domingo, 4 de julho de 2010

Dois Transmontanos ilustres, duas personalidades distintas, nos finais da Monarquia

Leonel Salvado
última actualização: 16 Agosto 2012


Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses e Francisco Xavier de Morais Pinto (Pimentel Cardoso) foram duas figuras incontornáveis da História local e regional que se fizeram notar no agitado período de crescente afirmação do liberalismo em Portugal. Ambos oriundos de famílias aristocráticas ligadas às mais altas patentes militares, tinham ainda em comum a particularidade terem nascido no mesmo ano de 1810 em terras do concelho de Valpaços, e de terem enveredado pela carreira política e administrativa, como aliás assim obrigavam, em muitos casos, as respectivas tradições familiares. Estas circunstâncias iriam fazer com que os seus destinos se cruzassem, como foi o caso de se terem sucedido no cargo de Governador Civil do Distrito de Bragança. Não obstante tais similaridades, e ainda da comparável firmeza de carácter de que um e outro deram provas, revelaram possuir duas personalidades distintas, no que respeita às suas convicções políticas e ideológicas.

Morais Pinto nasceu em Possacos (ou Poçacos) a 10 de Março de 1810. Foi o segundo filho  de Fancisco Xavier Morais Pinto, nascido e falecido nesta mesma localidade em 1785 e a 9 de Outubro de 1840, respectivamente, e de Maria Guiomar de Sá Macedo Vilas-Boas Mesquita ( na publicação Prefeitos de Trás-os-Montes e Governadores Civis de Bragança é referida uma Maria Guiomar de Macedo Sarmento que suponho tratar-se da mesma pessoa), natural de Vale de Salgueiro, Mirandela. Foi neto de Francisco Xavier Morais Pinto, também nascido e falecido em Possacos, e de Ana Joaquina Ataíde de Almeida, oriunda de uma nobre a abastada família de Montalegre. O seu pai e seu avô foram, portanto, seus homónimos, o que, não sendo caso inédito pode, por vezes, confundir os genealogistas.  Pelo que nos foi possível apurar, através do Geneall.net, este ramo da família dos Morais Pinto de Possacos provém de  uma linhagem aristocrática que se estabeleceu nesta localidade na primeira metade do século XVIII e que resultou do casamento de João Lopes Martins, nascido em Possacos, de que não se assinalam quaisquer referências de ascendência aristocrática, com Leonor Maria de Morais Pinto, natural de Rio Torto,  filha de André Cardoso de Morais, nobre figura de Mirandela, casamento esse celebrado em Rio Torto a 1 de Maio de 1739.

O último dos Franciscos Xavier Morais Pinto, que é o que aqui nos interessa,  foi um Homem cuja lealdade à ordem estabelecida nunca esteve em causa, um servidor incondicional aos princípios liberais estabelecidos pela monarquia constitucional e, portanto, um Homem que se colocou, até à exaustão física, ao serviço da Coroa, independentemente das opções favorecidas ou toleradas pela Soberana, D. Maria II. Foi em conformidade com estes princípios que, enquanto Governador Civil do Distrito de Bragança, em 1847, Morais Pinto apelou efusivamente à sua população para a defesa da moral e da ordem pública em favor do Governo, contra o movimento rebelde da «patuleia», o que resultou na destruição desta pelo confronto militar ocorrido nas imediações do velho caminho de Ervões, celebrizado sob a designação de «Acção Valpaços», onde as forças fiéis à soberana, comandadas pelo barão do Casal e pelo visconde de Vinhais, levaram a melhor sobre as milícias dirigidas pelo visconde de Sá da Bandeira. Faleceu na Foz do Douro, Porto, onde residia, no dia 6 de Janeiro de 1888

Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses, como consta nos documentos oficiais, ou Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, como surge nos manuscritos familiares, ou simplesmente Júlio do Carvalhal, como é hoje vulgarmente conhecido, nasceu no dia 5 de Março de 1810 no lugar de Alanhosa, freguesia de S. Miguel de Nogueira, Chaves. Também possuía invejáveis pergaminhos aristocráticos, de que que desde logo é sintomática a extensão e pomposidade do seu próprio nome.

