo marechal Saldanha, em Dezembro de 1846, batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. Ainda assim a insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira. Uma esquadra inglesa aprisionou a esquadra da Junta com a divisão do conde das Antas que ia a bordo, e um exército espanhol, do comando de D. Manuel Concha, foi ocupar o Porto. Ao mesmo tempo as tropas da Junta, comandadas pelo visconde de Sá da Bandeira, eram batidas no Alto do Viso pelo general Vinhais. A convenção de Gramido. de 30 de Junho de 1847, pôs fim a essa terrível insurreição, que tanto assustara a rainha, que nem sempre mostrou com os vencidos a clemência que se poderia esperar da sua generosidade. A revolução da Maria da Fonte é um dos episódios mais importantes da nossa história política do século passado. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que se tornaram muito populares, como os dois irmãos Passos, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho, etc.
Maria da Fonte - por Mário Casa Nova Martins (Alameda Digital)

A Revolução do Minho em 1846, mais conhecida pela Revolução da Maria da Fonte, pode ser inicialmente identificada como uma revolta contra as chamadas «Leis de Saúde», mais concretamente contra a lei que proibia os enterramentos nas Igrejas, obrigando que os defuntos fossem sepultados em cemitérios. Mas, a par da oposição às «Leis de Saúde» estava a luta contra o aumento dos impostos decretado pelo Governo, traduzido na destruição das “bilhetas”, que eram os boletins das contribuições.
Também, a oportunidade da Restauração de D. Miguel. E, com o alastrar da revolta a outros pontos do País, a união de Cartistas, Miguelistas e Setembristas leva a que os Cabrais se vejam obrigados a abandonar Portugal. A Revolução da Maria da Fonte teve, portanto, consequências políticas muito para além do que os seus promotores alguma vez pensaram.

“Começara o ano de 1846 docemente reclinado nos fagueiros braços da mais bonançosa paz. A agricultura prosperava, o comércio desenvolvia-se, as artes floresciam, o crédito público aumentava, a viação começava os seus primeiros ensaios e as contribuições não escaldavam ”(1). Mas o Minho profundo, aquele Minho mais conservador e mais tradicional, estava a movimentar-se, primeiro em surdina, e depois pelos actos contra a proibição de enterrarem os seus mortos nas Igrejas. Contra as autoridades vão fazê-lo, em Março na freguesia de Garfe, antes na freguesia de Travassós, concelho de Guimarães, nos primeiros dias de Abril na freguesia de Fonte Arcada, e, quase no fim desse mês, no lugar de Simões. Estes acontecimentos eram protagonizados por mulheres, armadas “umas de chuços, outras de ferrelhas e pás de enfonar, muitas com choupas e sacholas, algumas com forcados e espetos” (2), que levavam o esquife, não permitindo a presença de homens.
As autoridades participavam estes atropelos à lei ao Governo Civil, mas não obtinham resposta. Somente a seguir ao caso em Simões é que foi emitida voz de prisão para Maria da Fonte e suas sequazes, que foram presas, à excepção da cabecilha que conseguiu fugir. “Na sexta-feira próxima em que havia confessores para a desobriga” (3), o juiz de direito, o delegado, o oficial de diligências e os adjuntos dirigiram-se ao lugar, e o povo começa a tocar os sinos a rebate, tendo as autoridades que fugir. “Foi então que apareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas ao cinturão, gritando: Vamos à cadeia tirar as presas! Viva o Senhor Dom Miguel!” (4). Chegados à Póvoa, são as presas libertadas, regressando a suas casas como heroínas. Entretanto, as autoridades enviam um destacamento de cinquenta praças do Regimento “8” para a Póvoa, que nada faz. Pouco tempo depois ocorre outro enterro, na freguesia de Galegos, onde Maria da Fonte e as suas companheiras voltam a aparecer.
 Agora, a toda a gente é permitido assistir, participando o Clero plenamente na cerimónia. Desta ocorrência, são presos um homem e uma mulher, mas, “ao passarem na serra do Carvalho, lá vão tirá-los à escolta os moradores das próximas freguesias de Ferreiros e Geraz” (5). Entre 15 e 16 de Abril a revolta assume proporções inesperadas, com o ataque a Guimarães conduzido pelo Padre José das Caldas, e o ataque a Braga pelas gentes do Prado. Ao mesmo tempo são queimados todos os papéis dos arquivos da administração. Maria da Fonte participa em todos estes actos.»

A DESMISTIFICAÇÃO DA “MARIA DA FONTE”
«É importante que uma qualquer altercação da ordem estabelecida tenha um nome, ou esteja personalizada numa pessoa que, por vezes, se torne de difícil identificação. O imaginário popular necessita destas personagens, com as quais se tenta identificar, transformando-as em mitos. E, esses mitos passam de geração em geração, através da tradição oral, passando a fazer parte da história alternativa, o mundo da Tradição, enunciado por Julius Evola. A palavra “tradição” não tem, evidentemente, a mesma ressonância ou a mesma significação para todos os espíritos. De entre aqueles que se lhe referem, alguns pretendem falar da tradição cristã, outros da tradição europeia, fazendo, assim, alusão a correntes que estiveram associadas durante séculos, depois de terem nascido separadas, e que hoje, de novo, tendem em separar-se. Outros falam, ainda, de uma Tradição esotérica, que não é mais do que o fruto da sua imaginação e da sua credibilidade.
Tradição é a estrutura específica, reflexo de um esquema mental particular, no qual se foram inscrevendo, no decurso dos tempos, as diversas formas sócio-culturais da cultura dominante, e principalmente as tradições, isto é, o conjunto de hábitos e ritos consuetudinários característicos desta cultura (6).
O mito, a lenda ou a saga estão desprovidos de verdade histórica e de força demonstrativa e adquirem, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro (7).
A Padeira de Aljubarrota, o Manuelinho de Évora e a Maria da Fonte são exemplos de personagens ligadas ao povo e que representam ainda hoje a simbologia contra o invasor, o despotismo fiscal, ou contra o poder central do Estado. Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, matou depois da batalha, sete castelhanos fugitivos com uma pá, cujos restos ainda existem, permitindo prolongar no tempo a ideia da bravura das mulheres portugueses contra os invasores castelhanos, e, mais tarde, franceses (8). A revolta do povo de Évora, em 1637, contra um novo imposto, durante a ocupação castelhana, conduziu à tomada da cidade, constituindo-se um poder efectivo, conquanto clandestino, de características perturbantes à face da lei e dos costumes, que endereçava a responsabilidade das suas proclamações e provisões ao Manuelinho, doido muito conhecido e popular em Évora (9).
Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda? Efectivamente, os seus contemporâneos distribuíram os atributos da personagem por diferentes mulheres, de diferentes lugares. Uma é apresentada como irmã de um sapateiro de Simões, da freguesia de Fonte Arcada, de nome Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Póvoa de Lanhoso (10). Outra, era uma doceira de Valbom, nas vizinhanças de Lanhoso, que andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte (11). O jornal «Comércio de Portugal», de Lisboa, de 15 de Março de 1883, identificava Ana Maria Esteves, que teria, então, cinquenta e seis anos, nascida em São Tiago de Oliveira, Póvoa de Lanhoso, e casada com António Joaquim Lopes da Silva, como a Maria da Fonte (12). Finalmente, Maria da Fonte terá sido uma criança abandonada à beira da Fonte do Vide, no lugar do Barreiro, da freguesia de Fonte Arcada, que foi criada por Josefa Antunes, e que, por morte desta, passou a viver no lugar de Valbom, onde, finda a revolta, regressou, tendo posteriormente casado e partido, sem que mais se soubesse notícias dela (13).»

