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domingo, 15 de abril de 2012

166.º Aniversário do início da Revolta de Maria da Fonte

Por Leonel Salvado

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A revolta da Maria da Fonte é um dos mais recordados temas da História Nacional protagonizados por figuras femininas, mas também um dos mais controversos relativamente ao significado real deste nome. O significado mais enraizado no imaginário colectivo é o que se pode encontrar, por exemplo, na Wikipédia, a enciclopédia livre, apresentado nos seguintes termos:

«Maria da Fonte, ou Revolução do Minho, é o nome dado a uma revolta popular ocorrida na primavera de 1846 contra o governo cartista presidido por António Bernardo da Costa Cabral. A revolta resultou das tensões sociais remanescentes das guerras liberais, exacerbadas pelo grande descontentamento popular gerado pelas novas leis de recrutamento militar, por alterações fiscais e pela proibição de realizar enterros dentro de igrejas. Iniciou-se na zona de Póvoa de Lanhoso (Minho) por uma sublevação popular que se foi progressivamente estendendo a todo o norte de Portugal. A instigadora dos motins iniciais terá sido uma mulher do povo chamada Maria, natural da freguesia de Fontarcada, que por isso ficaria conhecida pela alcunha de Maria da Fonte.»

Carlos Leite Ribeiro publicou no “Portal CEN – CÁ ESTAMOS NÓS” um trabalho de pesquisa deveras interessante sobre a Revolta da Maria da Fonte intitulado “Dia Maria da Fonte – 15 de Abril”. Ainda que, mesmo à luz de uma atitude historiográfica de sentido crítico, isenta e desmistificadora, não subsistam motivos suficientes para esvaziar este movimento revolucionário, que se alastrou um pouco por todo o país (sete meses depois veio a repercutir-se na nossa região de Valpaços), da crença sustentada no imaginário popular segundo a qual ele foi preponderantemente protagonizado por algumas arrojadas mulheres do Norte, o autor apresenta-nos uma análise e uma interpretação bastante aceitáveis da “Revolta da Maria da Fonte” claramente fundadas no cruzamento e na ponderação dos dados de informação que recolheu em fontes diversificadas (ver Bibliografia consultada pelo autor no final do presente post).
Para melhor percepção do trabalho deste autor, entendi dividir o respectivo teor em quatro partes:

A REALIDADE E O MITO (NA VERSÃO ROMANCEADA DE CAMILO CASTELO BRANCO)
«Ainda hoje, o Hino da Maria da Fonte continua a ser a música com que se saúdam os ministros portugueses, sendo utilizado em cerimónias cívicas e militares. (Mas não é o Hino Nacional Português). O maestro Ângelo Frondoni compôs por essa ocasião um hino popular, que ficou conhecido pelo nome de Maria da Fonte ou do Minho, que respirava um certo entusiasmo belicoso; e por muito tempo foi o canto de guerra do partido progressista em Portugal. Camilo Castelo Branco escreveu um livro com o título Maria da Fonte, que trata minuciosamente deste assunto. São também interessantes os Apontamentos para a história da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pelo padre Casimiro. Na Biblioteca do Povo e das Escolas, o n.º 167 é a história da Revolução da Maria da Fonte, pelo Sr. João Augusto Marques Gomes. Um dos primeiros trabalhos do romancista Sr. Rocha Martins intitula-se Maria da Fonte.

Revolta da Maria da Fonte
Assim se chamou a revolução que rebentou no Minho contra o governo de Costa Cabral, mais tarde conde e marquês de Tomar. A causa imediata da revolta foram umas questões de recrutamento, e a proibição dos enterramentos feitos dentro das igrejas, em que desempenhou um papel irrequieto e activo uma desembaraçada mulher das bandas da Póvoa de Lanhoso, conhecida pelo nome de Maria da Fonte. Os tumultos multiplicaram-se, tomando afinal as proporções sérias duma insurreição, que lavrou em grande parte do reino.
A rainha D. Maria II, assustada com esta insurreição verdadeiramente popular, viu-se obrigada a demitir o ministério cabralista, chamando ao poder o duque de Palmela e Mousinho de Albuquerque, mas, quando, julgou que abrandara assim a revolução, e que o duque da Terceira, que nomeara seu lugar-tenente nas províncias do norte do país, poderia reprimir as indignações do povo e estabelecer ali a paz, deu o golpe de Estado de 6 de Outubro de 1846, e sem nomear Costa Cabral, formou um ministério pronunciadamente cartista, presidido pelo marechal Saldanha. Esta notícia foi transmitida ao Porto pelo administrador de Vila Franca, e excitou a cólera dos portuenses. Rebentou então a revolta com espantosa energia, o duque da Terceira foi preso, e nomeou-se uma junta provisória, cuja presidência se deu ao conde das Antas e a vice-presidência a José da Silva Passos, que era a alma da revolta, e irmão do grande ministro progressista Manuel da Silva Passos. O visconde de Sá da Bandeira apareceu no Porto, aderindo à revolução. A Junta do Porto é verdade que legislava em nome da rainha, e fazia-lhe manifestações de dedicação, mas o espírito popular estava sendo nessa ocasião bem pouco simpático à soberana, que desta vez tomara a iniciativa da contra-revolução, dando o golpe de Estado de 6 de Outubro. O Espectro, jornal redigido por António Rodrigues Sampaio, e que se publicava em Lisboa, sem que a polícia conseguisse descobrir a imprensa que o imprimia nem os seus redactores, atacou pessoalmente a rainha pela sua intervenção nefasta na política partidária.
A Junta do Porto, apesar de dispor de vastíssimos recursos, não era feliz, por causa da imperícia dos seus generais. Sá da Bandeira era batido em Vale Passos [VALPAÇOS] pelo barão do Casal; o conde de Bonfim era completamente batido em Torres Vedras pelo marechal Saldanha, em Dezembro de 1846, batalha em que foi morto o general Mousinho de Albuquerque; Celestino era destroçado em Viana do Castelo pelo general Schwalbach, o barão de Casal tomara Braga, os marinheiros de Soares Franco tomaram Valença e Viana do Castelo. Ainda assim a insurreição era tão forte, que, para se lhe pôr termo, foi precisa a intervenção estrangeira. Uma esquadra inglesa aprisionou a esquadra da Junta com a divisão do conde das Antas que ia a bordo, e um exército espanhol, do comando de D. Manuel Concha, foi ocupar o Porto. Ao mesmo tempo as tropas da Junta, comandadas pelo visconde de Sá da Bandeira, eram batidas no Alto do Viso pelo general Vinhais. A convenção de Gramido. de 30 de Junho de 1847, pôs fim a essa terrível insurreição, que tanto assustara a rainha, que nem sempre mostrou com os vencidos a clemência que se poderia esperar da sua generosidade. A revolução da Maria da Fonte é um dos episódios mais importantes da nossa história política do século passado. Foi nesse movimento que muito se salientaram homens, que se tornaram muito populares, como os dois irmãos Passos, Rodrigo da Fonseca Magalhães, José Estêvão Coelho de Magalhães, Manuel de Jesus Coelho, etc.
Maria da Fonte - por Mário Casa Nova Martins (Alameda Digital)

A Revolução do Minho em 1846, mais conhecida pela Revolução da Maria da Fonte, pode ser inicialmente identificada como uma revolta contra as chamadas «Leis de Saúde», mais concretamente contra a lei que proibia os enterramentos nas Igrejas, obrigando que os defuntos fossem sepultados em cemitérios. Mas, a par da oposição às «Leis de Saúde» estava a luta contra o aumento dos impostos decretado pelo Governo, traduzido na destruição das “bilhetas”, que eram os boletins das contribuições.
Também, a oportunidade da Restauração de D. Miguel. E, com o alastrar da revolta a outros pontos do País, a união de Cartistas, Miguelistas e Setembristas leva a que os Cabrais se vejam obrigados a abandonar Portugal. A Revolução da Maria da Fonte teve, portanto, consequências políticas muito para além do que os seus promotores alguma vez pensaram.

