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sábado, 14 de abril de 2012

I Centenário do Naufrágio do Titanic

Por Leonel Salvado



Foi na noite e madrugada dos dias 14 e 15 de Abril de 1912, que se afundou o RMS Titanic, uma tragédia   resultou na morte de mais de 1.500 pessoas, o que levou a considerá-la como uma das piores catástrofes marítimas de todos os tempos. Desde logo, passou a fazer parte da Cultura Popular Universal, começando a servir de inspiração a muitos romances fictícios na Literatura, no Cinema e na TV, passando pela Música e vindo mais recentemente a ser explorado pelas produtoras de jogos de computadores.
Trata-se, efectivamente, de um acontecimento inesquecível que ainda suscita sentidas emoções e que nos cabe recordar aqui nesta ocasião do seu centésimo aniversário. Para tal irei transcrever um trabalho e pesquisa da autoria de Carlos Leite Ribeiro publicado no Portal “CEN – Cá Estamos Nós” que conta com a formatação de Iara Melo.

A tragédia
O Titanic era um paquete (navio transatlântico) britânico que, durante a sua primeira viagem se afundou na noite de 14 para 15 de Abril de 1912, depois de ter chocado com um icebergue a Sul da Terra Nova.



 Mais de 1500 pessoas pereceram nesse naufrágio. Em 1985, seus destroços foram localizados a 4000 metros de profundidade.
Ao anoitecer de 14 de Abril, o Comandante Smith mandou reforçar a vigia no mastro de proa (frente do navio), e fornecer binóculos.

Esses equipamentos não foram encontrados e os vigias tiveram que fazer o seu trabalho apenas com a sua visão. O Comandante Smith retirou-se para os seus aposentos e deixou no comando na ponte o Segundo Oficial Charles Lightoller, que mais tarde foi substituído pelo Primeiro-oficial William Murdoch.
A noite estava fria e calma, sem ondulação e sem vento. Somente a luz das estrelas e do Titanic iluminavam a escuridão. Às 22h30, a temperatura da água do mar era gélida, cerca de 0,5º abaixo de zero, o suficiente para matar por hipotermia uma pessoa em apenas vinte minutos.
Às 23h40, os vigias do mastro, Frederick Fleet e Reginald Lee, avistaram uma sombra mais escura que o mar à frente. A imensa sombra cresceu rapidamente e revelou ser um imenso iceberg na direcção do navio.
Imediatamente o pânico deu lugar aos reflexos e Fleet tocou o sino de alerta do mastro três vezes e ergueu o comunicador para falar com a Ponte de Comando. Preciosos segundos se perderam até que o comunicador foi atendido pelo Sexto Oficial Paul Moody onde Fleet gritou "Iceberg logo à frente". O Primeiro-oficial que ouvira e vira a imensa massa de gelo na direcção do navio, entrou na ponte de comando. Gritou, ordenando ao timoneiro Robert Hitchens "tudo a estibordo", e à casa de máquinas, "máquinas a ré toda a força".
Na ponte de comando e no mastro de proa, os tripulantes observaram inertes o imenso iceberg vindo em rumo de colisão. Na casa das máquinas, a correria foi grande. O vapor que estava a ser enviado para os motores tinha de ser fechado, a fim de parar os pistões.
Nas salas de caldeiras, os carvoeiros tiveram que parar de alimentar as fornalhas e abrir os abafadores das caldeiras. Quando os enormes pistões estavam quase parados, uma alavanca na base dos motores fora acionada para reverter os giros das hélices centrais, e então as válvulas tiveram que ser novamente acionadas para libertar o vapor para entrar nos motores que começaram a girar no sentido inverso.
A hélice central assim que fora acionado o reverso dos motores parou de funcionar, pois este não era acionado pelos motores do navio, mas por uma turbina que era alimentada pela sobra do vapor dos motores.
A proa do navio começa a deslocar-se do Iceberg, e 47 segundos após se ter visto o Iceberg, não se consegue evitar a colisão. Esta ocorre às 23h40, na Latitude 41º 46´N e Longitude 50º 14´W. Arestas do Iceberg colidem com o casco do navio, fazendo com que se soltem os rebites entre as placas de aço, resultando em pequenas aberturas no casco, tendo sido afetados mais de noventa metros de casco deixando abertos os 5 compartimentos estanques. Apenas 20 minutos depois, o convés já tinha começado a inclinar-se.
O vigia Fleet baixa-se no ninho da gávea do mastro de proa e sente o navio tremer e pedaços de gelo são arremessados ao convés da proa. O navio todo treme e na ponte de comando o oficial Murdoch aciona imediatamente o encerramento das portas estanques. Nos porões de carga do navio, a água jorra com imensa força.
Seguiu-se então um estrondo e a água do mar rompeu por toda a lateral da sala de caldeiras número seis. As primeiras vítimas foram cinco operários que lutavam para manter seguras as correspondências na sala de correios inundada logo após a colisão. Morreram todos afogados tentando salvar as cartas que rumavam para a América a bordo do navio. Com o abanão provocado pela colisão, muitos passageiros acordaram.
O Comandante Smith dirigiu-se imediatamente para a ponte de comando e foi informado do ocorrido. Ordenou imediatamente a paragem total das máquinas. Com a paragem das máquinas, um barulho ensurdecedor é ouvido na área externa do navio, devido à grande quantidade de vapor expelido. O Comandante Smith chamou o Engenheiro-chefe, Thomas Andrews, e solicitou um exame das avarias.
Após alguns minutos, Andrews selou o destino do Titanic dizendo: "O navio vai afundar, temos menos de duas horas para evacuá-lo".
Bruce Ismay, Presidente da White Star Line e o Comandante Smith mostraram-se incrédulos com o relato. "O Titanic não pode afundar" - menciona Ismay - "é impossível ele afundar".
Haviam sido atingidos 5 compartimentos estanques.

Com quatro compartimentos, o Titanic ainda conseguiria flutuar, mas o peso de cinco compartimentos cheios de água a proa inundaria, fazendo com que a água atravessasse para os outros compartimentos, por cima das portas estanques. A água do sexto compartimento passaria para o sétimo compartimento, depois para o oitavo compartimento, e assim por diante.


O colossal paquete
Origem do nome Titanic: na mitologia grega, os Titãs eram uma raça de gigantes semelhantes a deuses que eram considerados personificações das forças da natureza. Eles eram os doze filhos (seis irmãos e seis irmãs) de Gaia e Uranus. Cada filho casou-se ou teve filhos de uma de suas irmãs. Eles são: Cronus e Rhea, Lapetus e Themis, Oceanus e Tethys, Hyperion e Theia, Crius e Mnemosyne, e Coeus e Phoebe. Um dos Titãs chamava-se exactamente Oceanus.

 O RMS Titanic foi um navio transatlântico da Classe Olympic operado pela White Star Line e construído nos estaleiros da Harland and Wolff em Belfast, Irlanda. Até ao seu lançamento em 1912, ele foi o maior navio de passageiros do mundo.[...]


O Titanic provinha de algumas das mais avançadas tecnologias disponíveis da época e foi popularmente referenciado como "inafundável" - na verdade, um folheto publicitário de 1910, da White Star Line, sobre o Titanic, alegava que ele fora "concebido para ser inafundável".
Foi um grande choque para muitos que, apesar da tecnologia avançada e experiente tripulação, o Titanic ainda afundou com uma grande perda de vidas humanas. Os meios de comunicação social sobre o frenesi de vítimas famosas do Titanic, as lendas sobre o que aconteceu a bordo do navio, as mudanças resultantes do direito marítimo, bem como a descoberta do local do naufrágio em 1985 por uma equipe liderada pelo Dr. Robert Ballard fizeram a história do Titanic persistir famosa desde então.

O Titanic foi um transatlântico da White Star Line, construído nos estaleiros da Harland e Wolff, em Belfast, Irlanda destinado a competir com os navios Lusitania e Mauretania da empresa rival Cunard Line.


