sexta-feira, 21 de outubro de 2011

DOCUMENTOS: Aldeias do concelho de Valpaços nos meados do século XVIII por freguesias – SÃO JOÃO DA CORVEIRA

Por Leonel Salvado


Nota prévia: Na presente transcrição alguns topónimos, por mera curiosidade etimológica que podem suscitar, são apresentados na forma como se lêem na cópia do manuscrito original.

MEMÓRIAS PAROQUIAIS, 1758, Tomo12, CORVEIRA, Chaves
[Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 12, n.º 339, p. 2725 a 2738]

Corveira
O Padre João de Almeida Sousa e Sá, pároco in perpetuum da Igreja de São João da Corveira desta grande Religião da Igreja de Malta, certifico em como, em cumprimento de uma ordem mandada e determinada pelo Excelentíssimo e Ilustríssimo Dom Frei Aleixo de Miranda Henriques, eleito Bispo de Miranda, Vigário Capitular e Governador deste Arcebispado de Braga, Primaz das Espanhas, enviada a mim, pároco supra nomeado e infra assinado, pelo muito Reverendo Senhor Bento de Carvalho e Faria, Vigário Geral desta Comarca de Chaves, e sendo-me entregue com os interrogatórios juntos, me informei do conteúdo deles e alcancei e sei o seguinte.

Esta terra de São João da Corveira fica na Província de Trás-os-Montes, pertence ao Arcebispado de Braga, Primaz, distrito da Comarca e Termo de Chaves e pertence à freguesia de São João da Corveira que é da Sagrada Religião de Malta.
É do Comendador desta Comenda, Frei Paulo Guedes Pereira Pinto, cavaleiro professo da Ordem da Sagrada Religião, que é Donatário da mesma.
Tem a Freguesia cento e trinta fogos e trezentas e quarenta e oito pessoas.
Está situada em uma campina breve cercada de montes não muito elevados. Descobrem-se várias terras e montes e as abas dos subúrbios de Carrazedo de Monte Negro e a torre da mesma igreja dista um quarto de légua e o Lugar de São Pedro dos Vales dista duas léguas.
Tem termo separado das mais terras, o seu principal Lugar de São João da Corveira de trinta e um vizinhos, o lugar das Vargeas que tem nove vizinhos, Quintelinha três, Vilarinho do Monte vinte e dois, Junqueira dezasseis, Sobrado dezasseis, Riobom trinta e dois, Bustos dois, que fazem oito Lugares.
Acha-se situada a freguesia em um alto, fora do dito Lugar de São João, para a parte do Nascente, distante deste cento e dezassete passos. Não tem aldeias, mas sim lugares que vão distintos pelos seus nomes no interrogatório supra.
É o seu orago São João Baptista. Tem três altares, o mor, aonde está o Santíssimo Sacramento, e dois colaterais; no da parte do Evangelho está colocada a imagem de Nossa Senhora do Rosário, no da Epístola a imagem do Santo Cristo Crucificado e São Brás. Tem quatro colunas de cada parte, de pedra, que sustentam o tecto, e uma Irmandade do Santíssimo Sacramento.
Intitulam-se os párocos Reitores, da apresentação do Comendador que for desta Comenda que é, hoje, o acima nomeado. Rende cento e vinte mil réis.
Não tem beneficiados, nem cura pago pelo Comendador, que muito necessário é, nem paga outra alguma pensão.
Não há convento algum.
Não há Hospital.
Não tem Misericórdia.
Tem na borda de um passal, ao pé das casas de residência contíguas à igreja, a capela de Santo António. Pertence a fábrica desta ao Comendador. No mesmo lugar de São João tem a capela de São Sebastião. Tem a capela de São Gonçalo no meio do lugar das Vargeas. Tem a capela de Nossa Senhora das Neves fora do dito lugar de Vilarinho do Monte, ao pé da estrada. Tem a capela de Nossa Senhora da Expectação em uma aba do lugar da Junqueira. Tem a capela de Santo Ildefonso no meio do lugar de Sobrado. Tem a capela de Nossa Senhora dos Cheiros do lugar de Riobom, no princípio deste, ao pé da entrada, indo do Nascente para o Poente.
Todas estas capelas pertencem a esta igreja e freguesia, porém a fábrica delas pertence aos moradores dos lugares em que estão situadas, menos a de Santo António e a de Nossa Senhora dos Cheiros, porque destas pertence a fábrica ao Comendador, e da do sitio de Riobom tem somente do arco da capela mor para dentro.
Em todas as capelas se diz missa rezada nos dias dos seus oragos. Na capela de Nossa Senhora dos Cheiros se faz uma Feira aos vinte e cinco de Março, aonde também acode alguma gente de romagem, e neste dia se lhe faz missa cantada com as esmolas que, para isso, a piedade dos fiéis de Deus ali deixam, como também a do Senhor São Brás, em o seu dia, que está colocado no altar colateral desta igreja, aos três de Fevereiro, em o qual dia se faz uma Feira aonde acodem pessoas de romagem.
Os frutos da terra são castanha, trigo, centeio e milho, o que recolhem os lavradores em maior abundância e muito pouco dos três são os que sustentam a maior parte do ano destes produtos.
Tem juiz de vintena sujeito às justiças seculares de Chaves, a saber, Câmara e juiz de fora da Vila de Chaves e o ouvidor de Bragança. E pelo que respeita ao eclesiástico se sujeita ao Sereníssimo Infante Dom Pedro, Grão Prior do Crato, e ao Doutor Vigário Geral da Sagrada Religião de Malta, residente na cidade do Porto, assim no espiritual como no temporal e no espiritual somente ao ordinário de Braga, Primaz.
É Distrito de Malta e goza dos seus privilégios, assim no eclesiástico como no secular, por bulas pontifícias e indultos confirmados pelos Senhores Reis, de gloriosa memória, e pelo Senhor Rei Dom José, o primeiro, que Deus guarde.
Não me consta que desta Freguesia se distinguisse ou florescesse alguém por virtudes, Letras ou Armas e só se compõe de gente lavradora, de boa vida e costumes.
Fazem-se duas Feiras, uma aos três de Fevereiro, cada um ano, outra aos vinte e cinco de Março. A primeira em dia de São Brás, ao largo desta igreja, e pagam para o dito Santo, cada um que traz géneros para vender, cinquenta réis de cada assento, a outra no largo da capela de Nossa Senhora dos Cheiros, do lugar de Riobom, e dão o que a sua devoção permite para a missa cantada da dita Senhora e não são cativas por outro algum donativo.
Não há correio, servem-se do da Vila de Chaves que dista três léguas, chega às Quartas Feiras de tarde e parte ao Domingo pelas nove horas da manhã.
Dista da cidade capital de Braga, Primaz, dezoito léguas e da de Lisboa, capital do Reino, setenta e quatro.
Têm fontes nesta Freguesia, e em todos os lugares dela, que deveremos chamar de ordinárias mas saudáveis.
Não há porto de mar.
Não ruínas, nem muralhas ou fortalezas.
Não padeceu ruína alguma esta igreja, capelas ou casas no terramoto do ano de mil setecentos e cinquenta e cinco, ainda que fosse com veemência grande.
Não há mais coisa alguma especial ou digna de descrever.