“Começara o ano de 1846 docemente reclinado nos fagueiros braços da mais bonançosa paz. A agricultura prosperava, o comércio desenvolvia-se, as artes floresciam, o crédito público aumentava, a viação começava os seus primeiros ensaios e as contribuições não escaldavam ”(1). Mas o Minho profundo, aquele Minho mais conservador e mais tradicional, estava a movimentar-se, primeiro em surdina, e depois pelos actos contra a proibição de enterrarem os seus mortos nas Igrejas. Contra as autoridades vão fazê-lo, em Março na freguesia de Garfe, antes na freguesia de Travassós, concelho de Guimarães, nos primeiros dias de Abril na freguesia de Fonte Arcada, e, quase no fim desse mês, no lugar de Simões. Estes acontecimentos eram protagonizados por mulheres, armadas “umas de chuços, outras de ferrelhas e pás de enfonar, muitas com choupas e sacholas, algumas com forcados e espetos” (2), que levavam o esquife, não permitindo a presença de homens.
As autoridades participavam estes atropelos à lei ao Governo Civil, mas não obtinham resposta. Somente a seguir ao caso em Simões é que foi emitida voz de prisão para Maria da Fonte e suas sequazes, que foram presas, à excepção da cabecilha que conseguiu fugir. “Na sexta-feira próxima em que havia confessores para a desobriga” (3), o juiz de direito, o delegado, o oficial de diligências e os adjuntos dirigiram-se ao lugar, e o povo começa a tocar os sinos a rebate, tendo as autoridades que fugir. “Foi então que apareceu a Maria da Fonte de clavina empunhada e duas pistolas ao cinturão, gritando: Vamos à cadeia tirar as presas! Viva o Senhor Dom Miguel!” (4). Chegados à Póvoa, são as presas libertadas, regressando a suas casas como heroínas. Entretanto, as autoridades enviam um destacamento de cinquenta praças do Regimento “8” para a Póvoa, que nada faz. Pouco tempo depois ocorre outro enterro, na freguesia de Galegos, onde Maria da Fonte e as suas companheiras voltam a aparecer.
 Agora, a toda a gente é permitido assistir, participando o Clero plenamente na cerimónia. Desta ocorrência, são presos um homem e uma mulher, mas, “ao passarem na serra do Carvalho, lá vão tirá-los à escolta os moradores das próximas freguesias de Ferreiros e Geraz” (5). Entre 15 e 16 de Abril a revolta assume proporções inesperadas, com o ataque a Guimarães conduzido pelo Padre José das Caldas, e o ataque a Braga pelas gentes do Prado. Ao mesmo tempo são queimados todos os papéis dos arquivos da administração. Maria da Fonte participa em todos estes actos.»

A DESMISTIFICAÇÃO DA “MARIA DA FONTE”
«É importante que uma qualquer altercação da ordem estabelecida tenha um nome, ou esteja personalizada numa pessoa que, por vezes, se torne de difícil identificação. O imaginário popular necessita destas personagens, com as quais se tenta identificar, transformando-as em mitos. E, esses mitos passam de geração em geração, através da tradição oral, passando a fazer parte da história alternativa, o mundo da Tradição, enunciado por Julius Evola. A palavra “tradição” não tem, evidentemente, a mesma ressonância ou a mesma significação para todos os espíritos. De entre aqueles que se lhe referem, alguns pretendem falar da tradição cristã, outros da tradição europeia, fazendo, assim, alusão a correntes que estiveram associadas durante séculos, depois de terem nascido separadas, e que hoje, de novo, tendem em separar-se. Outros falam, ainda, de uma Tradição esotérica, que não é mais do que o fruto da sua imaginação e da sua credibilidade.
Tradição é a estrutura específica, reflexo de um esquema mental particular, no qual se foram inscrevendo, no decurso dos tempos, as diversas formas sócio-culturais da cultura dominante, e principalmente as tradições, isto é, o conjunto de hábitos e ritos consuetudinários característicos desta cultura (6).
O mito, a lenda ou a saga estão desprovidos de verdade histórica e de força demonstrativa e adquirem, pelo contrário, por essa mesma razão, uma validade superior, tornando-se fonte de um conhecimento mais real e seguro (7).
A Padeira de Aljubarrota, o Manuelinho de Évora e a Maria da Fonte são exemplos de personagens ligadas ao povo e que representam ainda hoje a simbologia contra o invasor, o despotismo fiscal, ou contra o poder central do Estado. Brites de Almeida, a Padeira de Aljubarrota, matou depois da batalha, sete castelhanos fugitivos com uma pá, cujos restos ainda existem, permitindo prolongar no tempo a ideia da bravura das mulheres portugueses contra os invasores castelhanos, e, mais tarde, franceses (8). A revolta do povo de Évora, em 1637, contra um novo imposto, durante a ocupação castelhana, conduziu à tomada da cidade, constituindo-se um poder efectivo, conquanto clandestino, de características perturbantes à face da lei e dos costumes, que endereçava a responsabilidade das suas proclamações e provisões ao Manuelinho, doido muito conhecido e popular em Évora (9).
Maria da Fonte é nome de mulher, mas, terá realmente existido uma mulher com esse nome, ou será apenas fruto de uma lenda? Efectivamente, os seus contemporâneos distribuíram os atributos da personagem por diferentes mulheres, de diferentes lugares. Uma é apresentada como irmã de um sapateiro de Simões, da freguesia de Fonte Arcada, de nome Maria Angelina, a quem chamavam Maria da Fonte, e fora processada e pronunciada nos tumultos da Póvoa de Lanhoso (10). Outra, era uma doceira de Valbom, nas vizinhanças de Lanhoso, que andava pelas feiras e romarias inculcando-se a Maria da Fonte (11). O jornal «Comércio de Portugal», de Lisboa, de 15 de Março de 1883, identificava Ana Maria Esteves, que teria, então, cinquenta e seis anos, nascida em São Tiago de Oliveira, Póvoa de Lanhoso, e casada com António Joaquim Lopes da Silva, como a Maria da Fonte (12). Finalmente, Maria da Fonte terá sido uma criança abandonada à beira da Fonte do Vide, no lugar do Barreiro, da freguesia de Fonte Arcada, que foi criada por Josefa Antunes, e que, por morte desta, passou a viver no lugar de Valbom, onde, finda a revolta, regressou, tendo posteriormente casado e partido, sem que mais se soubesse notícias dela (13).»