O Titanic, juntamente com os seus irmãos da classe Olympic, o Olympic e o ainda em construção Britannic (originalmente chamado de Gigantic), se destinavam a ser os maiores e mais luxuosos navios a operar.
Os projectistas foram William Pirrie, director de ambas as empresas Harland and Wolff e White Star, o arquitecto naval Thomas Andrews, gerente de construção e chefe do departamento de design da Harland and Wolff  e Alexander Carlisle, o projectista chefe e gerente geral do estaleiro do Titanic.
Carlise sugeriu que se usasse no Titanic turcos maiores que poderiam dar ao navio um potencial de transporte de 48 botes salva vidas; isso seria o bastante para acomodar todos os passageiros a bordo. No entanto, a White Star Line, concordando com a maioria das sugestões, decidiu que apenas 16 botes salva vidas de madeira (16 sendo o mínimo permitido pelas leis da época, baseada na tonelagem projectada do Titanic) seriam transportados (também havia quatro botes salva vidas desmontáveis) que no total poderiam acomodar apenas 52% das pessoas a bordo.
A construção do RMS Titanic, financiada pelo americano J.P. Morgan e sua companhia International Mercantile Marine Co., começou em 31 de Março de 1909. O casco do Titanic foi lançado no dia 31 de Maio de 1911, e sua equipagem foi concluída em 31 de Março do ano seguinte.


O Titanic tinha 269,10 metros de comprimento e 28 m de largura, uma tonelagem bruta de 46,328 toneladas, e uma altura da linha d'água até o deck de botes de 18 metros. O Titanic continha dois motores de quatro cilindros de expansão tripla, invertido com motores a vapor e uma turbina de baixa pressão Parsons de três hélices.
Havia 29 caldeiras alimentadas por 159 fornos de carvão à combustão que tornaram possível a velocidade máxima de 23 nós (43 km/h). Apenas três das quatro chaminés de 19 metros de altura eram funcionais; a quarta chaminé servia apenas para ventilação; foi adicionada para dar ao navio um olhar mais impressionante.
O navio podia transportar um total de 3,547 pessoas, entre passageiros e tripulação e, por transportar correio, usava o prefixo RMS (de Royal Mail Steamer), bem como SS (Steam Ship).
Ele ofereceu uma piscina a bordo, um ginásio, banho turco, bibliotecas, tanto em relação à primeira e a segunda classe, squash e um tribunal. As salas da Primeira classe eram enfeitadas com detalhes em madeira, móveis e outras decorações caras. Além disso, o Café Parisiense oferecia cozinha de primeira classe para os passageiros, com uma varanda de pôr-do-sol equipada com decorações trellis.


O navio incorporou recursos avançados tecnologicamente, para sua época. Tinha um extenso subsistema eléctrico alimentado com geradores de vapor para iluminação total do navio.
Ele também ostentou dois telégrafos Marconi sem fio, incluindo um rádio de 1500 watts de potência tripulado por operadores de rádio que trabalharam em turnos, permitindo o contacto e a transmissão de mensagens de muitos passageiros.




quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Memorial da “Terra Mágica” – LM, Moçambique V

Parque Silva Pereira
Por Manuel Terra, 1 de Dezembro de 2011


 Neste rol de evocações que se vão sucedendo, a ufania da minha juventude tocada pelos bons momentos e instantes de felicidade vividos em L. M., relembra-me as passagens quase diárias pelo Parque Silva Pereira (hoje Jardim dos professores) zona verde, muito tropical procurado em tardes solarengas por muitos alunos que frequentavam o Liceu Salazar (hoje Escola Secundária Josina Machel) no início da Av. Brito Camacho (hoje Patrice Lumumba) e que se situava mesmo defronte do parque. Contrariamente ao apelido atual, naquele tempo era o verdadeiro jardim dos estudantes que apenas tinham que atravessar a passadeira, para atingirem a encantadora zona bem orlada de árvores e canteiros. Ao fundo o seu belo miradouro coberto de trepadeiras, de onde era possível deslumbrar o olhar contemplando no horizonte, a majestosa Baía Espírito Santo, os navios que cruzavam as suas águas e a íngreme barreira da Maxaquene. A vegetação verdejante do parque, marcada pela beleza multicolor das suas plantas, contrastava familiarmente com os bancos já gastos pela torreira do sol ou a impiedade da chuva e, todos lhes davam uma importância muito especial tornando-o num ponto de convergência de muitos miúdos e adolescentes, que de pasta na mão aguardavam com tranquilidade, mais um dia de aulas. Era seguramente, um local de lazer e de estudo e que servia de igual modo para os mais novos descarregarem a adrenalina e os mais espigadotes trocarem olhares amorosos, com as moças que se posicionavam nos varandins da ala feminina do liceu. Ali tinham lugar habituais pândegas académicas, que escondiam muitas emoções e histórias proibidas. Fazia parte da rotina dos sábados no parque, as atividades da Mocidade Portuguesa organização vincada por uma estrutura pré-militar, integrada como disciplina obrigatória regida de inexorável pontualidade, decretada pelo toque da ruidosa campainha que se fazia ouvir no átrio do estabelecimento de ensino. Passava-mos meia manhã encafuados em fardamentos de camisa verde escura e calção de caqui, bivaque na cabeça marchando e em exercícios físicos, seguidos com natural curiosidade por pedestres que por ali circulavam. O parque tornara-se também itinerário quase obrigatório de turistas, que viajando por vários continentes, se hospedavam no vizinho Hotel Cardoso e que em momentos de visível descontração se deitavam sobre a relva ou tiravam fotografias de grupo. São estes factos uma constante da vida, recordações de um tempo áureo que deixa marcas e que me obriga a constantes divagações por vias do passado.
In http://terramagica-terra.blogspot.com

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Memorial da “Terra Mágica” – LM, Moçambique IV

Bairro S. José
Por Manuel Terra, 14 de Abril de 2011

São sempre momentos de imenso prazer, imbuídos de grande sensibilidade referenciar espaços que representaram um ponto de encontro da minha juventude, com aquela Lourenço Marques de que todos falam com brilhante entusiasmo. É verdade que  a cidade era a expressão própria de um paraíso prometido que se estendia desde o núcleo central até às zonas periféricas,   dormitório de gente simples que muito cedo, ainda a noite celeste cobria a urbe, já se avistava de sorriso nos lábios a dirigir-se para as paragens dos machimbombos, procurando chegar bem rápido aos locais de emprego para garantir o pão-nosso quotidiano. Eram exemplo disso os moradores do Bairro de S. José que nasceu nos primórdios do século XX, caraterizado  por casas típicas  térreas meias escondidas por árvores frondosas já com alguma longevidade. Por ali passava a Av. do Trabalho e de lá desembocavam saídas para a Matola, Bairro do Jardim, Vale do Influene , Choupal e o jovem Bairro de Benfica. Os primeiros habitantes do Bairro de S. José, criaram porventura por devoção ao Santo um vasto espaço  para ação eclesiástica mandando construir uma igreja  a preceito e uma missão católica para a difusão do ensino, por onde passaram milhares de alunos de todas as raças, com o lema de formarem homens que se tornaram amigos para sempre. Bem me lembro que ao lado do templo, se situava o campo de Futebol em terra batida, vedado com traves de madeira onde o Grupo Desportivo de S. José se treinava, no tempo em que se jogava por amor à camisola. Tratava-se de uma equipa popular que atuava no escalão secundário, do Campeonato Distrital. Aos domingos a mocidade irrequieta, com  grande aprazimento jogava futebol desde o romper da aurora até ao pôr-do-sol, regressando a casa ofegantes e a suar. Alguns deles vieram a fazer carreira em clubes portugueses, casos de Calton e Zeferino. Nos meados da década 60 foi inaugurado muito próximo das instalações da Missão, com pompa e circunstância o moderno Colégio D. Bosco dirigido por padres salesianos, que colocavam quase pelos modos a educação e o desporto no mesmo patamar, nutrindo pela prática do hóquei em patins um carinho muito especial. Criaram um ringue de patinagem e inscreveram o colégio nas provas federadas, gesto de incondicional apoio à modalidade. Dava gosto ver a organização daquele grupo, que desenhavam em campo rendadas jogadas de fazer furor junto dos simpatizantes e eram incondicionalmente na década 70, os dignos sucessores dos grandes hoquistas moçambicanos que 1958, deslumbraram Montreux. Ainda recordo da equipa do Colégio D. Bosco  os jovens promissores  Araújo, Afonso e o meu amigo Anselmo (Infelizmente já falecido). Tenho presente o Bairro de S. José pelos melhores motivos, onde contava com alguns amigos e não esqueço que os adolescentes, tinham como prática comum naquelas cálidas noites de verão sentarem-se nos muros das casas entoando músicas da moda, fazendo soltar das violas sons musicais que indiciavam vocações perdidas, em entretimentos que tardavam acabar. São estas memórias que fizeram parte de muitos dias da minha vida, que criaram laços de afeição aquela terra tropical. É natural que depois da separação, sempre assim aconteça.

