quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

167.º Aniversário do nascimento de Álvaro do Carvalhal

Por Leonel Salvado


Retrato fidedigno de Álvaro do Carvalhal, réplica de outro existente na sala da casa de habitação de sua neta Dra. Mariberta Carvalhal | in http://guitarradecoimbra.blogspot.com

Nascido a 3 de Fevereiro de 1844 no seio de uma ilustre e culta família estabelecida no concelho de Valpaços, Álvaro Carvalhal de Sousa Silveira e Telles a quem, lamentavelmente, o destino reservou um curta passagem pela vida continua, apesar disso, a ser considerada como um caso ímpar na história da literatura portuguesa onde ainda se denota uma clara ausência do género fantástico que Carvalhal cultivou com extraordinária determinação até mesmo nos momentos mais agonizantes do mal de que padecia (um aneurisma) e quando já tinha por certa e breve e a sua morte que veio a acontecer, aos 24 anos, em Coimbra no dia 14 de Março de 1868, sem terminar o curso de Direito em que se havia matriculado quatro anos antes.

Da infância por terras transmontanas à maturidade cultural e à sua morte na cidade universitária

Vem sendo costume dividirem-se seus biógrafos quanto ao local exacto do seu nascimento, em Argeriz, asseveram uns, em Padrela (ou “S. Pedro de Padrela”), sustentam outros. Álvaro nasceu efectivamente na data acima indicada e na freguesia de S. Pedro de Padrela que já então se designava formal e administrativamente por freguesia de Padrela e Tazém em virtude da fusão, em 1834, daquela com esta, outrora paróquias vizinhas mas independentes no termo de Chaves. A verdade, porém, tal como nos surge atestada pelos seus descendentes e confirmada pela documentaçao paroquial, é que Álvaro do Carvalhal foi um dos filhos de António do Carvalhal Silveira Telles e de Teresa Teixeira Vaz Barroso Guerra, um conceituado casal que por mais de uma década após a morte do jovem escritor podia ser visitado no aconchego de sua casa de Argeriz. A casa dos Carvalhais em Argeriz foi-lhes legado pelo avô paterno de Àlvaro do Carvalhal, Alexandre Manuel Carvalhal e Sousa  Silveira Telles Noronha Bettencourt que aí nasceu. Convém observar que ambas as freguesias de Padrela-Tazém e Argeriz pertenceram ao concelho de Carrazedo de Montenegro mas, à data do nascimento do escritor, Argeriz já integrava desde 1837, por Carta de lei, o recém-criado concelho de Valpaços, ao passo que Padrela só passou a este concelho em 1853, pelo Decreto desta data que extinguia o de Carrazedo de Montenegro.
Segundo uma nota publicada por Maria do Nascimento Oliveira Carneiro,  em “O Fantásticos dos Contos de Álvaro do Carvalhal”, ele terá sido provavelmente desde a infância «muito favorecido e incentivado pelo próprio meio familiar que o cercou» salientando que «tanto seu pai, António do Carvalhal, autor de um “Romance” inédito, como sua prima e companheira de infância, Ifigénia do Carvalhal, amante da poesia romântica e futura colaboradora do Almanaque das Senhoras poderão ter marcado eficazmente o destino literário do jovem Carvalhal.» Convém já observar que aquele António do Carvalhal (aliás António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha), pai de Álvaro do Carvalhal, foi o mais novo dos irmãos do ilustre Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha já por nós biografado neste blogue e que esta Ifigénia do Carvalhal (ou Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel), prima de Álvaro do Carvalhal, foi a primeira de quatro filhos daquele Júlio do Carvalhal e quem mais tarde viria a casar com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, conhecido como o “morgado de Rio Torto”, oriundo de Vila Flor. Após a aprimorada instrução primária recebida no seio da família, o jovem Álvaro mudou-se para Braga em cujo liceu iniciou os seus estudos secundários, passando depois aos liceus de Viseu e Coimbra. Aqui matriculou-se na Faculdade de Direito em 11 de Outubro de 1864.
Foi em Coimbra que Álvaro do Carvalhal definiu o seu irreverente pendor literário, incompreendido pelos paladinos da literatura oitocentista mas reabilitado pela modernidade, nas seis admiráveis narrativas que produziu, em evidente sofrimento físico, onde, segundo o resumo sinóptico divulgado pela editora Almedina relativo aos seus contos se «sobressai o cuidadoso encadeamento da intriga e uma linguagem inconfundível» que «são uma das experiências mais notáveis do romantismo português» e nelas «o fantástico, expressão do lado obscuro e inquietante da mente, entrecruza-se de forma inesperada e surpreendente com o exótico, a ironia e o humor negro.» Uma das maiores e mais conhecidas referências da sua obra foi o livro “Os canibais”, em grande parte graças à sua adaptação ao cinema por Manoel de Oliveira. O reconhecimento póstumo da sua invulgar elevação cultural em Coimbra já mereceu da parte de alguns biógrafos seus conterrâneos, na actualidade, alguns elogios como é o caso de António Cândido Gavaia, o qual, numa edição do “Semanário Transmontano” de 15 de Maio de 2009, disse sobre ele que «a superior e invejável cultura deste jovem estudante que estudava em Coimbra, ia de um Shakespeare, perfeitamente conhecido, a um A. Dumas, a um Dante, a um Voltaire e a um Cervantes, citado com conhecimento, aos românticos espanhóis como Espronceda (1808-1842), até aos escribas de “faca e alguidar” e folhetinistas frenéticos, não só franceses como alemães», acrescentando que «Álvaro do carvalhal representava, indubitavelmente, a esperança de se tornar o “Alan Poe” dos enredos melodramáticos de terror de certo tipo de literatura portuguesa.»
Pelo que consegui apurar, a partir do post publicado por A. M. Nunes no Blogue “Guitarra de Coimbra”, dedicado a Álvaro do Carvalhal em Março de 2006, as suas obras conhecidas são: "O castigo da vingança", que é um drama em 3 actos, editado em Braga, quando ali era aluno do Liceu, e os "Contos", que são uma «edição póstuma, ainda no decurso de 1868, pelo seu grande amigo e biógrafo José Simões Dias». Segundo a mesma fonte, «esta obra inclui os contos frenético-fantásticos J. Moreno, O Punhal de Rosaura, Os Canibais [de que já falámos], A Febre do Jogo, A Vestal e Honra Antiga. Da 1ª edição de 1868 se tiraram pelo menos mais duas, sempre com os reeditores na mais firme convicção [errada como veremos] quanto à inexistência de herdeiros directos do escritor: "Seis contos frenéticos escritos por Álvaro do Carvalhal", Lisboa, Arcádia, 1978, com prefácio e notas de Manuel João Gomes; "Contos", Lisboa, Assírio & Alvim, ISBN 972-37-089-1, Agosto de 2004.»