A PROGRESSÃO DO MOVIMENTO
«O baixo Clero desempenhou um papel determinante na Revolução do Minho, não só na disseminação da ideia, como na arregimentação do Povo para a guerrilha. De pouca cultura, mas com um forte sentimento quanto ao Sobrenatural e à Tradição, o Clero minhoto tinha como pastores espirituais homens rudes, integralmente dedicados ao Trono e ao Altar, como, entre muitos outros, os Padres João do Cano, José das Caldas, José da Lage, Manuel da Agra, e, o mais popular de todos, o Padre Casimiro. Padre Casimiro José Vieira, “Defensor das Cinco Chagas e General Comandante das Forças Populares do Minho e Trás-os-Montes”, nasceu no ano de 1817, em Vieira do Minho. Nas vésperas da Revolução da Maria da Fonte, “em Março de 1846 estudava retórica em Braga, habilitando-se para pregador. Era boa figura, tinha um lindo bigode preto, era muito pândego” (14). Profundo legitimista, de mero espectador da revolta popular, rapidamente passa à liderança daquelas gentes. “A força e a popularidade do Padre Casimiro residem, acima de tudo, na eficácia com que utilizou os parcos meios ao seu alcance. O principal desses meios foi, sem dúvida, o conhecimento do terreno. As subtilezas da psicologia não lhe são, também, desconhecidas. Totalmente consciente de que a sua guerra mais não poderia ser do que uma guerrilha de camponeses, mantém-lhe sempre o ritmo sincronizado pelo ritmo dos trabalhos agrícolas” (15).
“A principal tarefa que atribuía a si próprio era a defesa do Trono, na pessoa do Rei legítimo, D. Miguel I, e do Altar. A Igreja vivia uma época difícil no Portugal Liberal, e o sentimento profundamente religioso das gentes do Minho chocava-se com o que ia assistindo nas suas terras, e com as notícias que os almocreves e os pasquins lhes traziam das perseguições movidas pelos liberais. A propaganda liberal criou de D. Miguel I a imagem dos vencedores contra os vencidos, isto é, vencedores, atribuíram ao Rei legítimo um conjunto de adjectivos suezes, que não correspondiam à verdade daqueles tempos. O miguelista arquetípico definia-se, «depois da Convenção de Évora-Monte, simultaneamente saudoso do seu Rei e consciente dos erros e das imbecilidades dos poderosos que o cercavam e que o venderam como Cristo. Aí surge a figura de um outro D. Miguel I, bem diferente do usurpador caceteiro ou do campino da Vilafrancada, convencionalizados pela história, mas sim o Rei do povo miúdo, amado pelos soldados e pela arraia que se sacrifica na guerra sem saber perfeitamente o que era o liberalismo pedrista, a não ser uma vaga doutrina essencialmente anticatólica que os aterrava e punha em xeque todo um edifício de convicções multi-seculares” (16).
Padre Casimiro, tal como tantos outros Padres do Minho, é um convicto miguelista, e vai preparando as suas gentes e os seus guerrilheiros para a luta pela Restauração de D. Miguel I. “Decidido a restaurar D. Miguel I, adquiriu enorme prestígio entre as gentes simples dos campos e dos montes, foi incansável nos seus propósitos, fazendo frente aos destacamentos militares enviados de Braga para reduzirem à obediência os amotinados” (17). Chegou a controlar a área entre os rios Cávado e Ave, e a recrutar apoiantes em Trás-os-Montes. À facilidade com que enunciava os seus princípios, no Púlpito, ou aos povos que ia conquistando para a Causa, juntava-se a maneira popular, mas agradável, como escrevia nos diferentes periódicos do Norte, alimentando, com o exemplo e com a palavra, a missão a que se propusera, redentor de Portugal restaurando o Rei deposto.
A ligação entre D. Miguel I e o mito do miguelismo surge logo após o primeiro desterro para a Áustria, no seguimento da Abrilada, em 1824, onde D. João VI, por intervenção do Corpo Diplomático e perante as ameaças deste em abandonar Lisboa, ordena a sua exoneração de generalíssimo dos exércitos (18). «A mentalidade mítica, ao contrário do pensamento racional, apreende a realidade sócio-histórica como o resultado de esforços e de lutas de potências, que nas culturas sacras têm natureza santa e nas secularizadas natureza misteriosa, isto é, algo que não só não é explicado, como também não pode ser explicado racionalmente (19). Durante o tempo em que esteve ausente de Portugal, a política do Duque de Palmela mais fez crescer a saudade que, principalmente, o povo sentia de D. Miguel I. “A morte do controverso D. João VI daria pretexto, entre outras coisas, a que se começasse a falar do Infante, ‘cativo’ em Viena, como se fosse o “Desejado” e se exigisse o seu regresso” (20). Com o seu regresso, e durante o seu curto reinado, luzes, foguetes e festa rija foi o que mais houve em Portugal, além da profusão de procissões e de missas e Te Deum Laudamus em acção de graças (21). A principal característica do reinado de D. Miguel I foi a intensidade de actos religiosos, a pretexto de um qualquer acontecimento. Após Évora-Monte, e até à sua morte, o carácter religioso da sua vida evoluiu para um misticismo, no qual foi acompanhado pela Família Real no exílio. Em Portugal, em paralelo ao descalabro político-financeiro do País e ao aumento da repressão aos miguelistas, cresce o fervor e a saudade do “’Rei Exilado’, do “Rei Proscrito”, do ‘Rei Martyr’, ou, muito simplesmente, do ‘Desditoso’” (22). Ao tempo da Revolução do Minho, D. Miguel I era, para muitos, a última salvação para Portugal. Por todo o País se encontravam adeptos do Rei Legítimo, mas era, fundamentalmente, no Minho, berço da nacionalidade, que a saudade daqueles tempos se tornava mais aguda.
A Carta Constitucional de 1826 foi reposta no seguimento do golpe militar de 27 de Janeiro de 1842, dirigido, do Porto, por António Bernardo da Costa Cabral. Era o início do Cabralismo, e a esperança de uma ordem melhor, de conciliação nacional e de progresso. Todavia, pouco tempo duraram as esperanças do povo, que, em breve, se viu com uma nova e gravosa política fiscal, traduzida em novos impostos e empréstimos, enquanto a própria economia nacional era posta perante novos tratados de comércio e navegação ruinosos. No campo político, como resposta à grave situação social e financeira, dá-se a união da oposição ao Ministro do Reino, Costa Cabral, através de alianças, porventura contra-natura, dos Setembristas, Miguelistas e Cartistas dissidentes. Apresentavam um discurso comum na censura à administração económica, política fiscal, à organização administrativa e à estrutura municipal (23).
O Cartismo é a designação que se aplicou ao liberalismo moderado português, oposto ao extremismo Setembrista, triunfante em 1836. A doutrina política do Cartismo pretendia ser uma conciliação entre o poder real e a soberania da Nação, mas, sociologicamente, tinha a tendência para o imobilismo governativo e para o aristocratismo económico de tipo agrícola e comercial. A Carta Constitucional de 1826 foi outorgada ao País pelo Imperador do Brasil D. Pedro I, D. Pedro IV em Portugal, após a notícia da morte de D. João VI ter chegado ao Brasil (24). A Revolução de Setembro ocorre no dia 9 desse mês, com a chegada dos deputados oposicionistas nortenhos a Lisboa. À sua chegada foram recebidos, entusiasticamente, com “morras” à Carta e “vivas” à Constituição de 1822. O Governo Conservador do Duque da Terceira foi obrigado a demitir-se e a Rainha D. Maria II nomeia um Ministério favorável aos revoltosos, consumando-se a Revolução de Setembro. No aspecto ideológico, o Setembrismo teria sido a expressão política da tendência à inovação industrial contra as actividades nacionais rotineiras do alto comércio e dos grandes interesses agrícolas (25).
O ano de 1844 marca um crescendo na repressão cabralista. É a partir deste ano que começam a ocorrer tentativas revolucionárias em diferentes pontos do País, como o pronunciamento de Torres Novas a Almeida, a sublevação do Regimento de Infantaria “12” de Castelo Branco, e a revolta de estudantes da Universidade de Coimbra (26). As acusações a Costa Cabral de poder discricionário, no desrespeito das leis e voz do Parlamento, do coartar das liberdades públicas, tornando-se mais centralizador e oligárquico, iam subindo de tom, e foi necessário recorrer a processos menos limpos para vencer a oposição. “Recorrendo a todos os meios ao seu alcance, desde a máquina governativa à compra de influências, a firmeza do ministro acabaria por se impor aos adversários” (27). E, nas eleições de 1845 a oposição elegeu para a Câmara dos Deputados um número destes, que não inquietava o Governo.
O Decreto de 26 de Novembro de 1845, que reorganizava a saúde pública, curava dos serviços de sanidade no interior do Reino e dos portos de mar, ordenava que os enterros deviam fazer-se nos cemitérios, não era mais do que uma regulamentação do Decreto de 3 de Janeiro de 1837. Porém, veio acirrar mais o descontentamento contra Costa Cabral. É neste clima de protestos violentos, motins e agitação social, que se dão os acontecimentos de 19 de Março de 1846 na Aldeia de Santo André de Frades, Concelho de Póvoa de Lanhoso, marcando o início da Revolução do Minho. Para a combater “Costa Cabral nomeia seu irmão, José Bernardo da Silva Costa Cabral, ao tempo ministro da Justiça, comissário do Governo com ‘poderes extraordinários sobre todas as autoridades civis e militares da província do Minho, e as outras terras do Norte, em que possa rebentar a revolta, para exonerar de seus cargos e substituir como julgasse conveniente’” (28). Cognominado pela oposição como o “Rei do Norte”, José Cabral instalou um regime de terror, onde as prisões arbitrárias, os fuzilamentos e a confiscação de bens particulares eram a prática corrente. Ao mesmo tempo que esse clima de terror ia alastrando a diversas partes do País, começam a aparecer, primeiro por todo o Norte, depois na Beira e na Estremadura, Juntas Provisionais que faziam a apologia do direito à Liberdade do Povo, contra a Tirania. No Parlamento Almeida Garrett pede a demissão de Costa Cabral, e a Rainha D. Maria II, certa da impossibilidade de lutar contra o povo exonera o ministro odiado, que juntamente com o irmão, emigra para Espanha, dando fim à ditadura dos Cabrais.»