A PROGRESSÃO DO MOVIMENTO
«O baixo Clero desempenhou um papel determinante na Revolução do Minho, não só na disseminação da ideia, como na arregimentação do Povo para a guerrilha. De pouca cultura, mas com um forte sentimento quanto ao Sobrenatural e à Tradição, o Clero minhoto tinha como pastores espirituais homens rudes, integralmente dedicados ao Trono e ao Altar, como, entre muitos outros, os Padres João do Cano, José das Caldas, José da Lage, Manuel da Agra, e, o mais popular de todos, o Padre Casimiro. Padre Casimiro José Vieira, “Defensor das Cinco Chagas e General Comandante das Forças Populares do Minho e Trás-os-Montes”, nasceu no ano de 1817, em Vieira do Minho. Nas vésperas da Revolução da Maria da Fonte, “em Março de 1846 estudava retórica em Braga, habilitando-se para pregador. Era boa figura, tinha um lindo bigode preto, era muito pândego” (14). Profundo legitimista, de mero espectador da revolta popular, rapidamente passa à liderança daquelas gentes. “A força e a popularidade do Padre Casimiro residem, acima de tudo, na eficácia com que utilizou os parcos meios ao seu alcance. O principal desses meios foi, sem dúvida, o conhecimento do terreno. As subtilezas da psicologia não lhe são, também, desconhecidas. Totalmente consciente de que a sua guerra mais não poderia ser do que uma guerrilha de camponeses, mantém-lhe sempre o ritmo sincronizado pelo ritmo dos trabalhos agrícolas” (15).
“A principal tarefa que atribuía a si próprio era a defesa do Trono, na pessoa do Rei legítimo, D. Miguel I, e do Altar. A Igreja vivia uma época difícil no Portugal Liberal, e o sentimento profundamente religioso das gentes do Minho chocava-se com o que ia assistindo nas suas terras, e com as notícias que os almocreves e os pasquins lhes traziam das perseguições movidas pelos liberais. A propaganda liberal criou de D. Miguel I a imagem dos vencedores contra os vencidos, isto é, vencedores, atribuíram ao Rei legítimo um conjunto de adjectivos suezes, que não correspondiam à verdade daqueles tempos. O miguelista arquetípico definia-se, «depois da Convenção de Évora-Monte, simultaneamente saudoso do seu Rei e consciente dos erros e das imbecilidades dos poderosos que o cercavam e que o venderam como Cristo. Aí surge a figura de um outro D. Miguel I, bem diferente do usurpador caceteiro ou do campino da Vilafrancada, convencionalizados pela história, mas sim o Rei do povo miúdo, amado pelos soldados e pela arraia que se sacrifica na guerra sem saber perfeitamente o que era o liberalismo pedrista, a não ser uma vaga doutrina essencialmente anticatólica que os aterrava e punha em xeque todo um edifício de convicções multi-seculares” (16).
Padre Casimiro, tal como tantos outros Padres do Minho, é um convicto miguelista, e vai preparando as suas gentes e os seus guerrilheiros para a luta pela Restauração de D. Miguel I. “Decidido a restaurar D. Miguel I, adquiriu enorme prestígio entre as gentes simples dos campos e dos montes, foi incansável nos seus propósitos, fazendo frente aos destacamentos militares enviados de Braga para reduzirem à obediência os amotinados” (17). Chegou a controlar a área entre os rios Cávado e Ave, e a recrutar apoiantes em Trás-os-Montes. À facilidade com que enunciava os seus princípios, no Púlpito, ou aos povos que ia conquistando para a Causa, juntava-se a maneira popular, mas agradável, como escrevia nos diferentes periódicos do Norte, alimentando, com o exemplo e com a palavra, a missão a que se propusera, redentor de Portugal restaurando o Rei deposto.
A ligação entre D. Miguel I e o mito do miguelismo surge logo após o primeiro desterro para a Áustria, no seguimento da Abrilada, em 1824, onde D. João VI, por intervenção do Corpo Diplomático e perante as ameaças deste em abandonar Lisboa, ordena a sua exoneração de generalíssimo dos exércitos (18). «A mentalidade mítica, ao contrário do pensamento racional, apreende a realidade sócio-histórica como o resultado de esforços e de lutas de potências, que nas culturas sacras têm natureza santa e nas secularizadas natureza misteriosa, isto é, algo que não só não é explicado, como também não pode ser explicado racionalmente (19). Durante o tempo em que esteve ausente de Portugal, a política do Duque de Palmela mais fez crescer a saudade que, principalmente, o povo sentia de D. Miguel I. “A morte do controverso D. João VI daria pretexto, entre outras coisas, a que se começasse a falar do Infante, ‘cativo’ em Viena, como se fosse o “Desejado” e se exigisse o seu regresso” (20). Com o seu regresso, e durante o seu curto reinado, luzes, foguetes e festa rija foi o que mais houve em Portugal, além da profusão de procissões e de missas e Te Deum Laudamus em acção de graças (21). A principal característica do reinado de D. Miguel I foi a intensidade de actos religiosos, a pretexto de um qualquer acontecimento. Após Évora-Monte, e até à sua morte, o carácter religioso da sua vida evoluiu para um misticismo, no qual foi acompanhado pela Família Real no exílio. Em Portugal, em paralelo ao descalabro político-financeiro do País e ao aumento da repressão aos miguelistas, cresce o fervor e a saudade do “’Rei Exilado’, do “Rei Proscrito”, do ‘Rei Martyr’, ou, muito simplesmente, do ‘Desditoso’” (22). Ao tempo da Revolução do Minho, D. Miguel I era, para muitos, a última salvação para Portugal. Por todo o País se encontravam adeptos do Rei Legítimo, mas era, fundamentalmente, no Minho, berço da nacionalidade, que a saudade daqueles tempos se tornava mais aguda.
A Carta Constitucional de 1826 foi reposta no seguimento do golpe militar de 27 de Janeiro de 1842, dirigido, do Porto, por António Bernardo da Costa Cabral. Era o início do Cabralismo, e a esperança de uma ordem melhor, de conciliação nacional e de progresso. Todavia, pouco tempo duraram as esperanças do povo, que, em breve, se viu com uma nova e gravosa política fiscal, traduzida em novos impostos e empréstimos, enquanto a própria economia nacional era posta perante novos tratados de comércio e navegação ruinosos. No campo político, como resposta à grave situação social e financeira, dá-se a união da oposição ao Ministro do Reino, Costa Cabral, através de alianças, porventura contra-natura, dos Setembristas, Miguelistas e Cartistas dissidentes. Apresentavam um discurso comum na censura à administração económica, política fiscal, à organização administrativa e à estrutura municipal (23).
O Cartismo é a designação que se aplicou ao liberalismo moderado português, oposto ao extremismo Setembrista, triunfante em 1836. A doutrina política do Cartismo pretendia ser uma conciliação entre o poder real e a soberania da Nação, mas, sociologicamente, tinha a tendência para o imobilismo governativo e para o aristocratismo económico de tipo agrícola e comercial. A Carta Constitucional de 1826 foi outorgada ao País pelo Imperador do Brasil D. Pedro I, D. Pedro IV em Portugal, após a notícia da morte de D. João VI ter chegado ao Brasil (24). A Revolução de Setembro ocorre no dia 9 desse mês, com a chegada dos deputados oposicionistas nortenhos a Lisboa. À sua chegada foram recebidos, entusiasticamente, com “morras” à Carta e “vivas” à Constituição de 1822. O Governo Conservador do Duque da Terceira foi obrigado a demitir-se e a Rainha D. Maria II nomeia um Ministério favorável aos revoltosos, consumando-se a Revolução de Setembro. No aspecto ideológico, o Setembrismo teria sido a expressão política da tendência à inovação industrial contra as actividades nacionais rotineiras do alto comércio e dos grandes interesses agrícolas (25).
O ano de 1844 marca um crescendo na repressão cabralista. É a partir deste ano que começam a ocorrer tentativas revolucionárias em diferentes pontos do País, como o pronunciamento de Torres Novas a Almeida, a sublevação do Regimento de Infantaria “12” de Castelo Branco, e a revolta de estudantes da Universidade de Coimbra (26). As acusações a Costa Cabral de poder discricionário, no desrespeito das leis e voz do Parlamento, do coartar das liberdades públicas, tornando-se mais centralizador e oligárquico, iam subindo de tom, e foi necessário recorrer a processos menos limpos para vencer a oposição. “Recorrendo a todos os meios ao seu alcance, desde a máquina governativa à compra de influências, a firmeza do ministro acabaria por se impor aos adversários” (27). E, nas eleições de 1845 a oposição elegeu para a Câmara dos Deputados um número destes, que não inquietava o Governo.
O Decreto de 26 de Novembro de 1845, que reorganizava a saúde pública, curava dos serviços de sanidade no interior do Reino e dos portos de mar, ordenava que os enterros deviam fazer-se nos cemitérios, não era mais do que uma regulamentação do Decreto de 3 de Janeiro de 1837. Porém, veio acirrar mais o descontentamento contra Costa Cabral. É neste clima de protestos violentos, motins e agitação social, que se dão os acontecimentos de 19 de Março de 1846 na Aldeia de Santo André de Frades, Concelho de Póvoa de Lanhoso, marcando o início da Revolução do Minho. Para a combater “Costa Cabral nomeia seu irmão, José Bernardo da Silva Costa Cabral, ao tempo ministro da Justiça, comissário do Governo com ‘poderes extraordinários sobre todas as autoridades civis e militares da província do Minho, e as outras terras do Norte, em que possa rebentar a revolta, para exonerar de seus cargos e substituir como julgasse conveniente’” (28). Cognominado pela oposição como o “Rei do Norte”, José Cabral instalou um regime de terror, onde as prisões arbitrárias, os fuzilamentos e a confiscação de bens particulares eram a prática corrente. Ao mesmo tempo que esse clima de terror ia alastrando a diversas partes do País, começam a aparecer, primeiro por todo o Norte, depois na Beira e na Estremadura, Juntas Provisionais que faziam a apologia do direito à Liberdade do Povo, contra a Tirania. No Parlamento Almeida Garrett pede a demissão de Costa Cabral, e a Rainha D. Maria II, certa da impossibilidade de lutar contra o povo exonera o ministro odiado, que juntamente com o irmão, emigra para Espanha, dando fim à ditadura dos Cabrais.»

CONCLUSÃO
«A Revolução da Maria da Fonte foi uma revolução em que as Mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da acção. Os Miguelistas viram a sua crença ressuscitar, na esperança de um novo sebastianismo libertador. Os Cartistas livraram-se do ditador. Os Setembristas readquiriram forças para regressarem ao poder. O Povo continuou desiludido com o Liberalismo, que apenas favorecia a classe nova a que ele dera origem, os “barões” da alta burguesia.»

Bibliografia consultada
[1] Branco, Camilo Castelo - Maria da Fonte, pg. 22
[2] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 24
[3] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 26
[4] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 27
[5] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 28
[6] Benoist, Alain - Les Idées à L’ Endroit, pg. 115
[7] Benoist, Alain de - Nova Direita Nova Cultura, pg. 436
[8] Peres, Damião - História de Portugal, vol. II, pg. 391
[9) Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. II, pg. 491
[10] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 16
[11] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 17
[12] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 36
[13] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 30
[14] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg.48
[15] Casimiro, Padre - Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pg. 11
[16] Costa, Francisco de Paula Ferreira da - Memórias de um Miguelista, pg. 14
[17] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, Vol. I, pg. 519
[18] Serrão, Joaquim Veríssimo - História de Portugal, vol. VII, pg. 395
[19] Pelayo, Manuel Garcia - Los Mitos Políticos, pg. 18
[20] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - Miguelismo Ideologia e Mito, pg.264
[21] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 265
[22] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 286
[23] Mattoso, José - História de Portugal, vol. V, pg. 110
[24] Carvalho, Alberto Martins de - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 500
[25] Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. V, pg. 561
[26] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 104
[27] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 105
[28] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 183

sexta-feira, 29 de julho de 2011

831.º Aniversário da primeira vitória naval portuguesa com D. Fuas Roupinho - mito ou realidade?