Pelo que respeita às Serras
Não há serras no distrito desta minha Freguesia de marcos adentro.
Há uma planície de mato, perto, que poderá ter de largura e comprimento um quarto de légua, situado aonde chamam a Reboreda e principia ao lugar de Vilarinho do Monte, que está a Nordeste, e acaba em o lugar de Junqueira, para o Sul, e de outra parte principia no fundo da serra da Padrela e acaba, ao comprido, para a parte do Sudoeste.
Nesta dita planície nascem para a parte do Nordeste duas águas que vêm fazer de lagoa, não de água represa mas corrida, que passa pela falda da dita Reboreda por uma ribeira chamada da Junqueira para a parte do sul, pelo lugar de Sobrado, que serve para fazer regar alguns lameiros, e fenece em o rio chamado do Poio no lugar da chamada [Cunca?] em qual sítio tem outros lameiros em que se apascenta o gado daquele lugar.
Constam estes montes de urzes, carquejas e carvalhos. Não tem mais de que se faça memória. Em algumas partes destes montes se semeia centeio e trigo em pouca quantidade.
O temperamento destas terras é fresco, aonde de Dezembro até Abril, em alguns cimos, cai neve mas saudável.
Cria-se nestes montes muitos gados, como bois, cabras e ovelhas, e caça, assim como de perdizes, lebres e coelhos e destes géneros se criam abundantes se deixarem de matar nos meses que, pela lei, são proibidos por serem os tais montes naturais deles.