CONCLUSÃO
«A Revolução da Maria da Fonte foi uma revolução em que as Mulheres tiveram um papel fundamental no decorrer da acção. Os Miguelistas viram a sua crença ressuscitar, na esperança de um novo sebastianismo libertador. Os Cartistas livraram-se do ditador. Os Setembristas readquiriram forças para regressarem ao poder. O Povo continuou desiludido com o Liberalismo, que apenas favorecia a classe nova a que ele dera origem, os “barões” da alta burguesia.»

Bibliografia consultada
[1] Branco, Camilo Castelo - Maria da Fonte, pg. 22
[2] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 24
[3] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 26
[4] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 27
[5] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 28
[6] Benoist, Alain - Les Idées à L’ Endroit, pg. 115
[7] Benoist, Alain de - Nova Direita Nova Cultura, pg. 436
[8] Peres, Damião - História de Portugal, vol. II, pg. 391
[9) Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. II, pg. 491
[10] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 16
[11] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 17
[12] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 36
[13] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg. 30
[14] Branco, Camilo Castelo - ibid., pg.48
[15] Casimiro, Padre - Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, pg. 11
[16] Costa, Francisco de Paula Ferreira da - Memórias de um Miguelista, pg. 14
[17] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, Vol. I, pg. 519
[18] Serrão, Joaquim Veríssimo - História de Portugal, vol. VII, pg. 395
[19] Pelayo, Manuel Garcia - Los Mitos Políticos, pg. 18
[20] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - Miguelismo Ideologia e Mito, pg.264
[21] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 265
[22] Silva, Armando Barreiros Malheiro da - ibid., pg. 286
[23] Mattoso, José - História de Portugal, vol. V, pg. 110
[24] Carvalho, Alberto Martins de - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 500
[25] Serrão, Joel - Dicionário de História de Portugal, vol. V, pg. 561
[26] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 104
[27] Serrão, Joaquim Veríssimo - ibid., vol. VIII, pg. 105
[28] Dória, António Álvaro - Dicionário de História de Portugal, vol. I, pg. 183

quarta-feira, 21 de março de 2012

21 de Março: Dia Mundial da árvore


Comemoração do Dia Mundial da Árvore, 2011, pelos idosos do Lar de S. José,
Santa Casa da Misericórdia de Valpaços.

O Dia Mundial da Árvore ou da Floresta celebra-se anualmente em Portugal a 21 de Março.
Este dia é também o dia em que começa a Primavera.
A celebração do Dia Mundial da Árvore ou da Floresta começou a 10 de Abril de 1872, na cidade do Nebraska, Estados Unidos da América.
O seu mentor foi o jornalista e político Julius Sterling Morton, que incentivou a plantação de árvores no Nebraska, promovendo o "Arbor Day".
O objectivo da comemoração do Dia Mundial da Árvore é sensibilizar a população para a importância da preservação das árvores, quer em termos ambientais como da própria qualidade de vida dos cidadãos.
Neste dia decorrem várias acções de arborização, em diversos locais do mundo

In http://www.calendarr.com

Recordando o Dia Mundial da Árvore 2011 em Valpaços

«A Santa Casa assinalou o Dia Mundial da Árvore com a plantação de uma camélia na Nossa Sra. da Saúde. A plantação foi feita pelos idosos do Lar de S. José, que aproveitaram a saída para visitar o Santuário e fazer uma oração.
Foram cerca de 20 idosos os que se deslocaram à Nossa Sra. da Saúde para, primeiramente, rezar no Santuário e mais tarde cumprir o objectivo do dia: plantar uma árvore. Depois de analisado e escolhido o melhor local para a colocação da camélia, com a participação de todos, abriu-se uma pequena cova para depois se inserir a planta.
O Dia Mundial da Árvore, cuja origem teve lugar no estado norte-americano do Nebraska, em 1872, é uma data essencial para relembrar as pessoas sobre a importância do respeito pela Mãe Natureza. Hoje, dia 21, o gesto destes idosos pretende transmitir essa mensagem a todas as pessoas, para que juntos contribuamos para um planeta mais verde, mais puro, um mundo…melhor!»

In http://www.scmv.pt/site/ (21 de Março de 2011)

Para informações mais detalhadas sobre a celebração Universal do Dia Mundial da Árvore, clique
 AQUI

sábado, 10 de março de 2012

202.º Aniversário do nascimento de Júlio do Carvalhal

Por Leonel Salvado
actualização: Agosto 2012

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Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses, como consta nos documentos oficiais, ou Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, como surge nos documentos familiares, ou simplesmente Júlio do Carvalhal, como é hoje vulgarmente conhecido, foi um notável militar (oficial do exército) e político (Governador do Distrito de Bragança, Deputado às cortes pelo círculo de Valpaços e presidente da desta Autarquia).  