In http://terramagica-terra.blogspot.com

sexta-feira, 20 de maio de 2011

734.º Aniversário da morte do papa português, João XXI

Por Leonel Salvado

Papa João XXI (Pedro Hispano) | Aljodasch, http://wikipedia.org

Mais conhecido por Pedro Hispano, recebeu no baptismo o nome de Pedro Julião. Ignora-se a data e o local exactos do seu se nascimento, aventando-se que tenham sido entre 1205 e 1220 em Lisboa, havendo quem sugira que na actual freguesia de S. Julião. A sua paternidade é também controversa, defendendo alguns autores que tenha nascido do médico João Rebelo, de quem teria herdado a profissão, e de Teresa Gil, pretendendo outros que tenha sido filho do chanceler de D. Sancho I, o Mestre Julião Pais. Terá, portanto, nascido após menos de um século da conquista de Lisboa e vivido durante os reinados de D. Afonso II, D. Sancho III e D. Afonso III.

Pedro Hispano Iniciou os seus estudos na escola da catedral de Lisboa prosseguindo-os mais tarde na Universidade de Paris (ou Montpellier – dividem-se mais uma vez os historiadores), adquirindo uma sólida formação escolástica nas áreas da medicina, teologia, lógica e dialéctica bem como na área da física e metafísica aristotélica. Entre 1246 e 1252 foi professor de Medicina na Universidade de Siena, granjeando grande fama pela manifestação da sua vasta e diversificada cultura científica, tanto na docência como na publicação de tratados de medicina de filosofia e de Teologia que serviram de primordial referência nas universidades europeias durante os séculos que se seguiram de predominância cultural escolástica.
Entre 1250 e 1258 já havia ingressado no sacerdócio, em Portugal, pois, como refere Joaquim Veríssimo Serrão, entre estas duas datas «confirma-se a sua presença no Reino, como deão da sé de Lisboa e arcediago de Braga, figurando nas Cortes de Guimarães daquele ano e assinando como testemunha em várias cartas de Afonso III.» Ainda segundo este historiador, «também se pode assentar a sua presença nas Cortes de Leiria de 1254» e «no fim de 1257 viu aceita pelo Papado a sua apresentação para prior da Igreja de Santa Maria de Guimarães» e ainda «em Junho de 1258, chamado agora Pedro Julião, estava junto do monarca na mesma vila. [1] Em 1271 o cabido da sé de Braga elegeu-o para esta arquidiocese e em 1273 foi elevado a cardeal-arcebispo de Tusculum, nas proximidades de Roma, sendo, aí, em 1275 nomeado médico principal do Sumo Pontífice, Gregório X e, a 13 de Setembro de 1276, em conclave realizado em Viterbo, é eleito papa e coroado a 20 de Setembro, adoptando o nome de João XXI, adopção esta que se costuma considerar ter sido por lapso, uma vez que não existiu papa algum com o nome de João XX. [2]

O seu pontificado decorreu até 16 de Maio do ano seguinte quando, sentindo-se mal, delegou no cardeal Orsini (futuro Nicolau III) e retirou-se para o palácio apostólico de Viterbo, em cujo aposento, estando em obras, se recolheu e veio a encontrar a morte devido ao desabamento das paredes. Inicialmente sepultado na catedral de S. Lourenço, em Viterbo, os seus restos mortais foram trasladados no século XVI para um humilde túmulo e esquecidos, até que a 28 de Março de 2000, por intervenção do Presidente da Câmara de Lisboa, João Soares, e com o contributo do mesmo Município, foram finalmente depositados num decente mausoléu no interior da catedral. Foi o 188.º Papa, antecedido por Adriano V e sucedido por Nicolau III.

Acerca da acção do papa português, João XXI, durante o seu curto pontificado transcrevemos as seguintes considerações:

João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressa-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera.
Embora sem grande sucesso, leva por diante a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente. Esforça-se por libertar a Terra Santa em poder dos turcos.
Tenta reconciliar grandes nações europeias, como França,  Alemanha e Castela, dentro do espírito da unidade cristã. Neste sentido, envia legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou, sem sucesso.
Pontífice dotado de rara simplicidade, recebe em audiência tanto os ricos como os pobres.  Dante Alighieri, poeta italiano (1265-1321), na sua famosa ‘Divina Comédia’, coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a alma de São Boaventura, apelidando-o de "aquele que brilha em doze livros", menção clara a doze tratados escritos pelo erudito pontífice português. O rei aragonês Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de D. Dinis de Portugal, elogia-o em forma de canção no "Paraíso", canto XII. Mecenas de artistas e estudantes, é tido na sua época por 'egrégio varão de letras', 'grande filósofo', 'clérigo universal' e 'completo cientista físico e naturalista'.

In http://pt.wikipedia.org



Convém que se diga que algumas das obras atribuídas à autoria de Pedro Hispano têm encontrado inúmeras objecções, principalmente as Summulæ Logicales (ou Tractatus), 
uma obra filosófica que durante trezentos anos valeu como compêndio de Lógica nas Universidades europeias e de certa forma também as obras  Scientia libri de anima¸ Commentarium in De anima e Thesaurus pauperum, para além da Expositio librorum Beati Dionysii, esta última uma um tratado de Medicina. A polémica, ao que parece, está para continuar.

Fontes:

[1] SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, 3.ª Ed. Vol I, Verbo, 1979, p. 234

[2] Pedro Hispano (Papa João XXI). In Infopédia. Porto: Porto Editora, 2003-2011.
       


Para uma análise da obra filosófica e médica de Pedro Hispano clique AQUI.

Para uma análise da polémica a propósito das obras atribuídas à autoria de Pedro Hispano clique AQUI e AQUI.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Fogueira com elas

Bruxas, feiticeiras e outras endemoninhadas

Milhares de supostas bruxas (e bruxos) foram torturadas e condenadas a morrer na fogueira pela Igreja e por tribunais civis, apoiados no medo e na superstição. Aconteceu numa Europa Central assolada pelas guerras religiosas e fustigada pela fome e pela doença. De pé no pátio do castelo, um acusado de bruxaria aguarda o veredicto. O toque dos sinos é lúgubre. “São verdadeiras as acusações?”, pergunta o alcaide ao réu. Com um quase inaudível “sim”, o homem admite aquilo que o obrigaram a confessar. Sabe que, se desmentir, voltará ao cárcere e será submetido a novas torturas. O cura profere um sermão sobre a bondade divina e a férrea determinação que os fiéis devem manter contra as artes de­mo­nía­cas. Depois, o escrivão lê a sentença e o preso é entregue ao carrasco. Todo o povo está presente, incluindo crianças. Após a execução, as personalidades importantes dirigem-se ao salão do castelo para o banquete, pago com os bens da vítima. Era assim, na forca ou nas chamas purificadoras da fogueira, que a cidade helvética de Neuchâtel acabava com os seus bruxos e bruxas. A Suiça possui a duvidosa honra de ser o país com mais vítimas acusadas de bruxaria em relação à respectiva população: uma por cada 250 habitantes. Um total de 4000 pes­soas foram condenadas e assassinadas porque legisladores, juízes, políticos, curas e intelectuais consideravam que tinham estabelecido um pacto com o diabo. Comparativamente, Portugal, com uma demografia semelhante, apenas executou quatro cidadãos durante os três séculos que durou a caça às bruxas. Em termos absolutos, é a Alemanha que leva a palma, com 25 mil condenações à morte, seguida da comunidade da Polónia-Lituânia (dez mil). No período que vai de 1450 a 1750, “a degradação esmagou a honradez, as paixões mais baixas foram camufladas com a cobertura da religião e o intelecto do homem desculpou selvajarias; a bruxaria destruiu os princípios da honra e da justiça”, opina o historiador britânico Rossell Hope Robbins. Tem razão: em Inglaterra, um juiz do Supremo Tribunal fechou os olhos ao perjúrio evidente cometido por uma testemunha de acusação; na Alemanha, um magistrado, rejeitado por uma mulher a quem fizera propostas desonestas, acusou a irmã de ser bruxa, torturando-a e queimando-a na fogueira nesse mesmo dia; em Boston, uma pobre imigrante que só falava gaélico irlandês e rezava em latim morreu na forca por não saber dizer o Pai Nosso em inglês.