Este promissor mestre da prosa oitocentista, que Alberto Ferreira distinguiu na sua obra Questão Coimbrã", Volumes I e II, Lisboa, Portugália, 1968 (I, pág. 416; II, págs. 233-246), como pioneiro no lançamento da polémica que haveria de catapultar a Questão Coimbrã, segundo a mesma fonte de A. M Nunes, veio a falecer de aneurisma, na data e cidade que já indicámos, pelas 21 horas no prédio n.º 46 da couraça de Lisboa. Foi sepultado no Cemitério da Conchada, em Coimbra.

A família

Como foi dito atrás, Álvaro do Carvalhal nasceu a 3 de Fevereiro de 1844 numa das casas da numerosa família dos carvalhais em Argeriz ou em Padrela. Foi o segundo filho de António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, fidalgo e cavaleiro da Casa Real, e de sua esposa, D. Thereza Barroso Guerra e irmão de Alexandre Carvalhal de Sousa Silveira Teles que também iniciou estudos de Direito em Coimbra, abandonando-os e mudando-se para Lisboa para se matricular em Agronomia, curso que também não chegou a concluir devido à morte do pai.


Álvaro do Carvalhal foi neto paterno de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, fidalgo e Cavaleiro da Casa Real e herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, e de sua mulher D. Rosália Vicencia de Meneses Faria e bisneto paterno de Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt. Aquele seu avô, Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, nasceu em 1783 em Argeriz e foi vereador na Câmara Municipal de Chaves durante três mandatos entre 1819 e 1929, e foi filho do terceiro casamento deste seu bisavô Francisco José do Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, também Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, casado com Isabel Osório. Ainda por via paterna, Álvaro do Carvalhal foi trineto de Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, fidalgo da Casa Real, e de sua mulher Clara Costa Pereira e tatraneto de Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencout, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real, que casou em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora e morreu em Chaves onde foi Governador de S. Neutel. Álvaro de Carvalhal, como os restantes Carvalhais dos vários ramos transmontanos, descende de uma ilustre linhagem que remonta ao inínio do século XV, radicando em João de Betencourt, Cavaleiro e General francês que em 1417 conquistou as ilhas Canárias, chegando a exercer o seu domínio pessoal sobre elas durante dois anos, após o que passou às ilhas Terceira e Madeira onde acumulou bastantes doações do rei D. João I e casou com D. Maria de Carvalhal e Silveira e através do filho de ambos, Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira deu início esta linhagem portuguesa.