Biografia
Nasceu em 05.03.1810 no lugar de Alanhosa, freguesia de  S. Miguel de Nogueira, concelho de Chaves, e faleceu na sua casa de Vilar de Nantes, Chaves, no mesmo concelho de Chaves de 9.06.1872.
Fez-se notar como militar arrojado, e é recordado como um dos «bravos do Mindelo». Efectivamente, em Março de 1829, participou na defesa da ilha Terceira, onde se conservou até Julho de 1831. Em 8.07.1832, participou no desembarque das tropas liberais no Pampelido, Mindelo, e acompanhou o duque da Terceira pelas províncias do Norte até Evoramonte. Durante este tempo participou em dezoito combates e batalhas, em muitas delas com um contributo decisivo. Pela sua bravura na Batalha de Ponte Ferreira em 29.09.1832, por exemplo, foi agraciado com o título de “Cavaleiro da Casa Real e da Ordem de Espada do Valor Lealdade e Mérito” além de outros louvores recebidos enquanto oficial do Exército. Por ofício de 12.09.1836, foi nomeado Chefe do Estado-Maior do Governo Militar da Província de Trás-os-Montes e exerceu também as funções de Governador do forte de São Neutel, em Chaves.

Dotado de uma personalidade e temperamento condicionados por firmes convicções liberais, Júlio do Carvalhal deu, por várias vezes, provas de incontida rebeldia, tendo-se colocado na mesma linha do inconformismo liberal de José Estêvão contra os sucessivos ministérios cartistas da ala moderada. Foram as suas próprias convicções que o moveram, a pedido daquele, arregimentar entre as massas populares da região de Valpaços as forças necessárias à planeada rebelião do setembrismo radical, que acabou por abortar em 1844 mas constituiu um prelúdio dos igualmente malogrados movimentos da «Maria da Fonte» e da «Patuleia». Passamos a transcrever um excerto historiográfico onde se alude ao destemido acto de Júlio do Carvalhal:

«Depois desta tentativa [a conspiração de Moncorvo] em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estevão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estevão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estevão, recebeu-se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estevão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstâncias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir às necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.»

fonte : http://www.arqnet.pt/dicionario/estevaojose.html

Mas nem por tal malogro se viu deslustrado o papel histórico protagonizado por Júlio do Carvalhal, que tem sido, acima de tudo, recordado como um Homem dedicado ao desenvolvimento do distrito de Bragança, à terra que o viu nascer e ao concelho de Valpaços, um Homem que se mostrou muito mais preocupado em servir a sua terra do que em satisfazer os caprichos políticos dos timoneiros do poder central instituído.
Foi por duas vezes Governador Civil do Distrito de Bragança, entre 21.05. 1846 a 8.10.1846 e entre 23.06.1856 e 13.07.1857, tendo-lhe cabido em Junho e Julho do seu primeiro mandato combater as guerrilhas miguelistas que assolavam o distrito. Em 1860 foi eleito deputado pelo círculo de Valpaços e reeleito sucessivamente nas legislaturas de 1861-1864, 1865, 1865-1868, 1870 e 1870-1871 destacando-se no exercício desta função como um dos grandes defensores da construção da linha de Caminhos-de-ferro entre o Porto e a Régua, sendo-lhe reconhecido o mérito de ter sido o primeiro deputado a dedicar-se à questão do Caminho-de-Ferro do Douro. Também lhe é inteiramente devida a nossa homenagem por ter sido ele quem, enquanto Presidente da Câmara de Valpaços, conseguiu obter de D. Pedro V, após insistentes pedidos, a elevação da entretanto engrandecida sede municipal, Valpaços, à categoria de vila, estabelecida por Decreto de 27.3.1861.
Chegou a ser-lhe conferido, por Decreto de Agosto de 1864 o grau de Comendador da Ordem da Conceição.

Genealogia
Pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as Ilhas Canárias ao arquipélago da Madeira e ao Norte de Portugal, sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família que exerceu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, nas guerras liberais e noutros sucessos que se seguiram.
Júlio do Carvalhal foi legítimo herdeiro da administração da “Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios”, em Veiga de Lila, onde hoje se pode visitar o respectivo Solar e a capela que era daquela invocação e mais tarde passou à de Santo António.

Graças ao estudo publicado por Ana Luísa no seu blogue Árvore de geração da Família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência, por Fernando Eugénio do Carvalhal de Sousa Teles (ver link em rodapé), não subsistem dúvidas de que Júlio do Carvalhal pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as ilhas Canárias, ao arquipélago da Madeira, ao Norte de Portugal e sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família cujos pergaminhos atestam o seu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, e até, iremos referir a propósito da bravura revelada pelo próprio Júlio do Carvalhal, nas guerras liberais e noutras que se lhes seguiram.

Devido ao mesmo estudo, é possível remontar a ascendência de Júlio do Carvalhal a, pelo menos, dez gerações. Neste sentido está documentado que ela radica em João de Betencourt, um Ilustre Cavaleiro e General francês que em 1417 governou as ilhas Canárias e dois anos depois passou às ilhas Terceira e Madeira, obteve de D. João I inúmeras doações e se estabeleceu, casando com D. Maria de Carvalhal e Silveira. Desse enlace resultou o nascimento de Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira, nono avô de Júlio do Carvalhal, que foi feito Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade e Comendador da Ordem de Cristo e se casou na ilha da Madeira com D. Angélica da Câmara Durman. Este casal teve um filho a quem deu o nome de Manuel de Betencourt Carvalhal e Silveira de Durman. Este oitavo avô de Júlio do Carvalhal, Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade, foi Governador da Cidade de Angra do Heroísmo da mesma ilha e casou com D. Angélica de Noronha e Canto de quem teve dois filhos, tendo sido primogénito João do Carvalhal de Silveira de Noronha Betencourt (o sétimo avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Mestre de Campo do Terço da cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que casou com D. Isabel da Camara Albuquerque Borges, deles nascendo um filho, cerca de 1609, Estêvão da Silveira Carvalhal Borges Betencourt, Fidalgo Cavaleiro de Sua Majestade que foi Governador e Capitão General do arquipélago da Madeira, foi morto pelos espanhóis, no tempo dos Filipes, por recusar entregar-lhes as Ilhas, que ele defendeu por largo tempo, havendo até aí cunhado moeda. Foi o sexto avô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Margarida de Lemos, nascendo desse casamento dois filhos, o primeiro dos quais foi Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt (quinto avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real de quem se diz ter sido o principal responsável pela defesa e Restauração das ilhas depois da Aclamação de D. João IV, pelo que foi nomeado Comandante das mesmas,  a seguir Comandante de Mar e Guerra e logo depois Almirante da Armada e Ouvidor Geral de Moçambique. Do seu casamento com D. Maria da Camara houve dois filhos, o primeiro dos quais, João do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt Fidalgo e Cavaleiro foi tetravô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Maria de Noronha Corte Real nascendo deles três filhos, tendo sido um deles o trisavô de Júlio do Carvalhal, Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real que foi Governador de S. Neutel, em Chaves, depois de ter casado em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora. Foi, como se depreende de uma nota publicada no blogue a que fizemos inicialmente referência, por esta altura e através deste casamento que esta altura que esta ilustre família se estabeleceu na região de Trás-os-Montes e para a qual passou a Casa e Vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila e dela foi detentora ininterruptamente por sucessão varonil até à morte de Júlio do Carvalhal. O casal teve sete filhos, o terceiro dos quais, e primeiro varão, foi o bisavô de Júlio do Carvalhal, Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, Fidalgo da Casa Real que casou com D. Clara Costa Pereira e tiveram dois filhos sendo o primogénito e varão, avô de Júlio do Carvalhal, Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, nascido em Chaves a 14 de Dezembro de 1751 que do seu terceiro casamento, com D. Isabel Maria Bernarda Teixeira Osório de Queiroga, que era natural de Argeriz e filha do Dr. Inácio Gomes Osório de Queiroga (bacharel formado, em1731, em Cânones) e de D. Joana Maria Teixeira, resultou o nascimento de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, em Argeriz, Chaves, em 1783, herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, vereador da Camara Municipal de Chaves nos anos de 1819, 1824 e 1827.