De curandeiros a demónios As supostas bruxas (80 por cento das vítimas eram do sexo feminino) não eram como aquelas velhas corcundas e desdentadas que preparam poções nos contos infantis. Aos olhos de leigos e clérigos, estas damas diabólicas pertenciam a uma poderosa organização que trabalhava sem descanso para subverter a religião e pôr fim ao reino de Deus. A brutal mudança de percepção surgiu no Renascimento. Anteriormente, os bruxos faziam parte da rede social e “a feitiçaria correspondia ao desejo de dominar a Natureza em quatro aspectos principais: a saúde, o sexo, o conhecimento do futuro e a ambição económica”, afirma Joseph Pérez, historiador da Universidade de Bordéus (França). Habituais no meio rural, os feiticeiros desempenhavam o papel de curandeiros, dada a escassez de médicos, e viviam da venda de poções naturais e amuletos da sorte. Sem preparação intelectual, os seus conhecimentos sobre as plantas decorriam da tradição e da experiência; eram autênticos depositários da cultura popular. Porém, tudo isso mudou no século XV. A Europa fora arrasada pela peste negra e, em 1494, surgiu uma nova epidemia que iria atingir um milhão de cidadãos: a sífilis. Entretanto, reis e governantes mergulhavam os seus países num ciclo constante de conflitos. À Guerra dos Cem Anos (1337–1453), entre a França e a Inglaterra, seguiram-se sangrentos confrontos entre católicos e protestantes e a Guerra dos Trinta Anos, que devastou a Europa Central entre 1616 e 1648. A tudo isso é preciso somar períodos de seca e de fome, óbitos por falta de higiene, etc... Um cenário desolador para uma população dominada pelo receio de penúrias e desastres aparentemente sem explicação. Nesse contexto, a Reforma religiosa serviu de trampolim para eliminar os vestígios de paganismo que subsistiam no meio rural e serviam de alimento à feitiçaria. Em vez de reciclar as velhas crenças, como fez o cristianismo primitivo, tanto católicos como protestantes decidiram atacá-las e declará-las uma herança de Satanás. Lutero defendeu que se queimasse os seus praticantes, e os luteranos estenderam por toda a Alemanha a caça à bruxas, enquanto o calvinismo impôs na Escócia, em 1563, a primeira lei antibruxaria.

Sinistras criaturas Por se tratar de um conceito ideológico difícil de demonstrar, a bruxaria foi declarada crimen excepta, delito excepcional não abrangido pelas garantias processuais. Constituía uma traição a Deus e devia ser, como tal, severamente punida: “Nenhum castigo que impunhamos às bruxas, mesmo que seja assá-las e cozê-las em lume brando, será excessivo”, escrevia Jean Bodin, jurista francês do século XVI. Este indivíduo demonstrou o seu fanatismo no livro Demonomania dos Bruxos (1580), no qual deixou escritas pérolas como “há que obrigar as crianças a testemunhar contra os pais”, “a suspeita é suficiente fundamento para a tortura” ou “nunca se deve absolver uma pessoa depois de ter sido acusada”. No seu entender, a melhor maneira de infundir temor a Deus era com “ferros ao rubro para arrancar a carne putrefacta”. Como se tivessem lido Bodin, as filhas do latifundiário inglês Robert Throckmorton destruíram para sempre a vida da família constituí­da por John e Alice Samuel e pela sua filha Agnes, seus vizinhos na povoação de Warboys. Esses monstrinhos, liderados por Jane, de dez anos, fingiam ataques de epilepsia quando Alice surgia e conseguiram convencer os juízes, com o apoio de um médico de Cambridge, de que esta lhes lançara uma maldição. As meninas acusaram igualmente a família Samuel de ser responsável pela morte de Lady Cromwell, casada com o homem mais rico de Inglaterra e conhecida dos Throckmorton. John, Alice e Agnes foram declarados culpados de assassínio por feitiçaria. O chamado “caso das bruxas de Warboys” contribuiu para impulsionar a lei de 1604 que estabelecia a pena de morte para a bruxaria. Em França, o fenómeno esteve mais associado ao sexo. O episódio das freiras de Luoviers, na Alta Normandia, deveu-se aos excessos do capelão de um mosteiro de irmãs franciscanas da ordem terceira. Quando a jovem Madeleine Bavent ingressou, em 1623, descobriu que o pai espiritual do convento era adepto de uma heresia que defendia que se devia adorar Deus sem roupa, como Adão e Eva. “As monjas despiam-se e dançavam na sua frente. Ele obrigava-nos a dar abraços voluptuosos; testemunhei a circuncisão num falo enorme que algumas monjas agarraram em seguida para satisfazer os seus caprichos”, escreveu Madeleine. Ela negava-se a participar em tais práticas, mas o cura Mathurin Picard violou-a e deixou-a grávida. As orgias prosseguiram até 1642, quando a morte de Picard desencadeou a histeria. Receosas de que tudo fosse descoberto, 14 das 52 freiras do convento começaram a fingir possessão demoníaca e acusaram Madeleine de as ter enfeitiçado. Esta foi torturada e condenada à prisão perpétua numa masmorra insalubre, onde recebia apenas pão e água de três em três dias. Em 1647, não conseguiu resistir mais e morreu na prisão. O desfecho teria sido outro se os juízes franceses tivessem visto o que aconteceu no Convento das Beneditinas de São Plácido, em Madrid, em 1628. Entre os seus muros, o diabo ter-se-ia apoderado de 25 freiras. Todavia, o inquisidor Diego Serrano comprovou que não estavam possessas, mas eram doentes mentais: não necessitavam de exorcismos, mas de cuidados médicos. Francisco Garcia Calderón, confessor do mosteiro, foi preso por manter relações sexuais com as religiosas. “Não devemos, senhor, estar com rodeios neste assunto: não houve, nem há, outros demónios que não sejam os frades”, escreveu Serrano, com lucidez, ao inquisidor-geral. A bruxomania instalou-se durante dois séculos na mente de clérigos, juízes, governantes e filósofos, os quais sufocaram na forca e na fogueira o espírito crítico de que costumavam fazer gala. A ciência incipiente que chegava pela mão de Galileu e Newton foi substituída por uma assombrosa credulidade. Como podiam pessoas instruídas acreditar em semelhantes disparates? O magistrado papal Paulo Grillandi chegou a explicar por que motivo uma bruxa, alegadamente capaz de mudar de forma e de passar pelo buraco de uma fechadura, não podia escapar da prisão: “Já que o demónio se apoderou dela, Satanás deseja que seja executada, pois assim não poderá arrepender-se e livrar-se do demónio.”