Outro assunto curioso sobre de Álvaro do Carvalhal é o que tem vindo a ser colocado a respeito da sua descendência. Face à sua prematura morte, julgou-se durante muitos anos, fora do círculo mais restito da família do escritor, que Álvaro do Carvalhal não deixara descendência. Para isso contribuiu decerto, e segundo o já mencionado autor do “Guitarra de Coimbra”, o que se extrai do “Livro de Óbitos de S. Cristóvão” de Coimbra para o ano de 1869, onde o padre Manuel da Cruz Pereira Coutinho anotou – “não consta que tivesse filhos” (sic). Ao que parece, o próprio Álvaro do Carvalhal não chegou a saber que isso não era verdade! Soube-se depois que da sua relação amorosa com uma jovem natural de Braga que exerceu o magistério primário na sua cidade natal e em Esposende, Genoveva da Silva, durante os anos da  passagem de Álvaro pelo Liceu desta cidade, haveria de nascer uma criança do sexo masculino, a qual foi dada pela mãe a criar em Celeirós (Braga) a uma doceira de ofício, no meio da maior discrição, talvez para a proteger de uma eventual reacção de indignação da parte da ilustre família do pai, já que se tratava de um nascimento ilegítimo. Foi a criança, nascida quatro anos antes da morte do pai, baptizada com o nome de Álvaro da Silva Carvalhal. São apresentadas outras possíveis justificações para o silêncio de Genoveva relativamente à existência deste filho, designadamente os receios de que visse retirada a sua licença no Ensino, por ser mãe solteira, o simples estigma que há época pendia sobre esta condição ou até o temor de que a notícia pudesse agravar o estado de saúde de Álvaro, posto que a doença já lhe havia sido diagnosticada durante a sua frequência no Liceu de Braga. Quando a criança atingiu a idade de nove anos entendeu Genoveva enviá-la para o Brasil, confiando-a aos cuidados de um irmão solteiro, para que ela pudesse retomar a sua vida sem maiores embaraços, o que de facto se viria a verificar – casou em Esposende e constituiu nova família. Mas antes que a criança partisse, achou a mãe que era tempo de quebrar o silêncio, tanto perante o próprio filho como a família paterna. O excerto que passamos é uma narrativa interessante do processo subsequente relativo à descendência de Álvaro do Carvalhal.