Por Leonel Salvado
D. Fuas Roupinho, desenho de Jorge Miguel, do Album “Lendas da História de Portugal"

Esta data comemorativa envolve uma personagem lendária da História de Portugal cujos milagrosos e gloriosos feitos foram durante séculos sustentados apenas pela tradição oral e só vieram a ser registados por poetas e cronistas a partir do século XVI. Essa personagem foi D. Fuas Roupinho, alegadamente um arrojado cavaleiro da confiança de D. Afonso Henriques, em cujo reinado de destacou pelos seus actos de extraordinária bravura a que se deve o facto de, segundo a mesma tradição, ser considerado o primeiro comandante naval português protagonista da primeira vitória naval da Marinha portuguesa. Apesar de a sua real existência continuar a ser posta em causa, visto que o seu nome não é mencionado nos documentos coevos (reservando-se apenas, no "Livro de Linhagens do Conde D. Pedro", segundo Maria Fernanda E. G. da Silva - Dicionário de História de Portugal, dir. Joel Serrão, Liv. Figueirinhas, 1990, Vol.V, p. 395 - a existência, da alcunha de "Faroupim" atribuído a um tal de Fernão Gonçalves, nome que aparece frequentemente entre os confirmantes de doações de D. Afonso Henriques entre 1137 e 1183), alguns sucessos que lhe são atribuídos pela tradição afiguram-se para a maioria dos historiadores verosímeis, no contexto político e militar em que tiveram lugar, como é o caso, entre outros, da referida batalha naval que decorreu ao largo do cabo Espichel com aparatosa vantagem da armada cristã. Ainda que haja concordância relativamente ao ano de 1180, a data exacta apontada para tal sucesso também varia conforme os historiadores, sendo que para uns terá ocorrido a 15 de Julho, para outros a 16  de Junho (esta última subscrita por Joaquim Veríssimo Serrão - História de Portugal, Verbo, 1980, I Vol, p.104); para outros (como Maria Fernanda E. G. da Silva - estudo e lugar citados), o confronto terá sucedido a 29 de Julho, há exactamente 831 anos; para outros, ainda, em data imprecisa mas, seguramente, no Verão de 1180. Convém que se diga que, segundo o que de D. Fuas Roupinho referem os mencionados historiadores, o lendário cavaleiro já se houvera feito  notar vantajosamente em anteriores escaramuças contra os almóadas como foi a que ocorreu na Primavera de 1179 quando, enquanto alcaide-mor de Coimbra (segundo Maria Fernanda E. G. da Silva, id. ibid.) ou alcaide-mor de Porto de Mós (segundo J. Veríssimo Serrão, id. ibid.), havendo sido informado que os almóadas se preparavam para atacar este castelo, D. Fuas Roupinho, auxiliado pelas guarnições de Santarém e Alcanede e pelos valorosos cavaleiros da Ordem de Avis, caiu sobre eles, desbaratando-os, e entregando os mouros cativos ao soberano cristão, D. Afonso Henriques, pelo que só depois disto, refere Maria Fernanda da Silva, “o monarca recompensou-o largamente, nomeando-o alcaide de Porto de Mós (id. ibid).


Mito ou realidade, a verdade é que este lendário cavaleiro do século XII, ao qual se prende ainda uma outra lenda – a do “milagre de Nazaré” – e que, segundo as várias versões dos cronistas, encontrou a morte nesse mesmo de ano de1180,  ou no de 1184, ao largo de Ceuta em mais uma sortida naval contra os sarracenos, foi, tanto pela tradição popular como pelos escritos de poetas e eruditos, revestido de extraordinário halo de espiritualidade e dignidade, de que se fazem eco as estrofes 16 e 17 do canto VIII d’Os Lusíadas de Camões:

Vês este que, saindo da cilada,
Dá sobre o Rei que cerca a vila forte?
Já o Rei tem preso e a vila descercada:
Ilustre feito, digno de Mavorte!
Vê-lo cá vai pintado nesta armada,
No mar também aos Mouros dando a morte,
Tomando-lhe as galés, levando a glória
Da primeira marítima vitória.

É, Dom Fuas Roupinho, que na terra
E no mar resplandece juntamente,
Com o fogo que acendeu junto da serra
De Abila, nas galés da Maura gente.
Olha como, em tão justa e santa guerra,
De acabar pelejando está contente:
Das mãos dos Mouros entra a feliz alma,
Triunfando, nos céus, com justa palma.


Para aceder a um resumo acerca da “Lenda do milagre da Nazaré”,

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

499.º Aniversário do cardeal-rei D. Henrique


D. Herique, o cardeal-rei | in http://pt.wikipedia.org

O Cardeal - Rei

Henrique nasceu em Lisboa a 31 de Janeiro de 1512 e faleceu em Almeirim, curiosamente, no mesmo dia e mês do ano de 1580. Estamos, portanto, a um ano do dos 500 anos do seu nascimeto. Foi o quinto filho varão de D. Manuel I e de sua segunda mulher, D. Maria de Aragão, manifestando desde infância a sua vocação pela vida religiosa em detrimento da vida política, acabando a sucessão do trono por ser assegurada, mais tarde, por seu irmão mais novo, D. João III. Mas as circunstâncias que se seguiram ao falecimento do monarca na menoridade do neto deste, D. Sebastião (filho póstumo do Príncipe João de Portugal e da Princesa D. Joana) e a crise dinástica advinda mais tarde com a morte d’o Desejado fizeram com que o já então cardeal D. Henrique se visse na obrigação de assumir a governação do País: Primeiro como Regente, em 1562 dada a menoridade do seu sobrinho de segundo grau e a abdicação da cunhada D. Catarina de Áustria que, após 5 anos de desgostosos serviços nessa função, decidiu recolher-se ao Paço de Xabregas, profundamente agastada com o neto; depois como rei, tendo sido assim aclamado em Lisboa em 1578, logo que foi confirmada a morte de D. Sebastião, reinando Portugal até ao fim da sua vida.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

457.º Aniversário do nascimento de D. Sebastião

D. Sebastião, pintura a óleo de Cristóvão de Morais, 1571,
Museu Nacional de Arte Antiga, Lisboa, in http://pt.wikipedia.org

Completaram-se ontem, 20 de Janeiro de 2011, 457 anos sobre o nascimento de D. Sebastião, último rei da dinastia de Avis que ficou para a História como uma das mais controversas figuras da monarquia portuguesa. No resumo biográfico que a seguir inserimos,  transcrito de O Portal da História, estão algumas hiperligações a temas relacionados com esta personagem anteriormente publicados neste blog.

Resumo biográfico

Décimo sexto rei de Portugal, filho do príncipe D. João e de D. Joana de Áustria, nasceu em Lisboa a 20 de Janeiro de 1554, e morreu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578. Sucedeu a seu avô D. João III sendo o seu nascimento esperado com ansiedade, enchendo de júbilo o povo, pois a coroa corria o perigo de vir a ser herdada por outro neto de D. João III, o príncipe D. Carlos, filho de Filipe II de Espanha.
De saúde precária, D. Sebastião mostrou desde muito cedo duas grandes paixões: a guerra e o zelo religioso. Cresceu na convicção de que Deus o criara para grandes feitos, e, educado entre dois partidos palacianos de interesses opostos - o de sua avó que pendia para a Espanha, e o do seu tio-avô o cardeal D. Henrique favorável a uma orientação nacional -, D. Sebastião, desde a sua maioridade, afastou-se abertamente dum e doutro, aderindo ao partido dos validos, homens da sua idade, temerários a exaltados, que estavam sempre prontos a seguir as suas determinações.
Nunca ouviu conselhos de ninguém, e entregue ao sonho anacrónico de sujeitar a si toda a Berbéria e trazer à sua soberania a veneranda Palestina, nunca se interessou pelo povo, nunca reuniu cortes nem visitou o País, só pensando em recrutar um exército e armá-lo, pedindo auxílio a Estados estrangeiros, contraindo empréstimos a arruinando os cofres do reino, tendo o único fito de ir a África combater os mouros.
Chefe de um numeroso exército, na sua maioria aventureiros e miseráveis, parte para a África em Junho de 1578; chega perto de Alcácer Quibir a 3 de Agosto e a 4, o exército português esfomeado e estafado pela marcha e pelo calor, e dirigido por um rei incapaz, foi completamente destroçado, figurando o próprio rei entre os mortos.

Ficha genealógica
D. Sebastião, nasceu em Lisboa, a 20 de Janeiro de1554; faleceu em Alcácer Quibir, a 4 de Agosto de 1578; sepultado em 1582 no Mosteiro dos Jerónimos. Morreu solteiro e sem descendência.

Fontes:
Joel Serrão (dir.)
Pequeno Dicionário de História de Portugal,
Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1976
Joaquim Veríssimo Serrão
História de Portugal, Volume III: O Século de Ouro (1495-1580),
Lisboa, Verbo, 1978

in http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/sebastiao.html

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Manuel Buiça, o homem que alvejou o rei D. Carlos

A Câmara Municipal de Vinhais decidiu assinalar o centenário da Implantação da República com a atribuição do nome de Manuel Buíça a um largo da vila.