Um recurso financeiro Joseph Pérez aponta o dedo ao velho fascínio humano pelo demoníaco, mas também não nos devemos esquecer de que a bruxaria era um óptimo negócio. Como os tribunais do início do século XVII tinham de ser auto-suficientes, os condenados por feitiçaria (ou os seus familiares) pagavam do seu bolso cada acto de punição e cada banquete dos juízes, mesmo aqueles que eram declarados inocentes, como aconteceu, em 1676, com a alemã Chatrina Blanckenstein, a qual foi brutalmente torturada com empolgadeiras (que esmagavam os dedos das mãos e dos pés), no potro, com cunhas e com cordas de esfolar. Apesar disso, a mulher não confessou e o processo foi suspenso, mas não sem antes ter de pagar as custas do seu calvário. Não é de estranhar que, na Alemanha, onde os bens eram confiscados de forma sistemática, se tenham instaurado processos contra mulheres abastadas. Quando Fernando II (1578–1637) proibiu as confiscações por considerá-las um negócio sujo, o número de execuções diminuiu. Mesmo assim, houve casos notórios, como o do burgomestre de Bamberg, Johannes Junius, vítima da caça às bruxas promovida pelo eleitor da Saxónia, João Jorge II, o qual ordenou que se queimassem vivas cerca de 600 pessoas. Em 1628, antes de morrer na fogueira, Junius escreveu à filha para lhe contar como sofrera o suplício da polé, e como o carrasco lhe rogava para confessar algo, mesmo que fosse inventado, pois não parariam até admitir que era bruxo. É verdade que algumas mentes lúcidas ficaram horrorizadas com estas perversões. “Escutai-me, juízes famintos de dinheiro e fiscais sedentos de sangue: as aparições do diabo são mentira”, escreveu, no século XVII, o teólogo luterano Johann Meyfarth. Tinha presenciado centenas de processos por bruxaria e vira o modo como os verdugos se deleitavam com o suplício das vítimas. Meyfarth foi buscar as suas ideias a um compatriota, o jesuíta alemão Friedrich Spee von Langenfeld, que publicara, em 1631, de forma anónima, Cautio criminalis, onde confessava o seguinte: “Se não somos todos bruxos, é porque ainda não fomos sujeitos aos tormentos; o próprio Papa, submetido à tortura, confessaria que também ele era bruxo.”

Procura-se hereges frescos Durante a Idade Média, a feitiçaria era considerada a arte dos malefícios e encantamentos, sendo apenas punida com a morte se produzia efeitos nefastos, mas, depois, começou a ser entendida como uma traição a Deus. “Quem inventou e propagou a bruxaria foi a Inquisição”, afirma o historiador Rossell Hope Robbins; o Santo Ofício, na sua opinião, necessitava de uma nova heresia, depois de eliminados os albigenses e outros dissidentes do Sul de França. “A bruxaria foi criada para preencher esse vazio”, acrescenta. Serviu também para aumentar o número de hereges e as receitas. Todavia, a Inquisição em breve perdeu o controlo processual sobre a bruxaria herética, excepto em Espanha e em Itália, onde constituía uma poderosa organização centralizada que, surpreendentemente, agiu mais em defesa das bruxas do que como parte da acusação. O instrumento que legitimou o início da caça às bruxas foi a bula Summis desiderantes affectibus (1484), de Inocêncio VIII. Esse papa, que passou os últimos meses da sua vida a ser amamentado com o leite de uma mulher e que os médicos tentavam rejuvenescer com transfusões de sangue que levaram três jovens para o túmulo, foi responsável por abolir o Canon episcopi, de 906. O documento exprimia a posição oficial da Igreja, segundo a qual a bruxaria era uma superstição; era heresia acreditar nela. Graças a Inocêncio VIII, passou a ser herege quem não acreditasse nessas coisas. A bula reforçou os poderes de dois inquisidores alemães, os dominicanos Heinrich Kramer e Jakob Sprenger, que estavam dispostos a acabar com a seita dos valdenses no vale do Reno. Tinham finalmente ensejo de punir severamente esse movimento herético, que acusaram de feitiçaria; em 1486, publicaram a obra que seria uma referência obrigatória durante 200 anos: o Malleus Maleficarum (“martelo das bruxas”, no feminino, pois era considerada um assunto de mulheres). “O antifeminismo medieval tem as raízes assentes numa antiga tradição cristã”, afirma Joseph Pérez. Na obra Formicarius (1475), o teólogo alemão Johan­nes Nider insistia no papel preponderante da mulher na bruxaria. A ideia de que as mulheres eram seres expostos às tentações e, por conseguinte, perigosas já tinha sido manifestada por Santo Agostinho e subsistia no século XVIII, como demonstra, por exemplo, o Diccionario de Autoridades (o primeiro publicado pela Real Academia de Espanha), que descreve deste modo os praticantes de bruxaria: “São mais vulgares as mulheres, pela sua superficialidade e fragilidade, pela luxúria e pelo espírito vingativo que nelas costuma reinar.” A morte da razão provocada pelos julgamentos sumários por bruxaria encontra a sua vertente mais dolorosa nesta confissão de um torturado à mulher que denunciou: “Nunca te vi num conciliábulo de bruxos, mas tinha de acusar alguém para acabar com os tormentos. Lembrei-me do teu nome porque, quando me levavam para a prisão, encontrámo-nos e disseste que nunca terias acreditado numa coisa assim contra mim. Peço-te perdão, mas, se voltassem a torturar-me, voltaria a acusar-te.” Talvez se pudesse pensar que a barbárie foi apenas produto da ignorância que reinava naqueles tempos obscuros, mas não é assim. Efectivamente, a caça às bruxas permaneceu activa, sob outras formas, até tempos recentes. O ser humano nunca esteve a salvo, em nenhum momento da história, de voltar as costas à razão. Se não permanecermos alerta, qualquer um de nós poderá, em qualquer altura, acabar por acreditar na maior loucura. Nunca é demais recordar as sábias palavras de um arcebispo do século IX: “Este miserável mundo jaz, hoje, sob a tirania da estupidez. Os cristãos acreditam em coisas tão absurdas que seria impossível fazê-las crer aos infiéis.” Caça fina Apesar da fama da Inquisição espanhola, a verdade é que a caça às bruxas foi relativamente benigna. Segundo Joseph Pérez, o país teve menos processos por bruxaria do que na Europa, e a maioria das sentenças foram leves: desterro, açoites, prisão, quase nunca execuções. O auto de fé mais famoso foi o de Logroño, em 1610, contra as bruxas de Zugarramurdi, no qual foram processadas 40 habitantes daquela aldeia navarra; 12 foram condenadas à morte na fogueira. Os testemunhos basearam-se em superstições e invejas e os inquisidores deixaram-se levar pela histeria social e pelo caso da vizinha comarca francesa de Labourd, onde o jurista Pierre de Lancre tinha condenado 80 pessoas. Em geral, segundo Pérez, “a Inquisição espanhola tentou encontrar explicações racionais para o comportamento das bruxas, enquanto no resto da Europa a credulidade dos juízes enviou milhares de mulheres para a morte”. Para aquele hispanista, esse comportamento diferente deveu-se ao facto de Espanha ter escapado às guerras religiosas que assolaram o continente. Por outro lado, a Inquisição estava demasiado ocupada a perseguir os mouriscos, os marranos e os luteranos, pelo que foi mais branda com a bruxaria, que não era considerada uma heresia em sentido estrito. Os processos de Salem Em 1692, o diabo fez escala numa povoa­ção do Massachusetts chamada Salem. Tratava-se de uma comunidade puritana que se regia por uma rígida e fanática religiosidade, com cada habitante a vigiar o comportamento alheio. Era nesse contexto que um grupo de raparigas se reunia para escutar as histórias fantásticas narradas por Tituba, uma escrava do reverendo Samuel Parris. As mais novas do grupo, Elizabeth, de nove anos e filha do clérigo, e Abigail Williams, de onze, começaram a sofrer convulsões e a desafiar e desobedecer a pais e familiares. Os seus ataques histéricos inspiraram as outras jovens. Estavam a ser, supostamente, perseguidas por espectros, e transformaram em bodes expiatórios as pessoas que mais antipatia despertavam na comunidade. Depois, estenderam as acusações aos restantes cidadãos: ninguém estava a salvo. Os juízes do processo acreditavam que tudo se devia à acção do demónio e usaram as jovens como autênticos “detectores de bruxaria”: qualquer pessoa que indicassem era acusada, mesmo na ausência de quaisquer provas. Foram detidos 31 indivíduos (dos quais 25 eram mulheres), condenados à morte para evitar “a ira de Deus”. A escrava Tituba foi encarcerada por tempo indeterminado, sem julgamento. Catorze anos depois, uma das jovens, Ann Putnam, confessou que tudo não passara de uma farsa, orquestrada, como não podia deixar de ser, pelo demónio. SUPER 154 - Fevereiro 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Há 218 anos: Execução de Luís XVI na guilhotina – uma infeliz ironia da história?