Júlio do Carvalhal, aliás Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, foi o terceiro dos 5 filhos daquele Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt e de D. Rosália Vicência de Meneses Frias e o herdeiro do vínculo de N.ª dos Remédios, em Veiga de Lila, por morte de seu irmão Alexandre durante as lutas liberais no cerco do Porto ou no Algarve (as fontes divergem). Casou duas vezes: primeiro com D. Maria da Piedade Ferreira Sarmento de Lacerda e, após a morte desta, com a cunhada D. Maria das Dores Sarmento Pimentel de Lacerda. Deste segundo casamento não houve filhos. Do primeiro houve vários, sendo o mais novo, César do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Betencourt, o único varão, mas não deixou descendência. D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel, senhora de aprimorada cultura, escritora e poetisa foi, como primogénita de Júlio de Carvalhal, herdeira da Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila. Casou com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, o conhecido “morgado de Rio Torto, mas os dois filhos resultantes do casamento morreram de tenra idade pelo que a continuidade, por linha varonil, deste ramo da numerosa família dos Carvalhais detentora de casas e haveres nas povoações de Nantes, Argeriz e Veiga de Lila, teve de ser assegurada pela descendência de outros membros, desde logo por António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, irmão mais novo de Júlio do Carvalhal. Júlio do Carvalhal faleceu na sua casa de Vilar de Nantes (Chaves) no dia 8 de Junho de 1876.
Terminamos esta resenha genealógica centrada em Júlio do Carvalhal com uma citação do(s) autor(es) da pesquisa que para ela nos serviu de base - que julgamos ser(em) descendente(s) desta família - a respeito de D. Efigénia do Carvalhal e do destino do património deste ramo da família em Veiga de Lila. 

«D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel como filha primogénita de Júlio do Carvalhal, foi herdeira de casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila.
Viúva e sem filhos, D. Efigénia do Carvalhal, acautelou, atempadamente e no seu pleno juízo, assegurar a continuidade na família do referido vínculo. Assim, fez escritura de doação, com reserva de usufruto, em favor da sua sobrinha Umbelinha do Carvalhal, casada com seu primo Eugénio Evangelista do Carvalhal, de todos os seus bens.
Faleceu com 94 anos, tinha eu 12 anos, ainda tenho presente a sua lucidez e recordo, com saudade, o carinho com que nos recebia no seu solar. Da mesma maneira e com fidalguia, suas ilustres visitas eram sentadas na mesa de refeições, ouvindo-a e conversando, quase sempre em matéria de carácter cultural.
Hoje, infelizmente, quer o solar, quer os prédios rústicos, encontram-se parcelados, por vezes, em mão de estranhos à família.»

In http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/


Bibliografia e outros recursos

ALVES, Francisco Manuel, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931; Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928);
Árvore da geração da família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência |in http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/
MARTINS, A. Veloso, Monografia de Valpaços, Porto, 1978.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

2.º Aniversário do Clube de História de Valpaços


Celebramos hoje o primeiro aniversário do Clube de História de Valpaços. Julgamos ter vindo a honrar o compromisso que estabelecemos com a comunidade valpacense que foi, e continuará a ser o de contribuirmos para a divulgação do património histórico e cultural do concelho de Valpaços sem deixar de fazer alguma luz sobre outros assuntos de relevância nacional e Universal nas várias categorias temáticas que temos criado. Nesta data especial para o blogue, seus colaboradores e seguidores, cumpre deixar uma nota de agradecimento e homenagem a todos os que nele têm directa e indirectamente participado, desde os elementos da equipa, identificados no perfil, aos seguidores que diligentemente partilharam as suas publicações e participaram com os seus comentários de forma construtiva e total abnegação. Apraz-nos informar que nunca nos chegou qualquer tipo de comentário depreciativo ou com objectivos maliciosos ou suspeitos - todos os que aqui nos chegaram, incluindo os de comentadores anónimos, foram tecidos com o claro objectivo de melhorar a qualidade das publicações a que se reportavam.
Um Agradecimento Especial a todos quantos nos acompanharam, com o Google rede social, durante a ainda curta existência deste blogue, designadamente a:

Sérgio Morais | José António Soares da Silva | Terra | Euroluso | Pe Ricardo Pinto | Carlos Reis Martins | André Pinto | Portugal Romano | Carla Castro | Fernando Alves| jass | Umbelina | O meu espaço | Celestino Chaves | Paulo Pascoal | Gio | Armando Pinto | Voz | Ceicinha Câmara |leeninha alcilene | Pavaroty | FNA-Escuteiros Adultos | Vilardeamargo-blog | Catrop | jorge fernandes | mm.Gsil | Vítor Loureiro | Micael Sousa | Graça Gomes | Loanda M | Carol Machado | Costa Pinto | Rui Cepeda | onze palavras | d’Azevedo | Gonçalves | Mov. Anti-Corrupção | João | Lccl | Univsersidade Sénior de Valpaços | A busca pela Sabedoria | Combates pela História | Regina | helena maria marques | Mundo da Arqueologia | Ralf Wokan | jmalvar | mesquita artur | Lavras em destaque | reysenpai | João Gomes Salvador | Catarina | Reis Quarteu | lelo Demoncorvo | Alfredo Gomes | Mendonça | Normando Alves | Rui Doutel Morais | AMPUH |  Hilario Marrero Perez | Leila Duarte | Mab |cml nascimento |Emilia | j.valpacos [Eugénio Borges | Vilarandelo-um dia uma imagem…]

Obrigado ainda aos responsáveis pelos restantes blogues com os quais temos estado em contacto.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

121.º Aniversário da Revolta de 31 de Janeiro

Painel de “pseudo-azulejos” alegórico à Revolta de 31 de Janeiro | Imagem de base: Gravura 
de Louis Tynayre, publicada na Illustração, revista universal impressa em Paris, 1891 | Digitalização e adaptação: Leonel Salvado

A revolta de 31 de Janeiro representa, senão o primeiro passo dado no sentido do derrube da Monarquia Portuguesa, pelo menos a manifestação mais evidente, firme e congregadora do movimento republicano em Portugal. Por ter nela tomado parte um fervoroso adepto valpacense da causa republicana, Franklim Teixeira, entendemos considerá-la também como um evento comemorativo de relevância local. De forma a proporcionarmos aos nossos leitores uma ideia global das circunstâncias que rodearam este acontecimento, seleccionamos a seguinte reportagem das “Notícias Lusa” publicada por Ana Maria Gomes no “Almanaque da República” por ocasião das celebrações do I Centenário da instauração deste regime político em Portugal.

«Notícias Lusa, a Revolta de 31 de Janeiro

O ambiente no Porto era "péssimo" nas vésperas da revolta do 31 de Janeiro e conspirava-se muito, sobretudo nos cafés Suíço e Central, junto à antiga Praça D. Pedro (hoje Praça da Liberdade), descreve o historiador Germano Silva.