O transmontano é uma das mais importantes figuras ligadas à República, bem como do golpe que ditou o fim da monarquia em Portugal.
Trata-se de um largo que já existia, próximo do pavilhão onde decorre a feira do fumeiro. “O largo não tinha nome. É um acto simbólico que pode ser condenado. Para muitos o regicida é um herói nacional, mas para outros é um assassino”, afirmou o vereador do pelouro sócio-cultural da Câmara de Vinhais, Roberto Afonso.
Manuel dos Reis da Silva Buíça nasceu em Bouçoais (Valpaços), a 30 de Dezembro de 1876 e faleceu em Lisboa, a 1 de Fevereiro de 1908. Era filho do reverendo Abílio da Silva Buíça, abade de Vinhais, e de Maria Barroso.
Os seus estudos primários realizaram-se no concelho que, agora, vai baptizar uma largo com o seu nome. “Decidimos fazer esta homenagem, tanto mais que é uma figura tão ligada à República e ao fim da monarquia e tendo ele ligações a Vinhais era uma forma de assinalar o centenário”, explicou o autarca.
Na base da escolha do largo está o facto de ser o mais próximo da casa do Abade de Vinhais, pai do regicida.
A própria figura do abade é curiosa, uma vez que o clero da altura estava mais associado à monarquia.
Aliás, “foi publicada na revista Ilustração Portuguesa uma fotografia em que aparece o abade ao lado de uma menina que segura a bandeira da República”, acrescentou o vereador.
Na altura, a revista dedicou uma reportagem alargada sobre Vinhais, concretamente de um período de incursão monárquica, um ano após a Implantação da República, em 1910. “Várias pessoas vieram da zona da Sanábria, onde tinham montado um acantonamento, e entraram em Portugal pela zona de Cova de Lua. Em Vinhais ocuparam a Câmara Municipal e hastearam a bandeira monárquica durante algumas horas, até que chegaram os reforços republicanos vindos de Chaves”, relata Roberto Afonso, que tem vindo a dedicar à investigação do papel de Vinhais no derrube da monarquia.

Monárquicos ainda chegaram a hastear bandeira em Vinhais, após o 5 de Outubro de 1910

“O abade de Buíça recebeu os republicanos que vinham de fora. É curioso porque a implantação monárquica liderada por Paiva Couceiro teve associada figuras ligadas à igreja e aqui havia um abade republicano ”, acrescentou o autarca.
No concelho ainda há descendência da geração Buíça, nomeadamente em Lagarelhos, onde existe uma família com este nome. “O Armando Fernandes, consultor gastronómico, será um dos descendentes”, revela Roberto Afonso, que não deixa de achar “estranho” que aqui em Vinhais o regicídio não tenha sido muito falado. “Até há muita gente que nem sabe quem foi Manuel Buíça. É muito provável que tenha sido uma forma de apagar essa imagem”, frisou o responsável autárquico.

Fonte e imagem:
http://www.jornalnordeste.com/noticia.asp?idEdicao=336&id=14689&idSeccao=3022&Action=noticia

sábado, 21 de agosto de 2010

367.º Aniversário do nascimento de D. Afonso VI

D. Afonso VI foi uma dos monarcas mais  problemáticos da História de Portugal. Foi o 23.º rei e o 2º da dinastia de Bragança.
Devido à prematura morte, a 13 de Maio de 1653, de seu irmão mais velho, o príncipe D. Teodósio - em quem se depositavam grandes esperanças enquanto futuro rei, tendo em conta a sua inteligência, benigna personalidade e singular dedicação literária -  e de sua irmã, a infanta D. Joana de Bragança, a 17 de Novembro do mesmo ano, o infante D. Afonso prefigurou-se como o legítimo candidato à Coroa. Considerado como um jovem doente física e mentalmente, só foi colocado no trono a 28 de Junho de 1662, graças  aum golpe palaciano criteriosamente preparado por um dos seus aios, o terceiro conde de Castelo Melhor, D. Luís de Vasconcelos e Sousa, que determinou o afastamento da vida pública da mãe, D. Luísa de Gusmão, quem exercia a regência desde 15 de Novembro de 1656 (o rei, D. João IV, havia falecido a 6 de Novembro de 1656). D. Luísa cede perante a possibilidade de entregar o trono do filho e mais tarde recolheu-se ao convento dos Agostinhos Descalços. Durante o seu curto reinado efectivo, de cerca de cinco anos e meio, D. Afonso VI continuou a manifestar uma conduta pouco digna, e o seu desastroso casamento com D. Maria Francisca Isabel de Sabóia, Mademoiselle d´Aumale, ditaria o seu fim enquanto rei de Portugal. Em 1667 é instado pela rainha Maria Francisca, sua mulher, e pelo infante D. Pedro, seu irmão, a abdicar do trono em favor deste, o que D. Afonso assentiu. Aguardando-se a anulação do casamento real, a pedido da rainha, as Cortes de Lisboa, reunidas em 1668, sugeriram ao infante o casamento com a rainha, que entretanto se havia recolhido em clausura, com suas damas e oficiais no convento da Esperança, e baniram D. Afonso VI para a ilha Terceira, nos Açores, onde permaneceu em estado de progressiva degradação moral, e em 1674 foi mandado regressar ao Continente, sendo conduzido a uns aposentos do Palácio de Sintra, onde sobreviveu durante mais nove anos em grande sofrimento físico. Aí faleceu a 12 de Setembro de 1683, aos 39 anos.


Para uma diversificada e detalhada fonte de informações a respeito de D. Afonso VI clique AQUI.

Imagem: http://www.arqnet.pt/portal/portugal/temashistoria/afonso6.html

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Quem salvou a vida a D. João I, na batalha de Aljubarrota?

Por Leonel Salvado

Durante muitos anos, sempre que se impunha relevar os cometimentos de heroicidade individual dos portugueses naquela que foi uma das mais importantes e recordadas vitórias obtidas pela Nação contra os castelhanos, vinham a lume, para além da inabalável figura do Condestável, D. Nuno Álvares Pereira, sublimadas referências patrióticas à trilogia feminina constituída por Brites de Almeida (a “padeira de Aljubarrota”), Joana Gouveia (ou Joana Fernandes) e Maria de Sousa. A propósito desta, escrevia o Padre A. Alberto Gonçalves, em 1940:

O reinado de D. João I foi fértil em altruísmos femininos, foi um alfobre de sublimes abnegações desinteressadas que não é lícito pôr em dúvida porque foram grandes e inexcedíveis.
Senão vejamos. Aqui depara-se-nos, Maria de Sousa que, corajosamente defendeu e salvou a vida do rei, derrubando Álvaro Gonçalves Sandoval, com um golpe de partazana, quando ele tentava matar D. João I, e depois tolheu o passo a um grupo de castelhanos, pondo-os em fuga. […].
In O Sentimento Patriótico na Mulher Portuguesa, Livraria Civilização, Porto, 1940, p. 31.

Curiosamente, esta visão tradicional, eivada de extremo sentimento patriótico que convinha à ditadura do Estado Novo, continua viva na memória colectiva de muitos portugueses que a ostentam ainda, com orgulho e aparente convicção. No actual site da Câmara Municipal de Alcobaça, pode ler-se:

É conhecido o episódio da Padeira de Aljubarrota, Brites de Almeida, que na ressaca da batalha teria surpreendido sete Espanhóis escondidos no seu forno e que um a um, à pazada, a todos despachou para o outro mundo.
Esta porém, não é a única mulher célebre em Aljubarrota, embora das outras quase não haja já memória, e a grande maioria jamais ouviu falar nelas. Para que a sua memória também possa perdurar, aqui fica o retrato das suas façanhas.
Uma é Maria de Sousa, que com um golpe de “partazana” (uma espécie de alabarda) derrubou Álvaro Gonçalves Sandoval, quando este pretendia matar D. João I, e que atravessou com um dardo, Gonçalo Nunes de Gosman, “apóstata da Pátria e da Família”, pois era irmão do Condestável, e que tolheu o passo a um grupo de castelhanos que fugia, suportando heroicamente a sua posição, com uma espada durante um bom quarto de hora, matando uns vinte?, dos tais castelhanos, saindo sã e salva desse combate.
Outra, foi Joana Fernandes, que entrincheirada num silvado, fez um dano cruel aos soldados Espanhóis, atirando-lhes com pedras, e despejando por cima dos que ali passavam água a ferver, que mandava buscar de quando em quando a casa de uma vizinha. Só faltava cozinhá-los num caldeirão, que está em Alcobaça e que o povo de Aljubarrota há muito reivindica a sua devolução à sua origem, em vão.
Portanto, não temos uma heroína, mas três. Nem todas as terras se podem gabar disto.
In http://www.cm-alcobaca.pt/index.php?ID=1895

No ano de 2006, Pedro Gomes Barbosa e Carlos Santos Mendes publicaram o livro intitulado De Macedo a Macedo de Cavaleiros, a Figura de Martim Gonçalves de Macedo, uma edição da Câmara Municipal, cuja capa se pode ver ao lado, conferindo a esta cidade transmontana do distrito de Bragança uma posição de destaque no referencial da heróica história militar nacional, devido ao papel desempenhado por aquele nobre fidaldo de Macedo de Cavaleiros na batalha de Aljubarrota, a quem, afinal, terá cabido o mérito de ter cometido o memorável, mas quase esquecido, acto de ter livrado de morte certa o primeiro rei da dinastia de Avis quando este lidava em desvantagem contra o castelhano Álvaro Gonçalves Sandoval.

No Fórum Trás-os-Montes, a 4 de Novembro de 2008, Maria Portugal apresentou duas publicações que exprimem duas formas bem distintas de interpretação das questões relacionadas com D. Martim Gonçalves de Macedo: Uma datada de 21 de Agosto, da autoria de Saul António Gomes, com algumas reservas críticas do autor perante o silêncio a que a respeito do herói alegadamente macedense, sepultado no Mosteiro da Batalha, se submetem as fontes históricas mais antigas e conceituadas; logo a seguir, um artigo mais recente, publicado no Jornal Nordeste, da autoria de Sandra Canteiro, em que se transmite uma informação mais segura e confiante acerca da identificação do cavaleiro associado à sepultura, à sua heróica acção, bem como à sua origem de Macedo de Cavaleiros, tudo isso garantido pelo Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota, inaugurado no dia 11 de Outubro de 2008. Para aceder à transcrição destas publicações, clique, em baixo, em «Ler mais».