Luís XVI sobe ao cadafalso – autor desconhecido,
in http://www.pliniocorreadeoliveira.info
No dia 21 de Janeiro de 1793, no contexto da Revolução Francesa, Luís XVI, rei de França era executado pela guilhotina na Praça da Revolução depois de ter sido acusado de traição pelo Comité de Segurança Pública e Tribunal Revolucionário por ter liderado um movimento de contra-revolução que obrigou os revolucionários da ala mais radical a preparar uma nova Assembleia Nacional Constituinte, dando origem a um regime de terror conhecido como a Convenção cujos instrumentos de auto-defesa do governo contra a oposição foram as referidas instituições que determinaram aquela execução. Este acontecimento, apenas mais um de muitos exemplos da acção do terror da Convenção, tem sido classificado por alguns historiadores sensacionalistas como uma das mais “incríveis” ironias da História. Numa separata da revista portuguesa “Super Interessante” (nº64 de Agosto de 2003), por exemplo, pode ler-se:


Mal Pensado

Luís XVI sugeriu dar uma forma triangular à lâmina da guilhotina, para torná-la mais eficaz. O próprio soberano teve, mais tarde, oportunidade de a testar no seu real pescoço.”
Almanaque do Incrível, p. 18

É verdade que uma das preocupações mais urgentes da Assembleia Nacional Constituinte, ainda durante a vigência da monarquia, chegou a ser a de se achar um método mais rápido e menos aflitivo de execução do grande número de condenados à pena capital. Não é verdade porém, que a solução encontrada - o engenho que passou a ser designado de Guilhotina – tenha sido uma invenção do Doutor Joseph-Ignace Guillotin. A única relação que é historicamente possível estabelecer entre este influente médico, a que o referido engenho deve impropriamente o nome, foi o de ele ter sido a primeira pessoa a chamar a atenção para a urgente necessidade de se procurar a solução mais indicada para o efeito pretendido e de ter recomedado a utilização de uma máquina que havia sido construída pelo seu amigo Antoine Louis, sendo esta a razão por que o engenho ganhou inicialmente o apelido de louisette ou louison e não de guillotine. Desconheço a existência de provas irrefutáveis de que Luís XVI tenha, na verdade, intervindo neste assunto pela forma como se diz. A comprovar-se tal alegação, poderá tratar-se efectivamente de uma das mais insólitas e infelizes ironias da História.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Há 16 anos: O Poeta que neste dia deixava este mundo…

…com uma mensagem de ânimo e de esperança!



“O que é bonito neste mundo, e anima, é ver que na vindima de cada sonho fica a cepa a sonhar outra aventura. E que a doçura que não se prova se transfigura noutra doçura muito mais pura e muito mais nova.”

Miguel Torga


Imagem: http://catedral.weblog.com.pt/

Pode reler neste blogue o que publicámos por ocasião do 103.º Aniversário do nascimento de Miguel Torga

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Memorial da “Terra Mágica”- LM, Moçambique III

A beleza da Polana
Por Manuel Terra, 6 de Outubro de 2010
A Igreja se Santo António da Polana na actualidade, foto de Aurélio Terra 

Por muito que o tempo tente desgastar a saudade, a persistência da sensibilidade “conduz-me” até lá outra vez para não deixar esmorecer as emoções e paixões que não consigo esquecer. O fascínio das evocações traz-me a lembrança da magnificente beleza da Polana.

Poderá dizer-se que começava no eixo da Av. 24 de Julho com a Av. António Enes (hoje Julius Nyerere) até ao sumtuoso Bairro de Sommerschield. Uma artéria caraterizada por duas longas faixas de rodagem, pinceladas pela tonalidade rubra das acácias e jacarandás, que permitiam aos transeuntes caminhar protegidos do sol inclemente. Era a chamada parte alta da cidade onde os edifícios de altura considerável, predominavam. No cruzamento com Av. Massano de Amorim (hoje Mao Tse Tung) muito próximo da paragem do machimbombo municipal da carreira 5, situava-se o Hotel Polana uma das melhores unidades hoteleiras de África Austral, inaugurado em 1922 de invejável traça colonial, com um parque de estacionamento embelezado por um pequeno palmar e canteiros tratados a gosto. Um verdadeiro 5 estrelas conhecido sobejamente além fronteiras. Curiosamente ainda eram visíveis no asfalto daquela via os carris metálicos que serviram os elétricos, que a cidade conhecera até 1929, com paragem obrigatória frente ao hotel. Na retaguarda a partir das suas piscinas obtinha-se uma vista panorâmica que se estendia desde o Miradouro, Rampa do Caracol e a antiga Rua Trigo de Morais que ligava a Estrada da Marginal às praias arenosas e esbranquiçadas compreendidas entre o Restaurante o Dragão de Ouro( hoje já demolido) que deu lugar ao Hotel Holiday e ao Miramar(totalmente transformado). Mas a área da Polana tinha mais referências, como o Restaurante Sheik(que ricos repastos) onde se podia jantar ao som de uma orquestra . As refeições tinham quase sempre marcação antecipada. Nas suas traseiras descortinava-se o Parque José Cabral (hoje Parque dos Continuadores) uma enorme área verde arborizada, onde nas suas pistas se realizavam as provas de Atletismo e por lá passaram nomes sonantes da modalidade. No final de linha avistava-se o Prédio Bucellato encravado no excêntrico Bairro de Sommerschield, um luxuoso complexo de vivendas e mansões, que faziam o sonho dos seus moradores. Também não poderia deixar de destacar A Igreja de Santo António da Polana inserida numa superfície verdejante, vincada por um estilo de arquitetura moderna que ganhou o epitrope de espremedor de laranja, dada a sua configuração. O seu interior era iluminado durante o dia pelos efeitos especiais dos raios solares que extravasavam os vitrais coloridos do templo. Tive a felicidade de conhecer aquele belo espaço, onde as cerimónias religiosas contagiavam os fieis. São estas imagens ainda muito vivas, de uma cidade que não consigo esquecer, que me levam a constantes incursões ao passado numa espécie de desafio ao tempo e memórias.
 in http://terramagica-terra.blogspot.com

A Igreja de Santo António da Polana numa breve perspectiva de História da Arte

A Igreja de Santo António da Polana ou Igreja da Polana, foi construída em 1962 e depois restaurada passados trinta anos (1992). Foi projectada pelo arquitecto português Nuno Craveiro Lopes que foi chefe do Gabinete de Urbanização das Obras Públicas de Moçambique (1952). O seu estilo é de arquitectura modernista e faz com que seja um dos edifícios mais emblemáticos da Cidade de Maputo (Moçambique). Com a sua forma de flor invertida, é popularmente conhecida como o “espremedor de limão” devido as suas formas geométricas. Os seus vitrais coloridos que vão até a cúpula conferem-lhe no seu interior um aspecto quase mágico e de invulgar beleza. Fica Avenida Kwame Nkrumah, na intersecção com a rua Luís Cardoso. È uma das sete maravilhas desta Cidade Africana.
In http://sketchup.google.com

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Uma inesquecível história de Natal – “Noite Feliz na terra de ninguém”

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Quem já viu o filme “Joyeux Noel” conhece esta história. Os factos reais que aqui vamos recordar, citando Bruno Leuzinger, inspiraram a realização do filme assim intitulado, uma produção francesa, germânica, britânica, belga e romena dirigida e roteirizada em 2005 por Christian Carion, que foi nomeado para Melhor Filme Estrangeiro no 78.º Academy Awards. Dele apresentamos um trailer no final deste post.