Graças ao estudo publicado por Ana Luísa no seu blogue Árvore de geração da Família dos Carvalhais e Bettencourts das Ilhas e sua Descendência, por Fernando Eugénio do Carvalhal de Sousa Teles (ver link em rodapé), não subsistem dúvidas de que Júlio do Carvalhal pertenceu a uma ilustre família da fidalguia portuguesa cuja influência se estendeu ao longo dos séculos desde as ilhas Canárias, ao arquipélago da Madeira, ao Norte de Portugal e sobretudo à Província de Trás-os-Montes. Uma família cujos pergaminhos atestam o seu notável protagonismo em momentos cruciais da História de Portugal, assim no movimento expansionista, pela ocupação das Canárias e das ilhas atlânticas, como em actos de heróica lealdade à dinastia de Bragança logo no início das guerras da Restauração, e até, iremos referir a propósito da bravura revelada pelo próprio Júlio do Carvalhal, nas guerras liberais e noutras que se lhes seguiram.

Devido ao mesmo estudo, é possível remontar a ascendência de Júlio do Carvalhal a, pelo menos, dez gerações. Neste sentido está documentado que ela radica em João de Betencourt, um Ilustre Cavaleiro e General francês que em 1417 governou as ilhas Canárias e dois anos depois passou às ilhas Terceira e Madeira, obteve de D. João I inúmeras doações e se estabeleceu, casando com D. Maria de Carvalhal e Silveira. Desse enlace resultou o nascimento de Francisco Betencourt de Carvalhal e Silveira, nono avô de Júlio do Carvalhal, que foi feito Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade e Comendador da Ordem de Cristo e se casou na ilha da Madeira com D. Angélica da Câmara Durman. Este casal teve um filho a quem deu o nome de Manuel de Betencourt Carvalhal e Silveira de Durman. Este oitavo avô de Júlio do Carvalhal, Fidalgo e Cavaleiro de S. Majestade, foi Governador da Cidade de Angra do Heroísmo da mesma ilha e casou com D. Angélica de Noronha e Canto de quem teve dois filhos, tendo sido primogénito João do Carvalhal de Silveira de Noronha Betencourt (o sétimo avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo Cavaleiro da Casa Real e Mestre de Campo do Terço da cidade de Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, que casou com D. Isabel da Camara Albuquerque Borges, deles nascendo um filho, cerca de 1609, Estêvão da Silveira Carvalhal Borges Betencourt, Fidalgo Cavaleiro de Sua Majestade que foi Governador e Capitão General do arquipélago da Madeira, foi morto pelos espanhóis, no tempo dos Filipes, por recusar entregar-lhes as Ilhas, que ele defendeu por largo tempo, havendo até aí cunhado moeda. Foi o sexto avô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Margarida de Lemos, nascendo desse casamento dois filhos, o primeiro dos quais foi Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt (quinto avô de Júlio do Carvalhal), Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real de quem se diz ter sido o principal responsável pela defesa e Restauração das ilhas depois da Aclamação de D. João IV, pelo que foi nomeado Comandante das mesmas,  a seguir Comandante de Mar e Guerra e logo depois Almirante da Armada e Ouvidor Geral de Moçambique. Do seu casamento com D. Maria da Camara houve dois filhos, o primeiro dos quais, João do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt Fidalgo e Cavaleiro foi tetravô de Júlio do Carvalhal e casou com D. Maria de Noronha Corte Real nascendo deles três filhos, tendo sido um deles o trisavô de Júlio do Carvalhal, Francisco do Carvalhal Borges da Silveira Betencourt, Fidalgo Cavaleiro da Casa Real que foi Governador de S. Neutel, em Chaves, depois de ter casado em Lisboa com D. Maria Magdalena Telles e Távora. Foi, como se depreende de uma nota publicada no blogue a que fizemos inicialmente referência, por esta altura e através deste casamento que esta altura que esta ilustre família se estabeleceu na região de Trás-os-Montes e para a qual passou a Casa e Vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila e dela foi detentora ininterruptamente por sucessão varonil até à morte de Júlio do Carvalhal. O casal teve sete filhos, o terceiro dos quais, e primeiro varão, foi o bisavô de Júlio do Carvalhal, Alexandre Manoel de Carvalhal e Silveira Noronha Betencourt, Fidalgo da Casa Real que casou com D. Clara Costa Pereira e tiveram dois filhos sendo o primogénito e varão, avô de Júlio do Carvalhal, Francisco José de Carvalhal Telles da Silveira Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, nascido em Chaves a 14 de Dezembro de 1751 que do seu terceiro casamento, com D. Isabel Maria Bernarda Teixeira Osório de Queiroga, que era natural de Argeriz e filha do Dr. Inácio Gomes Osório de Queiroga (bacharel formado, em1731, em Cânones) e de D. Joana Maria Teixeira, resultou o nascimento de Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt, Fidalgo e Cavaleiro da Casa Real, em Argeriz, Chaves, em 1783, herdeiro da casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, em Veiga de Lila, vereador da Camara Municipal de Chaves nos anos de 1819, 1824 e 1827.
Júlio do Carvalhal, aliás Júlio do Carvalhal da Silveira Betencourt de Noronha, foi o terceiro dos 5 filhos daquele Alexandre Manoel do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Noronha Betencourt e de D. Rosália Vicência de Meneses Faria e o herdeiro do vínculo de N.ª dos Remédios, em Veiga de Lila, por morte de seu irmão Alexandre durante as lutas liberais no cerco do Porto ou no Algarve (as fontes divergem). Casou duas vezes: primeiro com D. Maria da Piedade Ferreira Sarmento de Lacerda e, após a morte desta, com a cunhada D. Maria das Dores Sarmento Pimentel de Lacerda. Deste segundo casamento não houve filhos. Do primeiro houve quatro filhos, sendo o mais novo, César do Carvalhal de Sousa Silveira Telles Betencourt, o único varão que não deixou descendência. D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel, senhora de aprimorada cultura, escritora e poetisa foi, como primogénita de Júlio de Carvalhal, herdeira de Casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila. Casou com Francisco de Moraes Teixeira Pimentel, o conhecido “morgado de Rio Torto, mas os dois filhos resultantes do casamento morreram em tenra idade pelo que a continuidade, por linha varonil, deste ramo da numerosa família dos Carvalhais detentora de casas e haveres nas povoações de Nantes, Argeriz e Veiga de Lila, teve de ser assegurada pela descendência de outros membros, desde logo por António do Carvalhal da Silveira Telles Pereira Noronha, irmão mais novo de Júlio do Carvalhal. Júlio do Carvalhal faleceu na sua casa de Vilar de Nantes (Chaves) no dia 8 de Junho de 1876.
Terminamos esta resenha genealógica centrada em Júlio do Carvalhal com uma citação do autor da pesquisa que para ela nos serviu de base  (autor que julgamos ser um dos descendentes desta família) a respeito de D. Efigénia do Carvalhal e do destino do património deste ramo da  família em Veiga de Lila.  

