sexta-feira, 15 de julho de 2011

Trás-os-Montes e alguns dos grandes nomes da expansão ultramarina - IV

Por Leonel Salvado

A relação entre a epopeia dos descobrimentos, a exploração do “novo Mundo” e a Província de Trás-os-Montes há muito sustentada pela tradição em algumas regiões, parece subsistir em diversas publicações recentes, sendo, conforme os casos, admitida por, alguns autores como uma mera possibilidade e defendida por outros como uma realidade cientificamente fundamentada. A questão prende-se com a propalada naturalidade transmontana de algumas das grandes figuras da História da Expansão ultramarina da Península Ibérica: Diogo Cão, Bartolomeu Dias, Fernão de Magalhães e, talvez o menos conhecido, João Rodrigues Cabrilho, navegador e explorador do continente americano.

João Rodrigues Cabrilho talvez seja o menos conhecido dos portugueses, dentre os quatro grandes navegadores que aqui nos temos vindo a reportar, mas pelos seus mais notados feitos – foi o primeiro europeu a chegar à Alta Califórnia, ao serviço da coroa espanhola – ele deve ser considerado, na opinião de Damião Peres, “como um dos grandes descobridores quinhentistas da América e como tal a sua memória tem sido localmente recordada[1]. Antes disso havia participado na conquista, chefiada por Hernán Cortês, de Tenochtitlan a capital do império azteca  e na campanha liderada por Pedro Alvarado para a conquista dos actuais territórios de Honduras, Guatemala e San Salvador. A data exacta do nascimento de Cabrilho é desconhecida, mas parece que existem poucas dúvidas quanto à sua nacionalidade portuguesa, ainda que haja quem pretenda que ele terá nascido em Sevilha, na Andaluzia, como  é o caso de um dos seus biógrafos estrangeiros,  Harry Kelsey [2]. O já citado Damião Peres, bem como Luís de Albuquerque insisitiram sempre nesta ideia da naturalidade portuguesa e este último baseia-a na indicação expressa do cronista D. António Herrera [3] que é a mesma que se pode ler na Wikipédia, a partir do url que colocamos à disposição dos nossos leitores no final desta publicação em “Referências”.

Quanto à sua possível origem transmontana, a ideia de que tenha nascido no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, que a tradição mantém há muitos anos, tem sido confirmada por alguns autores como João Soares Tavares num trabalho biográfico dedicado ao navegador [4] de assinaláveis recursos documentais e argumentativos. Soares Tavares tem vindo a reafirmar a sua convicção perante esta tese, a propósito de cuja validade se tem pronunciado em reportagens concedidas à imprensa regional como a que veio a público no Diário Actual - do Alto Tâmega e Barroso [5]. A mesma tese foi subscrita por Barroso da Fonte [6] de que transcrevemos a respectiva síntese biográfica de João Rodrigues Cabrilho, conforme as conclusões proporcionadas por João Soares Tavares:

Nasceu no lugar da Lapela, freguesia de Cabril, concelho de Montalegre, nos fins do séc. XV Emigrou para a vizinha Espanha, em busca de melhores condições de vida. Também na Galiza não terá encontrado aquilo de que precisava. E daí que se tenha virado para o mar. Era o tempo das descobertas. Em 1494 tinha sido assinado o Tratado de Tordesilhas. As relações entre D. João II e os reis católicos de Espanha eram favoráveis à aceitação de cidadãos de ambos os países em tarefas comuns. João Rodrigues optou pela aventura, pelo que fez parte da tripulação que partiu de Sevilha, ao serviço de Espanha. Sabe-se que já em 1511 se encontrava no Novo Mundo. Viveu em Cuba. Certamente participou na sua conquista como besteiro de um grupo militar de Pánfilo de Narváez, de acordo com João Soares Tavares, o mais autorizado biógrafo de Cabrilho, cuja vida lhe mereceu um filme. Aportou no México e entrou na sua conquista como capitão de uma companhia de besteiros do exército de Hernan Córtez. Em 1521, já como oficial, participa na expedição de Francisco de Orosco à Província de Oaxaca, colaborando na fundação da cidade do mesmo nome e que hoje é monumento nacional declarado pela UNESCO. A partir de 1522 é um dos principais comandantes do exército de Don Pedro de Alvarado. Com ele, parte à conquista de Tututepeque. Segue-se a expedição à Guatemala, onde entra em 1524. Percorre o território até à Costa do Pacífico (no actual El Salvador). No dia 25 de Julho desse ano colabora na fundação da cidade de Santiago de los Caballeros, primeira capital da Guatemala. Passa aí a viver como "cabalhero", com direitos reforçados, constrói aí casa, ganha prestígio e adquire estatuto de fidalgo. O governador de Guatemala concede-lhe "encomiendas" pelos altos serviços prestados. Manda construir um barco, com o nome de S. Miguel, também conhecido por João Rodrigues. Em 1532 vem à Península Ibérica, onde permanece um ano. Casa em Sevilha com Dona Beatriz Ortega, filha de um rico mercador. Regressa à Guatemala, com a mulher e aí nascem dois filhos. Em 1536 é nomeado magistrado das cidades de Acajutla e de Iztapa. Passa a governador delas e fixa residência em Iztapa. É aí que organiza uma armada para rumar às "Especiarias" (Malucas). Em 1540 parte como almirante dessa armada constituída por 12 a 14 barcos. Em 27 de Junho de 1542 parte para uma nova missão: descobrir a Califórnia. Aí morreu, em 3 de Janeiro de 1543, em consequência de uma tempestade, em que partiu uma perna. Foi sepultado na Ilha de Possession, mais tarde baptizada pelos seus companheiros com o seu nome. S. Diego celebra, anualmente, o descobridor Português que se chamou João Rodrigues, com o apelido de Cabrilha, por ser de Cabril (em galego "Cabrilhe"). Sempre de acordo com o Dr. João Soares Tavares e com base no artigo que sobre João Cabrilha publicou no Jornal da Costa do Sol, em 29.5.1997, o navegador Português foi o autor da primeira publicação editada no Novo Mundo. Escreve textualmente: "Posso afirmar sem receio de exagerar que a obra de Cabrilha marca o início do jornalismo no Novo Mundo. Experimentei uma sensação indescritível quando localizei esse documento escrito por Cabrilha, inicialmente no Arquivo Geral do Governo da Guatemala e, posteriormente, quando consegui fazer o seu estudo, a partir de um exemplar da edição facsimile que se encontra num arquivo em Espanha". Em 9.6.1998 o Dr. João S. Tavares apresentou na C.M. de Montalegre o livro: João Rodrigues Cabrilha, Um Homem do Barroso?


Monumento a Cabrilho, Point Loma, San Diego, California |
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Referências:

[1] VERBO - ENCICLOPÉDIA LUSO-BRASILEIRA DE CULTURA, 1966 vol. 4, p.396.


[3] DICIONÁRIO DE HISTÓRIA DE PORTUGAL, dir. Joel Serrão, vol. I, Liv. Figueirinhas, Porto, 1990, p. 418.

[4] TAVARES, João Soares, “João Rodrigues Cabrilho: Um Homem do Barroso?”, edição da C.M de Montalegre, 1998.


[6] DICIONÁRIO DOS MAIS ILUSTRES TRASMONTANOS E ALTO DURIENSES, Coordenado Barroso da Fonte, Vol I, Editora Cidade Berço | Disponível na www:

3 comentários:

  1. Caro Dr. Leonel Salvado:

    Pretendo entrar em contacto. Poderá facultar-me o seu endereço electrónico.
    Melhores cumprimentos.
    João Soares Tavares
    josota@gmail.com

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  2. joão Soares Tavares26 de julho de 2011 às 13:00

    Caro Dr. Leonel Salvado:

    Pretendo entrar em contacto. Poderá facultar-me o seu endereço electrónico.(Repete-se devido a erro no meu endereço electrónico)
    Melhores cumprimentos.
    João Soares Tavares.
    josotava@gmail.com

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  3. Pode entrar em contacto comigo em leonelsalvado@gmail.com

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