Pelo que pertence ao rio
Chama-se a este rio do Poio. Nasce na falda da serra de Padrela de três fontes que se juntam no sítio que chamam Bouças, o qual defontouro lança-se de marcha para a parte do poente. A este se une a água da Fonte de Padrela, vai correndo seu curso para a parte do Sul, daí volta para a do nascente, pelas margens e regadas de Sobrado e ribeiras do Poio, até chegar ao lugar das Vargeas. Neste sítio se lhe junta um regato que se acha a nascente dos lameiros de Vald’isa que toma a sua corrente até ao dito lugar das Vargeas aonde, unida às do Poio, segue a sua carreira outra vez para Sul, e passa por esta vez numa parte da serra de Carrazedo, ao poente. Junta-se mais ao dito rio do Poio outro regato que tem seu princípio em o lugar de Corveira donde, correndo para o Sul, passa por uma ilharga do lugar de Nuzedo. Aqui se lhe junta, a poente do dito lugar, mas seguindo sua corrente até às Vargeas aonde se junta com o dito rio Poio. É este o princípio do Rio Poio e fenece na ponte de Abreiro de onde entra no Foz Tua, tudo para a parte do Sul. Desde o fim ao princípio dista cinco léguas.
Não nasce caudaloso. Todo o ano corre. Os regatos que se lhes metem são os que acima digo, no distrito desta freguesia.
Não é navegável.
Corre do seu princípio até esta freguesia, para o Sul, daí para Nascente até às Vargeas e daqui para o Sul.
Não cria outros géneros de peixes mais que trutas e, estas, em pouca quantidade.
A pescaria a esta casta de peixes é feita de Junho até Setembro e é com chumbeira e redes de varrer e atravessar, porém pequenas por conta do pouco âmbito do rio.
Durante anos foi este rio, desta Freguesia, privilegiado por ser terra da Sagrada Religião de Malta, e ainda hoje é, e quando assiste na Comenda o Comendador lhe guardam o mesmo respeito e, no mais tempo, o devassam e pescam nos meses em que a lei não permite.
Nas poucas margens que tem nesta freguesia se cultivam de centeio, milho e trigo. O arvoredo é silvestre, nada de árvores de fruto por ser a terra de qualidade frigidíssima.
Nenhuma outra virtude tem as suas águas mais que fertilizar as terras.
No âmbito desta freguesia não tem, nem me consta tenha, outro nome mais que o de rio Poio.
Morre no Foz Tua, que é outro rio de maior curso, aonde chamam a Ponte do Abreiro, terra de Malta.
Não tem cachoeiras mas sim alguns prados, não muito fundos, e açudes tantos quantos são os moinhos, e não é nem pode ser navegável.
Não tem mais que uma ponte de cantaria, aonde chamam de Carrazedo, pela qual se continua a estrada Real de Bragança e Miranda e mais terras da parte do Nascente para a cidade de Braga e Porto.
No distrito desta freguesia há vinte e dois moinhos com vinte e dois açudes que todo o ano trabalham. Não há memória de que deixassem de moer por falta de água e, por isso, acodem no Verão quando há necessidade de água. De todos estes contámos quatro léguas em redondo, os quais moinhos estão, no distrito, de meia légua. Não há outro algum engenho.
Não há memória de que das areias deste rio se tirasse ouro ou alguma outra casta de metal.
As águas deste rio não são pensionadas a ninguém. Usam livremente os lavradores delas e estes só pagam, de marcos adentro, foros e pensões das terras ao Donatário delas que é o Comendador desta sobredita Comenda.
Do nascimento deste rio até aonde se submete no Foz Tua tem cinco léguas e passa por Padrela, lugar vizinho a esta freguesia para a parte do Poente, Sobrado, Vargeas, lugares desta freguesia, Carrazedo, Curros, Mascanho, Murça, Abreiro aonde, na parte deste lugar, se entranha no Foz Tua.


Não há coisa notável nesta terra, monte ou rio de que possa dar notícia na verdade.
Passo na verdade o referido que em fé da qual me assino, com dois párocos mais vizinhos, na forma da ordem que se me entregou e interrogatório junto.

São João da Corveira, dez de Março de mil setecentos cinquenta e oito, assino e declaro in verbo Sacerdotis.

O Reitor, João de Almeida Sousa e Sá

O vigário de Nuzedo, Padre João Nunes
O vigário de São Pedro de Padrela, Francisco Fernandes de Carvalho

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