O livro que aqui pomos em destaque, é um livro que vale a pena ler, não só porque veio desmistificar, de uma forma historiograficamente criteriosa, um facto há muito conhecido, mas que permanecia um enigma, e que dava azo a todo o tipo de abusivas especulações, mas também porque nele já se propõem algumas explicações para as interrogações colocadas por Saul António Gomes (que talvez ainda não tivesse lido o livro) quanto à estranha ausência de relação desse facto com o macedense Martim Gonçalves de Macedo, nas fontes coevas e subsequentes, cronologicamente mais próximas.

Para obter a versão PDF do livro clique na capara da obra acima exposta.

D. MARTIM GONÇALVES DE MACEDO: UM HERÓI IGNORADO DA BATALHA REAL
Escrito por Saul António Gomes
21-Ago-2008

Em túmulo raso, à entrada da Capela do Fundador, no Mosteiro de Santa Maria da Vitória, em lousa em que se notam, na parte superior, vestígios de execreção lapidar, mas com legenda, inscrita mais abaixo, em caracteres tardios e neo-góticos, o visitante é informado de se tratar da sepultura de Martim Gonçalves de Macedo ou de Maçada.
A tradição historiográfica batalhense explica a razão desta sepultura em lugar tão discreto e simultaneamente tão simbólico no magnífico panteão gótico da segunda dinastia portuguesa. Trata-se de um escudeiro que, nos campos de S. Jorge, no desenrolar da cruenta Batalha Real, no entardecer do dia 14 de Agosto de 1385, salvou a vida ao rei D. João I de Portugal.
Esta tradição tem fundamento histórico, como veremos, mas não a encontramos documentada nos grandes textos e autores antigos mais conceituados. Situações há, contudo, em que o Mosteiro da Batalha, nos seus diversos testemunhos arqueológicos, artísticos e heráldico-epigráficos, recorda uma história que as grandes crónicas, contra o que seria de esperar, eventualmente, omitem ou desconhecem. O inverso, naturalmente, também se verifica, podendo defender-se que a memória da famosa Batalha Real, que está no fundamento da edificação deste impressionante templo e panteão do Quattrocento europeu, se lavrou, ao longo do tempo, tanto pela palavra escrita em pergaminho ou em papel, quanto pela palavra lapidada em pedra.
Fernão Lopes ignora em absoluto o nome de Martim Gonçalves de Macedo, posto que aluda à luta, no zénite da batalha, entre o Mestre de Avis e o cavaleiro castelhano Álvaro Gonçalves de Sandoval, com vantagem para este, que conseguiu dobrar, joelhos postos em terra, o Soberano dos Portugueses. Na iminência de Álvaro de Sandoval desferir o golpe mortal, contudo, seguindo o celebrado cronista, o Rei da Boa Memória terá conseguido inverter a situação. Não explica cabalmente, no entanto e na verdade, como sucedeu este verdadeiro milagre que salvou a vida ao jovem monarca.

Eis o passo tal qual Fernão Lopes o refere na sua crónica:

“El-Rey, quamdo vyo a avanguarda rota e o Conde em tamanhada pressa, com gramde cuydado e todos com elle abalou rijamente com sua bamdeira, dizemdo altas vozes com gram esforço: Auamte, senhores, auamte! Sam Jorge, Sam Jorge! Portugall, Putugall, ca eu som el-Rey! E tamto que chegou hu era aquell duro e aspero trabalho, leixadas a(s) lanças de que se pouco seruiram por aazo da mesura da gemte, começou de ferir de facha assy desemuolto e com tal uomtade como se fosse huum simprez caualleiro desejosso de guanhar fama. E ueo a ell per aqueçimento Aluaro Gonçaluez de Sandouall, bem mançebo e de boom corpo, ardido caualeiro, casado daquell anno. E como el-Rey alçou a facha, deçemdo pera lhe dar, ell reçebeo o golpe, e trauou per ella, e tirou tam rijo que lha leuou das maãos e feze-o ajeolhar dambollos geolhos; e foy logo leuantado. E quando Alvaro Gonçalvez leuantou a facha pera lhe dar com ella, el-Rey esperou o golpe, e tornou-lha a tomar per aquella guysa; e quando lhe qujsera outra vez dar, jazia ja morto pellos que eram presentes que o majs a pressa fazer nom poderom, porque cada huum tijnha que veer em sy.” (Crónica de D. João I, Capº 42).

Atentemos bem no que escreve Fernão Lopes. D. João I, lutando com facha contra Álvaro Gonçalves de Sandoval, perde-a e, indefeso, cai por terra (“feze-o ajoelhar dambollos geolhos”). Esperar-se-ia o pior, o fim. Mas o cronista evita pormenores e regista, apenas, o comentário: “e foy logo leuantado”. Não nomeia, pois, o ou os interventores neste momento vital de toda a história deste famoso prélio luso-castelhano. D. João I recupera a sua facha e volta a perdê-la num segundo e imediato choque com Álvaro de Sandoval, combatente que revelava superioridade física. Valeu a D. João I que “os que eram presentes” mataram o castelhano.
O não identificado autor da Crónica do Condestável, absorvido em projectar D. Nuno Álvares Pereira como estratega e herói fundamental da Batalha Real, omite este acontecimento, tudo resumindo em breves palavras:

“E o conde estabre indo ante a sua bandeyra, forom em elle postas muytas lanças e em breve forom todas as lanças, de huã avenguarda e da outra, quebrantadas e vallado dellas feyto, e entom vierom as fachas e logo el rey, com a rreguarda, com grande aguça se ajuntou aa venguarda, feryndo de fachja tantos e taes golpes que eram asperos de atender aaquelles que os soffriam, como vallente rey ajudando seus naturaes, e sua real coroa defendendo.” (Crónica do Condestável, Capº 51).

O silêncio em torno do nome de Martim Gonçalves de Macedo não é, surpreendentemente, um exclusivo de Fernão Lopes ou do anónimo autor da Crónica do Condestável. Luís Vaz de Camões, n’Os Lusíadas (Canto IV, 28-45), não se lhe refere, o mesmo sucedendo com Francisco Rodrigues Lobo, o afamado poeta leirenense, que conhecia bem o Mosteiro de Santa Maria da Vitória e a sua Capela do Fundador, o qual, no seu poema épico O Condestabre de Portugal D. Nuno Alvares Pereyra, contando largamente a Batalha Real, não descobre senão o episódio evocado na tradição lopesiana:

“Mas o Rey Portugues que nelle atenta,
Em quem só tinha a Patria sustentada,
Ante os seus animosos se apresenta,
Com huma facha na mão dura, e pesada.
E qual o Sol na furia da tormente,
Alegra a gente nautica infiada,
Que sorvesse no abismo vio mil vezes,
Tal o Rey se mostrou aos Portuguezes.

A elles Lusitanos esforçados,
Que eu sou rey vosso, e vosso companheyro,
A elles (vay dizendo em grande brados)
Vamos desenganar este Estrangeyro.
Tras elle os Portugueses animados,
Seguindo o seu farol tão verdadeyro,
As forças renovando, os braços movem,
Contra as gentes sem conto que alli chovem.”

(O Condestabre, Canto XIV).


Frei Luís de Sousa, o celebrado cronista dominicano, escrevendo, sobre o Mosteiro da Batalha, por 1621, páginas de ímpar beleza na sua História de S. Domingos, nas quais colhemos pormenores invulgares e da maior relevância informativa do passado deste instituto monástico, como faz a propósito e por exemplo, da Capela do Fundador ou das Capelas Imperfeitas, nada aponta sobre os túmulos rasos que se encontram à entrada da igreja conventual, posto que atente nos demais sepulcros que nas capelas da cabeceira da igreja, na sala capitular e no claustro se encontravam.
Também o anónimo autor de O Couseiro, nas bem conhecidas memórias históricas da Diocese de Leiria, redigidas em meados de Seiscentos, mais precisamente por finais da década de 1650, nos capítulos 68 a 74, se calou em relação ao assunto que nos ocupa.

Dois séculos mais tarde, em 1827, D. Fr. Francisco de S. Luís, autor da conhecida Memoria historica sobre as obras do real Mosteiro de Sancta Maria da Victoria, chamado vulgarmente da Batalha, acrescenta informação inédita e objectiva sobre o histórico monumento. Disserta com interesse sobre os túmulos rasos de Mateus Fernandes e de Diogo Gonçalves de Travassos, localizados, como escrevemos, à entrada poente da igreja. Mas nada deixa escrito sobre o túmulo de Martim Gonçalves de Macedo.
Perante o silêncio destes respeitáveis cronistas e autores, como se poderá atentar na lápide que identifica Martim Gonçalves de Macedo sem alguma dúvida e suspeição crítica? Tratar-se-á, porventura, de alguma falsificação histórica incrustada no monumento gótico em fase tardia?