"O Ultimato Inglês feriu o orgulho nacional e precipitou o descontentamento na cidade. Por isso, o ambiente era péssimo: as pessoas contestavam muito a monarquia, que estava em queda. Conspirava-se muito, e foi nos cafés que se forjou a revolução", descreve, à Lusa, o especialista.

O café Suíço e o Central, situados junto a uma praça cheia de "movida", foram "muito importantes" na revolução e este último era mesmo, de acordo com Germano Silva, "o quartel-general" da revolta de 1891, reunindo nas suas mesas estudantes e militares.

O povo do Porto aderiu fortemente à revolta militar do 31 de Janeiro, de tal forma que, quando chegaram à Praça D. Pedro, os militares "tiveram já dificuldade em romper a multidão para fazer a formatura".

Germano Silva refere que "não há outra cidade onde pudesse ter ocorrido a revolta do 31 de Janeiro", porque se trata de uma cidade "liberal desde a Idade Média".

Como se tratava de "uma cidade de trabalho, que criava riqueza", isso dava-lhe "certos privilégios", nomeadamente o de ser reivindicativa.

Apesar de tudo, a revolução não vingou: "Faltou um chefe militar de alta patente. Os sargentos precipitaram a saída para as ruas porque tinham sido traídos por um deles. Quando chegaram à Praça D. Pedro, onde estava a Câmara, esqueceram-se da guarda municipal, que se foi colocando em sítios estratégicos e tinha meios mais sofisticados, pelo que não foi possível implantar a República", refere o historiador.

Foi da Rua dos Quartéis (actual rua D. Manuel II), que saiu o Regimento de Infantaria 10, um dos responsáveis pela revolta de 31 de Janeiro.

Aos militares da Infantaria 10 devia juntar-se, na Praça de Santo Ovídeo (actual Praça da República), o Regimento de Caçadores 9, que antecipou a sua saída do antigo Mosteiro de S. Bento da Vitória porque "quem comandava as tropas era o sargento Abílio, que precisava de alguém com patente mais alta" para liderar os revoltosos.

Ao cruzar-se com o alferes Malheiro, que fazia a guarda da Cadeia da Relação, o sargento Abílio pediu-lhe para aderir ao movimento e comandar as tropas - o sim do Alferes leva o sargento a proferir o primeiro "viva" à República.

Chegados à Praça de Santo Ovídeo, "numa madrugada muito fria e cheia de nevoeiro", a Infantaria 10 e o Caçadores 9 (aos quais se juntou, também, a Guarda Fiscal) tinham por missão convencer o Regimento de Infantaria 18, ali instalado no quartel.

As negociações foram demoradas e acabaram por não surtir efeito, mas os militares seguiram pela rua do Almada em direcção à Câmara Municipal, onde Alves da Veiga proclamou a República e anunciou os nomes do primeiro Governo provisório.

Mas, entretanto, a guarda municipal estava a postos para parar a revolução e, quando militares e civis decidiram subir a rua de Santo António (actual 31 de Janeiro), começou a atirar, obrigando os revoltosos a fugir e deitando por terra a intenção de derrubar a monarquia em Portugal.»

Ana Maria Gomes, in Almanaque da Republica | http://www.republica2010.com

domingo, 15 de janeiro de 2012

112.º Aniversário do nascimento do Professor Doutor Amândio Tavares


No dia 15 de Janeiro de 1900, há 112 anos, nascia em Valpaços numa das casas da Rua que hoje tem o seu nome, Amândio Joaquim Tavares, um dos mais notáveis filhos da terra, brilhante figura enquanto estudante, docente universitário, Reitor da Universidade do Porto, muito estimado pelo corpo docente e pelos estudantes desta instituição, e cientista de reconhecido mérito internacional.

Para rever o que publicámos em homenagem ao Professor Doutor Amândio Tavares na “Galeria de Notáveis de Valpaços” desde 2 de Abril de 2011,
 clique AQUI.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

142.º Aniversário do nascimento de António Óscar de Fragoso Carmona


Nascido em Lisboa em 24 de Novembro de 1869 e falecido na mesma cidade em 18 de Abril de 1951, António Óscar de Fragoso Carmona foi um militar e político português que ascendeu ao mais alto cargos da República nestas áreas, atingindo o posto de General e mais tarde recebendo o título honorífico de Marechal e tendo sido o seu décimo primeiro Presidente da República Portuguesa e o primeiro da ditadura do Estado Novo. A sua ligação com Trás-os-Montes estabeleceu-se no início da sua carreira militar, enquanto tenente no Quartel de Chaves, e fortaleceu-se por via do seu casamento com Maria do Carmo Ferreira da Silva, uma transmontana alegadamente natural de Serapicos, no concelho de Valpaços, também ela uma pessoa aqui bastante louvada e recordada com grande carinho.

Para rever uma resenha biográfica do Marechal António Óscar Fragoso Carmona aqui publicada click sobre a foto.

Para aceder a uma biografia mais detalhada click AQUI.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

165.º Aniversário da batalha de Valpaços

Alegoria à batalha de Valpaços, com base em guache de Leonel Salvado

Ocorrida a 16 de Novembro de 1846 e designada muitas vezes por combate de Valpaços ou simplesmente por Acção Valpaços, a batalha de Valpaços é reconhecida como um dos sucessos das guerras liberais de relevância histórica nacional, mas determinadas situações que com ela estiveram relacionadas, devidamente identificadas e documentadas, têm inspirado escritores e historiadores locais bem conhecidos a assinalá-la como um evento memorável, invocando, a dignificante postura assumida nela, e após o seu desfecho, pela população de Valpaços, bem como o sofrimento a que os habitantes das localidades circunvizinhas foram sujeitos e estoicamente suportaram, designadamente em Vilarandelo e Ervões. Trata-se, portanto, para os valpacenses, de uma data comemorativa, a que, talvez, ainda não se tenha dado a importância devida.

Rever nossa publicação, actualizada a 10 de Maio do corrente ano e dedicada a este memorável acontecimento,

sábado, 29 de outubro de 2011

Cândido Sotto Mayor faleceu há 76 anos


É dia de recordar Cândido Sotto Mayor, um ilustre transmontano oriundo da freguesia de Lebução cujo 159.º aniversário do seu nascimento seria de comemorar há três dias e hoje se assinala o 76.º aniversário da sua morte.

Rever a biografia deste membro da nossa
 Galeria de Notáveis
  AQUI.