«D. Efigénia do Carvalhal de Sousa Silveira e Telles Pimentel como filha primogénita de Júlio do Carvalhal, foi herdeira de casa e vínculo de Nossa Senhora dos Remédios, de Veiga de Lila.
Viúva e sem filhos, D. Efigénia do Carvalhal, acautelou, atempadamente e no seu pleno juízo, assegurar a continuidade na família do referido vínculo. Assim, fez escritura de doação, com reserva de usufruto, em favor da sua sobrinha Umbelinha do Carvalhal, casada com seu primo Eugénio Evangelista do Carvalhal, de todos os seus bens.
Faleceu com 94 anos, tinha eu 12 anos, ainda tenho presente a sua lucidez e recordo, com saudade, o carinho com que nos recebia no seu solar. Da mesma maneira e com fidalguia, suas ilustres visitas eram sentadas na mesa de refeições, ouvindo-a e conversando, quase sempre em matéria de carácter cultural.
Hoje, infelizmente, quer o solar, quer os prédios rústicos, encontram-se parcelados, por vezes, em mão de estranhos à família.»
In http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/

Júlio do Carvalhal  fez-se um militar arrojado, e é recordado como um dos «bravos do Mindelo». Por mais de uma vez deu provas de incontida rebeldia, tendo sido, por isso, um Homem que hoje, politicamente, classificaríamos «de esquerda», na mesma linha do inconformismo liberal de José Estêvão perante os sucessivos ministérios cartistas da ala moderada. Foram essas convicções que o moveram, aliás, a pedido daquele, a favorecer em Valpaços a abortada rebelião do setembrismo radical que, preludiando os movimentos da «Maria da Fonte» e da «Patuleia», terminou com o exílio voluntário do seu principal instigador. A anuência de Júlio de Carvalhal à rebelião e o seu envolvimento pessoal, surgem-nos atestados nas referências biográficas respeitantes ao incansável deputado setembrista José Estêvão, o qual, reagindo ao malogro que a sua causa, aclamada em Almeida, resultou em Moncorvo, ainda insistiu na sublevação dos populares da província de Trás-os-Montes no mesmo ano de 1844. Aqui transcrevemos um excerto dessas referências:

Depois desta tentativa [a conspiração de Moncorvo] em que se perdeu muito tempo, decidiu afinal José Estevão o pronunciamento popular da província, e com esse fim mandou João Bernardino para Veiga de Lila, o qual, de acordo e debaixo da direcção de Júlio do Carvalhal, conseguiu levantar algumas forças populares na montanha auxiliadas pelos setembristas influentes de Vila Pouca de Aguiar. Tudo estava pronto e habilmente preparado para o dia designado. José Estevão devia sair de Murça com os populares que estivessem armados, e marchar com eles a tomar o comando das forças revolucionadas por Júlio de Carvalhal, enquanto nos outros dois pontos da província os demais caudilhos, já prevenidos, levantariam simultaneamente o grito a favor da causa sustentada em Almeida. No dia designado para a partida de José Estevão, recebeu-se a notícia da capitulação da praça, e soube-se que, as forças cabralistas marchavam sobre Trás-os-Montes. José Estevão ainda tentou resistir, mas os ânimos estavam desmoralizados, e os populares abandonaram-no. Nestas circunstâncias partiu sozinho para Espanha pela raia de Castela, e foi encontrar-se com os emigrados em Salamanca, onde entregou o dinheiro que tinha recebido no Porto para acudir às necessidades da emigração, e pedindo licença a César de Vasconcelos, tomou passaporte para Paris.
fonte : http://www.arqnet.pt/dicionario/estevaojose.html

Mas, nem por isso foi menos brilhante o papel histórico protagonizado por Júlio do Carvalhal, que tem sido recordado, acima de tudo, como um Homem dedicado ao desenvolvimento do distrito de Bragança, à terra que o viu nascer e ao concelho de Valpaços, isto é, um Homem que se mostrou muito mais preocupado em servir a sua terra do que em servir os caprichos políticos dos homens do poder central instituído. Foi com tal dedicação que Júlio do Carvalhal enquanto deputado às Cortes pelo Círculo de Valpaços, entre 1860 e 1872 se destacou como um dos grandes defensores da construção da linha de caminho de ferro entre o Porto e a Régua. De igual dedicação resultou a homenagem que lhe devemos por ter sido ele quem, enquanto Presidente da Câmara Municipal de Valpaços  conseguiu obter de D. Pedro V, após insistentes pedidos, a elevação da entretanto engrandecida sede municipal, Valpaços, à categoria de vila,  por Decreto de 27.3.1861.

Vejamos o que a respeito destes dois Valpacenses se publicou em Prefeitos de Trás-os-Montes e Governadores Civis do Distrito de Bragança (1833-2005):

«[…]

Júlio do Carvalhal 

Governador Civil do Distrito de Bragança
21.Maio.1846 – 8.Outubro.1846
(Veiga de Lila, 10.3.1810 – Nantes, 9.6.1872)
Júlio do Carvalhal de Sousa Teles Pereira e Meneses.
Oficial do exército.
Deputado e presidente de câmara.
Natural de Veiga de Lila, Valpaços.

Por decreto de Agosto de 1864 foi-lhe conferido o grau de Comendador da Ordem da Conceição, o qual, porém, veio a ser anulado por um outro de Dezembro do mesmo ano. Foi moço-fidalgo, cavaleiro da Casa Real e da Ordem da Torre e Espada do Valor, Lealdade e Mérito, esta última em reconhecimento dos serviços relevantes prestados na Batalha de Ponte Ferreira, em 29 de Setembro de 1832. Recebeu vários louvores enquanto oficial do exército.
Administrador do vínculo de Nossa Senhora dos Remédios de Veiga do Lila.

Assentou praça voluntariamente no Regimento de Cavalaria n.º 9, em Agosto de 1827. Em 1828 pertenceu à Divisão do Porto, imigrando depois para a Galiza e Inglaterra, onde conviveu com Alexandre Herculano, Almeida Garrett e Passos Manuel.

Em Março de 1829, participou na defesa da ilha Terceira, onde se conservou até Julho de 1831.

Em 8 de Julho de 1832, participou no desembarque das tropas liberais no Pampelido, Mindelo, e acompanhou o duque da Terceira pelas províncias do Norte até Évoramonte. Durante este tempo participou em dezoito combates e batalhas, muitas delas com um contributo decisivo.

Por ofício de 12 de Setembro de 1836, foi nomeado chefe de estado-maior do Governo Militar da Província de Trás-os-Montes e exerceu também as funções de governador do forte de São Neutel, em Chaves.