Noite feliz na terra de ninguém: Natal de 1914
por Bruno Leuzinger

No Natal de 1914, em plena Primeira Guerra Mundial, soldados ingleses e alemães deixaram as trincheiras e fizeram uma trégua. Durante seis dias, eles enterraram seus mortos, trocaram presentes e jogaram futebol.
Finalmente parou de chover. A noite está clara, com céu limpo, estrelado, como os soldados não viam há muito tempo. Ao contrário da chuva, porém, o frio segue sem dar trégua. Normal nesta época do ano. O que não seria normal em outros anos é o fedor no ar. Cheiro de morte, que invade as narinas e mexe com a cabeça dos vivos – alemães e britânicos, inimigos separados por 80, 100 metros no máximo. Entre eles está a “terra de ninguém”, assim chamada porque não se sobreviveria ali muito tempo. Cadáveres de combatentes de ambos os lados compõem a paisagem com cercas de arame farpado, troncos de árvores calcinadas e crateras abertas pelas explosões de granadas. O barulho delas é ensurdecedor, mas no momento não se ouve nada. Nenhuma explosão, nenhum tiro. Nenhum recruta agonizante gritando por socorro ou chamando pela mãe. Nada.
E de repente o silêncio é quebrado. Das trincheiras alemãs, ouve-se alguém cantando. Os companheiros fazem coro e logo há dezenas, talvez centenas de vozes no escuro. Cantam “Stille Nacht, Heilige Nacht”. Atônitos, os britânicos escutam a melodia sem compreender o que diz a letra. Mas nem precisam: mesmo quem jamais a tivesse escutado descobriria que a música fala de paz. Em inglês, ela é conhecida como “Silent Night”; em português, foi batizada de “Noite Feliz”. Quando a música acaba, o silêncio retorna. Por pouco tempo.
“Good, old Fritz!”, gritam os britânicos. Os “Fritz” respondem com “Merry Christmas, Englishmen!”, seguido de palavras num inglês arrastado: “We not shoot, you not shoot!”(“Nós não atiramos, vocês também não”).
Estamos em algum lugar de Flandres, na Bélgica, em 24 de dezembro de 1914. E esta história faz parte de um dos mais surpreendentes e esquecidos capítulos da Primeira Guerra Mundial: as confraternizações entre soldados inimigos no Natal daquele ano. Ao longo de toda a frente ocidental – que se estendia do mar do Norte aos Alpes suíços, cruzando a França –, soldados cessaram fogo e deixaram por alguns dias as diferenças para trás. A paz não havia sido acertada nos gabinetes dos generais; ela surgiu ali mesmo nas trincheiras, de forma espontânea. Jamais acontecera algo igual antes. É o que diz o jornalista alemão Michael Jürgs em seu livro Der Kleine Frieden im Grossen Krieg – Westfront 1914: Als Deutsche, Franzosen und Briten Gemeinsam Weihnachten Feierten (“A Pequena Paz na Grande Guerra – Frente Ocidental 1914: Quando Alemães, Franceses e Britânicos Celebraram Juntos o Natal”, inédito no Brasil).
Conhecido então como Grande Guerra (pouca gente imaginava que uma segunda como aquela seria possível), o conflito estourou após a morte do arquiduque Francisco Ferdinando. Herdeiro do trono do Império Austro-Húngaro, ele e sua esposa Sofia foram assassinados em Sarajevo, na Sérvia, no dia 28 de junho. O atentado, cometido por um estudante, fora tramado por um membro do governo sérvio. Um mês mais tarde, em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia. As nações européias se dividiram. Grã-Bretanha, França e Rússia se aliaram aos sérvios; a Alemanha, aos austro-húngaros. Nas semanas seguintes, os alemães invadiram a Bélgica, que até então se mantivera neutra, e, ainda em agosto, atravessaram a fronteira com a França. Chegaram perto de tomar Paris, mas os franceses os detiveram, em setembro.
Nos primeiros meses, a propaganda militar conseguiu inflar o orgulho dos soldados – de lado a lado. O fervor patriótico crescia paralelamente ao ódio pelos inimigos. Entretanto, em dezembro o moral das tropas já despencara. A guerra se arrastava havia quase um semestre. Os britânicos haviam perdido 160 mil homens até então; Alemanha e França, 300 mil cada. Para piorar, as condições nas trincheiras eram péssimas. O odor beirava o insuportável, devido às latrinas descobertas e aos corpos em decomposição. Estirados pela terra de ninguém, cadáveres atraíam ratazanas aos milhares. Era um verdadeiro banquete. Com tanta carne, elas engordavam tanto que algumas eram confundidas com gatos. Pior que as ratazanas, só os piolhos. Milhões deles, nos cabelos, barbas, uniformes. Em toda parte.
Quando chovia forte, a água batia na altura dos joelhos. Dormia-se em buracos escavados na parede e era comum acordar assustado no meio da noite, por causa das explosões ou de uma ratazana mordiscando seu rosto. Durante o dia, quem levantasse a cabeça sobre o parapeito era um homem morto. Os franco-atiradores estavam sempre à espreita (no final da tarde, praticavam tiro ao alvo no inimigo e, quando acertavam, diziam que era um “beijo de boa-noite”). O soldado entrincheirado passava longos períodos sem ter o que fazer. Horas e horas de tédio sentado no inferno. Só restava esperar e olhar para céu – onde não havia ratazanas nem cadáveres.
O cotidiano de horrores foi minando a vontade de lutar. Uma semana antes do Natal já havia sinais disso. Foi assim em Armentières, na França, perto da fronteira com a Bélgica. Soldados alemães arremessaram um pacote para a trincheira britânica. Cuidadosamente embalado, trazia um bolo de chocolate e dentro, escondido, um bilhete. Os alemães pediam um cessar-fogo naquela noite, entre 19h30 e 20h30. Era aniversário do capitão deles e queriam surpreendê-lo com uma serenata. O bolo era uma demonstração de boa vontade. Os britânicos concordaram e, na hora da festa inimiga, sentaram no parapeito para apreciar a música. Aplaudidos pelos rivais, os alemães anunciaram o encerramento da serenata – e da trégua – com tiros para cima. Em meio à barbárie, esses pequenos gestos de cordialidade significavam muito.
Ainda assim, era difícil imaginar o que estava por vir. Na noite do dia 24, em Fleurbaix, na França, uma visão deixou os britânicos intrigados: iluminadas por velas, pequenas árvores de Natal enfeitavam as trincheiras inimigas. A surpresa aumentou quando um tenente alemão gritou em inglês perfeito: “Senhores, minha vida está em suas mãos. Estou caminhando na direção de vocês. Algum oficial poderia me encontrar no meio do caminho?” Silêncio. Seria uma armadilha? Ele prosseguiu: “Estou sozinho e desarmado. Trinta de seus homens estão mortos perto das nossas trincheiras. Gostaria de providenciar o enterro”. Dezenas de armas estavam apontadas para ele. Mas, antes que disparassem, um sargento inglês, contrariando ordens, foi ao seu encontro. Após minutos de conversa, combinaram de se reunir no dia seguinte, às 9 horas da manhã.
No dia seguinte, 25 de dezembro, ao longo de toda a frente ocidental, soldados armados apenas com pás escalaram suas trincheiras e encontraram os inimigos no meio da terra de ninguém. Era hora de enterrar os companheiros, mostrar respeito por eles – ainda que a morte ali fosse um acontecimento banal. O capelão escocês J. Esslemont Adams organizou um funeral coletivo para mais de 100 vítimas. Os corpos foram divididos por nacionalidade, mas a separação acabou aí: na hora de cavar, todos se ajudaram. O capelão abriu a cerimônia recitando o salmo 23. “O senhor é meu pastor, nada me faltará”, disse. Depois, um soldado alemão, ex-seminarista, repetiu tudo em seu idioma. No fim, acompanhado pelos soldados dos dois países, Adams rezou o pai-nosso. Outros enterros semelhantes foram realizados naquele dia, mas o de Fleurbaix foi o maior de todos.
Aquela situação por si só já era inusitada: alemães e britânicos cavando e rezando juntos. Mas o que se viu depois foi um desfile de cenas surreais. Em Wez Macquart, França, um britânico cortava os cabelos de qualquer um – aliado ou inimigo – em troca de alguns cigarros. Em Neuve Chapelle, também na França, os soldados indicavam discretamente para seus novos amigos a localização das minas subterrâneas. Em Pervize, na Bélgica, homens que na véspera tentavam se matar agora trocavam presentes: tabaco, vinho, carne enlatada, sabonete. Uns disputavam corridas de bicicleta, outros caçavam coelhos. Uma luta de boxe entre um escocês e um alemão foi interrompida antes que os dois se matassem. Alguém sugeriu um duelo de pistolas entre um alemão e um inglês, mas a idéia foi rechaçada – afinal, aquilo era um cessar-fogo.
Porém, o melhor estava por vir. Nos dias 25 e 26, foram organizadas animadas partidas de futebol. Centenas jogaram bola nos campos de batalha. “Bola” em muitos casos era força de expressão; podia ser apenas um monte de palha amarrado com arame, ou uma lata de conserva vazia. E, no lugar de traves, capacetes, tocos de madeira ou o que estivesse à mão. Foi assim em Wulvergem, na Bélgica, onde o jogo foi só pelo prazer da brincadeira, ninguém prestou atenção no resultado. Mas houve também partidas “sérias”, com direito a juiz e a troca de campo depois do intervalo. Numa delas, que se tornou lendária, os alemães derrotaram os britânicos por 3 a 2. A vitória suada foi cercada de polêmica: o terceiro gol alemão teria sido marcado em posição irregular (o atacante estava impedido) e a partida, encerrada depois que a bola – esta de verdade, feita de couro – furou ao cair no arame farpado.
A maioria das confraternizações se deu nos 50 quilômetros entre Diksmuide (Bélgica) e Neuve Chapelle. Os soldados britânicos e alemães descobriam ter mais em comum entre si que com seus superiores – instalados confortavelmente bem longe da frente de batalha. O medo da morte e a saudade de casa eram compartilhados por todos. Já franceses e belgas eram menos afeitos a tomar parte no clima festivo. Seus países haviam sido invadidos (no caso da Bélgica, 90 por cento de seu território estava ocupado), para eles era mais difícil apertar a mão do inimigo. Em Wijtschate, na Bélgica, uma pessoa em particular também ficou muito irritada com a situação. Lutando ao lado dos alemães, o jovem cabo austríaco Adolf Hitler queixava-se do fato de seus companheiros cantarem com os britânicos, em vez de atirarem neles.
Naquele tempo, Hitler ainda não apitava nada. Entretanto, os homens que davam as cartas também não estavam nem um pouco felizes. Dos quartéis-generais, os senhores da guerra mandaram ordens contra qualquer tipo de confraternização. Quem desrespeitasse se arriscava a ir à corte marcial. A ameaça fez os soldados voltarem para as trincheiras. Durante os dias seguintes, muitos ainda se recusavam a matar os adversários. Para manter as aparências, continuavam atirando, mas sempre longe do alvo. Na noite do dia 31, em La Boutillerie, na França, o fuzileiro britânico W.A. Quinton e mais dois homens transportavam sua metralhadora para um novo local, quando de repente ouviram disparos da trincheira alemã. Os três se jogaram no chão, até perceberem que os tiros eram para o alto: os alemães comemoravam a virada do ano.
A trégua velada resistiu ainda por um tempo. Até março de 1915, alemães e britânicos entrincheirados em Festubert, na França, faziam de conta que a guerra não existia – ficava cada um na sua. Mas a lembrança das confraternizações foi aos poucos cedendo espaço para o ódio. A carnificina recrudesceu, prosseguindo até a rendição da Alemanha, em novembro de 1918, arrasando a Europa e deixando cerca de 10 milhões de mortos. Talvez a matança até valesse a pena, se a profecia do escritor de ficção científica H.G. Wells tivesse dado certo. O autor de A Máquina do Tempo escrevera em um ensaio que aquela seria “a guerra que acabaria com todas as guerras”. Wells, é claro, estava enganado. Os momentos de paz, como os do Natal de 1914, seriam escassos também ao longo de todo o século 20. A Grande Guerra tinha sido só o começo.