Antes do embarque, Genoveva inteirou o filho da identidade do progenitor e da existência de familiares em Trás-os-Montes. Viajou com a criança até Algeriz e em chegando à porta de António Teles deu-se a conhecer e disse ao que ia. O idoso António Teles veio receber comovidamente o neto, abraçou-o e gritou para dentro: "Ó Teresa anda cá ver o filho do nosso Álvaro!". Teresa Guerra, mordida pela peçonha da vergonha de um neto "apanhadiço" resmungou e não se deu a ver. O pequeno Álvaro jamais esqueceria as falas secas e duras daquela avó que não se quis dar a conhecer.
Genoveva da Silva, professora de instrução primária, veio a casar em Esposende e ali trabalhou duradouramente. Não ocultou ao marido a existência do filho "ilegítimo". Nascido quatro anos antes da morte do pai (1864-1935), Álvaro da Silva Carvalhal emigrou para o Brasil. Ali se fez "brasileiro milionário", republicano amigo e simpatizante de Bernardino Machado, maçon, ateu e cultivado autodidacta. Regressado a Portugal com 43 anos, o endinheirado filho de Álvaro do Carvalhal estabeleceu-se em Esposende na casa da mãe e do padrasto.
Desembarcado em Lisboa, no seu périplo terrestre para norte percorreu alfarrabistas e livrarias de Lisboa, Coimbra e Porto, com o fito de encontrar um exemplar do livro do pai ("Contos", 1868). Finalmente, por intermédio de uma professora amiga e conviva do futuro sogro, logrou obter um exemplar da obra. Foi mais ou menos nesta altura que o "brasileiro" conheceu Eugénia Abreu, uma burgesinha esposendense, católica, conservadora, com menos 23 anos do que o futuro marido (1887-1958), filha do professor régio de Esposende. O casamento realizou-se no ano de 1907 na Igreja de São Lázaro, Braga. Na época a que nos reportamos eram corriqueiros os casamentos entre noiva provinciana católica e noivo positivista, ateu, maçónico e republicano. As esposas não interferiam na actividade política/ou partidária dos esposos e estes davam carta branca às esposas quanto a baptizados, comunhões e crismas dos filhos.
O casal Carvalhal domiciliou-se em Esposende, local onde foram sucessivamente gerados António Carvalhal (1909-1982), Álvaro Carvalhal (1911-1950), Luís Carvalhal (1913-1995), Joaquim Carvalhal (1915-1995) e Mariberta Carvalhal (1918...).
Na segunda metade da década de vinte, o casal Carvalhal acompanhou o filho António, primeiro no Liceu de Viana do Castelo (até ao 5º ano), depois no Liceu de Braga (até ao 7º ano). No Verão de 1931 toda a família Carvalhal se estabeleceu em Coimbra, com o filho António a iniciar os estudos de Direito. Habitaram sucessivamente em Montes Claros, Ladeira do Seminário, Rua António José de Almeida e Largo da Matemática (actual República dos Inkas). À excepção do aluno de Direito e guitarrista António Carvalhal, os restantes irmãos frequentaram o Liceu D. João III. Mariberta matriculou-se no Infanta D. Maria, tendo ingressado na Faculdade de Letras da UC no ano lectivo de 1937/1938. Integrou a primeira geração do jovem TEUC, foi colega e amiga do estudante escritor Vergílio Ferreira, tendo concluído o curso de "germânicas" em 1944.
O folgado estado financeiro da família Carvalhal, conseguido graças aos lucros obtidos numa fábrica de refinação de açúcar do Brasil, alterou-se em meados da década de trinta. O regime brasileiro congelou fortunas e rendimentos de antigos emigrantes portugueses. As poupanças de Álvaro da Silva Carvalhal não escaparam a este processo. A agravar a situação, Álvaro da Silva Carvalhal faleceu em Coimbra, a 30 de Maio de 1935, balbuciando apenas um insólito "Deus seja comigo".
Sendo a viúva Eugénia Abreu doméstica e inábil para os negócios, o filho mais velho, António Carvalhal, tentou assumir-se como "chefe de família". Abandonou Direito no 3º ano e ingressou em Histórico-Filosóficas, trabalhando ainda na Biblioteca Geral da UC. Os manos Luís, Joaquim e Mariberta matricularam-se em cursos da UC. O mano Álvaro tirou o diploma de ensino primário, após o que fundou e dirigiu em Esposende o Colégio Infante Sagres. Luís, terminado o curso de Histórico-Filosóficas, refugiou-se a partir de 1950 no Rio de Janeiro. Joaquim deixou o curso de Direito por concluir em Coimbra. Por 1950-1951 asilou-se no Brasil, ali tendo concluído Direito e exercido advocacia. António trabalhou como professor no Colégio Alexandre Herculano, Coimbra, mas a partir de 1944 percorreu estabelecimentos de ensino na Covilhã e no Porto, como professor de História e de Português. Mariberta, após passagem por Ilhavo e Porto, radicou-se com a família em Luanda no ano de 1958. Exceptuando António, personalidade muito conservadora e simpatizante do Estado Novo, os restantos manos Carvalhal eram assumidamente do "reviralho".


Álvaro do Carvalhal (neto), faleceu em 16 de Agosto de 1950 em Esposende, solteiro e sem filhos, vitimado por fulminante cancro de estômago.
Luís Carvalhal faleceu no Rio de Janeiro, em 18 de Novembro de 1995, casado, pai de uma filha e de um filho.
Joaquim Carvalhal faleceu no Rio de Janeiro em 5 de Novembro de 1995, solteiro e sem filhos, vítima de traumatismo craniano resultante de atropelamento de bicicleta na via pública.
Mariberta Carvalhal, viúva, é mãe de duas filhas.

In http://guitarradecoimbra.blogspot.com

Bibliografia e outros recursos

cvc.instituto-camoes.pt/.../78-o-fantastico-nos-contos-de-alvaro-do-carvalhal-.html -
http://www.almedina.net/catalog/product_info.php?products_id=5890
http://guitarradecoimbra.blogspot.com
http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com

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