Por 1837 encontrava-se gravemente doente, padecendo de hemoptise periódica, dores reumáticas e problemas no sistema nervoso, contraídas em serviço, sendo julgado incapaz de serviço activo. Em sequência desta moléstia, pediu nesse mesmo ano para passar a adido à 1.ª Companhia de Veteranos da 5.ª Divisão Militar.

Em 1838, depois de vários atestados médicos corroborarem o seu precário estado de saúde, uma junta médica militar declarou-o “incapaz de serviço activo”.

Deputado, em 1860, pelo círculo de Valpaços e reeleito sucessivamente nas legislaturas de 1861-1864, 1865, 1865-1868, 1870 e 1870-1871.

Foi presidente da câmara municipal de Valpaços e nestas funções, em 1861, conseguiu a elevação daquela localidade a vila.

Com os seus colegas António Alves Martins e José Luís Alves Feijó, tomou a iniciativa, no Parlamento (1860-1864), da construção de uma linha férrea no distrito de Bragança e foi o primeiro deputado a dedicar-se à questão do caminho-de-ferro do Douro.

Foi governador civil de Bragança, cargo de que tomou posse a 21 de Maio de 1846, exercendo essas funções até 8 de Outubro seguinte; e segunda vez por decreto de 23 de Maio de 1856, tomando posse a 23 do mês imediato, perante o secretário-geral António Leite Pereira Lobo, exercendo o cargo até 13 de Julho de 1857. No Diário do Governo de 6 de Junho de 1846, diz-se que a nomeação foi por decreto de 6 desse mês e ano.

Logo no início do seu primeiro mandato, entre Junho e Julho de 1846, no âmbito da Guerra Civil que ficou conhecida por Maria da Fonte, Júlio do Carvalhal viu-se a braços no seu distrito com guerrilhas miguelistas.

Fontes e Bibliografia:

Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928); Arquivo Histórico Militar, Processo individual de Júlio do Carvalhal de Sousa Teles; Boletim Official de Bragança, Bragança, 1846; A. Veloso Martins, Monografia de Valpaços, Porto, 1978;

Francisco Manuel Alves, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931.

http://arvoredafamiliacarvalhal.blogspot.com/

Francisco Xavier de Morais Pinto

Governador Civil do Distrito de Bragança
8.Outubro.1846 – 5.Julho.1847
(Possacos, 4.6.1810 – Porto, 6.1.1888)

Francisco Xavier de Morais Pinto (Pimentel Cardoso).
Conselheiro, deputado e par do Reino.
Natural de Possacos, Valpaços.

Comendador da ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Filho de Francisco Xavier de Morais Pinto, morgado da casa dos Possacos, moço-fidalgo com exercício no Paço e coronel do regimento de milícias de Chaves, e de Maria Guiomar de Macedo Sarmento. Tal como o seu pai, foi moço-fidalgo com exercício no Paço, e ainda deputado às cortes pelo círculo de Valpaços, na legislatura de 1846, tendo regressado à Câmara dos Deputados na legislatura de 1868-1869. Foi ainda conselheiro de Estado. Foi governador civil de Bragança por decreto de 8 de Outubro de 1846, de cujo lugar tomou posse a 1 de Dezembro desse ano, perante António José de Miranda, par do reino e presidente da Junta Governativa daquele distrito, conservando-se ali até 8 de Novembro do ano seguinte. Foi um mandato atribulado, já que na sequência da guerra civil designada por Patuleia, Francisco Xavier de Morais Pinto foi obrigado a refugiar-se em Espanha, em 5 de Maio de 1947, juntamente com o secretário-geral, Diogo Albino de Sá Vargas, e a maior parte dos empregados do Governo Civil. Voltou, mais tarde, a exercer o mesmo cargo (embora não se encontre mencionado no livro dos autos de posse daquele Governo Civil) desde Maio de 1851 a Maio de 1856, como se vê pelos Diários do Governo de 18 de Maio de 1852 e 24 de Fevereiro de 1853 e pela correspondência expedida pelo Governo Civil durante este período.


Discurso de Morais Pinto aquando da Guerra Civil da Patuleia (1847)

Habitantes do distrito de Bragança!

Algumas centenas de portugueses, infelizmente iludidos e rebeldes contra o trono de nossa adorada rainha e senhora D. Maria II, invadiram há pouco vossas habitações para estenderem a guerra civil e a anarquia a um país jamais manchado com a nódoa de infidelidade a seus augustos soberanos; e para vos constrangerem a concorrer com as produções de vossas fadigas, e com vossos dinheiros, à causa iníqua em que seguem obstinados.