Fonte: http://www.trasosmontes.com/forum/viewtopic.php?t=3625


SALVOU A VIDA DO FUTURO REI
Macedo de Cavaleiros
Ilustre macedense combateu em Aljubarrota

O cavaleiro macedense, D. Martim Gonçalves de Macedo, que salvou a vida ao Mestre de Avis, futuro D. João I e rei de Portugal, é referenciado no Centro de Interpretação da Batalha de Aljubarrota (CIBA), inaugurado no passado dia 11 de Outubro.
O equipamento, criado no local onde se deu, a 14 de Agosto de 1385, o confronto é promovido pela Fundação Batalha de Aljubarrota, à qual o município de Macedo de Cavaleiros se associou.
Assim, a localidade transmontana é destacada no CIBA devido ao heroísmo de D. Martim Gonçalves de Macedo, notável cavaleiro que assumiu um papel importante na Batalha. Segundo se conta, o ilustre macedense salvou a vida ao futuro rei D. João I, ao colocar-se entre o Mestre de Avis e o castelhano D. Álvaro Gonçalves de Sandoval, a quem acabou por matar.
D. João I reconheceu este acto e, desde a Batalha de Aljubarrota, no brasão de armas dos Macedo passou a constar um braço de azul, com uma maça de armas de prata, usada por D. Martim Gonçalves de Macedo para assassinar D. Álvaro Gonçalves de Sandoval.
Sandra Canteiro, Jornal Nordeste, 2008-11-04
In DTM

Fonte: Id.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

O Positivismo e a 1ª República

Texto de António Mota de Aguiar:

Foi na década de 40 do século XIX que Auguste Comte concebeu o positivismo, doutrina filosófica caracterizada pela ideia de que o desenvolvimento da ciência e da tecnologia iria desembocar numa sociedade de bem-estar geral. Essa doutrina positivista combateu as ideias idealistas e espiritualistas da Natureza, afirmando-se anti-teológica e anti-metafísica.
Nada por isso melhor, na década de 60 desse século, que o positivismo comteano para conferir uma dimensão de necessidade e objectividade às reivindicações republicanas. Não existindo uma sociedade científico-industrial em Portugal, o positivismo português foi essencialmente um movimento sociológico, desligado das ciências da Natureza [1].
Foi o positivista Teófilo de Braga (1843-1924) (na figura, em 1864, com apenas 21 anos) quem escreveu o primeiro Manifesto do Partido Republicano Português, em 1891, pouco antes da revolta do Porto de 31 de Janeiro [2]. O positivismo republicano apontou para os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade, e, adaptado à sociedade portuguesa, situou-se entre o pensamento reaccionário e as correntes revolucionaristas e anarquistas. Ao contrário do projecto comteano, o positivismo foi, entre nós, um projecto da pequena e média burguesia.
Identificado que foi o positivismo com o ideário republicano, o primeiro ideólogo do republicanismo tinha sido Henriques Nogueira (1825-1858), activista da década de 40, que escreveu uma “espécie de evangelho republicano português” [3]. Já nas décadas de 60 e seguintes, defensores do positivismo como Manuel Emídio Garcia (1838-1904), Elias Garcia (1830-1891), Basílio Teles (1856-1923), e Sampaio Bruno (1857-1915), além do já referido Teófilo de Braga, alimentaram as primeiras polémicas em defesa da sociologia de Comte. Nessa época assistiu-se em Portugal à implantação progressiva da corrente republicana que se viria a tornar bastante influente na intelectualidade portuguesa.
Enquanto em Portugal nos debatíamos com os acontecimentos históricos dos últimos anos da monarquia, sem meios para investir na ciência e importando a tecnologia, lá fora, no virar do século XIX para o XX, a Física debatia-se com dilemas como os que estiveram na base das duas principais teorias físicas do século XX: a teoria da relatividade e a teoria quântica. Era o começo da física moderna.
Não foi muito feliz entre nós o movimento positivista até ao final da segunda década do século XX. Contudo, a partir de 1920 a comunidade científica portuguesa foi acumulando alguns trunfos, em consequência da reforma no ensino efectuada pelo Governo Provisório da 1ª República. Os primeiros estudos entre nós da Relatividade foram efectuados em 1912 pelo republicano Leonardo Coimbra (1883-1936), que foi ministro de Instrução Pública da República em 1919 e 1923. Este filósofo tem uma postura claramente idealista: a realidade é determinada pelo pensamento (“As teorias físicas são produto da mais profunda elaboração mental”), pelo que para ele a inteligibilidade não seria determinada pela experiência, tal como afirmavam os positivistas.
É assim que, no início da década de 20, o trabalho desenvolvido durante a 1ª República começa a dar alguns frutos, apesar de “a produção científica em Portugal no século XX não ter atingido o brilho observado noutros países europeus” [4] , e de “até à década de 30 a relatividade parecer não ter interessado cientificamente os físicos portugueses e, além do desinteresse, manterem sobre ela um profundo cepticismo” [5] .
A sociedade científica portuguesa desta época continua, de facto, pouco desenvolvida, mas há indícios na década de 20 de um desabrochar científico e cultural em Portugal, designadamente, por meio da acção das Universidades Livres, fundadas em 1912, e das Universidades Populares, fundadas em 1913, em Lisboa e no Porto [6], onde talentosos e dedicados professores leccionaram Astronomia, Relatividade e outras matérias.
Em 1923, o Ministro de Instrução António Sérgio criou a “Junta de Orientação de Estudos” que servirá como precursora da Junta de Educação Nacional (JEN), surgida em 1929. De 1929/30 a 1950 foram concedidas pela JEN 812 bolsas, que beneficiaram 434 bolseiros [7], cuja maioria regressou a Portugal enriquecendo com os seus conhecimentos a ciência e a cultura portuguesa.
Dezenas de homens da ciência atravessaram estas décadas de 20, 30 e 40, incrementando com o seu saber a cultura em Portugal [8]. Destacamos alguns: António da Silveira, Pedro José da Cunha, António dos Santos Viegas, Francisco de Castro Freire, Aarão Lacerda, Henrique Teixeira Bastos, Álvaro Basto, Egas Pinto Basto, Souza Nazaré, Pinto Basto, Augusto Ramos da Costa, Victor Hugo Lemos, Mário Mora, António Santos Lucas, José de Almeida Lima, Gago Coutinho, Egas Moniz, António Sérgio, Cyrilo Soares, Manuel Peres, Francisco Gomes Teixeira, Manuel Valadares, Branca Marques, Aurélio Marques da Silva, António Aniceto Monteiro, etc.
Foi nesta década que visitaram Portugal dois nomes importantes da Física Teórica: o espanhol José Maria Plans y Freire e o francês Paul Langevin. Na sequência desta última visita foi inaugurada em Abril de 1930 na Biblioteca Nacional uma notável exposição sobre a Relatividade, que contou com a colaboração de sábios estrangeiros.
Não procurámos indagar se todos os homens de ciência deste período histórico foram positivistas. A problemática foi abordada e de certo modo resolvida por Correia Barata no jornal "O Século”, quando, em 1876, na luta contra o pensamento reaccionário e em defesa das concepções darwinistas e positivistas, escrevia que a doutrina de Darwin, “que não era ateu”, podia ”…ser aceite, sem o mínimo de escrúpulo de consciência, pelo melhor católico, porque há um abismo profundo entre a discussão da origem última ou causa prima de todas as coisas existentes e qualquer sistema que tenha por fim explicar os fenómenos biológicos, inorgânicos ou físicos” [9].
Mas, como tudo na vida evolui, também o positivismo evoluiu para o neo-positivismo fundado pelo Círculo de Viena:
“A filosofia das ciências é, no final do século XIX e princípios do século XX, a herdeira histórica do positivismo oitocentista, distinguindo-se desta corrente filosófica pela sua visão crítica da própria ciência e pelo esforço em determinar os limites exactos da validade desta. A filosofia da ciência demarcar-se-á do positivismo metafísico, começando por exercer uma crítica baseada na própria evolução histórica da ciência; dos seus próprios problemas, a ciência passou a interrogar-se sobre o seu método, a natureza deste e os próprios limites do conhecimento científico” [10].
Foi nessas décadas do século XX que viveram os principais investigadores científicos neo-positivistas portugueses: o matemático Mira Fernandes escreveu sobre Relatividade em vários artigos em revistas italianas; o matemático Rui Luís Gomes, que escreveu um manual científico sobre Relatividade e criou um seminário em Física Teórica na Universidade do Porto; o astrónomo Manuel dos Reis. que escreveu O Problema da Gravitação Universal, considerado um livro de referência na área; o físico nuclear Mário Silva, autor de vários livros de ciência e do projecto do Instituto do Rádio em Coimbra; o astrónomo Melo e Simas, que efectuou medidas da luz rasando o bordo de Júpiter para verificar se a luz era deflectida pela gravidade do planeta; o médico Abel Salazar, que empreendeu vários trabalhos de investigação científica, sendo considerado o principal divulgador em Portugal do neo-positivismo (deixou escrito em O Diabo, entre 1936 e 1940, 50 artigos sobre o empirismo lógico); e o matemático e pedagogo de renome Bento de Jesus Caraça. Nestes tempos, participaram na divulgação da ciência revistas como o Jornal de Sciencias e Mathematicas e Astronómicas (publicado até 1905), O Diabo, que já referimos, Águia, Seara Nova, Sol Nascente, Vértice, O Instituto, e outras, com vidas mais ou menos efémeras.
Porém, os inimigos da ciência, muito receosos das novas ideias, cedo se incompatibilizaram com a comunidade científica. Fortalecido o Estado Novo com a Constituição de 1933, caiu de imediato sobre o movimento científico português a versão portuguesa do fascismo internacional. Com a repressão de 1930 a 1950 sobre os homens da ciência, os mais notáveis protagonistas da ciência portuguesa foram desaparecendo da cena nacional, tendo muitos deles sido presos. No ano de 1947 deu-se o "golpe de misericórdia". As veleidades de desenvolvimento científico terminaram então. Mais cientistas foram parar à prisão, outros exilaram-se para não serem presos e para fugirem à asfixia e mediocridade do Estado Novo. Em consequência, no princípio da década de 50 o atraso cultural e científico do país era enorme. A censura, a polícia política e os tribunais de excepção, exerciam estrito um controlo da sociedade.
Apesar do seu desfecho trágico, a 1ª República deixou bem marcado na mente dos portugueses o espírito de liberdade e progresso que a norteou. Hoje, a quase cem anos de distância, não podemos esquecer que o ar de liberdade que respiramos teve, pelo menos em parte, a sua origem no dia 5 de Outubro de 1910.