In Aventuras da História - http://historia.abril.com.br
Reedição de 22-12-2009 in http://www.historiadigital.org

Joyeux Noel

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

O terramoto de Lisboa de 1755

Gravura em cobre alusiva ao Terramoto de 1755 em Lisboa
Foi no dia 1 de Novembro, um feriado religioso dedicado a “todos-os-santos” segundo tradição católica – algo que acontece ainda hoje -, que a famigerada hecatombe devastou Lisboa, privando-a de uma grande parte do seu património urbano (muitas zonas da cidade foram destruídas e muitos dos principais edifícios ficaram em ruínas) e humano (muitas lisboetas faleceram nesse dia, vítimas do terramoto propriamente dito ou das consequências dele).

sábado, 30 de outubro de 2010

Memorial da “Terra Mágica”- LM, Moçambique II

Maputo-Cidade viva
Por Aurélio Terra, 8 de Fevereiro de 2010



Começa bem cedo o dia, em Maputo. Assinala o relógio as 5h30 e percebe-se logo que a cidade vai encher. Oriundo de todos os quadrantes, como formiguinhas seguindo o seu carreiro, “desagua” na Capital, gente com os mais diversos fins.
Num ápice a memória se socorreu de lembranças passadas, fazendo-me recordar que nos meus tempos de estudante, naquela terra, acordava bem cedo para estar a horas na escola, onde às 7h15 começavam as tarefas escolares.
Os acessos rodoviários à cidade de Maputo, congestionam-se. Os “chapas” (1) não têm rodas a medir. Vão e vêm repletos de gente, que se comprime para criar, sempre, um lugar para mais um. Parecem não ter paragens muito definidas. Sempre que há gente para entrar ou sair, a paragem faz-se. A utilidade deste meio de transporte é inquestionável, embora os padrões de segurança sejam letra morta.
Para a Catembe, partem apinhados de gente, os “ferryboats”. Saem a toda a hora. O serviço é contínuo. È partir, chegar e voltar a partir. Não há pausas.
As ruas de Maputo, em pouco tempo, conhecem uma multidão numerosa e compacta. É gente que vende, gente que compra, gente que passeia, e gente que não dispensa um “bom dia” à prazenteira terra, mesmo que seja apenas para dedicar parte do seu tempo à “Bula Bula” (2).
Ao fim do dia, e com a noite instalada, olhava para a cidade a partir da varanda do hotel. Impressionante a velocidade a que a cidade se tinha despedido da sua gente. Não descortinava uma viva alma. Parecia mesmo que alguém tinha tirado o tampão da cidade e que por aí se tinha escoado a povoação. Puro engano! Na zona do Zambi e da Polana os restaurantes dignos desse nome estavam quase a rebentar pelas costuras. Nas mesas, gente de todos os feitios e cores parecia estar a começar o seu dia, tal era a vivacidade com que trocavam dois dedos (seriam mais) de conversa, enquanto davam ao marisco acompanhado duma Laurentina, preta ou dourada, o destino que lhe foi traçado, a partir do momento em que consultaram a ementa.
Claro que não se come só marisco, nem se serve de bebida apenas cerveja. Os amantes de uma boa carne também não ficam decepcionados, mesmo que queiram acompanhá-la com um bom vinho português. Neste caso, terão que puxar um pouco pelos cordões à bolsa. Há sempre a alternativa dos vinhos sul-africanos, que castigando menos a carteira, também apresentam uma apreciável qualidade.
Na zona da boa restauração, onde se vive com intensidade o último terço do dia, é sempre bom ver, a presença de forças de segurança, quer privadas quer públicas.
E no fim do dia, pensava para mim, que isto de se ser Africano (de nascença ou de coração) é uma forma muito própria de se estar na vida, mais do que o próprio facto de se ter nascido naquele continente.
Que bom foi reencontrar Maputo cheio de vida!

(1) mercado paralelo de transportes rodoviários semi-colectivos, em média com uma capacidade para 12 pessoas, explorados por privados
(2)do tsonga significa conversar

In http://terramagica-terra.blogspot.com/