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

174.º Aniversário do nascimento de D. Pedro V, rei de Portugal

Por Leonel Salvado


D. Pedro V, aliás Pedro de Alcântara Maria Fernando Miguel Rafael Gonzaga Xavier João António Leopoldo Victor Francisco de Assis Júlio Amélio de Saxe Coburgo e Bragança, nasceu a em 16 de Setembro de 1837 no Palácio das Necessidades em Lisboa, primogénito da rainha D. Maria II e do príncipe consorte, depois rei de Portugal, D. Fernando II. Foi o 32.º monarca de Portugal.
Ascendendo ao trono em 1853 e aclamado cerda de dois meses depois, quando completou os 18 anos de idade, deu provas claras da sua exemplar vocação governativa, recebendo o cognome de O Esperançoso – outros o cognominaram de O Bem-amado ou de O Muito Amado, em conformidade e homenagem a uma das suas mais admiráveis acções enquanto soberano que foi o de ter conseguido reconciliar o povo com a Casa Real ao lograr livrar o país do ambiente de tensão e de guerra civil que marcara o reinado de sua mãe.
Foi homem de refinada formação moral e intelectual, encontrando em Alexandre Herculano – seu educador – a melhor fonte de inspiração nessa formação. Empenhou-se na modernização e no desenvolvimento cultural do Reino, promovendo, por exemplo, a introdução do telégrafo eléctrico, inaugurando o primeiro troço dos caminhos-de-ferro (entre Lisboa e o Carregado) e criando um Curso Superior de Letras, em 1859 - entendido como o embrião da actual Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - a qual subsidiou a expensas próprias.
Mais se conta das suas virtudes que teria sido um monarca sensível aos valores humanitários ao posicionar-se, pessoalmente, como um dos adeptos europeus da abolição da escravatura, (o que terá provocado alguns embaraços nas relações diplomáticas entre Portugal e a França) e ao visitar hospitais e não se coibindo, neles, de se colocar à cabeceira dos doentes vitimados pelas temíveis epidemias de cólera e febre-amarela que então grassavam no Reino. Foi aliás na área da saúde pública que a benignidade deste monarca inspirou nos povos um sentimento de amor e veneração por ele, que há muito não se via em Portugal. A ele e à princesa Dona Estefânia, sua mulher, se deve a fundação do hospital que ainda ostenta o nome desta, entre outros hospitais públicos e instituições de caridade.
Ironicamente, D. Pedro V viria a falecer no mesmo palácio onde nascera apenas 24 anos antes, supostamente por ter contraído febre tifóide, explicação que, contudo, não impediu a que o povo se amotinasse por suspeitar que o seu Bem-Amado rei havia sido envenenado. Está sepultado no Panteão dos Braganças no Mosteiro de S. Vicente de Fora. Posto que D. Pedro V, prematuramente falecido, não deixara filhos, sucedeu-lhe no trono o seu irmão, Infante D. Luís.

A data de nascimento de D. Pedro V deve ser entendido, em Valpaços, como uma data comemorativa de relevância local, pois foi da natural disposição deste rei, de triste fado, para ouvir e acudir às necessidades dos povos que resultou a tão esperada atribuição da categoria de Vila à localidade já então sede do Município, desde 1836. Efectivamente, em resposta aos insistentes apelos dirigidos nas Cortes pela elevação de Valpaços a Vila da parte do deputado pelo círculo deste concelho, o ilustre valpacense Júlio do Carvalhal, esse acto é finalmente referendado pelo Marquês de Loulé, a 27 de Março de 1861, e confirmado por Carta Régia assinado por D. Pedro V a 4 de Abril do mesmo ano.

Para conhecer o teor do referido documento que transcrevemos da Monografia de Valpaços de A. Veloso Martins, click AQUI.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

161.º Aniversário do nascimento de Guerra Junqueiro


Nascido em Ligares, povoação do concelho de Freixo de Espada à Cinta, a 15 de Setembro de 1850, segundo alguns autores, ou a 17 do mesmo mês e ano, segundo outros, Guerra Junqueiro não carece de grandes apresentações para a maioria dos portugueses e, sobretudo, dos transmontanos. Nascido no seio de uma família transmontana de camponeses abastados, perdeu a mãe quando contava apenas três anos, fez os estudos preparatórios em Bragança e com apenas dezasseis anos de idade matriculou-se no Curso de Teologia na Universidade de Coimbra, transferindo-se pouco depois, na mesma instituição, para o curso de Direito que terminou em 1873, aos vinte e três anos. Se é certo que despertou muito cedo para a literatura, escrevendo em 1864, a sua primeira obra conhecida, “Duas páginas dos quatorze anos”, é também reconhecida pela a sua precoce entrada e escalada na vida política e administrativa, sendo, assim, recordado suas notáveis qualidades de escritor, poeta e jornalista bem como de alto funcionário administrativo, político e deputado. Nesta data comemorativa do seu nascimento seleccionámos uma breve resenha biográfica a seu respeito, que passamos a transcrever.

Nome: Abílio Manuel Guerra Junqueiro
Nascimento: 15-9-1850, Freixo de Espada à Cinta
Morte: 7-7-1923, Lisboa

Poeta e político português, nascido em 1850, em Freixo de Espada à Cinta (Trás-os-Montes), e falecido em 1923, em Lisboa, Guerra Junqueiro é entre nós o mais vivo representante de um romantismo social panfletário, influenciado por Vítor Hugo e Voltaire. Oriundo de uma família de lavradores abastados, tradicionalista e clerical, é destinado à vida eclesiástica, chegando a frequentar o curso de Teologia entre 1866 e 1868. Licenciou-se em Direito em Coimbra, em 1873, durante um período que coincidiu com o movimento de agitação ideológica em que eclodiu a Questão Coimbrã. Nessa cidade convive de perto com o poeta João Penha, em cuja revista literária,  A Folha, faz a sua estreia literária. Durante a sua vida, combina as carreiras administrativa (exercendo a função de secretário dos governos civis de Angra do Heroísmo e de Viana do Castelo) e política (sendo eleito por mais de uma vez deputado pelo partido progressista) com a lavoura nas suas terras de Barca de Alva, no Douro. Nos anos oitenta, participa nas reuniões dos Vencidos da Vida, juntamente com Oliveira Martins, Ramalho Ortigão, Eça de Queirós e António Cândido, entre outros. Reage ao Ultimato inglês de 1890, com o livro de poesias Finis Patriae, altura em que se afasta ideologicamente de Oliveira Martins, confiando na República como solução para os males da sociedade portuguesa. Entre 1911 e 1914, assume o cargo de Ministro de Portugal na Suíça. Na fase final da sua vida, retira-se para a sua propriedade no Douro, assinalando-se então uma viragem na sua orientação poética, que se volta para a terra e para "os simples", como atestam as suas últimas obras:  Pátria  (1896), ainda satírica, mas já de inspiração saudosista e panteísta;  Os Simples  (1892) - um hino de louvor à terra, de uma poesia que evoca a sua infância, impregnada de saudosismo, de recordações calmas e consoladoras e onde se sente uma grande ternura pela correspondente paisagem social; Oração ao Pão (1903) e Oração à Luz (1904), estas enveredando por trilhos metafísicos.
O anticlericalismo, que em vida lhe granjeou o escândalo e a fama, o estilo arrebatado, vibrante, apoiado na formulação épica do verso alexandrino de influência huguana, contribuíram para a apreciação do crítico Moniz Barreto:
"Quando se procura a fórmula do espírito de Guerra Junqueiro acha-se que ele é muito mais orador que poeta e que tem muito mais eloquência que imaginação." Poeta panfletário, confidencial, satírico e também religioso, o seu valor foi contestado na década de 20. No entanto, os seus defensores nunca deixaram de acreditar na sua genialidade como satírico e como lírico.

Bibliografia: Duas Páginas dos Catorze Anos, 1864 (poesias); Mysticae Nuptiae, 1866 (poesias); A Vitória da França, 1870 (poema); A Espanha Livre, 1873 (poema); A Morte de D. João, 1874 (poema); Contos para a Infância, 1877 (contos); A Musa em Férias, 1879 (poesias); A Velhice do Padre Eterno, 1885 (poesias); Finis Patriae, 1890 (poesias); Marcha do Ódio, 1890 (poesias); Os Simples, 1892 (poesias); Pátria, 1896 (poesias); Oração ao Pão, 1903 (poema); Oração à Luz, 1904 (poema); Prosas Dispersas, 1921 (prosas); Horas de Combate, 1924 (prosas, edição póstuma)

In Infopédia,Porto: Porto Editora, 2003-2011. [Consult. 2011-09-15].
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