REFERÊNCIAS:

[1] Fernando Catroga, Os inícios do Positivismo em Portugal, O seu significado político-social, Universidade de Coimbra, 1977, e A importância do positivismo na consolidação da ideologia republicana em Portugal, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 1977
[2] A.H. de Oliveira Marques, A 1ª República Portuguesa: Alguns aspectos estruturais, Livros Horizonte, pp. 540 e seguintes, 1980
[3] A.H. de Oliveira Marques, História de Portugal, vol. II, p. 240 e seguintes. Palas Editores, 1973.
[4] Décio Ruivo Martins, Dissertações einsteinianas em Portugal (1911-1930), “Einstein Entre Nós”, Coord. de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005, p. 60
[5] Augusto Fitas, A Teoria da Relatividade em Portugal (1910-1940), “Einstein Entre Nós”, Coord. Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra 2005, p. 15
[6] Veja-se Oliveira Marques, História de Portugal, Edições Agora, vol. II, pp. 232-234.
[7] Amândio Tavares, O Instituto para a Alta Cultura e a investigação científica em Portugal, Lisboa, 1951 e A. Celestino da Costa, A JEN, Publicações da Sociedade de Estudos Pedagógicos, Série A-2, 1934
[8] Einstein entre nós, Coord. de Carlos Fiolhais, Imprensa da Universidade de Coimbra, 2005
[9] Fernando Catroga, Os inícios do Positivismo em Portugal, O seu significado político-social, p. 40, Universidade de Coimbra, 1977
[10] Augusto Fitas, José M. Rodrigues, e M. Fátima Nunes, “A filosofia da ciência no Portugal do século XX”, in Pedro Calafate, org., História do Pensamento Filosófico Português Lógica, Conhecimento, Filosofia da Ciência, vol. 5, pp. 429-430, Editorial Caminho, 2000.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Manuel Buíça, o regicida

Manuel Buíça e Alfredo Costa foram os dois regicidas, de entre os presumivelmente seis envolvidos, que foram abatidos imediatamente à consumação do assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro D. Luís Filipe, na fatídica tarde do dia 1 de Fevereiro de 1908 no Terreiro do Paço. Interessa-nos falar aqui do primeiro dos mencionados regicidas, pela mera curiosidade que a particularidade de Manuel Buíça ter sido natural de uma aldeia do concelho de Valpaços tem suscitado. Os factos que a seu respeito iremos divulgar, citando o Padre João Vaz de Amorim na Revista Aquae Flaviae, tal como faz Montanha de Andrade, não se destinam a transmitir quaisquer sentimentos de carácter político-ideológico, mas tão só a divulgação imparcial desses factos que consideramos constituirem mais uma curiosidade local ou regional igual a tantas outras que publicámos e publicaremos nesta categoria.

Por detrás da incontestabilidade do acto cometido, esconde-se a questão da sua legitimidade, dos motivos ou das forças que estiveram na sua origem e até hoje muito se tem conjecturado nesse sentido a partir de uma enigmática carta-testamento que se guarda nos arquivos da Fundação Mário Soares e que foi supostamente redigida e assinada por Manuel da Silva Buíça no dia 28 de Janeiro de 1908, portanto quatro dias antes do regicídio, mas cuja assinatura só seria reconhecida por um tabelião lisboeta a 22 de Agosto, documento esse que ficou em posse do então «publicista» Aquilino Ribeiro. É dessa carta-testamento que nasce a controvérsia em torno da figura do regicida transmontano. Vejamos, em primeiro lugar algumas refrências biográficas a respeito da figura em causa, deixando para o final as especulações que o referido documento tem gerado.


O Regicida

No lugar e freguesia de Bouçoais, deste concelho [de Valpaços], nasceu Manuel dos Reis da Silva Buíça, um dos regicidas do Rei D. Carlos e do Príncipe D. Luís Filipe, que foram assassinados do Terreiro do Paço, em Lisboa, no dia 1 de Fevereiro de 1908. Sua mãe, era Maria Bernarda, também conhecida por Maria Barroso, por seu pai ser oriundo da região barrosã de Cabril, freguesia de concelho de Montalegra, lá bem perto das faldas do majestoso Gerês. Viera ele em companhia de um sacerdote que, durante bastantes anos paroquiou esta freguesia. Aqui casou e constituiu família, chegando esta a ser bastante numerosa. Pobre, e lutando, por isso, com bastantes dificuldades, os pais de Maria Barroso, sendo esta ainda moça, decidiram-se a pô-la a servir, o que realmente fizeram, preferindo a casa de outro abade, Abílio Augusto da Silva Buíça. Este, apesar da sua ilegitimidade, era de estirpe fidalga, de boas tradições e certos meios de fortuna. Acerca dos Buíças e sua ascendência pode consultar-se a obra do Abade de Baçal.

O padre Abílio ordenou-se, talvez, para condescender com a vontade do seu progenitor, não reflectindo bem enquanto ao que é imposto pela Igreja àqueles que têm os dispensadores dos mistérios de Deus. Ascendeu ao sacerdócio levianamente, sem estudar como é de preceito, a sua vocação.

Por isso, não admira que mais tarde na sua negra batina se venham a notar algumas nódoas, embora como homem, sempre se distinga por um porte correcto e por uma linha inquebrantável de honradez. Dos seus amores ilícitos com Maria Barroso Lage houve seis filhos, sendo Manuel dos Reis da Silva Buíça o primogénito, que nasceu, como já dissemos, em Bouçoais, numa casa que fica a poucos metros para poente da actual igreja.

Apenas viu a luz do dia foi levado para o lugar de Cima de Vila das Aguieiras, onde foi amamentado e se demorou por espaço de dois anos.

Dali, voltou novamente a Bouçoais, residindo aqui até aos quatro anos, istó é, até que o abade Buíça consegue permutar a sua paróquia com a de um colega, que a seu tempo pastoreava a Vila de Vinhais. É nesta Vila que Buíça começa a frequentar os estudos primários. Dá boa conta de si na escola, é benquisto dos companheiros e condiscípulos e é obediente e submisso, qualidades essas que aos dezasseis anos o tronam digno de simpatia geral dos seus conterrâneos.

Vem então várias vezes a Bouçoais, onde tem numerosos parentes por parte da mãe (existindo ainda hoje bastantes), percorrendo estes outeiros e montados, mostrando já nesses verdes anos certa perícia como caçador de coelhos e perdizes. Não é somente na caça de monte que ele se revela, entrega-se à caça de rio, cujas águas rumorosas correm lá em baixo, apertadas entre as penedias dos inacessíveis desfiladeiros. Nada bem como um tritão e não tem receio de arrostar com perigos ou de descer às maiores profundidades, sendo sempre o primeiro entre todos os seus companheiros.

Passados esses belos tempos de juventude, assentou praça em Cavalaria, chegando dentro em pouco a Sargento. Deixou por isso a sua família, os seus companheiros de infância, estas terras e outras tantas coisas que ele, de certo mais tarde, ainda viria a recordar com saudade.

Esteve em algumas cidades do Norte, até que por fim, fixou definitivamente a sua residência em Lisboa, onde vem a casar com uma filha do Major João Augusto da Costa. É por ocasião dos preparativos para o seu casamento que Buíça vem, pela última vez, a Bouçoais.

Da sua vida em Lisboa dizem-nos o seguinte: «Café Gelo» ...lugar dos encontros apressados. Na mesa do canto mais escuro ao lado da saída da cozinha, um freguês quase constante, guardava ali a sua roda. Era de mediana estatura, muito claro de tez, vivos os seus olhos azuis contrastanto com a barba negra, na qual cintilavam alguns fios fulvos com linhazinhas de cobre. Espalhafatoso de gestos, berrador, de inventiva larga, aquele transmontano de Valpaços era de aparência delicada e atraía os revolucionário por sua fama de valente, seus ares despresadores ante as fachas de políticos e a decisão com que desafiava, arremetia e quasi sempre ficava da melhor.

Exercendo o professorado na Escola Moderna, mas, mal se adrejava entender, como podia ser mestre o turbulento que sempre se mostrava e o falho de exames de cursos de categoria oficial?

Contavam-se dele proezas de monta nas horas em que os nervos o sacudiam. Batera-se, em fúria, contra uma turba, no teatro da Rua dos Condes; no caminho de Linda-a-Pastora, vindo de uma reunião desaviera-se com um dos revolucionários e increpara-o em termos do outro puxar da pistola e ameçá-lo. Correra para ele e, ao segurarem-no tanta força dispendera entre o grupo, que só se quedara ao sentir o braço deslocado; fora Sargento em Cavalaria 7, e espancava os recrutas nos dias sombrios das suas cóleras, quando naturalmente se lembrava da má sina do seu viver.

Em Lisboa, nas Escadinhas da Mouraria, N.º 4, quarto andar, já viúvo, instalara-se lá com os filhos - Elvira e Manuel -, que a avó materna cuidava. Sentava-se com o produto das suas lições, andava sempre limpo e, bebendo o seu "cognac" no Café Gelo, rodeava-se dos que lhe apareciam falando a linguagem rebelde do seu agrado. Não escolhia. Precisava de um auditório para as suas falácias e, gesticulando, fuzilando os olhares, mostrando-se, ora arrebatado ora desdenhoso. Buíça tornara-se uma fisionomia familiar do Gelo, café este que apesar do seu título frio, era um vulcão de rebeldias.
O último feito da sua existência, todos nós o sabemos, foi um nefando crime, facto que encheu de desolação as douradas páginas da nossa luminosa e épica história. Devemos contudo considerar que os braços do cruel regicídio foram abatidos, Buíça e o Costa pagaram com as suas vidas as vidas que roubaram.