Hoje, porém, sois livres.
Com as tropas leais do digno comando do Exmo. e benemérito Barão de Vinhais, comandante interino da 5.ª divisão militar, eis-me outra vez entre vós, para libertar-vos do flagelo que vos oprimia, e para vos restituir a paz, o império da lei, e a segurança que víeis tão comprometida, de vossas pessoas e de vossas coisas.

Habitantes do distrito de Bragança, exultai! A guerra civil vai tocar seu termo com o triunfo completo da causa da legalidade e da ordem, e das instituições liberais consignadas na Carta Constitucional da monarquia.

As forças navais de suas majestades britânica e católica fizeram já prisioneira a maior parte da tropa dos sublevados; e um respeitável corpo de exército espanhol entra hoje por esta fronteira para coadjuvar as tropas leais até à inteira submissão dos rebeldes às ordens da nossa augusta soberana.

Habitantes do distrito de Bragança! Continuai a permanecer tranquilos; abraçai como amigos e aliados os súbditos da nação espanhola, que tão generosamente nos vêm auxiliar e esmagar a ira revolucionária, e não desmintais os nobres sentimentos e o carácter transmontano.


Bragança, 11 de Junho de 1847.

O governador civil – Francisco Xavier de Morais Pinto.

(Impresso em folha avulsa, sem indicar lugar de impressão nem tipografia, mas provavelmente em Bragança, pertencente a Júlio Lemos, empregado da Câmara Municipal daquela cidade, e transcrito por Francisco Manuel Alves nas suas Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931, p. 8)


Ofício de Morais Pinto à rainha, a dar conta das dificuldades sentidas durante a guerra civil e da sua exoneração (1847)

Vou concluir oito meses de exercício do cargo de governador civil deste distrito, que sua majestade a rainha me havia feito a honra confiar-me por decreto de oito de Outubro do ano próximo passado. Não foi sem grande dificuldade que tomei sobre mim tanto peso, por certo superior a minhas débeis forças, em circunstâncias tão melindrosas como aquelas em que o país se tem achado. Porém, a religiosa obediência que devia às ordens da nossa excelsa soberana, e os restantes desejos que nutria de contribuir com meus esforços, conquanto apoucados, a bem da causa do trono constitucional da senhora D. Maria II, causa que sempre segui, e com lealdade me tenho proposto defender, não, digo, tenho prezado defender, não consentiam que eu, ficando estranho a essa hidra que flagelou o país, deixasse de acompanhar os meus concidadãos com as armas na mão, ou de qualquer modo que estivesse ao meu alcance. Se não acertei nas providências que adoptei, e se delas não resultou o melhor bem-estar para os meus administrados, não foi certamente por falta de bons desejos, nem sinto minha consciência atormentada pelo remorso de ter deixado de cumprir minhas obrigações com desinteresse ao meu alcance.

Se não acertei nas providências, digo, desinteresse e com verdadeira dedicação pública. Hoje, porém, que as coisas apresentam um aspecto inteiramente diverso, e que a tranquilidade e ordem pública se acha estabelecida, entendi deverem terminar também meus trabalhos, e por isso, supliquei da soberana a graça da minha exoneração, que a mesma augusta se serviu conceder-me.

Resta-me, portanto, agradecer a V. Senhoria o zelo e eficácia com que sempre me coadjuvou no desempenho de minhas funções administrativas, devendo assegurar-lhe que sempre em mim encontrará a melhor disposição para com V. Senhoria., e o desejo de mostrar-lhe os meus sentimentos de gratidão.

F. X. de M. Pinto
(Arquivo Distrital de Bragança, Governo Civil de Bragança, Correspondência
Expedida, cx. 16, lv. 67, ofício de 23 de Julho de 1847)
[…]»
in http://www.gov-civil-braganca.pt/mambo/downloads/gov_civil_2.pdf


Ver uma reprodução artística do retrato de Júlio do Carvalhal

Fontes e Bibliografia:
Arquivo Distrital de Bragança, Autos de Posse (1845-1928); Francisco Manuel
Alves, Memórias arqueológico-históricas do distrito de Bragança, t. VII, Porto, 1931;
A. Veloso Martins, Monografia de Valpaços, Porto, 1978.

1 comentário:

  1. Gostei de saber a história destes dois grandes homes transmontantos. Sendo um deles da minha terra. Conheco bem os palecetes dos possacos. Brinquei muito em menina por lá. Obrigada pelo vosso blogue. Os meus cumprimentos

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