E os cúmplices?

Cá por estas terras ainda houve quem lembrasse o Buíça e chorasse a sua desventura. Foi a tia Luisa Penso, pobre velhinha octogenária, amiga de Maria Barroso que, entre soluços mal reprimidos, dizia que fora ela quem trouxera o Buíça das Aguieiras e que este era um menino muito bonito.

Fonte: citação de Padre João da Ribeira (revista Aquae Flaviae) por José Lourenço Montanha de Andrade, in Valpaço-lo-Velho 
Foto de Manuel Buíça in http://www.laicidade.org


A carta-testamento

A cópia da carta-testamento supostamente redigida por Manuel Buíça a 28 de Janeiro de 1909, quatro dias antes do regicídio [1] e o respectivo teor [2] são os que se seguem:

"Manuel dos Reis da Silva Buiça, viuvo, filho de Augusto da Silva Buiça e de Maria Barroso, residente em Vinhaes, concelho de Vinhaes, districto de Bragança. Sou natural de Bouçoais, concelho de Valpassos, districto de Vila Real (Traz-os-Montes); fui casado com D.Herminia Augusta da Silva Buíça, filha do major de cavalaria (reformado) e de D.Maria de Jesus Costa. O major chama-se João Augusto da Costa, viuvo. Ficaram-me de minha mulher dois filhos, a saber: Elvira, que nasceu a 19 de dezembro de 1900, na rua de Santa Marta, número... rez do chão e que não está ainda baptisada nem registada civilmente e Manuel que nasceu a 12 de setembro de 1907 nas Escadinhas da Mouraria, número quatro, quarto andar, esquerdo e foi registado na administração do primeiro bairro de Lisboa, no dia onze de outubro do anno acima referido. Foram testemunhas do acto Albano José Correia, casado, empregado no comércio e Aquilino Ribeiro, solteiro, publicista. Ambos os meus filhos vivem commigo e com a avó materna nas Escadinhas da Mouraria, 4, 4º andar, esquerdo. Minha família vive em Vinhaes para onde se deve participar a minha morte ou o meu desapparecimento, caso se dêem. Meus filhos ficam pobrissimos; não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e compaixão pelos que soffrem. Peço que os eduquem nos principios da liberdade, egualdade e fraternidade que eu commungo e por causa dos quaes ficarão, porventura, em breve, orphãos. Lisboa, 28 de janeiro de 1908. Manuel dos Reis da Silva Buiça. Reconhece a minha assignatura o tabelião Motta, rua do Crucifixo, Lisboa".

[1] in http://tt08.blogspot.com/2009/10/ainda-o-testamento-de-manuel-buica.html (retirado do site da Fundação Mário Soares)
[2] in http://veritas.blogs.sapo.pt/arquivo/1078876.html


Especulações possíveis

Segue-se uma das especulações a respeito da autenticidade do documento, do envolvimento de Aquilino Ribeiro na conjura ou da possibilidade da sua relação específica com o acontecimento de 1 de Janeiro.

Ontem, por esta hora, escrevia sobre o espanto que me causara a leitura da transcrição da Declaração de Manuel Buiça (autor dos disparos que a 1 de Fevereiro vitimaram o Rei D. Carlos e o seu filho e sucessor Príncipe D. Luís).

Recordando o que então escrevi - depois de ler a transcrição dessa Declaração, supostamente efectuada perante Tabelião quatro dias antes do dia do atentado, ou seja a 28 de Janeiro, estranhava:
a) Que o que ela tínha de anúncio da intenção de cometer um crime não fosse percebida pelo próprio oficial público que é o Tabelião;
b) Que Aquilino Ribeiro e outro tivessem tido intervenção como testemunhas da mesma declaração, associando-se como possível cumplice de forma infantil;
c) Que alguém produzisse antes dos factos e sem saber qual o seu desenlace, um documento que ficaria em poder de terceiros e que poderia constituir a prova provada da sua participação dos factos a acontecer, para além de poder desencadear a vigilância que comprometesse a viabilidade do plano.

Recordando o que então li e está escrito no livro "A Maçonaria e a Implantação da República" (pp. 229): "Recorde-se ainda que Manuel Buiça fizera testamento no dia 28 de Janeiro - «Apontamentos indispensáveis se eu morrer»: «Meus filhos ficam pobríssimos não tenho nada que lhes legar senão o meu nome e o respeito e a compaixão pelos que sofrem. Peço que os eduquem nos princípios da liberdade, igualdade e fraternidade que eu comungo e por causa dos quais ficarão, porventura em breve, orfãos."» Depois de transcrever essa parte da "Declaração" os autores do livro (Alfredo Caldeira e António Lopes) escreveram: "Serviram de testemunhas Aquilino Ribeiro, publicista, e Albano José Correia, empregado do comércio. O professor tinha dois filhos, Elvira, nascida em 1900, e Manuel, nascido e registado em 1907.".

Ontem e hoje andei um pouco às voltas com isto, fui desfiando os rumores da participação de Aquilino no atentado, fui encontrando quase sempre os mesmos argumentos e até um pedaço de documento atribuído ao espólio pessoal da Rainha D. Amélia, segundo o qual a esposa de um juiz de 1911 teria indicado àquela o nome de Aquilino como sendo um dos que aguardava no Largo do Corpo Santo pela eventualidade do insucesso da acção de Buiça e Alfredo Costa.
Porém a estranheza daquela Declaração continuava a sobrepor-se ao mundo novo de factos que começava a desenrolar-se a cada vez que puxava uma ponta do novelo.

Hoje, encontro cópia da Declaração em questão e da mesma resulta no essencial o seguinte:
a) Que Aquilino Ribeiro não foi testemunha (pelo menos oficial) da mesma e que só é referido no seu texto porquanto terá sido sim testemunha no registo civil do filho (Manuel) de Manuel Buiça;
b) Que a Declaração em questão não foi reconhecida (a letra e a assinatura de Manuel Buiça) pelo Tabelião no dia 28 de Janeiro de 1908 mas sim no dia 22 de Agosto desse mesmo ano, ou seja, mais de seis meses após a morte do próprio Buiça.
c) Que apesar da Declaração estar assinada com data de 28 de Janeiro de 1908 todos os seus selos, assim como a intervenção do próprio Tabelião Motta, tem a data de 22 de Agosto de 1908.

Com isto ficam afastadas todos os espantos da minha primeira estranheza que produziu uma sucessão de perguntas de que fui dando conta anteriormente e, assim, maçando como não consigo deixar de o fazer, quem teve a pachora de ir lendo o que para aqui fui deixando.


Dissipadas essas perguntas vêm agora outras:

a) Qual a razão deser daquela Declaração (qual o seu objectivo?).

Se o Manuel Buiça nada tem para deixar aos seus filhos, deixa-lhes um testamento de honra?. Um testamento em que regista a fórmula da carbonária e da maçonaria "Liberdade, igualdade, fraterninade" como razão de ser para o desaparecimento do pai?"

b) qual a razão para envolver no texto directamente Aquilino Ribeiro, a quem chama de "publicista" (qualificação que não é honrosa e que confirmaria os adjectivos que alguns lhe dispensaram como "pena mercenária" ao serviço da carbonária escrevendo três fascículos do seu primeiro romance - "A Filha do Jardineiro" - em jornal que pertencia ao outro regicida, Alfredo Costa, e através dos quais pretendia denegrir a imagem do Rei D. Carlos) no texto daquela Declaração.

c) Se - como li em vários lugares - Aquilino Ribeiro ficou depositário dessa carta - como explicar que a 22 de Agosto ela tenha sido reconhecida formalmente pelo Tabelião da Rua do Crucifixo. Quando nessa data Aquilino Ribeiro já estaria em Paris, "com o seu monóculo de janota"?

d) Por último se é certa a participação de Manuel Buiça numa intentona ocorrida precisamente a 28 de Janeiro de 1908 ("Intentona da Biblioteca") será que essa Declaração foi escrita visando a sua participação nessa acção e não no atentado de 1 de Fevereiro?

Esta última hipótese parece ganhar todo o sentido se tivermos presente que foi a tentativa de golpe agendada para 28 de Janeiro (na sequência da prisão de diversos líderes republicanos, entre os quais João Chagas) que desencadeou o Decreto fatídico para o Rei D. Carlos, através do qual o Governo de João Franco reagiu à descoberta desse mesmo golpe, em consequência do qual se realizaram diversas prisões e diversas fugas. Manuel Buiça esteve envolvido nessa tentativa de golpe que visava, também, a eliminação de João Franco. Logo, o mais provável é que a Declaração (a ter sido escrita por Manuel Buiça) tivesse em vista os acontecimentos de 28 de Janeiro e tivesse mesmo já sido escrita quando se temia que o golpe não triunfasse. Faz mais sentido que no próprio dia do golpe Manuel Buiça tenha escrito o que escreveu do que relacionar essa Declaração com o que aconteceu quatro dias depois, a 1 de Fevereiro.


Quanto ao resto, nomeadamente, quanto à razão pela qual a carta acaba por ser reconhecida mais de seis meses depois pelo Tabelião Motta, teria de se apurar quem a conservou e porquê. Uma coisa parece provável: quem procedeu ao seu reconhecimento (seis meses depois da morte quer do Rei quer do autor da Declaração) pretendeu associar aquela aos acontecimentos de 1 de Fevereiro e, eventualmente, associar a estes o próprio Aquilino Ribeiro. Mas é só - mais uma vez - uma especulação. Por outro lado sabe-se que foi realizada uma subscrição pública a favor dos filhos de Manuel Buiça, podendo também ser essa a razão pela qual a carta foi reconhecida e dada a conhecer, tornada pública como o foi.

Tiago Taron, in http://tt08.blogspot.com/ idem, 6 de Outubro de 2009